Pela primeira vez no Brasil, antropólogo Roy Wagner dialoga com indígenas da Amazônia (A Crítica)

Autor de “A Invenção da Cultura”, Roy Wagner conheceu, pela primeira vez, indígenas da América do Sul e participou de ritual

Manaus, 08 de Agosto de 2011
ELAÍZE FARIAS

Antropólogo Norte Americano dialoga com índios do Amazônia – FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

“Todo entendimento de uma outra cultura é uma experiência com a sua própria”, diz o norte-americano Roy Wagner, um dos principais nomes da antropologia contemporânea mundial, no livro “A Invenção da Cultura”.

Foi exatamente essa equivalência entre culturas que Roy Wagner vivenciou em sua primeira visita à Amazônia, na semana passada.

Em Manaus, Wagner realizou aula magna de abertura de ano letivo, participou de uma mesa redonda com graduandos e pós-graduandos indígenas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), visitou duas malocas de grupos indígenas que vivem na zona rural da capital amazonense e testemunhou o que ele chamou de “multiperspectivos”.

Autor da teoria sobre “a invenção e a noção da cultura”, que resultou no conceito de “antropologia reversa”, Wagner notabilizou-se pelos estudos que desenvolveu desde os anos 60 na Melanésia e na Nova Guiné (Oceania). Mas, somente agora, aos 73 anos, é que teve oportunidade de conhecer os povos nativos da América do Sul.

No sábado (06), último dia em Manaus, Roy Wagner conheceu e participou de um ritual dos índios tukano, tuyuka e dessana, em uma maloca localizada a quatro horas de Manaus em viagem de barco de recreio.

Na maloca, o indígena tuyuka Higino Tuyuka, que veio de São Gabriel da Cachoeira (a 851 quilômetros de Manaus), cidade onde 90% da população é indígena, apenas para participar das atividades e dialogar nos eventos com Roy Wagner, fez uma demonstração de um ritual de iniciação e apresentou ao antropólogo uma bebida típica chamada kahpí, de efeito alucinógeno e que é destinada apenas aos homens.

Perspectivas

“São muitas perspectivas se encontrando. Não considero um encontro de uma cultura nativa com um antropólogo, mas entre culturas compartilhando os mesmos espaços”, disse Wagner ao portal acrítica.com, ao final da experiência com os indígenas.

Esta foi a primeira vez que Wagner teve contato com os povos nativos da América do Sul, desde que começou seu trabalho como etnográfico e antropólogo.

Nas atividades desenvolvidas em Manaus, ele participou “uma conversa intercambiada sobre as cosmologias” e identificou semelhanças entre os ameríndios e os povos que estudou na Oceania.

A principal delas refere-se à relação entre o humano e os animais. “Na Austrália, os aborígenes têm uma relação, em sua cosmologia, com os corvos. Os animais são incorporados no mundo dos humanos. Aqui, vemos que os indígenas tem uma associação com os peixes. São os peixe-gente”, disse.

No seu diálogo com os indígenas brasileiros, Wagner, contudo, conta que encontrou uma característica específica: a preferência pelas “origens”. “Os povos daqui falam muito sobre o início, sobre a origem, a estrela Dalva, em contraste, por exemplo, com os povos aborígenes, que falam mais do poente, para a morte”, descreveu.

Intelectuais

Roy Wagner veio a Manaus numa articulação do Instituto Brasil Plural, que vincula a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade Federal de Santa Catarina.

Sua vinda ao Amazonas não estava prevista inicialmente. Convidado pelos professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Ufam, ele aceitou o convite para dialogar com os intelectuais indígenas – professores e estudantes.

A agenda do antropológo inclui palestras em Florianópolis (SC), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

“Os intelectuais indígenas são aqueles que detêm as suas formas específicas do conhecimento. Alguns não são necessariamente pessoas que passaram pela universidade, mas que detém um profundo conhecimento”, descreveu o professor Carlos Dias, do PPGAS.

Carlos Dias disse que Roy Wagner ficou muito impressionado com a experiência vivenciada no Amazonas, sobretudo pela interlocução com os indígenas com os quais teve oportunidade de conversar.

Dias contou que, no domingo (08), o orientando de Wagner entrou em contato com os professores da Ufam e contou que “o grande momento no Brasil do antropólogo foi sua vinda à Amazônia”.

Conforme Carlos, em seu contato com os indígenas, Wagner encontrou uma grande quantidade de paralelos em termos cosmológicos entre os ameríndios e os povos que estudou, no passado.

“O Roy Wagner cria uma nova teoria de noção da cultura quando leva a sério essas novas formas de pensar. Capturar o outro através de seu conhecimento.

João Paulo Barreto, indígena tukano e mestrando em antropologia da Ufam, comentou que Wagner ficou surpreso com a apresentação de perspectivas na visão indígena. Isto ocorreu quando o líder Higino Tuyuka, durante o ritual, relacionou o cocar utilizado por João Paulo com as estruturas da maloca.

Estévão Barreto, também tukano e mestre em Sociedade e Cultura da Amazônia, destacou que a presença de Roy Wagner indicou a necessidade de promover o diálogo “ciência indígena e o saber científico”.

Igualdade

Roy Wagner tem formação em literatura inglesa, história, astronomia e antropologia.

Seus trabalhos mais conhecidos foram realizados entre os Dabiri, na Nova Guiné, e entre os aborígenes, na Austrália. Sua obra mais conhecida, “A Invenção da Cultura”, foi lançada em 1975 e teve uma revisão em 1981. No Brasil, o livro foi traduzido apenas em 2010.

No Brasil, seu principal interlocutor é o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, autor do conceito de Perspectivismo.

No livro “A Invenção da Cultura”, Wagner diz que “o antropólogo usa sua própria cultura para investigar outras, e para estudar a cultura em geral”. Ou seja, “a idéia de cultura coloca o pesquisador em pé de igualdade com seus objetos de estudo: cada qual ‘pertence a uma cultura’.”.

Para Roy Wagner, “um antropólogo ‘experencia´de um modo ou de outro, seu objeto de estudo; ele o faz através do universo de seus próprios significados, e então se vale dessa experiência carregada de significados para comunicar uma compreensão aos membros de própria cultura”.

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Antropólogo autor de “A Invenção da Cultura” ministra aula magna na Ufam nesta quinta

Roy Wagner é um dos maiores importantes antropólogos da atualidade. o norte-americano vem pela primeira vez ao Brasil

Manaus, 03 de Agosto de 2011

ACRITICA.COM

Um dos mais renomados antropólogos da atualidade, o norte-americano Roy Wagner, ministra aula magna de abertura do semestre do curso de mestrado em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), nesta quinta-feira (04), às 9h, no auditório Rio Solimões do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL/Ufam).

O professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), Gilton Mendes, disse que Roy Wagner interessou-se pelo convite de vir a Manaus estimulado pela ideia de conversar com “conhecedores sobre a antropologia indígena amazônica”.

Autor de “A Invenção da Cultura”, Roy Wagner estudou astronomia, literatura inglesa e história na Universidade de Harvard, e fez sua pós-graduação em antropologia na Universidade de Chicago.

O livro “A Invenção da Cultura” foi lançado em 1975, mas só teve edição no Brasil no ano passado. Era uma das obras mais esperadas pelo meio antropólogo nos últimos anos no país.

No dia 5 de agosto, Roy Wagner participará de uma mesa-redonda intitulada ‘Conversações Melanésias e Amazônia’, com os pesquisadores indígenas. Promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social em conjunto com o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai).

O evento acontecerá às 15h,  na Rua Coronel Sérgio Pessoa, 147, na Praça dos Remédios, Centro de Manaus. A mesa-redonda contará com a participação especial de Justin Shaffner, da Universidade de Cambridge (EUA).

Indígenas

Roy Wagner iniciou seu trabalho de campo entre os Daribi no monte Karimui, na Nova Guiné, sobre quem escreveu e publicou sua monografia dedicada aos princípios daribi de definição de clã e aliança.

A partir da etnografia daribi, Wagner desenvolveu uma teoria geral sobre a invenção de significado e sobre a noção de cultura, publicada em “A invenção da cultura”, que ganhou nova edição revista e ampliada em 1981.

A obra radicaliza uma reflexão sobre o polêmico conceito de cultura em antropologia: a partir da consideração dos modos de conceitualização nativos, ela reformula a própria disciplina antropológica.

Para Wagner, não se trata de entender o que outros povos produzem como “cultura” a partir de um dado universal (a “natureza”), mas antes, o que é concebido como dado por outras populações. Com isto, a própria noção de “natureza” como dado universal e de “cultura” ficam sob suspeição.

Sua vinda ao Brasil faz parte das iniciativas programadas do Instituto Brasil Plural, uma rede de pesquisadores articulada pelos Programas de Pós-Graduação da Universidade de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), financiada pelo CNPq, a Fapesc e a Fapeam.

2 comentários em “Pela primeira vez no Brasil, antropólogo Roy Wagner dialoga com indígenas da Amazônia (A Crítica)

  1. Ao ler a teoria de cultura de Roy Wagner fui levado a observar que cultura é criação simbólica e simbológica. Daí o dialogismo da língua ou das línguas se intercomunicando.Pesa mais o mundo dos símbolos geradores de simbologia do que a realidade cultural de cada povo se intercomunicando ou não. Estou em fase de incubação revolvendo esse mundo de informações.

  2. Estou ainda mais interessado em reler o que já me virou ou revirou o pensamento critico nesta nova fase de criatividade logica conceitual. Comecei estudando antropologia com as obras de franz Boas mestre de Gilberto Freire no passado. O inconsciente estrutural que foi desenvolvido depois por Jacques Lacan e por aí vai…

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