A Rio+20 e o valor da diferença (Canal Ibase)

Renzo Taddei*

Canal Ibase, 19/06/2012

Durante todo o processo de negociação em torno do documento final da Rio+20, o que tem chamado a atenção da mídia, de forma mais patente, é a dificuldade em se construir o consenso em torno dos temas em discussão. A falta de consenso é apresentada quase como escândalo, e o alinhamento de pensamentos é apresentado como algo intrinsecamente desejável. Isso, a meu ver, é um dos elementos mais problemáticos da cobertura midiática pobre da conferência das Nações Unidas.

Qualquer pessoa que pesquise a história da ONU, em sua relação com as questões mundiais de cada época e com as formas de vida locais, se dá conta de que nem tudo no mundo se conserta via diplomacia. Isso se dá por muitas razões, das quais a mais relevante é o fato de que a diplomacia só enxerga através da lente dos Estados-nação; e estes, por sua vez, são cada vez menos capazes de operar de forma autônoma. A Cúpula dos Povos, atividade paralela da sociedade civil, está aí para dar visibilidade a esse fato. E, para ela, a convergência de posicionamentos éticos e a coordenação de ações táticas sempre foi, e deve continuar sendo, mais importante do que o reconhecimento da necessidade de sintonização substantiva de ideias.

O risco da ideia de consenso substantivo extrapolar a esfera da diplomacia é o da perda do valor da diferença. Como disseram Isabela Fraga e Monike Mar na revista Democracia Viva 48, “o cotidiano e as práticas de quilombolas, indígenas, agricultores, jovens, mulheres, negros, hackers, coletivos de economia solidária e grupos comunitários mostram que existem alternativas à busca do crescimento econômico a qualquer custo”. Exatamente: alternativas, no plural. Se para a comunidade diplomática é importante a construção de um pensamento único, a defesa do direito à diferença tem sido, e tem que continuar sendo, parte integrante da agenda política das entidades da sociedade civil.

É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, enquanto a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio para que “entendam” os efeitos deletérios de suas práticas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso logocentrismo, esse foco exacerbado em informação e pensamento, onde diagnosticamos tudo como “falta de informação”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. O que se quer criar é um discurso único sobre o meio ambiente dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente economicista, materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento-vida, outras epistemologias-ontologias?

Como disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, precisamos aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum dos seres vivos. Que tipo de ética decorre daí, na relação entre humanos e não humanos? Índio não gosta da floresta por opção (apenas) estética, mas há uma outra ética, certamente mais humana, na relação entre humanos e meio ambiente. Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

Precisamos entender que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns” – a exaustão de elementos ambientais compartilhados, como a água ou o ar -, por exemplo, nem tentar esverdear a matriz energética que move as engrenagens de nossa economia, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade.

A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas – por exemplo, ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele -, são tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas. Slavoj Žižek, na sua atitude iconoclasta de sempre, afirmou recentemente que a ideia de que a sociedade urbana e tecnológica é ruim e a natureza é boa é sintoma do problema. Fugir para o mato não resolve nada; o contrário, na verdade, é que constitui alternativa interessante: é preciso aprender a “amar” a sociedade tecnológica e seus produtos. A palavra amar, aqui, – descontado o estilo peculiar do Žižek – refere-se à necessidade de se abandonar essa relação neurótica que temos com as coisas, onde o fetiche pela novidade se transforma em desapego radical, e nossos objetos de desejo se transformam em lixo, substituídos por novos fetiches, numa velocidade vertiginosa. Para que não geremos tanto lixo e tanto consumo, é preciso amar o que temos.

Às vezes perdemos essas questões de vista; nada como o impacto das diferenças culturais para que sejamos incentivamos a repensar nossas formas de vida. As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

*Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.

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