Arquivo da tag: Cidadania

Muito além de uma resposta do poder público (Canal Ibase)

Renzo Taddei, Colunista do Canal Ibase

Link original: http://www.canalibase.org.br/muito-alem-de-uma-resposta-do-poder-publico/

15/07/2013

Na quarta-feira, dia 10 de julho, o Juca Kfouri afirmou em entrevista à Agência Pública que “se não houver respostas, as manifestações serão maiores em 2014”. Na sexta (12) a Deutsche Welle publicou entrevista com Marina Silva, onde ela afirma que a reação do Congresso Nacional e da Presidência da República está “aquém da grandeza dos protestos”. Acredito que a imensa maioria dos analistas concorda com esse ponto: o governo não foi capaz, até o momento, de dar respostas à altura do que pede a ocasião. Nesse texto, no entanto, eu gostaria de discutir dimensões dos acontecimentos que estamos vivenciando que transcendem a resposta do estado.

Inicialmente, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido último do que estamos vivendo. Isso me parece redutor, porque coloca o estado no centro de tudo. Sou da opinião de que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é o fortalecimento de redes de organização, de articulação social, cultural e política; redes essas que existem de forma independente ao estado. A assembleia popular horizontal que ocorreu sábado (13) em Belo Horizonte, transmitida ao vivo na Internet pela PósTV/mídia NINJA, é um exemplo disso. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador perpétuo de tudo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. Em uma palavra, o que esses movimentos têm como fundamento de ação é a afirmação de que o mundo é maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Foto: Mídia Ninja

É em função disso que a tentativa de encontrar uma causa fundamental ou mais urgente, que dê uma identidade ao movimento das ruas, é tarefa vã. Trata-se da tentativa de negar a dimensão múltipla das manifestações, e, ao mesmo tempo, de não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo.

Que dimensão é essa? Em sua última coluna na Carta Capital, Vladimir Safatle afirma que além da crise de representação política, há o esgotamento do ciclo de desenvolvimento com distribuição de renda da época de Lula. A solução para isso é impossível no governo Dilma, diz Safatle, porque requer uma reforma fiscal que seja verdadeiramente de esquerda, algo impossibilitado pelo modelo de alianças partidárias que caracteriza o lulismo. Safatle tem razão, mas essa é apenas metade da história. A outra metade é exógena ao sistema político; está ligada a uma transformação maior em curso, que nos afasta das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis.

Ou seja, Safatle faz referência a um modelo de governabilidade em crise; eu diria que essa é apenas a ponta do iceberg: o que está em crise é o sistema todo; mais que o governo, é o próprio estado que se mostra incapaz de responder às demandas políticas da população. Isso se dá no contexto da crise do modelo republicano francês – crise que afeta a França há décadas e que se faz visível agora no Brasil. Aqui estou fazendo referência a como nosso sistema político, como o francês, depende do esforço do estado na criação de uma certa subjetividade política nos cidadãos; subjetividade essa que, em escala populacional, faz com que o país seja administrável à distância, quase que por controle remoto. Falando em bom português: há um esforço do estado e das instituições (escolas, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de forma que estes sejam politicamente passivos; o Brasil é mais administrável se todo mundo pensar de forma semelhante, e mais ainda se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV, anestesiados. Esse é o contexto da democracia representativa no Brasil, aquele que reduz a participação política da população às eleições, e onde grande parte das pessoas sequer consegue lembrar em quem votou para os cargos legislativos.

É esse modelo de estado que está em crise, e que nem a reforma política, nem a tributária, irá resolver. A crise da representatividade não se resume à falta de confiança na classe política; há também, e fundamentalmente, uma nova consciência do direito à diferença; para além de ser ineficiente e corrupto, o estado é entendido como fascista porque cala (com o apoio da FIFA, do COB e de empresários do petróleo) qualquer forma de diferença que se mostre inadministrável. Os ataques à imprensa corporativa, e em especial à Rede Globo, tem essa questão como pano de fundo, e não a questão da corrupção. A emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, são parte desse movimento. Resulta disso tudo a recusa a qualquer forma de representação, e a participação direta, nas ruas e na Internet, é seu principal sintoma.

Sendo assim, não vejo possibilidade de avanço no país que não passe pela transformação das instituições políticas, algumas vezes de forma radical (como a desmilitarização das polícias), de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir. Nesse contexto, não se trata do povo pedir e do governo atender. Ao invés disso, povo e governo tem a difícil missão de transformarem, juntos ou não, o estado em outra coisa, diferente do que ele é na atualidade.

A disputa dos sentidos associados à violência

Existe uma clara disputa pelos sentidos do que está ocorrendo, envolvendo governos, mídias, partidos, movimentos sociais. É importante notar que nem sempre essa disputa tem como objetivo o fazer-se ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Como resposta possível a essa questão, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não constando nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A polícia mostra que tem consciência de que está numa guerra de imagens: um sem número de policiais tem atuado na repressão às manifestações sem suas identificações; quando convém, no entanto, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa.

pm Manifestações– continuação

Foto: Movimento Passe Livre

O que não se pode ignorar, no entanto, é que existe uma dimensão pedagógica na violência policial. Para um bocado de gente, as balas de borracha e o gás lacrimogêneo estão servido como uma espécie de rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. Um jornalista gastronômico inglês que participou das manifestações de ontem (11 de julho) no Rio de Janeiro, e sofreu na pele a brutalidade policial, escreveu em seu site: “agora entendo como eventos como esse podem radicalizar as pessoas”. Tais acontecimentos estão ensinando a população a respeito do fascismo do estado; está fazendo parte da classe média experimentar o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Ou as duas coisas. Eu tenho a impressão de que essa repolitização está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

E o que é que pode dar errado? Há um outro lado dessa dimensão constitutiva da violência: a ação policial, não mediada por lideranças políticas responsáveis e capazes (e está claro a ausência disso em cidades como o Rio de Janeiro), pode criar uma realidade política inexistente no Brasil: grupos organizados de guerrilha urbana, que se armam para enfrentar a polícia. Recentemente, em debate sobre as manifestações no Instituto de Estudos Avançados da USP, Massimo Canevacci, antropólogo italiano, mencionou o conceito de mimese como algo importante na compreensão do que está ocorrendo no Brasil, em sua relação com eventos internacionais, como o que ocorre na Turquia, por exemplo. Isso imediatamente me trouxe à mente algo que vi em minha pesquisa de campo na periferia de Buenos Aires, junto a torcidas organizadas de futebol. Encontrei uma correlação entre o momento em que a polícia militar instalou delegacias nos bairros de periferia e começou uma história de conflito com as torcidas locais, e o início do uso de armas de fogo pelas mesmas torcidas (coisa que anteriormente era vista como sinal de covardia). Obviamente é difícil afirmar que existe uma relação causal entre uma coisa e outra; de qualquer forma, a ideia de equilíbrio de forças é parte fundamental do discurso dos líderes de torcidas mais velhos. Minha hipótese é que a polícia, que obviamente não tem qualquer interesse em igualar forças, mas sim de subjugar o outro, ao inserir uma desigualdade nesse panorama de busca do equilíbrio de forças, acabou fazendo com que as torcidas buscassem as mesmas armas de combate, o que resultou na adoção de armas de fogo pelas mesmas. Novamente, trata-se apenas de uma hipótese. Mas vejamos o que está ocorrendo no Brasil: nas primeiras manifestações de junho, não havia qualquer intenção, por parte dos manifestantes, de entrar em combate com a polícia. Foram brutalizados; e a brutalização tem se repetido, por várias semanas consecutivas, no país todo. Como resultado, o que temos visto é a disposição crescente, por parte de grupos específicos (e cada vez maiores), em preparar-se para o combate com a polícia: do uso de vinagre como instrumento de resistência, nas manifestações de junho, passamos a ver o uso de rojões e coquetéis molotov, como na última quinta (11), no Rio de Janeiro. Esses grupos estão mimetizando a ação da polícia, e isso se dá porque as lideranças políticas estão com suas cabeças enterradas, como avestruzes, e deixaram à polícia a responsabilidade de fazer política pública de segurança. Ou seja, não há interlocução; a polícia impõe a violência como única forma de comunicação. O Brasil pode estar a caminho de criar o seu Weather Underground, e isso é tudo o que a polícia precisa para justificar níveis ainda mais altos de violência contra a população civil, em razão do fortalecimento de agendas da direita. É essencial que as novas lideranças políticas, dos movimentos sociais, busquem atuar para desarticular essa guerrilha urbana nascente, de modo que o movimento todo não caia nisso que é, claramente, uma armadilha.

Foto: Manifestações Brasil 24h (Facebook)

Protestos podem voltar mais fortes e incontroláveis, diz sociólogo (Deutsche Welle)

Boaventura de Sousa Santos aponta a insatisfação popular como fruto da expansão da classe média brasileira, que ficou mais exigente. Para ele, só uma reforma política profunda pode evitar que povo volte às ruas.

Data 09.07.2013

Autoria Fernando Caulyt

Edição Renate Krieger / Rafael Plaisant

Os protestos no Brasil perderam intensidade, mas, se o governo não der uma resposta rápida às reivindicações do povo, podem voltar ainda mais fortes – e de forma incontrolável. O alerta é do português Boaventura de Sousa Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Yale (EUA) e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal).

Autor de estudos sobre emancipação social, direitos coletivos e democracia participativa, ele vê a onda de indignação que tomou as ruas do país como fruto das mudanças vividas pela sociedade brasileira nas últimas décadas. A classe média, afirma, cresceu e com ela as demandas dos cidadãos por melhores serviços públicos ganharam força.

Para Boaventura, o Congresso está “divorciado das prioridades dos cidadãos” e, por isso, uma reforma política se faz necessária. “Há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda. Neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades”, afirma em entrevista à DW Brasil.

Deutsche Welle: Como o senhor avalia a onda de protestos?

Boaventura de Sousa Santos: As manifestações foram uma surpresa tanto no plano interno como no plano internacional. Tudo levava a crer que tudo no Brasil estava indo bem. Internamente, os próprios partidos, especialmente o do governo, foram apanhados de surpresa. O que foi surpresa foi o motivo para que a explosão ocorresse. Havia um mal-estar, e ele resulta do êxito das políticas que foram instituídas no Brasil a partir de 2003 [quando Lula assumiu o poder] e que fizeram com que 40 milhões de pessoas entrassem para a classe média.

Protestos foram realizados em cidades brasileiras e no exterior

Elas criaram expectativas não só no que diz respeito à sua vida, mas também ao modo como se posicionam na sociedade, ao modo como usam os serviços públicos. E esses 40 milhões começaram a ver que, nos últimos tempos, pelo menos, havia uma certa estagnação dessas políticas. Os serviços públicos não acompanharam as transformações sociais.

A chamada “classe C” ficou mais exigente?

Eu penso que sim, pois as políticas de inclusão realizadas nos últimos dez anos atingiram seu limite e as formas de participação não são hoje tão eficazes quanto eram. Além disso, o serviço público não se desenvolveu como deveria. O caso da saúde é significativo. Por outro lado, num país que tem uma tradição de movimentos sociais fortes, eles viram suas atividades nos últimos tempos se tornarem bastante restringidas. Por isso começou a haver uma certa frustração quanto às prioridades do governo e, naturalmente, um desgaste.

Que medidas o governo Dilma deveria tomar para atender às exigências da população?

A medida fundamental é uma reforma política. Fica evidente que há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda, porque neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades. Dilma tomou essa medida corajosa, de propor uma revisão constitucional, mas o Congresso não tem grande vontade política para uma reforma política profunda.

As respostas que o governo e o Congresso deram até agora não são satisfatórias?

Como é que o Congresso é capaz de aprovar num prazo de uma semana tantas leis e questões importantes, como a [tipificação da] corrupção como crime hediondo? Essa correria tem um lado positivo e um lado negativo. Isso mostra que o Congresso só se move se houver pressão popular. Portanto, esse é o lado negativo: o Congresso está divorciado das prioridades dos cidadãos e só acorda quando os cidadãos o obrigam a acordar. É por isso que é necessária uma reforma política.

Sousa Santos diz que existe uma crise de representatividade no sistema político brasileiro e de outros países

Para o senhor, quem são os manifestantes?

As manifestações são muito importantes para pressionar as instituições, os partidos e os governos, mas elas não fazem propriamente uma formulação política. O que elas fazem é pressão para que haja formulação política. Vimos no Brasil como as agendas eram tão diversas quanto a composição das classes presentes nos protestos. Houve uma forte presença da juventude. As manifestações têm uma composição e, misturadas nelas, há forças aproveitadoras que tentaram tirar dividendos contra o PT. Mas elas são uma minoria. É uma insatisfação popular, sobretudo das camadas mais jovens, contra uma política que não responde aos seus anseios.

É possível manter uma mobilização de massa a longo prazo?

Mesmo nos casos dos países que ela se mantém durante mais tempo, como durante o Occupy, nos EUA, e agora no Egito, tudo acontece por etapas. Portanto, há momentos de refluxo. E eu penso que, no caso brasileiro, ela não se aguenta neste momento, embora possa vir a explodir mais tarde. Neste momento há uma certa espera, uma espera com esperança de que alguma coisa se faça. Se ela não se fizer, a situação pode voltar, pode até, aliás, ser mais incontrolável. Se não houver uma reposta rápida a estas reivindicações, o refluxo atual voltará eventualmente mais incontrolável e mais forte.

Muitos manifestantes nas ruas levantaram uma bandeira antipartidarista. Existe atualmente uma crise de representatividade no sistema político brasileiro?

Acho que sim. E neste momento não só no [sistema político] brasileiro, mas também no europeu. E ocorre fundamentalmente do fato de que os governos hoje estão capturados pelo capital financeiro internacional, se ver bem, em função das exigências do capital financeiro. O próprio Brasil compromete uma parte significativa de sua arrecadação para o pagamento do serviço da dívida. E este também é o caso da Europa. No fundo, é isso que está criando essa crise de representação, na medida em que os cidadãos não se sentem representados pelos seus representantes e é isso que faz com que as pessoas venham para a rua.

Para Sousa Santos, o Congresso Nacional está divorciado das prioridades dos cidadãos

As manifestações foram, de certa forma, uma demonstração de decepção com o governo. Esse governo do PT, apesar das medidas de inclusão social, perdeu a credibilidade?

Não. O problema é que, enfim, é um governo de esquerda que, no entanto, tem uma coligação problemática, dada a organização partidária no Brasil. O problema é que os brasileiros conhecem muito bem o que foram as políticas de direita [dos governos] anteriores, nenhum deles realizou as políticas de inclusão social que agora têm lugar. E, portanto, há um certo descrédito na política em seu conjunto. O PT e o governo da presidente Dilma têm uma crise de legitimidade a resolver. E só podem resolver com mais democracia, com mais políticas de inclusão, com mais dinheiro para os cidadãos e menos para as grandes empreiteiras e para o grande capital financeiro internacional.

Levante Popular da Juventude quer renovar práticas da esquerda (Carta Maior)

Fonte: Carta Maior, 22 de outubro de 2012

Porto Alegre – O ano de 2012 viu nascer uma novidade no cenário político brasileiro. Um grupo de jovens, organizado em torno do Levante Popular da Juventude, realizou uma série de atos denominados “escrachos” em frente às residências ou locais de trabalho de acusados de praticar crimes durante a ditadura. Em várias cidades do país, centenas de jovens saíram às ruas para denunciar esses crimes e defender a instalação da Comissão Nacional da Verdade para restaurar a memória, a verdade e a justiça desse período. Os atos contra os agentes da ditadura deram visibilidade nacional a esse movimento cujas origens remontam a 2005, no Rio Grande do Sul, a partir de militantes ligados à Via Campesina e à Consulta Popular. Em entrevista à Carta Maior, concedida na sede da organização em Porto Alegre, Lucio Centeno, Janaita Hartmann e Lauro Almeida Duvoisin falam sobre esse novo movimento social que tem como objetivo estratégico maior a construção de um projeto popular para o Brasil numa perspectiva socialista.

O marco da nacionalização do movimento ocorreu em fevereiro de 2012, durante um acampamento nacional em Santa Cruz do Sul (RS) que reuniu em torno de mil jovens de dezessete estados. Reunindo estudantes universitários e secundaristas, jovens das periferias das cidades e também do campo, o Levante se propõe a resgatar práticas relegadas a um segundo plano pela esquerda partidária, como o trabalho de base organizado a partir de células de militância, e defende a unidade dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda em torno de alguns objetivos comuns: derrotar a direita e o projeto neoliberal no Brasil e conquistar uma ampla maioria na sociedade para um processo de transformação social, política e econômica no país.

O que é o Levante Popular da Juventude? Quando nasceu?

Lucio Centeno: Nenhum de nós aqui iniciou essa construção do Levante. Ela foi fruto de um trabalho de mobilização e da iniciativa que alguns companheiros tiveram no final de 2005, quando movimentos ligados à Via Campesina, incentivados pela Consulta Popular, identificaram que era necessário naquele momento fortalecer o processo de organização da juventude, em especial da juventude urbana. No campo já havia um processo relativo de organização com os movimentos da Via, mas muito pouco no meio urbano. A partir dessa leitura, alguns companheiros assumiram a tarefa de construir o que viria a ser o Levante Popular da Juventude. E o Levante nasce com a característica de ser uma ferramenta da juventude e não apenas de um segmento desse setor. Desde o início, se tinha a leitura da necessidade de se organizar não apenas os jovens estudantes universitários, mas também os jovens das periferias urbanas e, principalmente, articular essa juventude que não tinha um referencial de organização como tinha a juventude camponesa, organizada em torno da Via. O Levante nasce, então, com essa característica de aglutinar diferentes segmentos da juventude a partir de diferentes meios de inserção.

Neste sentido, é um movimento original. Normalmente o que há são movimentos de juventude ligados a partidos e a alguns segmentos específicos, como é o caso do movimento estudantil…

Lucio Centeno: Sim, o Levante nasce com esse referencial da esquerda social, do campo dos movimentos sociais. Ele se propõe a ser um movimento social e não uma juventude partidária, com esse recorte de querer articular jovens estudantes universitários, secundaristas e jovens da periferia urbana.

Lauro Duvoisin: Essa iniciativa surgiu também com base numa leitura que identifica, nos anos 2000, uma mudança nos setores mais dinâmicos da luta social. Embora exista ainda uma dinâmica grande lutas do MST, por exemplo, que foi uma referência nos anos 90, já ficava claro neste período que, sozinho, o MST não conseguiria seguir adiante. Neste período havia também uma crítica muito grande ao trabalho urbano sindical mais clássico da esquerda. Então, o Levante surge nesse contexto com o objetivo de renovar as práticas da esquerda e de resgatar uma prática que foi sendo negligenciada, que é o trabalho de base, aquilo que as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) faziam nos anos 70 e 80 e que sustentou boa parte do acúmulo que a esquerda teve neste período.

A ideia é que a juventude pode ser o setor dinâmico para voltar a impulsionar a luta. Daí a decisão de não segmentar a juventude como uma categoria no sentido econômico-corporativo, e fazer com que ela irradie sua força e sua prática para outros setores da sociedade, seja da classe trabalhadora urbana, do meio camponês ou do meio popular urbano. O objetivo é que ela forme novas referências e novos militantes para que o movimento cresça em todas essas frentes.

Qual é o horizonte estratégico do trabalho do Levante que transita em um espaço comum ao dos partidos de esquerda e ao dos movimentos sociais? Qual é o objetivo das lutas e das mobilizações?

Lucio Centeno: Esse é outro aspecto diferencial do Levante na medida em que ele não tem uma bandeira econômica setorial definida. O MST, por exemplo, tem claramente um horizonte que é a construção de uma reforma agrária popular. Já o Levante, por aglutinar diferentes setores da juventude e, principalmente, por ter uma perspectiva de luta política por um projeto de sociedade, e não só por demandas específicas, desenvolve um conjunto de lutas a partir daquilo que entendemos como um projeto popular para o Brasil. Então, embora não tenhamos uma bandeira claramente definida, pretendemos fortalecer e contribuir para a construção de um conjunto de bandeiras que apontam para esse projeto popular para o Brasil, para o fortalecimento de um projeto democrático e popular, que passa pela reforma agrária, pela descentralização dos meios de comunicação, pela garantia dos direitos básicos de educação, saúde, moradia, transporte.

Dentro desse guarda-chuva maior do projeto popular, os militantes do Levante, conforme sua inserção em um meio específico, trabalham contradições que envolvem esses jovens, relacionando esses problemas com a construção de um projeto maior para o país.

Lauro Duvoisin: A gente fala muitas vezes que o Levante não nasceu para dar conta de uma demanda específica, mas para buscar qual é a pauta capaz de levantar a juventude. E como o Lúcio afirmou, o Levante também se insere em uma estratégia que é maior do que ele, que é a construção, pelo campo da esquerda popular, de um projeto para o Brasil. Temos clareza que esse projeto não será construído só pela juventude. O Levante é uma parte de todo esse movimento. Sua tarefa é organizar a juventude por demandas específicas e por um projeto político maior, procurando também formar militantes para todas as outras frentes que compõem essa estratégia.

Nos últimos meses, o Levante ganhou maior visibilidade nacional com os escrachos contra agentes da ditadura realizados em várias cidades do país. Como surgiu essa ideia e qual o lugar desse tema na agenda da organização, no momento em que a Comissão da Verdade investiga crimes praticados por agentes do Estado naquele período?

Lucio Centeno: O Levante nasceu no Rio Grande do Sul em 2006, como um movimento estadual. Em outros estados, já havia mobilizações com a juventude que eram chamadas de juventude do campo com a cidade, mas ainda não havia uma proposta organizativa. Aqui no Rio Grande do Sul conseguimos transformar essa mobilização em um movimento social autônomo da juventude. Passaram-se cerca de cinco anos até que, em 2011, iniciou um processo de nacionalização do Levante, juntando experiências parecidas do mesmo campo político. Assim, o Levante se constituiu em dezessete estados. O marco de lançamento dessa nacionalização ocorreu agora em fevereiro de 2012, quando realizamos um acampamento nacional em Santa Cruz do Sul que reuniu em torno de mil jovens desses dezessete estados.

A partir dessa nacionalização, se constituiu uma organicidade nacional, com uma coordenação representativa desses estados e desses movimentos. Essa coordenação nacional começou a elaborar a estratégia da organização e, naquele momento, se identificou na conjuntura que essa bandeira da memória, verdade e justiça não estava sendo efetivamente empunhada com a devida importância por praticamente nenhum setor, para fazer um contraponto a movimentação que os militares vinham fazendo para tentar desconstituir a Comissão Nacional da Verdade. Então, naquele momento tínhamos os militares atuando nos bastidores, o governo acuado e a imprensa de alguma forma sendo conivente com esse processo de ocultação dos crimes da ditadura. Concluímos então que seria necessário uma mobilização da sociedade para que a Comissão da Verdade fosse efetivada.

Vimos, a partir da experiência de organizações parceiras da América Latina, a metodologia dos escrachos como a melhor forma de fazer ecoar essa bandeira. Mapeamos então quais Estados poderiam fazer essa ação e trabalhamos de forma coordenada nacionalmente para que tivéssemos um dia de ação nacional denunciando os torturadores e a impunidade dos crimes da ditadura. A partir disso, conseguimos uma grande adesão de vários setores da sociedade que impulsionaram o governo para garantir a instalação da Comissão da Verdade.

Lauro Duvoisin: Foi a junção de um momento, de uma oportunidade, com a condição que tínhamos alcançado. Se não tivéssemos uma organização de âmbito nacional naquele momento, talvez não conseguíssemos fazer uma intervenção daquela dimensão. A oportunidade estava ali. Conseguimos fazer uma leitura que se demonstrou correta no sentido de que aquela pauta (Comissão da Verdade) atingia o centro da conjuntura nacional. Pela primeira vez, o Levante conseguiu influenciar a conjuntura nacional efetivamente, embora já estivéssemos envolvidos em outras lutas locais.

Outra coisa importante nessas ações tem a ver com a questão do método que empregamos, que diz um pouco do que o Levante quer fazer, que é renovar os métodos de luta. Acreditamos que a luta que precisamos fazer é uma luta de massas. No entanto, no atual período, uma forma de luta como os escrachos se mostrou de grande valia para criar um impacto público sobre o tema da ditadura. É isso que queremos fazer, renovar os métodos de luta. A gente carece disso na esquerda.

Uma coisa que chamou muita atenção com os escrachos foi a grande participação da juventude nesses atos, algo que até bem pouco tempo não acontecia. Até então, o tema da ditadura não mobilizava a juventude. O que mudou?

Janaita Hartmann: Acho que isso tem muito a ver com a recuperação que o Levante faz da tradição de agitação e propaganda da esquerda. Desde 2008, a gente faz intervenções para lembrar os mortos do massacre de Eldorado de Carajás, com um teatro em lugar público. Então já temos uma história de ações desse tipo. Nós acertamos ao juntar esse trabalho de agitação que a gente já vinha fazendo com um tema da conjuntura que há muito tempo não era resgatado dessa forma, e por uma geração que não passou pela ditadura.

Lauro Duvoisin: Parece que houve uma quebra de continuidade geracional no Brasil. Na Argentina, desde muito tempo há a luta das Madres que se tornou um símbolo continental. No Brasil, embora exista a luta dos familiares, essa luta teve muito menos projeção social do que no caso da Argentina ou do próprio Chile. Então, parece que houve um atraso um pouco maior no Brasil. Mas essa pauta está viva na sociedade e não se esconde a história dessa forma. Isso mostra também que a questão da anistia, tal como foi conduzida pelos militares no final da ditadura, não está resolvida no Brasil.

Lucio Centeno: As intervenções do Levante conseguiram gerar adesões em diferentes setores da sociedade, que até então não estavam se posicionando muito sobre esse tema. A partir dos nossos atos, todo um campo se configurou em defesa dessa bandeira e isolou quem defendia a ocultação da verdade e a manutenção da impunidade. Essa é uma questão muito importante para nós: desenvolver lutas que dê sustentação para um projeto popular para o país.

Esse projeto popular a que vocês se referem é um projeto de poder? Se é, em algum momento, o Levante terá que se colocar a questão do partido. Vocês fazem esse debate, tem a pretensão de, em algum momento, se constituir como partido?

Lauro Duvoisin: A gente acredita que o projeto popular passa, sim, por um projeto de poder. Mas o grande desafio no momento é conseguir retomar as grandes lutas de massa no Brasil para que esse projeto se torne uma necessidade da sociedade. Um projeto de poder não é um projeto de um pequeno grupo ou de uma vanguarda isolada. Ele tem que se precedido de um processo que questione a organização social e a estrutura econômica da sociedade. É com esse espírito que o Levante entra na história. É evidente que os partidos e outras organizações têm uma grande contribuição a dar nesse processo. Mas sem a retomada das mobilizações de massa nenhuma organização conseguirá levar adiante esse projeto.

Considerando a grande participação nos escrachos promovidos pelo Levante e outras mobilizações de juventude, como essa que ocorreu em Porto Alegre recentemente contra a privatização de espaços públicos, parece haver uma ebulição de demandas na juventude que não está encontrando expressão nos partidos de esquerda…

Lucio Centeno: Quando começamos a fazer os escrachos fomos questionados sobre as mobilizações espontâneas da juventude na Europa e nos Estados Unidos. É evidente que são protestos importantes e que expressam uma inconformidade com o sistema, mas, enquanto movimento social, acreditamos que esses processos de mobilização requerem organização. Existe um certo fetiche em torno dessa ideia da capacidade das redes sociais e de novas ferramentas tecnológicas serem grandes atores mobilizadores no próximo período. Consideramos esses atores importantes, mas é imprescindível o processo organizativo na sociedade, que as pessoas tenham uma referência de organização, que não fiquem refém de vontades individuais ou de ativistas que atuam pontualmente.

Lauro Duvoisin: É por isso também que a gente preza a unidade tanto dos movimentos sociais como dos partidos de esquerda. Acreditamos que todas as organizações que tenham referência num projeto de democratização, de ampliação dos direitos, de resgate da liberdade na sociedade e na perspectiva do socialismo, devem fazer um esforço de unidade que hoje, muitas vezes, parece ser um esforço de fragmentação, seja no campo eleitoral, seja em torno de disputas menores e elementos táticos secundários que não são estratégicos. Para isso, é preciso também dar exemplos de unidade. O Levante procura dar esse exemplo.

Como é que o Levante se posiciona frente a períodos eleitorais. Qual foi a posição nestas eleições municipais?

Lauro Duvoisin: A nossa linha é de combate à direita, não só nas eleições, mas em todos os espaços da sociedade.

O que é a direita hoje no Brasil?

Lauro Duvoisin: Existe mais ou menos um consenso sobre o que é a direita no Brasil. Há um bloco político-partidário formado por PSDB, DEM e alguns partidos menores, que aglutina as forças defensoras do projeto neoliberal. Para nós, quem se opõem ao neoliberalismo não é direita. Mas o Levante é um movimento social autônomo que não tem vinculação partidária.

Janaita Hartmann: O Levante nasce da Via Campesina e da Consulta Popular, como uma organização autônoma de jovens. Essas organizações ajudaram a criar o Levante, mas ele é autônomo e passou a ter vida própria, tem uma organicidade própria. Ele permite a presença de militantes que tenham vinculação partidária desde que se respeite a autonomia do movimento.

Quais são os planos do Levante para os próximos meses. O tema da ditadura e da Comissão da Verdade seguirá ocupando um lugar central na agenda do movimento?

Lucio Centeno: O Levante se engaja num conjunto bastante diverso de lutas. Nós nos organizamos a partir de células, grupos de jovens militantes que estão inseridos em algum território, seja uma universidade, um assentamento, um bairro ou uma comunidade. Essa célula tem a tarefa de fazer trabalho de base e estimular as lutas nestes locais procurando mobilizar os jovens destes espaços. Temos uma célula, por exemplo, na região da Cruzeiro, aqui em Porto Alegre, que está sendo atingida pela duplicação da avenida Tronco, que é uma das chamadas obras da Copa.
Nesta região, temos uma atuação prioritariamente voltada para organizar os jovens e suas famílias e pressionar a prefeitura para que garanta o direito à moradia dessas pessoas. É uma luta local, específica, mas que está associada a um projeto mais amplo. Assim, cada célula está envolvida em alguma luta específica. Mas entendemos que há a necessidade de convergência dessas lutas específicas para lutas mais gerais, como essa em defesa da memória, da verdade e da justiça, que terá continuidade, agora juntamente com os comitês populares que se multiplicaram em vários Estados. O Levante não vai atuar isolado neste processo.

Uma segunda pauta que estamos começando a desenvolver é a defesa da construção de um projeto popular de educação. O Brasil sofreu durante muitos anos a implementação de uma educação neoliberal. A partir das gestões do PT tivemos um relativo avanço nesta área, com a criação de novas universidades e escolas técnicas. Em comparação ao paradigma neoliberal foi um avanço, mas em comparação com as demandas históricas da juventude em termos de acesso à educação, ainda há muito que avançar.

Outros valores, além do frenesi de consumo (Outras Palavras)

POR 

– ON 20/09/2012

Eduardo Viveiros de Castro dispara: iludido por noção ultrapasada de progresso, Brasil pode desperdiçar oportunidade única de propor novo modelo civilizatório

Entrevista a Júlia Magalhães

É preciso insistir no fato de que é possível ser feliz sem o frenesi de consumo que a mídia nos impõe”, reafirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, à jornalista Júlia Magalhães. Para ele, assim como para Fernando Meirelles e Ricardo Abramovay – primeiros entrevistados da sério Outra Política – a felicidade pode ter outros caminhos. O novo diálogo é parte da série que o Instituto Ideafix produziu por encomenda do IDS(Instuto Democracia e Sustentabilidade), e que o site publica na seção especial “Outra Política“.

Pesquisador e professor de antropologia do Museu Nacional (UFRJ) e sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Viveiros insiste em que só pela educação avançaremos rumo a uma sociedade mais democrática. “A falta de educação é o nó cego responsável por esse conservadorismo reacionário de boa parte da população”, diz ele. Vai além: arrisca dizer que haveria uma conspiração para impedir os brasileiros de ter acesso a educação ou conexão de à internet de qualidade – conquistas que permitiriam ampliar o acesso a produtos e bens culturais.

Ainda como Meirelles e Abramovay, Viveiros insiste em políticas que reduzam adesigualdade e favoreçam novos padrões de consumo. “É um absurdo afirmar que produzir mais carros é sinal de pujança, utilizar esse dado como indicador de melhoria econômica.”

Para o antropólogo, a mobilização pelas causas ambientais é importante, mas ainda está longe de corresponder à gravidade do problema. É preciso ampliar o universo dos que se preocupam, lembrar “que saneamento básico, dengue e lixo são problemas ambientais”. Viveiros está alarmado: “as pessoas fingem não saber o que está acontecendo, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior”. O raciocínio é semelhante ao de Fernando Meirelles, diretor de Ensaio sobre a Cegueira: “Apenas cegos, cínicos ou oportunistas recusam-se a enxergar”.

Diferentemente de Abramovay – que vê germinar um trabalho sério nas empresas e acredita que a sociedade terá força e atitude para impor limites à iniciativa privada –, Viveiros de Castro considera que as corporações não são capazes de ir além do “capitalismo verde”, fingindo responsabilidade social e ambiental. Os dois se alinham, contudo, na esperança depositada nas redes sociais como canais de expressão, opinião, colaboração e mobilização.

Não existe um rumo Brasil”, alerta Viveiros de Castro, ao falar sobre a fratura que marca a sociedade brasileira contrapondo as forças vivas do autoritarismo e do racismo aos setores que buscam a inovação. “O Brasil é um país escravocrata, racista, que não fez reforma agrária, e precisa fazê-la”, diz.

Não por coincidência, dissse o mesmo, há pouco, Mano Brown, em vídeo gravado na Ocupação Mauá, centro de São Paulo. “O Brasil está em transição, não sabe se é um país moderno ou se está ainda em 1964. Tem uma geração de direita ainda viva – Kassab é de direita, Alckmin é de direita – que tem um modus operandi dos caras da antiga, de usar a força, o poder.” A seguir, a entrevista (Inês Castilho).

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existe um Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

Esses temas ainda não mobilizam?

Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental, um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar, pois as duas vão juntas. Mas tudo me parece “too little, too late”: muito pouco, e muito tarde. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. E pouca pressão sobre a grande imprensa, suspeitamente lacônica, distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste, para onde irá boa parte da energia que não for vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê, no baixo Amazonas, para o mercado asiático. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. É preciso sobretudo falar aos povos, chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental, dengue é problema ambiental, lixão é problema ambiental. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. Mas a esquerda tradicional, como se está comprovando, mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental. Quando suas cabeças mais pensantes falam, tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”, tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo, um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. Isso quando ela, a esquerda, não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo, revelando assim sua comum origem com este último, lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo.

Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século.

Não se diga, por suposto, que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio, rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos pára-brisas. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel, gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal…

É uma situação difícil: falta instrução básica, falta compromisso da midia, falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental, o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. Estes mostram, ao contrário e por exemplo, preocupação em formar jovens que dirijam com segurança, e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo, em que não cabe nem mais uma agulha. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso é uma proposta podre, uma visão tacanha, um projeto burro de país.

Você está dizendo que muitos apelos ao consumo vêm do próprio governo. Mas também há um apelo muito grande que vem do mercado. Como você avalia isso?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária, o modo incontornável de um sistema social sobreviver no mundo de hoje. Entendo, ao contrário de alguns companheiros de viagem, que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos, e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária, então logo nossa forma de vida biológica, isto é, a espécie humana, vai-se mostrar desnecessária. A Terra vai favorecer outras alternativas.

A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo.

Esse impasse, queiramos ou não, vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo, preferem não pensar no assunto, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, ao contrário, está sempre se preparando para o melhor. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso, e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua, se é que não é, quem sabe, desesperada.. O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamentehigh tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne, para os países industrializados – e são eles que dão as cartas, controlam o mercado. Estamos bem nesse momento, mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Sem falar, é claro, no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar; ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil, nesse momento da crise, está em uma espécie de contrafluxo do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Essas coisas têm de ser ditas.

E como você avalia a relação dessa realidade macropolítica, macroeconômica, com as realidades do Brasil rural, dos ribeirinhos, dos indígenas?

O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasiacountry: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades. Por trás de tudo, uma certa ideia de Brasil que o vê, no início do século XXI, como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, sob vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro, muita autoestrada, muita geladeira, muita televisão, todo mundo feliz. Quem pagava por tudo isso éramos, entre outros, nós. (Quem nos pagará, agora? A África, mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo.

É isso que vejo, uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar, ou seja, pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso,o congresso, eleito sabe-se como, breca, a imprensa derruba, o PMDB sabota.

Há uma série de impasses para os quais não vejo saída, não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional, com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. Este está desmobilizado; se não está, o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social, vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo, aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros, que não só nunca fez sua reforma agrária, como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la.

Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limite?

A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos, com epidemias, fomes, secas, desastres, guerras, invasões. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos, e é grande a possibilidade de catástrofes, de quebras de safras, de crises de alimentos. Por ora, hoje, isso está até beneficiando o Brasil. Mas um dia a conta vai chegar. Os climatologistas, os geofísicos, os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo, as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. Porque haveria eu de estar otimista?

Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de consumo que a mídia nos impõe. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil, não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. Não que isso não fosse uma boa ideia. Mas sou contra, isso sim, o crescimento da “economia” mundial, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira, e, por que não, uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes.

E como você vê o jovem nesse contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros, achávamos que podíamos mudar o mundo, e sabíamos que tipo de mundo queríamos. Acho que, no geral, os horizontes utópicos se retraíram enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou sua atenção?

No Brasil, a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista, tanto à direita como à esquerda, pelo interior do país. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo, aliás.

E como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais, que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial, e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis, os vários movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. São um fator de desestabilização, no melhor sentido da palavra, do arranjo de poder dominante. Se alguma grande mudança no cenário político brasileiro vier a acontecer, creio que vai passar por essa mobilização das redes.

Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos – isso no mundo inteiro. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos, como o “projeto” brasileiro de banda larga, que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Parece mesmo, às vezes, que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social, algo que, pelo jeito, é preciso controlar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda, que tínhamos que tomar o poder, sim. Eu respondia que, se tínhamos de tomar o poder, era preciso saber manter o poder depois, e era aí que a coisa pegava. Não tenho um desenho político para o Brasil, não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. Só posso externar minhas preocupações e indignações, e palpitar, de verdade, apenas ali onde me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elite políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. Temos de mudar completamente, para começar, a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica da própria nacionalidade. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo, menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. A felicidade tem muitos caminhos.

O sentido das manifestações não se resume à demanda por uma resposta do Estado. O mundo é muito maior que o sistema político.

Entrevista com Renzo Taddei, professor de sociologia da Universidade Federal de São Paulo, sobre as manifestações no Brasil.

Por Marcos Nepomuceno, do blog do Templo.

Como os protestos brasileiros se relacionam com as manifestações turcas, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street nos EUA, o movimento 15M na Espanha e as revoltas das periferias em Paris e Londres, em 2005 e 2011? Há uma interseção comum de causas entre eles?

Em minha opinião, há três pontos de interseção que vale a pena mencionar. Em primeiro lugar, as instituições políticas formais sofrem de uma aguda crise de legitimidade, e em todos os contextos mencionados, ainda que por razões estruturais e conjunturais diferentes em cada um dos casos, essa crise cruzou a fronteira da estabilidade do convívio social cotidiano; as sociedades entraram em uma espécie de ebulição. Em segundo lugar, há a existência da Internet, da telefonia celular e das redes sociais como uma dimensão da vida coletiva que possibilita formas novas de relação entre pessoas, entre pessoas e ideias, e em especial entre as pessoas e a política. E, em terceiro lugar, o grande ator social em todos esses casos é a juventude. Essas são três coisas inter-relacionadas, e a relação entre elas está em franca transformação. O que vejo nas redes sociais, e o que escuto dos jovens sobre sua relação com a política, é diferente hoje do que era há apenas um mês.

Mas, ainda que pareça haver alguns pontos de interseção, é preciso ter cuidado para que não se esvazie as coisas que cada um destes eventos tem de peculiar. Há muitas e importantes diferenças entre eles. O Occupy Wall Street tem um foco muito claro na crítica à concentração de renda promovida pelo capitalismo liberal norte-americano, com o consequente empobrecimento de grande parte da população, e no fato de que o governo trabalha para a manutenção desse sistema concentrador. Não há referências à corrupção, como aqui – pelo menos não na forma como nós comumente entendemos corrupção. A agenda coletiva era bastante mais clara, e não houve destruição de equipamentos públicos; o caráter da manifestação foi, em geral, mais pacífico. Essa diferença de agendas pode explicar porque, por exemplo, uma coisa ocorreu em Wall Street, no coração financeiro do capitalismo mundial, e outra resultou na depredação de edifícios do governo, como ocorreu em Brasília há duas semanas.

Por outro lado, em Nova York, na Espanha, na Turquia e no Brasil há a participação de gente de todas as classes sociais, com especial participação das classes médias urbanas, enquanto os eventos de Paris e Londres são caracterizados pela presença majoritária de jovens oriundos de comunidades de imigrantes e de minorias étnicas empobrecidas. A questão da exclusão social é relevante aqui, porque enquanto isso parece ser um elemento claro dos eventos de Paris e Londres, há analistas que sugerem que parte do que está ocorrendo no Brasil está relacionado com a ascensão social de segmentos da população brasileira; estes, ao sentirem-se economicamente integrados, agora demandam integração política. Ou seja, o problema da exclusão estaria relacionado às manifestações de forma inversa em cada um dos casos. Essa hipótese, no entanto, me parece algo extravagante, carente de embasamento sociológico.

De todas as causas apresentadas, ou não, qual a mais urgente no caso brasileiro?

O Brasil é um país heterogêneo, com muita diversidade social e cultural, e o sentido de urgência está ligado ao lugar de onde se fala e se vive. Não se pode apresentar uma perspectiva como sendo universalmente mais urgente. Veja, por exemplo, a forma como Davi Kopenawa, líder yanomami, pensa as manifestações e as demandas sociais a elas vinculadas. Ainda que existam pontos de convergência com as demandas que vemos nas ruas, elas não se resumem à mesma coisa. Não há razão pra pensar que a causa é a mesma, nos diversos cantos do Brasil.

Além disso, as manifestações são fenômenos complexos, com diversos níveis de ação e interpretação possíveis. Há coisas não ditas verbalmente, mas materializadas na ação da multidão, que geralmente não são levadas em consideração. Por exemplo, na minha percepção, uma coisa não dita explicitamente nos cartazes e gritos da multidão, mas que é variável fundamental nisso tudo, é a emergência de novas formas de associação política, frente à incapacidade das instituições políticas em dar conta de novas formas de participação e novas demandas sociais. Os problemas causados pela natureza das polícias, e sua péssima relação com a população, é um sintoma disso. Trata-se de colocar em pauta as relações entre a população e o estado, relações que estão em franca transformação. Este é um processo que o estado tenta, sem sucesso, conter. São necessárias mudanças não apenas nas práticas de governo, mas no próprio desenho institucional do estado, e a desmilitarização das polícias é parte fundamental disso.

Desta forma, tentar encontrar uma causa fundamental ou mais urgente é negar a dimensão múltipla das manifestações, e é, ao mesmo tempo, não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo. Essa transformação maior que está em curso está nos afastando das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis. Nosso sistema político formal, ainda que fruto de mudanças recentes, de algumas décadas apenas, se mostra demasiado engessado para dar conta do dinamismo das transformações sociais que estão em curso. Há uma marcada assincronia entre estado e setores mais dinâmicos da população, e essa assincronia só parece crescer com o tempo.

Sendo assim, se há algo urgente no Brasil, esse algo é a transformação das instituições políticas de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir.

A horizontalidade na liderança dos movimentos abre espaço para sua descaracterização?

Para que ocorra uma descaracterização, é preciso que exista o reconhecimento de características previamente percebidas e entendidas. Mas isso não existe no momento atual. Muitas reuniões estão sendo organizadas, no meio acadêmico e no âmbito dos movimentos sociais, para que se construa um diagnóstico a respeito do que está ocorrendo. E esse diagnóstico é difícil porque o que está se passando não é uma coisa, mas muitas ao mesmo tempo, algumas vezes de forma inter-relacionada, outras de forma independente. Qualquer diagnóstico é parcial, e desconfio que a maioria tenha – em especial os que a mídia e o poder público se apressam em produzir -, na verdade, o objetivo de tentar colocar as coisas sob controle, de forma conservadora, mais do que efetivamente produzir uma descrição das coisas como estas estão ocorrendo. Os fenômenos que estamos observando desafiam nossos recursos linguísticos e narrativos. Isso sempre foi assim no que diz respeito aos fenômenos de multidão, e por isso mesmo é que há tanta ansiedade, tanto naqueles que tem no controle público seu trabalho, os gestores públicos, como naqueles que tem como trabalho o controle das ideias, dentre os quais estão os acadêmicos.

Como são muitas coisas ocorrendo ao mesmo tempo, e não uma massa homogênea de gente demandando a mesma coisa, não se pode esperar que exista apenas uma liderança, definida claramente. Isso faz o trabalho da mídia mais difícil, porque não se enquadra nos seus modelos limitados de análise da ação política. No entanto, devido ao fato de que a energia da multidão é, ao mesmo tempo, algo perigoso e também um recurso valioso para a transformação política, muitos tentam apoderar-se dela de alguma forma. Ou seja, é de se esperar que existam disputas pelo controle dessa energia. Em minha opinião, no entanto, a emergência de uma liderança é que descaracterizaria o movimento, porque seria a negação de sua multiplicidade, e o sinal de que essa multiplicidade foi sequestrada.

Isso não significa a ausência de liderança, mas essa liderança se constrói de outras formas, num padrão de redes de associações dinâmicas. São muitos líderes, com protagonismos variáveis, em função das formas como as redes se configuram a cada momento. Certamente se dirá que a ausência de liderança claramente identificável fará com que as manifestações se enfraqueçam, ou que uma parte da coisa toda descambe para o caos destrutivo. Ainda que existam riscos nisso tudo que estamos vivendo, grande parte dos analistas da mídia e do poder público não entende os novos padrões de liderança desses processos de associação e ação em rede. As manifestações vão cessar em algum momento, mas não em função de falta de liderança, nem porque a energia do movimento tenha deixado de existir. As associações em rede parecem ser capazes de manter essa energia em estado “latente” por tempo indeterminado, e então de provocar uma ação rápida e explosiva, através de padrões virais de comunicação distribuída. Líderes políticos (e jornalistas) que não dedicam parte do seu tempo a monitorar as redes sociais, e a Internet, de forma mais ampla, mostram não terem entendido esse aspecto das transformações sociais em curso.

Muitos grupos surgiram na disputa de sentidos do movimento após a emergência dos protestos. Como essa vontade social de se fazer ouvir pode ser aproveitada? Os conflitos internos e cisões fazem parte do amadurecimento do processo para mudanças efetivas?

Inicialmente, é preciso que se diga que as ações na disputa pelos sentidos nem sempre têm como objetivo vontades específicas de se fazer ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Por outro lado, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não conste nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A própria polícia percebeu isso: quando convém, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa; nas ações de repressão violenta às manifestações, por outro lado, um sem número de policiais escondeu suas identificações.

Há também os casos de violência entre manifestantes, o que tem assustado muitos analistas. Nas grandes manifestações em São Paulo, havia gente de todo o espectro político, da extrema direita (neonazistas) à extrema esquerda. O convívio entre esses grupos é muito difícil; não se pode esperar grandes alianças que consigam costurar todas as incompatibilidades; a lógica agora é mais molecular. O rechaço às bandeiras acabou tomando uma dimensão maior do que era de se imaginar, e minha opinião a esse respeito é que isso se dá em função dos níveis alarmantes de analfabetismo político no Brasil. Uma amiga, declaradamente anarquista, foi agredida por manifestantes porque caminhava ao lado de pessoas com camisetas do PT; segundo ela, qualquer um que usasse roupas vermelhas corria o risco de apanhar na Avenida Paulista. Pessoas dos movimentos sociais e das centrais sindicais também foram hostilizadas. O clima é de rejeição ao sistema político, mas a classe média politicamente analfabeta (ou politicamente analfabetizada) não consegue identificar com clareza quem é ou não integrante da parte podre do sistema, e acaba hostilizando tudo que seja minimamente institucionalizado. O próprio governo é agora vítima do conservadorismo dessa classe média politicamente analfabeta. No entanto, a atual situação de analfabetismo político é sistêmica e estrutural, e não apenas mérito ou culpa de alguém especificamente.

O que não se pode ignorar, no entanto, é a dimensão pedagógica disso tudo. Pra um bocado de gente que saiu às ruas, as balas de borracha ou gás lacrimogêneo serviram como rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. A classe média vive por experiência própria o fascismo do estado, experimenta o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Eu tenho a impressão de que é isso que está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

Por fim, a questão indaga sobre a vontade de se fazer ouvir. Antes de responder a isso, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido disso tudo. Isso me parece redutor e perigoso, porque coloca o estado novamente no centro de tudo, e me parece que uma das coisas que está ocorrendo é exatamente o oposto disso. Ou seja, o que eu estou dizendo é que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é a formação de redes de organização, de articulação social, cultural e política, de forma independente do estado. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador de tudo, o tempo todo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. O mundo é muito maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Os protestos que se alastraram pelo país, e no resto do mundo, tem na internet seu epicentro de força e disseminação. Lá também reside sua fraqueza? Qual seria ela?

Não se sabe exatamente, de antemão, quais são as forças e fraquezas dos protestos. Essas coisas, força e fraqueza, se constroem à medida que os protestos ocorrem, que a coisa toda vai se desenrolando, nos tempos e nos espaços, físicos e virtuais. O que estamos vivendo mostra que a Internet é uma plataforma poderosíssima, em sua capacidade de coagular energia política em ações materiais; no entanto, ainda é possível que corporações e governos exerçam controle censor sobre ela, como vemos no Facebook e na China. O fato de que tanta atividade política ocorra dentro do Facebook faz com que esta atividade seja vulnerável a censura, em geral justificada em função das normas obscuras e obtusas da corporação. Me parece fundamental que uma versão aberta e colaborativa do Facebook seja criada. Outra vulnerabilidade é que a existência da Internet exige investimentos em infraestrutura muito altos, o que tende a colocar o controle físico do funcionamento da rede na mão dos governos. De qualquer forma, me parece que a tendência inexorável de desenvolvimento tecnológico aponta para padrões descentralizados de comunicação, o que tende a dificultar essas ações de censura.

Como você vê a emergência de novas formas de narrativa e cobertura de mídias alternativas, como a NINJA, no contexto virtual?

Em certo sentido, trata-se de uma das novidades mais revolucionárias dentro de tudo o que está ocorrendo, porque pode gerar transformações reais nas comunidades imaginadas nas quais nos encontramos. Ninguém nasce brasileiro ou paulista; nós aprendemos a nos sentirmos essas coisas e a agir no mundo em função disso. Há um esforço do estado e das instituições (escola, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de formas específicas. De maneira geral, o brasileiro é produzido para ser politicamente passivo: o Brasil é mais administrável se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV – em especial se for futebol -, anestesiados. Vivemos a cidadania como zumbis do capitalismo: vivemos para trabalhar, trabalhamos para pagar contas, educamos nossos filhos para que eles trabalhem, como se isso fosse um fim em si. O sucesso é o sucesso no trabalho, o valor de cada um se reduz ao seu potencial de produtor de bens econômicos.

As manifestações, a multidão, operam em outra lógica; a emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, também. Isso é um pesadelo para o status quo. Há uma ansiedade geral, hoje, no sentido de entender o que está acontecendo. Para grande parte da população, isso é sintoma da passividade mental à qual somos induzidos: imaginamos o mundo como estando fora dele. A lógica das manifestações é diferente: as coisas não estão acontecendo, nós é que as estamos fazendo acontecer. E mídias como a NINJA e a PósTV são capazes de traduzir isso em novas formas de linguagem midiática.

Redes sociais são apontadas por especialistas como fundamentais nas mobilizações populares (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4763, de 08 de Julho de 2013.

Por Paloma Barreto / Jornal da Ciência

Antropóloga, filósofo e comunicadora analisam o papel dessa forma de comunicação nos protestos que ocorrem no país

O que há em comum entre a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, a revolta na Turquia e as manifestações que estão acontecendo no Brasil? Além de perturbarem o sistema político estabelecido e buscarem mudanças, estes movimentos sociais do século XXI utilizam as redes sociais como principal ferramenta de articulação e mobilização. Ana Lúcia Enne, antropóloga e professora do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou o papel das novas mídias nos protestos que pararam dezenas de cidades brasileiras nas últimas semanas. “Elas são fundamentais no contexto contemporâneo por oferecerem caminhos contra-hegemônicos de divulgação de informações e posições”, afirmou.

As hashtags – palavras-chave antecedidas pelo símbolo “#”, que designam o assunto que se deseja discutir em tempo real nas redes sociais – verásqueumfilhoteunãofogeàluta, #ogiganteacordou e #primaverabrasileira tomaram as páginas do facebook e twitter de milhares de brasileiros. A convocação dos internautas chegou a levar mais de um milhão de pessoas às ruas de todo o Brasil na noite do dia 20 de junho. “Como ficou claro neste momento histórico, as redes precisam das ruas para construir um movimento realmente ativo e capaz de gerar mudanças sociais. As mobilizações virtuais e físicas são complementares e servem a propósitos distintos”, observou Ana.

A antropóloga critica a atuação da grande mídia, e acredita que hoje a internet disputa espaço com os antigos veículos de comunicação na cobertura de acontecimentos. “Principalmente entre os jovens, que utilizam as ferramentas das novas tecnologias de comunicação e informação diariamente, em larga escala, ficou evidente o caráter manipulador, por vezes mentiroso, simplificador e atrelado aos interesses políticos e econômicos da grande mídia. Isso evidenciou o descrédito com essas instituições e a busca permanente por outras formas de expressão e visibilidade”.

Essa “batalha de sentidos” foi citada pela diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco/UFRJ), Ivana Bentes, em seu perfil no facebook. “A palavra de ordem das manifestações, o #vemprarua, é remix genial da publicidade da Fiat para a Copa. Ou seja, não tem nenhuma multidão amorfa ou acéfala, mas atravessada de singularidades e disputas. Temos mais é que perguntar quem fala e de onde fala. E faz todo o sentido disputar os sentidos do que está acontecendo”, publicou no dia 22 de junho.

Quando os protestos brasileiros tomaram grandes dimensões e alcançaram o noticiário internacional, especialistas se empenharam na busca de explicações para os acontecimentos. Entre eles, o filósofo francês Pierre Lévy classificou a revolta brasileira como o “experimento de uma nova forma de comunicação” em entrevista para o jornal O Globo. “Você não confia na mídia em geral, você confia em pessoas ou em instituições organizadas. Comunicação autônoma significa que sou eu que decido em quem confiar, e ninguém mais. Eu consigo distinguir a honestidade da manipulação, a opacidade da transparência”, afirmou o pesquisador de cibercultura.

Manifestações do século XXI

Em dezembro de 2010, um jovem ateou fogo ao próprio corpo como forma de manifestação contra as condições de vida na Tunísia. O ato desesperado culminou na Primavera Árabe, uma onda de revoltas em quase 20 países que já conseguiu derrubar quatro governos. Em maio deste ano, a ameaça de demolição do parque Taksim Gezi para a construção de um shopping deu início aos protestos na Turquia. No Brasil, em circunstâncias totalmente diferentes, a aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo foi o estopim para que milhares de cidadãos de diversos municípios saíssem às ruas reivindicando melhorias nos serviços públicos e mudanças do sistema político.

“A adesão às manifestações está relacionada a algumas variáveis. Primeiro, uma sensação de insatisfação generalizada em relação a uma série de fatores que afetam o brasileiro diretamente, como saúde, educação, transporte, corrupção etc. A questão dos vinte centavos foi sentida como uma gota d’dágua, um transbordamento do copo, se transformando em uma pauta unificadora, capaz de aglutinar multidões insatisfeitas e com diversas outras causas para protestar”, considerou Ana Enne.

A professora acrescentou que a etapa mais difícil do processo é a catalisação dos manifestantes. Neste aspecto, ela acredita que as ações truculentas das forças de segurança, disseminadas na internet através de depoimentos e vídeos, foram fundamentais para sensibilizar outras pessoas. “A explicitação da violência policial, experiência dolorosa vivida cotidianamente por muitos brasileiros, contra manifestantes pacíficos em várias cidades brasileiras, também deu vida e impulsionou o movimento. Foi a partir das divulgações dessas imagens que as passeatas ganharam uma densidade numérica impressionante”.

Também nesta perspectiva, o movimento brasileiro se assemelha aos internacionais. Na Turquia, a repressão dos primeiros protestos por parte da polícia motivou uma maior adesão de pessoas à revolta. A foto de uma mulher de vermelho sendo atacada por um jato de gás lacrimogêneo em Istambul foi replicada nas redes sociais e causou ainda mais indignação nos internautas. No Brasil, dentre os conteúdos de violência policial disseminados, um dos que teve mais repercussão foi a imagem de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S Paulo atingida no olho por uma bala de borracha no dia 13 de junho.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, conhecido por ser um “intelectual conectado”, é um dos principais analistas do papel da internet nos movimentos sociais contemporâneos. No dia 11 de junho, durante o evento “Fronteiras do Pensamento”, em São Paulo, ele foi questionado sobre o protesto que ocorria na Avenida Paulista naquele momento contra o aumento das passagens de ônibus. “Todos os movimentos sociais na história, são, sobretudo, emocionais. Não são pontualmente reivindicativos. Não é o transporte. Em algum momento, há um fato que provoca a indignação. Ao sentir a possibilidade de estarem juntos, ao sentir que há muitas pessoas que pensam o mesmo fora do âmbito institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe. Mas, com certeza não é o que está aí”, avaliou Castells.

Esta matéria está na página 8 do Jornal da Ciência impresso. As 12 páginas podem ser acessadas em PDF:
http://www.jornaldaciencia.org.br/impresso/JC740.pdf

Juventude “apolítica” reinventa a política (Envolverde/IPS)

02/7/2013 – 09h20

por Fabiana Frayssinet, da IPS

n11 300x225 Juventude “apolítica” reinventa a política

A estudante Stephany Gonçalves dos Santos escreve seu politizado cartaz. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 2/7/2013 – Com palavras de ordem contra os partidos políticos, as manifestações juvenis no Brasil trazem consigo o paradoxo de uma nova e efetiva forma de fazer política, que consegue respostas concretas dos poderes do Estado. A palavra de ordem nas ruas é “partidos políticos, não”, e a maioria dos manifestantes se declara, com orgulho “apolítica”. “Não tenho nenhum partido”, diz à IPS a estudante Stephany Gonçalves dos Santos.

Como centenas de milhares de estudantes que protestam, convocados por meio das redes sociais, como o Facebook, ela escreve um cartaz para um protesto no Rio de Janeiro, com lápis de cor em uma simples cartolina. E escolhe a frase “Um filho teu não foge à luta”, do hino nacional brasileiro. “Estou aqui por um ideal de país. quero que meu país seja democrático. Mas onde há repressão não há democracia”, argumentou Stephany, referindo-se à dura resposta policial que, longe de aplacar os protestos, estimulou muitos a aderirem a eles.

“O governo quer alienar o povo com o futebol”, acrescentou, ao abordar outro tema de descontentamento: os gastos milionários em instalações para competições esportivas como a Copa das Confederações, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Stephany vive em um país onde diariamente se respira futebol e este é parte de uma cultura popular tão arraigada quanto o carnaval. Mas reclama, indignada, do dinheiro que se deixou de investir em educação e saúde para construir grandes instalações esportivas. “Construíram estádios de primeiro mundo, mas ao redor deles não temos nada. É uma falta de respeito com o povo”, afirmou.

A revolta nasceu de um tema específico: o aumento das passagens de ônibus, serviço já caro e ineficiente. Porém, se estendeu a outras áreas: saúde, educação e a suposta corrupção de muitos dirigentes políticos. “A maioria dos que participam do movimento constitui uma massa de jovens que se sentem muito desgostosos com a atual vida política”, apontou à IPS o especialista político William Gonçalves, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “Eles repudiam a corrupção e a cumplicidade de forças que se apresentam como progressistas com as que são símbolo do atraso”, afirmou, referindo-se a alianças parlamentares forjadas pelos partidos para governarem.

Pelas dimensões e pela diversidade territorial do Brasil e da sua população, nenhum partido pode assegurar a Presidência e a maioria das cadeiras no Congresso. “Desta forma, temos um parlamentarismo disfarçado, já que todos os partidos que chegam à Presidência só podem governar aliando-se a outros que têm a única ambição de obter cargos em troca de apoio parlamentar”, explicou Gonçalves. “Até o Partido dos Trabalhadores é prisioneiro dessa aliança. A saída seria uma reforma política”, acrescentou.

Tal reforma, largamente reclamada, não saía das gavetas oficiais. E, curiosamente, foi o susto diante da “apolítica” ebulição das ruas que conseguiu em poucos dias que esse assunto entrasse na agenda oficial. Os manifestantes também conseguiram reduzir o preço do transporte público, a aprovação em tempo recorde de uma lei que declara a corrupção crime “hediondo” e a votação de outra lei para destinar royalties do petróleo para a saúde e educação.

Isto é ser apolítico? O dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile, acredita que não. “A juventude não é apolítica, pelo contrário. Tanto não é, que levou a política às ruas, mesmo sem ter consciência de seu significado”, afirmou em uma entrevista ao jornal Brasil de Fato. “A juventude está cansada dessa forma de fazer política, burguesa e mercantilista. O mais grave é que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se amoldaram a esses métodos. E, portanto, gerou-se na juventude uma repulsa à forma de atuar dos partidos”, ressaltou.

Para o historiador Marcelo Carreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “este é um novo dado da história nacional, cujo contexto já era claramente observável no esvaziamento dessas instituições”. Carreiro disse à IPS que “as manifestações confirmam essa caducidade das instituições e mostram, apesar de tudo, que a população pode estar mais politicamente ativa que nunca”.

Os três poderes do Estado tomaram nota e já começam a propor e discutir formas alternativas de incluir a cidadania em mecanismos mais dinâmicos e participativos. A presidente Dilma Rousseff deu um passo nessa direção ao admitir que “estas vozes têm de ser ouvidas” porque “deixaram evidente que superam os mecanismos tradicionais das instituições, dos partidos, das entidades de classe e da própria imprensa”. Uma proposta em debate é estabelecer a consulta popular como instrumento permanente de democracia direta.

Algumas organizações não governamentais propõem, por outro lado, a participação efetiva de diferentes grupos sociais, comunidades e bairros, em decisões sobre onde e como aplicar orçamentos de saúde, educação, infraestrutura, transporte e saneamento. “Tudo o que está acontecendo com estas novas expressões da sociedade em rede – no Brasil e em outros países – aponta para uma reinvenção da política para reinventar a democracia”, opinou Augusto de Franco, diretor da organização Escola de Redes. Os jovens manifestantes atiraram a primeira pedra, e não somente contra a repressão policial.

Fifa vê gesto desrespeitoso de Dilma Rousseff por não ir à final (OESP)

Tradicionalmente, presidente do país sede do torneio está na decisão e entrega a taça ao campeão

29 de junho de 2013 | 20h 17

JAMIL CHADE – Enviado especial – Agência Estado

RIO – A Fifa tomou como um gesto de desrespeito a decisão da presidente Dilma Rousseffde não ir à final deste domingo no Maracanã entre Brasil e Espanha. Tradicionalmente, presidente do país sede do torneio está na decisão e entrega a taça ao campeão. Neste sábado, parte da cúpula da Fifa que conversou com a reportagem não escondia surpresa diante da decisão da chefe-de-estado de não viajar ao Rio de Janeiro. Apesar da ausência de Dilma, a ala VIP do estádio do Maracanã estará lotada de políticos.

Dilma foi vaiada na abertura e quer evitar desgaste - Dida Sampaio/Estadão

Dida Sampaio/Estadão. Dilma foi vaiada na abertura e quer evitar desgaste

Dilma foi vaiada no jogo de abertura, em Brasília, e decidiu que, diante dos protestos nas ruas e de sua queda de popularidade, não seria o momento de aparecer num estádio, mesmo que seja no evento-teste para a Copa do Mundo e uma espécie de cartão de visita do País.

Apesar das declarações de membros do Comitê Executivo da Fifa, a assessoria de imprensa insistiu em adotar posição diplomática e garante que seus cartolas não representam a posição oficial da entidade.

“A Fifa respeita totalmente a decisão da presidente Dilma Rousseff em relação à participação na final
no Maracanã, seja ela qual for”, disse a assessoria.

Entretanto, nos bastidores, parte dos funcionários da Fifa tentavam entender a decisão de Dilma de não estar no estádio. “Isso é bom ou ruim para ela?”, questionou um deles. Para outros mais próximos da presidência, a atitude é um “gesto de desrespeito”.

A relação entre governo e Fifa já não era das melhores. Mas um dos legados do torneio será um esfriamento ainda maior dos contatos. O governo ficou irritado com os comentários da Fifa sobre as manifestações e com as cobranças por mais segurança.

Se Dilma não estará no estádio, o Maracanã não sentirá falta de políticos. Além de governadores e do prefeito do Rio, Eduardo Paes, deputados, vereadores e senadores estão sendo aguardados na tribuna de honra.

Nas arquibancadas, a torcida já indicou nos meios sociais que irá usar a final para protestar. Nas ruas que dão acesso ao Maracanã, milhares de pessoas prometem protestar. O estádio estará blindado por mais de 6 mil policiais.

Para fontes na Fifa, a situação chega a ser irônica. Afinal, o governo brasileiro quer usar justamente os megaeventos esportivos para se promover no exterior e as autoridades não têm economizado recursos para o marketing baseado no torneio.

Até mesmo a Agência de Promoção das Exportações, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, se transformou em associada da Fifa, pagando uma cota de patrocínio de R$ 20 milhões. Já o BNDES e diversos outros órgãos foram fundamentais em bancar estádios e infraestrutura para o evento.

Para outro experiente cartola, o que surpreende é o contraste em relação à participação de outros chefes-de-estado em torneios similares. Em 2009, o capitão da seleção brasileira na época, Lúcio, recebeu o troféu de campeão das mãos de Jacob Zuma, presidente sul-africano. Zuma ainda participou de todos os jogos em Johannesburgo, num esforço de mostrar o compromisso do governo com o torneio. Em 2005, na Alemanha, a cúpula do governo de Berlim também se fez presente.

Fontes próximas ao presidente Joseph Blatter insistem que o cartola suíça “entendeu” a decisão política de Dilma. Mas considerou que sua atitude mostra que o governo não está sempre disposto a bancar o evento e que cálculos políticos pesam mais que o torneio em si. “O que parece é que, quando as coisas vão bem, o Brasil quer usar a Copa para se promover. Mas quando não funciona ou há uma crise, todos querem se dissociar do futebol”, comentou um membro do Comitê Executivo da entidade, que pediu anonimato.

Veja também:
link Dilma Rousseff decide que não verá final no Maracanã no domingo 
link Felipão alfineta Fifa por chegar atrasado ao Maracanã 
link Salvador terá protesto antes da disputa do 3.º lugar

Sobre as manifestações (OESP)

‘Epidemia’ de manifestações tem quase 1 protesto por hora e atinge 353 cidades

Movimento ganhou força depois do dia 17, ao monopolizar o noticiário das grandes redes de TV, e auge foi no dia 20, em 150 cidades

29 de junho de 2013 | 19h 49

Bruno Paes Manso e Rodrigo Burgarelli – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – No dia 6 de junho, os jornais de São Paulo ainda repercutiam mortes violentas em tentativas de assalto quando uma primeira manifestação de 150 jovens, aparentemente despretensiosa, aconteceu no centro da cidade, na hora do rush, rumo à Avenida Paulista. Era o primeiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que nos dias seguintes atrairia os holofotes da imprensa e se espalharia como “epidemia” pelo Brasil, contagiando rapidamente a população de diferentes cidades.

Veja também:
link Saiba tudo sobre os protestos pelo País

Manifestantes na Avenida Paulista,  em São Paulo, na quarta-feira, 26 - JF Diorio/AE

JF Diorio/AE. Manifestantes na Avenida Paulista, em São Paulo, na quarta-feira, 26

Até quinta-feira, a população saiu às ruas com cartazes para protestar em pelo menos 353 municípios, conforme levantamento feito pelo Estado em eventos no Facebook e em menções na imprensa regional. Ao todo, houve pelo menos 490 protestos em três semanas (mais de 22 por dia). Já a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em pesquisa feita nas prefeituras, identificou protestos em 438 cidades.

O papel das redes sociais (Twitter e Facebook) foi decisivo para a articulação dos discursos e para divulgar hora e local dos protestos. Mas a epidemia só ganhou força depois do dia 17, ao monopolizar o noticiário das grandes redes de televisão. “Fazendo um paralelo com o casamento, esses eventos não têm causa única. O casal não termina porque a toalha foi deixada em cima da cama. Essa toalha pode ser a gota d’água de brigas antigas. O mesmo ocorreu nos protestos, que explodiram por uma longa história de crises enfrentadas em silêncio”, diz o professor de comunicação digital Luli Radfahrer (ECA-USP).

Avanço. Em São Paulo, os primeiros três protestos aconteceram em um intervalo de seis dias e não ultrapassaram os 10 mil manifestantes. Mesmo assim, já eram a principal história dos jornais. No dia 13 de junho, outras dez cidades aderiram – capitais ou cidades médias, como Natal, Porto Alegre, Rio, Santos e Sorocaba. No dia 17, quando São Paulo parou, com 200 mil pessoas nas ruas, já eram 21 protestando.

O auge foi no dia 20, quando 150 municípios tiveram protestos. Pelo menos 1 milhão de brasileiros foram às passeatas, segundo dados das Polícias Militares de 75 cidades. Desde Belém, no Pará, até Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. A menor cidade a se rebelar foi Figueirão (MS), que tem 2,9 mil habitantes.

O mote do transporte público foi o mais popular principalmente nas cidades que têm rede de ônibus. Mas os protestos também ganharam conotações regionais, especialmente nas cidades menores. Picos (PI), por exemplo, atraiu manifestantes contra os pistoleiros. Coxim (MS) protestou contra os buracos nas ruas e pediu a saída do secretário de obras. “Foi uma revolta típica da pós-modernidade, aparentemente sem causa. Do ponto de vista político, contudo, a multiplicidade de causas tornou os protestos mais fortes justamente porque permite várias interpretações dos que vão se manifestar”, diz o psicanalista Jorge Forbes.

Forbes enxerga, no entanto, um ponto em comum nas demandas. “Trata-se de uma sociedade civil renovada, mais informada e educada, que continua tendo de lidar com as instituições do século passado, anacrônicas, que não atendem mais os anseios da população.”

Difícil leitura. Mesmo para aqueles que acompanham a história do movimento, a epidemia de protestos surpreendeu. O filósofo Pablo Ortellado, coautor do livro Estamos Vencendo! (Conrad), sobre os movimentos autonomistas no Brasil, ainda se esforça para entender o que aconteceu. “A resistência e a desobediência civil já eram discutidas desde Seattle, em 1999, nos movimentos antiglobalização. A novidade foi o Passe Livre, que passou a ter uma pauta clara, com um grupo de referência para negociar. O governo foi acuado pelas passeatas e mudou sua decisão.” As manifestações continuaram em menor quantidade depois da redução das tarifas, apesar de muitos protestos contra a Copa das Confeder[ações.]

*   *   *

‘Ativismo de sofá’ chegou às ruas, diz especialista

Para diretor de organização de petições online, recentes protestos mostram que assinar abaixo-assinado pela internet não é sinal de despolitização

30 de junho de 2013 | 2h 07

RICARDO CHAPOLA – O Estado de S.Paulo

O diretor de campanhas da Avaaz, uma das maiores organizações mundiais de abaixo-assinados online, Pedro Abramovay, acredita que a recente onda de protestos que tomaram conta do País desbanca o que especialistas e parte da sociedade apelidaram de “ativismo de sofá” – que nasce nas redes sociais e não chega às ruas.

Em atos que se espalharam por capitais e outras cidades brasileiras, manifestantes usaram a internet para dar musculatura à mobilização e, depois, foram às ruas. Abramovay avalia que esse fenômeno é o resultado de uma combinação de dois fatores: internautas mais politizados na rede diante de um cenário em que a política está muito obsoleta.

“Tinha gente que dizia: ‘Olha só, isso é uma despolitização, isso se resume a sofá’. E não, as pessoas não perceberam que a internet hoje faz parte da vida das pessoas”, afirmou ao Estado.

“Quando as pessoas compartilhavam uma petição pelo Facebook, pelo Twitter, elas estavam assumindo posição política diante dos seus amigos. Aquilo foi criando um caldo novo de cultura política num ambiente no qual a política e a forma de se fazer política está muito envelhecida. Uma hora tinha que explodir. E acho que explodiu, foi para as ruas.”

Reforma. Tanto a adesão maciça de pessoas aos atos quanto o número de protestos que ocorreram nas últimas semanas sinalizam, acredita Abramovay, que o eleitor está descontente com a falta de espaço político. Para ele, o poder público não dá abertura para participação social. “O que agora isso tem que gerar é uma mudança das instituições. E a criação de uma abertura política para esses movimentos, para essa vontade das pessoas participarem”, afirmou, em referência à necessidade de uma reforma política – a pauta entrou na agenda do governo federal na semana passada.

Respostas pontuais. Mas a postura do poder público não convence, na avaliação do diretor da Avaaz. Ele disse que a sociedade pede mudanças estruturais, a seu ver a única maneira de a política conseguir atender a todas as demandas existentes nos protestos. “Não bastam respostas imediatas e pontuais para o momento de movimentação aguda como a gente viu agora. Essa energia tem que ser canalizada para mudanças estruturais. A gente tem que ter canais pelos quais essa vontade de a sociedade participar seja acolhida permanentemente pelas instituições políticas”, disse Pedro Abramovay.

“A gente percebe que as pessoas querem falar de política e elas não veem nos canais normais os canais que as representem, que canalizem essas demandas. Então vão para a rua. É preciso reorganizar nossa democracia para que essas demandas encontrem lugar.”

Apartidarismo. Ex-secretário nacional de Justiça no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Pedro Abramovay ainda é filiado ao PT. Apesar de criticar o que classifica de engessamento das instituições políticas, como os partidos, e a sua indisposição às mudanças reivindicadas nas ruas, o diretor da Avaaz avalia que o clamor público não é pela extinção das siglas. A questão, de acordo com Abramovay, é a falta de representatividade.

“Eu não acho que as pessoas não querem mais partidos, elas se cansaram de partidos que não as representam. As pessoas se cansaram de partidos que estão descolados da opinião pública, que são clubes eleitorais, como se tem dito. E não a extinção dos partidos.”

Para ele, não existe democracia sem legendas. “A existência de partidos é algo que faz parte da democracia. O respeito à preferência partidária também tem que fazer parte da democracia. Agora os partidos têm que acordar para essa movimentação e por esse desprezo que as pessoas têm pela maneira que eles estão funcionando atualmente.”

Abramovay classificou a onda de manifestações impulsionadas pela internet como um passo importante na história do País. Ele ainda disse que o Brasil tem plenas condições de ser pioneiro nesse novo tipo de política democrática.

“O Brasil tem condições de ser pioneiro nessas inovações democráticas. Não é à toa que o Brasil é o primeiro país da Avaaz”, observou. A organização de petições online, segundo ele, tem cerca de 4,5 milhões de membros brasileiros.

*   *   *

Onda de protestos tomou 353 cidades

30 de junho de 2013 | 7h 40

BRUNO PAES MANSO E RODRIGO BURGARELLI – Agência Estado

No dia 6 de junho, os jornais de São Paulo ainda repercutiam mortes violentas em tentativas de assalto quando uma primeira manifestação de 150 jovens, aparentemente despretensiosa, aconteceu no centro da cidade, na hora do rush, rumo à Avenida Paulista. Era o primeiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que nos dias seguintes atrairia os holofotes da imprensa e se espalharia como “epidemia” pelo Brasil, contagiando rapidamente a população de diferentes cidades.

Até quinta-feira, a população saiu às ruas com cartazes para protestar em pelo menos 353 municípios, conforme levantamento feito pelo Estado em eventos no Facebook e em menções na imprensa regional. Ao todo, houve pelo menos 490 protestos em três semanas (mais de 22 por dia). Já a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em pesquisa feita nas prefeituras, identificou protestos em 438 cidades.

O papel das redes sociais (Twitter e Facebook) foi decisivo para a articulação dos discursos e para divulgar hora e local dos protestos. Mas a epidemia só ganhou força depois do dia 17, ao monopolizar o noticiário das grandes redes de televisão. “Fazendo um paralelo com o casamento, esses eventos não têm causa única. O casal não termina porque a toalha foi deixada em cima da cama. Essa toalha pode ser a gota d”água de brigas antigas. O mesmo ocorreu nos protestos, que explodiram por uma longa história de crises enfrentadas em silêncio”, diz o professor de comunicação digital Luli Radfahrer (ECA-USP).

Avanço. Em São Paulo, os primeiros três protestos aconteceram em um intervalo de seis dias e não ultrapassaram os 10 mil manifestantes. Mesmo assim, já eram a principal história dos jornais. No dia 13 de junho, outras dez cidades aderiram – capitais ou cidades médias, como Natal, Porto Alegre, Rio, Santos e Sorocaba. No dia 17, quando São Paulo parou, com 200 mil pessoas nas ruas, já eram 21 protestando.

O auge foi no dia 20, quando 150 municípios tiveram protestos. Pelo menos 1 milhão de brasileiros foram às passeatas, segundo dados das Polícias Militares de 75 cidades. Desde Belém, no Pará, até Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. A menor cidade a se rebelar foi Figueirão (MS), que tem 2,9 mil habitantes.

O mote do transporte público foi o mais popular principalmente nas cidades que têm rede de ônibus. Mas os protestos também ganharam conotações regionais, especialmente nas cidades menores. Picos (PI), por exemplo, atraiu manifestantes contra os pistoleiros. Coxim (MS) protestou contra os buracos nas ruas e pediu a saída do secretário de obras. “Foi uma revolta típica da pós-modernidade, aparentemente sem causa. Do ponto de vista político, contudo, a multiplicidade de causas tornou os protestos mais fortes justamente porque permite várias interpretações dos que vão se manifestar”, diz o psicanalista Jorge Forbes.

Forbes enxerga, no entanto, um ponto em comum nas demandas. “Trata-se de uma sociedade civil renovada, mais informada e educada, que continua tendo de lidar com as instituições do século passado, anacrônicas, que não atendem mais os anseios da população.”

Difícil leitura. Mesmo para aqueles que acompanham a história do movimento, a epidemia de protestos surpreendeu. O filósofo Pablo Ortellado, coautor do livro Estamos Vencendo! (Conrad), sobre os movimentos autonomistas no Brasil, ainda se esforça para entender o que aconteceu. “A resistência e a desobediência civil já eram discutidas desde Seattle, em 1999, nos movimentos antiglobalização. A novidade foi o Passe Livre, que passou a ter uma pauta clara, com um grupo de referência para negociar. O governo foi acuado pelas passeatas e mudou sua decisão.” As manifestações continuaram em menor quantidade depois da redução das tarifas, apesar de muitos protestos contra a Copa das Confederações. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

*   *   *

Quarta-feira, 26 de Junho 2013, 22h28

Congresso entra em ritmo frenético diante da pressão de manifestantes

Além de decisões de prefeitos e governadores, Câmara e Senado aprovam propostas que estavam engavetadas há anos; veja linha do tempo

Breno Lemos Pires/Estadão

*   *   *

Aliados culpam políticos por queda da popularidade de Dilma nas pesquisas

Datafolha apontou queda de 27 pontos na aprovação do governo da presidente após os protestos

29 de junho de 2013 | 13h 13

Ricardo Brito e Ricardo Della Coletta – Agência Estado

BRASÍLIA – Aliados da presidente Dilma Rousseff preferiram atribuir a queda de 27 pontos porcentuais na popularidade da presidente Dilma Rousseff, apontada na pesquisa Datafolha, divulgada neste sábado, 29, a uma insatisfação geral da população com os políticos, canalizada na chefe do Executivo, após os protestos que tomaram as ruas nas últimas semanas. Já a oposição não quis comemorar abertamente o resultado, que apontou que 30% dos brasileiros consideram a gestão Dilma boa ou ótima, ante 57% de avaliação positiva registrada na sondagem da primeira semana de junho.

A presidente recebeu no Palácio da Alvorada seus principais operadores políticos dentro do governo para conversar sobre a pesquisa e as novas medidas a serem tomadas. Participaram do encontro na manhã deste sábado os ministros da Comunicação Social, Helena Chagas, das Comunicações, Paulo Bernardo, e da Educação, Aloizio Mercadante, que tem atuado como um ministro informal da articulação política.

Para os governistas do Congresso, é prematuro afirmar que Dilma, que em todas as sondagens eleitorais feitas até o momento venceria no primeiro turno das eleições presidenciais no ano que vem, perdeu seu favoritismo. “É muito cedo para falar sobre 2014. A oposição já está vendo-a fora do governo”, ironizou o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). “Não tem nada a ver com a reeleição (a pesquisa), estamos firmes e fortes. O nosso projeto é a reeleição da presidente Dilma. Eu não sou de abandonar o barco”, reforçou o líder do PT na Casa, José Guimarães (CE).

O líder petista lembrou que o ex-presidente Lula passou por dificuldades políticas maiores em 2005, quando eclodiu o escândalo do mensalão, e se reelegeu um ano depois. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), afirmou que a pesquisa está “contaminada” pela atual circunstância. “Qualquer pesquisa vai mostrar queda dos governantes, porque você esta fazendo pesquisa no olho do vulcão, em que estão acontecendo as manifestações e os protestos”, completou.

Oposição. A oposição não vê motivos para festejar a queda acentuada de Dilma de olho em 2014. “A gravidade do momento é tal que tanto o governo como a oposição não podem pensar em si próprios”, avaliou o presidente do Democratas, Agripino Maia (RN). “Com a eclosão das manifestações, o jogo zerou. A oposição sempre pregou no deserto e, de repente, essa mobilização dá à oposição a perspectiva de se preparar para um bom embate”, afirmou o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR).

O presidente do Democratas, senador Agripino Maia (RN), disse que o resultado da pesquisa é uma “constatação clara” dos equívocos da gestão petista. “Acabou este tempo de governar em nome da reeleição”, disse, ao cobrar de Dilma “humildade de mudar” e ao ressaltar que a oposição está disposta a conversar com a presidente em torno do pacto lançado semana passada. Os oposicionistas, porém, são contrários à realização do plebiscito para se fazer uma reforma política. Agripino Maia defende melhorias na gestão fiscal e uma forte atuação para debelar o câmbio e a inflação altas no País.

O líder do PSDB do Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), avaliou a queda de popularidade da presidente como um “tombo catastrófico, um sinal amarelo”. Para ele, Dilma desperdiçou a capacidade de liderança que tinha para fazer reformas importantes, como a tributária, enquanto ainda apresentava elevados índices de aprovação. “A capacidade de atuação agora fica mais difícil. Ela não atuou quando tinha gordura para queimar. Mas ainda há tempo, desde que se disponha a fazer a atribuição dela e não perca seu tempo com manobras políticas como a do plebiscito”, afirmou.

O parlamentar disse ainda que o Congresso Nacional tem boas lideranças, mas falta uma conversa que parta da presidente e seja capaz de sensibilizar inclusive a oposição, que “nunca se negou a apoiar com aquilo que pode para melhorar o país”.

Veja também:
link Popularidade de Dilma cai de 57% para 30%, indica Datafolha 
link Queda de popularidade de Dilma é insatisfação com a classe política, diz Aécio 
link Dilma está tranquila com pesquisa, diz ministro das Comunicações

 

Sobre as manifestações (OESP)

Onda de protestos no País já tem seis mortes

Na quarta-feira, estudante de 21 anos morreu ao cair de viaduto em Belo Horizonte e jovem de 16 foi atropelado no Guarujá

27 de junho de 2013 | 10h 37

Subiu para seis o número de mortes ligadas à onda de manifestações pelo País. Em Belo Horizonte, o estudante Douglas Henrique Oliveira, de 21 anos, morreu ao cair de um viaduto durante protesto nessa quarta-feira, 26. Também na noite de quarta, um jovem de 16 anos morreu atropelado por um motorista que desviou o caminhão de uma manifestação em um acesso à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, no Guarujá (SP).

Na segunda-feira, 24, duas mulheres foram atropeladas durante um protesto em uma rodovia de Cristalina, em Goiás. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida morreram no local e o condutor fugiu sem prestar socorro. A Polícia Civil avalia se pede ou não a prisão temporária do motorista, Carlos Baromeu Dias, que depôs nessa quarta-feira, 26. Na quinta-feira, 20, o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, foi atropelado e morto por Alexsandro Ishisato de Azevedo, que avançou sobre as pessoas que protestavam em Ribeirão Preto (SP). A prisão do acusado já foi decretada. Na sexta-feira, 21,morreu em Belém a gari Cleonice Moraes, de 54 anos, que foi intoxicada por gás lacrimogêneo ao tentar fugir de confusão em protesto.

No Guarujá, o jovem morto estava de carona na bicicleta do amigo. Ele foi socorrido no Pronto-Atendimento Médico da Rodoviária, mas não resistiu aos ferimentos. O amigo, de 17 anos, ficou gravemente ferido, mas não corre risco de morte. Em depoimento prestado à polícia, ele disse que o motorista acabou arrastando os rapazes. O caminhoneiro foi preso em flagrante e levado à delegacia-sede do município, na Avenida Puglisi. De acordo com o motorista, ele tentou desviar o veículo de uma manifestação de protesto e não viu quando os jovens foram atropelados. Por isso, continuou dirigindo.

Em Belo Horizonte, segundo testemunhas, Douglas Oliveira tentou pular de uma pista do viaduto José Alencar para outra, mas caiu no vão que há no meio do viaduto. Ele foi levado de helicóptero pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII com fraturas múltiplas e traumatismo craniano e foi submetido a cirurgia, mas não resistiu.

Um vídeo divulgado na internet mostra a queda (aos 50 segundos). O acidente ocorreu no fim da tarde, quando um grupo de vândalos protagonizava um embate com os militares que faziam a segurança no entorno do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, onde o Brasil enfrentava o Uruguai por uma das semifinais da Copa das Confederações. Além de Douglas, Daniel de Oliveira Martins, de 28 anos, também caiu do viaduto durante o tumulto, mas foi socorrido com quadro menos grave, sem risco de morte.

*   *   *

Hotéis do Rio têm queda de ocupação com onda de protestos

Região mais prejudicada foi o centro, a preferida dos manifestantes: a taxa de cancelamento de reservas foi de 27,57%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis

26 de junho de 2013 | 14h 37
Roberta Pennafort – O Estado de S. Paulo

RIO – Iniciada dia 6, a onda de protestos no Rio – em parte, violentos – trouxe prejuízos para a indústria hoteleira. De acordo com pesquisa divulgada nesta quarta-feira, 26, pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih-RJ), relativa ao período de 17 a 24 de junho, o temor dos visitantes fez com que houvesse queda de ocupação. A região mais prejudicada foi o centro, a preferida dos manifestantes: a taxa de cancelamento de reservas foi de 27,57%.

Entre os bairros de Flamengo e Botafogo, o índice de cancelamentos foi de 12%; na área de Copacabana e Leme, a mais turística da cidade e com o maior número de hotéis, 7,14%; Ipanema e Leblon, 4,96%. Na Barra da Tijuca o índice não chegou a 1%.

“Os números confirmaram as estimativas da Abih-RJ de que acontecessem pontualmente cancelamentos nos locais onde as maiores manifestações se concentraram”, informou nota da entidade. No período estudado foram realizadas seis manifestações no Rio.

*   *   *

Acompanhe os desdobramentos dos protestos pelo País (OESP)

27/06/2013

22h23 – SALVADOR – Um confronto entre policiais e manifestantes na Estação da Lapa, em Salvador, no início da noite desta quinta-feira, manchou a manifestação pacífica promovida ao longo da tarde pelo Movimento Passe Livre na cidade. Cerca de 1,5 mil manifestantes, segundo a PM, participaram do ato, caminhando pelos 2 quilômetros que separam a Praça do Campo Grande e a Prefeitura, no centro da cidade.

O confronto começou por volta das 18h30, cerca de uma hora depois de as lideranças do movimento decidirem que a manifestação estava encerrada. Segundo os organizadores, o ato foi concluído quando os objetivos principais do protesto – protocolar a pauta de 21 reivindicações para a mobilidade urbana da cidade na Prefeitura e agendar uma audiência pública sobre o tema – foram alcançados. (Tiago Décimo)

Veja vídeo postado no Youtube pelo internauta brunobellens:

21h55 – Manifestantes continuam bloqueando a  pista expressa da Rodovia Presidente Dutra, no sentido Rio de Janeiro. A interdição, na altura de Caçapava (SP), está agora no km 121 e gera lentidão até o km 134. Acompanhe a situação do trânsito nas ruas da capital e estradas de SP.

21h43– PORTO ALEGRE – A manifestação em Porto Alegre nesta quinta reuniu público bem menor que as 20 mil pessoas da quinta-feira passada e as 10 mil pessoas de segunda-feira desta semana. Também teve carros de som e shows musicais. Uma comissão de 11 representantes dos manifestantes foi recebida pelo governador Tarso Genro, apresentou as reivindicações do movimento e ficou de receber respostas nos próximos dias.

O grupo que se desgarrou e partiu para as depredações saiu gritando “protesto não é festa”. Por volta das 21 h,  o grupo maior deixou a praça e caminhou cinco quadras, até o Largo Zumbi dos Palmares, já na Cidade Baixa, onde permaneceu concentrado, pacificamente. (Elder Olgliari)

21h41 – PORTO ALEGRE – A manifestação pela redução das tarifas do transporte público e mais recursos para educação e saúde causou confusões e alguns confrontos entre ativistas e soldados da Brigada Militar na noite desta quinta-feira, em Porto Alegre. Enquanto a maioria dos cerca de 3 mil participantes do protesto permaneceu diante do Palácio Piratini, um grupo menor, com cerca de cem pessoas, saiu para o outro lado da Praça Marechal Deodoro e atirou pedras e rojões contra o Palácio da Justiça, sede de Judiciário. Na sequência, saiu depredando contêineres de lixo, virando dois deles, e chutando grades de lojas na Rua Jerônimo Coelho e Avenida Borges de Medeiros e se dispersou em direção ao bairro Cidade Baixa. (Elder Ogliari)

21h27 – JOÃO PESSOA – O Terminal de Integração Rodoviário de João Pessoa foi invadido nesta quinta-feira, 27, durante o segundo protesto em favor da redução de tarifas de transportes públicos. Mais de três mil pessoas participaram do ato organizado pelas redes sociais exibindo cartazes e gritando palavras de ordem, segundo a Polícia Militar da Paraíba. O local foi fechado pela Guarda Municipal para evitar vandalismo.

Os manifestantes se concentraram no colégio Lyceu Paraibano, no centro da cidade, onde cantaram músicas e exibiam cartazes. Depois do fim da PEC 37, o alvo agora é a PEC 33, que propõe a revisão de decisões do STF pelo Legislativo. Depois do Terminal Rodoviário, os estudantes e famílias seguiram pacificamente até o Paço Municipal, na Praça Pedro Américo. Apenas um grupo ateou fogo em objetos para chamar atenção, mas não houve incidentes maiores.

Os jovens seguiram até a Praça Três Poderes – local onde se concentra a Assembleia Legislativa da Paraíba, o Tribunal de Justiça e o Palácio da Redenção, sede do governo do Estado. Pediram políticas na educação, saúde e menos corrupção. (Janaína Araujo)

21h08 – A Rodovia Presidente Dutra está com a pista expressa bloqueada no sentido Rio na altura do km 133, em Caçapava (SP), por causa de uma manifestação. Acompanhe a situação das estradas paulistas no Blog do Trânsito. A fila de veículos se estende até o km 128.

20h10 – BAURU– Cerca de 400 manifestantes bloquearam no começo da noite desta quinta-feira a Rodovia Marechal Rondon, em  Bauru, no centro-paulista, para exigir melhorias no transporte coletivo. Eles fecharam a estrada nos dois sentidos. A Polícia Rodoviária desviou o trânsito. Ao menos 100 policiais militares acompanham o protesto.

O cancelamento no aumento do preço da passagem, desconto de 50% para estudantes de qualquer idade e a construção de um novo terminal rodoviário são as principais exigências dos manifestantes.

Até agora há pouco a rodovia continuava interditada. Os prédios da Prefeitura e da Câmara de Vereadores estão com a segurança reforçada. Não houve incidentes. É a terceira manifestação este mês em Bauru. (Sandro Villar)

19h14 – RIO –  Manifestantes que partiram da Igreja da Candelária, no  Rio, por volta das 17h30, se aproximam da Assembleia Legislativa (Alerj). A passeata é pacífica e acompanhada por policiais militares, que também fazem um cordão de isolamento na Alerj.

18h53 – Veja galeria de fotos dos protestos em Fortaleza:

18h16 – RIO – Na manifestação que segue pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio, as pessoas levam faixas e cartazes pela desmilitarização da PM e lembram a morte de dez pessoas, na operação ocorrida na segunda-feira, 24, na Favela Nova Holanda, uma das comunidades do Complexo da Maré.

“A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela”, é o dizer de uma das faixas da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Mais cedo, um grupo de estudantes e moradores do Complexo da Maré se reuniu no Largo São Francisco, em frente ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ para discutir a ação da polícia e confeccionar cartazes para o ato. Eles marcaram ato ecumênico na Favela Nova Holanda, em memória dos dez mortos em confronto com a polícia militar, para terça-feira, 2. (Heloisa Aruth Sturm). Veja galeria de fotos.

18h00 –  A aula pública organizada pelo Passe Livre na frente da Prefeitura de São Paulo já começou e reúne cerca de 400 pessoas no calçadão em frente ao Edifício Matarazzo. O professor que iniciou o evento foi o  ex-secretário municipal dos Transportes Lúcio Gregori, que atuou na gestão de Luiza Erundina, nos anos 1990. Ele defende a tarifa zero no transporte público, que, na sua visão, deveria seguir a lógica de serviços como a coleta de lixo e a saúde, cujos custos já estão embutidos nos impostos. (Renato Vieira)

18h00 – PORTO ALEGRE – A 22ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sulmanteve a tarifa de R$ 2,85 para o transporte coletivo de Porto Alegre. A decisão foi tomada nesta quinta-feira, em julgamento de recurso das empresas de ônibus contra despacho de primeiro grau que havia reduzido o valor dos R$ 3,05 para o patamar atual.

A ação foi movida pelos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchionna, ambos do PSOL, para contestar o reajuste de R$ 2,85 para R$ 3,05 estabelecido em 22 de março. Em 4 de abril o Juiz de Direito Hilbert Maximiliano Akihito Obara, da 5ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central, deferiu a tutela antecipada e determinou a volta à tarifa anterior. A decisão do Tribunal considerou as desonerações de impostos sobre componentes do cálculo da tarifa ocorridas desde então. Os dois vereadores anunciaram que moverão nova ação porque entendem que o preço pode cair ainda mais. (Elder Ogliari)

17h41 – FORTALEZA – Depois que a Força Nacional foi acionada, a situação começou a ficar menos tensa nas imediações da Arena Castelão, onde jogam Espanha e Itália pela Copa das Confederações . Um canhão sônico foi utilizado para afastar os manifestantes. O equipamento é semelhante ao usado para evacuar o Parque Zuccotti, em Nova York, encerrando o acampamento do movimento Occupy Wall Street.

Grupo rompe isolamento das grades perto do Castelão. Foto: Natacha Pisarenko/AP

Dependendo da distância, a arma provoca desorientação, tontura, náuseas e dores no peito. Protetores de ouvido não são suficientes para se proteger. O de Fortaleza chegou a ser testado antes de ser utilizado na manifestação. De acordo com as autoridades locais, a menos de 20 metros no volume máximo não havia provocado ânsia de vômitos ou náuseas.

Mais cedo, manifestantes se aproximaram de um cordão de  isolamento de policiais na Arena Castelão e houve confronto. (Lauriberto Braga)

 

Em um dos momentos mais tensos, manifestantes atearam fogo em veículos. Foto: Natacha Pisarenko/AP

17h36 – RIO – Teve início há pouco a passeata no centro da cidade. Cerca de mil manifestantestomaram todas as faixas da Avenida Rio Branco. Quase não se veem cartazes, mas há muitas bandeiras, como as do PSTU, MST e do DCE da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No último ato, as pessoas que levaram bandeiras foram hostilizadas. Mil e quatrocentos policiais, de três batalhões, acompanham a passeata. (Heloisa Aruth Sturm)

17h32– Veja depoimento de uma das representantes do Passe Livre, Luíza Madetta, de 19 anos.

 

17h19 – SÃO PAULO – A aula pública organizada por membros do Movimento Passe Livre  em frente à Prefeitura reúne cerca de 250 pessoas.  Os temas a serem discutidos serão a viabilidade da tarifa zero na capital e a mobilidade urbana de uma forma geral.

Público espera pela aula pública na frente da Prefeitura, no Viaduto do Chá, centro de São Paulo. Foto: Renato Vieira/Estadão

Cadeiras foram colocadas na frente da sede do governo municipal, cujas grades de proteção foram retiradas a pedidos dos organizadores do evento, para que  os interessados possam ocupar o  calçadão – apesar do que ocorreu na terça-feira passada, 18, quando vândalos destruíram vidraças e picharam o Edifício Matarazzo. O clima é pacífico e policiais militares  acompanham  a movimentação do outro lado da rua, onde também há uma viatura da Guarda Civil Municipal (GCM). (Renato Vieira)

ex-secretário municipal dos Transportes Lúcio Gregori, que atuou na gestão de Luiza Erundina, nos anos 1990, será um dos palestrantes, ao lado do professor Paulo Arantes, do Departamento de Filosofia da USP. Gregori é um dos idealizadores do conceito de tarifa zero nos ônibus de São Paulo.

17h01 – Os protestos que acontecem em todo o Brasil desde o começo de junho já deixaram umsaldo de seis mortos, alguns deles atropelados por motoristas presos nas manifestações.

Clique no mapa para ver o mapa em tamanho ampliado e ter mais detalhes sobre cada caso.

16h53 – RIO – Cerca de 250 pessoas estão reunidas neste momento na Igreja da Candelária, de onde sairão em breve em direção à Cinelândia para iniciar o 13.º protesto na cidade do Rio de Janeiro. Um grupo de 30 indígenas da Aldeia Maracanã participa do ato. Nesta tarde, os advogados da Aldeia entraram com novo recurso na Justiça para tentar a reintegração de posse do antigo Museu do Índio, de onde foram obrigados a sair por causa das obras no estádio do Maracanã.

“Viemos aqui pedir apoio à população”, disse o advogado Aarão da Providência Araújo Filho, índio da etnia guajajara.

Policiais de três batalhões vão acompanhar o protesto. Em frente à Assembleia Legislativa, que sofreu ataques em duas manifestações, está um grupo de 60 PMs. Antes de chegar à Cinelândia, os manifestantes pretendem ir à Rua da Assembleia, onde fica a sede da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro), entidade que congrega os dez sindicatos de empresas de ônibus no Estado. (Heloisa Aruth Sturm)

16h49 – FORTALEZA – Policiais e parte dos manifestantes se enfrentaram na avenida Dedé Brasil antes de começar o jogo entre Itália e Espanha, nesta quinta-feira, na Arena Castelão, em Fortaleza. Um ônibus que conduzia torcedores foi invadido e apedrejado . Pedras, vidros e bombas caseiras estão sendo arremessados contra o Batalhão de Choque. Jornalistas são aconselhados pelos policiais a se afastarem.

Foi ateado fogo em um carro da TV Diário. Outro, da TV Jangadeiro, foi depredado. Balas de borracha estão sendo usadas pelos policiais contra os manifestantes. A Cavalaria continua tentando dispersar o grupo. Algumas pessoas correram para ruas intermediárias.

Pelo menos cinco policiais já foram socorridos pela ambulância dos Bombeiros. Entre eles há homens da Cavalaria que foram atingidos na perna por pedras e bolas de gude. Helicópteros da Força Nacional sobrevoam a área. (Lauriberto Braga)

16h37– SÃO PAULO – o Movimento Passe Livre, organizador da  série de atos pela redução  da tarifa de ônibus em São Paulo, promoverá nesta quinta-feira, 27, uma aula pública em frente à Prefeitura de São Paulo sobre tarifa zero e mobilidade urbana. O evento ocorrerá a partir das 17h no Viaduto do Chá, em frente à sede do governo municipal. Caso chova, segundo o MPL, a ação será realizada embaixo do viaduto.

ex-secretário municipal dos Transportes Lúcio Gregori, que atuou na gestão de Luiza Erundina, nos anos 1990, será um dos palestrantes, ao lado do professor Paulo Arantes, do Departamento de Filosofia da USP. Gregori é um dos idealizadores do conceito de tarifa zero nos ônibus de São Paulo. (Caio do Valle)

16h31 – SALVADOR –  A chuva atrapalha a caminhada do Movimento Passe Livre em Salvador, nesta quinta-feira. O protesto teve saída da Praça do Campo Grande pouco antes das 15h, uma hora depois do previsto pelos organizadores. Eles pretendem caminhar cerca de 2 quilômetros até a Prefeitura, no centro histórico, onde querem se encontrar com o prefeito ACM Neto (DEM).

O número de manifestantes no início da caminhada era pequeno, cerca de 500 pessoas, mas deve crescer durante o trajeto, com a passagem do grupo pela Avenida Sete de Setembro, tradicional ponto de comércio popular na cidade. A maioria das lojas da região fechou as portas depois das 14h – muitas instalaram tapumes de madeira para proteger as fachadas de vidro.  (Tiago Décimo)

16h10 – FORTALEZA – Por volta do meio-dia houve confronto entre um pequeno grupo de manifestantes e PMs e homens da Força de Segurança Nacional na Avenida Dedé Brasil, no entorno do estádio Castelão.  A capital cearense recebe o jogo entre Espanha e Itália pela semifinal da Copa das Confederações. A manifestação seguiu pacífica em seguida, mas há muito entulho na rua. (Tobias Saldanha)

Jogos na Copa das Confederações tem sido antecedidos por protestos, especialmente contra os gastos do governo para realizar a Copa do Mundo. Foto: Natacha Pisarenko/AP

15h58 – RECIFE – Sete pessoas detidas e dois menores apreendidos por depredação, resistência ou roubo e três policiais atingidos por pedras. Este foi o balanço da manifestação realizada na quarta-feira, 26, e organizada por estudantes, no Recife. O balanço foi divulgado nesta quinta-feira,27, pelo secretário estadual da Defesa Social, Wilson Damázio.

A presidente do Diretório Central dos Estudantes da faculdade Fafire, Cryslaine Maria da Silva, de 19 anos, chegou a ser encaminhada para a Colônia Penal Feminina porque não pagou a fiança estipulada em R$ 5 mil. De acordo com a polícia ela foi detida por agredir “com bombas e pedradas um funcionário público no exercício da função”. (Angela Lacerda)

15h52 – Acaba de ser aprovada na Câmara Municipal de São Paulo a CPI dos Transportes, que irá investigar a contas do setor na capital paulista. Por 40 votos favoráveis e 11 contrários, a Casa criou uma comissão comandada pela base governista do prefeito Fernando Haddad (PT). O grupo terá a tarefa de investigar, a partir de agosto, os contratos bilionários da Prefeitura com as empresas de ônibus e peruas.

Veja repercussão da medida entre manifestantes que protestavam na porta da Câmara nesta tarde:

 


15h46 – RIO – O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), reuniu-se hoje durante cerca de uma hora e meia com cinco manifestantes que participaram do acampamento montado em frente ao prédio onde o governador mora, no Leblon, na zona sul.

Ao final da reunião, só um dos manifestantes, que se identificou como Eduardo Oliveira, atendeu a imprensa. Ele afirmou que ainda não tem uma pauta de reivindicações completa e que, durante a reunião, pediu que o governo “controle as manifestações, porque as pessoas estão se sentindo
Inseguras”.

Eduardo disse que integra um grupo chamado “Somos o Brasil” e ele e os quatro colegas romperam com os demais acampados. Por isso, o quinteto já deixou de participar do grupo que se mantém desde sexta-feira na porta da casa de Cabral.(Fábio Grellet)

15h38 – A onda de protestos pelo País desde o começo de junho já deixou  seis mortos até esta quinta-feira, 27. Em Belo Horizonte, o estudante Douglas Henrique Oliveira, de 21 anos, morreu ao cair de um viaduto durante protesto nessa quarta-feira, 26. Também na noite de quarta, um jovem de 16 anos morreu atropelado por um motorista que desviou o caminhão de uma manifestação em um acesso à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, no Guarujá (SP).

Na segunda-feira, 24, duas mulheres foram atropeladas durante um protesto em uma rodovia de Cristalina, em Goiás. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida morreram no local e o condutor fugiu sem prestar socorro. A Polícia Civil avalia se pede ou não a prisão temporária do motorista, Carlos Baromeu Dias, que depôs nessa quarta-feira, 26. Na quinta-feira, 20, o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, foi atropelado e morto por Alexsandro Ishisato de Azevedo, que avançou sobre as pessoas que protestavam em Ribeirão Preto (SP). A prisão do acusado já foi decretada. Na sexta-feira, 21,morreu em Belém a gari Cleonice Moraes, de 54 anos, que foi intoxicada por gás lacrimogêneo ao tentar fugir de confusão em protesto.

No Guarujá, o jovem morto estava de carona na bicicleta do amigo. Ele foi socorrido no Pronto-Atendimento Médico da Rodoviária, mas não resistiu aos ferimentos. O amigo, de 17 anos, ficou gravemente ferido, mas não corre risco de morte. Em depoimento prestado à polícia, ele disse que o motorista acabou arrastando os rapazes. O caminhoneiro foi preso em flagrante e levado à delegacia-sede do município, na Avenida Puglisi. De acordo com o motorista, ele tentou desviar o veículo de uma manifestação de protesto e não viu quando os jovens foram atropelados. Por isso, continuou dirigindo.

Protestos apressam votação da lei de crimes de terrorismo no Brasil (Sul 21)

26/jun/2013, 9h44min

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Rachel Duarte

Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado poderá ser enquadrado como terrorismo no Brasil. Está prevista para esta quinta-feira (27) a votação do projeto de lei 728/2011 que tipifica o crime de terrorismo, ainda não regulamentado no país. O texto será colocado em pauta em pleno contexto de sucessivos protestos nos estados brasileiro que estão sendo respondidos de forma repressiva pelo braço armado do estado. O motivo da urgência na aprovação, segundo a Comissão Mista que discute o tema no Congresso Nacional é a proximidade da Copa do Mundo de 2014. Especialistas avaliam como temerária a proposta, uma vez que aponta para os problemas da segurança urbana soluções com base na Lei de Segurança Nacional. “Isto é retroceder ao estado de exceção”, critica o professor da Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), Eduardo Pazinato.

A Constituição Federal prevê o crime de terrorismo, mas não estabelece pena nem tipifica as ações. Apenas a Lei de Segurança Nacional, editada na década de 1980, menciona o terrorismo, mas ainda com redação feita durante o regime militar. Porém, a minuta do texto em iminente aprovação no Congresso tem referência no texto da reforma do Código Penal e outros 43 projetos de lei, além de nove tratados, protocolos e convenções internacionais. Os crimes de terrorismo serão imprescritíveis, com pena cumprida em regime fechado, sem benefício de progressão e devem variar de 24 a 30 anos de cadeia.

Será considerado terrorismo ainda as ações que provoquem pânico generalizado praticadas por motivos ideológicos, políticos, religiosos e de preconceito racial, o que abre brecha para classificar como terroristas integrantes de movimentos sociais que cometerem crimes durante protestos públicos, acredita o coordenador do Núcleo de Segurança Cidadã da FADISMA, Eduardo Pazinato. “Este texto acompanha a tendência internacional de lei e ordem que propõem mais leis penais para resolver problemas contemporâneos. Por meio do discurso da pacificação, se aumenta a criminalização das pessoas e os encarceramentos. Utilizar o paradigma da segurança nacional para regular a segurança urbana proporcionará a criminalização dos movimentos sociais, uma vez que parte de um movimento de massa poderá ser entendida como terrorismo”, explica.

Ou seja, se a nova lei já estivesse em vigor, os manifestantes que invadiram as ruas do país nos últimos dias contra o aumento da passagem e a postura repressiva da polícia militar poderiam ser enquadrados como terroristas em razão de algumas práticas excessivas. “Isto é temerário nesta conjuntura de grandes eventos no país, em que inúmeras reivindicações populares surgem nas ruas. Está se preconizando mais uma vez um novo tipo penal para aumentar penas e reduzir direitos de minorias que serão enquadradas como praticantes de delitos, ao invés de buscar resposta para as cobranças da sociedade que não sejam por meio da criminalização”, avalia Pazinato.

“Repressão é resposta política dos governos contra a mobilização social”, critica ativista gaúcho

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Para o ativista em Software Livre, Marcelo Branco, que esteve nos diversos manifestos realizados em Porto Alegre no último período, “o 1% que faz quebra-quebra nos protestos são pessoas marginalizadas pelo próprio estado e que cansaram de cobrar nas manifestações’. De toda forma, ele reconhece que tais práticas não podem ser toleradas pelas autoridades, porém ressalta que responder com mais autoritarismo é a pior escolha do estado. “A violência policial em relação aos protestos que estão acontecendo em Porto Alegre e em todo o país não se justifica. Mesmo se concordamos ou não com a razão dos protestos, reivindicar pacificamente nas ruas é algo legítimo. A luta popular já deixou de ser em relação ao preço das passagens, é para cobrar a resposta dos governos a esta brutal repressão que se ergueu no país”, fala.

Segundo o ex-coordenador da campanha da presidenta Dilma Rousseff na internet, as redes sociais possibilitaram uma nova organização social das lutas no mundo, que não pode ser controlada pelo estado. E esta, seria a principal razão de uma reação tão extrema por parte das autoridades. “Eles não tem líderes definidos, porque a organização é horizontal na rede, então, agem de forma generalizada com bombas, gás e balas de borracha contra civis desarmados”, qualifica Branco.

Na visão do especialista em segurança pública Eduardo Pazinato, os chamados ‘novíssimos movimentos sociais’, organizados pela internet, não tem a mínima semelhança com práticas terroristas para se justificar uma legislação neste sentido no país. “O terrorismo é uma ação coletiva por um propósito de conjuntura onde se aplica a violência de forma deliberada. Não é o que estes movimentos pretendem. A dinâmica deles é uma luta democrática que não pode ser encarada com endurecimento penal máximo. Isto é uma atitude populista do governo que busca atingir o senso comum demonstrando ‘eficiência do estado’ para enfrentar a questão da violência. Isto é o que está declarado nesta votação em meio aos protestos. O que é equivocado, pois não há direito à segurança sem a garantia da segurança a outros direitos fundamentais”, salienta.

“Intenção nunca foi criminalizar os movimentos sociais”, diz deputado Vaccarezza

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

O presidente da comissão de consolidação de leis e de dispositivos constitucionais, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que a intenção da proposta não é e nem nunca foi criminalizar movimentos sociais. “Nossa Constituição é genérica neste ponto e precisamos deixá-la clara justamente para evitar que juízes possam interpretar que ações de massa são terrorismo, especialmente agora que teremos grandes eventos, pessoas de vários lugares do mundo. É preciso regulamentar”, defende.

Segundo Vaccarezza, a comissão mista para regulamentação das leis nacionais ainda está debatendo a matéria e aceita sugestões pela internet. “No site do Senado está a minuta do projeto e queremos a contribuição de todos. Estamos falando com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e vamos falar com o ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) e com o Supremo Tribunal Federal (STF)”, fala.

No dia 18 de junho, o deputado esteve reunido com o relator do texto no Senado Federal, senador Romero Jucá (PMDB-RR). A intenção da comissão é votar o texto nesta semana. “Se não for possível, aguardaremos e reapresentamos mais tarde”, garante Vacarezza.

POSTV, de pós-jornalistas para pós-telespectadores (Observatório da Imprensa)

ECOS DO PROTESTO

Por Elizabeth Lorenzotti em 25/06/2013 na edição 752

Como diria Henfil, deu até no New York Times. “One group, called N.I.N.J.A., a Portuguese acronym for Independent Journalism and Action Narratives, has been circulating through the streets with smartphones, cameras and a generator held in a supermarket cart – a makeshift, roving production studio” (NYT, 20/6/2013, íntegra aqui).

N.I.N.J.A., sigla em português para Narrativas Independentes Jornalismo e Ação é o grupo responsável pela POSTV, sua mídia digital independente. E não nasceu agora, mas há um ano e meio, e está ancorada no movimento nacional Circuito Fora do Eixo. Nas manifestações que tomaram as ruas de várias capitais, ganhou maior visibilidade e chegou a picos de audiência de 120 mil espectadores. O que significa uma marca de 1,2 dos ibopes oficiais – e não é pouco, pois muitos programas da TV aberta não o atingem.

Nesses tempos fora do eixo e de paradigmas, talvez seja este o embrião da nova mídia do futuro que já é hoje – uma POSTV feita por pós-jornalistas, para pós-telespectadores.

Com seus smartphones e câmeras, eles protagonizam uma grande novidade na cobertura dessas manifestações e na alternativa à mídia tradicional. Segundo um dos ninjas, Bruno Torturra, trata-se de outra concepção de mídia. E sua diferença com a tradicional começa pela “honestidade, a ética, o posicionamento integrado dentro dos protestos e não lançando mão de analistas; sem drones, sem helicópteros, mas testemunhando. E a credibilidade pela não edição, a não mediação de interesses comerciais. A grande mídia teve e tem grande papel no tamanho da alienação política do país”.

“Tenho de ficar”

Mas o que é, e como é feita a POSTV? Na semana passada, no meio das manifestações, um garoto tuitava: “Não precisamos de mídia partidarista, temos celulares!”.

Síntese perfeita de novos tempos aos quais os jornalistas da mídia tradicional precisam ficar atentos. Enquanto a Globo ficava do alto de edifícios, sitiada, a mídia independente sempre esteve no meio das ruas nesses dias de rebelião. “Estamos aqui, do alto deste edifício”, diziam os repórteres globais. Mas quem quer ficar vendo manifestação do alto de edifícios?, eu me perguntei. E fui às redes, onde encontreiwww.postv.orgpor meio de chamadas no Facebook, onde o N.I.N.J.A. tem uma página.

E vi, na noite/madrugada de terça-feira (18/6), a cobertura de Filipe Peçanha, 24 anos, comunicador da Casa Fora do Eixo já há alguns anos, documentando ao vivo, em São Paulo, durante horas e sem edição, os embates entre manifestantes e a tropa de choque da Polícia Militar, desde a Praça da Sé até a Avenida Paulista. “Antes de a polícia chegar, a manifestação era totalmente pacífica. Saímos por volta das 17 horas, demos a volta pelo Parque Dom Pedro, subimos de novo para a Sé, partimos para a Augusta. Em todo o trajeto que acompanhei, enquanto não houve polícia não houve tumulto. Daí voltamos porque soubemos dos incidentes na sede da Prefeitura. E voltamos para a Paulista, porque a tropa de choque foi para lá.”

Chegaram às 20 horas, não havia mais muitos manifestantes. Mas o painel da Copa do Mundo, da Fifa com Coca Cola, foi incendiado. Caíram muitas latinhas, um catador veio retirar e os manifestantes disseram: “Que bom, pelo menos alguém aproveita alguma coisa da Coca Cola”.

Estes relatos todos foram feitos pela POSTV. Quando chegou a polícia, manifestantes foram muito agredidos e um deles praticamente enforcado por meia dúzia de policiais. Filipe entrevistou dois rapazes de branco que ajudaram a apagar o fogo.

– Quem são vocês? Bombeiros?

– Não, nós somos protestantes.

– Protestantes? Da igreja?

– Não, viemos aqui por vontade própria protestar, mas somos contra o vandalismo.

“Depois”, conta Filipe, “entrevistei os dois de novo, sentados no meio fio. Um deles disse que tirar as latinhas do painel tudo bem, mas incendiar não, e que a PM estava de parabéns por ter acabado com aquilo.”

O repórter comentou: “Não, eu vi muita violência da PM, acho que você não viu o que eu vi”.

“Coloquei o meu ponto de vista”, diz Filipe.

Alguns criticam, via Twitter, e dizem que a cobertura não é plural. Responde Filipe: “Nós documentamos o que está acontecendo do ponto de vista de quem participa também. A Mídia Ninja se compreende como narrativa independente de jornalismo e ação, e essa ação é o ativismo, que nos coloca em movimento em tempo real, não só fazendo produção de conteúdo, mas também nos envolvendo com o processo. O Ninja está envolvido com as manifestações de rua. A gente estava dentro, junto com os manifestantes”.

Portanto trata-se de uma cobertura com lado. Mas quem não tem?

No meio das manifestações, eles dão voz a gente de todos os tipos e matizes, numa espécie de método socrático de entrevista. Como o rapaz que se dizia a favor do Movimento Passe Livre (MPL), mas contra partidos.

– E como você acha que deveriam dirigido o país?

– Ah, eu acho que quem devia dirigir é uma mulher de cabelos vermelhos que começou o movimento, não sei o nome dela.

– O país deveria ser dirigido por ela?

– É, eu acho. E não devia ter partidos.

– Mas o MPL não é contra partidos, você não apoia o movimento?

– Apoio, mas não nessa parte.

Um certo major Felix, durante os conflitos na Paulista, também foi entrevistado. Depois de muito tempo, deu este nome.

– Por que o senhor não está com a identificação na farda?

– (Sem resposta)

– Quem é seu comandante?

– Não sei.

– O senhor é comandando por ele e não sabe o nome dele?

Outra entrevista, feita em Belo Horizonte, palco de repressão violentíssima da Força Nacional em dia de jogo, no sábado (22/6), houve outra entrevista parecida feita por Gian Martins. Transmiti a íntegra do Facebook, onde muitos de nós sabemos que há censura e a sentimos, mas foi deletada, junto com vários outros posts referentes às manifestações. Mais ou menos assim, era uma espécie de coletiva de um coronel no meio da rua:

POSTV- A proibição de manifestações em capitais onde há Copa, imposta pela Fifa, na cria um Estado de exceção?

Coronel – Não posso opinar, mas quando você elege um representante político, está dando a ele um cheque em branco…

Depois de algum tempo a POSTV se retira e comenta: “Jornalistas são muito redundantes em suas perguntas, só querem saber quantos feridos.

Repórter do Hoje em Dia: “Que pergunta não foi feita?”

POSTV quer que conversem, mas o colega vai embora.

“É uma pena”, diz ele, “poderia ser um bom debate.”

Em certo momento a POSTV, junto a várias pessoas, leva gás lacrimogêneo e ninguém tem vinagre. Um fogo de artifício desencadeou o gás e muitas cacetadas.

“Estou com medo”, diz o repórter da POSTV na Praça Sete, que já estava havia doze horas trabalhando direto.

Já em Salvador, um colaborador que se juntou à POSTV no sábado (22/6), também dia de jogo de Copa e de manifestações, e de repressão violenta, que conquistou 8 mil pós-espectadores, exclamava: “Quero ver agora quem diz que baiano é preguiçoso”, enquanto corria esbaforido da polícia pelas ruas de Salvador. Atingido por gás pimenta, foi se recuperar no banheiro do Shopping Iguatemi, teve de tirar a camiseta e lavar, porque “ardia como churrasquinho”.

“Eu não vou embora, eu tenho de ficar” ele dizia. Em outro momento, comentou que um policial pediu para diminuírem o gás. Nem eles estavam aguentando.

Colaboradores no Brasil e no exterior

Pós-repórteres “precisam ter disposição e também coragem de ficar no meio dos manifestantes, questionar a polícia e os próprios manifestantes”, diz Bruno Torturra.

O bravo pós-repórter de Salvador é novíssimo membro da mídia, ofereceu seus serviços em cima da hora. Assim tem acontecido na POSTV por esses dias. Muita gente chegando, de todo o país e do exterior – onde várias transmissões são feitas na Europa, com brasileiros se solidarizando ao movimento.

No domingo (23/6), a página do NI.N.J.A. no Facebook postou uma convocação de correspondentes para ajudar na cobertura em tempo real dos protestos:

“Fotógrafos, repórteres, cinegrafistas, cidadãos a fim de entrar em nossas tropas, escrevam para midianinja@gmail.com dizendo de onde são e como podem colaborar. Estamos começando a cadastrar gente do país todo. Primeiro passo na montagem de uma rede nacional de jornalismo independente antes do lançamento do nosso site. Quem anima?”

Em 30 minutos já havia 125 compartilhamentos. No dia 24, até às 19 horas, havia 735 “curtir” e 413 compartilhamentos. Gente oferecendo material de todos os cantos, gente perguntando o que é preciso, muita gente.

Segundo Bruno Torturra, é impossível dizer o número de colaboradores porque, devido ao caráter de rede, há pessoas que se dispõem a ser um ninja por um dia, ou por horas. Na quinta-feira (20/6), o N.I.N.J.A. cobriu 50 cidades. Em São Paulo, o núcleo é de seis a oito pessoas, com idade média de 22 anos e nenhum com formação jornalística.

A cobertura via internet chama-se streaming. Da Wikipédia:

Streaming, fluxo de mídia, é uma forma de distribuir informação multimídianumaredeatravés de pacotes. É frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimédia através da Internet. Em streaming, as informações multimédia não são, usualmente, arquivadas pelo usuário que está recebendo o stream (a não ser a arqueação temporária no cache do sistema ou que o usuário ativamente faça a gravação dos dados) – a mídia é reproduzida à medida que chega ao usuário, desde que a sua largura de banda seja suficiente para reproduzir os conteúdos em tempo real. Isso permite que um usuário reproduza conteúdos protegidos por direitos de autor, na Internet, sem a violação desses direitos, similar ao rádio ou televisão aberta. A informação pode ser transmitida em diversas arquiteturas, como na forma Multicast IP ou Broadcast.”

A POSTV utiliza o TwitCasting, mas é possível usar também o Android, entre outras plataformas. E o trabalho é completamente copyleft. Em todas as praças, eles explicam como transmitem e convocam as pessoas a também serem o que chamam de “midialivristas”. Com um celular, uma banda 3G e um laptop na mochila para recarregar. A cada meia hora saem do ar, recarregam e voltam em minutos. Claro que perdem espectadores; os insistentes voltam, outros chegam.

Há dificuldades de sinal quando há muita gente com celular, há raros locais com wi-fi. “Fazemos cobertura de rua faz tempo, criando tecnologia há um ano e meio”, conta Bruno Torturra. E não é só streaming. A mídia tem fotógrafos que mandam da câmera para o fone, do fone para a rede, e a cobertura é instantânea na página do Facebook. “A gente faz o que dá, mas vai até o fim. Se não tem 3G, temos alguém com carro, que leva o cartão do fotógrafo até onde encontra internet e volta”.

Liberdade de expressão e força da rede

O projeto começou em junho de 2011, após o sucesso das transmissões ao vivo das Marchas da Maconha e da Liberdade, em São Paulo, Depois, foram lançados alguns programas, como o Supremo Tribunal Liberal(Claudio Prado), o Segunda Dose (Bruno Torturra) e Desculpe a Nossa Falha (Lino Bocchini). E começaram as transmissões de festivais independentes de música em todo o país.

Eles explicam que a POSTV, na prática, reinventa e potencializa a tecnologia do streaming, baseando-se em dois pontos centrais: “Liberdade de expressão absoluta (aproveitando que não temos anunciantes nem padrinhos) e a força da nossa rede, que é grande e divulga forte todos os programas”.

Os formatos também são livres: programas de debate, transmissão de shows, sofá armado no meio da rua com o apresentador entrevistando os passantes. E como estão na internet sempre ao vivo, a interatividade é outro ponto responsável pelo sucesso da iniciativa. Quem está assistindo manda comentários e perguntas por Twitter, e-mail e até mesmo entra por Skype e participa do papo. Já deram vários furos, como as imagens da prisão do rapper Emicida durante um show em Belo Horizonte. E também foi o veículo escolhido pelo ex-ministro Franklin Martins para sua primeira entrevista após deixar o governo.

E o financiamento? Quem sustenta?

A rede Ninja faz parte do Circuito Fora do Eixo; em São Paulo tem base em uma das Casas, no Cambuci. Circuito Fora do Eixo é uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no fim de 2005. Começou com uma parceria entre produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR) que queriam estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos nesta rota desde então batizada de Circuito Fora do Eixo.

Hoje o circuito está em 25 das 27 unidades federativas do Brasil. O sul, o centro-oeste, o sudeste e o norte são regiões totalmente associadas, já que contam com todos os estados inclusos. Há 72 pontos espalhados pelo país, que “gostam de produzir eventos culturais, debater comunicação colaborativa, pensar sustentabilidade, pensar políticas públicas da cultura”.

Dezesseis gestores de diferentes pontos do Brasil migraram para São Paulo, formando a Casa Fora do Eixo SP, nos limites da Liberdade. “Mas basicamente, nós experimentamos, compartilhamos e aprimoramos tecnologias livres de se produzir cultura”, dizem em seu site.

Atualmente a sustentabilidade da POSTV se dá via Circuito Fora do Eixo, mas continuam as discussões sobre crowdfunding – ou financiamento coletivo, que consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo por meio da agregação de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas nos projetos – e toda e qualquer ideia de autossustentabilidade.

Aliás, na terça-feira (25/6) foi convocada uma discussão aberta na Praça Roosevelt, em São Paulo, atual “Praça Rosa”, para “discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial”.

Esta é a integra da convocação

“A cobertura das manifestações mostrou que a velha mídia está mais caduca do que nunca, mas que ainda tem um grande poder. A mídia tradicional no Brasil é concentrada, nada plural e nada diversa. Muitas vezes ela se comporta como um partido político, tentando dar a pauta e organizar os setores mais conservadores. Enquanto isso, a internet tem sido o espaço arejado de diálogo e organização, mas o acesso à rede ainda é limitado a 40% das residências, com um serviço péssimo das empresas de telecomunicações, que ainda querem acabar com a neutralidade da rede. As grandes corporações que atuam na rede faturam bilhões sobre a violação de privacidade dos usuários, e vários governos usam essas informações para controlar os cidadãos. Venha discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial.

Censura no Facebook

No sábado (22/6), amigos denunciaram no Facebook o bloqueio da página do N.I.N.J.A.

“Fomos denunciados por conteúdo impróprio ou pornográfico. Estão ‘analisando o caso’. Mas não tivemos qualquer argumento detalhado ou chance de defesa escrita. Acreditamos que pode ter sido fruto de denúncias de usuários contra fotos da manifestação anti-cura gay, anti-Feliciano de ontem. Fotos em que não havia qualquer pornografia, apenas material de afeto e felicidade explícita. Pedimos que compartilhem e pressionem o Facebook a recolocá-la no ar. Infelizmente, por enquanto, essa é nossa principal plataforma de divulgação da nossa dedicada cobertura independente dos protestos no Brasil.”

A página foi desbloqueada depois de cerca de quatro horas. O mesmo não aconteceu com a do jornalBrasil de Fato, bloqueada desde o dia 16 de junho. Os jornalistas não conseguem postar a não ser com um programa especial (ver aqui).

Portanto, não se trata de paranoia, e existem páginas em todo o mundo denunciando a censura no Facebook. No ano passado, jornalistas, escritores, poetas e artistas protagonizaram um “Dia contra a Censura ao Nu no Facebook”. O robô censor de Mark Zuckerberg atira a esmo e censura qualquer nu, seja de Michelangelo, Leonardo, os grandes clássicos e/ou menos famosos. Nem Lady Godiva escapou. Além de mães amamentando, que são alvos planetários da censura facebookiana. O protesto consistiu em publicar nus variadíssimos e foi parar nos jornais.

Instalou-se a discussão sobre quem censura. Robôs? Censores contratados? Denúncias de anônimos? Muitos concluíram que se trata de todas as alternativas, em vigor até hoje. O portal UOL divulgou texto, no ano passado, afirmando a existência de censores contratados em todo o mundo por um dólar a hora de trabalho. Além de imagens, textos também são censurados. O que se estranha é que, por mais que denúncias sejam feitas, páginas como “Golpe Militar 2014” continuem no ar, assim como páginas neonazistas e propagadoras de violência (ver aqui).

O poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer deste então compõe um dossiê sobre censura nesta rede, que até o dia 24 de junho contabilizava 61 relatos (ver aqui).

***

Elizabeth Lorenzotti é escritora e jornalista, autora de Suplemento Literário – Que Falta ele Faz (ensaio),Tinhorão, o Legendário (biografia) e As Dez Mil Coisas (poesia)

Muita calma agitada nessa hora… (Combate Racismo Ambiental)

Por , 25/06/2013 09:02

Castelão e burro

Em frente ao Castelão das elites, a vala a céu aberto, a negação da cidade ao povo-Nação. Foto captada de vídeo.

Por Cris Faustino, para Combate Racismo Ambiental

É muito provável que no calor da hora não tenhamos como fazer análises mais completa e complexa sobre o que está acontecendo Brasil adentro e Brasil afora. É provável que não se trate de uma revolução, mas é possível que as coisas jamais sejam as mesmas. Ou pelo menos, que haja mudanças, se não estruturantes, ao menos conjunturais nos discursos e nos rumos de algumas políticas e políticos (falo dos ruins, de direita ou esquerda).

Não se pode negar a potência criativa do momento, nem tampouco as preocupações que ele gera. É preciso analisar com a sabedoria possível na excitação, surpresa e perplexidade que nos pegou, enquanto movimentos e lutas sociais (as velhas e os novas), considerando a pressão histórica e a multiplicidade de questões que se impõem agora sobre nós e sobre os outros. Pois, se ficamos estarrecidas com algumas leituras e demandas da multidão revoltada, imagine ela com algumas das nossas. Tampouco se pode perder de vista as desigualdades de condições em que estamos pautando as disputas. Portanto, se é preciso ter firmeza, uma boa dose de humildade no diálogo com a multidão não fará mal.

Contudo, creio que nossa meta imediata deve ser incidir nos rumos do desfecho do que vem se tornando uma confusão, menos dos fatos mobilizadores e mais das leituras da realidade e formas de organização. A movimentação está desorganizada. Se isso a torna ampliada do ponto de vista da multidão que a adere, também a torna suscetível às leituras simplistas, enquadradas e direitistas. Como lidar com isso?

Nesse momento, as divergências entre nós são fatores que podem determinar o tamanho da nossa capacidade de ação coletiva. Mas já temos acúmulo de debates e questões suficientemente construídas para saber o que nenhum de nós quer, ou precisa. Sabemos que não queremos injustiças, desigualdades, racismo, misoginia, homo/lesbo e transfobia, nem na vida cotidiana e nem nos manifestos. Sabemos que, para a quentura do momento, não precisamos e nem temos como ter o fim dos partidos, nem tampouco a negação da participação dos partidos de esquerda nas mobilizações e nas lutas de um modo geral.

Os movimentos sociais críticos que não querem os partidos muito nos ajudam a pensar a realidade, mas precisam se dar conta de que insuflar isso agora não ajuda no nosso esforço e, nem é preciso dizer, favorece as tendências reacionárias e conservadoras. Não queremos o rechaço a nenhuma luta popular que reivindique melhores condições de vida.  Não queremos que políticos e mídias oportunistas tomem definitivamente as rédeas do processo. E, decididamente, não queremos fazer mobilizações com a “playboiada” nazifascistas, e nem queremos a violência do estado contra quem quer seja.

Sabemos que temos que encontrar jeitos de dialogar com as pessoas de boa fé, mas que são influenciadas por lideranças e tendências reacionárias. Sabemos que a massa mobilizada dificilmente teria como organizar um movimento 100% politizado desde as nossas demandas, leituras e jeito de fazer. Provavelmente, boa parte das pessoas envolvidas nas mobilizações não entende a profundidade das questões, ou mesmo sobre as institucionalidades dos fatos e demandas.  Outras tantas compreendem um pouco alguns temas. É possível que muitas não estejam nem sabendo bem o porquê de estarem ali, e que tantas outras vejam apenas nas pessoas dos políticos o mal do País e/ou personificam os problemas e responsabilidade de resolvê-los na pessoa da presidenta. Quanto a isso, é preciso ter paciência, já que em grande parte, é verdade. Particularmente não acho que é uma boa estratégia tentar convencer o povo de que tudo isso é ilusão; não teremos como.

Acho que a tarefa “estruturante” mais possível é tentar incidir de diferentes formas na cultura dos que vão às ruas movidos pelas incertezas e dos que estão olhando de fora a movimentação. Esses últimos estão fortemente pautados pelos interesses da mídia conservadora, tendenciosa e/ou mal informada; pela cultura alienada e alienante. Alguns reconhecem a legitimidade das mobilizações, principalmente sob a perspectiva das “bandeiras nacionais”, mas estão cansados dos transtornos, ou só têm a oportunidade de ver, não com “bons olhos”, principalmente se se sentem ameaçados, o “quebra-quebra”. Disputar o senso comum sobre o significado da violência, desnudando o banditismo cometido pelo estado e capitalistas, assim como reinventar o sentimento coletivo desde uma visão político-solidária, são bons fatores de diálogo.

Os movimentos críticos das cidades precisam se articular, realizar atos gerais e ações individuais. Mas também precisa haver uma liga com os movimentos camponeses, pois muitos dos descontentamentos expressos nas ruas urbanas estão fortemente vinculados ao processo de dizimação dos povos do campo. Esses não podem se furtar a se pronunciar e a colocar a sua força em ação para denunciar suas questões, dialogar com as lutas urbanas.  Potencializar a urgente e necessária articulação campo-cidade é preciso. Se os movimentos do campo não podem vir para as cidades e nem têm como demarcar suas questões no seu local, é preciso que os movimentos e militantes que fazem a “ponte” levantem as problemáticas. Isso não pode ser impossível.

Rechacemos a palavra vandalismo! Se os manifestantes nacionalistas estão mandando mensagens e imagens para a Rede Globo e as outras de seu naipe, precisamos mandar muitas mensagens e imagens de nosso campo para a mídia internacional e para a nossa mídia engajada de todos os dias.

A força dos cartazes é incrível, e parece que isso foi importante para expressão e decisão “saí do facebook”. Interessante observar como fazemos milhares de análises e criamos muitos conceitos engajados que explicam brilhantemente a realidade e que sempre ficam entre nós. É preciso “recomunicar” ainda mais nossas críticas e projetos. As frases de efeito do Facebook dizem logo a “coisa”, de forma direta, simples e descontraída. Além disso, a militância online afinal tem um papel importantíssimo nesse momento e nesse processo todo. Não a desprezemos ou subestimemos!

O sofrimento das pessoas e os privilégios dos poderosos quando contrastados têm muita potencia de indignação. Vale muito denunciar veementemente o coronelismo na política brasileira, o enriquecimento ilícito e as vantagens dos poderosos, em contraste com os problemas denunciados e que são partes do cotidiano de todos: insegurança pública, precarização das políticas e violências entre as classes sociais. Entretanto cair no moralismo das tendências direitistas e do pensamento simplista é um risco a ser atentado. Nas pautas temos que dar nosso tom de forma a dialogar bem com a população.

Existem questões fervilhantes que ajudam muito. Só para falar de alguns: os temas das Copas têm muito potencial, pela pujança das elites e da Fifa, por seu caráter excludente da torcida e pelas suas zonas de sacrifício. O enriquecimento ilícito, a corrupção e perversões dos fundamentalistas contra mulheres, LGBTs, população negra e as diversidades culturais são alvos importantíssimos. A Reforma Política é questão gritante. Sobre o tema dos transportes públicos, vale pautar também o caos urbano das cidades construídas para os automóveis privados e as políticas voltadas para esse modelo de mobilidade urbana, associado à mobilidade social e bem estar individual, que torna as cidades “bombas relógios”. O genocídio contra os povos indígenas, que todos presenciamos, em nome do desenvolvimento também é fator que indigna e envergonha.

Não acho que devamos  ter a pretensão de “direcionar” o movimento ou nos precipitar na armadilha de negociar, mediante representações, pautas com o poder público. O que não impede de elegermos focos de conquistas imediatas que expressem o poder popular. Entretanto “sentar” com autoridades para negociar pode afrouxar precipitadamente a tensão necessária que as autoridades públicas precisam experimentar nesse momento, frente às besteiras e atrocidades que cometem ou se omitem de enfrentar. Ou, de outro modo, pode lhes proporcionar oportunidade de fazerem promessas só para acalmar as massas, justificar políticas injustas para suprir as demandas e satisfazer os “sujeitos emergentes”, como têm sido os pronunciamentos da presidenta da república. Negociar também pode fazer recrudescer, no pós-diálogo, a violência da polícia e criminalização de militantes.

Se preocupar com o momento de parar as mobilizações não faz parte de nossas vontades históricas! Pelo contrário. Mesmo que haja dispersão das multidões, continuaremos a fazê-las, como sempre fizemos (às vezes mais, às vezes menos). Se conseguirmos incidir mais no senso comum, pode ser que tenhamos mais adesão daqui pra frente. Nós sabemos fazer, gostamos e compreendemos a importância das ruas politizadas.

Temos algumas vantagens, pois somos povo; bem ou mal, muitas de nossas questões estão pautadas também pelos outros e, quem sabe, teremos mais força daqui pra frente. Fato é que o momento exige construir uma frente múltipla e amarrada em acordos, desde um campo crítico, que incida no senso comum e enfrente as tendências reacionárias que se veem legitimadas para, por dentro das mobilizações populares, empurrarem a multidão para a direita das coisas.  E parece que, se não nos acertamos minimamente, é pior.

Protestos – de onde vêm e para onde irão (O Estado de S. Paulo/Envolverde)

24/6/2013 – 10h27

por Washington Novaes*

ca17 300x225 Protestos   de onde vêm e para onde irãoAo mesmo tempo que se amiúdam na comunicação análises preocupadas com a situação econômica do País, vão-se tornando mais frequentes também manifestações populares de inconformismo e desapreço por governos, de protesto contra preço e qualidade de transportes, custo de vida, insatisfação com a saúde e educação ou ainda por causa do custo de construção de estádios de futebol. Que significado político mais amplo podem ter? Muitos, certamente. Mas índices de inflação e custos de alimentos têm tido presença importante.

Índices de inadimplência de famílias perante o sistema financeiro podem ser, por isso, um dos indicadores, já que em abril (Estado, 11/5) atingiram 7,6%. Já a porcentagem de famílias endividadas subiu, em maio, para 57,1%, a maior desde 2006. E 19,5% delas tinham mais de 50% da renda comprometido com dívidas. Os calotes no sistema bancário subiram para 19,5% em abril. Essa é uma das razões para o índice de confiança do consumidor haver baixado uns 6% desde abril do ano passado.

Segundo artigo de Amir Khair neste jornal (16/6), “o que causou a inflação foram os alimentos in natura”, cujo preço cresceu 53% nos últimos 12 meses, inclusive por motivos climáticos (onde nos faltam políticas adequadas). Mas não apenas por isso. Diz a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO) que é alta a perda de áreas plantadas com alimentos no mundo por causa do alto custo dos agrotóxicos e da produção em geral (25/3). No Brasil, arroz e feijão já perderam 50% das áreas plantadas há 25 anos (Folha de S.Paulo, 7/4). O feijão, inclusive por causa da seca no Semiárido, teve a produção reduzida em 7%. E agora os preços subiram 20% em um ano.

Tudo isso pesa muito num país que, embora tenha reduzido a pobreza por meio de programas como o Bolsa Família, de até R$ 70 mensais por pessoa, ainda tem estas e milhões de outras vivendo abaixo da linha da pobreza, que segundo a ONU é de US$ 1,25 (cerca de R$ 2,50) por dia, ou R$ 75 por mês, por pessoa. E nas palavras do papa Francisco (Estado, 2/5), “viver com 38 (pouco mais de R$ 100) por mês é trabalho escravo, vai contra Deus”. Em sete regiões metropolitanas a taxa de desemprego nos primeiros meses do ano passou de 10%. E a população ocupada em fevereiro diminuiu 2% (Estado, 29/3). Caíram os índices de ocupação na indústria, na construção e nos serviços (26/4).

Christine Lagarde, dirigente do FMI, chama a atenção (5/6) para o “enfraquecimento da economia mundial em meses recentes”. A seu ver, “perde ritmo a expansão econômica dos países emergentes” e no Brasil são “menos brilhantes” as perspectivas de investimentos. Não chega a surpreender. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) adverte (3/5) para os riscos de nova crise bancária na Europa, onde os bancos estão “precariamente capitalizados” e o PIB de 34 países pouco passará de um crescimento de 1% este ano. No Brasil, o superávit nas contas externas, de US$ 1,6 bilhão em 2007, recuou para um rombo de US$ 54,2 bilhões em 2012 (Panorama Econômico, 9/6). Por tudo isso, não são otimistas as projeções do mercado financeiros para o crescimento econômico este ano, juntamente com um “rombo externo” recorde e taxas de juros altas.

É inevitável, assim, retornar à crise econômico-financeira externa e às perguntas que vem suscitando nos últimos anos: quem pagará o custo astronômico das “bolhas financeiras” que explodiram, os bancos ou a sociedade (por meio da redução dos programas sociais e da alta do desemprego)? As classes de maior renda ou as menos favorecidas? Esses custos se limitarão aos países industrializados ou eles também tentam e tentarão repassá-los aos demais? Como tudo isso se traduzirá nos países fora da Europa e da América do Norte?

O desemprego nos EUA continua alto para padrões norte-americanos (7,6%). A crise de 2008 “deixou um déficit de 14 milhões de empregos no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho; somados aos 16,7 milhões de jovens que chegarão ao mercado de trabalho em 2013, o déficit global será de 30,7 milhões de empregos” (Agência Estado, 4/6). Na Europa, o desemprego já está em 12,2%, ou 19,37 milhões de pessoas. Entre os menores de 15 anos, num recorde de 24,4% – 1 em 4 jovens desempregado; na Espanha, total de 26,7%; Portugal, 17,5%; Grécia, quase 27% (entre jovens, 64%). Não por acaso, 1 milhão de pessoas migraram da Europa desde 2008, o maior êxodo em meio século. Ainda assim, 40 milhões de pessoas no mundo ascenderão à classe C (6/4), o que aumentará o consumo e, certamente, terá reflexos nos preços, principalmente de alimentos.

É preciso dar atenção especial, no Brasil – pelas características da população -, ao quadro dos alimentos. Os preços dos insumos usados na agropecuária, controlados por um cartel global de fabricantes, estão em forte alta e o País é o maior consumidor mundial. O dos herbicidas subiu 71,1%; o dos inseticidas, 66,4%; e o dos fungicidas, 55,3% (IBGE, 13/5). Consumimos mais de 1 milhão de toneladas em 2010, segundo a Anvisa. Cerca de 1/5 do consumo mundial.

É fundamental ter muita atenção nessa área. Inclusive porque os protestos e manifestações de insatisfação recentes mostram que chega também a nós o caminho observado em muitos países da África e do Oriente Médio, de movimentação política não comandada por partidos, e, sim, por redes sociais – sem projetos políticos claros e definidos. Se não reorientarmos nossas políticas – que insistem num desenvolvimentismo à outrance (que inclui, por exemplo, incentivos bilionários à fabricação de automóveis que ninguém sabe onde poderão trafegar), conjugado com heranças da política externa concebida na década de 1960 -, certamente teremos pela frente momentos muito difíceis. Ainda mais com a grande maioria da corporação política praticamente descolada da sociedade, voltada para os interesses diretos de seus membros.

* Washington Novaes é jornalista.

** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.

Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias (IPS/Envolverde)

Inter Press Service – Reportagens
25/6/2013 – 09h51

por Fabíola Ortiz, da IPS

ca18 300x168 Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias

Concentração na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em um dos muitos protestos pacíficos no Brasil. Foto: Fabíola Ortiz/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2013 – Matheus Mendes Costa, universitário, 21 anos, passou 13 horas detido em uma cela com não mais que três metros quadrados, em uma delegacia da cidade do Rio de Janeiro. Ele foi preso sob a acusação de agressão a policiais e destruição de instalações públicas. Costa, estudante de economia foi detido na madrugada do dia 18, durante uma das numerosas manifestações que paralisaram centenas de cidades pelo Brasil, dentro dos protestos detonados pelo movimento contra o aumento no preço do transporte público em algumas cidades e que, depois, passaram a exigir direitos sociais e políticos. Costa foi preso quando participava pacificamente, assegurou, ao lado de seu pai na manifestação que naquela noite tomou as ruas da cidade.

A dura e nada seletiva repressão policial é vista pelos analistas como um dos elementos que mais contribuíram para avivar a onda de protestos que sacodem o Brasil. A própria presidente Dilma Rousseff pediu contenção às forças da ordem em seu discurso ao país na noite do dia 21, destacando que a população tem o direito de protestar e garantiu que as desordens são provocadas por uma minoria de infiltrados. Além disso, ontem, Dilma se reuniu com o Movimento Passe Livre, e horas depois com os governadores dos 27 Estados e os prefeitos das maiores cidades. Nos dois encontros, a mudança da atuação policial estava na agenda.

“Estava com a mochila da faculdade e não imaginei que poderia me acontecer alguma coisa. O policial me agarrou pela mochila e arrancou o cartaz que eu carregava”, contou o jovem à IPS. O rapaz foi levado a um destacamento do Batalhão de Choque da Polícia Militar em um grupo de dez pessoas, na maioria estudantes e, inclusive, um sem-teto. “Nenhum de nós tinha perfil de vândalo. Um policial nos aterrorizou dizendo que lançaria uma bomba de gás lacrimogêneo contra nós. Os policiais que me pegaram não tinham identificação”, acrescentou o jovem.

Para serem liberados, Costa e os demais detidos tiveram que pagar fianças altíssimas. O estudante disse que não foi observado nenhum critério nos valores estabelecidos. “Éramos dez em uma cela pequena e nem todos puderam avisar suas famílias. Os policiais nos submeteram a diferentes humilhações. Até o mendigo, para ser libertado, precisou pagar uma fiança, a maior de todas, e tivemos que nos cotizar para ajudá-lo”, ressaltou Costa.

Analistas políticos e ativistas de direitos humanos coincidem em indicar que nas manifestações houve repressão policial indiscriminada junto com desordens e vandalismos cometidos majoritariamente por grupos infiltrados, responsáveis por saques de dependências públicas e lojas, que ofuscaram o objetivo pacífico das manifestações. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou que, somente no Rio de Janeiro, foram detidos arbitrariamente, até o dia 21, cerca de 60 manifestantes que ficaram presos em meio a batalhas entre forças policias e grupos de vândalos.

“Fiquei angustiado porque a polícia não fez seu trabalho de deter os violentos, mas se dedicou a deter inocentes com falsas acusações. Tive que pagar a fiança sem que me deixassem demonstrar que não havia feito nada agressivo”, criticou Costa, que deve enfrentar um julgamento por participação em grupo para delinquir.

O que aconteceu com Jorge Luiz de Jesus, de 18 anos, foi pior. Ele passou uma semana preso e esteve parte do tempo na rigorosa prisão de Bangu, onde compartilhou a cela com traficantes, assaltantes e violadores. Depois foi transferido para outra prisão, misturado com outros cem detentos. Sua prisão se agravou porque a polícia o acusou de carregar uma mochila com uma granada. “Expliquei que aquela mochila não era minha, e então o policial lançou um aerossol no meu rosto e disse ‘agora é sua’. A acusação foi forjada”, denunciou Jesus à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Essa comissão está recolhendo dezenas de casos de detenção arbitrária durante as manifestações na cidade. O Ministério Público estadual iniciou uma investigação sobre os denunciados abusos policiais e militares, principalmente por parte do Batalhão de Choque. Para evitar que os manifestantes sejam confundidos com gente violenta e detidos por vandalismo, a OAB do Rio de Janeiro mobilizou 70 advogados que percorrem as ruas, delegacias e hospitais da cidade para prestar assistência legal.

O presidente da OAB/RJ, Felipe Santa Cruz, destacou à IPS a presença de grupos fascistas infiltrados nos protestos e criticou a falta de preparo das forças de segurança para proteger os manifestantes de grupos que vão às manifestações para criar violência. “A polícia não tem um histórico repressivo, mas está militarizada e sua conduta é de enfrentamento. Isso facilitou a atuação de grupos neonazistas infiltrados, que atacaram com suas barras de ferro desde o começo das manifestações. A polícia deve garantir o direito ao protesto, mas acabou atacando os manifestantes”, afirmou Santa Cruz.

A falta de preparo das forças de segurança é alvo de inúmeras críticas. O pai do jovem Costa, um ativista pelos direitos humanos que preside a organização não governamental  Rio Paz, qualificou a desordenada atuação policial de “atentado à democracia”. Antônio Carlos Costa afirmou que “a polícia não tem preparo para atuar com a população em condições normais, quanto mais em situações de grandes protestos. O movimento foi espontâneo, ganhou o povo e as pessoas foram às ruas pelas razões mais nobres”.

As demandas se centram em pedir a reforma do Brasil, disse Antônio Carlos, para quem o movimento popular se caracteriza por seu caráter reformista e não por pretender subverter a ordem, mas gerar “uma limpeza moral” da maior democracia latino-americana. Este ativista considera que, por isso, é um erro o poder público ver e apresentar suas ações como agressivas e de caráter terrorista.

O que levou a população às ruas, segundo o presidente da Rio Paz, foi uma revolta contra os multimilionários gastos na construção e remodelação dos estádios de futebol para a Copa do Mundo no ano que vem, com seu preâmbulo da atual Copa das Confederações. A Copa das Confederações começou no dia 15, paralelamente ao início dos protestos, e terminará no dia 30.

Entre 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro também receberá a Jornada Mundial da Juventude, da qual participará o papa Francisco, e em 2016 será sede dos Jogos Olímpicos. “As autoridades subestimaram a conscientização da população”, opinou o ativista Costa. “Houve muita vontade política e muito gasto de dinheiro público para fazer as construções pedidas pela Fifa, enquanto há dívidas sem pagar em nossas escolas e nossos hospitais. A rua gritou, e é preciso ouvir esse grito”, enfatizou Antônio Carlos Costa. Envolverde/IPS

Momento histórico vivido no Brasil (Adital/Envolverde)

Sociedade
26/6/2013 – 09h29

por Leonardo Boff*

ca28 300x160 Momento histórico vivido no BrasilEstou fora do país, na Europa a trabalho e constato o grande interesse que todas as mídias aqui conferem às manifestações no Brasil. Há bons especialistas na Alemanha e França que emitem juízos pertinentes. Todos concordam nisso, no caráter social das manifestações, longe dos interesses da política convencional. É o triunfo dos novos meios e congregação que são as mídias sociais.

O grupo da libertação e a Igreja da libertação sempre avivaram a memória antiga do ideal da democracia, presente, nas primeiras comunidades cristãs até o século segundo, pelo menos. Repetia-se o refrão clássico: “o que interessa a todos deve poder ser discutido e decidido por todos”. E isso funcionava até para a eleição dos bispos e do Papa. Depois se perdeu esse ideal nas nunca foi totalmente esquecido. O ideal democrático de ir além da democracia delegatícia ou representativa e chegar à democracia participativa, de baixo para cima, envolvendo o maior número possível de pessoas, sempre esteve presente no ideário dos movimentos sociais, das comunidades de base, dos Sem Terra e de outros. Mas, nos faltavam os instrumentos para implementar efetivamente essa democracia universal, popular e participativa.

Eis que esse instrumento nos foi dado pelas várias mídias sociais. Elas são sociais, abertas a todos. Todos agora têm um meio de manifestar sua opinião, agregar pessoas que assumem a mesma causa e promover o poder das ruas e das praças. O sistema dominante ocupou todos os espaços. Só ficaram as ruas e as praças que, por sua natureza, são de todos e do povo.

Agora, surgiram a rua e a praça virtuais, criadas pelas mídias sociais.

O velho sonho democrático segundo o qual o que interessa a todos, todos têm direito de opinar e contribuir para alcançar um objetivo comum pode, enfim, ganhar forma.

Tais redes sociais podem desbancar ditaduras, como no Norte da África; enfrentar regimes repressivos, como na Turquia; e agora mostram no Brasil que são os veículos adequados de revindicações sociais, sempre feitas e quase sempre postergadas ou negadas: transporte de qualidade (os vagões da Central do Brasil têm quarenta anos), saúde, educação, segurança, saneamento básico. São causas que têm a ver com a vida comezinha, cotidiana e comum à maioria dos mortais. Portando, coisas da Política em maiúsculo. Nutro a convicção de que a partir de agora se poderá refundar o Brasil a partir de onde sempre deveria ter começado, a partir do povo mesmo que já encostou nos limites do Brasil feito para as elites. Estas costumavam fazer políticas pobres para os pobres e ricas para os ricos. Essa lógica deve mudar daqui para frente. Ai dos políticos que não mantiverem uma relação orgânica com o povo. Estes merecem ser varridos da praça e das ruas.

Escreveu-me um amigo que elaborou uma das interpretações do Brasil mais originais e consistentes, o Brasil como grande feitoria e empresa do Capital Mundial, Luiz Gonzaga de Souza Lima. Permito-me citá-lo: “Acho que o povo esbarrou nos limites da formação social empresarial, nos limites da organização social para os negócios. Esbarrou nos limites da Empresa Brasil. E os ultrapassou. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil, quer uma sociedade de humanos, coisa diversa da sociedade dos negócios. É a Refundação em movimento”.

Creio que este autor captou o sentido profundo e, para muitos, ainda escondido das atuais manifestações multitudinárias que estão ocorrendo no Brasil.

Anuncia-se um parto novo. Devemos fazer tudo para que não seja abortado por aqueles daqui e de lá de fora que querem recolonizar o Brasil e condená-lo a ser apenas um fornecedor de commodities para os países centrais que alimentam ainda uma visão colonial do mundo, cegos para os processos que nos conduzirão fatalmente a uma nova consciência planetária e à exigência de uma governança global. Problemas globais exigem soluções globais. Soluções globais pressupõem estruturas globais de implementação e de orientação. O Brasil pode ser um dos primeiros nos quais esse inédito viável pode começar a sua marcha de realização. Dai ser importante não permitirmos que o movimento seja desvirtuado. Música nova exige um ouvido novo. Todos são convocados a pensar este novo, dar-lhe sustentabilidade e fazê-lo frutificar num Brasil mais integrado, mais saudável, mais educado e melhor servido em suas necessidades básicas.

Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra.

** Publicado originalmente no site Adital.

O êxtase da conexão nas ruas (Observatório da Imprensa/Envolverde)

Sociedade
26/6/2013 – 08h19

por Muniz Sodré*

ca47 300x200 O êxtase da conexão nas ruasUma cena exemplar. Um conhecido repórter dispõe-se a cobrir na rua um momento do protesto quando um dos manifestantes o proíbe de trabalhar. Ante a ponderação do jornalista de que nem a ditadura o havia impedido, o outro retruca: “Eu sou o povo, sou eu quem decide sobre quem trabalha ou não”.

O episódio pode servir de paradigma para o ethos de incerteza a propósito das manifestações de rua que se espalham como rastilho de pólvora por já mais de cem cidades do país. A frase do manifestante pode ser lida tanto como uma insólita afirmação de soberania popular quanto como um exemplo da velha truculência daqueles que no passado assumiam o poder absoluto em nome do povo – algo como um pequeno Stalin redivivo.

A verdade, porém, é que ainda não há um guia para a perplexidade (ou, como disse um colunista, para “o mundo da total complexidade”) que se abateu não apenas sobre políticos e jornalistas, mas também sobre alguns acadêmicos a propósito das manifestações de rua. Quando arriscam explicações, estas oscilam entre uma difusa indignação com o estado de coisas e a atração pela pura e simples ausência de finalidade. Uma coisa é certa: a finalidade inicial, que era protestar contra o aumento da passagem de ônibus (já atendida pelas principais prefeituras) foi ultrapassada por um fenômeno ainda pouco palpável do ponto de vista público.

Convocaram-se especialistas estrangeiros em comunicação, a exemplo do sociólogo espanhol Manuel Castells, autor de alentados volumes sobre as redes, que não hesitou em eleger a internet como protagonista dos acontecimentos. De fato, um dos vários slogans (hashtags, diz-se agora) brandidos por manifestantes dizia: “Saímos do Facebook”.Algo assim como aquela conhecida cena de A Rosa Púrpura do Cairo,em que Woody Allen faz o personagem sair da tela e entrar na vida real. A tela é agora a rede social, seus personagens teriam ganhado a rua.

Discurso ininterrupto

Mas aí é possível levantar alguma dúvida. De fato, mesmo com a ressalva de que se devem pôr ao lado da internet outras motivações sociais, permanece a impressão de que, na opinião absoluta dos especialistas, a internet é “a condição necessária para os movimentos sociais nos dias de hoje”. Não seria esta uma necessidade tíbia, mero “castelo” no ar dos argumentos? Suponhamos que, numa pequena cidade, se convocassem as pessoas por megafone a uma manifestação. Seria “megafônica” a essência desse movimento?

Só para variar um pouco o ramerrão argumentativo, pensemos na hipótese, mesmo provisória, de que o sucesso fabuloso da tecnologia eletrônica possa estar toldando a plena percepção dos fenômenos sociais. Isto não é novo na história ocidental. O velho e atualíssimo Karl Marx já havia observado que “as revoluções burguesas, como as do século 18, precipitam-se rapidamente de sucesso em sucesso, seus efeitos dramáticos ultrapassam um ao outro, homens e coisas parecem envoltos em resplendores de diamante, o entusiasmo que chega ao êxtase é o estado permanente da sociedade – mas são de breve duração” (18 de Brumário de Luis Napoleão).

É de extraordinária pertinência esse “homens e coisas envoltos em resplendores de diamante”, esse “entusiasmo que chega ao êxtase”, pois a tecnologia eletrônica – produto notável da consciência hegemônica – propicia a todos, a todos nós, um entusiasmo extático. Não se trata de nenhuma grande mensagem transmitida, nenhuma revelação partilhada, pois toda essa história de conteúdo na mídia se resume na popularíssima expressão americana bullshit. Trata-se mesmo do êxtase da conexão.E dificilmente se entra em êxtase de olhos abertos. Não à toa, um dos cartazes da manifestação de rua pedia à polícia: “Não atirem nos meus sonhos!”

Não há dúvida, entretanto, de que a internet é um poderoso recurso de mobilização de jovens e adultos, principalmente jovens de classe média. Em outras palavras, é um extraordinário “megafone”. Têm razão aqueles que disseram ter saído do Facebook.Politicamente, a rede tem seus problemas, pois agora se sabe que informa sobre seus peões aos serviços americanos de espionagem. Comercialmente, nunca foi tão bem: segundo o site Olhar Digital, a rede digital atingiu, nos últimos 28 dias, a marca de um milhão de anunciantes ativos, assim como a marca de 16 milhões de pequenas empresas que frequentam regularmente as suas páginas. Os pequenos anunciantes são fundamentais para os negócios: no ano passado, injetaram 32 bilhões de dólares nos cofres da empresa, que ainda conta com outras receitas publicitárias.

Só que a influência de uma rede social sobre o seu “público” é diferente daquela que teria a mídia jurássica, e de nada vale buscar ali explicações para o comportamento coletivo nas ruas por parte de seus membros ativos. Talvez, porém, uma frase em outro cartaz forneça alguma pista: “País mudo é um país que não muda”. O que dizer então do discurso ininterrupto da televisão, do rádio, da enxurrada de revistas e das próprias redes sociais? A se levar a sério o cartaz, tudo isso não diz nada. É o “falatório” temido por filósofos.

Arrogância visível

O cartaz proclama um desejo de mudança. Mas mudar por que, é o que perguntava semana passada o El País:

“O Brasil está pior do que há dez anos? Não, está melhor. Pelo menos, é mais rico, tem menos pobres, e aumentam os milionários. É mais democrático e menos desigual. Como se explica então que a presidenta Dilma Rousseff com um consenso popular de 75% – um recorde que chegou a superar o do popular Lula da Silva – possa ter sido vaiada repetidamente na estreia da Copa das Confederações em Brasília por quase 80.000 torcedores de classe média que puderam dar-se ao luxo de pagar até 400 dólares por um ingresso?”

Para o prestigiado jornal espanhol, os protestos contra o aumento dos preços de ônibus por jovens que em sua maioria têm carros, os aplausos aos manifestantes por parte da classe média “C” que está ascendendo economicamente, os aparentes protestos contra a Copa por parte de gente que sempre se orgulhou de seu futebol e assim por diante – tudo isso seria estranho num país invejado até pela Europa e pelos Estados Unidos por seu desemprego quase nulo.

O próprio jornal, entretanto, arrisca uma resposta. Chegados à nova classe média, os pobres teriam tomado consciência de ter dado um salto qualitativo na esfera do consumo e agora querem mais. Mais o quê?

“Serviços públicos de primeiro mundo, ensino de qualidade, hospitais dignos sem filas desumanas, políticos menos corruptos, partidos que não sejam meros negócios privados, uma polícia que não atue como na ditadura e uma sociedade menos excludente. Definitivamente, querem “aquilo que aprenderam a desejar para ser mais felizes ou menos infelizes do que foram no passado”.

Isso é, evidentemente, pura especulação. Dizeres de cartazes podem ser sintomáticos, mas não realmente explicativos, pois é bastante provável que componham apenas um cenário estético para as incursões. Na realidade, ainda é muito cedo para se ter alguma clareza sobre o que realmente move os manifestantes. Nesse meio tempo, fazem-se apostas teóricas no advento de uma nova era, em que não é mais o futuro (portanto, nada de projetos políticos) e sim o presente que importa. E para compreendê-lo, diz-se, seriam necessárias novas ferramentas e narrativas.

Para a turma da euforia tecnológica, as ferramentas estariam nos posts dos sites.Exemplo de narrativa nova é a do sociólogo Michel Maffesoli, um apaixonado pelo Brasil e bastante conhecido nos círculos acadêmicos, para quem os jovens manifestantes são aquilo que ele chama de “a sociedade oficiosa”, ou seja…

“…a sociedade au noir, na sombra, escondida, que não se sente mais representada. Mas que não vai afrontar a sociedade oficial. E vai criar os seus próprios espaços, as suas utopias intersticiais: um lugar para se encontrar, cantar, eventualmente protestar, tirar proveito das reuniões para estar junto. O tripé dos valores modernos da sociedade oficial é: razão, trabalho e progresso. A nova geração acentua não o trabalho, mas a criação. Não o progresso, mas o presente. Não a razão, mas a imaginação”.

Bem, aqui no Brasil, o oficioso está decididamente afrontando o oficial. No fosso entre o oficial e o oficioso, cava-se o espaço para uma indignação que pode ser pacífica ou violenta. A pacífica foi anunciada anos atrás pelo francês Stéphane Hessel (1917-2013), num livrinho consumido por centenas de milhares de pessoas. Chamava-se Indignem-se!, publicado na coleção “Os que andam contra o vento”. Indignar-se contra o quê? Para ele, contra o poder do dinheiro, “que nunca foi tão grande, insolente e egoísta”.

Aqui, apenas a violência parece dar a medida real do grau de indignação nas manifestações brasileiras. Há algumas pistas, mas não palavras fortes. Também não há lideranças, mas “referências”, conforme a definição de suas “não-lideranças”. Realmente, não se sabe quem comanda, mas isso não deve ser recebido como algo tão estranho assim, já que também não se sabe muito bem quem é o verdadeiro poder no Brasil. A presidente manda em seus ministros, que não parecem mandar em nada, ao mesmo tempo em que é evidente não estarem as fontes do poder presidencial na figura da presidente, e onde estão ninguém sabe bem ao certo. Visível mesmo é arrogância dos executivos secundada pela surdez da classe política. Aliás, antiga surdez e nova mudez, porque ninguém tem visto político falando muito nestes dias. Onde se esconderiam os falastrões de sempre?

Espetáculo da violência

Quanto aos manifestantes nas ruas, não são todos exatamente os “jovens” de que fala o sociólogo, e sim um amálgama indefinido de gente saída da “Matrix” (a internet, as redes sociais), membros de pequenos partidos sem votos (mas beneficiários do Fundo Partidário), vândalos, bandidos mascarados que depredam e saqueiam, enfim o chienlit de que falou De Gaulle em maio de 1968. Talvez a violência seja uma resposta à costumeira ação policial, mas é também parte do espetáculo da revolta: na tevê e nas redes sociais, gera imagens que repercutem. Vale lembrar Rivarol, cronista da Revolução Francesa, para quem a revolução terminou quando chegou ao fim o espetáculo das execuções pela guilhotina. Mas também vale lembrar que a violência serve à velha direita golpista.

Nada disso invalida, porém, a potência da experiência que tomou de assalto as ruas – a experiência da revolta. Re-volta, ao pé do étimo, significa o retorno a um sentido que se perdeu, daí a sua possibilidade de mover-se por um ideal ético no rumo de uma renovação política. As massas revoltam-se para obter alguma coisa. Mas não está claro o que pretende obter a revolta de agora ­­­– nem sequer se pretende mesmo alguma coisa. Não há reivindicações; as demandas, se há, são fragmentárias.

O certo mesmo é que algo transbordou, o “saco” coletivo encheu diante da arrogância do poder, da impunidade dos puníveis, da indiferença das classes dirigentes ao desmantelamento da vida nas cidades (imobilidade urbana, criminalidade epidêmica, exorbitância dos impostos, preços atuais enlouquecidos por causa da futura festa olímpica) e também do falatório vazio da mídia (carros de tevê e jornalistas foram apupados). Indignado, o “espírito comum” virou Poltergeist, essa entidade mítica que às vezes perturba a tranquilidade das casas e, agora, das ruas.

Ora, essa metamorfose, a despeito daqueles que só enxergam a sua superfície eletrônica, também parece-nos justamente o contrário da catatonia verborrágica das redes sociais, onde o sujeito apõe a sua assinatura digital num manifesto qualquer e, de consciência limpa, agenda a balada. Manifestação é coisa anticatatônica, porque se faz com mãos e pés, com o confronto dos corpos num território concreto, sob a forma de um “nós” inquietante, monstruoso, chamado multidão. Esta última é uma besta que dorme e, uma vez acordada, pode dar medo.

Por isso, há algum alento humano na redescoberta do poder das ruas, ainda que tudo isso possa ser efêmero. A revolta de maio de 1968 na França começou a acabar quando a ela se juntaram organizações políticas e quando as ações de rua passaram a visar mais a sua reprodução midiática do que a real contestação do poder. Ou seja, quando se converteram no espetáculo da violência.

Por enquanto, como ninguém parece saber muito bem o que acontece, também não sei por que me vem à cabeça o poema “Gaúcho” do tão esquecido Ascenso Ferreira: “Riscando os cavalos!/ Tinindo as esporas!/ Través das coxilhas!/ Saí de meus pagos em louca arrancada!/ – Para quê?/ – Para nada!”

* Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.

A multiplicidade não é uma sopa de letrinhas (uninomade.net)

“A potência está numa afirmação criadora onde se é todo nela, e não em um monte de essenciazinhas meia bomba espalhadas por aí, expressões do niilismo da forma-mercadoria,”

A multiplicidade não é uma sopa de letrinhas de clichês e o fascismo não é mais um estilo vida entre outros possíveis

alphabet-soup_4

Por Rodrigo Guerón, no facebook – 

24/06/2013

– mal traçadas e não revisadas linhas, escritas na correria dos acontecimentos das revoltas dos últimos dias, depois de uma troca de ideias virtuais com minha amiga Ivana Bentes –

 Escrevi há apenas cinco dias um texto, http://www.releasevirtual.com.br/o-que-e-e-o-que-nao-pode-ser-que-nao-e/,no qual mostrei entusiasmo como o movimento que começou contra o aumento das passagens, falei sobre a relação entre desejo e política mostrando como o capital sempre deixa o desejo aflorar para capturá-lo e as esquerdas, por sua vez, têm medo do desejo (as oficiais, burocratizadas, acadêmicas, hirarquizadas em partido, com exceções portanto: eis o pessoal do MPL mandando bem), isto é, não percebem que ele é revolucionário, ou no mínimo transformador: por isso perdem constantemente a batalha. Ainda por cima bati duro, sempre numa crítica que se pretendia “pela esquerda”, em certas posições de certos petistas e alguns militantes de esquerda (alguns, insisto, com exceções), chamando-os de “Reginas Duarte de vermelho”.

O problema, no entanto, é que não dá para usar, como vejo alguns fazerem, uma espécie de “cartilha pós-moderna padrão” para explicar tudo o tempo todo, sem avaliar cada momento a cada dia, como as coisas mudaram, foram e voltaram, as muitas forças ( e contra forças), quais são elas, quando e onde estão, mais e/ou menos forte e, sobretudo, onde cada um de nós está, se posiciona e age, em vez de ficar pairando sobre tudo (num sintoma de verticalização intelectual, de autoridade acadêmica, de especialista em “novos movimentos”, “multiplicidade” e etc). Em outros termos, não dá para desprezar os fatos e os acontecimentos. Se não fizermos assim vamos terminar por apresentar uma concepção de “multiplicidade” que mais parece ser uma grande sopa de letrinhas de clichês onde, no final, a potência da diferença, do singular, aquilo que escapa a maneira homogeneizadora como o capital regula os modos de vida, se esvazia quase que completamente.

Além disso, desqualificar qualquer relação com a história, numa espécie de “positivismo pós-moderno”, teleologia hegeliana rasteira, determinismo histórico com brinco no umbigo, encarando a pós-modernidade como “uma grande nova fase” onde todo o resto estaria “velho” e “superado”, é impotência pura, prato cheio para ações reacionárias (no sentido de “reativas”). Se há uma potência no pós-moderno (noção bem problemática, mas não tenho dúvidas que não somos mais modernos, e gosto disso) é exatamente no fato dele nos jogar para fora de qualquer teleologia histórica, isto é, o pós-moderno não pode ser visto como nenhum “fim da história” e sim como a oportunidade (a ser efetivada ou não) do fim da “grande narrativa histórica” e a liberação de novas histórias para além de qualquer “telos”. Estou completamente de acordo com aquele velho filósofo bigodudo que disse que não há criação e nem reinvenção na vida sem que façamos um movimento de “livre-se do seu passado”, mas o mesmo filósofo pensou isso num texto cujo título é “Das Utilidades e dos Inconvenientes da História para a Vida”, ou seja, as “utilidades” da história estão aí também.

Assim, sobre as manifestações da última quinta-feira (e não em relação a quase todas antes), o que eu achei é que as coisas ficaram esquisitas. Poderíamos até ver ainda ali uma multiplicidade que não era “sopa de letrinhas” (potente em suas diferenças), onde tinha de tudo, mas numa correlação de forças já bem diferente de antes; ou seja, um certo movimento pasteurizador de tudo me parecia cada vez mais evidente. Um grupo grande de meninos que pareciam de uma escola pública, ou de algum coletivo, bem espertos politicamente, com o qual andamos durante um tempo, estava também muito incomodado com isso; ou seja, a antipolítica que se espelhava pela manifestação que, mesmo como carnaval, parecia pobre: mais pra micareta do que pra bloco de rua; mais pra auditório de Luciano Hulk que pra baile funk.

No caso da predominância do hino nacional e da bandeira, posso até concordar com o argumento que diz ser meio absurdo ficar cobrando dos garotos o fato deles só cantarem hino nacional e gritos de torcida do Brasil se muitos deles estão indo pela primeira vez às ruas para se manifestar; ou seja, eles cantam o que sabem. Mas isso não significa que algum determinismo fatalista supostamente pós-moderno vá fazer com que eu deixe de considerar toda a semiótica destes símbolos na ligação com outros momentos da história do Brasil. Dizer que tudo já passou e é outro momento é um argumento que pode ser usado numa nota oficial das forças armadas contra a apuração dos crimes da ditadura.

Mas sim, evidentemente, é outro momento (radicalmente outro), e é o mesmo (assustadoramente repetitivo): “tudo ao mesmo tempo agora”. Por exemplo, a falta de apuração dos crimes da ditadura têm uma íntima relação com a violência da polícia militar sobre as pessoas que estavam nos bares da Lapa: violência molar e molecular a qual não fomos capazes, ao longo de todos estes anos, de se contrapor com eficácia (força) política. E que aliás, foi fichinha perto do que acontece na periferia e nas favelas frequentemente.

Ainda me detendo na última quinta-feira, eu acho que a ação conservadora foi de fato efetiva: os partidos, e alguns movimentos sociais, foram expulsos da manifestação debaixo porrada. Quando atacaram o pessoal da CUT foi bem em frente ao carro de som e o babaca lá, que não era nenhum neófito, ficou gritando o tal “sem violência” em vez de falar dos direitos que as pessoas têm de levar a bandeira. Na frente do ataque estavam visivelmente uns caras que pareciam milicos a paisana. Acabei de escrever que é ridículo a esquerda não ver a crise da democracia representativa e da forma-partido, mas quando o “grande” analista político da Globo fala isso, está querendo outra coisa do que eu. Como disse mais uma vez o filósofo, a pergunta não é “o que é?” e sim “o que quer?” tal ou tal força. Já ao pessoal que se concentrou no IFCS para ir, no momento em que saiu em direção à Presidente Vargas, foi atacado por uns caras que pareciam milicianos e que sabiam muito bem quem eram os líderes. Em Sampa, na Paulista, eles batiam em quem estava apenas com uma camisa vermelha, e não foi só a bandeira dos partidos, mas também a bandeira do Educafro que foi rasgada. Existe ( e eu apurei com cuidado esta informação) uma pauta própria da PM, em especial do Rio e na Bahia, ou seja, os policiais estão em franco confronto com os governadores e secretários de segurança (não que o Cabral não fosse capaz de ordenar aquela repressão na Lapa).

E, finalmente, tem toda a captura pela mídia, a pauta que ela tenta impor (com sucesso apenas parcial) e, sobretudo, o discurso dos “vândalos” que é abraçado por vários manifestantes que se apresentam prontamente como voluntários da polícia e da mídia contra os que não se manifestam nos padrões de “bom comportamento”. Padrões de bom comportamento estes que são rompidos de formas diferentes entre si, ou seja, não é apenas um tipo de ato de “quebra da ordem”, de insurgência – e podem ser mesmo eventualmente uma “ação da ordem” – que estoura em meio às manifestações; e é cínico não admitir que eles tiveram alguma função política na pressão para fazer baixar as passagens. E aí os eufóricos das novas tecnologias devem fazer uma pergunta: se é evidente que as mudanças políticas trazidas pelas redes sociais, as possibilidades de luta, de articulações produtivas e de resistência são enormes (vejamos o exemplo da Globo mostrando com 24 horas de atraso a violência na Lapa que antes tentou esconder – porque apoiou – graças a situação que se criou nas rede), por que tantas pessoas entram na rede para irem direto aos portais das grandes corporações de comunicação? Por que nas redes de relacionamento boa parte do que é compartilhado são notícias e imagens postadas por estas corporações? Por que tanto se busca este pensamento hierarquizado ali onde a potência está numa horizontalidade? É claro que vimos esses anos mil e uma formas de resistências e formas de organização produtiva nas redes, mas também não se pode deixar de notar o fascismo molecular impressionante que circula nelas (e que desceu às ruas quinta, principalmente na Paulista), e nem como as formas molares de organização têm tratado de aglutinar estas forças de forma mais sistemática de uns anos para cá, dentro da própria rede.

Não adianta ficar procurando linhas de fuga sem estar atento às capturas. E mais, uma das mais violentas formas do biopoder no capitalismo contemporâneo é impor esta alegria que nunca pode parar, esse otimismo que interdita a tristeza, a hesitação, a dor que provoca a dúvida. A propósito, eu já fiz um ensaio cinematográfico sobre isso “Eu estou bem cada vez melhor”…http://vimeo.com/65393274

Não fui o único a sair com um certo mal estar daquela manifestação, outras pessoas que também não são de uma esquerda burocrática e hierarquizada saíram. Aliás, o MPL se retirou em São Paulo e disse, em nota, que a direita tinha capturado o movimento. O mal estar, o incômodo, podem fazer pensar. Pelo que entendi do Espinosa e impressionante atualidade política da teoria dos afetos, não se trata de nenhuma forma de auto-ajuda antecipada em pleno século XVII.

E para encerrar, uma última reflexão: o fascismo não é parte da multiplicidade, ele é uma força anti-multipplicidade, destruidora das diferenças, e que pode se instalar no coração desta para diluí-las. Ou como disse aquele filósofo careca: o fascismo é “Eros fora”. Não se trata de escolher, ou usar tênis, ou ser punk, ou usar sandália de couro, ou entrar para PSTU, ou ser “coxinha”, ou gostar de funk, ou ser gay, ou ser fascista. A potência está numa afirmação criadora onde se é todo nela, e não em um monte de essenciazinhas meia bomba espalhadas por aí, expressões do niilismo da forma-mercadoria, que é a maneira como o capitalismo reduz os fluxos do desejo – sem os quais nem ele nem nós vivemos – a fluxos de merda. Nem muito menos pode haver possibilidade de vida numa força que existe para destruir toda e qualquer diferença: mesmo violento, do ponto de vista da vida e da política como forma de liberação social de novas possibilidades de vida, o fascismo é uma anti-força.

A falácia do liberalismo é tentar nos convencer que o fascismo é mais uma escolha que temos que “tolerar”, talvez porque o capital goste sempre de mantê-lo como uma carta na manga a qual ele pode lançar mão em situações limites. Assim, os que criticaram o filme “Tropa de Elite” de José Padilha, que fazia a apologia do Boppe e da violência policial, foram acusados de “intolerantes”, “patrulhadores” e etc. Pois bem, senhores liberais ingênuos e senhores liberais cínicos, o Boppe, o choque, a PM e etc, aparecem agora claramente como a carta na manga para manter os negócios copa – empreiteiras – Estado – corporações de comunicação – FIFA – patrocinadores em geral. “Não existe capitalismo liberal, só existe capitalismo de Estado”; disse o filósofo. E isso significa, inclusive, capitalismo com polícia sem limites: quando os limites existem, são as lutas que os conquistaram. O Wiki Leaks que nos ajude…

Por isso, que o mesmo filósofo que falou em multiplicidade, produção de subjetividade e diferença, afirmou a univocidade do ser. Isso não quer dizer que ele tenha dito, numa tentativa besta de quantificar, que o “Ser é Um”, mas que o Ser é todo no ato criador. A condescendência liberal com tudo na falsa multiplicidade-sopa-de-letrinha é a própria padronização-clichê que esvazia a possibilidade da criação da vida – e portanto da criação política – para além da forma mercadoria. Trata-se de uma operação política de poder que esvazia a possibilidade do devir revolucionário. Isso pode parecer uma simples elucubração filosófica, mas é a que faz politicamente toda a diferença; literalmente.

Divulgue na rede

Nem tudo é igual na revolta do Brasil (Desinformemonos)

“As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água demonstrou isso na Bolívia e, agora no Brasil, dezenas de cidades também estão fazendo isso”, pontua Rafael Siqueira, do Movimento Passe Livre.

BRISA ARAUJO
FOTOS: MÍDIA NINJA
Número 98    junio 2013

midianinja11Centenas de milhares de pessoas continuam nas ruas do Brasil enquanto os governos baixam as tarifas dos transportes – demanda que detonou as primeiras marchas – numa tentativa de acalmar os manifestantes. Novos atores sociais chegam às manifestações para desconcerto dos políticos de todas as orientações.

No dia 19 de junho, o movimento social ganhou a revogação do aumento de 20 centavos na tarifa dos transportes públicos de São Paulo, seguida pela diminuição das tarifas em outras importantes cidades do país. Mas na marcha de comemoração do dia seguinte, algo mais saltou aos olhos: mais de um milhão e 200 mil brasileiros de distintos grupos sociais saíram às ruas de mais de cem cidades em marchas que reivindicaram causas diversas, desde saúde e educação pública até a ira contra os partidos políticos, a corrupção no governo e os altos impostos.

O transporte foi o princípio

As marchas explodiram na quinta maior economia do mundo por uma causa aparentemente local e pontual, que é o preço do transporte nas grandes cidades. De alguma maneira, foi a gota d’água.

Rafael Siqueira, professor de música e militante do Movimento Passe Livre (MPL), indica que a mobilidade é um problema nacional. “Os sistemas de transporte público são caóticos em todo o país e no início de 2013 aumentam as tarifas em várias idades. Ainda que cada cidade tenha a sua situação particular, o problema é nacional”, explica. O MPL é formado por trabalhadores e estudantes e atua nacionalmente desde 2005, depois de revoltas na Bahia, em 2003 e Santa Catarina, em 2004. Uma das principais bandeiras do movimento é o acesso universal ao sistema de transporte urbano, que para eles deve ser gerido pelo Estado e não por empresas privadas.

Segundo Carlos Eduardo Martins, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a maciça adesão às manifestações inicialmente convocadas pelo MPL vem de uma indignação pela desmedida repressão policial contra o aumento, mas tem bases sociais mais profundas, como “a deterioração das condições materiais de vida pela inflação dos preços de habitação e a péssima qualidade dos serviços públicos de saúde, educação e transporte”. O professor afirma que a falta de definição entre o que é direita e esquerda no país também gera uma falta de esperança na política, já que “o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a dirigir o bloco de poder que reúne o grande capital nacional e estrangeiro, as oligarquias financeiras e o agronegócio. A consequência é uma ampla corrupção da vida política nacional”.

Inconformidade com os gastos excessivos no futebol

Desde o sábado 15 de junho, outro fator entrou na complexa conjuntura política brasileira. A Copa das Confederações, torneio de futebol da FIFA, é o primeiro evento que utiliza as megaobras programadas para o Mundial de Futebol de 2014. Os estádios Mané Garrincha (Brasília), Mineirão (Belo Horizonte), Castelão (Fortaleza) e o tradicional Maracanã (Rio de Janeiro) são agora cenário de manifestações fortemente reprimidas pela polícia durante todos os partidos do torneio. Fora dos estádios, pessoas se expressaram “contra o que se consideram gastos excessivos e abusivos na construção dos estádios. Além disso, reivindicam que esses recursos sejam investidos em áreas mais importantes para os cidadãos, como saúde, educação e mobilidade urbana”, resume o sociólogo Wagner Iglecias, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista com Desinformémonos.

Os Comitês Populares da Copa (COPACs) são movimentos sociais presentes nas 12 cidades que serão sede do torneio do próximo ano e estão articulados nacionalmente. Uma das principais preocupações dos comitês são os despejos nas cercanias dos estádios, assim como o aumento do fosso entre as classes altas e baixas das cidades. “Muitas das obras para o mundial são fruto de projetos antigos das classes dominantes, que agora encontram um motivo necessário para justificar reformas que provocarão o distanciamento dos pobres para a periferia mais distante de Fortaleza, causando segregação e distinção social”, defende o COPAC de Fortaleza, Ceará. Esta cidade já tem um claro exemplo deste processo: nas comunidades de Lagoa da Zeza e Vila Cazumba, mais de 5 mil pessoas foram desalojadas para um conjunto habitacional muito distante do centro, onde não há infraestrutura de escolas e creches.

O COPAC do Rio de Janeiro reforça as denúncias: “O que vemos hoje é o aumento da violação a direitos, principalmente contra comunidades pobres. Além disso, sabemos que a velocidade dos programas de urbanização de algumas favelas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), assim como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são parte de um conjunto de ações para que a cidade passe uma imagem de ‘ordem e progresso’ para os investidores e os turistas”, denunciam.

Os novos atores, entre o conservadorismo e a ira contra a classe política

Grande parte dos participantes das últimas marchas, no entanto, não são parte de movimentos sociais nem de nenhum partido político. São tão contrários a eles que nas grandes marchas do dia 20 de junho atacaram física e verbalmente pessoas com camisas ou bandeiras de partidos políticos. Convocados pelas redes sociais e estimulados por palavras de ordem nacionalistas e contra a classe política, representam, pontua o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto, “um Brasil muito conservador. As manifestações nos mostram que não porque centenas de milhares de pessoas saiam às ruas por uma reivindicação justa, a realidade mudou e vivemos agora numa comunidade de Ursinhos Carinhosos”, ironiza. O jornalista considera um erro assumir que estamos diante de um movimento fascista, como parte da esquerda teme. “É um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, que subitamente deu de cara com as manifestações de rua mas que não tem nenhuma formação política, somente muita raiva e indignação. Sua revolta não foi necessariamente contra os partidos, mas contra as instituições tradicionais que representam a autoridade como um todo”, analisou.

O futuro da política

Para Carlos Eduardo Martins, as marchas expressam “o colapso do sistema político brasileiro”. Iglecias acredita que são uma mostra de que o sistema políticos está demasiado afastado dos cidadãos e de suas preocupações cotidianas. “O sistema político brasileiro tem estado demasiado fechado em si mesmo, muito mais próximo dos interesses privados que da sociedade”, afirmou o sociólogo.

No calor do momento, algumas pessoas questionaram a ameaça de que as forças políticas de direita se aproveitassem da massificação para promover algum tipo de golpe de Estado, semelhante ao que aconteceu no Brasil em 1964 – quando a classe média descontente com os rumos do governo de João Goulart favoreceu um complô militar que derrubou o presidente. Para o professor da USP, esta possibilidade resulta pouco provável “porque há um sentimento muito forte de que este movimento pertence à sociedade civil, é um movimento que não quer a proteção de partidos, grupos, da mídia ou de qualquer outro ator político”, avaliou.

O que se pode dizer com segurança é que as manifestações que levaram mais de um milhão e meio de pessoas às ruas não são banais. O militante do MPL avalia que “a história prova que as manifestações mudam as coisas. Ou a escravidão ainda é normal? Ou a França ainda é uma monarquia? As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água mostrou isso na Bolívia e agora no Brasil dezenas de cidades também estão mostrando”, finaliza Rafael Siqueira.

Brazil’s Protesters, in Their Own Words (N.Y.Times)

June 20, 2013, 3:13 pm9 Comments
By ROBERT MACKEY

A video interview with a supporter of the protests in Brazil, recorded during a demonstration in São Paulo on Monday night, by the filmmaker Otavio Cury and the journalist Dom Phillips.

As my colleague Simon Romero reports, Brazil is braced for another round of protests on Thursday, with demonstrations planned for dozens of cities, even after the authorities retreated from plans to raise bus fares across the country in the face of massive street protests.

Despite bus fare reductions in some cities, big protests planned in today. Follow them live & on social media http://bit.ly/14EUSUz 

18 RETWEETS 3 FAVORITES

The size and intensity of the demonstrations has created an instant demand in the global media for English-speaking academics and journalists who can explain the root causes of the protests to the rest of the world. Less often heard are the voices of the protesters themselves, and Brazilians who sympathize with their demands.

That makes the work of two contributors to the Brazilian newspaper Folha de São Paulo’s blog “From Brazil,” particularly valuable. Reporting from the streets of São Paulo this week, the filmmaker Otavio Cury and Dom Phillips, a British journalist based in Brazil, have produced two video reports, with English subtitles, in which Brazilians explain in clear terms the frustration and anger behind the movement.

In one video recorded on Monday night, a 46-year-old maid named Maria Lucia who was trying to make her way home through that night’s demonstration in São Paulo stopped to explain why she supported the protests. The second video report amplifies the voices of eight protesters who marched that night in a crowd estimated at more than 65,000.

The voices of Brazilian protesters in a video report recorded on Monday for the newspaper Folha de São Paulo’s “From Brazil” blog.

Mr. Cury offered one more, wordless, glimpse of the energy on São Paulo’s streets in a brief video clip of a protest marching band recorded during a demonstration Tuesday night.

Video of a marching band of protesters, recorded on Tuesday in São Paulo.

Não é hora de sair do movimento (uninomade.net)

Por Giuseppe Cocco, no facebook

22/06/2013

stairs

Esquematicamente, faço um balanço depois das manifestações de quinta-feira, 20 de junho de 2013, a partir da experiência no Rio de Janeiro:

1) A partir de ontem o movimento pelo passe livre “passou” a ser outra coisa. Realmente monstruosa e o monstro é horrível e belo ao mesmo tempo.

2) Essa outra coisa ninguém sabe o que é e está totalmente em disputa.

O fato que as agremiações de esquerda tenham sido agredidas não significa que o movimento seja de direita. Foram agredidas por pequenos grupos, mas no meio de uma hostilidade geral à politica, ao mesmo tempo em que as organizações populares passeavam tranquilamente.

O que é certo é que o movimento coloca em crise todas as representações políticas e os planos de governo, político-partidários, eleitorais etc.

A grande mídia e a direita estão jogando pesado. Pra começar, é preciso entender quem agrediu.

O PT subavaliou e subavalia o custo de se manter em coalizões espúrias, de pensar que poderia resolver tudo desde cima, com base no neodesenvolvimentismo e nas técnicas gerenciais e de marketing eleitoral. O PT poderia perceber que tudo isso entrou em pane e se faz necessário inovar. Rapidamente! Dar sinais fortes disso.

3) O campo progressista passa – ele todo – inclusive a oposição de esquerda e o setores multitudinários do movimento, por três desafios e armadilhas:

a) O campo de governo (o PT) não tem um plano B. A atuação do Haddad admitindo um recuo junto ao Alckmin é desastrosa: amplifica a sensação: direita e esquerda são a mesma coisa. Uma sensação difusa, que não se materializava eleitoralmente, mas agora explodiu. Aí, o governo espera que “passe”, só que não passa e o monstro continua lá.

b) Diante do imobilismo do governo federal, o campo do PT está tentado (sobretudo depois de ontem) em polarizar em torno do golpismo e, ao invés de ira para dentro do movimento, com base no que deveria ser uma franca abertura — por exempo, colocando um Paulo Vannucchi no MJ, um Célio Turino no MinC, uma Ermínia Maricato nos Transportes e Cidade (ministerios unificados), — declarando moratória geral sobre preços dos transportes, aberturas de assembleias de participação em todos os territorios etc etc.

c) Decretar a idiotice que todo o movimento é direita, além de ser uma inverdade, é entregá-lo nas mãos do golpismo e da direita. Entre esses indigentes políticos do PT, há aqueles que pedem repressão. Não dá nem para acreditar. E não se trata apenas de um princípio, mas do óbvio que a repressão quem faz e quem se aproveita é a direita. É só ler O Globo do dia seguinte, depois que PM gazeou todo mundo ontem até a meia-noite.

Aqueles que “fazem multidão” dentro do movimento tem o desafio nada simples de se organizar para entender que a radicalização é democrática e passa também por dentro do movimento. Criticar – inclusive radicalmente – a Copa e as Olimpíadas de Cabral e Paes, os símbolos do poder e não estar preocupado com a proliferação de cartazes e comportamentos fascistas NAS manifestações está virando uma outra forma de idiotice.

Isto significa que é preciso passar a criticar a forma-manifestação e – com base no recuo geral dos preços das passagens – propor outras coisas que propiciem processos instituintes.

Agora, tudo isso passa hoje por dentro das manifestações. É ali que é preciso fazer essa batalha política, e está tudo muito complicado. Mas é aí, dentro do movimento, que a democracia precisa avançar.

Divulgue na rede

O sistema de transporte é mais violento do que a polícia (uninomade.net)

Por Bruno Cava, republicação do Quadrado dos loucos

14/06/2013

thumb-170634-movimento-passe-livre-sp-resized

Ligo o rádio e ouço que o trânsito está um caos. Desconfio imediatamente. O trânsito me parece muito organizado. Vejo fluxos turbulentos de ônibus, carros, motos, trens, indo e vindo do subúrbio ao centro e então do centro ao subúrbio. Todos os dias, ininterruptamente. São milhões de veículos abarrotados de uma gente resignada, olhares perdidos, no tempo morto do transporte diário. Vamos sentadinhos ou de pé, em qualquer caso comprimidos na massa de semelhantes de cara fechada. Acordamos cedo para enfrentar essa via-crúcis e no final do dia só queremos que acabe logo para chegar em casa, tomar banho e no dia seguinte subir a pedra de novo. São milhões e milhões de horas humanas gastas, jamais remuneradas. Pelo contrário, taxadas a preços que não param de aumentar.

Todos os dias nos acotovelamos, nos estranhamos, nos empurramos, passamos à frente, ou somos sobrepujados pelos mais espertos ou fortes. Brigamos por lugares apertadíssimos, repelindo a carne alheia. De carro, buzinamos, fechamos, brigamos com o motorista vizinho, xingamos o motociclista. A culpa é sempre do outro mal educado. Ou então é nossa, por ainda não podermos comprar o conforto do carro particular, por não morarmos ou trabalharmos no lugar correto. No mais das vezes, nos refugiamos nas mentes, lamentando a condição miserável de passageiro. Que passe logo.

Enquanto isso, uma dinheirama à noite estará depositada nos caixas dos ônibus, ficará nas bilheterias do metrô, do trem, das barcas, ou então estará trocada nos postos de gasolina, por ainda mais crédito medido em quilômetros para rodar no purgatório de asfalto. Esse dinheiro irrigará empresários, dirigentes, burocratas, campanhas eleitorais. Será reaplicado para tirar ainda mais valor dos fluxos. Não. Sejamos realistas. O trânsito está bem organizado. Nós somos a maior prova disso. Como poderíamos aguentar ainda outro dia, amanhã mesmo, se não tivesse sido pensado de cabo a rabo para funcionar assim? Só pode ser por que é para funcionar assim.

A grande imprensa faz crer que bastaria ajustar a eficiência do sistema, melhorar a gestão, reduzir a corrupção etc. Detalhes de minúscula importância. Vejo a TV chamando o trânsito de caótico, mas nenhuma palavra sobre o completo alijamento das pessoas na decisão sobre as linhas, as empresas, as obras e os equipamentos. A ausência de caráter democrático nas macro ou micro decisões no plano dos transportes é absoluta. Tampouco alguma reportagem, notícia ou artigo a respeito da confusão de prefeitura e empresa de ônibus, unha e carne num projeto político que vai das eleições à governabilidade. Nenhum jornalista dá nome aos bois. Aí quando um ônibus cai do viaduto, a culpa foi de um passageiro agressivo. Quando a mulher é estuprada numa vã ou num ônibus, a culpa é de alguns marginais. Escondem o fato que, por trás dessas exceções, subsiste uma regra menos confessável. Atrás do que o sensacionalismo diverte, há razões estruturais. O capitalismo é um sistema de dominação indireta.

Como se a tensão entre passageiros e motoristas/cobradores não fosse causada pelo ódio que todos têm dos ônibus. O que, por sua vez, exprime vicariamente o ódio que se tem pelo sistema de transportes como um todo. Isto é, pela simbiose entre prefeitura e empresa, numa gestão que parece operar mediante algum inacessível plano divino. Como se não fôssemos desgastados e estressados diariamente, até a exaustão mental (não fossem os tarjas pretas!). Como se as mulheres não tivessem de encarar, até a neurose, um abuso sexual sistemático, quase naturalizado pela indiferença com que esse abuso é observado pelos outros ao redor. Porque muitos homens se esfregam nelas nos veículos lotados, passam-lhes o pau, e alguns fazem isso como um ritual diário. Várias são estupradas nos pontos mais isolados, de dia ou de noite.

Antigamente, os escravos eram gastos no engenho e tinham de ser trocados a cada 7 ou 8 anos. Revoltavam-se demasiado. Fugiam. Culpavam o senhor. Hoje, a carne é moída pelo menos duas vezes ao dia, de manhã cedo e à tardinha. Mas os músculos e nervos a gente dá sobrevida com os modernos tratamentos da medicina do trabalho. Principalmente a televisão, a nossa maior terapeuta. A culpa geralmente é atribuída a nós mesmos, muitas vezes autoatribuída: se estamos sofrendo é porque fracassamos. Por não nos esforçarmos o suficiente para sair dessa vida de merda, como fulana ou beltrano…

Em vez de admitir como seria muito mais fácil, muito mais prático, lutar coletivamente por um transporte para todos, achamos que o problema é individual, que no fundo teríamos uma parcela da culpa, e nos resignamos. Imagine contudo o efeito político, se as energias que despendemos para, num esforço individual inglório, sair dessa condição e “subir na vida” fossem aplicadas coletivamente na luta dos transportes? Como teríamos um transporte muito melhor e para todos, do que tentar subir sozinho somente mais um degrau na escala de degradação generalizada da vida na metrópole?

Os movimentos e lutas do passe livre são a melhor saída. Talvez a única. Arregaçam à força um rombo no beco sem saída, aonde nos coloca a falsa oposição entre “público” e “privado”. Rejeitam em bloco as narrativas da grande imprensa, seus opinólogos e especialistas, de que faltaria gestão ou eficiência (e que o povo é mal educado). O problema do transporte afinal não é ele ser público nem privado, como estas também não são suas soluções. Nem ser mal gerido. O problema é e sempre foi falta de democracia.

E democracia, inexoravelmente, significa tumulto. O tumulto é o pulmão das democracias. É nele que atua o poder constituinte, o que faz a constituição e a lei não serem apenas folhas de papel para a exegese das faculdades de direito. Não devemos confiar a constituição a capas-pretas, cortes supremas ou ao francamente conservador discurso do “ativismo judicial”. O tumulto é o momento em que nós a fazemos nossa, e de onde dimanam todos os direitos e todas as instâncias democráticas. O tumulto é um ato de dignidade, o que só acontece ao irresignar-se diante do intolerável. A dignidade não é humana: é o oposto da humilhação. Uma das maiores e mais disseminadas violências hoje está no sistema de transportes.

Divulgue na rede