Redes sociais são apontadas por especialistas como fundamentais nas mobilizações populares (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4763, de 08 de Julho de 2013.

Por Paloma Barreto / Jornal da Ciência

Antropóloga, filósofo e comunicadora analisam o papel dessa forma de comunicação nos protestos que ocorrem no país

O que há em comum entre a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, a revolta na Turquia e as manifestações que estão acontecendo no Brasil? Além de perturbarem o sistema político estabelecido e buscarem mudanças, estes movimentos sociais do século XXI utilizam as redes sociais como principal ferramenta de articulação e mobilização. Ana Lúcia Enne, antropóloga e professora do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou o papel das novas mídias nos protestos que pararam dezenas de cidades brasileiras nas últimas semanas. “Elas são fundamentais no contexto contemporâneo por oferecerem caminhos contra-hegemônicos de divulgação de informações e posições”, afirmou.

As hashtags – palavras-chave antecedidas pelo símbolo “#”, que designam o assunto que se deseja discutir em tempo real nas redes sociais – verásqueumfilhoteunãofogeàluta, #ogiganteacordou e #primaverabrasileira tomaram as páginas do facebook e twitter de milhares de brasileiros. A convocação dos internautas chegou a levar mais de um milhão de pessoas às ruas de todo o Brasil na noite do dia 20 de junho. “Como ficou claro neste momento histórico, as redes precisam das ruas para construir um movimento realmente ativo e capaz de gerar mudanças sociais. As mobilizações virtuais e físicas são complementares e servem a propósitos distintos”, observou Ana.

A antropóloga critica a atuação da grande mídia, e acredita que hoje a internet disputa espaço com os antigos veículos de comunicação na cobertura de acontecimentos. “Principalmente entre os jovens, que utilizam as ferramentas das novas tecnologias de comunicação e informação diariamente, em larga escala, ficou evidente o caráter manipulador, por vezes mentiroso, simplificador e atrelado aos interesses políticos e econômicos da grande mídia. Isso evidenciou o descrédito com essas instituições e a busca permanente por outras formas de expressão e visibilidade”.

Essa “batalha de sentidos” foi citada pela diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco/UFRJ), Ivana Bentes, em seu perfil no facebook. “A palavra de ordem das manifestações, o #vemprarua, é remix genial da publicidade da Fiat para a Copa. Ou seja, não tem nenhuma multidão amorfa ou acéfala, mas atravessada de singularidades e disputas. Temos mais é que perguntar quem fala e de onde fala. E faz todo o sentido disputar os sentidos do que está acontecendo”, publicou no dia 22 de junho.

Quando os protestos brasileiros tomaram grandes dimensões e alcançaram o noticiário internacional, especialistas se empenharam na busca de explicações para os acontecimentos. Entre eles, o filósofo francês Pierre Lévy classificou a revolta brasileira como o “experimento de uma nova forma de comunicação” em entrevista para o jornal O Globo. “Você não confia na mídia em geral, você confia em pessoas ou em instituições organizadas. Comunicação autônoma significa que sou eu que decido em quem confiar, e ninguém mais. Eu consigo distinguir a honestidade da manipulação, a opacidade da transparência”, afirmou o pesquisador de cibercultura.

Manifestações do século XXI

Em dezembro de 2010, um jovem ateou fogo ao próprio corpo como forma de manifestação contra as condições de vida na Tunísia. O ato desesperado culminou na Primavera Árabe, uma onda de revoltas em quase 20 países que já conseguiu derrubar quatro governos. Em maio deste ano, a ameaça de demolição do parque Taksim Gezi para a construção de um shopping deu início aos protestos na Turquia. No Brasil, em circunstâncias totalmente diferentes, a aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo foi o estopim para que milhares de cidadãos de diversos municípios saíssem às ruas reivindicando melhorias nos serviços públicos e mudanças do sistema político.

“A adesão às manifestações está relacionada a algumas variáveis. Primeiro, uma sensação de insatisfação generalizada em relação a uma série de fatores que afetam o brasileiro diretamente, como saúde, educação, transporte, corrupção etc. A questão dos vinte centavos foi sentida como uma gota d’dágua, um transbordamento do copo, se transformando em uma pauta unificadora, capaz de aglutinar multidões insatisfeitas e com diversas outras causas para protestar”, considerou Ana Enne.

A professora acrescentou que a etapa mais difícil do processo é a catalisação dos manifestantes. Neste aspecto, ela acredita que as ações truculentas das forças de segurança, disseminadas na internet através de depoimentos e vídeos, foram fundamentais para sensibilizar outras pessoas. “A explicitação da violência policial, experiência dolorosa vivida cotidianamente por muitos brasileiros, contra manifestantes pacíficos em várias cidades brasileiras, também deu vida e impulsionou o movimento. Foi a partir das divulgações dessas imagens que as passeatas ganharam uma densidade numérica impressionante”.

Também nesta perspectiva, o movimento brasileiro se assemelha aos internacionais. Na Turquia, a repressão dos primeiros protestos por parte da polícia motivou uma maior adesão de pessoas à revolta. A foto de uma mulher de vermelho sendo atacada por um jato de gás lacrimogêneo em Istambul foi replicada nas redes sociais e causou ainda mais indignação nos internautas. No Brasil, dentre os conteúdos de violência policial disseminados, um dos que teve mais repercussão foi a imagem de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S Paulo atingida no olho por uma bala de borracha no dia 13 de junho.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, conhecido por ser um “intelectual conectado”, é um dos principais analistas do papel da internet nos movimentos sociais contemporâneos. No dia 11 de junho, durante o evento “Fronteiras do Pensamento”, em São Paulo, ele foi questionado sobre o protesto que ocorria na Avenida Paulista naquele momento contra o aumento das passagens de ônibus. “Todos os movimentos sociais na história, são, sobretudo, emocionais. Não são pontualmente reivindicativos. Não é o transporte. Em algum momento, há um fato que provoca a indignação. Ao sentir a possibilidade de estarem juntos, ao sentir que há muitas pessoas que pensam o mesmo fora do âmbito institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe. Mas, com certeza não é o que está aí”, avaliou Castells.

Esta matéria está na página 8 do Jornal da Ciência impresso. As 12 páginas podem ser acessadas em PDF:
http://www.jornaldaciencia.org.br/impresso/JC740.pdf

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