Nem tudo é igual na revolta do Brasil (Desinformemonos)

“As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água demonstrou isso na Bolívia e, agora no Brasil, dezenas de cidades também estão fazendo isso”, pontua Rafael Siqueira, do Movimento Passe Livre.

BRISA ARAUJO
FOTOS: MÍDIA NINJA
Número 98    junio 2013

midianinja11Centenas de milhares de pessoas continuam nas ruas do Brasil enquanto os governos baixam as tarifas dos transportes – demanda que detonou as primeiras marchas – numa tentativa de acalmar os manifestantes. Novos atores sociais chegam às manifestações para desconcerto dos políticos de todas as orientações.

No dia 19 de junho, o movimento social ganhou a revogação do aumento de 20 centavos na tarifa dos transportes públicos de São Paulo, seguida pela diminuição das tarifas em outras importantes cidades do país. Mas na marcha de comemoração do dia seguinte, algo mais saltou aos olhos: mais de um milhão e 200 mil brasileiros de distintos grupos sociais saíram às ruas de mais de cem cidades em marchas que reivindicaram causas diversas, desde saúde e educação pública até a ira contra os partidos políticos, a corrupção no governo e os altos impostos.

O transporte foi o princípio

As marchas explodiram na quinta maior economia do mundo por uma causa aparentemente local e pontual, que é o preço do transporte nas grandes cidades. De alguma maneira, foi a gota d’água.

Rafael Siqueira, professor de música e militante do Movimento Passe Livre (MPL), indica que a mobilidade é um problema nacional. “Os sistemas de transporte público são caóticos em todo o país e no início de 2013 aumentam as tarifas em várias idades. Ainda que cada cidade tenha a sua situação particular, o problema é nacional”, explica. O MPL é formado por trabalhadores e estudantes e atua nacionalmente desde 2005, depois de revoltas na Bahia, em 2003 e Santa Catarina, em 2004. Uma das principais bandeiras do movimento é o acesso universal ao sistema de transporte urbano, que para eles deve ser gerido pelo Estado e não por empresas privadas.

Segundo Carlos Eduardo Martins, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a maciça adesão às manifestações inicialmente convocadas pelo MPL vem de uma indignação pela desmedida repressão policial contra o aumento, mas tem bases sociais mais profundas, como “a deterioração das condições materiais de vida pela inflação dos preços de habitação e a péssima qualidade dos serviços públicos de saúde, educação e transporte”. O professor afirma que a falta de definição entre o que é direita e esquerda no país também gera uma falta de esperança na política, já que “o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a dirigir o bloco de poder que reúne o grande capital nacional e estrangeiro, as oligarquias financeiras e o agronegócio. A consequência é uma ampla corrupção da vida política nacional”.

Inconformidade com os gastos excessivos no futebol

Desde o sábado 15 de junho, outro fator entrou na complexa conjuntura política brasileira. A Copa das Confederações, torneio de futebol da FIFA, é o primeiro evento que utiliza as megaobras programadas para o Mundial de Futebol de 2014. Os estádios Mané Garrincha (Brasília), Mineirão (Belo Horizonte), Castelão (Fortaleza) e o tradicional Maracanã (Rio de Janeiro) são agora cenário de manifestações fortemente reprimidas pela polícia durante todos os partidos do torneio. Fora dos estádios, pessoas se expressaram “contra o que se consideram gastos excessivos e abusivos na construção dos estádios. Além disso, reivindicam que esses recursos sejam investidos em áreas mais importantes para os cidadãos, como saúde, educação e mobilidade urbana”, resume o sociólogo Wagner Iglecias, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista com Desinformémonos.

Os Comitês Populares da Copa (COPACs) são movimentos sociais presentes nas 12 cidades que serão sede do torneio do próximo ano e estão articulados nacionalmente. Uma das principais preocupações dos comitês são os despejos nas cercanias dos estádios, assim como o aumento do fosso entre as classes altas e baixas das cidades. “Muitas das obras para o mundial são fruto de projetos antigos das classes dominantes, que agora encontram um motivo necessário para justificar reformas que provocarão o distanciamento dos pobres para a periferia mais distante de Fortaleza, causando segregação e distinção social”, defende o COPAC de Fortaleza, Ceará. Esta cidade já tem um claro exemplo deste processo: nas comunidades de Lagoa da Zeza e Vila Cazumba, mais de 5 mil pessoas foram desalojadas para um conjunto habitacional muito distante do centro, onde não há infraestrutura de escolas e creches.

O COPAC do Rio de Janeiro reforça as denúncias: “O que vemos hoje é o aumento da violação a direitos, principalmente contra comunidades pobres. Além disso, sabemos que a velocidade dos programas de urbanização de algumas favelas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), assim como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são parte de um conjunto de ações para que a cidade passe uma imagem de ‘ordem e progresso’ para os investidores e os turistas”, denunciam.

Os novos atores, entre o conservadorismo e a ira contra a classe política

Grande parte dos participantes das últimas marchas, no entanto, não são parte de movimentos sociais nem de nenhum partido político. São tão contrários a eles que nas grandes marchas do dia 20 de junho atacaram física e verbalmente pessoas com camisas ou bandeiras de partidos políticos. Convocados pelas redes sociais e estimulados por palavras de ordem nacionalistas e contra a classe política, representam, pontua o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto, “um Brasil muito conservador. As manifestações nos mostram que não porque centenas de milhares de pessoas saiam às ruas por uma reivindicação justa, a realidade mudou e vivemos agora numa comunidade de Ursinhos Carinhosos”, ironiza. O jornalista considera um erro assumir que estamos diante de um movimento fascista, como parte da esquerda teme. “É um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, que subitamente deu de cara com as manifestações de rua mas que não tem nenhuma formação política, somente muita raiva e indignação. Sua revolta não foi necessariamente contra os partidos, mas contra as instituições tradicionais que representam a autoridade como um todo”, analisou.

O futuro da política

Para Carlos Eduardo Martins, as marchas expressam “o colapso do sistema político brasileiro”. Iglecias acredita que são uma mostra de que o sistema políticos está demasiado afastado dos cidadãos e de suas preocupações cotidianas. “O sistema político brasileiro tem estado demasiado fechado em si mesmo, muito mais próximo dos interesses privados que da sociedade”, afirmou o sociólogo.

No calor do momento, algumas pessoas questionaram a ameaça de que as forças políticas de direita se aproveitassem da massificação para promover algum tipo de golpe de Estado, semelhante ao que aconteceu no Brasil em 1964 – quando a classe média descontente com os rumos do governo de João Goulart favoreceu um complô militar que derrubou o presidente. Para o professor da USP, esta possibilidade resulta pouco provável “porque há um sentimento muito forte de que este movimento pertence à sociedade civil, é um movimento que não quer a proteção de partidos, grupos, da mídia ou de qualquer outro ator político”, avaliou.

O que se pode dizer com segurança é que as manifestações que levaram mais de um milhão e meio de pessoas às ruas não são banais. O militante do MPL avalia que “a história prova que as manifestações mudam as coisas. Ou a escravidão ainda é normal? Ou a França ainda é uma monarquia? As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água mostrou isso na Bolívia e agora no Brasil dezenas de cidades também estão mostrando”, finaliza Rafael Siqueira.

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