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Juridiquês (Sopro 83)


Juridiquês
 Alexandre Nodari


Se tivesse sido possível construir a torre de Babel sem escalá-la até o topo, ela teria sido permitida
(Kafka)

1. Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei, de autoria de Maria do Rosário, que pretende acrescer ao artigo 458 do Código de Processo Civil, que diz respeito aos “requisitos essenciais da sentença”, um quarto inciso, tornando obrigatória “a reprodução do dispositivo da sentença em linguagem coloquial, sem a utilização de termos exclusivos da Linguagem técnico-jurídica e acrescida das considerações que a autoridade Judicial entender necessárias, de modo que a prestação jurisdicional possa ser plenamente compreendida por qualquer pessoa do povo”. É evidente que a proposta visa ampliar o acesso à Justiça e tem intenção democratizadora. Todavia, se, por si só, o projeto parece ser razoável, confrontado com a torrente de leis ou projetos de lei que visam regular cada aspecto da vida humana, do cigarro à linguagem (há poucos anos, o comunista-ruralista Aldo Rebelo tentou banir os estrangeirismos do português), não há como não termos uma postura ao menos cética diante dele. Se o projeto em si pode ser bom, contextualizado com a inflação normativa que visa purificar cada aspecto da vida humana, não há como não termos ressalvas. O desejo de limpeza, de higienização, de clareza, atravessa a sociedade como um todo – e tal desejo atende a anseios do poder, ou, pelo menos, é canalizado por ele. Dominique Laporte, em sua História da merda, lembra que foi no mesmo ano de 1539 que a França: 1) primeiro obrigou que as leis, os atos administrativos, os processos judiciais e os documentos notariais, fossem redigidos em vernáculo, eliminando as ambigüidades e incertezas do latim, e possibilitando a “clareza”; 2) e, logo a seguir, proibiu que os cidadãos jogassem na rua seus excrementos – suas fezes e suas urinas. Limpar a linguagem e limpar a cidade: a centralização do poder que daria naquilo que chamamos vulgarmente de absolutismo tem suas raízes nessa vontade de pureza e limpeza, nesse ideal cristalino. Todavia, para além desse “desejo de clareza”, é interessante atentarmos para uma espécie de ato falho contido na “Justificação” do projeto de lei; talvez não seja, de fato, um ato falho, mas algo intencional, o que pouco importa. O parágrafo final da justificativa fala em “tradução para o vernáculo comum do texto técnico da sentença judicial”, como se as sentenças não fossem escritas em português. Há aí uma verdade essencial sobre o Direito: ele é uma linguagem diferente do “vernáculo comum”. Na famosa Apologia de Sócrates, o velho sábio, ao falar diante do tribunal que o acusava de impiedade, diz ser “um estrangeiro à língua” que ali se fala, e pede pra ser tratado como se fosse um estrangeiro que não sabe o grego. O Direito não é uma língua estrangeira como o inglês ou o latim são em relação ao português ou ao grego: o Direito é a língua portuguesa ou grega em outro regime de funcionamento. Diante do Direito pátrio, somos como estrangeiros que não conhecem a própria língua. Mas qual é o regime de funcionamento daquela linguagem que atende, no “vernáculo comum”, pelo nome de “juridiquês”?

2. Em um belíssimo texto sobre a figura do notário, Salvatore Satta, um dos juristas mais brilhantes do século XX, resumiu o “drama” do escrivão ou escrevente, esses mediadores entre os plebeus e os juristas, do seguinte modo: “Conhecer o querer que aquele que quer não conhece”. Não é que “aquele que quer” não conheça o seu querer; “aquele que quer” não sabe traduzi-lo juridicamente. Ou seja, continua Satta, o que o notário faz, de fato, é “reduzir a vontade da parte enquanto vontade do ordenamento”. Eis o sentido do brocardo latino Da mihi factum, dabo tibi jus (“Exponha o fato e te direi o direito”): reduzir a “volição em vista de um escopo prático que a parte se propõe a atingir enquanto vontade jurídica e juridicamente tipificada”, ou seja, traduzir uma vontade, um fato, um ato da vida, em tipos jurídicos. O Direito não lida propriamente com fatos ou atos, mas com fatos ou atos jurídicos, que correspondam a certos tipos previstos. Passar um ato ou fato da vida ao Direito é tipificá-lo. Nesse sentido, o tipo talvez seja o elemento gramatical básico da linguagem jurídica. Mas o que exatamente é um tipo? Quem melhor refletiu sobre a noção de “tipo” não foi um jurista, mas um sociólogo, Max Weber, sedimentando, com os chamados “tipo ideais”, seu método em oposição ao método empírico-comparatista de Durkheim. Para Weber, os tipos puros ou ideais não poderiam ser encontrados “na realidade”; o que existia “de fato” era sempre um compósito, mais ou menos híbrido, de tipos que – e daí a sua natureza circular – se construíam a partir de elementos dispersos nesta mesma “realidade” em que eram aplicados. A própria etimologia de tipo já indica este seu caráter ambíguo, entre a empiria e a abstração: o gregotypos significa imagem, vestígio, rastro, ou seja, ausência, índice de uma presença imemorial. Para usar um exemplo de Vilém Flusser: os “typoi são como vestígios que os pés de um pássaro deixam na área da praia. Então, a palavra significa que esses vestígios podem ser utilizados como modelos para classificação do pássaro mencionado”. As duas formas de Direito que o Ocidente conhece são as duas facetas do tipo: a de matriz romano-gerâmica baseia-se nas leis, na abstração, no tipo, para chegar ao caso empírico; e a Common Law, ao contrário, parte dos casos empíricos para convertê-los em típicos, em abstratos. Mas, como diz Satta, na tipificação, há uma redução, algo se perde – inclusive a linguagem comum.

3. O tipo atende a uma necessidade básica do funcionamento do Direito, e domodus operandi de sua linguagem específica (ou típica): a prescrição. “Se” acontece ou está presente o tipo X, “então” a conseqüência, a sanção, é Y. O problema de todo processo reside em saber se o acontecimento A da vida corresponde ou não ao tipo X para que a conseqüência Y se dê. Como as normas se fundamentam em tipos, que não passam de linguagem sem relação necessária com as coisas e os fatos da vida, é preciso uma construção discursiva que conecte o acontecimento da vida ao tipo jurídico – se o Direito fosse pura subsunção, lembra Giorgio Agamben, poderíamos abdicar desse imenso aparato judicial chamado processo, e que envolve não só o juiz, o advogado e o promotor, mas inúmeros outros mediadores entre a linguagem comum e a linguagem jurídica (o notário, o taquígrafo, etc.). Por isso, para que se dê essa tipificação, não só o fato relevante juridicamente precisa passar à forma de tipo, como também tudo aquilo que o cerca, para que haja a redução da singularidade à tipificação, ou seja, à reprodução daquele caso típico (na forma de jurisprudência). Sabemos bem como isso funciona: dos boletins de ocorrência até as sentenças, os fatos da vida são narrados em uma linguagem que os torna típicos, abstratos – e reprodutíveis. Ítalo Calvino sintetizou de forma magistral esse “inquietante” processo de tradução:


O escrivão está diante da máquina de escrever. O interrogado, sentado em frente a ele, responde às perguntas gaguejando ligeiramente, mas preocupado em dizer, com a maior exatidão possível, tudo o que tem de dizer e nem uma palavra a mais: “De manhã cedo, estava indo ao porão para ligar o aquecedor quando encontrei todos aqueles frascos de vinho atrás da caixa de carvão. Peguei um para tomar no jantar. Não estava sabendo que a casa de bebidas lá em cima havia sido arrombada”. Impassível, o escrivão bate rápido nas teclas sua fiel transcrição: “O abaixo assinado, tendo se dirigido ao porão nas primeiras horas da manhã para dar início ao funcionamento da instalação térmica, declara ter casualmente deparado com boa quantidade de produtos vinícolas, localizados na parte posterior do recepiente destinado ao armazenamento do combustível, e ter efetuado a retirada de um dos referidos artigos com a intenção de consumi-lo durante a refeição vespertina, não estando a par do acontecido arrombamento do estabelecimento comercial sobranceiro.”

Calvino chamou a isso de “terror semântico”, ou “antilíngua”: “a fuga diante de cada vocábulo que tenha por si só um significado” – o perigo, a seu ver, era que essa “antilíngua” invadisse a vida comum. Mas nessa fuga diante do vocábulo que tenha por si só um significado, há um avanço para os vocábulos que abranjam mais de um significado, que podem, portanto, ser reproduzidos em várias situações. Essa reprodutibilidade é, como já sublinhamos, essencial à linguagem baseada em tipos – é ela que diferencia, segundo Flusser, a noção de tipo da noção de caractere, que privilegia aquilo que é característico, isto é, próprio.

4. Portanto, o tipo, como elemento básico da gramática jurídica, serve para tornar reprodutíveis as normas diante da singularidade dos acontecimentos da vida; mas, para tanto, ele abstrai (d)esses acontecimentos. Os processos e as normas, compostos de inúmeros tipos, correm, desse modo, ao largo da vida, como se fossem uma narrativa ficcional. O grande romanista Yan Thomas argumenta que “a ficção é um procedimento que (…) pertence à pragmática do direito”. Os antigos romanos, continua Thomas, não tinham pudor em, diante de uma situação excepcional na qual não queriam fazer uma determinada regra, optar por mudar juridicamente a situação no lugar de alterar a regra. Um exemplo, dentre muitos: buscando tornar válidos os testamentos de alguns cidadãos que haviam morrido quando se encontravam sob custódia dos inimigos, o que, por lei, invalidava tais testamentos, a Lex Cornelia, de 81 a.C., optou por criar uma ficção, da qual conhecemos duas versões: 1) a primeira, uma ficção positiva, era considerar os testamentos como se os cidadãos haveriam morrido sob o estatuto normal da cidadania; 2) e a segunda, uma ficção negativa, pela qual os testamentos eram válidos como se os cidadãos não tivessem morrido sob o poder do inimigo. Por que esse afastamento discursivo da “realidade”, da vida? Por que, na narrativa, ou na sua forma, o Direito se afasta do relato comum, cria uma outra realidade, quase uma dimensão paralela? Aqui entra o segundo elemento da linguagem prescricional que caracteriza o Direito, a sanção, o “então Y”. A função do Direito, como sabemos, é alterar, pela linguagem, pela palavra, a realidade, a vida, ou seja, criar palavras eficazes – nem que para garantir a eficácia de uma lei ou de uma sentença seja preciso usar da força pública. (Aliás, não há vernáculo comum o suficiente capaz de explicar a “qualquer pessoa do povo” que aquela sentença que lhe dá ganho de causa ainda precisa ser executada, em um procedimento que demorará mais alguns anos). É dessa função do Direito de alterar a realidade pela linguagem que nasce a ilusão retrospectiva de que haveria um estágio pré-jurídico em que religião, magia e direito coincidiriam. Na verdade, o que o Direito e a Magia partilham é do mesmomodus operandi da linguagem, o performativo (“eu juro”, “eu te condeno”, “eu prometo”), em que, nas palavras de Agamben, “o significado de uma enunciação (…) coincide com a realidade que é ela mesma produzida pelo ato da enunciação”. Nesse sentido, o Direito é, ainda hoje, mágico. O gosto dos juristas pela linguagem ornamental, pelos brocardos, pela linguagem ritual e pelo eufemismo, provem dessa ligação: a realidade pode ser criada a partir de uma linguagem vazia (ou esvaziada, afastada da realidade). Poderíamos, portanto, dizer que o Direito é, ao mesmo tempo, o saber quase mágico deste modus operandi, e aquilo que garante que tal linguagem performativa se transforme em ato – que os contratos sejam cumpridos, que as leis sejam aplicadas, etc. Todavia, para que o Direito opere magicamente sobre a realidade, ele precisa se afastar dela; para que sua linguagem produza efeitos sobre a vida, ela deve se afastar da linguagem que comunica ou que expressa, o “vernáculo comum”.

5. Portanto, talvez o “juridiquês” não seja (apenas) uma prática judiciária que remonta ao bacharelismo e à pseudo-erudição, um resquício antigo que pode ser removido. Antes, talvez ele seja uma prática judiciária constitutiva daquilo que conhecemos por Direito. Emile Benveniste, ao se deter no fato de que o verbo latino iurare (jurar) é o correspondente ao substantivo ius, que estamos habituados a traduzir por “direito”, argumenta que ius deveria, na verdade, significar “a fórmula da conformidade”: “ius, em geral, é realmente uma fórmula, e não um conceito abstrato”. É interessante notar que Benveniste aponta no ius do direito romano este caráter “mágico” que viemos assinalando, em que há separação da linguagem comum e produção de efeitos sobre a realidade – e mostra ainda que tal caráter estaria presente naquele documento que os juristas costumam considerar uma das pedras basilares do direito ocidental, a Lei das XII Tábuas. Diz Benveniste: “iura é a coleção das sentenças de direito. (…) Essesiura (…) são fórmulas que enunciam uma decisão de autoridade; e sempre que esses termos [ius iura] são tomados em seu sentido estrito, encontramos (…) a noção de textos fixados, de fórmulas estabelecidas, cuja posse é o privilégio de certos indivíduos, certas famílias, certas corporações. O tipo exemplar dessesiura é representado pelo código mais antigo de Roma, a Lei das XII Tábuas, originalmente composta por sentenças formulando o estado de ius e pronunciando: ita ius esto. Aqui é o império da palavra, manifestado por termos de sentido concordante; em latim iu-dex. (…) Não é o fazer, e sim, sempre, opronunciar que é constitutivo do ‘direito’: ius dicereiu-dex nos reconduzem a essa ligação constante. (…) É por intermédio deste ato de fala ius dicere que se desenvolve toda a terminologia da via judiciária: iudex, iudicare, iudicium, iuris-dictio, etc.” Assim, o tipo, a tipificação, é um dos modos pelos quais a linguagem se converte em fórmula. O funcionamento formulário da linguagem no Direito, o afastamento total com a linguagem ordinária, pode ser melhor vista naqueles crimes relacionados justamente à linguagem. Dois exemplos, um da antiguidade e um muito recente podem demonstrar como isso diz respeito à própria lógica do Direito. O primeiro é do famoso orador grego Lísias, que viveu na passagem entre os séculos V e IV a.C. Em seu discurso Contra Theomnestus, Lísias argumenta que a lei contra a calúnia era inócua, na medida em que proibia que se chamasse alguém de “assassino” (androfonon), mas era incapaz de punir aquele que, como Theomnestus, acusava outrem de “matar” (apektonenai) seu pai. O outro caso ocorreu em março de 2010, no Supremo Tribunal Federal. Argumentando contra as cotas, o ex-senador Demóstenes Torres disse que as “negras (escravas) mantinham ‘relações consensuais’ com os brancos (seus patrões)”. Que consensualidade, podemos perguntar, é possível haver entre sujeitos que estão numa relação de senhor e escravo?  Porém, é evidente que nenhum dos 11 magistrados de “reputação ilibada” e “notável saber jurídico” viu racismo aí. Se o argumento tivesse sido enunciado de outra forma (com referência a uma “natural concupiscência” das negras, para dar um exemplo da nefasta tradição racista do Judiciário brasileiro), talvez acarretasse em uma ocorrência jurídica de racismo. Para que algo se inscreva na esfera do Direito, ele precisa se formalizar, ou melhor, se formularizar, se tornar fórmula. Não se trata aqui apenas de inscrição na legislação, em uma lei elaborada pelo Poder Legislativo. O Direito pode existir – e continuar calcado no formalismo – mesmo ali onde não há lei em sentido estrito, o que é provado pelo Direito costumeiro. A formalização é um processo maior do que a lei, e engloba  toda a máquina judiciária, o que inclui juízes, decisões judiciais, advogados, juristas, a chamada “doutrina”, chegando até à sociedade. Trata-se da fixação de conteúdos permitidos ou proibidos em fórmulas, procedimento que, como vimos com os tipos, permite sua reprodução. Esse é o paradoxo do que se costuma chamar, em geral pejorativamente, de “politicamente correto”: ao mesmo tempo que produz avanços materiais inegáveis, está limitado à própria formalidade. Ou seja, as fórmulas – aquilo que (não) se pode fazer ou dizer – repercutem sobre o mundo, modificam o mundo, mas elas não perdem a sua dimensão de fórmulas. Aqueles que defendem o Direito como um mecanismo de transformação social (ou mesmo só como uma ferramenta progressista), mais cedo ou mais tarde esbarram nesse paradoxo: o Direito só garante aquilo que está consubstanciado em fórmulas (e são justamente fórmulas que, por vezes, impedem a transformação social). A partir do momento que se defende o reconhecimento jurídico de certos direitos que o Direito não reconhece, se está defendendo a formalização desses direitos. De fato, a oposição entre direito material e direito formal é inócua: na medida em que a formalização dos direitos é um processo histórico, todo direito formal já foi apenas um direito material, e pode voltar a sê-lo. Ninguém é condenado por emitir discursos de conteúdos racistas (matéria) – só existe o crime de racismo quando este é enunciado de uma certa forma, por uma certa fórmula.

6. Todo jurista conhece a “pirâmide” normativa de Hans Kelsen, em que as normas são ordenadas hierarquicamente (os estratos mais baixos retiram sua validade dos mais altos), e no topo da qual está a “norma fundamental”. O problema, como se sabe, é que essa norma fundamental seria vazia de conteúdo, isto é, pressuposta, imaginária, ficcional (para postular o estatuto da norma fundamental, Kelsen se baseou na Filosofia do como se, de Vaihinger, para o qual até mesmos o discurso científico residia, em última instância, sobre alguma ficção). Ou seja, uma maneira de dar validade ao sistema, de remetê-lo ao Um (ainda que alguns queiram ligá-la ao princípio de que os pactos devem ser cumpridos – pacta sunt servanda –, e outros, muito mais tacanhos, à Constituição). Teríamos, assim, um sistema de normas com conteúdo baseadas numa norma sem conteúdo e fictícia. Talvez, porém, fosse mais produtivo entender o Direito de maneira invertida: um sistema de normas vazias, baseadas numa única norma com conteúdo: o de que a ficção que conhecemos como Direito é verdadeira. No momento histórico atual, poderíamos dizer que tal norma fundamental se cristalizaria em dois princípios: o de que não se pode alegar desconhecimento da lei (fechamento), e o de que o juiz não pode se furtar de decidir uma causa (abertura). Ou seja, o conteúdo da norma fundamental seria o de que o Direito é um sistema, ao mesmo tempo (mas não paradoxalmente), aberto e fechado – o que quer dizer: potencialmente Total. Fechamento e disseminação são conexos no Direito. Para que seja “verdadeiro”, ele não pode assumir seu estatuto de pura linguagem, ou melhor, tem que anulá-lo, dotando toda linguagem de uma potencial “eficácia”. Como as normas e os processos não passam de linguagem sem relação necessária com as coisas, é preciso este princípio que estabelece que alguma relação entre as palavras (normas) e as coisas (fatos) tem que se dar. É desse caráter vazio das normas e dos processos, do seu embasamento na linguagem (e não nas coisas) que deriva a inflação normativa, processo inerente ao Direito. As normas e os processos não passam, no fundo, de fórmulas que se invocam para tentar estabelecer este ou aquele nexo entre as palavras e as coisas – mas todas invocam, como pressuposto, o próprio nome do Direito, isto é, a norma fundamental: a de que a ficção é verdadeira. Portanto, as fórmulas, os tipos, os brocardos, em suma, o juridiquês, são o modo pelo qual se mantém a ficção, e pelo qual a vida, a linguagem comum, é capturada na esfera do Direito, ao mesmo tempo em que é afastada dela.  Nas ficções de Kafka, é comum o confronto, e mesmo o entrelaçamento, entre ficção e direito. O inacabado romance O processo encena bem este confronto e entrelaçamento. Ao início do romance, quando os oficiais da lei vão deter o protagonista K., este imagina se tratar apenas de uma trupe teatral aplicando um trote de aniversário a pedido de amigos. Ao final, quando seus executores chegam para buscá-lo, K. novamente quer acreditar que são apenas de atores encenando e pregando-lhe uma peça. E, de fato, todo o aparato judicial narrado no romance parece ser uma grande ficção: porões obscuros, audiências em cortiços, advogados moribundos. Em nenhum momento aparece a Lei, K. não consegue adentrar a Lei. Em nenhum momento, K. sabe do que está sendo acusado. O romance inteiro é construído sobre a figura dos mediadores – cartorários, advogados, oficiais – que encenam um grandiloqüente e patético processo, uma ficção da qual K. pode a qualquer momento sair. O Direito e o processo são apenas grandes narrativas ficcionais – mas estas encenações, ao contrário das teatrais, tomam vidas. O juridiquês é e não é apenas uma encenação de alguns juristas. É apenas o modo de narrar uma ficção; mas essa ficção atende pelo nome de Direito, que captura e reduz a vida, retirando a sua singularidade e reproduzindo-a como um tipo. Ao “se” da prescrição jurídica, corresponde um “então”. Um “então” que está ausente na verdadeira ficção, que é sempre e apenas um “como se”.

Criminalizing Dissent and Punishing Occupy Protesters: Introduction to Henry Giroux’s “Youth in Revolt” (Truth Out)

Thursday, 31 January 2013 06:22By Henry A GirouxTruthout | Book Excerpt

Military-style command and control systems are now be­ing established to support “zero tolerance” policing and urban surveillance practices designed to exclude failed consumers or undesirable persons from the new enclaves of urban consumption and leisure.

—Stephen Graham

Youth in Revolt.(Image: Paradigm Publishers)

Young people are demonstrating all over the world against a variety of issues ranging from economic injustice and massive inequality to drastic cuts in education and public services.1 In the fall of 2011, on the tenth anniversary of September 11, as the United States revisited the tragic loss and celebrated the courage displayed on that torturous day, another kind of commemoration took place. The Occupy movement shone out like flame in the darkness—a beacon of the irrepressible spirit of democracy and a humane desire for justice. Unfortunately, the peacefully organized protests across America have often been met with derogatory commentaries in the mainstream media and, increasingly, state-sanctioned violence. The war against society has become a war against youthful protesters and in­creasingly bears a striking resemblance to the violence waged against Occupy movement protesters and the violence associ­ated with the contemporary war zone.2 Missing from both the dominant media and state and national politics is an attempt to critically engage the issues the protesters are raising, not to mention any attempt to dialogue with them over their strate­gies, tactics, and political concerns. That many young people have become “a new class of stateless individuals … cast into a threatening and faceless mass whose identities collapse into the language of debt, survival, and disposability” appears to have escaped the attention of the mainstream media.3 Matters of justice, human dignity, and social responsibility have given way to a double gesture that seeks to undercut democratic public spheres through the criminalization of dissent while also resorting to crude and violent forms of punishment as the only mediating tools to use with young people who are at­tempting to open a new conversation about politics, inequality, and social justice.

In the United States, the state monopoly on the use of violence has intensified since the 1980s and in the process has been di­rected disproportionately against young people, poor minorities, immigrants, women, and the elderly. Guided by the notion that unregulated, market-driven values and relations should shape every domain of human life, a business model of governance has eviscerated any viable notion of social responsibility and conscience, thereby furthering the dismissal of social problems and expanding cutbacks in basic social services.4 The examples are endless, but one in particular stands out. In March 2012, Texas governor Rick Perry7joined eight other states in passing legislation to ban funding for clinics, including Planned Parent­hood facilities, affiliated with abortion services for women.5 As a result, the federal government has stopped funding the Texas Women’s Health Program. Unfortunately, this attempt by Perry to punish all women because of his antiabortion stance means that more than 130,000 women in Texas will not have access to vital services ranging from mammograms to health care for their children. There is more at work here than a resurgent war on women and their children or “an insane bout of mass misogyny.”8 There is also a deep-seated religious and political authoritarianism that has become one of the fundamental pil­lars of what I call a neoliberal culture of cruelty. As the welfare state is hollowed out. a culture of compassion is replaced by a culture of violence, cruelty, waste, and disposability.7Banks, hedge funds, and finance capital as the contemporary registers of class power have a new visibility, and their spokespersons are unabashedly blunt in supporting a corporate culture in which “ruthlessness is prized and money is the ultimate measure.”Collective insurance policies and social protections have given way to the forces of economic deregulation, the transformation of the welfare state into punitive workfare programs, the privatiza­tion of public goods, and an appeal to individual culpability as a substitute for civic responsibility. At the same time, violence—or what Anne-Marie Cusac calls “American punishment”—travels from our prisons and schools to various aspects of our daily lives, “becoming omnipresent … [from] the shows we watch on television, [to] the way many of us treat children [to] some influential religious practices.”9

David Harvey has argued that neoliberalism is “a political proj­ect to re-establish the conditions for capital accumulation and to restore the power of economic elites” through the implementation of “an institutional framework characterized by strong private property rights, free markets, and free trade.”10 Neoliberalism is also a pedagogical project designed to create particular subjects, desires, and values defined largely by market considerations. National destiny becomes linked to a market-driven logic in which freedom is stripped down to freedom from government regulation, freedom to consume, and freedom to say anything one wants, regardless of how racist or toxic the consequences might be. This neoliberal notion of freedom is abstracted from any sense of civic responsibility or social cost. In fact, “neoliberalism is grounded in the idea of the ‘free, possessive individual,'” with the state cast “as tyrannical and oppressive.”11 The welfare state, in particular, becomes the archenemy of freedom. As Stuart Hall points out, according to apostles of free-market fundamentalism, ‘The state must never govern society, dictate to free individuals how to dispose of their private property, regulate a free-market economy or interfere with the God-given right to make profits and amass personal wealth.”12

Paradoxically, neoliberalism severely proscribes any vestige of social and civic agency through the figure of the isolated automaton for whom choice is reduced to the practice of end­less shopping, fleeing from any sense of civic obligation, and safeguarding a radically individualized existence. Neoliberal governance translates into a state that attempts to substitute individual security for social welfare but in doing so offers only the protection of gated communities for the privileged and incarceration for those considered flawed consumers or threats to the mythic ideal of a white Christian nation. Neoliberalism refuses to recognize how private troubles are connected to broader systemic issues, legitimating instead an ode to self-reliance in which the experience of personal misfortune becomes merely the just desserts delivered by the righteous hand of the free market—not a pernicious outcome of the social order being hijacked by an antisocial ruling elite and forced to serve a narrow set of interests. Critical thought and human agency are rendered impotent as neoliberal rationality “substitutes emotional and personal vocabularies for political ones in formulating solutions to political problems.”13 Within such a depoliticized discourse, youths are told that there is no dream of the collective, no viable social bonds, only the ac­tions of autonomous individuals who must rely on their own resources and who bear sole responsibility for the effects of larger systemic political and economic problems.

Under the regime of neoliberalism, no claims are recognized that call for compassion, justice, and social responsibility. No claims are recognized that demand youths have a future better than the present, and no claims are recognized in which young people assert the need to narrate themselves as part of a broader struggle for global justice and radical democracy. Parading as a species of democracy, neoliberal economics and ideology cancel out democracy “as the incommensurable sharing of existence that makes the political possible.”14 Symptoms of ethical, politi­cal, and economic impoverishment are all around us. And, as if that were not enough, at the current moment in history we are witnessing the merging of violence and governance along with a systemic disinvestment in and breakdown of institutions and public spheres that have provided the minimal conditions for democracy and the principles of communal responsibil­ity. Young people are particularly vulnerable. As Jean-Marie Durand points out, “Youth is no longer considered the world’s future, but as a threat to its present. [For] youth, there is no longer any political discourse except for a disciplinary one.”13

As young people make diverse claims on the promise of a radical democracy in the streets, on campuses, and at other occupied sites, articulating what a fair and just world might be, they are treated as criminal populations—rogue groups incapable of toeing the line, “prone to irrational, intemperate and unpredictable” behavior.16Moreover, they are increasingly subjected to orchestrated modes of control and containment, if not police violence. Such youths are now viewed as the enemy by the political and corporate establishment because they make visible the repressed images of the common good and the impor­tance of democratic public spheres, public services, the social state, and a society shaped by democratic values rather than market values. Youthful protesters and others are reclaiming the repressed memories of the Good Society and a social state that once, as Zygmunt Bauman has pointed out, “endorsed collective insurance against individual misfortune and its consequences.”17 Bauman explains that such a state “lifts members of society to the status of citizens—that is, makes them stake-holders in addition to being stock-holders, beneficiaries but also actors responsible for the benefits’ creation and availability, individuals with acute interest in the common good understood as the shared institutions that can be trusted to assure solidity and reliability of the state-issued ‘collective insurance policy.'”18 In an attempt to excavate the repressed memories of the welfare state, David Theo Goldberg spells out in detail the specific mechanisms and policies it produced in the name of the general welfare between the 1930s and 1970s in the United States. He writes,

From the 1930s through the 1970s, the liberal democratic state had offered a more or less robust set of institutional appara­tuses concerned in principle at least to advance the welfare of its citizens. This was the period of advancing social security, welfare safety nets, various forms of national health system, the expansion of and investment in public education, including higher education, in some states to the exclusion of private and religiously sponsored educational institutions. It saw the emer­gence of state bureaucracies as major employers especially in later years of historically excluded groups. And all this, in turn, offered optimism among a growing proportion of the populace for access to middle-class amenities, including those previously racially excluded within the state and new immigrants from the global south.19

Young people today are protesting against a strengthening global capitalist project that erases the benefits of the welfare state and the possibility of a radical notion of democracy. They are protesting against a neoliberal project of accumulation, dispossession, deregulation, privatization, and commodification that leaves them out of any viable notion of the future. They are rejecting and resisting a form of casino capitalism that has ushered in a permanent revolution marked by a massive project of depoliticization, on the one hand, and an aggressive, if not savage, practice of distributing upward wealth, income, and op­portunity for the 1 percent on the other. Under neoliberalism, every moment, space, practice, and social relation offers the possibility of financial investment, or what Ernst Bloch once called the “swindle of fulfillment.”20 Goods, services, and targeted human beings are ingested into its waste machine and dismissed and disposed of as excess. Flawed consumers are now assigned the status of damaged and defective human beings. Resistance to such oppressive policies and practices does not come easily, and many young people are paying a price for such resistance. According to OccupyArrests.com, “there have been at least 6705 arrests in over 112 different cities as of March 6, 2012.”21

Occupy movement protests and state-sponsored violence “have become a mirror”—and I would add a defining feature—”of the contemporary state.”22 Abandoned by the existing political system, young people in Oakland, California, New York City, and numerous other cities have placed their bodies on the line, protesting peacefully while trying to produce a new language, politics, and “community that manifests the values of equality and mutual respect that they see missing in a world that is structured by neoliberal principles.”23 Well aware that the spaces, sites, and spheres for the representation of their voices, desires, and concerns have collapsed, they have occupied a number of spaces ranging from public parks to college campuses in an effort to create a public forum where they can narrate themselves and their visions of the future while representing the misfortunes, suffering, and hopes of the unemployed, poor, incarcerated, and marginalized. This movement is not simply about reclaiming space but also about producing new ideas, generating a new conversation, and introducing a new political language.

Rejecting the notion that democracy and markets are the same, young people are calling for the termination of corporate control over the commanding institutions of politics, culture, and economics, an end to the suppression of dissent, and a shutting down of the permanent warfare state. Richard Lichtman is right to insist that the Occupy movement should be praised for its embrace of communal democracy as well as an emerging set of shared concerns, principles, and values articulated “by a demand for equality, or, at the very least, for a significant lessening of the horrid extent of inequality; for a working democracy; for the elimination of the moneyed foun­dation of politics; for the abolition of political domination by a dehumanized plutocracy; for the replacement of ubiquitous commodification by the reciprocal recognition of humanity in the actions of its agents.”24 As Arundhati Roy points out, what connects the protests in the United States to resistance move­ments all over the globe is that young people “know that their being excluded from the obscene amassing of wealth of U.S. corporations is part of the same system of the exclusion and war that is being waged by these corporations in places like India, Africa, and the Middle East.”25 Of course, Lichtman, Roy, and others believe that this is just the beginning of a movement and that much needs to be done, as Staughton Lynd argues, to build new strategies, a vast network of new institutions and public spheres, a community of trust, and political organiza­tion that invites poor people into its ranks.26 Stanley Aronowitz goes further and insists that the Occupy movement needs to bring together the fight for economic equality and security with the task of reshaping American institutions along genuinely democratic lines.27

All of these issues are important, but what must be addressed in the most immediate sense is the danger the emerging police state in the United States poses not just to the young protesters occupying a number of American cities but to democracy itself. This threat is particularly evident in the results of a merging of neoliberal modes of discipline and education with a warlike mentality in which it becomes nearly impossible to reclaim the language of obligation, compassion, community, social re­sponsibility, and civic engagement. And unless the actions of young protesters, however diverse they may be, are understood alongside a robust notion of the social, civic courage, com­munal bonds, and the imperatives of a vital democracy, it will be difficult for the American public to challenge state violence and the framing of protest, dissent, and civic engagement as un-American or, worse, as a species of criminal behavior.

Although considerable coverage has been given in the pro­gressive media to the violence being waged against the Occupy protesters, these analyses rarely go far enough. I want to build on these critiques by arguing that it is important to situate the growing police violence within a broader set of categories that both enables a critical understanding of the underlying social, economic, and political forces at work in such assaults and al­lows us to reflect critically on the distinctiveness of the current historical period in which they are taking place. For example, it is difficult to address such state-sponsored violence against young people and the Occupy movement without analyzing the devolution of the social state and the corresponding rise of the warfare and punishing state.’2b The notion of historical conjunc­ture is important here because it both provides an opening into the diverse forces shaping a particular moment and allows for a productive balance of theory and strategy to inform future interventions. That is. it helps us to address theoretically how youth protests are largely related to and might resist a histori­cally specific neoliberal project that promotes vast inequalities in income and wealth, creates the student-loan debt bomb, eliminates much-needed social programs, privileges profits and commodities over people, and eviscerates the social wage.

Within the United States, the often violent response to non­violent forms of youth protest must also be analyzed within the framework of a mammoth military-industrial state and its commitment to war and the militarization of the entire society. The merging of the military-industrial complex and unchecked finance capital points to the need for strategies that address what is specific about the current warfare state and the neo­liberal project that legitimates it. That is, what are the diverse practices, interests, modes of power, social relations, public pedagogies, and economic configurations that shape the poli­tics of the punishing state? Focusing on the specifics of the current historical conjuncture is invaluable politically in that such an approach makes visible the ideologies, policies, and modes of governance produced by the neoliberal warfare state. When neoliberal mechanisms of power and ideology are made visible, it becomes easier for the American public to challenge the common assumptions that legitimate these apparatuses of power. This type of interrogative strategy also reclaims the necessity of critical thought, civic engagement, and democratic politics by invoking the pedagogical imperative that humans not only make history but can alter its course and future direction.

For many young people today, human agency is denned as a mode of self-reflection and critical social engagement rather than a surrender to a paralyzing and unchallengeable fate. Likewise, democratic expression has become fundamental to their existence. Many young people are embracing democracy not merely as a mode of governance, but more importantly, as Bill Moyers points out, as a means of dignifying people “so they become fully free to claim their moral and political agency.”29 Human agency has become a vital force to struggle over as part of an ongoing project in which the future remains an open horizon that cannot be dismissed through appeals to the end of history or end of ideology.30 But to understand how politics refuses any guarantees and resistance becomes possible, we must first understand the present. Following Stuart Hall. I want to argue that the current historical moment, or what he calls the “long march of the Neoliberal Revolution,”31 has to be understood not only through the emergent power of finance capital and its institutions but also in terms of the growing forms of authoritarian violence that it deploys and reinforces. I want to address these antidemocratic pressures and their relationship to the rising protests of young people in the United States and abroad through the lens of two interrelated crises: the crisis of governing through violence and the crisis of what Alex Honneth has called “a failed sociality”32—which currently conjoin as a driving force to dismantle any viable notion of public pedagogy and civic education. If we are not to fall prey to a third crisis—”the crisis of negation”33—then it is imperative that we recognize the hope symbolized and embodied by young people across America and their attempt to remake society in order to ensure a better, more democratic future for us all.

The Crisis of Governing through Violence

The United States is addicted to violence, and this dependency is fueled increasingly by its willingness to wage war at home and abroad.34 As Andrew Bacevich rightly argues, “war has be­come a normal condition [matched by] Washington’s seemingly irrevocable abandonment of any semblance of self-restraint regarding the use of violence as an instrument of statecraft.”35 But war in this instance is not merely the outgrowth of policies designed ‘to protect the security- and well-being of the United States. It is also, as C. Wright Mills pointed out. part of a “mili­tary metaphysics”36—a complex of forces that includes corpora­tions, defense industries, politicians, financial institutions, and universities. The culture of war provides jobs, profits, political payoffs, research funds, and forms of political and economic power that reach into every aspect of society. War is also one of the nation’s most honored virtues. Its militaristic values now bear down on almost every aspect of American life.37 Similarly, as the governing-through-violence complex becomes normalized in the broader society, it continually works in a variety of ways to erode any distinction between war and peace.

Increasingly stoked by a moral arnd political hysteria, war­like values produce and endorse shared fears and organized violence as the primary registers of social relations. The con­ceptual merging of war and violence is evident in the ways in which the language of militarization is now used by politicians to address a range of policies as if they are operating on a battlefield or in a war zone. War becomes the adjective of choice as policymakers talk about waging war on drugs, poverty, and the underclass. There is more at work here than the prevalence of armed knowledge and a militarized discourse; there is also the emergence of a militarized society in which “the range of acceptable opinion inevitably shrinks.”38 And this choice of vocabulary and slow narrowing of democratic vision further enable the use of violence as an instrument of domestic policy.

How else to explain that the United States has become the punishing state par excellence, as indicated by the hideous fact that while it contains “5 percent of the Earth’s population, it is home to nearly a quarter of its prisoners”?39 Senator Lindsay Graham made this very clear in his rhetorical justification of the 2012 National Defense Authorization Act by stating “that under this Act the U.S. homeland is considered a ‘battlefield.'”40 The ominous implications behind this statement, especially for Oc­cupy movement protesters, became obvious in light of the fact that the act gives the US government the right to detain “U.S. citizens indefinitely without charge or trial if deemed necessary by the president…. Detentions can follow mere membership, past or present, in ‘suspect organizations.'”41

Since 9/11, the war on terror and the campaign for home­land security have increasingly mimicked the tactics of the enemies they sought to crush and as such have become a war on democracy. A new military urbanism has taken root the United States as state surveillance projects proliferate, signaling what Stephen Graham calls “the startling militariza­tion of civil society—the extension of military ideas of tracking, identification, and targeting into the quotidian spaces and circulations of everyday life.”42 This is partly evident in the ongoing militarization of police departments throughout the United States. Baton-wielding cops are now being supplied with the latest military equipment imported straight from the war zones of Iraq and Afghanistan. Military technologies once used exclusively on the battlefield are now being supplied to police units across the nation: drones, machine-gun-equipped armored trucks, SWAT-type vehicles, “digital communications equipment, and Kevlar helmets, like those used by soldiers used in foreign wars.”43The domestic war against “terrorists” (code for young protesters) provides new opportunities for major defense contractors and corporations to become “more a part of our domestic lives.”44 As Glenn Greenwald points out, the United States since 9/11

has aggressively paramilitarized the nation’s domestic police forces by lavishing them with countless military-style weapons and other war-like technologies, training them in war-zone mili­tary tactics, and generally imposing a war mentality on them. Arming domestic police forces with paramilitary weaponry will ensure their systematic use even in the absence of a terrorist attack on U.S. soil; they will simply find other, increasingly permissive uses for those weapons.45

These domestic paramilitary forces also undermine free speech and dissent through the sheer threat of violence while often wielding power that runs roughshod over civil liberties, human rights, and civic responsibilities.46 Given that “by age 23, almost a third of Americans are arrested for a crime,” it is not unreason­able to assume that in the new militarized state the perception of young people as predators, threats to corporate governance, and disposable objects will intensify, as will the growth of a punish­ing state that acts out against young protesters in increasingly unrestrained and savage ways.47 Young people, particularly poor minorities of color, have already become the targets of what David Theo Goldberg calls “extraordinary power in the name of securitization … [viewed as] unruly populations … [who] are to be subjected to necropolitical discipline through the threat of imprisonment or death, physical or social.”4

Shared fears and the media hysteria that promotes them pro­duce more than a culture of suspects and unbridled intimidation. Fear on a broad public scale serves the interests of policymakers who support a growing militarization of the police along with the corporations that supply high-tech scanners, surveillance cameras, riot extinguishers, and toxic chemicals—all of which are increasingly used with impunity on anyone who engages in peaceful protests against the warfare and corporate state.49 Im­ages abound in the mainstream media of such abuses. There is the now famous image of an eighty-four-year-old woman looking straight into a camera, her face drenched in a liquid spray used by the police after attending a protest rally. There is the image of a woman who is two months pregnant being carried to safety after being pepper-sprayed by the police. By now, the images of young people being dragged by their hair across a street to a waiting police van have become all too familiar.50 Some protesters have been seriously hurt, as in the case of Scott Olsen. an Iraq War veteran who was critically injured in a protest in Oakland in October 2011. Too much of this violence is reminiscent of the violence used against civil rights demonstrators by the enforcers of Jim Crow in the 1950s and 1960s.51

No longer restricted to a particular military ideology, the celebration and permeation of warlike values throughout the culture have hastened the militarization of the entire society. As Michael Geyer points out, militarization can be defined as “the contradictory and tense social process in which civil society organizes itself for the production of violence.”52 As the late Tony Judt put it, “The United States is becoming not just a militarized state but a military society: a country where armed power is the measure of national greatness, and war, or planning for war, is the exemplary (and only) common project.”55 But the prevailing intensification of American society’s permanent war status does more than embrace a set of unifying symbols that promote a survival-of-the-fittest ethic, conformity over dissent, the strong over the weak, and fear over responsibility. Such a move also gives rise to a “failed sociality” in which violence becomes the most important tool of power and the mediating force in shaping social relationships.

A state that embraces a policy of permanent war needs willing subjects to abide by its values, ideology, and narratives of fear and violence. Such legitimation is largely provided through people’s immersion in a market-driven society that appears increasingly addicted to consumerism, militarism, and the spectacles of violence endlessly circulated through popular culture.54 Examples of the violent fare on offer extend from the realm of high fashion and Hollywood movies to extreme sports, video games, and music concerts sponsored by the Pentagon.55 The market-driven celebration of a militaristic mind-set de­mands a culture of conformity, quiet intellectuals, and a largely passive republic of consumers. It also needs subjects who find intense pleasure in spectacles of violence.56

In a society saturated with hyperviolence and spectacular representations of cruelty, it becomes more difficult for the American public to respond politically and ethically to the violence as it is actually happening on the ground. In this in­stance, previously unfamiliar violence such as extreme images of torture and death become banally familiar, while familiar violence that occurs daily is barely recognized, relegated to the realm of the unnoticed and unnoticeable. How else to explain the public indifference to the violence inflicted on nonviolent youth protesters who are raising their voices against a state in which they have been excluded from any claim on hope, pros­perity, and democracy? While an increasing volume of brutal­ity is pumped into the culture, yesterday’s spine-chilling and nerve-wrenching displays of violence lose their shock value. As the demand for more intense images of violence accumulates, the moral indifference and desensitization to violence grow, while matters of savage cruelty and suffering are offered up as fodder for sports, entertainment, news media, and other pleasure-seeking outlets.

As American culture is more and more marked by exag­gerated aggression and a virulent notion of hard masculinity, state violence—particularly the use of torture, abductions, and targeted assassinations—wins public support and requires little or no justification as US exceptionalism becomes accepted by many Americans as a matter of common sense.57 The social impacts of a “political culture of hyper punitiveness”58 can be seen in how structures of discipline and punishment have in­filtrated the social order like a highly charged electric current. For example, the growing taste for violence can be seen in the criminalization of behaviors such as homelessness that once elicited compassion and social protection. We throw the home­less in jail instead of building houses, just as we increasingly send poor, semiliterate students to jail instead of providing them with a decent education. Similarly, instead of creating jobs for the unemployed, we allow banks to foreclose on their mortgages and in some cases put jobless people in debtors’ prisons. The prison in the twenty-first century7 becomes a way of making the effects of ruthless power invisible by making the victims of such power disappear. As Angela Davis points out, “According to this logic the prison becomes a way of disappearing people in the false hope of disappearing the underlying social problems they represent.”39 As the notion of the social is emptied out. criminality is now defined as an essential part of a person’s identity. As a rhetoric of punishment gains ground in American society, social problems are reduced to character flaws, insuf­ficient morality, or a eugenicist notion of being “born evil.”60

Another symptomatic example of the way in which violence has saturated everyday life and produced a “failed sociality” can be seen in the growing acceptance by the American pub­lic of modeling public schools after prisons and criminalizing the behavior of young people in public schools. Incidents that were traditionally handled by teachers, guidance counselors, and school administrators are now dealt with by the police and the criminal justice system. The consequences have been disastrous for young people. Not only do schools increasingly resemble the culture of prisons, but young children are being arrested and subjected to court appearances for behaviors that can only be called trivial. How else to explain the case of the five-year-old student in Florida who was put in handcuffs and taken to the local jail because she had a temper tantrum, or the case of Alexa Gonzales in New York, who was arrested for doodling on her desk? Or twelve-year-old Sarah Bustamatenes, who was pulled from a Texas classroom, charged with a crimi­nal misdemeanor, and hauled into court because she sprayed perfume on herself?61 How do we explain the arrest of a thirteen-year-old student in a Maryland school for refusing to say the pledge of allegiance?62 Or the case of a sixteen-year-old student with an IQ below 70 being pepper-sprayed because he did not understand a question asked by the police officer in his school? After being pepper-sprayed, the startled youth started swinging his arms and for that was charged with two counts of assault on a public servant and faces a possible prison sentence .63 In

The most extreme cases, children have been beaten, Tasered, and killed by the police.

These examples may still be unusual enough to shock, though they are becoming more commonplace. What must be recognized is that too many schools have become combat zones in which students are routinely subjected to metal detectors, surveillance cameras, uniformed security guards, weapons searches, and in some cases SWAT raids and police dogs sniffing for drugs.64 Under such circumstances, the purpose of school­ing becomes to contain and punish young people, especially those marginalized by race and class, rather than educate them. “Arrests and police interactions … disproportionately affect low-income schools with large African-American and Latino populations.”65 For the many disadvantaged students being funnelled into the “school-to-prison pipeline,” schools ensure that their futures look grim indeed as their educational experiences acclimatize them to forms of carceral treatment.66 There is more at work here than a flight from responsibility on the part of educators, parents, and politicians who support and maintain policies that fuel this expanding edifice of law enforce­ment against youth. Underlying the repeated decisions to turn away from helping young people is the growing sentiment that youths, particularly minorities of color and class, constitute a threat to adults and the only effective way to deal with them is to subject them to mind-crushing punishment. Students being miseducated, criminalized, and arrested through a form of pe­nal pedagogy in prison-type schools provides a grave reminder of the degree to which the ethos of containment and punishment now creeps into spheres of everyday life that were largely im­mune in the past to this type of state and institutional violence.

The era of failed sociality that Americans now inhabit reminds us that we live in a time that breaks young people, devalues justice, and saturates the minute details of everyday life with the constant threat, if not reality, of violence. The medieval turn to embracing forms of punishment that inflict pain on the psyches and bodies of young people is part of a larger immersion of society in public spectacles of violence. The control society67 is now the ultimate form of entertainment in America, as the pain of others, especially those considered disposable and pow­erless, is no longer a subject of compassion but one of ridicule and amusement. High-octane violence and human suffering are now considered consumer entertainment products designed to raise the collective pleasure quotient. Brute force and savage killing replayed over and over in the culture function as part of an anti-immune system that turns the economy of genuine pleasure into a mode of sadism that saps democracy of any political substance and moral vitality, even as the body politic appears engaged in a process of cannibalizing its own young. It is perhaps not far-fetched to imagine a reality TV show in which millions tune in to watch young kids being handcuffed, arrested, tried in the courts, and sent to juvenile detention centers. No society can make a claim to being a democracy as long as it defines itself through shared hatred and fears rather than shared responsibilities.

In the United States, society has been reconfigured to eliminate many young people’s access to the minimal condi­tions required for living a full, dignified, and productive life as well as the conditions necessary for sustaining and nurturing democratic structures and ideologies. The cruelty and violence infecting the culture are both a symptom and a cause of our collective failure to mobilize large-scale collective resistance against a growing police state and the massive suffering caused by the savagery of neoliberal capitalism. Unfortunately, even as expressions of authentic rage against Wall Street continue in the Occupy movement, the widespread hardship that young people and other marginalized populations face today “has not found resonance in the public space of articulation. “fs With the collapse of a market economy into a market society, democracy no longer makes a claim on the importance of the common good. As a mode of diseased sociality, the current version of market fundamentalism has turned the principle of freedom against itself, deforming a collective vision of democracy and social justice that once made equality a viable economic idea and political goal in the pursuit of one’s own freedom and civil liberties. As Zygmunt Bauman insists, one of the consequences of this market-driven sovereignty is “the progressive decomposi­tion and crumbling of social bonds and communal cohesion.”6

Neoliberalism creates a language of social magic in which the social either vaporizes into thin air or is utterly pathologized. Shared realities and effects of poverty, racism, inequality, and financial corruption disappear, but not the ideological and institutional mechanisms that make such scourges possible.70 And when the social is invoked favorably, the invocation is only ever used to recognize the claims and values of corporations, the ultrarich, banks, hedgefund managers, and other privileged groups comprising the 1 percent. Self-reliance and the image of the self-made man cancel out any viable notion of social relations, the common good, public values, and collective struggle.

The Occupy movements have recognized that what erodes under such conditions is not only an acknowledgment of the historical contexts, social and economic formations, relations of power, and systemic forms of discrimination that have pro­duced massive inequalities in wealth, income, and opportunity but also any claim to the promise of a substantive democracy. Increasingly, as both the public pedagogy and economic dic­tates of neoliberalism are contested by the Occupiers, the state responds with violence. But the challenges to militarism, in­equality, and political corruption with which young people have confronted American society are being met with a violence that encompasses more than isolated incidents of police brutality. It is a violence emanating from an ongoing wholesale transfor­mation of the United States into a warfare state, from a state that once embraced the social contract—at least minimally—to one that no longer has even a language for community, a state in which the bonds of fear and commodification have replaced the bonds of civic responsibility and democratic commitment. As a result, violence on the part of the state and corporations is not aimed just at youthful protesters. Through a range of visible and invisible mechanisms, an ever-expanding multitude of individuals and populations has been caught in a web of cruelty, dispossession, exclusion, and exploitation.

The predominance of violence in all aspects of social life suggests that young people and others marginalized by class, race, and ethnicity have been abandoned as American soci­ety’s claim on democracy gives way to the forces of militarism, market fundamentalism, and state terrorism. We must ad­dress how a metaphysics of war and violence has taken hold of American society, and the savage social costs it has entailed.

It is these very forms of social, political, and economic violence that young people have recognized and endured against their own minds and bodies, but they are using their indignation to inspire action rather than despair. The spreading imprint of violence throughout society suggests the need for a politics that riot only critiques the established order but imagines a new one—one informed by a radical vision in which the future does not imitate the present. Critique must emerge alongside a sense of realistic hope, and individual struggles must merge into larger social movements.

Occupy Wall Street surfaced in the wake of the 9/11 memori­als and global economic devastation rooted in market deregu­lation and financial corruption. It also developed in response to atrocities committed by the US military in the name of the war on terror, violent and racist extremism spreading through US politics and popular culture, a growing regime of discipline and punishment aimed at marginalized youth, retrograde edu­cation policies destructive of knowledge and critical learning, and the enactment of ruthless austerity policies that serve only to increase human suffering. With the democratic horizon in the United States increasingly darkened by the shadows of a looming authoritarianism and unprecedented levels of social and economic inequality, the Occupy movement and other global movements signify hope and renewal. The power of these movements to educate and act for change should not be under­estimated, particularly among youths, even as we collectively bear witness to the violent retaliation of official power against democratic protesters and the growing fury of the punishing state. In the book that follows, I present chapters that move from negation to hope, from critique to imagining otherwise in order to act otherwise.

The first chapter provides a retrospective on 9/11 that ac­knowledges the way in which the tragic events of 2001 were used to unleash brutal violence on a global scale and legitimate the expansion of the warfare state and unthinkable forms of torture against populations increasingly deemed disposable. In particular, the traumatic aftermath of 9/11 in the United States was distorted into a culture of fear: heightened domes­tic security; and accelerated disciplinary forces that targeted youth, particularly the most vulnerable marginalized by race and class, as potential threats to the social order. This chapter exposes some of the widespread impacts of an unchecked pun­ishing state and its apparatuses—most notably the escalating war on youth, the attack on the social state, and the growth of a “governing through crime” complex—while also paying tribute to the resilience and humanity of the victims of the 9/11 at­tacks and their families. It asserts that public recollection in the aftermath of those traumatic events—particularly the sense of common purpose and civic commitment that ensued—should serve as a source of collective hope for a different future than the one we have seen on display since September 2001.71

Chapter 2 discusses in further detail the cultural shift in the United States that has led to the inscription and normalization of cruelty and violence. In spring 2011, the role of the domi­nant media in sanctioning this culture of cruelty extended to its failure to provide a critical response when the “Kill Team” photographs were released. Even as young people around the world demonstrated against military power and authoritarian regimes, soldiers in the US military fighting in the “war on ter­ror” gleefully participated in horrifying injustices inflicted upon helpless others. The “Kill Team” photos—images of US soldiers smiling and posing with dead Afghan civilians and their des­ecrated bodies—serve as but one example signaling a broader shift in American culture away from compassion for the suffer­ing of other human beings toward a militarization of the culture and a sadistic pleasure in violent spectacles of pain and torture. Further discussion of American popular culture demonstrates how US society increasingly manifests a “depravity of aesthetics” through eagerly consuming displays of aggression, brutality, and death. Connecting this culture of cruelty to the growing influence of neoliberal policies across all sectors, I suggest that this disturbing new enjoyment of the humiliation of others—far from representing an individualized pathology—now infects US society as a whole in a way that portends the demise of the social state, if not any vestige of a real and substantive democ­racy. Recognizing the power of dominant culture to shape our thoughts, identities, and desires, we must struggle to uncover “instants of truth” that draw upon our compassion for others and rupture the hardened order of reality constructed by the media and other dominant cultural forces.

The third chapter suggests that even as US popular culture increasingly circulates images of mind-crushing brutality, American political culture in a similar fashion now functions like a theater of cruelty in which spectacles and public policies display gratuitous and unthinking violence toward the most vulnerable groups in the country, especially children. Despite persistent characterizations of terrorists as “other,” the greatest threat to US security lies in homegrown, right-wing extremism of a kind similar to that espoused by Anders Behring Breivik who in July 2011 bombed government buildings in Oslo, kill­ing eight people, and then went on a murderous shooting rampage in Norway, killing sixty-nine youths attending a Labor Party camp. The eruption of violent speech and racist rhetoric within US political discourse indicates a growing tolerance at the highest levels of government of extremist elements and the authoritarian views and racist hatred they deploy to advance their agenda—which includes dismantling the social state, legitimating a governing apparatus based on fear and punish­ment, undermining critical thought and education through ap­peals to conformity and authoritarian populism, and disposing of all populations deemed dangerous and threatening to the dominance of a white conservative nationalism. Bespeaking far more than a disturbing turn in US politics and the broader cul­ture, right-wing policymakers abetted by the dominant media are waging a campaign of domestic terrorism against children, the poor, and other vulnerable groups as part of a larger war against democracy and the democratic formative culture on which it depends for survival.

Continuing an exploration of the neoliberal mode of authori­tarianism that has infiltrated US politics, Chapter 4 discusses how anti-immigrant and racist political ideology couched in a discourse of patriotism is being translated into regressive educational policies and an attack on critical education. Remi­niscent of the book burnings conducted in Nazi Germany, the Arizona state legislature and school board in Tucson have systematically eliminated ethnic studies from elementary schools and banned books that: discuss racism and oppres­sion, including several books by Mexican American authors in a school district where more than 60 percent of the students are from a Mexican American background. Within a neoliberal regime that supports corporate hegemony, social and economic inequality, and antidemocratic forms of governance, racism is either privatized by encouraging individual solutions to socially produced problems or disavowed, appearing instead in the guise of a language of punishment that persecutes anyone who even raises the specter of ongoing racism. The censorship of ethnic studies in Arizona and of forms of pedagogy that give voice to oppression points to how ideas that engage people in a struggle for equality and democracy pose a threat to fundamentalist ideologues and their war against the bodies, histories, and modes of knowledge that could produce the critical conscious­ness and civic courage necessary for a just society.

Chapter 5 examines the politics of austerity in terms of how it releases corporations and the rich from responsibility for the global economic recession and instead inflicts vast amounts of pain and suffering upon the most vulnerable in society. As an extension of the culture of cruelty, austerity measures encode a fear and contempt for social and economic equality, leading not only to the weakening of social protections and tax breaks for the wealthy but also to the criminalization of social prob­lems. Austerity as a form of “trickle-down cruelty” symbolizes much more than neglect—it suggests a new mode of violence mobilized to address pervasive social ills that will only serve to hasten the emergence of punishing states and networks of global violence. Hope for preventing the escalation of human suffering must be situated in a concerted effort both to raise awareness about the damage wreaked by unchecked casino capitalism and to rethink the very nature of what democracy means and might look like in the United States. A capacity for critical thought, compassion, and informed judgment needs to be nurtured against the forms of bigotry, omission, and social irresponsibility that appear increasingly not only to sanction but also to revel in horror stories of inhumanity and destruc­tion.

Tracing the trajectory of class struggle and inequality in America up to the present day, Chapter 6 argues that a grow­ing concentration of wealth in the hands of the ruling elite means that the political system and mode of governance in the United States are no longer democratic, even as state power is subordinated to the interests of corporate sovereignty. In this chapter, an account of the political, social, and economic injus­tices confronting the vast majority of Americans—the result of a decades-long unchecked supremacy of corporate power, the reign of corrupt financiers, and a ruthless attack on the social state and social protections—sets the stage for what emerged as the Occupy Wall Street movement in September 2011. While making visible the ongoing significance of class as a political category, the Occupiers did much more than rehash the tired rhetoric of “class warfare” (marshaled by their opponents in an effort to position the ruling elites as victims of class resentment) Quite to the contrary, the Occupiers revealed the potential for a broad collective movement both to expose the material realities of inequality and injustice and to counter prevailing antidemocratic narratives while also fundamentally changing the terms of engagement by producing new images, stories, and memories that challenged the complacency of the public and the impoverished imagination of political and corporate leadership in America.

Chapter 7 concludes the book by reviewing the impact and legacy of the Occupy movement, particularly how it exposed the many ways in which US society has mortgaged the future of youth. The Occupiers have become the new public intellectu­als, and they are creating a newpedagogy and politics firmly rooted in democracy, social justice, and human dignity that increasingly occupies the terrain of public discourse and poses a fundamental challenge to the control of the public sphere by corporate elites and their teaching machines. At risk of losing ideological dominance, the authorities retaliated against Oc­cupy protesters by resorting to brutal forms of punishment. This police violence at once made visible the modes of au­thoritarianism and culture of cruelty that permeate American society—as was seen even at universities and colleges across the United States, institutions charged with contributing to the intellectual, social, and moral growth of society’s youth.

As I complete the writing of this introduction, the Occupy struggle for social and economic justice continues on American university campuses—where the influence of austerity mea­sures is increasingly being felt, although the working conditions for faculty and the quality of education for students began to deteriorate under the neoliberal ascendancy decades ago. The issues impacting higher education are undoubtedly symptom­atic of the accelerated pace with which the withering away of the public realm is happening. The book finishes, however, by suggesting that the Occupy movement is far from over— despite the shrinking of physical space in which it can protest. As it expands and spreads across the globe, the movement is producing a new public realm of ideas and making important connections between the deteriorating state of education, an­tidemocratic forces, and the savage inequalities produced by a market society. The response of young people as the new generation of public intellectuals offers us both critique and hope. It is a call to work collectively to foster new modes of thought and action—one that should be actively supported by higher education and other remaining public spheres in the United States, if American democracy is to have a future at all.

 

Notes for Introduction

1.   Clearly, there are many reasons for the various youthful pro­tests across the globe, ranging from the murder of young people and anger against financial corruption to the riots against cuts to social benefits and the rise of educational costs.

2.   Christopher McMichael, ‘The Shock-and-Awe of Mega Sports Events,” OpenDemocracy (January 30, 2012), online at: http://www.opendemocracy.net/christopher-mcmichael/shock-and-awe-of-mega-sports-events.

3.  Zygmunt Bauman, Wasted Lives (London: Polity, 2004), p. 76.

4.   See Loic Wacquant, Punishing the Poor: The Neoliberal Govern­ment of Social Insecurity (Durham, NC: Duke University Press, 2009).

5.  Amanda Peterson Beadle, “Obama Administration Ends Medicaid Funding for Texas Women’s Health Program,” Think-Progress (March 16, 2012), online at:http://thinkprogress.org/ health/2012/03/16/445894/funding-cut-for-texas-womens-health-program.

6.   Maureen Dowd, “Don’t Tread on Us,” New York Times (March 14, 2012), p. A25.

7.   See, for example, Daisy Grewal, “How Wealth Reduces Com­passion: As Riches Grow, Empathy for Others Seems to Decline,” Scientific American (Tuesday, April 10, 2012), online at: http:// http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=how-wealth-reduces-compassion&print=true.

8.  Azam Ahmed, “The Hunch, the Pounce and the Kill: How Boaz Weinstein and Hedge Funds Outsmarted JPMorgan,” New York Times (May 27, 2012), p. BUI.

9.  Anne-Marie Cusac, Cruel and Unusual: The Culture of Punish­ment in America (New Haven, CT: Yale University Press, 2009), p. 3.

10.   David Harvey, A Brief History of Neoliberalism (New York: Oxford University Press, 2007), p. 19.

11.   Stuart Hall, “The Neo-Liberal Revolution,” Cultural Studies 25:6 (November 2011): 706.

12.   Ibid.

13.  Wendy Brown, Regulating Aversion (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2008), p. 16.

14.   Pascale-Anne Brault and Michael Naas, “Translators’ Note,” in Jean-Luc Nancy, The Truth of Democracy (New York: Fordham University Press, 2010), p. ix.

15.  Jean-Marie Durand, “For Youth: A Disciplinary Discourse Only,” TruthOut (November 15, 2009), trans. Leslie Thatcher, online at: http://www.truthout.0rg/l1190911.

16.   David Theo Goldberg, The Threat of Race: Reflections on Racial Neoliberalism (Maiden, MA: Wiley-Blackwell, 2009), p. 347.

17.   Zygmunt Bauman, “Has the Future a Left?” Soundings 35 (Spring 2007): 5-6.

18.   Ibid.

19.   Goldberg, The Threat of Race, p. 331.

20.   Cited in Anson Rabinach, “Unclaimed Heritage: Ernst Bloch’s Heritage of Our Times and the Theory of Fascism,” New German Cri­tique (Spring 1997): 8.

21.   See OccupyArreste.com, http://occupyarrests.moonfruit.com.

22.   Durand, “For Youth.”

23.   Kyle Bella, “Bodies in Alliance: Gender Theorist Judith Butler on the Occupy and SlutWalk Movements,” TruthOut (December 15, 2011), online at:http://www.truth-out.org/bodies-alliance-gender-theorist-judith-butler-occupy-and-slutwalk-movements/1323880210.

24.   Richard Lichtman, “Not a Revolution?” TruthOut (Decem­ber 14, 2011), online at: http://www.truth-out.org/not-revolu-tion/1323801994.

25.   Arun Gupta, “Arundhati Roy: The People Who Created the Crisis Will Not Be the Ones That Come up with a Solution,'” Guard­ian (November 30, 2011), online at:http://www.guardian.co.uk/ world/2011 /nov/30/arundhati-roy-interview.

26.   Staughton Lynd, “What Is to Be Done Next?” Counter-Punch (February 29, 2012), online at: http://www.counterpunch .org/2012/02/29/what-is-to-be-done-next.

27.   Stanley Aronowitz, “Notes on the Occupy Movement,” Logos (Fall 2011), online at: http://logosjournal.com/201 l/fall_aronowitz.

28.   On the rise of the punishing state, see Cusac, Cruel and Unusual; Wacquant, Punishing the Poor, Angela Y. Davis, Abolition Democracy: Beyond Empire, Prisons, and Torture (New York: Seven Stories Press, 2005).

29.   Bill Moyers, “Discovering What Democracy Means,” Tom-Paine (February 12, 2007), online at: http://www.tompaine.com/articles/2007/02/12/discovering_what_democracy_means.php.

30.   Daniel Bell, The End of Ideology: On the Exhaustion of Political Ideas in the Fifties (New York: Free Press, 1966); and the more recent Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (New York: Free Press, 2006).

31.   Stuart Hall, “The March of the Neoliberals,” Guardian (September 12, 2011), online at: http://www.guardian.co.uk/poli-tics/201 l/sep/12/march-of-the-neoliberals/.

32.  Alex Honneth, Pathologies of Reason (New York: Columbia University Press, 2009), p. 188.

33.   John Van Houdt, ‘The Crisis of Negation: An Interview with Alain Badiou,” Continent 1:4 (2011): 234-238, online at: http://con-tinentcontinent.cc/index.php/continent/article/viewArticle/65.

34.   See for instance, Noam Chomsky, Failed States: The Abuse of Power and the Assault on Democracy (New York: Holt Paperbacks, 2007).

35.   Andrew Bacevich, “After Iraq, War Is US,” Reader Supported News (December 20, 2011), online at: http://readersupportednews. org/opinion2/424-national-security/9007-after-iraq-war-is-us.

36.   C. Wright Mills, The Power Elite (New York: Oxford University Press, 2000), p. 222.

37.   See Gore Vidal, Imperial America: Reflections on the United States of Amnesia (New York: Nation Books, 2004); Gore Vidal, Perpetual War for Perpetual Peace (New York: Nation Books, 2002); Chris Hedges, War Is a Force That Gives Us Meaning (New York: Anchor Books, 2003); Chalmers Johnson, The Sorrows of Empire: Militarism, Secrecy, and the End of the Republic (New York: Metropolitan Books, 2004); Andrew Bacevich, The New American Militarism (New York: Oxford University Press, 2005); Chalmers Johnson, Nemesis: The Last Days of the Republic (New York: Metropolitan Books); Andrew J. Bacevich, Washington Rules: America’s Path to Permanent War (New York: Metropolitan Books, 2010); and Nick Turse, The Complex: How the Military Invades Our Everyday Lives (New York: Metropolitan Books, 2008).

38.   Tony Judt, “The New World Order,” New York Review of Books 11:2 (July 14, 2005): 17.

39.   Cusac, Cruel and Unusual, p. 2.

40.   Jim Garrison, “Obama’s Most Fateful Decision,” Huffington Post (December 12, 2011), online at: http://www.hufflngtonpost.com/ jim-garrison/obamas-most-fateful-decis_b_l 143005.html.

41.   Ibid.

42.   Stephen Graham, Cities under Siege: The New Military Urban-ism (London: Verso, 2010), p. xi.

43.  Andrew Becker and G. W. Schulz, “Cops Ready for War,” Reader Supported News (December 21, 2011), online at: http:// readersupportednews.org/news-section2/316-20/9023-focus-cops-ready-for-war.

44.   Ibid.

45.   Glenn Greenwald, “The Roots of the UC-Davis Pepper-Spraying,” Salon (November 20, 2011), online at: http://www.salon .com/2011/11 /20/the_roots_of_the_uc_davis_pepper_spraying.

46.   See, for instance, Steven Rosenfeld, “5 Freedom-Killing Tactics Police Will Use to Crack Down on Protests in 2012,” AlterNet (March 16, 2012), online at:http://www.alternet.org/story/154577/5_freedom-killing_tactics_police_will_use_to_crack_down_on_protests_in_2012.

47.   Erica Goode, “Many in U.S. Are Arrested by Age 23, Study Finds,” New York Times (December 19, 2011), p. A15.

48.   Goldberg, The Threat of Race, p. 334.

49.   Lauren Kelley, “Occupy Updates: Extreme Police Violence in Berkeley, with Calls for a Strike; Harvard Protesters Shut out of Harvard Yard,” AlterNet (November 14, 2011), online at: http://www.alternet.org/newsandviews/article/728865/occupy_updates%3A_ex-treme_police_violence_in_berkeley,_with_calls_for_a_strike%3B_har-vard_protesters_shut_out_of_harvard_yard; Conor Friedersdorf, “UC Berkeley Riot Police Use Batons to Clear Students from Sproul Plaza,” Atlantic (November 10, 2011), online at: http://www.theatlantic. com/national/print/2011/11 /uc-berkeley-riot-police-use-batons-to-clear-students-from-sproul-plaza/248228; Al Baker, “When the Police Go Military,” New York Times (December 3, 2011), p. SR6; and Rania Khalek, “Pepper-Spraying Protesters Is Just the Beginning: Here Are More Hypermilitarized Weapons Your Local Police Force Could Employ,” AlterNet (November 22, 2011), online at: http://www .alternet.org/story/153147/pepper-spraying_protesters_is_just_the_ beginning%3A_here_are_more_hypermilitarized_weapons_your_lo-caLpolice_force_could_employ.

50.   Philip Govrevitch, “Whose Police?” New Yorker (November 17, 2011), online at:http://www.newyorker.com/online/blogs/com-ment/2011/11/occupy-wall-street-police-bloomberg.html.

51.   Phil Rockstroh, “The Police State Makes Its Move: Re­taining One’s Humanity in the Face of Tyranny,” CommonDreams (November 15, 2011), online at:http://www.commondreams.org/ view/2011/11/15.

52.   Michael Geyer, ‘The Militarization of Europe, 1914-1945,” in John R. Gillis, ed. The Militarization of the Western World (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1989), p. 79.

53.  Judt, “The New World Order,” pp. 14-18.

54.   Geoff Martin and Erin Steuter, Pop Culture Goes to War: Enlisting and Resisting Militarism in the War on Terror (New York: Lexington Books, 2010).

55.   Carl Boggs and Tom Pollard, The Hollywood War Machine: U.S. Militarism and Popular Culture (Boulder, CO: Paradigm Publish­ers, 2006).

56.   Kostas Gouliamos and Christos Kassimeris, eds., The Market­ing of War in the Age of Neo-Militarism (New York: Routledge, 2011).

57.   David Cole, “An Executive Power to Kill?” New York Review of Books (March 6, 2012), online at: http://www.nybooks.com/blogs/ nyrblog/2012/mar/06/targeted-killings-holder-speech.

58.   Steve Herbert and Elizabeth Brown, “Conceptions of Space and Crime in the Punitive Neoliberal City,” Antipode (2006): 757.

59.   Davis, Abolition Democracy, p. 41.

60.   One classic example of this neoliberal screed can be found most recently in an unapologetic defense of social Darwinism by Charles Murray, Coming Apart: The State of White America, 1960-2010 (New York: Crown Forum, 2012). For a critique of this position, see David Garland, The Culture of Control: Crime and Social Order in Con­temporary Society (Chicago: University of Chicago Press, 2001); Philip Jenkins, Decade of Nightmares: The End of the Sixties and the Making of Eighties America (New York: Oxford University Press, 2006); and Jonathan Simon, Governing through Crime: How the War on Crime Transformed American Democracy and Created a Culture of Fear (New York: Oxford University Press, 2007).

61.   Chris McGreal, ‘The US Schools with Their Own Police,” Guardian (January 9, 2012), online at: http://www.guardian.co.uk/ world/2012/jan/09/texas-police-schools.

62.   Daniel Tancer, “Student Punished for Refusing to Cite the Pledge,” Psyche, Science, and Society (February 25, 2010), online at:http://psychoanalystsopposewar.org/blog/2010/02/25/student-punished-for-refusing-to-recite-the-pledge.

63.   McGreal, ‘The US Schools with Their Own Police.”

64.   Criminal Injustice Kos, “Criminal Injustice Kos: Interrupting the School to Prison Pipeline,” Daily Kos (March 30, 2011), online at:http://www.dailykos.com/story/2011/03/30/960807/-Criminal-InJustice-Kos:-Interruptlng-the-School-to-Prison-Pipeline.

65.   “A Failure of Imagination,” Smartypants (March 3, 2010), online at:http://immasmartypants.blogspot.com/2010/03/failure-of-imagination.html.

66.   See Mark P. Fancher, Reclaiming Michigan’s Throwaway Kids: Students Trapped in the School-to-Prison Pipeline (Michigan: ACLU, 2011), online at:http://www.njjn.org/uploads/digitaljibrary/ resource_1287.pdf; and Advancement Project, Test, Punish, and Push Out: How “Zero Tolerance” and High-Stakes Testing Funnel Youth into the School-to-Prison Pipeline (Washington, DC: Advancement Project, March 2010), online at: http://www.advancementproject.org/sites/default/flles/publications/rev_fln.pdf.

67.   Gilles Deleuze, “Postscript on the Societies of Control,” October 59 (Winter 1992): 3-7.

68.  Alex Honneth, Pathologies of Reason (New York: Columbia University Press, 2009), p. 188.

69.   Bauman, “Has the Future a Left?” p. 2.

70.   Barbara Ehrenreich, “How We Cured The Culture of Pov­erty,’ Not Poverty Itself,” Truthout (March 15, 2012), online at: http:// http://www.truth-out.org/how-we-cured-culture-poverty-not-poverty-itself/1331821823.

71.  This theme is taken up in great detail in Jonathan Simon, Governing through Crime: How the War on Crime Transformed American Democracy and Created a Culture of Fear (New York: Oxford University Press, 2007).

This piece was reprinted by Truthout with permission or license. It may not be reproduced in any form without permission or license from the source.

Make climate change a priority (Washington Post)

Graphic: A new report prepared for the World Bank finds that the planet is on a path to warming 4 degrees by the end of the century, with devastating consequences. Click on the infographic to go to the World Bank for more information.

By Jim Yong Kim, Published: January 24

Jim Yong Kim is president of the World Bank.

The weather in Washington has been like a roller coaster this January. Yes, there has been a deep freeze this week, but it was the sudden warmth earlier in the month that was truly alarming. Flocks of birds — robins, wrens, cardinals and even blue jays – swarmed bushes with berries, eating as much as they could. Runners and bikers wore shorts and T-shirts. People worked in their gardens as if it were spring.

The signs of global warming are becoming more obvious and more frequent. A glut of extreme weather conditions is appearing globally. And the average temperature in the United States last year was the highest ever recorded.

As economic leaders gathered in Davos this week for the World Economic Forum, much of the conversation was about finances. But climate change should also be at the top of our agendas, because global warming imperils all of the development gains we have made.If there is no action soon, the future will become bleak. The World Bank Groupreleased a reportin November that concluded that the world could warm by 7.2 degrees Fahrenheit (4 degrees Celsius) by the end of this century if concerted action is not taken now.

A world that warm means seas would rise 1.5 to 3 feet, putting at risk hundreds of millions of city dwellers globally. It would mean that storms once dubbed “once in a century” would become common, perhaps occurring every year. And it would mean that much of the United States, from Los Angeles to Kansas to the nation’s capital, would feel like an unbearable oven in the summer.

My wife and I have two sons, ages 12 and 3. When they grow old, this could be the world they inherit. That thought alone makes me want to be part of a global movement that acts now.

Even as global climate negotiations continue, there is a need for urgent action outside the conventions. People everywhere must focus on where we will get the most impact to reduce emissions and build resilience in cities, communities and countries.

Strong leadership must come from the six big economies that account for two-thirds of the energy sector’s global carbon dioxide emissions. President Obama’s reference in his inaugural address this week to addressing climate and energy could help reignite this critical conversation domestically and abroad.

The world’s top priority must be to get finance flowing and get prices right on all aspects of energy costs to support low-carbon growth. Achieving a predictable price on carbon that accurately reflects real environmental costs is key to delivering emission reductions at scale. Correct energy pricing can also provide incentives for investments in energy efficiency and cleaner energy technologies.

A second immediate step is to end harmful fuel subsidies globally, which could lead to a 5 percent fall in emissions by 2020. Countries spend more than $500 billion annually in fossil-fuel subsidies and an additional $500 billion in other subsidies, often related to agriculture and water, that are, ultimately, environmentally harmful. That trillion dollars could be put to better use for the jobs of the future, social safety nets or vaccines.

A third focus is on cities. The largest 100 cities that contribute 67 percent of energy-related emissions are both the center of innovation for green growth and the most vulnerable to climate change. We have seen great leadership, for example, in New York and Rio de Janeiro on low-carbon growth and tackling practices that fuel climate change.

At the World Bank Group, through the $7 billion-plus Climate Investment Funds, we are managing forests, spreading solar energy and promoting green expansion for cities, all with a goal of stopping global warming. We also are in the midst of a major reexamination of our own practices and policies.

Just as the Bretton Woods institutions were created to prevent a third world war, the world needs a bold global approach to help avoid the climate catastrophe it faces today. The World Bank Group is ready to work with others to meet this challenge. With every investment we make and every action we take, we should have in mind the threat of an even warmer world and the opportunity of inclusive green growth.

After the hottest year on record in the United States, a year in which Hurricane Sandycaused billions of dollars in damagerecord droughts scorched farmland in the Midwest and our organization reported that the planet could become more than 7 degrees warmer, what are we waiting for? We need to get serious fast. The planet, our home, can’t wait.

Climate Change Beliefs of Independent Voters Shift With the Weather (Science Daily)

Jan. 24, 2013 — There’s a well-known saying in New England that if you don’t like the weather here, wait a minute. When it comes to independent voters, those weather changes can just as quickly shift beliefs about climate change.

Predicted probability of “climate change is happening now, caused mainly by human activities” response as a function of temperature anomaly and political party. (Credit: Lawrence Hamilton and Mary Stampone/UNH)

New research from the University of New Hampshire finds that the climate change beliefs of independent voters are dramatically swayed by short-term weather conditions. The research was conducted by Lawrence Hamilton, professor of sociology and senior fellow at the Carsey Institute, and Mary Stampone, assistant professor of geography and the New Hampshire state climatologist.

“We find that over 10 surveys, Republicans and Democrats remain far apart and firm in their beliefs about climate change. Independents fall in between these extremes, but their beliefs appear weakly held — literally blowing in the wind. Interviewed on unseasonably warm days, independents tend to agree with the scientific consensus on human-caused climate change. On unseasonably cool days, they tend not to,” Hamilton and Stampone say.

Hamilton and Stampone used statewide data from about 5,000 random-sample telephone interviews conducted on 99 days over two and a half years (2010 to 2012) by the Granite State Poll. They combined the survey data with temperature and precipitation indicators derived from New Hampshire’s U.S. Historical Climatology Network (USHCN) station records. Survey respondents were asked whether they thought climate change is happening now, caused mainly by human activities. Alternatively, respondents could state that climate change is not happening, or that it is happening but mainly for natural reasons.

Unseasonably warm or cool temperatures on the interview day and previous day seemed to shift the odds of respondents believing that humans are changing the climate. However, when researchers broke these responses down by political affiliation (Democrat, Republican or independent), they found that temperature had a substantial effect on climate change views mainly among independent voters.

“Independent voters were less likely to believe that climate change was caused by humans on unseasonably cool days and more likely to believe that climate change was caused by humans on unseasonably warm days. The shift was dramatic. On the coolest days, belief in human-caused climate change dropped below 40 percent among independents. On the hottest days, it increased above 70 percent,” Hamilton says.

New Hampshire’s self-identified independents generally resemble their counterparts on a nationwide survey that asked the same questions, according to the researchers. Independents comprise 18 percent of the New Hampshire estimation sample, compared with 17 percent nationally. They are similar with respect to education, but slightly older, and more balanced with respect to gender.

In conducting their analysis, the researchers took into account other factors such as education, age, and sex. They also made adjustments for the seasons, and for random variation between surveys that might be caused by nontemperature events.

Journal Reference:

  1. Lawrence C. Hamilton, Mary D. Stampone. Blowin’ in the wind: Short-term weather and belief in anthropogenic climate changeWeather, Climate, and Society, 2013; : 130123150419007 DOI: 10.1175/WCAS-D-12-00048.1

Belo Monte é um absurdo e termelétricas são desnecessárias [((o))eco]

Daniele Bragança

22 de Janeiro de 2013

Para Célio Bermann, eletricidade produzida com excedente de bagaço de cana equivaleria a duas Belo Montes.

O setor de energia ganhou as primeiras páginas dos jornais no início de 2013 com o baixo nível dos reservatórios e a possibilidade de manter as termelétricas ligadas ao longo de todo o ano para compensar a falta de chuvas. Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, é um crítico severo dessa solução. Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, trabalhou como assessor da então Ministra Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia, entre 2003 e 2004. “Saí quando verifiquei que o Ministério de Minas e Energia estava fazendo o contrário do que eu pensava que seria possível”, diz ele. Severo crítico da hidrelétrica de Belo Monte, fez parte do painel de especialistasque concluíram que o projeto da usina não deveria ter seguimento.

Bermann conversou com ((o))eco sobre os caminhos do setor energético e possíveis soluções para evitar o uso intensivo das termoelétricas como complementação das hidrelétricas.

((o))eco: O Ministério de Minas e Energia estuda usar as termelétricas de forma permanente, para poupar os reservatórios. O que o senhor acha disso?
Utilizar termelétricas para complementar o sistema hidrelétrico é uma solução equivocada. Em primeiro lugar, estamos falando de um sistema elétrico que prioriza a geração de energia a partir da água, o que o torna dependente do regime hidrológico. É preciso com urgência diversificar a matriz de eletricidade do Brasil, utilizando fontes que, ao mesmo tempo, possam complementar o regime da falta de água e que sejam viáveis do ponto de vista econômico e ambiental.

((o))eco: Por quê?
Primeiro, porque a termoeletricidade pode custar 4 vezes mais do que a hidroeletricidade. Além disso, utiliza três fontes fósseis derivados de petróleo: óleo combustível, carvão mineral e gás natural. O principal problema na utilização das fontes fósseis, ao meu entender, não são as emissões de gases de efeito estufa. No caso brasileiro, o problema maior das termoelétricas é serem emissoras de hidrocarbonetos, de dióxido de nitrogênio, de dióxido de enxofre, de material particulado e de fumaça.

((o))eco: Quais são as consequências?
O impacto ambiental dessas fontes é sobre a saúde pública. A vizinhança dessas usinas fica suscetível a doenças crônicas causadas por esse coquetel de poluição.

((o))eco: Há termelétricas que utilizam água na sua refrigeração. Isso causa impactos negativos?
Em geral, essas usinas utilizam água dos rios próximos. Existem regiões no Brasil em que o comprometimento hídrico impede a construção de termelétricas. No estado de São Paulo, no rio Piracicaba, por exemplo, não foi possível construir usinas a gás natural porque elas demandavam um volume de água além das possibilidades da bacia deste rio.

((o)) eco: Qual é o custo das termelétricas?

A partir do bagaço da cana de açúcar, resíduo da produção sucroalcooleira, pode-se produzir 10 mil megawatts excedentes, o que equivale a mais de 2 vezes a energia média produzida por Belo Monte.

A energia das termelétricas pode custar até 4 vezes mais do que a hidroeletricidade. Ao mesmo tempo, com a Medida Provisória 579, o governo quer reduzir a tarifa de energia usando recursos do Tesouro Nacional. É um absurdo, pois esta medida afeta indiretamente o bolso dos consumidores. Somos nós que vamos pagar por essa redução da tarifa. É uma forma fictícia de fazer algo desejável: reduzir a tarifa. Temos uma das tarifas de energia elétrica mais cara do mundo, algo absurdo porque nossa matriz com ênfase em hidrelétricas produz energia que deveria ser barata.

((o))eco: E quais seriam essas alternativas?
São três: a conservação da energia, o uso da biomassa e da energia eólica. A primeira alternativa é pensar na conservação e no uso eficiente da energia. É preciso uma ampla campanha nas mídias para ensinar à população a reduzir o desperdício. O governo está fazendo o contrário, quando diz que não há risco de racionamento.

Quando o governo prefere a termoeletricidade como base, está dizendo: vamos usar a termoeletricidade de forma que não se tenha riscos durante o período em que a hidrologia é desfavorável, que é o período entre junho e outubro. Essa solução, como já pontuei antes, é completamente inadequada.

A campanha por redução do consumo de energia deve abranger também grandes consumidores industriais. Estou falando de 6 setores: cimento, siderurgia, alumínio, química, ferro-liga e papel/celulose. Em conjunto, eles respondem pelo consumo de 30% da energia no Brasil. Não estou falando em fechar essas fábricas, mas que um esforço desses setores na redução da sua escala de produção aumentaria a disponibilidade de energia para a economia e para a população. É uma questão de interesse público.

((o))eco: E a segunda alternativa?

No mês de outubro, por causa do regime hidrológico, a capacidade de geração ficará reduzida a 1mil megawatts, ou seja, 10 % da capacidade instalada.

A segunda alternativa é a utilização do potencial do setor sucroalcooleiro como fonte de complementação de energia. O Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP recentemente constatou que, a partir do bagaço da cana de açúcar, resíduo da produção sucroalcooleira, pode-se produzir 10 mil megawatts excedentes, o que equivale a mais de 2 vezes a energia média produzida por Belo Monte. Essa energia pode chegar ao sistema elétrico em 3 ou 4 meses e a custo baixo.

Hoje, o bagaço é utilizado para complementar a própria necessidade de eletricidade das usinas. Mas elas também poderiam comercializar o excedente que é dessa ordem que eu falei, de 10 mil megawatts. Elas já comercializam 1.230 megawatts de energia elétrica excedente.

((o))eco: Por que essa energia não está disponível?
Uma resolução da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) determina que cabe à usina o investimento para construir as linhas de transmissão de energia que levem esse excedente da usina até uma subestação ou uma rede de distribuição de energia elétrica. Nosso levantamento, feito para algumas regiões, mostra que a distância entre as usinas e a rede varia de 10 a 30 km, percurso relativamente curto.

((o)) eco: E o que poderia ser feito para viabilizar estas pequenas linhas?
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) poderia financiar a construção dessas linhas. Com crédito, esse excedente poderia estar disponível já na próxima safra, em abril de 2013. Com investimento na troca de equipamentos de cogeração ─ caldeiras de maior pressão ─ esses 10 mil megawatts potenciais da biomassa podem dobrar para 20 mil megawatts. De novo, em nome do interesse público, o BNDES poderia ser o financiador.

Infelizmente, o BNDES está usando 22,5 bilhões de reais para financiar a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Quando ficar pronta, em 2019, ela acrescentará apenas 4.400 megawatts médios ao sistema elétrico. Veja o absurdo, a política do governo prioriza megaobras de hidrelétricas, quando existem soluções de energia complementar às hidros, que funcionam justamente na época das secas. A safra da cana de açúcar ocorre no período de menos chuvas, que vai de maio até novembro.

((o))eco: Belo Monte deveria ser descartado, então?

Conforme dados oficiais, o sistema de transmissão e distribuição nacional tem uma perda técnica (excluindo os gatos) da ordem de 15,4%.

Belo Monte deveria ser descartada. O custo é enorme: 30 bilhões de reais para uma capacidade instalada de 11.233 megawatts. Essa capacidade estará disponível durante 3 ou 4 meses por ano, no período das chuvas. No mês de outubro, por causa do regime hidrológico, a capacidade de geração ficará reduzida a 1mil megawatts, ou seja, 10 % da capacidade instalada. A média ao longo do ano é de 4400 megawatts. A contribuição do rio Xingu e da Usina de Belo Monte é uma fração do que está sendo alegado para justificar a construção da usina. Eu afirmo, Belo Monte atende ao interesse das empreiteiras e empresas ligadas à sua construção, e não à população e a economia brasileira.

((o))eco: E a terceira alternativa?
A terceira alternativa é a energia eólica. No nordeste, o regime de ventos é maior justamente na época da estiagem. Os reservatórios do rio São Francisco podem acumular água durante o período mais crítico, enquanto a energia eólica abasteceria a região nordeste. Ouve-se a alegação de que a biomassa, a eólica, são fontes intermitentes. Ora, a hidroeletricidade também é intermitente, pois depende do regime hidrológico.

((o))eco: E quanto a eficiência, qual é o percentual de perda nas linhas de transmissão?
Conforme dados oficiais, o sistema de transmissão e distribuição nacional tem uma perda técnica (excluindo os gatos) da ordem de 15,4%. É impossível eliminar todas as perdas, mas cortar 5 pontos percentuais é tecnologicamente viável e traz grandes benefícios econômicos. Basta investir na manutenção do sistema: isolar melhor os fios de transmissão e trocar transformadores que já esgotaram sua vida útil. O número crescente de apagões é uma evidência de má manutenção. Por exemplo, parafusos velhos levam à queda de torres de transmissão.

Dessa forma, a perda poderia ser reduzida para cerca de 10% e acrescentariam ao sistema elétrico o equivalente a uma usina hidrelétrica de 6.100 megawatts ─ 150% mais da média de Belo Monte ─ de acordo com cálculo recente que fiz com estudantes da Pós-Graduação em Energia do IEE. Isso poderia ser alcançado a um terço do custo de produzir um novo megawatt.

A Aneel é leniente em relação às perdas. É fundamental que ela defina, em nome do interesse público, metas de redução de perdas técnicas nas empresas de distribuição e concessionárias de distribuição de energia. O alcance dessas metas deveria ser associado à redução tarifária.

((o))eco: É caro construir novas linhas de transmissão?
Sim, principalmente para levar energia distante dos centros de consumo, como é o caso dos projetos de hidrelétricas que estão sendo construídas na Amazônia.

((o))eco: E a energia nuclear? O Brasil deve pensar em investir nesta alternativa de energia?
A energia nuclear é uma fonte cara, desnecessária e com um risco de ocorrência de acidentes severos. Além das usinas de Angra 1 e 2, estamos construindo Angra 3. Todas elas numa região que é imprópria para a implantação de usinas nucleares. Angra dos Reis é uma região suscetível a grandes chuvas no verão. Não é impensável a possibilidade que uma chuva mais severa derrube as linhas que transmitem energia elétrica do sistema até as usinas.

O resultado da interrupção de fornecimento de energia elétrica pode fazer as bombas de refrigeração de água dos reatores pararem, provocando o superaquecimento e a explosão do reator, que foi o que aconteceu, em fevereiro de 2011, nos 4 reatores de Fukushima, no Japão. Com um agravante: a única via de escoamento da população é a Rio-Santos, absolutamente incapaz de evacuar toda a população local. A empresa Eletronuclear considera, hoje, uma população da ordem de 200 mil habitantes. Essa população dobra na época das férias, que coincide com a época das chuvas.

Cacique Cobra Coral rompe parceria com a prefeitura (O Globo)

Governo teria deixado de entregar, nos prazos previstos, relatórios com um balanço dos investimentos em prevenção realizados ano passado na cidade

O GLOBO

Publicado:14/01/13 – 0h08

RIO — Em pleno verão carioca, o sistema de alerta e prevenção a enchentes do Rio perdeu um colaborador incomum. O porta-voz da Fundação Cacique Cobra Coral, Osmar Santos, anunciou no domingo que rompeu o convênio técnico-científico que mantinha com a prefeitura do Rio. O motivo é que a prefeitura deixou de entregar, nos prazos previstos, relatórios com um balanço dos investimentos em prevenção realizados ano passado na cidade. A ONG é comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma ter o poder de controlar o tempo. Desde a administração do ex-prefeito Cesar Maia, Adelaide esteve à disposição para prestar assistência espiritual a fim de tentar reduzir os estragos causados por temporais. Em janeiro de 2009, a prefeitura chegou a anunciar o fim da parceria, mas voltou atrás após uma forte chuva.

— Alguém da burocracia muito atarefado esqueceu da gente. Mas, caso a prefeitura queira continuar a receber nossa consultoria, que é gratuita, estamos à disposição — disse Osmar Santos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/cacique-cobra-coral-rompe-parceria-com-prefeitura-7285402#ixzz2Il9blV38 © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Medo e tensão no Oeste (Rolling Stone)

Edição 49 – Outubro de 2010

Paraíso perdido na Amazônia, a região de Nova Olinda vive em conflito: de um lado, comunidades a favor da extração da madeira; de outro, aquelas que querem manter suas terras. O impasse continua

Medo e tensão no Oeste

Foto: GREENPEACE

por POR FELIPE MILANEZ

O excesso de céu e águas que se abre à minha frente a partir da proa do barco é deslumbrante. A floresta é uma linha verdejante suave no horizonte, que marca a distinção entre o azul cósmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderança indígena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele aponta para uma dessas margens paradisíacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: “Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram”.

É apenas uma ponta de areia, chamada São Pedro, que marca uma confluência. A partir daqui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapajós, se fecha, até culminar em uma bifurcação. De um lado, o Maró. Do outro, o Aruã. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligação política entre a insurgência presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposição estariam os empresários que comercializam madeira da região, as comunidades que são ligadas a esses empresários e os agentes econômicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospecção em toda a área, e os produtores de soja.

Não apenas pelo significado político, mas também pela dimensão social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira marcou definitivamente essa curva do Arapiuns.

O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comunidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestação, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indícios de extração irregular da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira continuaria saindo. “Sendo saqueada”, pensaram as lideranças que estavam no local. Não houve ordem de ninguém para dar início ao fogo, mas uma reação coletiva, em assembleias. “O motivador maior da queima foi a conivência do Estado com a exploração madeireira. O Estado não quis discutir com as comunidades, mandou apenas um técnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestantes, que esperaram por um mês”, afirmou uma liderança que não quis ser identificada.

Quase um ano atrás, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestação que já durava um mês, a multidão queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhões. Se a região vivia tempos de medo e tensão, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresários perceberam que poderiam se insurgir.

Neste último ano, sem a demarcação da terra indígena pretendida pelos índios borari, sem a regularização dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizações de corte de madeira na área e o patrimônio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda está tomado de medo e tensão.

“O medo sempre existiu. Mas eu não fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar”, diz Odair José Alves de Sousa, o Dadá, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique é seu tio Higino, mais velho e experiente). À noite, a água do rio é ainda mais escura. Reflete as estrelas tão nitidamente que a sensação é a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. Há calma no ar. Nessa hora, Dadá pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde então faz parte do programa de proteção à testemunha e anda com seguranças. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiança na capacidade de luta aumentou. “O movimento está forte. Nossa luta é justa”, afirma.

Antes do episódio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras. Cada uma com uma média de dois mil metros cúbicos de madeira. Agora, diz Dadá, se passarem três balsas por mês é muito. Foi o fogo? “Questão de amedrontamento”, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o “outro lado”. “A gente está falando no canal de rádio que não tem hora nem momento para ter outra manifestação, para pegar outra balsa. Então eles reduziram a quantidade”, explica. O foco da pressão é a empacada regularização fundiária da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audiências públicas e lobbies políticos.

Nova Olinda se divide em duas posições antagônicas. Para entrar na Gleba, é preciso estar de um lado. “A gente vai ter que discutir com a comunidade.” Minha recepção na aldeia Novo Lugar é permeada de desconfiança. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jornalista que se mostrou envolvida com o tal “outro lado”. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presença não implicava em vínculos diretos com o “lado de lá”, os empresários madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como Fé em Deus, Repartimento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como iniciei a viagem pelo lado da resistência aos empresários, que se encontrava antes pela logística do rio, as comunidades opostas fecharam as portas.

Um daqueles paraísos perdidos na Amazônia, lugar de floresta altamente preservada, onde um sonho de éden ainda parece persistir, a região de Nova Olinda é banhada por rios de águas escuras, que escorrem de forma sinuosa, de difícil acesso, praticamente isolando a área na seca do acesso de barcos maiores – com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco até Santarém, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

Com 182 mil hectares, a Gleba integra um mosaico de terras, no Oeste do Pará, parte em Santarém e outra em Juriti, que está em lento processo de regularização fundiária: o conjunto de glebas Mamuru-Arapiuns, com 1,2 milhão de hectares. Seria a primeira de cinco glebas de terras públicas nessa região a ter o problema de destinação do uso resolvido – para exploração, preservação ou uso tradicional. O processo, assim que concluído, poderia servir de modelo de resolução para as demais terras. Algumas áreas de assentamento já foram regularizadas. Falta definir a situação dos assentamentos de duas comunidades, Prainha e Vista Alegre, e a demarcação da terra indígena. A conclusão estacionou, e a tensão cresceu.

Há cerca de 15 comunidades na área. Pela lei, elas devem ser ouvidas sobre sua ocupação e o uso que fazem da terra, e as necessidades devem ser respeitadas na hora da concessão do título, seja na forma de projeto de assentamento, que pode ser coletivo ou em lotes individuais, seja na forma de uma reserva indígena. Mas as interferências externas, ou seja, dos novos migrantes, mudaram a relação pacífica que existia entre as comunidades, que hoje não se comunicam.

Seria natural imaginar que todas demandariam direitos semelhantes. Mas há aquelas que querem a presença dos empresários, e as que refutam. Permeada por essa disputa, surge uma batalha por identidades: para marcar suas diferenças e posições políticas assumem cada uma suas raízes. A grande batalha acontece entre as que reivindicam a identidade indígena, do povo Borari, e aquelas que querem se ver brasileiras e modernas.

Foram os gaúchos (termo genérico para forasteiros) que trouxeram o sonho do progresso e os conflitos. Empresários madeireiros transferidos pelo governo do Pará, eles ocupavam uma área pública que havia sido transformada em terra indígena de ocupação dos índios caiapós no Sul do Estado. O governo paraense decidiu, à época, fazer uma espécie de permuta com os empresários, transferindo-os para outra área administrada pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Com a transferência dos títulos, veio junto a grilagem da terra. A partir de 2002, começaram a surgir “laranjas” e milhares de novos madeireiros permutados. Na floresta, cortes de lotes sobrepunham-se, enquanto as populações locais observavam tudo cada vez mais esmagadas nas margens.

Para as comunidades a favor da chegada dos madeireiros, da pesquisa mineral de bauxita ou da instalação da agricultura mecanizada de soja, deixar a vida dura da exclusão em que vivem tornou-se um objetivo urgente. Ainda que tenham se dividido entre grupos que passaram a apoiar a entrada dos empresários, recebendo benfeitorias para isso, e os que os enfrentaram, recebendo ameaças, mas mantendo o sonho da autonomia. A comunidade Repartimento, no rio Aruã, foi a primeira a ceder. No rio Maró, o povoado de Fé em Deus tomou a frente, liderado por Manoel Benezildo Sousa, que passou a agrupar lideranças com ações financiadas pelos empresários. Os benefícios imediatos como um gerador mais potente, alguns salários e alguns empregos na extração da madeira, são de grande importância para quem vive na área. Mas podem ser considerados baixos se comparados ao valor em potencial das terras que estão em jogo. A contrapartida exigida para a chegada do progresso é a demanda por terras menores no processo fundiário em curso.

Contrárias aos madeireiros, as outras comunidades se organizaram com o sindicato dos trabalhadores rurais e os movimentos sociais da região. Decidiram lutar para garantir a terra de uso tradicional. Pelo menos, a maior fatia possível do bolo que estava sendo dividido. Esse é o lado do chamado Movimento no conflito instaurado na Nova Olinda.

Em uma terça-feira pela manhã, estive em Fé em Deus, para conhecer as reivindicações, demandas e os benefícios que têm sido distribuídos. Chovia, ventava, e o dia tinha um aspecto antipático. Eu havia sido informado de que poderia não ser recebido quando o barco que faz a linha de transporte até Santarém, o Crê em Deus, que levava as lideranças aliadas aos madeireiros para uma audiência pública na cidade, atracou junto ao que eu estava para me avisar: a minha presença na área não estava autorizada.

Não souberam informar do que se tratava a audiência pública para a qual haviam sido convocados – no caso, era para discutir a situação ambiental de um porto construído em Santarém, pela Cargill, para o escoamento da soja. Mas o transporte era pago.

Chegando em Fé em Deus, percebi um clima de tensão. Pessoas assustadas, conversas em voz baixa sobre a presença do forasteiro, olhares preocupados. Até que jovens líderes vieram informar que não seria realmente possível o diálogo na ausência de Benezildo de Souza e outras lideranças políticas. No pátio da escola vi tremularem bandeirinhas coloridas que anunciam a festa junina, marcada para o sábado seguinte. A comunidade borari Novo Lugar não vai ser convidada. Na festa deles tampouco alguém de Fé em Deus foi chamado. Sequer fui convidado para entrar na comunidade. A justificativa: eu estaria comprometido com o “outro lado”. Nova Olinda, dividida, vive uma guerra fria.

“Não queremos conversa. Vocês vieram aqui criar índio. Nós queremos ficar em paz e resolver os problemas”, disse um dos líderes da Fé em Deus. Atrás da roda de homens, gritou uma senhora: “A gente fala com vocês, depois vocês vão embora e a gente fica aqui, correndo perigo”. O temor que ela expressa representa alguma repressão interna que aquele povo vive e sobre a qual não quiseram falar.

Em Fé em Deus e nas demais comunidades que se comportam como se tivessem sido pressionadas, também se desconfia de jornalistas. Quando têm interesse de que algo seja publicado, convidam aqueles vistos como pertencentes a “seu lado”. Assim foi com um jornal local, de Santarém, o Impacto, e a revista Veja, que publicaram reportagens sob a égide de progresso e desenvolvimento. Ambos veículos de imprensa deixaram naquelas terras um rastro de desconforto que atinge qualquer jornalista que for para a Gleba, tornando infrutíferas qualquer tentativa de contato com os produtores rurais e os empresários.

Acompanhando um antropólogo de um instituto federal de pesquisa, interessado em compreender a relação das populações tradicionais com o Estado e sem nenhuma relação com questões étnicas, eu não havia sido levado por quaisquer dos dois lados do conflito por terras na região. Da mesma forma que os que desejam o progresso consideram terem “seus” jornalistas, também pensam disporem de antropólogos que os defendem. Nesse caso, eles contrataram Edward Luz, um antropólogo missionário, cuja missão é provar que nessa área não existem índios. Engajado de corpo e alma em acabar com o assunto, jovem líder evangélico na faixa de 30 anos, casado e pai de família, filho do pastor e presidente da Missão Novas Tribos do Brasil e formado em antropologia pela Universidade de Brasília, Edward Luz “nasceu e cresceu em berço missionário”, o próprio me diz numa linda manhã de sol em São Paulo. Era o primeiro dia da primavera de 2009, a mesma época em que tinham início as revoltas no Arapiuns. Estávamos em uma sala confortável na Universidade Mackenzie, junto de uns 15 alunos. Ele ministrava um curso para ensinar outros missionários a traduzirem a Bíblia para línguas indígenas. A missão, aqui, é levar a palavra da religião protestante para povos indígenas de pouco contato ou mesmo isolados. Um caso de proselitismo, que causou ao pai de Edward Luz (os dois têm o mesmo nome) a expulsão do território dos índios Zo’é, quando o filho ainda era criança. Além do proselitismo, também foram acusados de genocídio pela Funai, em razão de epidemias que podem ter provocado. Os Luz, desde então, foram proibidos de entrar em terras indígenas na posição de missionários.

Contratado pela Associação Comunitária dos Trabalhadores Rurais do Aruã e Maró (Acutarm), que é ligada aos empresários, foi solicitado a Luz, segundo ele escreveu em uma carta à qual tive acesso, “que se inteirasse dos fatos que vinham transcorrendo na região da mesopotâmia do Maró e o Aruan” para orientar a associação. Ele esteve nas três comunidades que “se autointitulam indígenas”, mas o acesso lhe foi negado. Ele quer analisar a situação étnica dos borari, que vivem em Cachoeira do Maró, Novo Lugar e São José. Essa demanda fundiária dos indígenas, dependendo dos cálculos da Funai, pode ficar entre 35 e 80 mil hectares. Edward sabe como funciona a Funai – ele já foi contratado pela própria para identificar terras indígenas do povo Kokama, na região do rio Solimões. Mas ele derrubou as pretensões da própria Funai e hoje responde a um processo.

A mais recente disputa de antropólogos sobre o tema ocorreu em meados de agosto, em Santarém, numa audiência pública. De um lado estavam Edward e Inácio Regis – intelectual local que também se apresenta como pesquisador e que também quer provar que aqueles índios, na verdade, não são índios, e que a terra deve ser destinada ao desenvolvimento. Em oposição estavam a antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, professora aposentada da Universidade de Chicago, e Maria Rosário Carvalho, da Universidade Federal da Bahia.

Régis, que, procurado por e-mail, não respondeu a tentativas de entrevista, afirmou que os índios do Tapajós estão sendo induzidos a se assumirem indígenas. Luz disse que os vizinhos e parentes dos índios do Maró afirmam que eles não são índios. As duas mulheres foram polidas, e disseram que não estavam na área fazendo pesquisas de campo e, portanto, não poderiam opinar sobre o caso específico. Deixaram no ar, no entanto, que consideram essas comunidades indígenas sem colocar em questão a legitimidade da identidade.

Assim como minha presença na área foi notada com rapidez, o mesmo ocorre quando os órgãos públicos aportam para debates fundiários. De acordo com o relatório de um funcionário do Ibama que participou de uma fiscalização em 2007, a embarcação da equipe foi interceptada por uma lancha conduzida por Edson Taparello, na qual também estava Fernando Belusso, dono e gerente, respectivamente, da empresa Rondobel: “Indagaram para onde ia a equipe”, escreveu o funcionário.

Os empresários estavam acompanhados de Manoel Benezildo e da repórter Gerciene Belo, do jornal Impacto. Convocaram uma reunião-surpresa, sem programação oficial – burocracia que se faz necessária para ter a presença de representantes públicos. A equipe do Iterpa cedeu à pressão e deslocou-se na lancha do empresário. O técnico do Ibama preferiu não comparecer, pois, segundo ele, tratava-se de transporte oferecido por uma empresa que tinha interesse direto no problema e isso poderia causar interferência na fiscalização.

O relatório do Ibama, cujo integrante não compareceu à reunião, descreve o que a funcionária do Iterpa lhe contou: “Os participantes decidiram pela regularização fundiária dos lotes comunitários na modalidade individual, conforme era desejo, também, dos empresários”. A Terra Indígena Cachoeira do Maró está em processo de demarcação pela Funai. A última visita de funcionários do órgão ocorreu em setembro deste ano e buscava identificar fisicamente o local de ocupação. Para a Funai, não está em questão a autenticidade da reivindicação dos índios. “Não cabe ao Estado, ou à Funai, dizer quem é índio e quem não é”, afirma Márcio Meira, presidente da entidade

A lei e a antropologia, segundo Meira, definem a legitimidade da afirmação étnica pela autodeclaração. “Índio é qualquer membro de uma comunidade indígena, que se reconhece como tal e é reconhecido pela comunidade como um membro”, explica. É questão de afirmação social, histórica, econômica e cultural.

Na complexa teia de demandas por terras da Gleba Nova Olinda, a bola da vez é a criação do Projeto de Assentamento Estadual Agroextrativista (Peaex), que envolve as comunidades Vista Alegre e Prainha. Os títulos podem ser regularizados em cinco ou 25 mil hectares, em lotes individuais ou coletivos. E, para cada possibilidade, surge uma pressão contrária. É onde ocorrem os maiores achaques, já que a demanda dos boraris está nas mãos da Funai. Em Vista Alegre e Prainha também há divisão. Um lado, liderado por Márcio Crispim, na Prainha, e Sidiclei Fernandes dos Santos, na Vista Alegre, presidentes de associações locais montadas pelos empresários, pede ao Iterpa uma pequena área de cinco mil hectares e lotes individuais, de forma que vão poder seguir vendendo madeira para os empresários. A maioria se mostra contra esse posicionamento, mas não sabe como se manifestar oficialmente. Pedem um assentamento de lote coletivo, com cerca de 25 mil hectares – número próximo ao definido por uma pesquisa realizada pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, e que identifica a área realmente ocupada pelo uso tradicional, incluindo reservas de caça e terras para plantações de mandioca, como entre 15 e 20 mil hectares.

Algumas associações comunitárias, como a Acutarm, estão unidas para a luta por uma terra menor. No dia 18 de junho ocorreu uma reunião com os empresários, os presidentes das associações, equipes do Iterpa e da Sema. “Os funcionários públicos não estavam capacitados juridicamente para a discussão fundiária. Estavam ali apenas para fazer vistorias dos planos de manejo de madeira”, relatou um funcionário do Ministério Público que não quis se identificar. Isso não foi um empecilho, pois a reunião ocorreu, de acordo com um relatório do MP, inclusive com a presença dos madeireiros Rosenil Vaz, Francisco Souza e Alfredo Sippert.

Laurimar dos santos, o guariba, 63 anos, vive na Prainha e mostrou-se revoltado com a situação que está vivendo quando nos encontramos. Simpático, ele afirmou que não gosta de ir à cidade: “Lá nos tratam que nem bicho, nos chamam de índio”. Santos não aceita um terreno de cinco mil hectares para toda sua família e comunidade. “Estão nos espremendo, vamos comer areia”, esbraveja.

Contrário à posição de Santos está o desejo de Márcio Crispim, que me recebeu de uma forma também simpática, ainda que um tanto desconfiada. Crispim é presidente da associação da sua comunidade, mas ele não se lembra do nome. Diz que não precisam dessa terra toda. Sobre a associação que preside (mais tarde descobri que se trata da Ainorma), Crispim afirmou que nunca houve uma reunião ou assembleia, assumiu sem desconforto que é ligado aos madeireiros, e que por isso recebe um salário com carteira assinada. Está certo de estar contribuindo para o desenvolvimento da região. Mas em outra roda de conversa comentaram que ele deseja partir para Manaus com o dinheiro que tem recebido.

Crispim é amigo de Sidiclei, pastor evangélico da Vista Alegre, que por sua vez é amigo de Edward Luz, o antropólogo missionário. Sidiclei também luta para convencer sua comunidade a aceitar um território menor, ajudar os empresários e receber benefícios e investimentos em troca. Só que Sidiclei deu uma derrapada no terreno da ética, logo após o episódio do fogo no Arapiuns. E foi obrigado a retratar-se publicamente de seus atos, acusado de achacar sua própria comunidade. Ele havia escrito uma carta, “impulsionado pela raiva da informação que foi repassada para nós”, em suas palavras, e resolveu escrever outra em seguida, para as autoridades, desmentindo-se da primeira. As duas cartas estão com o Ministério Público do Estado. A primeira é um abaixo-assinado organizado por ele, no qual a comunidade abria mão de 20 mil hectares em favor das empresas madeireiras e do desenvolvimento regional. Mas a história não foi bem assim, segundo Sidiclei. Em 7 de dezembro passado, ele assinou a segunda carta, direcionada ao Iterpa, na qual constava: “A lista foi feita como um abaixo-assinado das pessoas que queriam um gerador e não dos que queriam a ampliação da área da comunidade… quem foi coletar essas assinaturas fui eu… quando conversava com os moradores, explicava que era uma lista para conseguir o gerador”. Resumo: o abaixo-assinado que ele mesmo organizou foi feito para pedir a diminuição de terras, e não para ganhar um gerador elétrico.

Sidiclei abriu para o Iterpa o jogo para reduzir o território comunitário. Mas seguiu lutando ao lado daqueles que ofereciam o gerador em troca de madeira de lei. As doações têm sido feitas, e a comunidade tem se mostrado receptiva com as benfeitorias. De acordo com o que se ouviu numa recente visita do MP à Vista Alegre, disseram que “receberam doações de seu Francisco Souza, ganharam um grupo gerador, fiação elétrica, vão construir um templo”. Eles “preferem ficar com os cinco mil hectares e ter certeza de que terão os empregos com os empresários madeireiros”. A promotora de justiça também os ouviu dizer que “há pessoas empregadas de carteira assinada e que recebem direitinho e que a vida melhorou bastante e acham que pode melhorar ainda mais”.

Desde que a indústria madeireira passou a sofrer com a repressão à extração ilegal, a partir de 2008, o Oeste paraense foi alçado à posição de um dos grandes fornecedores do mercado. No último ano houve um crescimento de 76% das autorizações de manejo florestal, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Operações de fiscalização têm sido realizadas – inclusive, contando com apoio logístico dos madeireiros. Por vezes são distribuídas multas. Os bens apreendidos, como carretas, motosserras, tratores, quando pegos em flagrante, têm sido liberados pela Justiça Federal de Santarém. E, por mais que os fiscais do Ibama percebam que há algo estranho no ar, eles não têm conseguido comprovar. E, em ano eleitoral, um dos setores mais importantes da economia do estado, o setor madeireiro passou a ter ainda mais influência política. “A gente sabe que tem coisa errada, que extraem madeira fora do plano. O problema é que é difícil provar”, afirma um ex-funcionário do Ibama local que também não quer se identificar.

No caso do incêndio das balsas, como nem o IBAMA nem a Sema conseguiam provar as ações ilegais na região, e a demanda fundiária não foi resolvida, surgiu a revolta. Para reagir contra a retirada da madeira e a falta de definição dos títulos de terras, os moradores da Gleba Nova Olinda se juntaram com os ribeirinhos e indígenas do Arapiuns e apreenderam as duas balsas.

Diversas lideranças comunitárias estavam presentes. Agiam de forma coletiva. Mas uma personalidade, já de destaque no movimento social de resistência, foi acusada de ser uma das responsáveis e responde judicialmente pelo ato, junto de um grupo de líderes. É Dadá, do Novo Lugar. “Sou perseguido”, ele diz. Tem sido assim desde que ele fez um curso de agente ambiental do Ibama, em 2003, época em que teria iniciado sua luta política.

Foi nos tempos do Ibama que Dadá, com acesso a relatórios de fiscalização e autorizações de manejo de madeira, descobriu a chegada dos madeireiros na área e passou a organizar a resistência. Com ele estavam Edil e Valnei, líderes de suas respectivas comunidades (Novo Lugar, Cachoeira do Maró e Sociedade dos Parentes). Esses dois tiveram de fugir da região, sob escolta do programa de proteção, para não serem mortos. Dadá ficou: “O que adianta eu ter uma proteção fora, se na aldeia vão ficar meus filhos, minha esposa, minha mãe, meus tios? Se querem me proteger, que seja na minha casa, na aldeia”.

José Heder Benatti, presidente do Iterpa, diz que está informado das negociações por terra que estão ocorrendo sob pressão e achaque. Justifica que o Estado está tomando providências para regularizar a região e consertar os erros anteriores. “As comunidades estão sendo ouvidas, com prioridade, sobre o uso tradicional da terra”, afirma, lembrando que isso não ocorreu quando transferiram os madeireiros.

Se insistirem em trocar um gerador por 20 mil hectares, Benatti diz que o instituto vai negar a titulação. “Essa pressão vai ser inócua”, garante. “A área vai ser formalizada, junto ao Ministério Público, com referência ao estudo do Museu Goeldi. Eles vão ter direito à área que ocupam e usufruem.” Se a programação correr da maneira que ele espera, em três anos o Oeste do Pará, que era uma área esquecida, terá regularizado 1,3 milhão de hectares. No entanto, “período eleitoral não é muito favorável para esse tipo de conversa”, pondera o presidente do Iterpa. Outro problema é que, enquanto isso, a valiosa madeira que pertence em parte às comunidades, e em parte ao patrimônio público, terá sido escoada por mãos privadas.

“Eu tenho medo”, relata a mãe de dadá. Dona Edite assistiu seu filho chegar em casa ferido após o espancamento, a casa dele ser queimada na aldeia, e, neste ano, o outro filho, Poró, também chegar em casa espancado, em maio último. “Dizem por aí que não tem conflito”, ela diz, em alusão a declarações de lideranças de Fé em Deus e Vista Alegre. “Isso é mentira! Aqui tem conflito, e temo por meus filhos. Eu fico muito preocupada. Tem noite que não durmo. Fico tensa quando vão à cidade. Sonho que meu filho pode estar sendo morto”, desabafa a senhora. “Eu tenho muito medo.”

Partido del futuro (LaVanguardia.com)

Su proyecto es cambiar la forma de hacer política mediante democracia directa instrumentada a través de internet

12/01/2013 – 00:00h

Por Manuel Castells

El 8 de enero se anunció en internet la creación del “partido del futuro”, un método experimental para construir una democracia sin intermediarios que sustituya a las actuales instituciones deslegitimadas en la mente de los ciudadanos. La repercusión ciudadana y mediática ha sido considerable. En tan sólo el primer día del lanzamiento, y a pesar de que se colapsó el servidor tras recibir 600 peticiones por segundo, hubo 13.000 seguidores en Twitter, 7.000 en Facebook y 100.000 visitas en YouTube. Medios extranjeros y españoles, incluyendo este diario, se han hecho eco de una conferencia de prensa desde el futuro que anuncia el triunfo electoral de su programa: democracia y punto (http://partidodelfuturo.net).

Señal de que ya no se puede ignorar lo que surge del 15-M. Porque este partido emerge del caldo de cultivo creado por el movimiento aunque en ningún caso pueda asimilarse al mismo. Porque no hay “el movimiento” con estructura organizativa ni representantes, sino personas en movimiento que comparten una denuncia básica de las formas de representación política que han dejado inermes a la gente ante los efectos de una crisis que no han causado pero que sufren cada día. El 15-M es una práctica colectiva e individual cambiante y diversificada, que vive en la red y en las calles, y cuyos componentes toman iniciativas de todo tipo, desde la defensa contra el escándalo de las hipotecas a la propuesta de ley electoral que democratice la política.

Pero hasta ahora, muchas de estas iniciativas parecen abocadas a un callejón sin salida. Por un lado, las encuestas reflejan que una gran mayoría de ciudadanos (en torno a un 70%) están de acuerdo con las críticas del 15-M y con muchas de sus propuestas. Por otro lado, toda esta movilización no se traduce en medidas concretas que alivien a las personas porque hay un bloqueo institucional a la adopción de dichas propuestas. Los dos grandes partidos españoles son corresponsables de la sumisión de la política a los poderes financieros en el tratamiento de la crisis, compartiendo, por ejemplo, la gestión irresponsable de los directivos del Banco de España, con un gobernador socialista, en el caso de Bankia y del sistema de cajas, que ha conducido a la ruina a miles de familias. De ahí que el 15-M se expresó en el espacio público, en acampadas, en manifestaciones, en asambleas de barrio y en acciones puntuales de denuncia. Pero aunque esta intervención es esencial para crear conciencia, se agota en si misma cuando se confronta a una represión policial cada vez más violenta.

Afortunadamente, el 15-M ha frenado cualquier impulso de protesta violenta, jugando de hecho un papel de canalizador pacífico de la rabia popular. El dilema es cómo superar las barreras actuales sin dejar de ser movimiento espontáneo, autoorganizado, con múltiples iniciativas que no son programa y por eso pueden congregar potencialmente al 99% que saben lo que no quieren, es decir lo que hay, y que se acuerdan en buscar en conjunto nuevas vías políticas de gestión de la vida.

Para avanzar en ese sentido, ha surgido una iniciativa espontánea de ir ocupando el único espacio en el que el movimiento apenas esta presente: las instituciones. Pero no en lo inmediato, porque su proyecto no es el de ser una minoría parlamentaria, sino de cambiar la forma de hacer política, mediante democracia directa instrumentada mediante internet, proponiendo referéndums sobre temas clave, coelaborando propuestas legislativas mediante consultas y debates en el espacio público, urbano y cibernético, planteando medidas concretas a debatir entre la ciudadanía y sirviendo a la vez de plataforma para propuestas que salgan de la gente.

En realidad, no es un partido, aunque esté inscrito en el registro de partidos, sino un experimento político, que se va reinventando conforme avanza. En el horizonte sí se vislumbra un momento en que el apoyo de la ciudadanía a votar contra todos los políticos a la vez y en favor de una plataforma electoral que tenga ese solo punto en el programa permita una ocupación legal del Parlamento y el desmantelamiento del sistema tradicional de representación desde dentro del mismo. No es tan descabellado. Es en gran medida lo sucedido en Islandia, referente explícito del partido que nos habla desde el futuro.

Pero ¿cómo evitar reproducir el esquema de partido en el proceso de conquistar la mayoría electoral? Aquí es donde se plantea la decisión, criticada desde la clase política y algunos medios, de las personas que han tomado esta iniciativa de mantenerse en el anonimato. Porque si no hay nombres, no hay líderes, ni cargos, ni comités federales, ni portavoces que dicen hablar por los demás pero que acaban representándose a si mismos. Si no hay rostros, lo que queda son ideas, son prácticas, son iniciativas. De hecho, es la práctica de la máscara como forma de creación de un sujeto colectivo compuesto de miles de individuos enmascarados, como hicieron los zapatistas en su momento, o como hace Anonymous con su famosa máscara reconocible en todo el mundo pero con múltiples portadores. Incluso el anonimato de la protesta se encuentra en nuestros clásicos: “Fuenteovejuna, todos a una”. Tal vez llegue un momento en que las listas electorales requieran nombres, pero incluso entonces no necesariamente serían líderes, porque se pueden sortear los nombres entre miles de personas que estén de acuerdo con una plataforma de ideas. En el fondo, se trata de poner en primer plano la política de las ideas con la que se llenan la boca los políticos mientras se hacen su carrera a codazos entre ellos. La personalización de la política es la mayor lacra del liderazgo a lo largo de la historia, la base de la demagogia, de la dictadura del jefe y de la política del escándalo basada en destruir a personas representativas. La X del partido del futuro no es para esconderse, sino para que su contenido lo vayan rellenando las personas que proyecten en este experimento su sueño personal de un sueño colectivo: democracia y punto. A codefinir.

Leer más: http://www.lavanguardia.com/opinion/articulos/20130112/54361811362/manuel-castells-partido-del-futuro.html#ixzz2Hmhz1wZo

Direitos humanos: um estorvo para as esquerdas? (Le Monde Diplomatique Brasil)

Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos

por Deisy Ventura, Rossana Rocha Reis
07 de Janeiro de 2013

01181761(1)Mãe e filho dormem na rua em São Paulo ao lado do operário que opera britadeira. Renato Stockler/ Reuters

Entre os anos 1960 e 1980, numa América Latina esmagada por regimes ditatoriais, grande parte das esquerdas abraçou o discurso e a pauta dos direitos humanos. Em incontáveis casos, os direitos humanos foram o fulcro de movimentos e ações autoproclamadas esquerdistas. Retomada a democracia, o gozo dos direitos civis e políticos tornou possível que personagens, grupos e partidos identificados com esse campo chegassem ao governo em diversos Estados latino-americanos. Atualmente, o exercício do poder suscita questões sobre a concepção de direitos humanos tanto da esquerda que governacomo da esquerda que defende incondicionalmente esses governos, embora amiúde obnubilada em larguíssimas coalizões.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a interação entre os direitos humanos e a política no Brasil de hoje. As críticas ao governo pautadas pelos direitos humanos têm merecido uma virulenta reação. Pululam as contradições não apenas entre discurso e prática, mas também dentro dos próprios discursos, e entre certas práticas. É como se um projeto de transformação social prescindisse ou, em alguns casos, fosse considerado até mesmo incompatível com a garantia de certos direitos, paulatinamente convertidos em estorvos. Quem cobra do governo federal o respeito aos direitos humanos é acusado de fazer o jogo da oposição, supostamente pondo em risco um “projeto maior”. Argumentos conjunturais como os de que faltam os meios ou o momento não é oportuno para sua efetivação, confundem-se, a cada dia mais, com a minimização da importância dos direitos humanos.

Em resposta a mobilizações como as relacionadas à hidrelétrica de Belo Monte e aos índios Guarani-Kaiowá, entre outros episódios recentes, um número inquietante de autoridades governamentais não tem hesitado em difundir argumentos gravemente equivocados sobre direitos humanos, com efeitos nefastos não apenas sobre a agenda política, mas também sobre a opinião pública. Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos.

Os direitos humanos são burgueses. A relação entre a esquerda e os direitos humanos foi marcada pela interpretação oferecida por Karl Marx, principalmente em Sobre a questão judaica (1843),a propósito dos processos de construção da cidadania moderna. Para Marx, o reconhecimento da igualdade formal (jurídico-política) do indivíduo não é suficiente para a realização do ideal de emancipação humana almejado pelo socialismo. A afirmação de um direito natural tal qual expresso nas Declarações de Direitos Humanos seria, assim, a consagração do homem egoísta e do interesse privado. No entanto, avaliar a conjuntura atual pinçando da obra de Marx apenas sua concepção de direitos humanos, sem levar em conta sua crítica ao direito em geral, à política em si e, sobretudo, à existência do Estado, configura um reducionismo imperdoável, se não uma espécie de marxismo à la carte. Por outro lado, a emancipação humana, tal como imaginada por Marx, depende de mudanças estruturais, certamente inalcançáveis por meio de uma pauta adstrita aos direitos humanos. Contudo, essa constatação não diminui a importância histórica e tangível dos direitos humanos em processos emancipatórios. Se “o homem é um ser que esquece”, como diz um antigo provérbio, é preciso reiterar o que a história recente do Brasil e da América Latina nos ensina: a importância da emancipação civil e política na luta pela transformação da sociedade e da economia. É claro que os direitos humanos não são, nem devem ser, o objetivo final das esquerdas. Entretanto, nenhum sistema político pelo qual vale a pena lutar pode prescindir do respeito à dignidade humana e do feixe de direitos que dela deriva. Ademais, desafiada pela complexidade do presente, a esquerda não pode ser condenada a uma percepção de direitos humanos do século XIX.

Os direitos humanos são uma invenção ocidental, e a política de direitos humanos no plano internacional é uma forma de imperialismo. Embora a perspectiva do respeito à dignidade humana exista em diversas culturas e épocas, é indiscutível que a noção moderna de direitos humanos, base das normas internacionais nessa matéria, tem suas raízes intelectuais no Iluminismo, na Revolução Francesa e na independência norte-americana. Porém, o sentido de um conjunto de ideias não pode ser limitado ao contexto no qual ele foi produzido. Ao longo dos séculos, o conceito da igual dignidade dos indivíduos em liberdades e direitos mobilizou, no mundo inteiro, grupos e agendas muito diversificados. A revolução que levou à independência haitiana, por exemplo, não apenas reproduziu, mas reinterpretou e acrescentou direitos à Carta de Direitos do Homem e do Cidadão. Da mesma maneira, o movimento feminista, execrado pelos revolucionários franceses, valeu-se dos termos da Carta para formular suas demandas; e a Constituição mexicana de 1917 e os movimentos de libertação nacional e de reconhecimento de direitos coletivos apropriaram-se da ideia de direitos humanos e expandiram seu significado. Portanto, sua origem histórica e cultural não deve ser vista como um pecado original, já que não impediu a emergência de direitos que podem fundamentar a própria resistência às diferentes formas de imperialismo.

Incorporar a agenda de direitos humanos na política externa seria fazer o jogo dos Estados Unidos nas relações internacionais. Os Estados Unidos são grandes objetores e violadores do direito internacional. Por exemplo, lutaram contra a aprovação do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional; e, descumprindo promessas, mantêm aberta a base de Guantánamo, em Cuba. A instrumentalização do discurso dos direitos humanos por Washington, uma das marcas da Guerra Fria, confirmou sua atualidade, entre outros, nos casos das intervenções no Iraque e no Afeganistão. Na Líbia, em 2011, “a comunidade internacional” teria recorrido à intervenção militar a fim de “evitar o massacre” da população civil por um cruel ditador, um aliado do Ocidente frescamente descartado. O uso da força foi então autorizado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com base no princípio da “responsabilidade de proteger”. Trata-se de uma nova forma jurídica do antigo direito de ingerência, ampla o suficiente para derrubar o governo da Líbia e omitir-se diante do linchamento de Muamar Kadafi, ao mesmo tempo que dá guarida a graves violações de direitos humanos no Barein, na Síria e no Iêmen. Segundo o presidente Barack Obama, os Estados Unidos devem intervir, coletiva ou unilateralmente, quando seus “interesses e valores” forem ameaçados, sem preocupação com a coerência. O que prevalece é o interesse na preservação das zonas de influência, em detrimento de qualquer concepção de direitos humanos. Logo, para o Brasil, descartar o respeito aos direitos humanos como critério de sua política externa jamais constituiria uma forma de oposição à hegemonia dos Estados Unidos. É preciso opor-se aos atos, não aos pretextos.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) praticou uma ingerência inaceitável nos assuntos internos brasileiros no caso Belo Monte. A oposição à construção da usina é promovida pelos Estados Unidos. O recente ataque do governo federal ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos foi um desserviço às gerações futuras. Não se pode confundir a OEA com a Comissão ou a Corte interamericanas, e ainda menos com os Estados Unidos, que jamais aceitaram a Convenção Americana dos Direitos do Homem. A oposição à hidrelétrica de Belo Monte é legítima e genuinamente brasileira, vinculada à luta histórica pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação do meio ambiente. Ainda que imperfeitos, os mecanismos regionais de proteção aos direitos humanos são uma grande conquista dos povos, salvaguarda indispensável diante do autoritarismo que segue assombrando nosso continente. Os recentes golpes impunes em Honduras e no Paraguai, ambos avalizados pelos Estados Unidos, demonstram que os mecanismos regionais precisam ser valorizados.

Impor condicionalidades em termos de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente nos empréstimos concedidos pelo governo brasileiro a outros países é um tipo insuportável de interferência e uma forma de imperialismo. Na década de 1970, uma importante conquista da sociedade norte-americana foi a exigência de que os países beneficiados por empréstimos respeitassem determinados padrões de cumprimento de direitos humanos. Essa medida teve um impacto importante nas relações entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas, corroendo a sustentação interna da política norte-americana de apoio aos regimes autoritários e impondo constrangimentos ao Executivo. No contexto atual, em que bancos e agências do Estado brasileiro se tornam importantes fontes de financiamento de obras de infraestrutura na América Latina, é importante que os empréstimos concedidos e os acordos de cooperação incorporem a exigência de respeito aos direitos humanos. Longe de ser uma forma de ingerência, trata-se de garantir que o dinheiro dos contribuintes brasileiros não seja utilizado para financiar intervenções que comprometam a dignidade das populações envolvidas. Conceder financiamentos sem compromisso com a promoção de direitos é uma característica fundamental do mercado, não do Estado, necessariamente submetido ao interesse público.

Direitos civis e políticos são de direita, direitos econômicos e sociais são de esquerda. Os direitos humanos são, na verdade, indivisíveis. Longe de ser uma formalidade vazia, a afirmação da indivisibilidade é uma forma de proteção dos indivíduos contra a seletividade dos Estados. A identificação de alguns direitos com a direita e de outros com a esquerda, embora guarde relação com a geopolítica da Guerra Fria, aproxima-se perigosamente da justificativa apresentada pelos generais-presidentes brasileiros aos organismos internacionais, quando interpelados sobre as frequentes violações cometidas em nome da segurança nacional. Para eles, os avanços na área de saneamento básico, habitação e saúde constituíam a política brasileira de direitos humanos, enquanto as denúncias sobre torturas, prisões arbitrárias, assassinatos e desaparecimentos faziam parte de um complô comunista mundial.

O desenvolvimento é mais importante para as pessoas do que o respeito aos direitos humanos. Em um mundo com recursos materiais e humanos limitados, existem muitas escolhas difíceis a fazer. As exigências em relação a um governo vão muito além daquelas colocada pela pauta dos direitos humanos. No atual contexto de crise econômica mundial, com perspectivas de agravamento, o tema do desenvolvimento adquire importância renovada, e é natural que assim seja. Entretanto, o contexto econômico não pode servir de justificativa para o atropelamento de direitos humanos, sob pena de produzir, mais uma vez, um crescimento econômico que não se traduz em uma melhora real e equitativa do panorama social brasileiro. Nós já tivemos, no Brasil, desenvolvimento sem respeito aos direitos humanos. Não foi bom para as esquerdas.

O combate à miséria é a forma mais efetiva de combater a violação dos direitos humanos. O combate à miséria é parte fundamental de uma política de direitos humanos. Mais do que isso, podemos afirmar que, sem uma política de erradicação da miséria, a promoção dos direitos humanos está fadada ao fracasso. No entanto, ela não é suficiente para garantir a observância dos direitos humanos. Infelizmente, o conjunto de desigualdades que afetam a dignidade dos indivíduos em nosso país é muito mais amplo. Iniquidades e discriminações que envolvem questões de gênero, cor, orientação sexual, regionalismo e xenofobia exigem ações específicas. Uma sociedade menos desigual em termos econômicos não é sinônimo de uma sociedade que respeita igualmente os direitos humanos de todos os seus cidadãos. Quando a inclusão social se opera essencialmente pelo aumento do consumo, toda sorte de egoísmo pode ser favorecida.

O respeito aos direitos humanos é uma etapa já conquistada no Brasil. Atualmente, nosso problema seria a falta de meios, não a falta de consenso em relação aos princípios. Esperava-se que os direitos humanos alcançassem lugar de destaque na agenda política pós-redemocratização. Seria o momento de generalizar o acesso a esses direitos (prioridade de investimento em políticas sociais) e de afirmar a cultura dos direitos (os bens da vida não constituem privilégios de alguns, nem assistencialismo). Porém, grande parte da população brasileira acredita piamente que os direitos humanos são o maior obstáculo à sua segurança. A vulnerabilidade fala mais alto do que a cidadania. A erosão da perspectiva dos direitos é evidente em nosso tempo, e não apenas no Brasil. Cresce o respaldo eleitoral de grupos e partidos que militam abertamente contra direitos fundamentais já consagrados por lei. É chocante a maneira leviana com que temas como a tortura, o aborto ou a sexualidade, entre tantos outros, têm sido discutidos nos períodos eleitorais. Cresce também a estapafúrdia naturalização das alianças com esses grupos. É preciso reconhecer que a defesa incondicional dos direitos humanos está ameaçada nas campanhas e nos programas de governos de candidatos das esquerdas, mas, sobretudo, em suas gestões.

Por fim, um projeto de transformação da sociedade brasileira com vista à emancipação humana não pode prescindir da luta pelos direitos humanos. Há valores e parâmetros éticos – como o reconhecimento e o respeito pelas especificidades e pelas diferenças étnicas, de gênero e orientação sexual – que não podem ser negociados ou plebiscitados, seja em nome da democracia, do desenvolvimento ou de um suposto anti-imperialismo. Uma agenda positiva de direitos humanos deve estabelecer mínimos denominadores para a ação política. No momento em que os valores de mercado avançam sobre todos os governos, este talvez seja, ainda que temporariamente, nosso “projeto maior”.

Deisy Ventura
Professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, IRI-USP

Rossana Rocha Reis
Professora do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Devir-pobre, devir-índio (Quadrado dos Loucos)

4 de agosto de 2012

Por Bruno Cava

Em 15 de junho, aconteceu o seminário terraTerra, na Casa de Rui Barbosa, no Rio. Inscrito como evento da Cúpula dos Povos, o encontro de grupos militantes e intelectuais tinha por objetivo aprofundar a crítica ao modelo de desenvolvimento. No contexto da crise socioambiental, aterrar a discussão nas lutas, nas alternativas, nas ocupações e formas de resistir e reexistir. Na ocasião, o cadinho de falas, textos e debates resultou em bons e maus encontros. Uma fratura que repercute a própria atividade prática dos grupos que participavam da dinâmica. Foi a “trama da sapucaia”, para pegar emprestado de um texto de Cléber Lambert. Como toda fratura em ambientes de rico pensamento e debate aberto, tiveram basicamente dois efeitos. Um efeito narcísico, improdutivo, edipiano, neurótico. Quando o desejo volta contra si mesmo como planta venenosa, com piadinhas, pulsões e muito espírito de rebanho, o que acaba por reunir o ressentimento dos súditos em projeto de vingança. Mas também o outro lado, produtivo, prometeico, fabulador. Quando o desejo se liga ao real sem recalques, gera diferenças qualitativas e propicia que se continue pensando e continue lutando. Esses dois efeitos atravessaram as pessoas em várias intensidades e sentidos, nos dois pólos do debate. Eu particularmente prefiro Prometeu a Narciso e não renuncio à agressividade da diferença.

No final do seminário, um dos palestrantes (não lembro exatamente quem), do alto de seu poder de síntese, resumiu as posições. De um lado, aqueles que defendem que “o índio vire pobre”. Do outro, aqueles que defendem que “o pobre vire índio”. Os primeiros representariam o projeto desenvolvimentista. Fazer do índio mais um trabalhador e consumidor do novo Brasil, o país do futuro que chegou. Inclui-lo na sociedade forjada pela modernidade. Uma monocultura inteiramente pautada pelo quantitativo, o extensivo e o pacto diabólico da produção pela produção. Em última instância, aqueles que defendem Dilma (pela via economicista). Os segundos, defensores que “o pobre vire índio”, pensam a cosmologia indígena como alteridade radical à sociedade colonizada. Opõem o intensivo ao extensivo e a qualidade à quantidade. Para eles, a solução está em combater para que o índio não vire pobre, ao mesmo tempo em que os pobres se indianizem, e assim possam vencer a assimetria fundamental de uma antropologia que os assujeita e que se manifesta em todos os lugares e discursos por onde passam. Em vez disso, o pobre é que deve se reconstruir pelo índio. “Todo mundo é índio, menos quem não é” (Eduardo Viveiros de Castro). Disseminar o índio no corpo da população, como na retomada cabocla das terras, ou na campanha indigenista dos zapatistas. Em vez de concretar o Xingu, mostrar que a cidade jamais deixou de ser indígena. Que a floresta como saturação de relações jamais deixou de ser a nossa verdadeira riqueza cultural. Em última instância, aqueles que promovem Marina (por essa via antropológica).

Com o recorte, esse palestrante tentou sintetizar as múltiplas incidências da questão num simples fla-flu. Uma operação legítima do ponto de vista das estratégias político-teóricas envolvidas, mas que terminou por colocar o problema de maneira desfocada e, no fundo, simplória. É que o problema começa no verbo. Nem tanto o pobre virar índio, ou o índio virar pobre, mas pôr em questão o virar mesmo. A questão está no processo de passagem, mais no trânsito que nos pontos de partida e chegada, a imanência da reexistência às transcendências das culturas existentes. O palestrante confundiu o devir com o sujeito. É preciso antes de tudo examinar a travessia, a transformação mesma, que é primeira em relação ao que se transforma. Isto significa assumir uma perspectiva em que as coisas se sustentam instáveis, enquanto cristalizações de processos inacabados e precários; e em que a relação entre as coisas existe como uma relação entre transformações de transformações, relações de relações em ação cruzada. As coisas ficam mais abertas à mudança. E ensejam ser desdobradas em múltiplas perspectivas.

A pobreza, por exemplo, contém um paradoxo. Na mesma medida que é privação, também é potência. Por óbvio, privação e potência não acontecem ao mesmo tempo. Mas o pobre é aquela força que caminha nesse campo instável, onde pode transitar por todo o espectro de grau entre uma e outra. Porque a pobreza tem uma dimensão afirmativa, inventa novos usos, constrói o máximo do mínimo, a favela do lixo, a poesia das expressões doridas e tensionadas das ruas. Gatos nascem livres e pobres e recusam a ser chamados pelo nome. Qualquer prescrição de imobilidade não serve para quem tem de se mover todos os dias para reinventar o mundo, em cuja crise o pobre vive e se relaciona. Devir pobre ativa a potência insofismável dessa classe inscrita como agente de produção do capitalismo.

Por que não se trata tanto de virar isto ou aquilo, mas de devir. Pode ser ridículo eu, homem branco, querer ser negro, mas nada impede aconteça uma negritude em mim. Devir-onça não significa tornar-se uma onça. Nesse sentido, sucedem processos de transformações que podem ser apresados subjetivamente, e o conjunto galgar novos horizontes éticos e políticos. Devir pobre, índio, mulher, criança, planta, mundo. Nos devires, está em jogo a construção de um comum de reexistências e lutas, no interior das culturas e identidades disponíveis. No interior e para além, e mesmo contra. Um comum diferenciante em que as diferentes forças de existir podem se enredar e se maquinar na própria distância entre elas, no dissenso constituinte; sem redução a uma identidade comum,  ao consenso, ao denominador comum, a um “em comum”. É se recompor no amor pelo outro, sem reduzi-lo a si, nem se submeter a ele. Isto é, partilha desmedida de afetos ativos, no bom encontro em que se multiplicam e produzem o real, jamais na subjugação entre seres comensuráveis entre si, na redução ao “consenso mínimo do relacionamento”.

Com essa forma de pôr o problema, é possível se concentrar antes nas estratégias e táticas de ação, nos agenciamentos do desejo, nas formas de criar e se deslocar, — em tudo que isso que favorece uma fuga reexistente das identidades, e assim favorece a diferença por si mesma — do que ficar idealizando e descrevendo outras identidades possíveis, lutando pelas existentes ou combatendo outras que possam vir a existir, como faria um inventariante dos elementos culturais por aí. Posso irromper dentro de mim, — mesmo que eu me constitua de forças majoritárias e dominantes da cultura estabelecida, — irromper o meu avesso, o meu avesso simétrico, o meu índio e o meu subdesenvolvimento, um intensivo pelo qual tudo o que passa resulta diferente. Essa diferença ameaça o poder constituído. Uma força que vem, acontece, e me arrasta pra outro lugar e outro tempo.

O primado da diferença implica que o problema de índio-virar-pobre ou pobre-virar-índio embute uma dicotomia infernal. Já se trata, desde o início, de um falso problema.

Portanto, é preciso recolocar o problema. Preocupar-se em ser pobre ou índio é muito pouco. Faz-se necessário mobilizar os substantivos em verbos, molecularizar os adjetivos em advérbios. O caso não está na transformação de A a B ou de B a A. E sim no diferencial C que faz com que A e B possam coexistir no mesmo plano de composição política. Então é caso do pobre devir índio e o índio devir pobre. E mais. Seguindo a lógica, igualmente sucede um diferencial entre A e A´, e entre B e B´. Ou seja, o pobre devir pobre e o índio devir índio. Se o projeto do novo Brasil consiste em fazer da “Classe C” o modelo de cidadão, trabalhador e consumidor, esta figura antropológica pode devir pobre-potência. O trabalhador recusa o trabalho, o consumidor consome o consumo e o cidadão se revolta. De maneira simétrica, o índio devém índio ao impregnar as forças que o constrangem na maior comunidade de todos os tempos: o mercado capitalista global. Menos para ser reconhecido como indígena do que para indianizar o poder. Institui outras formas de medir, se relacionar e escapar dos aparelhos de captura. Contra Belo Monte, o Xingu em São Paulo.

Muitas vezes, sofisticados esforços de desmontagem da metafísica ocidental perdem de vista o essencial. Todo o esforço por desarranjar a violência e o intolerável, inscritos na estrutura produtiva deste mundo, só é eficaz levado a um sentido material. Isto é, animado pelos processos de transformação e afirmação de diferença já em andamento, pela proliferação de lutas socioambientais que se debatem no dia a dia. A política precede o ser. E política sem transitividade com a crítica do sistema produtivo se torna cega à máquina capitalista, arriscando nivelar-se a uma apologia (embora requintada e elitista) ao que de pior há na modernidade européia: a economia política clássica e neoclássica.

A agressão e destruição dos aparelhos de captura só acontecem quando imediatamente ligadas à montagem de uma máquina revolucionária.

Devo parte do conteúdo deste artigo à palestra proferida por Cléber Lambert no seminário de anteontem à Casa de Rui Barbosa, co-organizado pela Universidade Nômade, bem como ao encontro produtivo entre dois pensadores de primeiro time do Brasil contemporâneo, Eduardo Viveiros de Castro e Giuseppe Cocco.

Blame, Responsibility and Demand for Change Following Floods (Science Daily)

Nov. 25, 2012 — New research shows concerns about governmental failure to act effectively and fairly in the aftermath of extreme weather events can affect the degree to which residents are willing to protect themselves.

Published in the journal Nature Climate Change, the findings of a team led by scientists at the University could prove key to establishing how society should evolve to cope with more turbulent weather and more frequent mega storms.

The team examined attitudes in Cumbria in north west England and Galway in western Ireland, which were both hit by heavy flooding in November 2009. Record rainfall was recorded in both countries, resulting in a number of deaths, properties being severely damaged and economic disruption.

Professor Neil Adger of Geography at the University of Exeter, who led the research, said: “The flooding of 2009 was devastating to both communities. Our study is the first to track the impacts of floods across two countries and how communities and individuals demand change after such events. When people in both studies felt that government had fallen short of their expectations, we found that the resulting perception of helplessness leads to an unwillingness to take personal action to prevent flooding in future.”

Scientists at the University of Exeter worked with colleagues at the National University of Ireland Maynooth and the Tyndall Centre for Climate Change Research at the University of East Anglia, which also provided funding for the study.

Researchers surveyed 356 residents in both areas eight months after the flooding. They measured perceptions of governments’ performances in dealing with the aftermath, as well as perceptions of fairness in that response and the willingness of individuals to take action.

Dr Irene Lorenzoni of the Tyndall Centre comments: “Residents in Galway were significantly more likely to believe that their property would be flooded again than those in Cumbria. Yet it was Cumbrians who believed they had more personal responsibility to adapt to reduce future incidents.

“Whether people felt responses were fair also diverged. In our survey in Cumbria three quarters of respondents agreed that everyone in their community had received prompt help following the flooding, while in Galway it was less than half.”

Dr Conor Murphy of the National University of Ireland, Maynooth said: “The strong perception in Galway that authorities failed to deliver on the expectations of flooded communities in late 2009 is a wakeup call. Given the high exposure of development in flood prone areas it is clear that both England and Ireland need to make major investments in building flood resilience with changing rainfall patterns induced by climate change. Political demand for those investments will only grow.”

Professor Adger says: “Our research shows that climate change is likely to lead to a series of crises which will cause major disruption as instant short-term solutions are sought. We need to consider the implicit contract between citizens and government agencies when planning for floods, to enable fairer and smoother processes of adaptation.”

Journal Reference:

  1. W. Neil Adger, Tara Quinn, Irene Lorenzoni, Conor Murphy, John Sweeney. Changing social contracts in climate-change adaptationNature Climate Change, 2012; DOI:10.1038/nclimate1751

A luta pela sobrevivência dos Guaranis-Kaiowás (BBC Brasil)

Mônica Vasconcelos – Da BBC Brasil em Londres

12 de dezembro, 2012 – 09:58 (Brasília) 11:58 GMT

Uma série de fotos feitas pela fotógrafa paulistana Rosa Gauditano mostra a luta pela sobrevivência de índios Guarani-Kaiowá na beira das estradas de Mato Grosso do Sul.

Há hoje mais de 30 acampamentos indígenas nas rodovias do Estado, habitados, em grande parte, por Kaiowás.

“Fazem isso por desespero, mas também como uma forma de protesto”, disse a fotógrafa.

“Eu fotografo povos indígenas há 20 anos e nunca havia visto situação de penúria tão grande. O que está acontecendo no Brasil é um genocídio silencioso”.

“Em algum momento, os índios, os fazendeiros, o governo e a sociedade brasileira como um todo terão de chegar a um consenso e resolver a situação desse povo. São 43 mil pessoas que precisam de sua terra para viver com dignidade”.

“E se a solução é indenizar os fazendeiros que geram riqueza para o Brasil e que adquiriram a terra por meios legais, que seja”.

Nas imagens, feitas ao longo dos últimos três anos, o povo da segunda maior etnia indígena brasileira também é visto acampado provisoriamente em fazendas onde há disputa pela propriedade da terra ou vivendo em reservas demarcadas – às vezes, à custa de sangue derramado.

Gauditano começou a fotografar povos indígenas no Brasil em 1991. Desde então, vem documentando a cultura de diversas etnias indígenas, publicando livros e realizando exposições sobre o tema, no Brasil e no exterior (ela expôs seu trabalho no centro cultural South Bank, em Londres, Grã-Bretanha, em 2010).

Ao lado de representantes da etnia Xavante, Gauditano é também co-fundadora da ONG Nossa Tribo, que tenta ampliar a comunicação entre povos indígenas e o resto da população.

Suicídios

Segundo dados do último censo, há hoje 896,9 mil índios no Brasil. Os cerca de 43 mil Kaiowás são naturais da região onde hoje ficam o Estado de Mato Grosso do Sul e o Paraguai.

Em outubro, o caso de uma comunidade dessa tribo, acampada na fazenda Cambará, no município de Iguatemi, MS, causou comoção no Brasil.

Após uma ordem de despejo emitida pela Justiça Federal, os 170 índios do acampamento, em um local conhecido como Pyelito Kue, escreveram uma carta que dizia: “Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui”.

A carta, divulgada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) foi interpretada como uma ameaça de suicídio coletivo. Ela circulou pelas redes sociais e deu origem a uma grande campanha em defesa dos índios, com protestos em vários pontos do país.

Como resultado, um tribunal decidiu pela permanência dos índios no local. Mas a situação do grupo ainda não está regularizada.

Em entrevista à BBC Brasil, Rosa Gauditano explicou por que a carta da comunidade de Pyelito Kue foi interpretada como uma ameaça de suicídio.

“Isso foi mal interpretado, por causa do histórico de mortes por suicídio entre os Kaiowás”, explicou. “Não disseram que iam fazer um suicídio coletivo. A intenção era dizer ao governo federal que dali só sairiam mortos”.

O índice de suicídios entre os Kaiowás começou a crescer a partir da década de 80, quando mais e mais fazendeiros passaram a adquirir terras na região do Mato Grosso do Sul, ou receberam concessões de terras do governo. Desde então, a região se dedica à produção intensiva de soja, milho, cana de açúcar e gado.

Removidos da terra, os Guaranis-Kaiowás – que ocupavam tradicionalmente a vasta região – começaram a ser levados para reservas demarcadas pelas autoridades.

“Essas reservas hoje têm uma população muito grande e as pessoas não conseguem viver ali do modo tradicional, não conseguem plantar ou caçar”, disse a fotógrafa.

Segundo o antropólogo do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo Spensy Pimentel, que estuda a etnia Guarani-Kaiowá e trabalha com Gauditano, há 42 mil hectares de terras demarcadas pelo governo no Estado. “Essas são as áreas efetivamente disponíveis”, disse Pimentel à BBC Brasil. “Há mais uns 50 mil hectares demarcados, mas tudo embargado pela Justiça”.

À primeira vista, o território disponível parece grande. Mas se fosse dividido entre a população Kaiowá, cada índio receberia pouco menos do que um hectare de terra – 10.000 m2 (100m x 100m). Ali, ele teria de viver e dali tirar seu sustento – algo impossível para qualquer agricultor.

Pimentel lembrou, no entanto, que esse tipo de cálculo usa critérios que não se aplicam à cultura indígena. “A Constituição brasileira assegura aos índios o direito às suas terras tradicionalmente ocupadas segundo seus próprios critérios”.

Espremidos em reservas superpovoadas, os índios vivem sob estresse físico e mental. O alcoolismo e o uso de drogas são comuns.

Segundo o Ministério da Saúde, de 2000 a 2011 houve 555 suicídios de índios, a maioria Guaranis-Kaiowás. E o Estado de Mato Grosso do Sul é o campeão em número de suicídios no Brasil.

Esse comportamento não é parte da “tradição” da etnia, explicou o antropólogo.

“Os indígenas mais velhos são unânimes em afirmar que, por mais que possam entender a decisão de uma pessoa que toma essa opção, eles não viram mais que um ou dois casos de suicídios antes dos anos 80”, disse. “Nesse sentido, os suicídios não podem ser vistos fora do contexto do confinamento dos Guarani-Kaiowá que foi produzido pelo Estado brasileiro. Foi dentro das reservas superlotadas e diante da falta de perspectiva de vida para os jovens que os suicídios se transformaram em uma epidemia”.

Beira de Estrada

Outra resposta para essa situação de estresse intolerável – explicou Gauditano – foi abandonar as reservas e ir para a estrada.

Fotógrafa experiente, Gauditano se confessou chocada ao se deparar com os acampamentos nas estradas que cercam a cidade de Dourados, um dos polos econômicos do Estado de Mato Grosso do Sul.

“As famílias vão para as estradas, fazem acampamentos em um espaço de 30 m que fica entre a cerca da fazenda e a beira da estrada. Ficam vivendo ali durante anos. Às vezes, se mudam de um ponto para outro se são pressionados. Não têm água potável nem banheiro, não podem fazer uma roça, não têm comida, escola, nada. E fazem as casas com plástico preto. A temperatura dentro dessas cabanas chega a 50 graus durante o dia, não dá pra ficar ali dentro”.

“Crianças, velhos, famílias inteiras ficam acampadas na beira da estrada. É um desespero. E há muitos atropelamentos, porque aquilo é um corredor de auto-estrada, onde passam ônibus, caminhões, carros”.

Uma das fotos mostra a situação dentro de uma cabana à beira da estrada. Quando chove, a água alaga as cabanas, explicou a fotógrafa.

“Uma vez, choveu muito e eles passaram quatro meses com 50 cm de água dentro das cabanas”.

“O que você vê na foto é barro. A cama está suspensa porque tem barro dentro da cabana, então eles puseram pedras para poderem andar ali dentro. Se você pisa entre as pedras, seu pé afunda”.

“É como um lodo, tem até um sapo ali. Eu fiz a foto e na hora não vi, porque não tinha janela”.

Violência

A fotógrafa disse ter ficado marcada pelo olhar dos índios.

“O olhar. As pessoas têm um olhar tão triste que você fica incomodado. Bebezinhos, crianças e velhos te olham e parece que estão olhando para o nada.”

O que as fotos de Gauditano não mostram, no entanto, é a violência que permeia as vidas do povo Guarani-Kaiowá.

“Gerações de líderes são assassinadas e você não acha os corpos. Há uma violência latente, muito grande, por baixo do pano.”

Esperança

Em meio ao sofrimento que observou em suas expedições ao MS para fotografar os Guaranis-Kaiowás, Gauditano disse também ter encontrado serenidade e leveza.

Na aldeia Guaiviry, no município de Aral Moreira, a fotógrafa registrou imagens de crianças que cantavam e dançavam.

“A cena me passa esperança. O que segura o povo indígena é sua história, sua língua, sua religião e seus rituais”, disse. “E criança sempre tem um bom astral. Sentem a barra pesada, mas estão sempre brincando e pulando”.

O ano passado deve ter sido traumático para as crianças de Guaiviry. O cacique da tribo, Nísio Gomes, foi assassinado em novembro de 2011.

A terra da comunidade foi demarcada, mas a demarcação foi contestada e o caso está sendo julgado pela Justiça.

Em outra cena de aparente tranquilidade, uma Guarani-Kaiowá é vista rodeada de porquinhos.

Mas a relativa paz e contentamento em que vivem a índia e sua família, em uma pequena reserva demarcada – a aldeia de Piracuá, no município de Bela Vista -, tiveram um custo alto. Em 1983, um líder indígena que vivia na região, Marçal de Souza, também foi assassinado.

“Hoje, as famílias vivem bem ali, com sua terra, podendo fazer pequenas plantações de subsistência. Tem escola, assistência do governo, uma mata nativa”, explicou Gauditano.

‘Comunicação é Poder’

Mas se por um lado os Kaiowás anseiam por viver em paz em seus territórios – e eles entendem que as reservas ocuparão apenas uma parte da terra que um dia foi deles -, a comunidade também abraça a modernidade, disse Gauditano.

“A tecnologia é muito importante para os índios hoje, principalmente o video, os celulares e a internet”.

Segundo a fotógrafa, esses recursos permitem a comunicação não apenas dentro das próprias comunidades, mas entre as comunidades e o mundo lá fora.

“A tecnologia e as mídias sociais tiveram um papel fundamental na divulgação do drama dos Kaiowás despejados da aldeia em Pyelito Kue.”

“Nunca vi uma mobilização tão grande da população brasileira em defesa de uma comunidade indígena como a que aconteceu em outubro”, disse Gauditano.

“Isso me fez perceber o potencial imenso de mídias sociais, como o Facebook, para a causa indígena. Realmente, comunicação é poder!”.

Um dos acampamentos fotografados por Rosa Gauditano, o Laranjeira, ficava na BR 163, nas imediações de Dourados, MS. Desde que as fotos foram feitas – em 2010 – os índios conseguiram as terras que reivindicavam, no município de Rio Brilhante. Entraram nas terras, mas ainda vivem em situação provisória, aguardando que a Fundação Nacional do Índio (Funai) identifique formalmente as terras – processo burocrático demorado, feito com base em pareceres de antropólogos.

Guarani Kaiowá março 2010

Guerreiro Guarani Kaiowá recebe representantes da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no antigo acampamento Laranjeira, na BR 163. O grupo ainda vive em situação provisória, aguardando que a Funai identifique formalmente sua terra. Foto: Rosa Gauditano/Studio R

Índios Guarani Kaiowá

O Kaiowá mostra para a câmera uma espiga de milho tradicional, de uma variedade que vem sendo cultivada pela tribo há séculos. ‘Ele não queria ser fotografado. A tristeza no olhar dele e a pobreza da comunidade são evidentes’, comenta Gauditano. Em outubro de 2012, uma comunidade Kaiowá escreveu uma polêmica carta, interpretada por alguns como uma ameaça de suicídio coletivo. O resultado foi uma grande campanha em defesa dos índios, com protestos em vários pontos do país. Foto: Rosa Gauditano/Studio R

Ver todas as fotos aqui.

Watch your tongue: Prejudiced comments illegal in Brazil (The Christian Science Monitor)

Brazilian lawmakers and law enforcement have drawn the line on free speech when it comes to racial, religious, or ethnic agitation – even though it is a constitutional right.

Temp Headline ImagePeople leave work at the end of the day in Centro, the business district in Rio de Janeiro, in this September 18 file photo. Brazilian lawmakers and law enforcement have drawn the line on free speech when it comes to racial, religious, or ethnic agitation. (Melanie Stetson Freeman/The Christian Science Monitor/File)

By Taylor Barnes, Correspondent.

Posted December 4, 2012 at 11:11 am EST

RIO DE JANEIROIn an amateur online video, Afonso Henrique Alves Lobato describes how he and fellow members of his Evangelical church snuck into a spiritual center of Umbanda, an Afro-Brazilian faith that venerates deities originating from Africa in services led by a religious figure called a pai de santo.

“I saw a pai de santo, gay, of course, because every pai de santo is homosexual,” the young Mr. Lobato said. “As everyone knows, a [Umbanda] spiritual center is a place where the devil is called upon.”

Brazilian authorities had no tolerance for his remarks. Lobato and his pastor, Tupirani da Hora Lores, who reportedly posted disparaging remarks about other religions online, were swiftly jailed and charged with a crime: religious intolerance.

These men were the first to be jailed for such a crime in Brazil when authorities detained them pre-trial. In July the pair was found guilty and given a sentence of community service and a fine.

“No one should imagine that these religious men are being unfairly punished,” Rio’s prominent crime columnist, Jorge Antonio Barros, wrote in the national O Globo newspaper. “Nobody has the right to disrespect someone else’s religious practices, all the less so in the name of God.”

This kind of ruling may seem entirely foreign to a US audience, used to vigorous freedom of speech protection. But in Brazil, this type of ruling is the norm – especially as social media opens up a new, visible outlet for offensive comments.

Brazil’s diverse ethnic and religious makeup is often compared with that of the United States, and tensions run high. It has a legacy of slavery, a marginalized indigenous population, large immigrant clusters, and a majority Christian population that clashes with Afro-Brazilian religions. But Brazil’s approach to “hate speech” is starkly different than that of the US. From arresting an Argentine soccer player for racist shouts during a game, prosecuting a columnist in the Amazon for writing that government officials “could not stand the odor exhaled by Indians,” and ordering YouTube to remove the infamous “Innocence of Muslims” video due to its potential to incite intolerance – prejudiced comments are simply illegal in Brazil.

Despite a constitutional principle of freedom of expression, Brazilian lawmakers and law enforcement have drawn the line when it comes to agitating racial, religious, or ethnic tensions. And though the legislation is widely accepted as legitimate, even advocates of criminalizing intolerance say the best the law can do is make an offender hold his or her tongue, rather than change the racial and religious tensions that still run deep in Brazilian society.

‘Human dignity’

There are two types of offenses in Brazil when it comes to hate speech. Both are punishable by prison time under the 1990 law, which was passed after two decades of military dictatorship but is increasingly visible today. One has to do with insults directed at a specific person based on their race, ethnicity, religion, or nationality. The second is the expression and encouragement of prejudice toward the same groups in general, as was the case of the Evangelicals.

Supporters say that violent hate crimes are a reality in Brazil and that human dignity is as important a principle as freedom of speech. There’s currently a push to include the protection of sexual orientation under the law as well. In April, a gay couple was found tortured and killed inside their home in the state of Alagoas, and 226 gays, lesbians, and transvestites were killed in 2011 alone.

‘A pedagogical effect’ 

In Brazil, freedom of speech “doesn’t mean someone can use that right to impinge on someone else[‘s] rights, like the right to human dignity,” says Henrique Mariano, the president of the Brazilian Bar Association in the northeastern state of Pernambuco.

In 2010 the Pernambuco Bar Association sued law student Mayara Petruso in São Paulo for racist comments on Twitter. She was the first Brazilian to be found guilty of racism expressed over social media when convicted this May. After the election of President Dilma Rousseff in 2010, a wave of anti-northeastern comments struck social networks from opponents who accused the candidate of winning by giving handouts to the poor, especially in Brazil’s economically depressed northeast.

“Give the right to vote to northeasterners and you drown the country of those who worked to support the bums who have a kid so they can get a check,” Ms. Petruso tweeted, in addition to sending messages saying residents of the wealthy state of São Paulo should “drown” a northeasterner.

“I think this sentence has a pedagogical effect,” says Mr. Mariano, who says the case of Petruso – whose prison sentence was converted to community service because she was a first-time offender – was used as an example to emphasize that hate speech on social media can be prosecuted.

“When people see this punishment, this can restrain themselves or in the future prevent others from doing something similar.”

Petruso’s case made national headlines as she went to trial, where she did not deny having sent the tweets. She defended herself in court by saying she was not prejudiced and comparing her remarks to a heated outburst during a soccer game: “My candidate was José Serra [Rousseff’s opponent], it was something in the moment, like in a soccer game between two teams when a player yells: ‘I’m going to kill [São Paulo club] Corinthians!”

‘Disqualifies’ Brazilian democracy?

Daniel Silva, a linguistics professor at the Federal University of Rio de Janeiro, says that Brazilians largely do not protest or question the laws against prejudice and that, rather than claiming free speech, defendants typically try to reconstruct their comments as a joke or say they were misunderstood.

But Ricardo Noblat, a popular political columnist who describes himself as a member of the left, warns about the zeal to apply a law that restricts free speech in the name of human dignity but in practice is used to target so-called conservative standpoints.

In a column headlined “The fascism of the well intentioned,” Mr. Noblat defended ultra-conservative Congressman Jair Bolsonaro, who routinely speaks out on culture war issues such as abortion rights and a proposed “gay kit” that would be distributed in public schools to counter homophobic attitudes. Noblat noted that former President Luiz Inácio Lula da Silva famously said that the global financial crisis had been caused by “blonde people with blue eyes” without an outcry of racism over his comments.

“I think this [curbing of free speech] disqualifies the Brazilian democracy,” Noblat says. He adds that after a two-decade military dictatorship, which ended in 1985, Brazil does not have a deeply rooted culture of Democracy. Freedom of speech, Noblat says, “only worries a small part of society.”

“The justice system itself takes this position, that freedom of expression is less important than certain other things, like the repression and punishment of opinions that injure certain values,” he says.  

While US courts and officials routinely uphold Americans’ rights to offensive speech, as in the case of the Koran-burning pastor Terry Jones, linguistics professor Silva notes that each society finds its own limits on free speech. He gives the example of the US military investigating a WikiLeaks sympathizer for the crime of “communication with the enemy.”

“The fact that here in Brazil there is this law, it doesn’t mean that people will be any less racist,” says Mr. Silva. “They will at least know that they will be accountable for what they say. In these very fragile racial relations, at least people know that they have rights [to dignity]”

Doubling Down on Climate Change Denial (Slate)

By Phil Plait

Posted Monday, Dec. 3, 2012, at 8:00 AM ET

Graphic of Earth on fireOh, those wacky professional climate change deniers! Once again, they’ve banded together a passel of people, 90 percent of whom aren’t even climatologists, and had them sign a nearly fact-free opinion piece in the Financial Post, claiming global warming isn’t real. It’s an astonishing example of nonsense so ridiculous I would run out of synonyms for “bilge” before adequately describing it.

The Op-Ed is directed to U.N. Secretary General Ban Ki-Moon, who has recently, and thankfully, been vocal about the looming environmental catastrophe of global warming. The deniers’ letter takes him to task for this, but doesn’t come within a glancing blow of reality.

The letter itself is based on a single claim. So let’s be clear: If that claim is wrong, so is the rest of the letter.

Guess what? That claim is wrong. So blatantly wrong, in fact, it’s hard to imagine anyone could write it with a straight face. It says:

“The U.K. Met Office recently released data showing that there has been no statistically significant global warming for almost 16 years.”

This is simply, completely, and utterly false. The Met Office is the national weather service for the United Kingdom. In October 2012, they updated their database of global surface temperature measurements, a compendium of temperatures taken over time by weather stations around the planet. David Rose, a climate change denier who can charitably be said to have trouble with facts, cherry-picked this dataset and published a horrendously misleading graph in that bastion of scientific thought, the Daily Mail, saying the measurements show there’s been no global warming for the past 16 years.

But he did this by choosing a starting point on his graph that gave the result he wanted, a graph that looks like there’s been no warming since 1997. But if you show the data properly, you see there has been warming:

Graph showing how the Earth is warming up.Global surface temperatures from the Met Office data. Top: Fiction. Bottom: Fact.

Image credit: David Rose/Daily Mail (top), Tamino (bottom).

The top graph is from Rose’s article, but the bottom graph shows what happens when you display the data going back a few more years. See the difference? What he did is like measuring how tall you are when you’re 25, doing it again when you’re 30, then claiming human beings never grow. That’s a big no-no in science. You have to choose starting and ending points that fairly represent the data, as in the bottom graph. When you do, you very clearly see the trend that the Earth is getting warmer. In fact, hammering home how patently ridiculous this claims is, nine of the 10 hottest years on record have been since 2000. On top of that, Rose was using global surface temperatures, which don’t really represent global overall heat content well; most of the heating is going into ocean waters. So the data he’s displaying so awfully isn’t even the right data to make his claim anyway!

So the very first basis of this denial letter is total garbage, and was such an egregious manipulation of the U.K. Met Office data that the Met Office itself issued a debunking of it! Yet here were are, months later, with the deniers still ignoring facts.

The letter is chock full of more such falsehoods. If you want the rundown, please go readthe great article on Skeptical Science destroying this nonsense. Full disclosure: I had already written quite a bit more for this post before seeing the one at Skeptical Science, and decided it would be better to send readers there for more rather than debunk all the wrongness here. I’m pleased to note they found the same examples of misleading or outright false statements in the deniers’ article and debunked them the same way I had.

I do want to add something, though. I’ll note that it seems superficially impressive that they got 125 scientists, “qualified in climate-related matters” as they claim, to sign this letter.

Yeah, about that…

First, not everyone signing that letter is a scientist. Lord Monckton, for example, apparently has no formal scientific training, has some trouble with the truth, and oh, by the way, claims Obama’s birth certificate is a forgery. He’s the last guy I’d want signing a letter I was on. Yet he seems to pop up on every denialist list as a go-to guy.

Here’s another: The very first signatory, Hhabibullo Abdusamatov, claims that global warming is caused by the Sun, which is patently and provably false (see that Skeptical Science link for more). Many of the claims Abdusamatov makes (as listed on his Wikipedia page) are, um, not accepted by mainstream science, to be very charitable.

Going down the list of signatories I was struck by how many are not, in fact, climate scientists (again, for examples with references, see Skeptical Science); I counted a dozen who actually have climatology in their listed credentials. It’s kinda weird to write such a big letter and then only have fewer than 10 percent of the signers actually be credentialed in the field.

Of course, I’m not a climatologist either, though I am an astronomer classically trained in science, and that means I know enough to rely on the combined research of actual climate scientists from around the world. And when thousands upon thousands of such scientists— in fact, 98 percent of actual, bona fide climate scientists—say global warming is real, well then, that strikes me as being somewhat more credible than a hundred or so politically and ideologically driven non-climate-scientists.

I’ll note this isn’t the first time a laughably-wrong article has been printed by right-leaning venues and signed by multiple, similarly-inappropriate authors. The Wall Street Journalposted one in January 2012 (while turning down an article supporting the reality of global warming signed by 255 actual scientists), and in April 2012, another made the roundsthat was signed by 49 people, including some ex-NASA astronauts, but again, none who actually were climate scientists.

So we can expect to see more of this. Clearly, when you don’t have facts to support your claims, the best thing to do is make as much noise as possible to distract from reality. And that reality is that the world is getting hotter, and unless we do something, now, we’re facing a world of trouble.

Current scientific knowledge does not substantiate Ban Ki-Moon assertions on weather and climate, say 125-plus scientists (Financial Post) + EANTH list reactions

OPEN CLIMATE LETTER TO UN SECRETARY-GENERAL: Current scientific knowledge does not substantiate Ban Ki-Moon assertions on weather and climate, say 125-plus scientists.

Special to Financial Post | Nov 29, 2012 8:36 PM ET | Last Updated:Nov 30, 2012 12:11 PM ET

Getty – UN Secretary-General Ban Ki-Moon

Policy actions that aim to reduce CO2 emissions are unlikely to influence future climate. Policies need to focus on preparation for, and adaptation to, all dangerous climatic events, however caused


Open Letter to the Secretary-General of the United Nations

H.E. Ban Ki-Moon, Secretary-General, United Nations. First Avenue and East 44th Street, New York, New York, U.S.A.

November 29, 2012

Mr. Secretary-General:

On November 9 this year you told the General Assembly: “Extreme weather due to climate change is the new normal … Our challenge remains, clear and urgent: to reduce greenhouse gas emissions, to strengthen adaptation to … even larger climate shocks … and to reach a legally binding climate agreement by 2015 … This should be one of the main lessons of Hurricane Sandy.”

On November 13 you said at Yale: “The science is clear; we should waste no more time on that debate.”

The following day, in Al Gore’s “Dirty Weather” Webcast, you spoke of “more severe storms, harsher droughts, greater floods”, concluding: “Two weeks ago, Hurricane Sandy struck the eastern seaboard of the United States. A nation saw the reality of climate change. The recovery will cost tens of billions of dollars. The cost of inaction will be even higher. We must reduce our dependence on carbon emissions.”

We the undersigned, qualified in climate-related matters, wish to state that current scientific knowledge does not substantiate your assertions.

The U.K. Met Office recently released data showing that there has been no statistically significant global warming for almost 16 years. During this period, according to the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), carbon dioxide (CO2) concentrations rose by nearly 9% to now constitute 0.039% of the atmosphere. Global warming that has not occurred cannot have caused the extreme weather of the past few years. Whether, when and how atmospheric warming will resume is unknown. The science is unclear. Some scientists point out that near-term natural cooling, linked to variations in solar output, is also a distinct possibility.

The “even larger climate shocks” you have mentioned would be worse if the world cooled than if it warmed. Climate changes naturally all the time, sometimes dramatically. The hypothesis that our emissions of CO2 have caused, or will cause, dangerous warming is not supported by the evidence.

The incidence and severity of extreme weather has not increased. There is little evidence that dangerous weather-related events will occur more often in the future. The U.N.’s own Intergovernmental Panel on Climate Change says in its Special Report on Extreme Weather (2012) that there is “an absence of an attributable climate change signal” in trends in extreme weather losses to date. The funds currently dedicated to trying to stop extreme weather should therefore be diverted to strengthening our infrastructure so as to be able to withstand these inevitable, natural events, and to helping communities rebuild after natural catastrophes such as tropical storm Sandy.

There is no sound reason for the costly, restrictive public policy decisions proposed at the U.N. climate conference in Qatar. Rigorous analysis of unbiased observational data does not support the projections of future global warming predicted by computer models now proven to exaggerate warming and its effects.

The NOAA “State of the Climate in 2008” report asserted that 15 years or more without any statistically-significant warming would indicate a discrepancy between observation and prediction. Sixteen years without warming have therefore now proven that the models are wrong by their creators’ own criterion.

Based upon these considerations, we ask that you desist from exploiting the misery of the families of those who lost their lives or properties in tropical storm Sandy by making unsupportable claims that human influences caused that storm. They did not. We also ask that you acknowledge that policy actions by the U.N., or by the signatory nations to the UNFCCC, that aim to reduce CO2 emissions are unlikely to exercise any significant influence on future climate. Climate policies therefore need to focus on preparation for, and adaptation to, all dangerous climatic events however caused.

Signed by:

  1. Habibullo I. Abdussamatov, Dr. Sci., mathematician and astrophysicist, Head of the Selenometria project on the Russian segment of the ISS, Head of Space Research of the Sun Sector at the Pulkovo Observatory of the Russian Academy of Sciences, St. Petersburg, Russia
  2. Syun-Ichi Akasofu, PhD, Professor of Physics, Emeritus and Founding Director, International Arctic Research Center of the University of Alaska, Fairbanks, Alaska, U.S.A.
  3. Bjarne Andresen, Dr. Scient., physicist, published and presents on the impossibility of a “global temperature”, Professor, Niels Bohr Institute (physics (thermodynamics) and chemistry), University of Copenhagen, Copenhagen, Denmark
  4. J. Scott Armstrong, PhD, Professor of Marketing, The Wharton School, University of Pennsylvania, Founder of the International Journal of Forecasting, focus on analyzing climate forecasts, Philadelphia, Pennsylvania, U.S.A.
  5. Timothy F. Ball, PhD, environmental consultant and former climatology professor, University of Winnipeg, Winnipeg, Manitoba, Canada
  6. James R. Barrante, Ph.D. (chemistry, Harvard University), Emeritus Professor of Physical Chemistry, Southern Connecticut State University, focus on studying the greenhouse gas behavior of CO2, Cheshire, Connecticut, U.S.A.
  7. Colin Barton, B.Sc., PhD (Earth Science, Birmingham, U.K.), FInstEng Aus Principal research scientist (ret.), Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), Melbourne, Victoria, Australia
  8. Joe Bastardi, BSc, (Meteorology, Pennsylvania State), meteorologist, State College, Pennsylvania, U.S.A.
  9. Franco Battaglia, PhD (Chemical Physics), Professor of Physics and Environmental Chemistry, University of Modena, Italy
  10. Richard Becherer, BS (Physics, Boston College), MS (Physics, University of Illinois), PhD (Optics, University of Rochester), former Member of the Technical Staff – MIT Lincoln Laboratory, former Adjunct Professor – University of Connecticut, Areas of Specialization: optical radiation physics, coauthor – standard reference book Optical Radiation Measurements: Radiometry, Millis, MA, U.S.A.
  11. Edwin X. Berry, PhD (Atmospheric Physics, Nevada), MA (Physics, Dartmouth), BS (Engineering, Caltech), Certified Consulting Meteorologist, President, Climate Physics LLC, Bigfork, MT, U.S.A.
  12. Ian Bock, BSc, PhD, DSc, Biological sciences (retired), Ringkobing, Denmark
  13. Ahmed Boucenna, PhD, Professor of Physics (strong climate focus), Physics Department, Faculty of Science, Ferhat Abbas University, Setif, Algéria
  14. Antonio Brambati, PhD, Emeritus Professor (sedimentology), Department of Geological, Environmental and Marine Sciences (DiSGAM), University of Trieste (specialization: climate change as determined by Antarctic marine sediments), Trieste, Italy
  15. Stephen C. Brown, PhD (Environmental Science, State University of New York), District Agriculture Agent, Assistant Professor, University of Alaska Fairbanks, Ground Penetrating Radar Glacier research, Palmer, Alaska, U.S.A.
  16. Mark Lawrence Campbell, PhD (chemical physics; gas-phase kinetic research involving greenhouse gases (nitrous oxide, carbon dioxide)), Professor, United States Naval Academy, Annapolis, Maryland, U.S.A.
  17. Rudy Candler, PhD (Soil Chemistry, University of Alaska Fairbanks (UAF)), former agricultural laboratory manager, School of Agriculture and Land Resources Management, UAF, co-authored papers regarding humic substances and potential CO2 production in the Arctic due to decomposition, Union, Oregon, U.S.A.
  18. Alan Carlin, B.S. (California Institute of Technology), PhD (economics, Massachusetts Institute of Technology), retired senior analyst and manager, U.S. Environmental Protection Agency, Washington, DC, former Chairman of the Angeles Chapter of the Sierra Club (recipient of the Chapter’s Weldon Heald award for conservation work), U.S.A.
  19. Dan Carruthers, M.Sc., Arctic Animal Behavioural Ecologist, wildlife biology consultant specializing in animal ecology in Arctic and Subarctic regions, Turner Valley, Alberta, Canada
  20. Robert M. Carter, PhD, Professor, Marine Geophysical Laboratory, James Cook University, Townsville, Australia
  21. Uberto Crescenti, PhD, Full Professor of Applied Geology, Università G. d’Annunzio, Past President Società Geologica taliana, Chieti, Italy
  22. Arthur Chadwick, PhD (Molecular Biology), Research Professor of Geology, Department of Biology and Geology, Southwestern Adventist University, Climate Specialties: dendrochronology (determination of past climate states by tree ring analysis), palynology (same but using pollen as a climate proxy), paleobotany and botany; Keene, Texas, U.S.A.
  23. George V. Chilingar, PhD, Professor, Department of Civil and Environmental Engineering of Engineering (CO2/temp. focused research), University of Southern California, Los Angeles, California, U.S.A.
  24. Ian D. Clark, PhD, Professor (isotope hydrogeology and paleoclimatology), Dept. of Earth Sciences, University of Ottawa, Ottawa, Ontario, Canada
  25. Cornelia Codreanova, Diploma in Geography, Researcher (Areas of Specialization: formation of glacial lakes) at Liberec University, Czech Republic, Zwenkau, Germany
  26. Michael Coffman, PhD (Ecosystems Analysis and Climate Influences, University of Idaho), CEO of Sovereignty International, President of Environmental Perspectives, Inc., Bangor, Maine, U.S.A.
  27. Piers Corbyn, ARCS, MSc (Physics, Imperial College London)), FRAS, FRMetS, astrophysicist (Queen Mary College, London), consultant, founder WeatherAction long range weather and climate forecasters, American Thinker Climate Forecaster of The Year 2010, London, United Kingdom
  28. Richard S. Courtney, PhD, energy and environmental consultant, IPCC expert reviewer, Falmouth, Cornwall, United Kingdom
  29. Roger W. Cohen, B.S., M.S., PhD Physics, MIT and Rutgers University, Fellow, American Physical Society, initiated and managed for more than twenty years the only industrial basic research program in climate, Washington Crossing, Pennsylvania, U.S.A.
  30. Susan Crockford, PhD (Zoology/Evolutionary Biology/Archaeozoology), Adjunct Professor (Anthropology/Faculty of Graduate Studies), University of Victoria, Victoria, British Colombia, Canada
  31. Walter Cunningham, B.S., M.S. (Physics – Institute of Geophysics And Planetary Sciences,  UCLA), AMP – Harvard Graduate School of Business, Colonel (retired) U.S. Marine Corps, Apollo 7 Astronaut., Fellow – AAS, AIAA; Member AGU, Houston, Texas, U.S.A.
  32. Joseph D’Aleo, BS, MS (Meteorology, University of Wisconsin),  Doctoral Studies (NYU), CMM, AMS Fellow, Executive Director – ICECAP (International Climate and Environmental Change Assessment Project), College Professor Climatology/Meteorology, First Director of Meteorology The Weather Channel, Hudson, New Hampshire, U.S.A.
  33. David Deming, PhD (Geophysics), Professor of Arts and Sciences, University of Oklahoma, Norman, Oklahoma, U.S.A.
  34. James E. Dent; B.Sc., FCIWEM, C.Met, FRMetS, C.Env., Independent Consultant (hydrology & meteorology), Member of WMO OPACHE Group on Flood Warning, Hadleigh, Suffolk, England, United Kingdom
  35. Willem de Lange, MSc (Hons), DPhil (Computer and Earth Sciences), Senior Lecturer in Earth and Ocean Sciences, The University of Waikato, Hamilton, New Zealand
  36. Silvia Duhau, Ph.D. (physics), Solar Terrestrial Physics, Buenos Aires University, Buenos Aires, Argentina
  37. Geoff Duffy, DEng (Dr of Engineering), PhD (Chemical Engineering), BSc, ASTCDip. (first chemical engineer to be a Fellow of the Royal Society in NZ), FIChemE, wide experience in radiant heat transfer and drying, chemical equilibria, etc. Has reviewed, analysed, and written brief reports and papers on climate change, Auckland, New Zealand
  38. Don J. Easterbrook, PhD, Emeritus Professor of Geology, Western Washington, University, Bellingham, Washington, U.S.A.
  39. Ole Henrik Ellestad, former Research Director, applied chemistry SINTEF, Professor in physical chemistry, University of Oslo, Managing director Norsk Regnesentral and Director for Science and Technology, Norwegian Research Council, widely published in infrared spectroscopy, Oslo, Norway
  40. Per Engene, MSc, Biologist, Co-author – The Climate, Science and Politics (2009), Bø i Telemark, Norway
  41. Gordon Fulks, B.S., M.S., PhD (Physics, University of Chicago), cosmic radiation, solar wind, electromagnetic and geophysical phenomena, Portland, Oregon, U.S.A.
  42. Katya Georgieva, MSc (meteorology), PhD (solar-terrestrial climate physics), Professor, Space Research and Technologies Institute, Bulgarian Academy of Sciences, Sofia, Bulgaria
  43. Lee C. Gerhard, PhD, Senior Scientist Emeritus, University of Kansas, past director and state geologist, Kansas Geological Survey, U.S.A.
  44. Ivar Giaever PhD, Nobel Laureate in Physics 1973, professor emeritus at the Rensselaer Polytechnic Institute, a professor-at-large at the University of Oslo, Applied BioPhysics, Troy, New York, U.S.A.
  45. Albrecht Glatzle, PhD, ScAgr, Agro-Biologist and Gerente ejecutivo, Tropical pasture research and land use management, Director científico de INTTAS, Loma Plata, Paraguay
  46. Fred Goldberg, PhD, Adj Professor, Royal Institute of Technology (Mech, Eng.), Secretary General KTH International Climate Seminar 2006 and Climate analyst (NIPCC), Lidingö, Sweden
  47. Laurence I. Gould, PhD, Professor of Physics, University of Hartford, Past Chair (2004), New England Section of the American Physical Society, West Hartford, Connecticut, U.S.A.
  48. Vincent Gray, PhD, New Zealand Climate Coalition, expert reviewer for the IPCC, author of The Greenhouse Delusion: A Critique of Climate Change 2001, Wellington, New Zealand
  49. William M. Gray, PhD, Professor Emeritus, Dept. of Atmospheric Science, Colorado State University, Head of the Tropical Meteorology Project, Fort Collins, Colorado, U.S.A.
  50. Charles B. Hammons, PhD (Applied Mathematics), climate-related specialties: applied mathematics, modeling & simulation, software & systems engineering, Associate Professor, Graduate School of Management, University of Dallas; Assistant Professor, North Texas State University (Dr. Hammons found many serious flaws during a detailed study of the software, associated control files plus related email traffic of the Climate Research Unit temperature and other records and “adjustments” carried out in support of IPCC conclusions), Coyle, OK, U.S.A.
  51. William Happer, PhD, Professor, Department of Physics, Princeton University, Princeton, NJ, U.S.A.
  52. Hermann Harde, PhD, Professur f. Lasertechnik & Werkstoffkunde (specialized in molecular spectroscopy, development of gas sensors and CO2-climate sensitivity), Helmut-Schmidt-Universität, Universität der Bundeswehr Fakultät für Elektrotechnik, Hamburg, Germany
  53. Howard Hayden, PhD, Emeritus Professor (Physics), University of Connecticut, The Energy Advocate, Pueblo West, Colorado, U.S.A.
  54. Ross Hays, Meteorologist, atmospheric scientist, NASA Columbia Scientific Balloon Facility (currently working at McMurdo Station, Antarctica), Palestine, Texas, U.S.A.
  55. Martin Hovland, M.Sc. (meteorology, University of Bergen), PhD (Dr Philos, University of Tromsø), FGS, Emeritus Professor, Geophysics, Centre for Geobiology, University of Bergen, member of the expert panel: Environmental Protection and Safety Panel (EPSP) for the Ocean Drilling Program (ODP) and the Integrated ODP, Stavanger, Norway
  56. Ole Humlum, PhD, Professor of Physical Geography, Department of Physical Geography, Institute of Geosciences, University of Oslo, Oslo, Norway
  57. Craig D. Idso, PhD, Chairman of the Board of Directors of the Center for the Study of Carbon Dioxide and Global Change, Tempe, Arizona, U.S.A.
  58. Sherwood B. Idso, PhD, President, Center for the Study of Carbon Dioxide and Global Change, Tempe, Arizona, U.S.A.
  59. Larry Irons, BS (Geology), MS (Geology), Sr. Geophysicist at Fairfield Nodal (specialization: paleoclimate), Lakewood, Colorado, U.S.A.
  60. Terri Jackson, MSc (plasma physics), MPhil (energy economics), Director, Independent Climate Research Group, Northern Ireland and London (Founder of the energy/climate group at the Institute of Physics, London), United Kingdom
  61. Albert F. Jacobs, Geol.Drs., P. Geol., Calgary, Alberta, Canada
  62. Hans Jelbring, PhD Climatology, Stockholm University, MSc Electronic engineering, Royal Institute of Technology, BSc  Meteorology, Stockholm University, Sweden
  63. Bill Kappel, B.S. (Physical Science-Geology), B.S. (Meteorology), Storm Analysis, Climatology, Operation Forecasting, Vice President/Senior Meteorologist, Applied Weather Associates, LLC, University of Colorado, Colorado Springs, U.S.A.
  64. Olavi Kärner, Ph.D., Extraordinary Research Associate; Dept. of Atmospheric Physics, Tartu Observatory, Toravere, Estonia
  65. Leonid F. Khilyuk, PhD, Science Secretary, Russian Academy of Natural Sciences, Professor of Engineering (CO2/temp. focused research), University of Southern California, Los Angeles, California, U.S.A.
  66. William Kininmonth MSc, MAdmin, former head of Australia’s National Climate Centre and a consultant to the World Meteorological organization’s Commission for Climatology, Kew, Victoria, Australia
  67. Gerhard Kramm, Dr. rer. nat. (Theoretical Meteorology), Research Associate Professor, Geophysical Institute, Associate Faculty, College of Natural Science and Mathematics, University of Alaska Fairbanks, (climate specialties: Atmospheric energetics, physics of the atmospheric boundary layer, physical climatology – seeinteresting paper by Kramm et al), Fairbanks, Alaska, U.S.A.
  68. Leif Kullman, PhD (Physical geography, plant ecology, landscape ecology), Professor, Physical geography, Department of Ecology and Environmental science, Umeå University, Areas of Specialization: Paleoclimate (Holocene to the present), glaciology, vegetation history, impact of modern climate on the living landscape, Umeå, Sweden
  69. Hans H.J. Labohm, PhD, Independent economist, author specialised in climate issues, IPCC expert reviewer, author of Man-Made Global Warming: Unravelling a Dogma and climate science-related Blog, The Netherlands
  70. Rune Berg-Edland Larsen, PhD (Geology, Geochemistry), Professor, Dep. Geology and Geoengineering, Norwegian University of Science and Technology (NTNU), Trondheim, Norway
  71. C. (Kees) le Pair, PhD (Physics Leiden, Low Temperature Physics), former director of the Netherlands Research Organization FOM (fundamental physics) and subsequently founder and director of The Netherlands Technology Foundation STW.  Served the Dutch Government many years as member of its General Energy Council and of the National Defense Research Council. Royal Academy of Arts and Sciences Honorary Medal and honorary doctorate in all technical sciences of the Delft University of technology, Nieuwegein, The Netherlands
  72. Douglas Leahey, PhD, meteorologist and air-quality consultant, past President – Friends of Science, Calgary, Alberta, Canada
  73. Jay Lehr, B.Eng. (Princeton), PhD (environmental science and ground water hydrology), Science Director, The Heartland Institute, Chicago, Illinois, U.S.A.
  74. Bryan Leyland, M.Sc., FIEE, FIMechE, FIPENZ, MRSNZ, consulting engineer (power), Energy Issues Advisor – International Climate Science Coalition, Auckland, New Zealand
  75. Edward Liebsch, B.A. (Earth Science, St. Cloud State University); M.S. (Meteorology, The Pennsylvania State University), former Associate Scientist, Oak Ridge National Laboratory; former Adjunct Professor of Meteorology, St. Cloud State University, Environmental Consultant/Air Quality Scientist (Areas of Specialization: micrometeorology, greenhouse gas emissions), Maple Grove, Minnesota, U.S.A.
  76. William Lindqvist, PhD (Applied Geology), Independent Geologic Consultant, Areas of Specialization: Climate Variation in the recent geologic past, Tiburon, California, U.S.A.
  77. Horst-Joachim Lüdecke, Prof. Dr. , PhD (Physics), retired from university of appl. sciences HTW, Saarbrücken (Germany), atmospheric temperature research, speaker of the European Institute for Climate and Energy (EIKE), Heidelberg, Germany
  78. Anthony R. Lupo, Ph.D., Professor of Atmospheric Science, Department of Soil, Environmental, and Atmospheric Science, University of Missouri, Columbia, Missouri, U.S.A.
  79. Oliver Manuel, BS, MS, PhD, Post-Doc (Space Physics), Associate – Climate & Solar Science Institute, Emeritus Professor, College of Arts & Sciences University of Missouri-Rolla, previously Research Scientist (US Geological Survey) and NASA Principal Investigator for Apollo, Cape Girardeau, Missouri, U.S.A.
  80. Francis Massen, professeur-docteur en physique (PhD equivalent, Universities of Nancy (France) and Liège (Belgium), Manager of the Meteorological Station of the Lycée Classique de Diekirch, specialising in the measurement of solar radiation and atmospheric gases. Collaborator to the WOUDC (World Ozone and UV Radiation Data Center), Diekirch, Luxembourg
  81. Henri Masson, Prof. dr. ir., Emeritus Professor University of Antwerp (Energy & Environment Technology Management), Visiting professor Maastricht School of Management, specialist in dynamical (chaotic) complex system analysis, Antwerp, Belgium.
  82. Ferenc Mark Miskolczi, PhD, atmospheric physicist, formerly of NASA’s Langley Research Center, Hampton, Virginia, U.S.A.
  83. Viscount Monckton of Brenchley, Expert reviewer, IPCC Fifth Assessment Report, Quantification of Climate Sensitivity, Carie, Rannoch, Scotland
  84. Nils-Axel Mörner, PhD (Sea Level Changes and Climate), Emeritus Professor of Paleogeophysics & Geodynamics, Stockholm University, Stockholm, Sweden
  85. John Nicol, PhD (Physics, James Cook University), Chairman – Australian climate Science Coalition, Brisbane, Australia
  86. Ingemar Nordin, PhD, professor in philosophy of science (including a focus on “Climate research, philosophical and sociological aspects of a politicised research area”), Linköpings University, Sweden.
  87. David Nowell, M.Sc., Fellow of the Royal Meteorological Society, former chairman of the NATO Meteorological Group, Ottawa, Ontario, Canada
  88. Cliff Ollier, D.Sc., Professor Emeritus (School of Earth and Environment – see hisCopenhagen Climate Challenge sea level article here), Research Fellow, University of Western Australia, Nedlands, W.A., Australia
  89. Oleg M. Pokrovsky, BS, MS, PhD (mathematics and atmospheric physics – St. Petersburg State University, 1970), Dr. in Phys. and Math Sciences (1985), Professor in Geophysics (1995), principal scientist, Main Geophysical Observatory (RosHydroMet), Note: Dr. Pokrovsky analyzed long climates and concludes that anthropogenic CO2 impact is not the main contributor in climate change,St. Petersburg, Russia.
  90. Daniel Joseph Pounder, BS (Meteorology, University of Oklahoma), MS (Atmospheric Sciences, University of Illinois, Urbana-Champaign); Meteorological/Oceanographic Data Analyst for the National Data Buoy Center, formerly Meteorologist, WILL AM/FM/TV, Urbana, U.S.A.
  91. Brian Pratt, PhD, Professor of Geology (Sedimentology), University of Saskatchewan (see Professor Pratt’s article for a summary of his views), Saskatoon, Saskatchewan, Canada
  92. Harry N.A. Priem, PhD, Professore-emeritus isotope-geophysics and planetary geology, Utrecht University, past director ZWO/NOW Institute of Isotope Geophysical Research, Past-President Royal Netherlands Society of Geology and Mining, Amsterdam, The Netherlands
  93. Oleg Raspopov, Doctor of Science and Honored Scientist of the Russian Federation, Professor – Geophysics, Senior Scientist, St. Petersburg Filial (Branch) of N.V.Pushkov Institute of Terrestrial Magnetism, Ionosphere and Radiowaves Propagation of RAS (climate specialty: climate in the past, particularly the influence of solar variability), Editor-in-Chief of journal “Geomagnetism and Aeronomy” (published by Russian Academy of Sciences), St. Petersburg, Russia
  94. Curt G. Rose, BA, MA (University of Western Ontario), MA, PhD (Clark University), Professor Emeritus, Department of Environmental Studies and Geography, Bishop’s University, Sherbrooke, Quebec, Canada
  95. S. Jeevananda Reddy, M.Sc. (Geophysics), Post Graduate Diploma (Applied Statistics, Andhra University), PhD (Agricultural Meteorology, Australian University, Canberra), Formerly Chief Technical Advisor—United Nations World Meteorological Organization (WMO) & Expert-Food and Agriculture Organization (UN), Convener – Forum for a Sustainable Environment, author of 500 scientific articles and several books – here is one: “Climate Change – Myths & Realities“, Hyderabad, India
  96. Arthur Rorsch, PhD, Emeritus Professor, Molecular Genetics, Leiden University, former member of the board of management of the Netherlands Organization Applied Research TNO, Leiden, The Netherlands
  97. Rob Scagel, MSc (forest microclimate specialist), Principal Consultant – Pacific Phytometric Consultants, Surrey, British Columbia, Canada
  98. Chris Schoneveld, MSc (Structural Geology), PhD (Geology), retired exploration geologist and geophysicist, Australia and France
  99. Tom V. Segalstad, PhD (Geology/Geochemistry), Associate Professor of Resource and Environmental Geology, University of Oslo, former IPCC expert reviewer, former Head of the Geological Museum, and former head of the Natural History Museum and Botanical Garden (UO), Oslo, Norway
  100. John Shade, BS (Physics), MS (Atmospheric Physics), MS (Applied Statistics), Industrial Statistics Consultant, GDP, Dunfermline, Scotland, United Kingdom
  101. Thomas P. Sheahen, B.S., PhD (Physics, Massachusetts Institute of Technology), specialist in renewable energy, research and publication (applied optics) in modeling and measurement of absorption of infrared radiation by atmospheric CO2,  National Renewable Energy Laboratory (2005-2009); Argonne National Laboratory (1988-1992); Bell Telephone labs (1966-73), National Bureau of Standards (1975-83), Oakland, Maryland, U.S.A.
  102. S. Fred Singer, PhD, Professor Emeritus (Environmental Sciences), University of Virginia, former director, U.S. Weather Satellite Service, Science and Environmental Policy Project, Charlottesville, Virginia, U.S.A.
  103. Frans W. Sluijter, Prof. dr ir, Emeritus Professor of theoretical physics, Technical University Eindhoven, Chairman—Skepsis Foundation, former vice-president of the International Union of Pure and Applied Physics, former President of the Division on Plasma Physics of the European Physical Society and former bureau member of the Scientific Committee on Sun-Terrestrial Physics, Euvelwegen, the Netherlands
  104. Jan-Erik Solheim, MSc (Astrophysics), Professor, Institute of Physics, University of Tromsø, Norway (1971-2002), Professor (emeritus), Institute of Theoretical Astrophysics, University of Oslo, Norway (1965-1970, 2002- present), climate specialties: sun and periodic climate variations, scientific paper by Professor Solheim “Solen varsler et kaldere tiår“, Baerum, Norway
  105. H. Leighton Steward, Master of Science (Geology), Areas of Specialization: paleoclimates and empirical evidence that indicates CO2 is not a significant driver of climate change, Chairman, PlantsNeedCO2.org and CO2IsGreen.org, Chairman of the Institute for the Study of Earth and Man (geology, archeology & anthropology) at SMU in Dallas, Texas, Boerne, TX, U.S.A.
  106. Arlin B. Super, PhD (Meteorology – University of Wisconsin at Madison), former Professor of Meteorology at Montana State University, retired Research Meteorologist, U.S. Bureau of Reclamation, Saint Cloud, Minnesota, U.S.A.
  107. Edward (Ted) R. Swart, D.Sc. (physical chemistry, University of Pretoria), M.Sc. and Ph.D. (math/computer science, University of Witwatersrand). Formerly Director of the Gulbenkian Centre, Dean of the Faculty of Science, Professor and Head of the Department of Computer Science, University of Rhodesia and past President of the Rhodesia Scientific Association. Set up the first radiocarbon dating laboratory in Africa. Most recently, Professor in the Department of Combinatorics and Optimization at the University of Waterloo and Chair of Computing and Information Science and Acting Dean at the University of Guelph, Ontario, Canada, now retired in Kelowna British Columbia, Canada
  108. George H. Taylor, B.A. (Mathematics, U.C. Santa Barbara), M.S. (Meteorology, University of Utah), Certified Consulting Meteorologist, Applied Climate Services, LLC, Former State Climatologist (Oregon), President, American Association of State Climatologists (1998-2000), Corvallis, Oregon, U.S.A.
  109. J. E. Tilsley, P.Eng., BA Geol, Acadia University, 53 years of climate and paleoclimate studies related to development of economic mineral deposits, Aurora, Ontario, Canada
  110. Göran Tullberg, Civilingenjör i Kemi (equivalent to Masters of Chemical Engineering), Co-author – The Climate, Science and Politics (2009) (see here for a review), formerly instructor of Organic Chemistry (specialization in “Climate chemistry”), Environmental Control and Environmental Protection Engineering at University in Växjö; Falsterbo, Sweden
  111. Brian Gregory Valentine, PhD, Adjunct professor of engineering (aero and fluid dynamics specialization) at the University of Maryland, Technical manager at US Department of Energy, for large-scale modeling of atmospheric pollution, Technical referee for the US Department of Energy’s Office of Science programs in climate and atmospheric modeling conducted at American Universities and National Labs, Washington, DC, U.S.A.
  112. Bas van Geel, PhD, paleo-climatologist, Institute for Biodiversity and Ecosystem Dynamics, Research Group Paleoecology and Landscape Ecology, Faculty of Science, Universiteit van Amsterdam, Amsterdam, The Netherlands
  113. Gerrit J. van der Lingen, PhD (Utrecht University), geologist and paleoclimatologist, climate change consultant, Geoscience Research and Investigations, Nelson, New Zealand
  114. A.J. (Tom) van Loon, PhD, Professor of Geology (Quaternary Geologyspecialism: Glacial Geology), Adam Mickiewicz University, former President of the European Association of Science Editors Poznan, Poland
  115. Fritz Vahrenholt, B.S. (chemistry), PhD (chemistry), Prof. Dr., Professor of Chemistry, University of Hamburg, Former Senator for environmental affairs of the State of Hamburg, former CEO of REpower Systems AG (wind turbines), Author of the book Die kalte Sonne: warum die Klimakatastrophe nicht stattfindet (The Cold Sun: Why the Climate Crisis Isn’t Happening”, Hamburg, Germany
  116. Michael G. Vershovsky, Ph.D. in meteorology (macrometeorology, long-term forecasts, climatology), Senior Researcher, Russian State Hydrometeorological University, works with, as he writes, “Atmospheric Centers of Action (cyclones and anticyclones, such as Icelandic depression, the South Pacific subtropical anticyclone, etc.). Changes in key parameters of these centers strongly indicate that the global temperature is influenced by these natural factors (not exclusively but nevertheless)”, St. Petersburg, Russia
  117. Gösta Walin, PhD and Docent (theoretical Physics, University of Stockholm), Professor Emeritus in oceanografi, Earth Science Center, Göteborg University, Göteborg,  Sweden
  118. Anthony Watts, ItWorks/IntelliWeather, Founder, surfacestations.orgWatts Up With That, Chico, California, U.S.A.
  119. Carl Otto Weiss, Direktor und Professor at Physikalisch-Technische Bundesanstalt,  Visiting Professor at University of Copenhagen, Tokyo Institute of Technology, Coauthor of ”Multiperiodic Climate Dynamics: Spectral Analysis of…“, Braunschweig, Germany
  120. Forese-Carlo Wezel, PhD, Emeritus Professor of Stratigraphy (global and Mediterranean geology, mass biotic extinctions and paleoclimatology), University of Urbino, Urbino, Italy
  121. Boris Winterhalter, PhD, senior marine researcher (retired), Geological Survey of Finland, former professor in marine geology, University of Helsinki, Helsinki, Finland
  122. David E. Wojick, PhD,  PE, energy and environmental consultant, Technical Advisory Board member – Climate Science Coalition of America, Star Tannery, Virginia, U.S.A.
  123. George T. Wolff, Ph.D., Principal Atmospheric Scientist, Air Improvement Resource, Inc., Novi, Michigan, U.S.A.
  124. Thomas (Tom) Wysmuller –NASA (Ret) ARC, GSFC, Hdq. – Meteorologist, Ogunquit, ME, U.S.A.
  125. Bob Zybach, PhD (Environmental Sciences, Oregon State University), climate-related carbon sequestration research, MAIS, B.S., Director, Environmental Sciences Institute Peer review Institute, Cottage Grove, Oregon, U.S.A.
  126. Milap Chand Sharma, PhD, Associate Professor of Glacial Geomorphology, Centre fort the Study of Regional Development, Jawaharlal Nehru University, New Delhi, India
  127. Valentin A. Dergachev, PhD, Professor and Head of the Cosmic Ray Laboratory at Ioffe Physical-Technical Institute of Russian Academy of Sciences, St. Petersburg, Russia
  128. Vijay Kumar Raina, Ex-Deputy Director General, Geological Survey of India, Ex-Chairman Project Advisory and Monitoring Committee on Himalayan glacier, DST, Govt. of India and currently Member Expert Committee on Climate Change Programme, Dept. of Science & Technology, Govt. of India, author of 2010 MoEF Discussion Paper, “Himalayan Glaciers – State-of-Art Review of Glacial Studies, Glacial Retreat and Climate Change”, the first comprehensive study on the region.  Winner of the Indian Antarctica Award, Chandigarh, India
  129. Scott Chesner, B.S. (Meteorology, Penn State University), KETK Chief Meteorologist, KETK TV, previously Meteorologist with Accu Weather, Tyler, Texas, U.S.A

*   *   *

Reactions (I will not mention names here; all are from emails in the EANTH list)

1) “Hmm, I clicked on a few links, googled a few names. Found that when one is listed as “author of x book”, said book doesn’t appear on Amazon, etc.

Many non-PhDs.

Many “consultants”. Losts of “adjuncts”, lots of professor emeriti. someone listed as an “Extraordinary Research Associate”.

Little actual data. Few peer-reviewed research reports.

Didn’t recognize most of the names. Did recognize some “suspicious” ones (e.g., Tim Ball, a lovely [sic] Canadian).

Misrepresentation of the SREX report (quotation is a minor comment on a single point of many – page 280 of 594).

Link is to a letter published in the Financial Post, the business section of the National Post, the more rightward leaning of Canada’s 2 national papers. To give an indication, on the day in 2007 when the Nobel was awarded to IPCC and Gore, the headline on front page was “A Coup for Junk Science: Gaffe riddled work undeserving”.

Conclusion: don’t bother to click the link.”

 

2) “A few of the names on the list are also contained in table 3 of the 2012 Heartland Institute Proposed Budget (pages 7-8). Namely:

Craig D. Idso

Anthony Lupo

Susan Crockford

Joseph D’Aleo

Fred Singer

Robert Carter

Link:

http://www.desmogblog.com/sites/beta.desmogblog.com/files/(1-15-2012)%202012%20Heartland%20Budget.pdf

 

3) “Is it that bad guys without phd and associations with the wrong institutions nullify the legitimacy of the good guys with proper credentials? Suppose you could not look them up. Would you be unable to judge the contents (with links to data) of the letter? You seem to require a certain kind of authority (defined by political means especially) to allow you to decide whether ideas are valuable. How sad. If every scientist were that intellectually timid there would be no learning. Thank goodness for the Feynmans of the world.”

 

4) “Short of being able to read, review and test all the science, a person has to make judgements based on additional criteria. My criteria include, but are not limited to, some things such as peer-review, credentials, reputation, availability of cited sources/affiliation/expertise, guilt-by-association, and so on. They are only part of the judgement of credibility. I looked up a book listed in the credentials of one “expert” and could not find it; I followed links, and so on.

The endpoint was when I looked for the quotation in the cited source (SREX) and evaluated it as misrepresentation. Since the IPCC was called on as an expert source by the so-called experts, yet it claimed other than what they claimed it claimed, the credibility of the letters and listed experts is to be disparaged.

That’s the character of science, and process of knowledge. Yup, that is how one really, really does judge which ideas are valuable.”

 

5) “Thank you for drawing attention to this open letter. I suspect quite a number of the people named in this letter are members of naysayer groups. From an Australian perspective Prof Bob Carter is a member of the secretive  Lavoissier group. I have inside knowledge of this group as I was approached with my husband to write a film script about climate change many years ago and we pulled out eventually after being told what they wanted to say about the science of climate change, which required a distortion of the facts. We had the impression that the money for the film was coming from America and I wouldn’t mind betting that it was oil and mining interest finance ($6 million). The person who set out to recruit us was a glaciologist who was also a member of the Lavoissier group. For more information see the following:

Pearse, Guy , “High and Dry”, Viking/Penguin,Camberwell, Victoria, 2007.
Hamilton, Clive, “Scorcher: The Dirty Politics of Climate Change, Black Inc. Agenda, Melbourne, Victoria, 2007.”

 

6) “I read a short and entertaining book that laid out a good process for deciding what to believe about climate change (or any other complex issue with lots of scientific research swirling around). It’s by Greg Craven and it’s called What’s the Worst That Could Happen?

Besides providing a way to cut through all the chatter, the book offers sound fundamentals for people interested in how scientific information comes to be accepted. I think it’s a great book for students, especially because the author (a physics teacher) tackles tough subjects with humor.

Here’s a link to it: http://www.amazon.com/Whats-Worst-That-Could-Happen/dp/0399535012/

The State of Climate Science (scienceprogress.org)

CLIMATE SCIENCE

A Thorough Review of the Scientific Literature on Global Warming

By Dr. James Powell | Thursday, November 15th, 2012

Polls show that many members of the public believe that scientists substantially disagree about human-caused global warming. The gold standard of science is the peer-reviewed literature. If there is disagreement among scientists, based not on opinion but on hard evidence, it will be found in the peer-reviewed literature.

I searched the Web of Science, an online science publication tool, for peer-reviewed scientific articles published between January first 1991 and November 9th 2012 that have the keyword phrases “global warming” or “global climate change.” The search produced 13,950 articles. See methodology.

I read whatever combination of titles, abstracts, and entire articles was necessary to identify articles that “reject” human-caused global warming. To be classified as rejecting, an article had to clearly and explicitly state that the theory of global warming is false or, as happened in a few cases, that some other process better explains the observed warming. Articles that merely claimed to have found some discrepancy, some minor flaw, some reason for doubt, I did not classify as rejecting global warming.

Articles about methods, paleoclimatology, mitigation, adaptation, and effects at least implicitly accept human-caused global warming and were usually obvious from the title alone. John Cook and Dana Nuccitelli also reviewed and assigned some of these articles; John provided invaluable technical expertise.

This work follows that of Oreskes (Science, 2005) who searched for articles published between 1993 and 2003 with the keyword phrase “global climate change.” She found 928, read the abstracts of each and classified them. None rejected human-caused global warming. Using her criteria and time-span, I get the same result. Deniers attacked Oreskes and her findings, but they have held up.

Some articles on global warming may use other keywords, for example, “climate change” without the “global” prefix. But there is no reason to think that the proportion rejecting global warming would be any higher.

By my definition, 24 of the 13,950 articles, 0.17 percent or 1 in 581, clearly reject global warming or endorse a cause other than CO2 emissions for observed warming. The list of articles that reject global warming is here.

The 24 articles have been cited a total of 113 times over the nearly 21-year period, for an average of close to 5 citations each. That compares to an average of about 19 citations for articles answering to “global warming,” for example. Four of the rejecting articles have never been cited; four have citations in the double-digits. The most-cited has 17.

Of one thing we can be certain: had any of these articles presented the magic bullet that falsifies human-caused global warming, that article would be on its way to becoming one of the most-cited in the history of science.

The articles have a total of 33,690 individual authors. The top ten countries represented, in order, are USA, England, China, Germany, Japan, Canada, Australia, France, Spain, and Netherlands. (The chart shows results through November 9th, 2012.)

Global warming deniers often claim that bias prevents them from publishing in peer-reviewed journals. But 24 articles in 18 different journals, collectively making several different arguments against global warming, expose that claim as false. Articles rejecting global warming can be published, but those that have been have earned little support or notice, even from other deniers.

A few deniers have become well known from newspaper interviews, Congressional hearings, conferences of climate change critics, books, lectures, websites and the like. Their names are conspicuously rare among the authors of the rejecting articles. Like those authors, the prominent deniers must have no evidence that falsifies global warming.

Anyone can repeat this search and post their findings. Another reviewer would likely have slightly different standards than mine and get a different number of rejecting articles. But no one will be able to reach a different conclusion, for only one conclusion is possible: Within science, global warming denial has virtually no influence. Its influence is instead on a misguided media, politicians all-too-willing to deny science for their own gain, and a gullible public.

Scientists do not disagree about human-caused global warming. It is the ruling paradigm of climate science, in the same way that plate tectonics is the ruling paradigm of geology. We know that continents move. We know that the earth is warming and that human emissions of greenhouse gases are the primary cause. These are known facts about which virtually all publishing scientists agree.

James Lawrence Powell is the author of The Inquisition of Climate Science. Powell is also the executive director of the National Physical Science Consortium, a partnership among government agencies and laboratories, industry, and higher education dedicated to increasing the number of American citizens with graduate degrees in the physical sciences and related engineering fields. This article is cross-posted with permission with the Columbia University Press blog.

This article is a cross-post with our partners at DeSmogBlog.

Call to Modernize Antiquated Climate Negotiations (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 18, 2012) — The structure and processes of United Nations climate negotiations are “antiquated,” unfair and obstruct attempts to reach agreements, according to research published November 18.

The findings come ahead of the 18thUN Climate Change Summit, which starts in Doha on November 26.

The study, led by Dr Heike Schroeder from the University of East Anglia (UEA) and the Tyndall Centre for Climate Change Research, argues that the consensus-based decision making used by the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) stifles progress and contributes to negotiating deadlocks, which ultimately hurts poor countries more than rich countries.

It shows that delegations from some countries taking part have increased in size over the years, while others have decreased, limiting poor countries’ negotiating power and making their participation less effective.

Writing in the journal Nature Climate Change, Dr Schroeder, Dr Maxwell Boykoff of the University of Colorado and Laura Spiers of Pricewaterhouse Coopers, argue that changes are long overdue if demands for climate mitigation and adaptation agreements are to be met.

They recommend that countries consider capping delegation numbers at a level that allows broad representation across government departments and sectors of society, while maintaining a manageable overall size.

Dr Schroeder, of UEA’s School of International Development, will be attending COP18. She said: “The UN must recognize that these antiquated structures serve to constrain rather than compel co-operation on international climate policy. The time is long overdue for changes to institutions and structures that do not support decision-making and agreements.

“Poor countries cannot afford to send large delegations and their level of expertise usually remains significantly below that of wealthier countries. This limits poor countries’ negotiating power and makes their participation in each session less effective.”

The researchers found that attendance has changed in terms of the number and diversity of representatives. The number of delegates went from 757 representing 170 countries at the first COP in 1995 to 10,591 individuals from 194 countries attending COP15 in 2009 — a 1400 per cent increase. At COP15 there were also 13,500 delegates from 937 non-government Observer organisations.

Small developing countries have down-sized their delegations while G-7 and +5 countries (Brazil, China, India, Mexico, and South Africa) have increased theirs. The exception is the United States, which after withdrawing from the Kyoto Protocol started to send fewer delegates to COPs.

The study also looked at the make-up of the delegations and found an increase in participation by environmental, campaigning, academic and other non-Governmental organisations.

“Our work shows an increasing trend in the size of delegations on one side and a change in the intensity, profile and politicization of the negotiations on the other,” explained Dr Schroeder. “These variations suggest the climate change issue and its associated interests are framed quite differently across countries. NSAs are well represented on national delegations but clearly the government decides who is included and who is not, and what the official negotiating position of the country and its level of negotiating flexibility are.”

Some countries send large representations from business associations (Brazil), local government (Canada) orscience and academia (Russia). For small developing countries such as Bhutan and Gabon the majority of government representatives come from environment, forestry and agriculture. The UK has moved from mainly environment, forestry and agriculture to energy and natural resources. The US has shifted from these more conventional areas to an overwhelming representation from the US Congress at COP15.

Journal Reference:

  1. Heike Schroeder, Maxwell T. Boykoff, Laura Spiers. Equity and state representations in climate negotiations.Nature Climate Change, 2012; DOI: 10.1038/nclimate1742

Women in Congress Outperform Men On Some Measures (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 16, 2012) — One of the most notable outcomes of the Nov. 6 election was the record number of women voted into Congress, including 20 women who will occupy seats in the U.S. Senate.

Christopher Berry, associate professor at the University of Chicago Harris School of Public Policy, recently discussed the effects of the increase in female U.S. senators. Berry co-authored a 2011 study that found congresswomen consistently outperform their male counterparts on several measures of job performance.

What implications will the increase of female representation have for the U.S. Senate?

Potentially of great interest to the constituents of the new female senators is our finding that they consistently bring home more federal projects and federal aid than their male counterparts. When you think about disasters like Hurricane Sandy, the ability to bring home federal aid for rebuilding efforts is really important. It is going to be good for their constituents and the states they represent.

Another of our findings, which may have broader implications for the Senate and the country, is that not only do women sponsor more legislation, but also they collaborate more broadly with their colleagues. We looked at all the bills introduced in the U.S House of Representatives since 1984 and who sponsored them, and we found that women work with a much broader range of co-sponsors than their male counterparts.

This ability to collaborate may be particularly important as we move into some of the really big challenges in the next term. The fiscal cliff is the most obvious one. There are going to have to be a lot of deals done. And it is not impossible that we will revisit some aspects of healthcare reform and start long-term entitlement reform. There are big issues for President Obama’s second term, during which women may play a really interesting role in helping to bridge some of the partisan gaps.

Why do women tend to better perform in public office than men?

There are two main reasons. First, women have to be more effective in order to win elections. There still exists a substantial amount of discrimination among the electorate — something on the order of 20 percent of people express some reservations about voting for a woman, even today. When you have that sizable a portion of the electorate predisposed against you, you have to be better than the person you are running against in order to get the same number of votes. When you see a woman winning, she often comes in with a better set of skills, more appeal, more charisma. Whatever the political talent is, in order to get elected, women have to have more of it. And that is what we think makes the women who win better legislators once in office.

Secondly, women work closely with more of their colleagues then men do. The reasons for this are probably less tangible and harder to measure, but there is some research suggesting it is a matter of style. Men and women politicians have different styles of legislation and leadership. Women tend to be more collaborative, which is why we see them co-sponsoring bills with a wider network of collaborators than men typically have.

What will happen as increasing numbers of women are elected to political office?

While this election was an important gain, there is a long, long way yet to go for increasing the number of women in public office. After almost a century of suffrage, a group of people who represent 50 percent of our population are only 20 percent of the Senate.

The somewhat ironic implications of our theory are that as women become more successful and more widely accepted as politicians, eventually they simply will be equally as effective as their male counterparts and we won’t see a difference in performance. That will be a mark of success rather than failure, although we will see it reflected in a decline in the effectiveness advantage that women in office now have.

Journal Reference:

  1. Sarah F. Anzia, Christopher R. Berry. The Jackie (and Jill) Robinson Effect: Why Do Congresswomen Outperform Congressmen? American Journal of Political Science, 2011; 55 (3): 478 DOI: 10.1111/j.1540-5907.2011.00512.x

Kaiowá e Guarani denunciam Veja por racismo e exigem direito de resposta (CIMI)

Informe nº 1040: Kaiowá e Guarani denunciam Veja por racismo e exigem direito de resposta

Inserido por: Administrador em 14/11/2012.
Fonte da notícia: Campanha Guarani

Alvos de reportagem da Revista Veja no último dia 4, indígenas Guarani e Kaiowá lançaram nesta quarta-feira, 14, uma carta pública exigindo o direito de resposta na publicação. Afirmam, também, que irão encaminhar denúncia de racismo e estímulo ao ódio ao Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS). A carta foi coassinada por cerca de cinquenta organizações.

A matéria, assinada por Leonardo Coutinho e Kalleo Coura epublicada nas versões impressa e virtual da revista, foi considerada discriminatória pelos indígenas. Segundo a carta, a Veja “não perdeu ‘a oportunidade de apresentar, mais uma vez, a imagem dos Guarani e Kaiowá como seres incapazes, como [se] nós indígenas não fossemos seres humanos pensantes. Fomos considerados como selvagens e truculentos'”, afirmam.

Um abaixo-assinado exigindo direito de resposta será enviado ao MPF-MS.

Leia o documento na íntegra:

Revista Veja: direito de resposta aos Guarani-Kaiowá já

“A escrita, quando você escreve errado, também mata um povo”. Assim afirmaram os professores Guarani-Kaiowá a respeito do que foi publicado na revista Veja, em 4 de novembro, sobre a luta de seu povo pelos seus territórios tradicionais.

Sob os títulos de “A ilusão de um paraíso” e “Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria” (nas versões impressa e virtual, respectivamente), a reportagem parte de uma visão: i) claramente parcial no que diz respeito à situação sociopolítica e territorial em Mato Grosso do Sul, pois afirma que os indígenas querem construir “uma grande nação guarani” na “zona mais produtiva do agronegócio em Mato Grosso do Sul”; ii) deliberadamente distorcida quanto à atuação política dos grupos indígenas supracitados e dos órgãos atuantes na região, desmoralizando os primeiros ao compará-los, ainda que indiretamente, a “massas de manobra” das organizações supostamente manipuladoras e com uma “percepção medieval do mundo”; iii) irresponsável e criminosa, por estimular medo, ódio e racismo, como se vê no seguinte trecho: “o resto do Brasil que reze para que os antropólogos não tenham planos de levar os caiovás (sic) para outros estados, pois em pouco tempo todo o território brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores dos índios”.

A reportagem, assinada pelos jornalistas Leonardo Coutinho e Kalleo Coura, não perdeu “a oportunidade de apresentar, mais uma vez, a imagem dos Guarani e Kaiowá como seres incapazes, como [se] nós indígenas não fossemos seres humanos pensantes. Fomos considerados como selvagens e truculentos”, conforme escreveu o Conselho da Aty Guasu, a assembleia Guarani e Kaiowá,  em nota pública lançada no último dia 5.

O documento repudia “a divulgação e posição racista e discriminante” do texto e reafirma a autonomia organizativa e política Guarani e Kaiowá na luta pela recuperação dos territórios. “A Luta pelas terras tradicionais é exclusivamente nossa. Nós somos protagonistas e autores da luta pelas terras indígenas. [E] nós envolvemos os agentes dos órgãos do Estado Brasileiro, os agentes das ONGs e todos os cidadãos (ãs) do Brasil e de outros países do Mundo”, afirmou a Aty Guasu. Ali também denuncia o tratamento difamatório na reportagem, reiterada na nota da Comissão de Professores Guarani-Kaiowá ao indicar que, propagando o ódio contra os indígenas, “a matéria quer colocar um povo contra outro povo. Quer colocar os não-índios contra os indíos. Essa matéria não educa e desmotiva. Ao invés de dar vida, ela traz a morte”.

*

A conjuntura em que estão inseridos os Kaiowá e Guarani lhes é extremamente desfavorável. Num momento em que se procura gerar uma negociação que busque superar os conflitos entre indígenas e fazendeiros no Mato Grosso do Sul, a revista teima em incendiar os ânimos de seus leitores ruralistas. A matéria carrega em si uma série de falhas na apuração das informações, apresentando fatos falsos ou distorcidos:

1. A reportagem expõe e reforça uma imagem distorcida e estigmatizada dos indígenas como dependentes de órgãos púbicos e privados, usuários de drogas e reféns dos interesses de indivíduos ou organizações exógenas às comunidades. Essa imagem estimula o racismo, o ódio e preconceito contra indígenas, problema histórico no Brasil, em geral, e no Mato Grosso do Sul, em particular, podendo intensificar a tensão e a violência já sofrida pelo povo Guarani-Kaiowá.

2. Aciona, também, preconceito contra a sociedade não-indígena, quando afirma que a população apoiadora da causa é manipulada, conforme explicitado na nota da Aty Guasu: a “(…) REVISTA VEJA considera que esses cidadãos (ãs) manifestantes seriam ignorantes e não conheceriam as situações dos Guarani e Kaiowá, os tachando de ignorantes aos cidadãos (ãs) em manifestação”. Há também uma passagem de sexismo sugestivo no texto, citando mulheres que “não perderam a chance de protestar de peito aberto diante das câmeras”

3. Omite a verdade quando ignora de maneira retumbante os posicionamentos públicos dos indígenas Guarani-Kaiowá organizados em sua assembleia maior, a Aty Guasu

4. Deturpa de maneira generalizada o conteúdo da carta dos Kaiowá de Pyelito Kue, imputando suas denúncias a organizações exógenas e creditando ao Cimi sua autoria e divulgação. A reportagem, no mínimo, não atentou às datas de divulgação do carta, escrita de próprio punho por lideranças de Pyelito Kue e endereçada à Aty Guas no dia 9 de novembro. Deturpações como essa são usadas para corroborar a tese de que os Kaiowá são “manipulados” pelo Cimi, pelos antropólogos e pela Funai;

5. Não foram checadas informações e acusações. As organizações citadas no texto, notadamente o Conselho Indigenista Missionário, nunca foram questionadas pela reportagem sobre as informações e acusações;

6. Uso de fonte questionável. O antropólogo citado na matéria, Edward Luz, não é pesquisador dos Guarani e Kaiowá, sequer do Mato Grosso do Sul. É, sim, missionário evangélico, membro do Conselho Consultivo do Instituto Antropos, diretor da Associação das Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), vinculada à Missão NovasTribos do Brasil, o braço brasileiro da ONG internacional New Tribes Mission, organização que já foi expulsa ou impedida de entrar em diversas aldeias indígenas pelo órgão indigenista oficial brasileiro, a Fundação Nacional do Índio. É a mesma fonte, também, de outras matérias na revista com o mesmo teor antiíndigena;

7. Houve ma-fé no uso de informações desmentidas há tempos. As informações destacadas no mapa sobre a dita “Nação Guarani” – que revisaria limites territoriais nacionais e internacionais – e a demarcação contínua das terras do sul do Estado do Mato Grosso do Sul já foram desmentidas por indígenas e posteriormente por antropólogos e pela própria Funai, e novamente pelos indígenas durante as agendas de audiências públicas no Congresso Nacional na última semana.

8. Uso de apenas uma linha de entrevista, de maneira descontextualizada, com um único indígena – mesma fonte da matéria anterior sobre os Kaiowá e Guarani – no sentido de sugerir concordância com o texto conclusivo da matéria.

9. Exposição indevida da imagem de crianças indígenas em fotografia utilizada para ilustrar reportagem preconceituosa, com contornos sensacionalistas, ofensivos e que faz juízo de valor depreciativo de sua comunidade.

Dessa forma, o Conselho da Aty Guasu, grande assembléia dos povos Guarani Kaiowá, em conjunto com as demais organizações signatárias, vem a público denunciar a postura criminosa da Revista Veja.

A Aty Guasu Guarani e Kaiowá e a Comissão de Professores Guarani e Kaiowá exigem a investigação rigorosa e punição cabível dos responsáveis, bem como o direito de resposta aos Guarani e Kaiowá na revista Veja. Tais demandas também farão parte de Representação ao Ministério Público Federal para que este, dentro de suas competências constitucionais, tome as medidas necessárias. A imprensa é livre para se posicionar da forma que bem entenda – no entanto, os “fatos” que norteiam a reportagem citada são falsos. Não se trata de uma questão de opinião, e, sim, de irresponsabilidade. Os povos Guarani e Kaiowá já foram vitimados suficientemente por irresponsabilidades.

Dourados, 14 de novembro de 2012

Conselho Aty Guasu (Grande Assembleia do povo Guarani e Kaiowá)

Comissão de Professores Kaiowá e Guarani

Campanha Guarani

Coassinam:

Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, MG e ES (APOINME)

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET)

Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR)

Ação Nacional de Ação Indigenista (ANAÍ-BA)

Amigos da Terra Brasil

Associação Aritaguá

Associação de Moradores de Porto das Caixas

Associação Socioambiental Verdemar

Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé

Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Conselho Federal de Psicologia (CFP)

Conselho Indígenista Missionário (Cimi)

Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES)

Central Única das Favelas (CUFA-CEARÁ)

Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA)

Centro de Cultura Negra do Maranhão

Coordenação Nacional de Juventude Negra

Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (CEPEDES)

Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT)

Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)

CRIOLA – RJ

EKOS – Instituto para a Justiça e a Equidade – São Luís – MA

Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)

Fase Amazônia

Fase Nacional – Núcleo Brasil Sustentável

Frente em Defesa da Amazônia (FDA)

FIOCRUZ

Fórum Carajás – São Luís – MA

Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará

FUNAGUAS – Terezina – PI

Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)

Grupo Pesq. em Sustentabilidade, Impacto e Gestão Ambiental (UFPB)

Grupo Pesq. em Educação Ambiental da (GPEA/UFMT)

Grupo Pesq. Historicidade do Estado e do Direito (UFBA)

Justiça Global

IARA – RJ

Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)

Instituto Socioambiental (ISA)

Instituto para a Justiça e a Equidade (EKOS)

Instituto da Mulher Negra (GELEDÉS)

Instituto Nacional de Estudos Sócio-Econômicos (INESC)

Instituto Búzios

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense

Instituto Terramar

Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)

Inst. Nac. de Ciência e Tec. de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI)

Justiça Global

Mestrado Prof. em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Indígenas (CDS/UnB)

Movimento Brasil pelas Florestas

Movimento Cultura de Rua (MCR) – Fortaleza – CE

Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Movimento Cultura de Rua (MCR)

Movimento Inter-Religioso (MIR/Iser)

Movimento Popular de Saúde de Santo Amaro da Purificação (MOPS)

Movimento Wangari Maathai

Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental (Universidade Federal de São João del-Rei) – São João del-Rei – MG

Núcleo TRAMAS (Trabalho Meio Ambiente e Saúde para Sustentabilidade/UFC) – Fortaleza – CE

Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego – Macaé – RJ

Omolaiyè (Sociedade de Estudos Étnicos, Políticos, Sociais e Culturais) – Aracajú – SE

ONG. GDASI – Grupo de Defesa Ambiental e Social de Itacuruçá – Mangaratiba – RJ

OcupaBelém

OcupaSampa

Opção Brasil – São Paulo – SP

Oriashé Sociedade Brasileira de Cultura e Arte Negra – São Paulo – SP

Plataforma Dhesca Brasil

Projeto Recriar – Ouro Preto – MG

Rede Axé Dudu – Cuiabá – MT

Rede Matogrossense de Educação Ambiental – Cuiabá – MT

Rede Jubileu Sul Brasil

Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP)

Sociedade de Melhoramentos do São Manoel – São Manoel – SP

Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH)

Terra de Direitos – Organização de Direitos Humanos

TOXISPHERA – Associação de Saúde Ambiental – PR

Conhecimento não é fator determinante para formação de opinião sobre ciência (Fapesp)

Códigos morais e políticos podem influenciar muito mais as atitudes em relação a questões científicas e tecnológicas, aponta pesquisador (FAPESP)

14/11/2012

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – As pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia realizadas em diferentes países, incluindo o Brasil, com o objetivo de avaliar a opinião dos cidadãos sobre temas científicos e tecnológicos deparam com o desafio de explicar quais fatores influenciam atitudes, interesse e engajamento em relação a esses assuntos.

Isso porque, do conjunto de indicadores utilizados nessas pesquisas para analisar quais fatores são mais relevantes na formação de interesses e atitudes dos cidadãos sobre ciência e tecnologia – como renda, educação, idade e escolaridade –, nenhum deles consegue explicar minimamente a variabilidade das respostas.

“Tem alguma outra variável que não estamos medindo que determina o tipo de atitude das pessoas sobre ciência e tecnologia em geral”, disse Juri Castelfranchi, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante conferência sobre os desafios interpretativos e metodológicos para o estudo da percepção pública da ciência e tecnologia que proferiu no dia 27 de outubro no 2º Seminário Internacional Empírika.

Realizado nos dias 26 e 27 de outubro no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o evento integrou a programação da Feira Ibero-americana de Ciência, Tecnologia e Inovação (Empírika).

De acordo com Castelfranchi, um dos fatores que contribuem para a dificuldade de as pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia determinarem qual ou quais processos contribuem para a construção da opinião pública sobre o tema é que elas estão “baseadas na hipótese mal fundada e fundamentada de que as atitudes das pessoas em relação aos assuntos científicos e tecnológicos são moduladas pelo conhecimento que têm sobre esses temas”.

Tradicionalmente, segundo Castelfranchi, a maioria dos estudos realizados sobre o que faz com que as pessoas aceitem ou rejeitem a realização de uma pesquisa científica ou uma nova tecnologia focalizou o interesse, o conhecimento e as atitudes dos entrevistados em relação à ciência e tecnologia, baseado na ideia de que esses três aspectos estariam relacionados.

Dessa forma, as pessoas não interessadas teriam baixo nível de informação e tenderiam, em geral, a ter atitudes mais negativas em relação à ciência e tecnologia. Por outro lado, ao estimular o interesse dessas pessoas por temas científicos e tecnológicos seria possível melhorar o nível de conhecimento delas sobre essas áreas e, consequentemente, suas atitudes em relação à ciência e tecnologia se tornariam mais positivas.

Entretanto, pesquisas de campo demonstraram que essas premissas são falsas e que a situação real é muito mais complexa do que a defendida por esse modelo, que foi derrubado.

Em geral, de acordo com os resultados de estudos recentes na área, existe um grande interesse de boa parte da população sobre os temas de ciência e tecnologia, mas que não corresponde à busca de informação.

“Há grupos de público com baixa escolaridade, principalmente em países em desenvolvimento, que não conhecem e não buscam informação sobre ciência e que têm atitudes bastante positivas em relação à ciência e tecnologia”, disse Castelfranchi.

“Em contrapartida, alguns estudos detectaram que não é verdade que, ao aumentar o conhecimento, a atitude das pessoas se torna mais positiva. Em alguns casos ocorre o contrário, elas tendem a ser mais cautelosas e críticas”, disse.

Paradoxo do conhecimento versus atitude

Segundo Castelfranchi, um dos exemplos que ilustram essa suposta contradição, batizada de “paradoxo do conhecimento versus atitude”, é a questão dos transgênicos na Europa.

O continente, que é um dos que mais investem em ciência e tecnologia, decretou no início dos anos 2000 uma moratória contra os alimentos transgênicos após intensos debates entre segmentos da sociedade favoráveis e outros contrários à tecnologia, baseados no apelo emocional e argumentos mais de cunho econômico e político do que científico.

Uma pesquisa realizada em 1998 e replicada em 2010 em toda a Comunidade Europeia sobre o conhecimento e atitudes dos europeus em relação a aplicações biotecnológicas, incluindo alimentos e vacinas transgênicas, apontou que o fator risco não era determinante para a rejeição ou não da população à nova tecnologia.

Em muitos casos, os entrevistados responderam que algumas aplicações biotecnológicas eram perigosas, mas que eram úteis, moralmente aceitáveis e que deveriam ser encorajadas. Em outros casos, os participantes da pesquisa apontaram determinadas aplicações biotecnológicas como não tão perigosas, mas politicamente e moralmente questionáveis – como os transgênicos –, o que fez com que a tecnologia fosse rejeitada.

“Não foi o risco o fator mais relevante que levou à rejeição dos transgênicos na Europa, mas considerações políticas como, entre elas, o fato de a tecnologia ser controlada por multinacionais, ser patenteada e porque os países europeus eram contrários a monoculturas”, avaliou Castelfranchi.

A pesquisa também apontou que os cidadãos europeus que tinham conhecimento mais baixo não rejeitavam os transgênicos, mas não tinham uma opinião formada sobre eles. Por outro lado, os participantes com maior escolaridade tinham opiniões favoráveis ou contrárias mais definidas.

“O conhecimento não mudou a atitude dos cidadãos europeus em relação aos transgênicos, mas sim o fato de terem uma atitude mais definida em relação à tecnologia, a exemplo do que também pode ser observado no Brasil e em outros países ibero-americanos onde foram realizadas pesquisas do gênero”, disse Castelfranchi.

Na mais recente pesquisa Percepção pública da ciência e tecnologia, realizada no fim de 2010 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com mais de 2 mil pessoas em todo o país, nenhum dos grupos específicos, de diferentes níveis sociais e de escolaridade, respondeu que as tecnologias trazem mais malefícios do que benefícios, quando perguntados sobre isso.

Porém, os participantes que mais conheciam cientistas e instituições de pesquisa foram justamente os que declararam em maior proporção que os cientistas podem ser perigosos em função do conhecimento que possuem.

“Não há nenhuma associação entre baixa escolaridade e achar que a ciência é perigosa. Mas, pelo contrário: pessoas de alta escolaridade tendem a ter uma postura mais cautelosa tanto em relação aos benefícios como sobre os malefícios apresentados pela ciência e tecnologia”, afirmou Castelfranchi.

Valores morais e políticos

No caso do Brasil, um dos fatores relevantes que influenciam as atitudes dos brasileiros em relação à ciência e tecnologia, identificado por Castelfranchi e outros pesquisadores que analisaram os dados da pesquisa realizada pelo MCTI, é o porte das cidades onde os entrevistados moram.

Os pesquisadores constataram que os participantes da pesquisa que moram em cidades brasileiras de grande porte tendem a avaliar melhor os prós e contras do desenvolvimento tecnocientífico para responder se a ciência e tecnologia trazem só benefícios ou malefícios. Já as pessoas que residem em cidades pequenas têm uma chance ligeiramente maior de apontar que a ciência só traz benefícios.

Contudo, tanto essa variável como nenhuma outra, como o sexo dos entrevistados, não consegue explicar, por si só, a variabilidade das respostas se a ciência e a tecnologia trazem mais benefícios ou malefícios.

“Nenhum dos fatores analisados até agora implica as pessoas terem uma posição mais otimista ou pessimista sobre a ciência e a tecnologia. Tem outros pontos, que precisamos descobrir, que influenciam essa resposta”, avaliou Castelfranchi.

Uma das hipóteses levantadas pelo pesquisador é que os códigos morais e políticos das pessoas, como a religião, podem ser mais determinantes do que o conhecimento que elas possuem ou não para formar suas opiniões sobre aspectos específicos da ciência e da tecnologia.

Entre os participantes da pesquisa sobre percepção pública da ciência e tecnologia realizada pelo MCTI, os que se declararam católicos concordaram mais do que os evangélicos com uma das afirmações feitas durante o estudo de que por causa de seu conhecimento os cientistas têm poderes que os tornam perigosos e que a ciência tem que ser controlada socialmente.

“A trajetória e a orientação de vida e os valores morais das pessoas, provavelmente, exercem uma influência muito maior na modulação de suas atitudes em relação à ciência e tecnologia em geral e sobre aspectos específicos da pesquisa do que o nível de conhecimento que elas têm”, estima Castelfranchi.

Para comprovar essa hipótese, de acordo com o pesquisador, é preciso desenvolver novas metodologias qualitativas e quantitativas e grandes quantidades de observações etnográficas para verificar como as pessoas se posicionam em relação à ciência e tecnologia, abolindo a ideia de que isso está relacionado apenas ao nível de conhecimento.

“Precisamos renovar nossas metodologias de pesquisa e a forma como olhamos e interpretamos os dados das pesquisas de percepção pública da ciência e tecnologia para entender como as pessoas atribuem sentido e constroem suas opiniões sobre questões científicas e tecnológicas, para termos uma visão dinâmica de como formam suas atitudes”, afirmou Castelfranchi.

Pesquisa Datafolha/Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre a “integração” dos índios ao “modo de vida urbano”; Folha de S.Paulo e Veja + Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

[A Folha se alinha com a Veja; não está claro se por má fé, interesse comercial, ou obtusidade. RT]

10/11/2012 – 04h00

MATHEUS LEITÃO

DE BRASÍLIA

Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles.

Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular.

Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados.

Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.

De todo modo, os números ainda estão longe dos percentuais de acesso a bens de consumo da média da população. No Brasil como um todo, segundo o IBGE, 98% têm televisão; 82%, aparelho de DVD; e 79% têm celular.

A pesquisa teve ainda o intuito de avaliar as condições de vida dos indígenas.

Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde.

A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%).

Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids.

A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Algumas características das aldeias: 69% têm postos de saúde; 88%, escolas; 59%, igrejas; 19%, mercados; e 6%, farmácias.

Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

Dois terços dos indígenas recebem do Bolsa Família
Guaranis-caiovás reclamam da falta de recursos para plantar

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Pois é… as reservas indígenas brasileiras ocupam 13% do território nacional. Se depender da Funai e de alguns antropólogos do miolo mole, chega-se a 20%. A questão não está no número em si. Poder-se-ia destinar até 50% — desde que houvesse índios para tanto e que eles conseguissem tirar das imensas extensões de terra que dominam ao menos o suficiente para a sua subsistência. Mas não acontece. Não é só isso: as reservas são concedidas na suposição — falsa como nota de R$ 3 — de que aqueles enormes vazios econômicos em torno da comunidade são essenciais para que ela preserve sua cultura. Procurem na Internet a poesia indianista em prosa do ministro Ayres Britto, relator do caso Raposa Serra do Sol. Ele apelou a um índio que acabou junto com a literatura romântica. Ainda volto a esse aspecto.

Muito bem: pesquisa Datafolha demonstra que a maioria dos índios brasileiros está integrada às práticas próprias da vida urbana. Uma boa parcela conta com televisão, DVD, geladeira, celular… Esse aparato, não obstante, convive com a pobreza, razão por que quase a metade recebe cesta básica. Isso quer dizer que eles nem plantam nem caçam o que comem: vivem da caridade estatal — e em condições precárias.

As reservas são santuários para lustrar as aspirações de certa antropologia mistificadora, que ainda quer mais. Leiam o que informa Matheus Leitão naFolha. Volto depois:
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Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles. Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular. Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados. Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.
(…)
Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde. A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%). Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids. A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Bolsa família e cesta básica
A pesquisa sobre o perfil indígena feita pelo Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela que 64% dos índios são beneficiários do Programa Bolsa Família, recebendo em média R$ 153 por mês. A região Nordeste é a campeã do benefício: 76% dos índios recebem o programa social do governo. O Sul aparece em segundo com 71%; seguido do Centro-Oeste (63%), Norte (56%) e Sudeste (52%).

Mesmo com os benefícios, 36% afirmam ser insuficiente a quantidade de comida que consomem. A maioria dos índios (76%) bebe água que não é filtrada nem fervida. As doenças infectocontagiosas atingem 68% e os problemas estomacais, como diarreia e vômito, 45%. Os índios também afirmam que luz elétrica, água encanada, rede de esgoto e casa de alvenaria são muito importantes para eles.

Mais de 70% dos índios ouvidos atribuem muita relevância à atuação da Funai (Fundação Nacional do Índio) na sua aldeia. No entanto, 39% reprovam o desempenho do órgão, avaliando-o como ruim ou péssimo.

Cesta básica
Quase metade dos entrevistados (46%) relatou receber cesta básica da Funai ou da Funasa (Fundação Nacional da Saúde). Os índios da região Nordeste são os que mais recebem o benefício: 79%. Na região Norte apenas 7% ganham a cesta básica.

O acesso ao atendimento médico é considerado difícil por 63% dos índios; 69% deles foram atendidos em postos de saúde dentro da aldeia e 12% dentro de casa. Eles ainda usam mais os remédios naturais (66%) do que os farmacêuticos (34%). A maioria dos índios (66%) sabe ler, e 65% sabem escrever na língua portuguesa. Segundo a pesquisa, 30% exercem trabalho remunerado, mas somente 7% têm carteira assinada.

A agricultura é exercida por 94%, e 85% praticam a caça; 57% deles consideram que o tamanho das terras onde vivem é menor do que o necessário. Os índios também citaram algumas medidas governamentais que poderiam melhorar a vida dos indígenas no país: intervenções na área da saúde (25%), demarcação de terras (17%), reconhecimento dos direitos indígenas (16%), investimentos públicos (15%) e educação (15%).

Procurada anteontem, a Funai afirmou, pela assessoria de imprensa, que tinha muitas demandas e que não poderia responder às questões da reportagem até o encerramento desta edição. “A presidente [Marta Azevedo] está em viagem, sem disponibilidade de agenda. Ela seria a pessoa mais indicada para comentar a pesquisa”, afirmou, por e-mail.
(…)

Voltei
Viram só o que o modelo das reservas, que está em expansão (?!), provoca? Uma horda de miseráveis com celular, televisão e DVD. Prega-se a expansão das terras indígenas para que se produza ainda menos em um território maior… Com Raposa Serra do Sol, aconteceu o óbvio: os arrozeiros tiveram de ir embora, deixando atrás de si uma legião de desempregados. Na terra agora sob o controle de caciques ideológicos disfarçados de militantes indígenas, não se produz quase mais nada. Muitos dos índios foram viver como favelados em Boa Vista. A razão é simples: ser indígena não quer dizer ser… índio!

Leiam este trecho do voto de Ayres Britto (em vermelho):
(…) III – ter a chance de demonstrar que o seu tradicional habitat ora selvático ora em lavrados ou campos gerais é formador de um patrimônio imaterial que lhes dá uma consciência nativa de mundo e de vida que é de ser aproveitada como um componente da mais atualizada ideia de desenvolvimento,  que é o desenvolvimento como um crescer humanizado. Se se prefere, o desenvolvimento não só enquanto categoria econômica ou material, servida pelos mais avançados padrões de ciência, tecnologia e organização racional do trabalho e da produção, como  também permeado de valores que são a resultante de uma estrutura de personalidade ou modo pessoal indígena de ser mais obsequioso: a) da ideia de propriedade como um bem mais coletivo que individual; b) do não-enriquecimento pessoal à custa do empobrecimento alheio (inestimável componente ético de que a vida social brasileira tanto carece); c) de uma vida pessoal e familiar com simplicidade ou sem ostentação material e completamente avessa ao desvario consumista dos grandes centros urbanos; d) de um tipo não-predatoriamente competitivo de ocupação de espaços de trabalho, de sorte a desaguar na convergência de ações do mais coletivizado proveito e de uma vida social sem narsísicos desequilíbrios; e) da maximização de potencialidades sensórias que passam a responder pelo conhecimento direto das coisas presentes e pela premonição daquelas que a natureza ainda mantém em estado de germinação; f)de uma postura como que religiosa de respeito, agradecimento e louvor ao meio ambiente de que se retira o próprio sustento material e demais condições de sobrevivência telúrica, a significar a mais fina sintonia com a nossa monumental biodiversidade e mantença de um tipo de equilíbrio ecológico que hoje a Constituição brasileira rotula como “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” (art. 225,  caput), além de condição para todo desenvolvimento que mereça o qualificativo de sustentado.

Encerro
Esse índio acima descrito só existe na cabeça de Ayres Britto, como aqui falei tantas vezes. A tal integração “telúrica” com a natureza é uma fantasia. O desenvolvimento “sustentado” se faz com Bolsa Família e cesta básica — cedidas por nossa civilização tão egoísta…

Britto transformou os índios em grandes ecologistas, o que é uma piada até antropológica! Existissem realmente aos milhões, a Amazônia já seria uma savana. O ministro tem de descobrir que a ideia de preservação da natureza é um valor desta nossa triste civilização. Não tem nada a ver com índio, que não louva o meio ambiente nem retira da terra o sustento.

Com as terras de que dispõem, os índios poderiam estar é produzindo comida para os seus e para muitos outros brasileiros. Em vez disso, estão na fila do Bolsa Família e da cesta básica.

Por Reinaldo Azevedo

 

O que realmente querem os índios e o que alguns antropólogos querem que eles queiram…

11/11/2012

Já publiquei ontem um texto sobre a pesquisa Datafolha com índios brasileiros, encomendada pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). A VEJA desta semana traz novos e impressionantes números. Mas, afinal, o que querem os índios, leitor amigo? Ora, o que queremos todos nós: bem-estar. Ocorre que uma boa parcela deles, sob a tutela da Funai e da antropologia do miolo mole, vive muito mal, dependente da caridade do estado.

Nada menos de 13% do território brasileiro são destinados a reservas indígenas. E se reivindica ainda mais terra — uma reivindicação de antropólogos, não dos índios propriamente, que têm outras necessidades e outras ambições.

Reproduzo abaixo trecho do texto de Leonardo Coutinho publicado na revista, entremeado com alguns dados da pesquisa.
*
Uma das principais reclamações dos índios é a de não serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar atenção para suas reivindicações. Na maioria das vezes, a sociedade brasileira só fica sabendo de suas demandas por meio de intermediários — padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indígenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pôs fim a essa lacuna. É o mais completo levantamento das opiniões dos índios brasileiros já realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regiões do país e entrevistaram 1222 índios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta, maior, proporcionalmente, do que a que costuma ser usada nas sondagens eleitorais.

As respostas revelam que os índios têm aspirações semelhantes às da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que é apresentado pelos intermediários da causa indígena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupações cotidianas dos entrevistados. “A pesquisa libertará os índios da sua falsa imagem de anacronismo”, diz a presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD/TO).

Nove em cada dez índios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria. Quase metade dos indígenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de índios donos de automóveis e seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. “Ninguém deixa de ser índio por querer viver bem. É inaceitável que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em consideração a nossa vontade”, diz Antônio Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurinã, por causa da falta de condições adequadas nas áreas demarcadas, muitas aldeias passam por um êxodo sem precedentes.

Há quatro anos, 12 500 índios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30.000 vivam apinhados em construções precárias na cidade. Se a criação de reservas é alardeada como a demanda mais urgente dos povos indígenas, por que eles as estão abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os índios. O problema mais citado é a precariedade dos serviços de saúde. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacêuticos (que eles valorizam tanto quanto os remédios tradicionais) e de médicos. Em segundo lugar, está a falta de emprego. “Nós não vivemos mais como nos meus tempos de infância. A nova geração compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo o que os filhos do homem branco têm. Falar português, ir para a universidades e ser reconhecidos como brasileiros e índios”, diz o cacique Megaron Txucarramãe, um dos mais respeitados líderes caiapós, de Mato Grosso.
(…)


Por Reinaldo Azevedo

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Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

Por , 12/11/2012 19:29

Prezada Srª,

Lamentável e, porque não dizer, medíocre a matéria de Matheus Leitão que apresenta a “pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil” sobre “o perfil indígena brasileiro”, publicada hoje [ontem] na Folha de São Paulo – “um jornal a serviço do Brasil”. A rigor não sei se os predicados se aplicam a matéria, ou a “pesquisa” que ela se propõe a descrever/relatar.

A começar pelo objeto/objetivo da enquete (palavra mais adequada para definir o que o Datafolha faz, pois “pesquisa” com dados agregados gerais sobre povos indígenas é uma outra coisa): o que é “o perfil indígena brasileiro”? A julgar pela matéria sobre a enquete – que não sei se é parâmetro (ou não) para emitir um juízo sobre a mesma (mas vamos em frente) – referido perfil corresponde ao processamento de respostas a um conjunto de
perguntas pretensamente factuais e opinativas sobre o acesso a bens, serviços e políticas públicas. Isso é suficiente para definir “um perfil” – indígena ou não? Ou, perguntando de outro modo, é assim que se define “um perfil” – indígena ou não? O meu perfil, o seu, o nosso?

O primeiro parágrafo da descrição da metodologia – os “critérios” – seria patético, se não fosse trágico – dadas as consequências potencialmente nefastas da conclusão a que chegou a enquete (chegarei a esta já, já). Diz-se que o sorteio das aldeias teria “lev[ado] em conta a região em que se localizam e o tamanho da população indígena residente”, mas não se explicita como: Quantas e quais regiões? Considerou-se o que na definição destas? São as áreas etnográficas da América do Sul (Melatti), as regiões das Coordenações Regionais da FUNAI, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, os Territórios Etnoeducacionais? Quais os distintos agregados demográficos considerados? Enfim, sem explicitar nada disso, a matéria (Ou seria a enquete? Ou seria a matéria como análise conclusiva dos dados  produzidos pela enquete?) afirma que: “os dados são representativos dos índios brasileiros” e “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano”.

Ademais, ao indicar que “somente a população indígena brasileira que fala português” foi entrevistada, revela-se o completo descaso com a política linguística da enquete – aspecto fundamental em qualquer pesquisa com povos indígenas que almeje o predicado de “digna.” Quaisquer categorias nativas porventura existentes, que nos dariam os matizes como cada cultura interpreta a pergunta, processa o seu enunciado e a responde, foram – dada essa opção – solenemente ignoradas. Isso patenteia a abordagem geral etnocêntrica e colonial da enquete.

Sem entrar no mérito da imprecisão do termo “índios brasileiros” (com a teoria política e cultural e os preconceitos sobre os povos indígenas que lhe são subjacentes) e nem esperando – embora devesse esperar – que a FSP dialogasse com a vasta literatura antropológica e sociológica sobre: (i) mudança cultural (em especial a distinção entre “integração” e “assimilação”), parte da qual, inclusive, enfoca etnograficamente a situação de índios citadinos (veja-se, por exemplo, Urbanização e Tribalismo de Roberto Cardoso de Oliveira); e (ii) as redes de relação e os fluxos rural/urbano, aldeia/cidade, Terra Indígena/município; é espantosa a afirmação conclusiva, que, ao contrário do que supõem o autor da matéria e/ou o ideólogo da enquete, deveria ser não o ponto de chegada: “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano” – mas, sim, o ponto de partida para uma reflexão sobre as distintas e variadas condições em que os diversos povos indígenas se situam no Brasil de hoje. Diversidade e multiplicidade essa que a enquete anula em prol de um “perfil indígena” genericamente definido, que desconsidera aquilo que deveria ser o seu ponto de partida: a diversidade de modos de viver e existir que marcam o Brasil de hoje – seja em sua face indígena, seja em qualquer outra.

Não é necessário ter uma formação em Ciências Sociais muito sólida para ler a enquete naquilo que ela não diz, nas suas entrelinhas, nos objetivos e interesses que ela dissimula – na condição de encomenda da CNA ao Grupo Folha. Embora a enquete sinalize que 94% das pessoas entrevistadas exerçam a agricultura, e que a situação territorial figure em segundo lugar entre os principais problemas enfrentados pelos entrevistados – “tecnicamente empatado” [sic] com “as dificuldades de acesso à saúde”, em primeiro lugar; a conclusão telegráfica da enquete (ou seria da matéria, já não sei mais) conspira em favor da manutenção de um dos mais perniciosos preconceitos que pesam sobre os povos indígenas: que estes seriam seres de um passado remoto (e não povos que coabitam e coexistem conosco contemporaneamente, em sua multiplicidade de jeitos de viver) e que a sua “modernização” e/ou “urbanização” seria como que uma patologia a conspirar contra a sua autenticidade (e não uma das várias dimensões das constantes transformações a que seus múltiplos jeitos de viver estão submetidos) – razão pela qual, concluir-se-ia o raciocínio, não deveriam ser objeto de nenhum regime de atenção e/ou proteção especial.

Eis o alvo que mira a enquete-matéria como dispositivo de formação de opinião: as questões territoriais são secundárias para os povos indígenas, já que têm também outras preocupações e aspirações, e se beneficiam de programas governamentais de transferência de renda, razão pela qual a terra deveria ser eliminada da equação dos povos indígenas no futuro do país. Ao contrário, a terra constitui um problema para a expansão do chamado “setor produtivo” agrário nacional, representado pela instituição que encomendou a – isto é, pagou pela – enquete, motivo suficiente para que esses povos não muito outros tenham suas relações com seus territórios desenraizadas em benefício daquela expansão.

A que “Brasil”, de fato, esse jornal está “a serviço”?

Cordialmente,

Henyo T. Barretto Fº

Nós e os índios (Amálgama)

http://www.amalgama.blog.br/11/2012/nos-e-os-indios/

Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.

por Alfredo Cesar (05/11/2012)

1.

Em nenhum lugar do Brasil, a invisibilidade do índio talvez seja tão visível quanto na Avenida Paulista, em São Paulo. É ali, em frente ao Parque Trianon, dando de cara com o MASP, no meio de pessoas apressadas falando ao celular, buzinas de carros, barulho de motor e poluições de vários tipos, que fica localizada a estátua de Bartolomeu Bueno Dias, também conhecido como Diabo Velho (Anhanguera). Bartolomeu foi um bandeirante, conhecido matador de índio e saqueador de tribo. No entanto, se formos ao Houaiss e procurarmos o verbete “bandeirante”, nenhum desses significados estará lá – o que diz muito também de nosso silêncio e indiferença em relações aos índios. No dicionário, você descobrirá que “bandeirante” é sinônimo de “paulista”, além de significar “aquele que abre caminho; desbravador; precursor; pioneiro”. Os bandeirantes seriam uma espécie de “vanguarda” da colonização, o que casa bem com um lugar como São Paulo, cujos políticos ainda hoje se utilizam da infeliz metáfora da “locomotiva do Brasil” para definir o estado.

Vanguarda, desbravamento, locomotiva, non ducor duco (que está na bandeira da cidade de São Paulo e quer dizer “não sou conduzido, conduzo”) são signos que fazem parte de um mesmo campo discursivo: o do progresso arrojado. Se houve algum progresso no Brasil, esse foi o progresso da colonização, ou melhor, a progressão bandeirante lenta e contínua para o oeste, escravizando indígenas, apropriando-se dos recursos de sua terra, aniquilando sua cultura. Avançamos na terra e na cultura dos outros. Progresso, progressão, invasão. E continuamos fazendo isso: seja com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul; seja com os desalojados das construções da Copa do Mundo; seja com os índios da bacia Xingu que serão desterrados pela Usina de Belo Monte. As elites brasileiras continuam progredindo em cima de terras, pessoas e direitos.

Não nos enganemos. Nosso imaginário desenvolvimentista – essa necessidade e desejo de crescer e expandir em moto-contínuo – está calcado no espírito do bandeirantismo, que nada mais é a lógica do colonizador. Bartolomeu Bueno da Silva nos representa mais do que gostaríamos.

2.

Como aprendemos na escola secundária, os romances Iracema (1865) e O Guarani (1857) de José de Alencar são considerados ficções fundacionais da nação. Embora sejam textos fortemente ideológicos – uma vez que deliberadamente escamoteiam a violência genocida do encontro colonial para narrar tal encontro numa moldura conciliatória –, carregam em si um núcleo de verdade: o desejo do letrado brasileiro – o narrador dessa história dos vencedores – de moer qualquer traço de alteridade cultural no moinho da ocidentalização. Nas palavras certeiras de Alfredo Bosi, o indianismo alencarino não passava de um mito sacrificial dos índios, no qual estes só atingiriam a nobreza quando fossem capazes de se auto-imolar. Os índios Peri, de O Guarani, e Iracema, personagem central do romance homônimo, se tornam heróis na medida em que se anulam e se sacrificam em gesto de servidão aos colonizadores portugueses. Peri se converte ao cristianismo para se unir à portuguesa Cecília e, com ela, formar o povo brasileiro. Iracema trai o seu povo tabajara para ficar com o lusitano Martim. Do fruto desse encontro, nasce Moacir, o primeiro brasileiro. Depois de cumprida sua missão no processo civilizatório brasileiro, Iracema morre. O indianismo alencarino foi assim um elogio à submissão do indígena à sabedoria europeia. Bom índio é aquele que se ocidentaliza. Que muda de lado. Que nega seu povo. Que está disposto a aniquilar a sua cultura, e até a vida, para contribuir com anação.

Um pouco mais de cem anos depois, João Guimarães Rosa, no conto “Meu tio o iauaretê”, se propõe a questionar essa relação colonial, evocando uma outra lógica. Se os mestiços “alencarinos” são cristianizados e ocidentalizados, o que aconteceria se o mestiço escolhesse o outro lado da mistura que o compõe?

“Meu tio o iauaretê” conta a história de Tonho Tigreiro, caçador de onças, contratado por um fazendeiro, Nhô Nhuão Guede, para desonçar um certo território. Em outras palavras, o caçador é chamado para livrar o terreno das onças, permitindo que aquele pedaço de terra possa ganhar uma utilidade econômica. Desonçar a terra faz parte de uma operação bandeirante (sem trocadilhos). No entanto, de tanto viver isolado dos homens, o caçador começa a ter mais simpatia pelas onças do que por gente, e passa a defendê-las. O caçador escolhe claramente um lado: o das onças, da natureza, dos animais, enfim, o lado da terra onde vive. É o mesmo “lado” que os índios defendem no seu esforço de resistência aos (neo)bandeirantes que invadem sua terra. Daí a conclusão da leitura que antropólogo Eduardo Viveiros de Castro faz do conto rosiano:

Não é um texto sobre o devir-animal, é um texto sobre o devir-índio. Ele descreve como é que um mestiço revira índio, e como é que todo mestiço, quando vira índio – isto é, quando se desmestiça– o branco mata. Essa é que é a moral da história. Muito cuidado quando você inverter a marcha inexorável do progresso que vai do índio ao branco passando pelo mestiço. Quando você procura voltar de mestiço para índio como faz o onceiro do conto, você termina morto por uma bala disparada por um revólver de branco.

Tudo que foge da lógica da anexação, da incorporação, da integração, é eliminado. Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.

3.

Em Tristes trópicos, Claude Levi-Strauss lembra de uma conversa que teve com o embaixador do Brasil na França, Luís de Sousa Dantas, ocorrida em 1934, na qual o diplomata brasileiro havia comunicado a Levi-Strauss que não existia mais índios no Brasil. Haviam sido todos eles dizimados pelos portugueses, lamentava Sousa Dantas. E assim concluía: o Brasil seria interessante para um sociólogo, mas não para um antropólogo, pois Levi-Strauss não encontraria em nosso país um índio sequer. Nós não sabemos se Sousa Dantas nega a existência dos índios por ignorância, ou simplesmente para ocultar um aspecto do país que o diplomata brasileiro certamente considerava “arcaico”, uma vez que a existência de “primitivos” não bendizia os padrões civilizatórios da nação diante de um estudioso europeu.

Mas quem de nós nunca agiu como Sousa Dantas? Qual foi o brasileiro que, no exterior, nunca se indignou com uma pergunta de um gringo mal-informado que sugeria que nós tivéssemos hábitos próximos ao dos índios? Eis o motivo de nossa indignação: como podem nos confundir com tupiniquins (palavra usada pejorativamente por nós brasileiros para nos definirmos como povo atrasado), se nós somos industrializados, urbanizados, temos carros, trânsito infernal, sofremos com poluição e tomamos Prozac para resolver nossos problemas emocionais? Em outras palavras, como podem nos acusar de “primitivos” se desfrutamos de todas estas maravilhas da civilização moderna?

Se por um lado, hoje, os brasileiros sabemos da existência empírica dos índios, por outro lado, negamos sua existência como nossos contemporâneos, e essa é a raíz da indignação diante de uma possível confusão entre nós, brasileiros, e um povo que, na cabeça de tantos, ainda não evoluiu. Ora, de todos os esforços pedagógicos para descolonizar o imaginário brasileiro, talvez esse seja o mais importante: de mostrar como nós precisamos urgentemente do diálogo com os índios. Devemos abandonar a ótica paternalista (do Estado brasileiro) que infantiliza o índio, enxergando-o como artefato do antiquário nacional, que para alguns deve ser incorporado à nação, enquanto para outros deve ser preservado tal como está. Esse é um falso dilema, pois reifica o índio. Devemos, sim, estabelecer com os índios uma relação de interlocução, com a qual temos muito que aprender.

Nossa civilização criou formas de vida que beiram a inviabilidade. Emporcalhamos nossas cidades; poluímos nosso mar, nossos rios, nosso ar; destruímos nossa natureza; criamos necessidades que nunca serão preenchidas a contento, gerando inúmeras frustrações, tamanha é a roda-viva do consumismo que determina nosso estilo de vida. Segundo Celso Furtado (que hoje, graças a Dilma Rousseff, dá nome a um petroleiro), no seu O mito do desenvolvimento econômico, “[o] custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana.” Quanto mais universalizamos nosso consumismo predador, mais rápido destruímos nosso ambiente e planeta. O que teríamos a aprender, afinal, com os índios?

O que dizer de um povo que vive há milênios em co-adaptação com o ecossistema amazônico, tirando da floresta o sustento da vida, em vez de tirar a floresta de sua vida (uso aqui o jogo de palavras do próprio texto de Viveiros de Castro)? Os índios são radicalmente cosmopolitas. A palavra “cosmopolita” quer dizer “cidadão do mundo”. Cosmos, na filosofia grega significa “universo organizado de maneira regular e integrada”. Se permanecermos fiéis à etimologia da palavra, cosmopolita seria então o cidadão de um universo harmonioso (cosmo é o antônimo de caos). Por anos, filósofos antigos e modernos têm pensado o termo “cosmopolitismo” como uma técnica de convivência entre povos. O cosmopolitismo radical dos índios nada mais é que uma técnica de convivência e co-adaptação com o cosmo – o universo, o ambiente, o planeta. A destruição do planeta hoje parece mais plausível em decorrência da falta do cosmopolitismo radical dos índios do que do cosmopolitismo dos filósofos. O que teríamos a aprender com os índios? Algo muito simples e complexo: aprender a habitar o planeta.

4.

Pensar o índio no Brasil é particularmente difícil, pois as representações que temos do índio o colocam além da alteridade. O “outro” da cultura brasileira – narrada, claro, da posição do letrado urbano euro-brasileiro – é, com o perdão da redundância, outro. Ou melhor, são outros: o sertanejo, o retirante, o negro, o favelado.

Investigando sobre os motivos que levaram a esquerda brasileira a negligenciar o índio, Pádua Fernandes lembra que a esquerda revolucionária dos anos 70 – de onde saiu boa parte do Partido dos Trabalhadores – discutia a relação entre cidade e campo, mas era incapaz de pensar a floresta. Em parte, isso se deve à importação direta das categorias euromarxistas (e, claro, graças ao abismo das Tordesilhas, que separa o Brasil da América Hispânica; a esquerda brasileira nunca deu muita bola para o indo-socialismo do peruano José Carlos Mariátegui). No entanto, mais do que ser um problema de cegueira por parte de segmentos da esquerda, a invisibilidade do índio talvez se remeta à maneira como pensamos o “povo” brasileiro, dentro do paradigma nacional-popular.

De acordo com esse paradigma, que estruturou a imaginação brasileira durante o século 20, o povo é o sertanejo de Os sertões, “rocha da nacionalidade”; o negro de Casa-grande & senzala e da vasta bibliografia sociológica e historiográfica que veio a seguir; os retirantes desesperados Manuel e Rosa de Deus e o diabo na terra do sol; o ingênuo Fabiano de Vidas Secas; a comovente Macabéa de A hora da estrela, além de tantos outros personagens e temas das nossas produções culturais. A consciência social do letrado urbano brasileiro foi construída a partir da ideia de que o povo brasileiro – na sua imensa maioria pobre, desassistido, negromestiço – necessita ser integrado à modernidade, à cidadania plena, a um sistema educacional justo e ao conforto material.

A eleição do presidente Lula em 2002 talvez tenha sido o evento mais importante de nossa democracia exatamente porque mexeu profundamente com nossa imaginação nacional-popular: pela primeira vez, o povo assumia o poder. Fabiano, Macabéa, Manuel e Rosa estavam todos representados na figura carismática de Lula. E não se pode negar que o governo Lula muito melhorou a vida do “povo brasileiro”, garantindo acesso a bens e direitos antes impensáveis. O progresso finalmente havia chegado ao andar de baixo, que agora podia comprar televisão, andar de avião e até passear de cruzeiro. Nunca antes na história desse país, o povo esteve mais integrado aos padrões de consumo do mundo civilizado.

O mesmo governo que tanto fez para tanta gente (e atuou como uma força descolonizadora no tocante às ações afirmativas e na introdução de história africana no ensino médio), é aquele que age como um poder colonizador na Amazônia, e aliado objetivo dos fazendeiros do agronegócio no Mato Grosso do Sul. Desse modo, o Estado e seus sócios ocupam a terra com prerrogativa desenvolvimentista, como se fosse um território vazio, pronto para o usufruto dos agentes econômicos. Nada muito diferente dos bandeirantes. O que antes vinha coberto com retórica de missão civilizatória cristã, agora é celebrado como a chegada do progresso. Nos dois tipos de bandeirantismo, a destruição vem justificada por um discurso de salvação. O índio que habita nessas terras é tratado simplesmente como obstáculo que deve ser removido em nome do progresso da nação (progresso no caso representa: carne de gado no Mato Grosso e energia elétrica para indústrias do alumínio na Amazônia).

O índio apresenta um desafio para o pensamento da esquerda no Brasil. Um desafio que ainda não foi pensado como desafio, pois a esquerda ainda enxerga a “questão indígena” como umproblema que deve ser resolvido. O desafio, ao contrário do problema, não exige uma resolução, mas uma autorreflexão. Os índios nos fazem repensar nosso modo de vida, e até mesmo o conceito de nação. Como salientei, o índio não se insere na matriz nacional-popular que mobiliza tanto a nossa imaginação. E não se insere nela pois, ao contrário do retirante, do favelado, do pobre, do negro, o índio não está buscando integração à modernidade (a grande promessa do lulismo às massas). Os índios parecem querer reconhecimento do seu modo de vida (como se pode ver nessa entrevista de Davi Kopenawa). E, para viver do jeito que sabem viver, é necessário garantir as condições mínimas de possibilidade para sua vida: terra e rios que não sejam dizimados pela usina de Belo Monte, nem pelo garimpo; segurança e tranquilidade para não serem acossados pelos capangas do agronegócio, como no Mato Grosso do Sul. Essas são as grandes lutas hoje.

A luta pelos direitos indígenas vai muito além de uma quitação da nossa dívida histórica. Mais do que um acerto de contas com nosso passado, a garantia dos direitos constitucionais dos índios é imprescindível para o nosso futuro. Precisamos cada dia mais da sabedoria desses cosmopolitas radicais, se quisermos repensar e refundar os pressupostos de nossa existência planetária.