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Pesquisa Datafolha/Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre a “integração” dos índios ao “modo de vida urbano”; Folha de S.Paulo e Veja + Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

[A Folha se alinha com a Veja; não está claro se por má fé, interesse comercial, ou obtusidade. RT]

10/11/2012 – 04h00

MATHEUS LEITÃO

DE BRASÍLIA

Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles.

Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular.

Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados.

Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.

De todo modo, os números ainda estão longe dos percentuais de acesso a bens de consumo da média da população. No Brasil como um todo, segundo o IBGE, 98% têm televisão; 82%, aparelho de DVD; e 79% têm celular.

A pesquisa teve ainda o intuito de avaliar as condições de vida dos indígenas.

Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde.

A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%).

Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids.

A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Algumas características das aldeias: 69% têm postos de saúde; 88%, escolas; 59%, igrejas; 19%, mercados; e 6%, farmácias.

Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

Dois terços dos indígenas recebem do Bolsa Família
Guaranis-caiovás reclamam da falta de recursos para plantar

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Pois é… as reservas indígenas brasileiras ocupam 13% do território nacional. Se depender da Funai e de alguns antropólogos do miolo mole, chega-se a 20%. A questão não está no número em si. Poder-se-ia destinar até 50% — desde que houvesse índios para tanto e que eles conseguissem tirar das imensas extensões de terra que dominam ao menos o suficiente para a sua subsistência. Mas não acontece. Não é só isso: as reservas são concedidas na suposição — falsa como nota de R$ 3 — de que aqueles enormes vazios econômicos em torno da comunidade são essenciais para que ela preserve sua cultura. Procurem na Internet a poesia indianista em prosa do ministro Ayres Britto, relator do caso Raposa Serra do Sol. Ele apelou a um índio que acabou junto com a literatura romântica. Ainda volto a esse aspecto.

Muito bem: pesquisa Datafolha demonstra que a maioria dos índios brasileiros está integrada às práticas próprias da vida urbana. Uma boa parcela conta com televisão, DVD, geladeira, celular… Esse aparato, não obstante, convive com a pobreza, razão por que quase a metade recebe cesta básica. Isso quer dizer que eles nem plantam nem caçam o que comem: vivem da caridade estatal — e em condições precárias.

As reservas são santuários para lustrar as aspirações de certa antropologia mistificadora, que ainda quer mais. Leiam o que informa Matheus Leitão naFolha. Volto depois:
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Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles. Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular. Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados. Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.
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Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde. A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%). Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids. A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Bolsa família e cesta básica
A pesquisa sobre o perfil indígena feita pelo Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela que 64% dos índios são beneficiários do Programa Bolsa Família, recebendo em média R$ 153 por mês. A região Nordeste é a campeã do benefício: 76% dos índios recebem o programa social do governo. O Sul aparece em segundo com 71%; seguido do Centro-Oeste (63%), Norte (56%) e Sudeste (52%).

Mesmo com os benefícios, 36% afirmam ser insuficiente a quantidade de comida que consomem. A maioria dos índios (76%) bebe água que não é filtrada nem fervida. As doenças infectocontagiosas atingem 68% e os problemas estomacais, como diarreia e vômito, 45%. Os índios também afirmam que luz elétrica, água encanada, rede de esgoto e casa de alvenaria são muito importantes para eles.

Mais de 70% dos índios ouvidos atribuem muita relevância à atuação da Funai (Fundação Nacional do Índio) na sua aldeia. No entanto, 39% reprovam o desempenho do órgão, avaliando-o como ruim ou péssimo.

Cesta básica
Quase metade dos entrevistados (46%) relatou receber cesta básica da Funai ou da Funasa (Fundação Nacional da Saúde). Os índios da região Nordeste são os que mais recebem o benefício: 79%. Na região Norte apenas 7% ganham a cesta básica.

O acesso ao atendimento médico é considerado difícil por 63% dos índios; 69% deles foram atendidos em postos de saúde dentro da aldeia e 12% dentro de casa. Eles ainda usam mais os remédios naturais (66%) do que os farmacêuticos (34%). A maioria dos índios (66%) sabe ler, e 65% sabem escrever na língua portuguesa. Segundo a pesquisa, 30% exercem trabalho remunerado, mas somente 7% têm carteira assinada.

A agricultura é exercida por 94%, e 85% praticam a caça; 57% deles consideram que o tamanho das terras onde vivem é menor do que o necessário. Os índios também citaram algumas medidas governamentais que poderiam melhorar a vida dos indígenas no país: intervenções na área da saúde (25%), demarcação de terras (17%), reconhecimento dos direitos indígenas (16%), investimentos públicos (15%) e educação (15%).

Procurada anteontem, a Funai afirmou, pela assessoria de imprensa, que tinha muitas demandas e que não poderia responder às questões da reportagem até o encerramento desta edição. “A presidente [Marta Azevedo] está em viagem, sem disponibilidade de agenda. Ela seria a pessoa mais indicada para comentar a pesquisa”, afirmou, por e-mail.
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Voltei
Viram só o que o modelo das reservas, que está em expansão (?!), provoca? Uma horda de miseráveis com celular, televisão e DVD. Prega-se a expansão das terras indígenas para que se produza ainda menos em um território maior… Com Raposa Serra do Sol, aconteceu o óbvio: os arrozeiros tiveram de ir embora, deixando atrás de si uma legião de desempregados. Na terra agora sob o controle de caciques ideológicos disfarçados de militantes indígenas, não se produz quase mais nada. Muitos dos índios foram viver como favelados em Boa Vista. A razão é simples: ser indígena não quer dizer ser… índio!

Leiam este trecho do voto de Ayres Britto (em vermelho):
(…) III – ter a chance de demonstrar que o seu tradicional habitat ora selvático ora em lavrados ou campos gerais é formador de um patrimônio imaterial que lhes dá uma consciência nativa de mundo e de vida que é de ser aproveitada como um componente da mais atualizada ideia de desenvolvimento,  que é o desenvolvimento como um crescer humanizado. Se se prefere, o desenvolvimento não só enquanto categoria econômica ou material, servida pelos mais avançados padrões de ciência, tecnologia e organização racional do trabalho e da produção, como  também permeado de valores que são a resultante de uma estrutura de personalidade ou modo pessoal indígena de ser mais obsequioso: a) da ideia de propriedade como um bem mais coletivo que individual; b) do não-enriquecimento pessoal à custa do empobrecimento alheio (inestimável componente ético de que a vida social brasileira tanto carece); c) de uma vida pessoal e familiar com simplicidade ou sem ostentação material e completamente avessa ao desvario consumista dos grandes centros urbanos; d) de um tipo não-predatoriamente competitivo de ocupação de espaços de trabalho, de sorte a desaguar na convergência de ações do mais coletivizado proveito e de uma vida social sem narsísicos desequilíbrios; e) da maximização de potencialidades sensórias que passam a responder pelo conhecimento direto das coisas presentes e pela premonição daquelas que a natureza ainda mantém em estado de germinação; f)de uma postura como que religiosa de respeito, agradecimento e louvor ao meio ambiente de que se retira o próprio sustento material e demais condições de sobrevivência telúrica, a significar a mais fina sintonia com a nossa monumental biodiversidade e mantença de um tipo de equilíbrio ecológico que hoje a Constituição brasileira rotula como “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” (art. 225,  caput), além de condição para todo desenvolvimento que mereça o qualificativo de sustentado.

Encerro
Esse índio acima descrito só existe na cabeça de Ayres Britto, como aqui falei tantas vezes. A tal integração “telúrica” com a natureza é uma fantasia. O desenvolvimento “sustentado” se faz com Bolsa Família e cesta básica — cedidas por nossa civilização tão egoísta…

Britto transformou os índios em grandes ecologistas, o que é uma piada até antropológica! Existissem realmente aos milhões, a Amazônia já seria uma savana. O ministro tem de descobrir que a ideia de preservação da natureza é um valor desta nossa triste civilização. Não tem nada a ver com índio, que não louva o meio ambiente nem retira da terra o sustento.

Com as terras de que dispõem, os índios poderiam estar é produzindo comida para os seus e para muitos outros brasileiros. Em vez disso, estão na fila do Bolsa Família e da cesta básica.

Por Reinaldo Azevedo

 

O que realmente querem os índios e o que alguns antropólogos querem que eles queiram…

11/11/2012

Já publiquei ontem um texto sobre a pesquisa Datafolha com índios brasileiros, encomendada pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). A VEJA desta semana traz novos e impressionantes números. Mas, afinal, o que querem os índios, leitor amigo? Ora, o que queremos todos nós: bem-estar. Ocorre que uma boa parcela deles, sob a tutela da Funai e da antropologia do miolo mole, vive muito mal, dependente da caridade do estado.

Nada menos de 13% do território brasileiro são destinados a reservas indígenas. E se reivindica ainda mais terra — uma reivindicação de antropólogos, não dos índios propriamente, que têm outras necessidades e outras ambições.

Reproduzo abaixo trecho do texto de Leonardo Coutinho publicado na revista, entremeado com alguns dados da pesquisa.
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Uma das principais reclamações dos índios é a de não serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar atenção para suas reivindicações. Na maioria das vezes, a sociedade brasileira só fica sabendo de suas demandas por meio de intermediários — padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indígenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pôs fim a essa lacuna. É o mais completo levantamento das opiniões dos índios brasileiros já realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regiões do país e entrevistaram 1222 índios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta, maior, proporcionalmente, do que a que costuma ser usada nas sondagens eleitorais.

As respostas revelam que os índios têm aspirações semelhantes às da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que é apresentado pelos intermediários da causa indígena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupações cotidianas dos entrevistados. “A pesquisa libertará os índios da sua falsa imagem de anacronismo”, diz a presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD/TO).

Nove em cada dez índios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria. Quase metade dos indígenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de índios donos de automóveis e seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. “Ninguém deixa de ser índio por querer viver bem. É inaceitável que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em consideração a nossa vontade”, diz Antônio Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurinã, por causa da falta de condições adequadas nas áreas demarcadas, muitas aldeias passam por um êxodo sem precedentes.

Há quatro anos, 12 500 índios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30.000 vivam apinhados em construções precárias na cidade. Se a criação de reservas é alardeada como a demanda mais urgente dos povos indígenas, por que eles as estão abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os índios. O problema mais citado é a precariedade dos serviços de saúde. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacêuticos (que eles valorizam tanto quanto os remédios tradicionais) e de médicos. Em segundo lugar, está a falta de emprego. “Nós não vivemos mais como nos meus tempos de infância. A nova geração compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo o que os filhos do homem branco têm. Falar português, ir para a universidades e ser reconhecidos como brasileiros e índios”, diz o cacique Megaron Txucarramãe, um dos mais respeitados líderes caiapós, de Mato Grosso.
(…)


Por Reinaldo Azevedo

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Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

Por , 12/11/2012 19:29

Prezada Srª,

Lamentável e, porque não dizer, medíocre a matéria de Matheus Leitão que apresenta a “pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil” sobre “o perfil indígena brasileiro”, publicada hoje [ontem] na Folha de São Paulo – “um jornal a serviço do Brasil”. A rigor não sei se os predicados se aplicam a matéria, ou a “pesquisa” que ela se propõe a descrever/relatar.

A começar pelo objeto/objetivo da enquete (palavra mais adequada para definir o que o Datafolha faz, pois “pesquisa” com dados agregados gerais sobre povos indígenas é uma outra coisa): o que é “o perfil indígena brasileiro”? A julgar pela matéria sobre a enquete – que não sei se é parâmetro (ou não) para emitir um juízo sobre a mesma (mas vamos em frente) – referido perfil corresponde ao processamento de respostas a um conjunto de
perguntas pretensamente factuais e opinativas sobre o acesso a bens, serviços e políticas públicas. Isso é suficiente para definir “um perfil” – indígena ou não? Ou, perguntando de outro modo, é assim que se define “um perfil” – indígena ou não? O meu perfil, o seu, o nosso?

O primeiro parágrafo da descrição da metodologia – os “critérios” – seria patético, se não fosse trágico – dadas as consequências potencialmente nefastas da conclusão a que chegou a enquete (chegarei a esta já, já). Diz-se que o sorteio das aldeias teria “lev[ado] em conta a região em que se localizam e o tamanho da população indígena residente”, mas não se explicita como: Quantas e quais regiões? Considerou-se o que na definição destas? São as áreas etnográficas da América do Sul (Melatti), as regiões das Coordenações Regionais da FUNAI, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, os Territórios Etnoeducacionais? Quais os distintos agregados demográficos considerados? Enfim, sem explicitar nada disso, a matéria (Ou seria a enquete? Ou seria a matéria como análise conclusiva dos dados  produzidos pela enquete?) afirma que: “os dados são representativos dos índios brasileiros” e “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano”.

Ademais, ao indicar que “somente a população indígena brasileira que fala português” foi entrevistada, revela-se o completo descaso com a política linguística da enquete – aspecto fundamental em qualquer pesquisa com povos indígenas que almeje o predicado de “digna.” Quaisquer categorias nativas porventura existentes, que nos dariam os matizes como cada cultura interpreta a pergunta, processa o seu enunciado e a responde, foram – dada essa opção – solenemente ignoradas. Isso patenteia a abordagem geral etnocêntrica e colonial da enquete.

Sem entrar no mérito da imprecisão do termo “índios brasileiros” (com a teoria política e cultural e os preconceitos sobre os povos indígenas que lhe são subjacentes) e nem esperando – embora devesse esperar – que a FSP dialogasse com a vasta literatura antropológica e sociológica sobre: (i) mudança cultural (em especial a distinção entre “integração” e “assimilação”), parte da qual, inclusive, enfoca etnograficamente a situação de índios citadinos (veja-se, por exemplo, Urbanização e Tribalismo de Roberto Cardoso de Oliveira); e (ii) as redes de relação e os fluxos rural/urbano, aldeia/cidade, Terra Indígena/município; é espantosa a afirmação conclusiva, que, ao contrário do que supõem o autor da matéria e/ou o ideólogo da enquete, deveria ser não o ponto de chegada: “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano” – mas, sim, o ponto de partida para uma reflexão sobre as distintas e variadas condições em que os diversos povos indígenas se situam no Brasil de hoje. Diversidade e multiplicidade essa que a enquete anula em prol de um “perfil indígena” genericamente definido, que desconsidera aquilo que deveria ser o seu ponto de partida: a diversidade de modos de viver e existir que marcam o Brasil de hoje – seja em sua face indígena, seja em qualquer outra.

Não é necessário ter uma formação em Ciências Sociais muito sólida para ler a enquete naquilo que ela não diz, nas suas entrelinhas, nos objetivos e interesses que ela dissimula – na condição de encomenda da CNA ao Grupo Folha. Embora a enquete sinalize que 94% das pessoas entrevistadas exerçam a agricultura, e que a situação territorial figure em segundo lugar entre os principais problemas enfrentados pelos entrevistados – “tecnicamente empatado” [sic] com “as dificuldades de acesso à saúde”, em primeiro lugar; a conclusão telegráfica da enquete (ou seria da matéria, já não sei mais) conspira em favor da manutenção de um dos mais perniciosos preconceitos que pesam sobre os povos indígenas: que estes seriam seres de um passado remoto (e não povos que coabitam e coexistem conosco contemporaneamente, em sua multiplicidade de jeitos de viver) e que a sua “modernização” e/ou “urbanização” seria como que uma patologia a conspirar contra a sua autenticidade (e não uma das várias dimensões das constantes transformações a que seus múltiplos jeitos de viver estão submetidos) – razão pela qual, concluir-se-ia o raciocínio, não deveriam ser objeto de nenhum regime de atenção e/ou proteção especial.

Eis o alvo que mira a enquete-matéria como dispositivo de formação de opinião: as questões territoriais são secundárias para os povos indígenas, já que têm também outras preocupações e aspirações, e se beneficiam de programas governamentais de transferência de renda, razão pela qual a terra deveria ser eliminada da equação dos povos indígenas no futuro do país. Ao contrário, a terra constitui um problema para a expansão do chamado “setor produtivo” agrário nacional, representado pela instituição que encomendou a – isto é, pagou pela – enquete, motivo suficiente para que esses povos não muito outros tenham suas relações com seus territórios desenraizadas em benefício daquela expansão.

A que “Brasil”, de fato, esse jornal está “a serviço”?

Cordialmente,

Henyo T. Barretto Fº

Nós e os índios (Amálgama)

http://www.amalgama.blog.br/11/2012/nos-e-os-indios/

Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.

por Alfredo Cesar (05/11/2012)

1.

Em nenhum lugar do Brasil, a invisibilidade do índio talvez seja tão visível quanto na Avenida Paulista, em São Paulo. É ali, em frente ao Parque Trianon, dando de cara com o MASP, no meio de pessoas apressadas falando ao celular, buzinas de carros, barulho de motor e poluições de vários tipos, que fica localizada a estátua de Bartolomeu Bueno Dias, também conhecido como Diabo Velho (Anhanguera). Bartolomeu foi um bandeirante, conhecido matador de índio e saqueador de tribo. No entanto, se formos ao Houaiss e procurarmos o verbete “bandeirante”, nenhum desses significados estará lá – o que diz muito também de nosso silêncio e indiferença em relações aos índios. No dicionário, você descobrirá que “bandeirante” é sinônimo de “paulista”, além de significar “aquele que abre caminho; desbravador; precursor; pioneiro”. Os bandeirantes seriam uma espécie de “vanguarda” da colonização, o que casa bem com um lugar como São Paulo, cujos políticos ainda hoje se utilizam da infeliz metáfora da “locomotiva do Brasil” para definir o estado.

Vanguarda, desbravamento, locomotiva, non ducor duco (que está na bandeira da cidade de São Paulo e quer dizer “não sou conduzido, conduzo”) são signos que fazem parte de um mesmo campo discursivo: o do progresso arrojado. Se houve algum progresso no Brasil, esse foi o progresso da colonização, ou melhor, a progressão bandeirante lenta e contínua para o oeste, escravizando indígenas, apropriando-se dos recursos de sua terra, aniquilando sua cultura. Avançamos na terra e na cultura dos outros. Progresso, progressão, invasão. E continuamos fazendo isso: seja com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul; seja com os desalojados das construções da Copa do Mundo; seja com os índios da bacia Xingu que serão desterrados pela Usina de Belo Monte. As elites brasileiras continuam progredindo em cima de terras, pessoas e direitos.

Não nos enganemos. Nosso imaginário desenvolvimentista – essa necessidade e desejo de crescer e expandir em moto-contínuo – está calcado no espírito do bandeirantismo, que nada mais é a lógica do colonizador. Bartolomeu Bueno da Silva nos representa mais do que gostaríamos.

2.

Como aprendemos na escola secundária, os romances Iracema (1865) e O Guarani (1857) de José de Alencar são considerados ficções fundacionais da nação. Embora sejam textos fortemente ideológicos – uma vez que deliberadamente escamoteiam a violência genocida do encontro colonial para narrar tal encontro numa moldura conciliatória –, carregam em si um núcleo de verdade: o desejo do letrado brasileiro – o narrador dessa história dos vencedores – de moer qualquer traço de alteridade cultural no moinho da ocidentalização. Nas palavras certeiras de Alfredo Bosi, o indianismo alencarino não passava de um mito sacrificial dos índios, no qual estes só atingiriam a nobreza quando fossem capazes de se auto-imolar. Os índios Peri, de O Guarani, e Iracema, personagem central do romance homônimo, se tornam heróis na medida em que se anulam e se sacrificam em gesto de servidão aos colonizadores portugueses. Peri se converte ao cristianismo para se unir à portuguesa Cecília e, com ela, formar o povo brasileiro. Iracema trai o seu povo tabajara para ficar com o lusitano Martim. Do fruto desse encontro, nasce Moacir, o primeiro brasileiro. Depois de cumprida sua missão no processo civilizatório brasileiro, Iracema morre. O indianismo alencarino foi assim um elogio à submissão do indígena à sabedoria europeia. Bom índio é aquele que se ocidentaliza. Que muda de lado. Que nega seu povo. Que está disposto a aniquilar a sua cultura, e até a vida, para contribuir com anação.

Um pouco mais de cem anos depois, João Guimarães Rosa, no conto “Meu tio o iauaretê”, se propõe a questionar essa relação colonial, evocando uma outra lógica. Se os mestiços “alencarinos” são cristianizados e ocidentalizados, o que aconteceria se o mestiço escolhesse o outro lado da mistura que o compõe?

“Meu tio o iauaretê” conta a história de Tonho Tigreiro, caçador de onças, contratado por um fazendeiro, Nhô Nhuão Guede, para desonçar um certo território. Em outras palavras, o caçador é chamado para livrar o terreno das onças, permitindo que aquele pedaço de terra possa ganhar uma utilidade econômica. Desonçar a terra faz parte de uma operação bandeirante (sem trocadilhos). No entanto, de tanto viver isolado dos homens, o caçador começa a ter mais simpatia pelas onças do que por gente, e passa a defendê-las. O caçador escolhe claramente um lado: o das onças, da natureza, dos animais, enfim, o lado da terra onde vive. É o mesmo “lado” que os índios defendem no seu esforço de resistência aos (neo)bandeirantes que invadem sua terra. Daí a conclusão da leitura que antropólogo Eduardo Viveiros de Castro faz do conto rosiano:

Não é um texto sobre o devir-animal, é um texto sobre o devir-índio. Ele descreve como é que um mestiço revira índio, e como é que todo mestiço, quando vira índio – isto é, quando se desmestiça– o branco mata. Essa é que é a moral da história. Muito cuidado quando você inverter a marcha inexorável do progresso que vai do índio ao branco passando pelo mestiço. Quando você procura voltar de mestiço para índio como faz o onceiro do conto, você termina morto por uma bala disparada por um revólver de branco.

Tudo que foge da lógica da anexação, da incorporação, da integração, é eliminado. Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.

3.

Em Tristes trópicos, Claude Levi-Strauss lembra de uma conversa que teve com o embaixador do Brasil na França, Luís de Sousa Dantas, ocorrida em 1934, na qual o diplomata brasileiro havia comunicado a Levi-Strauss que não existia mais índios no Brasil. Haviam sido todos eles dizimados pelos portugueses, lamentava Sousa Dantas. E assim concluía: o Brasil seria interessante para um sociólogo, mas não para um antropólogo, pois Levi-Strauss não encontraria em nosso país um índio sequer. Nós não sabemos se Sousa Dantas nega a existência dos índios por ignorância, ou simplesmente para ocultar um aspecto do país que o diplomata brasileiro certamente considerava “arcaico”, uma vez que a existência de “primitivos” não bendizia os padrões civilizatórios da nação diante de um estudioso europeu.

Mas quem de nós nunca agiu como Sousa Dantas? Qual foi o brasileiro que, no exterior, nunca se indignou com uma pergunta de um gringo mal-informado que sugeria que nós tivéssemos hábitos próximos ao dos índios? Eis o motivo de nossa indignação: como podem nos confundir com tupiniquins (palavra usada pejorativamente por nós brasileiros para nos definirmos como povo atrasado), se nós somos industrializados, urbanizados, temos carros, trânsito infernal, sofremos com poluição e tomamos Prozac para resolver nossos problemas emocionais? Em outras palavras, como podem nos acusar de “primitivos” se desfrutamos de todas estas maravilhas da civilização moderna?

Se por um lado, hoje, os brasileiros sabemos da existência empírica dos índios, por outro lado, negamos sua existência como nossos contemporâneos, e essa é a raíz da indignação diante de uma possível confusão entre nós, brasileiros, e um povo que, na cabeça de tantos, ainda não evoluiu. Ora, de todos os esforços pedagógicos para descolonizar o imaginário brasileiro, talvez esse seja o mais importante: de mostrar como nós precisamos urgentemente do diálogo com os índios. Devemos abandonar a ótica paternalista (do Estado brasileiro) que infantiliza o índio, enxergando-o como artefato do antiquário nacional, que para alguns deve ser incorporado à nação, enquanto para outros deve ser preservado tal como está. Esse é um falso dilema, pois reifica o índio. Devemos, sim, estabelecer com os índios uma relação de interlocução, com a qual temos muito que aprender.

Nossa civilização criou formas de vida que beiram a inviabilidade. Emporcalhamos nossas cidades; poluímos nosso mar, nossos rios, nosso ar; destruímos nossa natureza; criamos necessidades que nunca serão preenchidas a contento, gerando inúmeras frustrações, tamanha é a roda-viva do consumismo que determina nosso estilo de vida. Segundo Celso Furtado (que hoje, graças a Dilma Rousseff, dá nome a um petroleiro), no seu O mito do desenvolvimento econômico, “[o] custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana.” Quanto mais universalizamos nosso consumismo predador, mais rápido destruímos nosso ambiente e planeta. O que teríamos a aprender, afinal, com os índios?

O que dizer de um povo que vive há milênios em co-adaptação com o ecossistema amazônico, tirando da floresta o sustento da vida, em vez de tirar a floresta de sua vida (uso aqui o jogo de palavras do próprio texto de Viveiros de Castro)? Os índios são radicalmente cosmopolitas. A palavra “cosmopolita” quer dizer “cidadão do mundo”. Cosmos, na filosofia grega significa “universo organizado de maneira regular e integrada”. Se permanecermos fiéis à etimologia da palavra, cosmopolita seria então o cidadão de um universo harmonioso (cosmo é o antônimo de caos). Por anos, filósofos antigos e modernos têm pensado o termo “cosmopolitismo” como uma técnica de convivência entre povos. O cosmopolitismo radical dos índios nada mais é que uma técnica de convivência e co-adaptação com o cosmo – o universo, o ambiente, o planeta. A destruição do planeta hoje parece mais plausível em decorrência da falta do cosmopolitismo radical dos índios do que do cosmopolitismo dos filósofos. O que teríamos a aprender com os índios? Algo muito simples e complexo: aprender a habitar o planeta.

4.

Pensar o índio no Brasil é particularmente difícil, pois as representações que temos do índio o colocam além da alteridade. O “outro” da cultura brasileira – narrada, claro, da posição do letrado urbano euro-brasileiro – é, com o perdão da redundância, outro. Ou melhor, são outros: o sertanejo, o retirante, o negro, o favelado.

Investigando sobre os motivos que levaram a esquerda brasileira a negligenciar o índio, Pádua Fernandes lembra que a esquerda revolucionária dos anos 70 – de onde saiu boa parte do Partido dos Trabalhadores – discutia a relação entre cidade e campo, mas era incapaz de pensar a floresta. Em parte, isso se deve à importação direta das categorias euromarxistas (e, claro, graças ao abismo das Tordesilhas, que separa o Brasil da América Hispânica; a esquerda brasileira nunca deu muita bola para o indo-socialismo do peruano José Carlos Mariátegui). No entanto, mais do que ser um problema de cegueira por parte de segmentos da esquerda, a invisibilidade do índio talvez se remeta à maneira como pensamos o “povo” brasileiro, dentro do paradigma nacional-popular.

De acordo com esse paradigma, que estruturou a imaginação brasileira durante o século 20, o povo é o sertanejo de Os sertões, “rocha da nacionalidade”; o negro de Casa-grande & senzala e da vasta bibliografia sociológica e historiográfica que veio a seguir; os retirantes desesperados Manuel e Rosa de Deus e o diabo na terra do sol; o ingênuo Fabiano de Vidas Secas; a comovente Macabéa de A hora da estrela, além de tantos outros personagens e temas das nossas produções culturais. A consciência social do letrado urbano brasileiro foi construída a partir da ideia de que o povo brasileiro – na sua imensa maioria pobre, desassistido, negromestiço – necessita ser integrado à modernidade, à cidadania plena, a um sistema educacional justo e ao conforto material.

A eleição do presidente Lula em 2002 talvez tenha sido o evento mais importante de nossa democracia exatamente porque mexeu profundamente com nossa imaginação nacional-popular: pela primeira vez, o povo assumia o poder. Fabiano, Macabéa, Manuel e Rosa estavam todos representados na figura carismática de Lula. E não se pode negar que o governo Lula muito melhorou a vida do “povo brasileiro”, garantindo acesso a bens e direitos antes impensáveis. O progresso finalmente havia chegado ao andar de baixo, que agora podia comprar televisão, andar de avião e até passear de cruzeiro. Nunca antes na história desse país, o povo esteve mais integrado aos padrões de consumo do mundo civilizado.

O mesmo governo que tanto fez para tanta gente (e atuou como uma força descolonizadora no tocante às ações afirmativas e na introdução de história africana no ensino médio), é aquele que age como um poder colonizador na Amazônia, e aliado objetivo dos fazendeiros do agronegócio no Mato Grosso do Sul. Desse modo, o Estado e seus sócios ocupam a terra com prerrogativa desenvolvimentista, como se fosse um território vazio, pronto para o usufruto dos agentes econômicos. Nada muito diferente dos bandeirantes. O que antes vinha coberto com retórica de missão civilizatória cristã, agora é celebrado como a chegada do progresso. Nos dois tipos de bandeirantismo, a destruição vem justificada por um discurso de salvação. O índio que habita nessas terras é tratado simplesmente como obstáculo que deve ser removido em nome do progresso da nação (progresso no caso representa: carne de gado no Mato Grosso e energia elétrica para indústrias do alumínio na Amazônia).

O índio apresenta um desafio para o pensamento da esquerda no Brasil. Um desafio que ainda não foi pensado como desafio, pois a esquerda ainda enxerga a “questão indígena” como umproblema que deve ser resolvido. O desafio, ao contrário do problema, não exige uma resolução, mas uma autorreflexão. Os índios nos fazem repensar nosso modo de vida, e até mesmo o conceito de nação. Como salientei, o índio não se insere na matriz nacional-popular que mobiliza tanto a nossa imaginação. E não se insere nela pois, ao contrário do retirante, do favelado, do pobre, do negro, o índio não está buscando integração à modernidade (a grande promessa do lulismo às massas). Os índios parecem querer reconhecimento do seu modo de vida (como se pode ver nessa entrevista de Davi Kopenawa). E, para viver do jeito que sabem viver, é necessário garantir as condições mínimas de possibilidade para sua vida: terra e rios que não sejam dizimados pela usina de Belo Monte, nem pelo garimpo; segurança e tranquilidade para não serem acossados pelos capangas do agronegócio, como no Mato Grosso do Sul. Essas são as grandes lutas hoje.

A luta pelos direitos indígenas vai muito além de uma quitação da nossa dívida histórica. Mais do que um acerto de contas com nosso passado, a garantia dos direitos constitucionais dos índios é imprescindível para o nosso futuro. Precisamos cada dia mais da sabedoria desses cosmopolitas radicais, se quisermos repensar e refundar os pressupostos de nossa existência planetária.

Nota da liderança dos Guarani e Kaiowá contra artigo publicado na revista Veja

Esta nota pretende explicitar a luta histórica do Povo Guarani e Kaiowá pelas terras tradicionais frente à divulgação de situação Guarani e Kaiowá na REVISTA VEJA que na semana passada,divulgou a manchete “Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria” “Na crise dos guaranis-caiovás estão envolvidos interesses da Funai, de antropólogos e de ONGs. Ninguém se preocupa com os próprios índios”. Jornalista Leonardo Coutinho da REVISTA VEJA.

Em primeiro lugar, é fundamental se destacar que A LUTA/GUERRA GUARANI E KAIOWÁ pela posse da terra tradicional é muito antiga e do Século XVII. Essa luta indígena Guarani e Kaiowá citada começou antes mesmo existir a Ciência Antropológica/Ciências Sociais, ou seja, a luta Guarani em defesa de seus territórios tradicionais iniciou antes de existir o tal de antropólogo e indigenista das ONGs. Por exemplo: no Brasil, a FUNAI existiu desde 1968, quando a FUNAI foi criada já tem se deparado com a luta Guarani e Kaiowá pela terra tradicional. De modo similar, o CIMI surgiu em meado de 1970, esses agentes do CIMI encontraram os Guarani e Kaiowá já em processo de luta pela recuperação de seus territórios antigos. Por isso, jornalista Leonardo Coutinho desconhece ou ignora completamente a história da luta Guarani e Kaiowá. Alertamos a todos (as) cidadãos (ãs) que argumentação de Leonardo Coutinho não procede e nunca será verdade a argumentação da REVISTA VEJA sobre nós Guarani e Kaiowá.

Por fim, destacamos que a luta Guarani e Kaiowá pela recuperação de nossa terra tradicional é antiga já há séculos. Temos certeza que a FUNAI. CIMI e ONGS, etc., podem acabar, mas a nossa luta pela terra não acabará, porque é nosso interesse exclusivo se encontra cristalizada em nossa vida e repassada de geração a para geração Guarani e Kaiowá. Visto que a nossa luta pela terra tradicional já atravessou vários sistema histórico de nosso país Brasil, por exemplo: atravessamos lutando, o sistema de colônia de Império, Ditadura Militar, Democracia da República, assim por diante.
Mais uma vez, jornalista Leonardo Coutinho desconhece ou ignora completamente a história da luta Guarani e Kaiowá. Alertamos a todos (as) cidadãos (ãs) brasileiros (as) que argumentação de Leonardo Coutinho não procede e nunca será verdade a argumentação da REVISTA VEJA sobre nós Guarani e Kaiowá é falsa e enganadora que precisa a ser punida o seus mentores e autores.

Atenciosamente,
Lideranças/Conselho da Aty Guasu, 05 de novembro de 2012.

Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria (Veja)

04/11/2012 – 09:24

Mato Grosso do Sul

Na crise dos guaranis-caiovás estão envolvidos interesses da Funai, de antropólogos e de ONGs. Ninguém se preocupa com os próprios índios

Leonardo Coutinho
A OUTRA MARGEM - Crianças caiovás brincam na área invadida em Iguatemi. Seus pais deixaram a reserva do outro lado do rio em busca de mais terrasA OUTRA MARGEM – Crianças caiovás brincam na área invadida em Iguatemi. Seus pais deixaram a reserva do outro lado do rio em busca de mais terras (Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

O Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, tomou uma decisão para abrandar um movimento sem precedentes de homens brancos em nome de um grupo indígena brasileiro. Acatando um pedido da Advocacia-Geral da União, o TRF determinou que os índios guaranis-caiovás podem continuar ocupando as terras da Fazenda Cambará, no município de Iguatemi, em Mato Grosso do Sul. Em uma carta divulgada na internet no dia 10 do mês passado, membros do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) condenaram a ordem de despejo dada pela Justiça Federal de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, comparando-a a uma “morte coletiva”. Logo se espalhou pelas redes sociais a versão de que os índios iriam cometer um ritualístico suicídio coletivo. Das redes, a solidariedade ganhou as ruas de diversas cidades, onde muitas brasileiras não perderam a chance de protestar de peito aberto diante das câmeras.

O governo agiu rápido, pediu a suspensão da ordem de despejo e exigiu que a Fundação Nacional do Índio (Funai) conclua em um mês o laudo antropológico que serviria como o primeiro passo para a demarcação oficial da terra reclamada pelo Cimi em nome dos índios.

Com o episódio, o Cimi conseguiu mais uma vez aproveitar a ignorância das pessoas das grandes cidades sobre a realidade em Mato Grosso do Sul e, principalmente, sobre quais são as reais necessidades dos índios. As terras indígenas já ocupam 13,2% da área total do país. Salvo raras exceções, a demarcação de reservas não melhorou em nada a vida dos índios. Em alguns casos, o resultado foi até pior. A 148 quilômetros da Fazenda Cambará, no município de Coronel Sapucaia, há uma reserva onde os caiovás dispõem de confortos como escolas e postos de saúde, mas não têm emprego, futuro nem esperança. Ficam entregues à dependência total da Funai e do Cimi, sem a menor chance de sobrepujar sua trágica situação de silvícolas em um mundo tecnológico e industrial. São comuns ali casos de depressão, uso de crack e abuso de álcool. A reserva Boqueirão, próximo a Dourados, abriga caiovás submetidos ao mesmo estado desesperador. Levantamento feito por agentes de saúde locais revelou que 70% das famílias indígenas têm um ou mais membros viciados em crack. “Infelizmente, a vida dos 170 caiovás acampados na fazenda em Iguatemi não melhorará com um simples decreto de demarcação”, diz o antropólogo Edward Luz.

Os caiovás formam o segundo grupo indígena mais populoso do Brasil, atrás apenas dos ticunas, do Amazonas. Segundo o IBGE, há 43 400 membros dessa etnia no país. Outros 41 000 residem no Paraguai. Eles transitam livremente entre os dois países, como parte de sua tradição nômade. Os antropólogos os convenceram de que o nascimento ou o sepultamento de um de seus membros em um pedaço de terra que ocupem enquanto vagam pelo Brasil é o suficiente para considerarem toda a área de sua propriedade. Com base nessa visão absurda, todo o sul de Mato Grosso do Sul teria de ser declarado área indígena – e o resto do Brasil que reze para que os antropólogos não tenham planos de levar os caiovás para outros estados, pois em pouco tempo todo o território brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores dos índios.

Em sua percepção medieval do mundo, os religiosos do Cimi alimentam a cabeça dos índios da região com a ideia de que o objetivo deles é unir-se contra os brancos em uma grande “nação guarani”. Ocorre que o território dessa “nação” coincide com a zona mais produtiva do agronegócio em Mato Grosso do Sul. O Cimi e algumas ONGs orientam os índios a invadir propriedades. A Funai também apoia o expansionismo selvagem. Os 170 caiovás acampados na Fazenda Cambará moravam em uma reserva situada do outro lado da margem do Rio Hovy. Em novembro do ano passado, membros dos clãs Pyelito Kue e Mbarakay foram levados pelos religiosos e antropólogos a cruzar o rio e se estabelecer em uma área de 2 hectares. O secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, visitou os caiovás em Iguatemi um dia antes e deu-lhes a garantia de que o governo federal zelaria pelos seus direitos. Ex-marido da presidente da Funai, Marta Azevedo, Maldos é um conhecido oportunista que não perde a chance de usar a desgraça alheia em favor de suas convicções políticas. “Além de terra, queremos ter condições de plantar e trabalhar, mas isso nem a Funai nem ninguém faz por nós”, diz o cacique caiová Renato de Souza, da aldeia Jaguapiru, em Dourados. Enquanto os índios tiverem a vida manipulada pelos medievalistas do Cimi, pelos ideólogos da Funai e pelas ONGs, seu destino será de sofrimento e penúria.

VEJA

VEJA

Com reportagem de Kalleo Coura

Insensatez (OESP)

JC e-mail 4617, de 05 de Novembro de 2012.

Por Denis Rosenfield

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de hoje (5).

Quando tudo parece já ser conhecido, causa surpresa, se não espanto, observar que ministros e titulares de órgãos do Estado agem à revelia de si mesmos e de decisões maiores do Supremo Tribunal Federal (STF). Refiro-me, em particular, à edição e à suspensão da Portaria 303 da Advocacia-Geral da União (AGU), normatizando as condicionantes do STF relativas ao julgamento do caso da Raposa-Serra do Sol.

Na edição dessa portaria, a AGU nada mais fez do que regulamentar um acórdão do Supremo, seguindo suas determinações. Cumpriu um preceito constitucional. Em nota n.º 24/2012/DENOR/CGU/AGU, ao responder à solicitação da Funai pela revogação dessa Portaria 303, constam, no seu arrazoado, importantes considerações.

O texto da AGU, no inciso 3: “Seu texto segue rigorosamente o que foi determinado pelo STF no julgamento do caso Raposa-Serra do Sol, em 2009, pois é mera reprodução de sua decisão na Petição 3.388/RR”. Trata-se de decisão da mais Alta Corte do País sendo aplicada. É o Estado de Direito em funcionamento.

No inciso 5, frisa que seu principal objetivo, “ao publicar essa Portaria, é a promoção da estabilidade das relações jurídicas”. Observe-se que a segurança jurídica é o objetivo maior. Logo, há um marco a partir do qual os conflitos podem ser equacionados, no estrito cumprimento da lei.

Não obstante essas considerações, a AGU conclui pela suspensão da portaria, considerada tão necessária. A contradição é flagrante. Ela deixa de seguir o que foi fixado pelo STF, não mais se preocupa com a estabilidade jurídica apregoada, dissemina a insegurança jurídica e aumenta os conflitos existentes nessa área. O que era um marco constitucional deixa abruptamente de o ser.

A questão é a seguinte: o que levou a AGU a agir contra si mesma, na verdade, contra o próprio governo? Convém salientar que a suspensão dessa portaria atinge não somente agricultores (familiares, pequenos e médios) e o agronegócio, mas a construção de hidrelétricas, hidrovias e estradas, a mineração e, de modo mais geral, a soberania nacional e a presença das Forças Armadas, em particular o Exército, em todo o território nacional.

Para responder àquela questão é necessário remontar ao Ofício n.º 260/GAB/PRES-FUNAI, assinado por sua presidente, Marta Maria do Amaral Azevedo, e dirigido ao advogado-geral da União, ministro Luís Inácio Adams. Em sua consideração n.º 1 consta: “Em atenção às reivindicações apresentadas pelos povos indígenas e organizações da sociedade civil e considerando os compromissos e esforços do Estado brasileiro para a regulamentação e implementação do direito de consulta dos povos indígenas, previsto na Convenção 169 da OIT, solicito a suspensão temporária dos efeitos da Portaria AGU n.º 303/2012, que foi publicada no DOU de 17/07/2012”.

Posteriormente, em declarações publicadas em jornais, é advogada a suspensão definitiva dessa mesma portaria. Observe-se que uma decisão do Supremo, seguida pela AGU, deveria ser submetida à apreciação e aprovação dos povos indígenas e de organizações da sociedade civil. O STF não seria instância máxima do País na interpretação constitucional das leis, mas deveria ser referendada por outras instâncias. O Supremo deixaria de ser supremo!

Note-se o eufemismo “organizações da sociedade civil” para designar, na verdade, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão da Igreja Católica, o Instituto Socioambiental e outras ONGs indigenistas, nacionais e internacionais, além dos ditos movimentos sociais. Eles se tornariam, então, a instância máxima para a decisão dessas questões. A insensatez é total.

O ofício ainda recorre à Convenção 169 da OIT, como se ela estivesse acima da Constituição nacional e da decisão do STF. De nova conta, nossa mais alta Corte aparece como instância subordinada. Ocorre aqui uma transferência de soberania.

Em sua consideração n.º 2 consta que “tal medida (de suspensão) se justifica em razão da repercussão negativa que a edição da Portaria causou em âmbito nacional e internacional, fato atestado, inclusive, pela Secretaria-Geral da Presidência da República”. Ora, ora! Uma portaria da AGU normatizando uma decisão do Supremo deveria estar condicionada às suas repercussões em ONGs nacionais e estrangeiras, graças às suas influências em certos jornais, revistas e meios de comunicação no País e em escala global. A mensagem é a seguinte: Brasil, não exerça sua soberania e siga essas ONGs e os movimentos sociais.

Mais estarrecedor ainda é o fato de o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assumir para si essa posição de um órgão de sua pasta, a Funai. Em seu aviso n.º 1744/2012/MJ, de 14/9/2012, endereçado ao advogado-geral da União, é dito ter ele recebido no ministério a presidente da Funai, o ministro substituto da AGU e vários representantes de etnias indígenas, que “solicitaram a revogação da Portaria n.º 303”. Ou seja, órgãos estatais e representantes de algumas etnias apregoam a revogação da portaria, o que significa dizer que a decisão do STF não deve ser normatizada, logo, seguida.

Que o ministro receba grupos com demandas insensatas, pode perfeitamente fazer parte do seu trabalho. Que ele assuma essa insensatez, é algo totalmente diferente. Assim, escreve após ter ouvido as lideranças: “Declarei de próprio punho” que encaminharia à AGU a proposta de “criação de um Grupo de Trabalho composto pelo Ministério da Justiça, AGU, Funai e representantes dos Povos Indígenas com o objetivo de discutir as condicionantes estabelecidas na Portaria n.º 303/2012 e outras formas de viabilização de processos de demarcação de Terras Indígenas, na conformidade com o estabelecido na Constituição Federal”.

Como assim? Agir em conformidade com o estabelecido na Constituição submetendo à consulta uma decisão do Supremo, como se essa Corte não tivesse seguido a nossa Lei Maior? A instância máxima do País tornou-se mínima?

Anthropocene Continues to Spark Scientific Debate (The Geological Society of America)

GSA Annual Meeting Technical Session: “Geomorphology of the Anthropocene”

Boulder, Colorado, USA – How have humans influenced Earth? Can geoscientists measure when human impacts began overtaking those of Earth’s other inhabitants and that of the natural Earth system? Responding to increasing scientific recognition that humans have become the foremost agent of change at Earth’s surface, organizers of this GSA technical session have brought together speakers and poster presentations from a variety of sources in order to answer these questions and define the “Geomorphology of the Anthropocene.”

“Anthropocene” is a fairly new term (first used ca. 2002 by Paul Crutzen) now being applied to the current global environment and its domination by human activity (see J. Zalasiewicz et al.’s 2008 GSA Today article “Are we now living in the Anthropocene” [v. 18, no. 2, p. 4]). This “era” or “epoch” spans a yet-undetermined but so far brief (in geologic terms) time scale potentially marking the end of the Holocene epoch.

Session organizers Anne Jefferson of Kent State University, Karl Wegmann of North Carolina State University, and Anne Chin of the University of Colorado Denver have gathered presentations addressing human interactions with Earth’s systems. Research studies span a range of temporal and spatial scales and investigate a variety of influences, including the effects of indigenous culture as well as dams and cities.

Chin says that part of the research is spurred by “the difficulty of finding any place (no matter how ‘pristine’) where the landscape hasn’t been affected by human activities.” She cites the U.S. National Research Council’s “Grand Challenge” in Landscapes on the Edge: New Horizons for Research on Earth’s Surface (2010) to determine how Earth’s surface may evolve in the Anthropocene.

Chin also points to the intensification of debate over “Anthropocene” and the time frame it encompasses as scientists, policymakers, the media, and the public become increasingly aware of the term. A goal of this session is to address the debate and add a greater base of scientific understanding to round out the popularity of the idea.

Three Geological Society of American (GSA) specialty divisions cosponsor this session: the GSA Quaternary Geology and Geomorphology Division, the GSA Geology and Society Division, and the GSA Archaeological Geology Division, thus bringing to bear a multidisciplinary perspective to the problem. Talks include “An early Anthropocene analog: Ancient Maya impacts on the Earth’s surface”; “Removing streams from the landscape: Counting the buried streams beneath urban landscapes”; and Anthropogenic influences on rates of coastal change.”

Papers from this session will be compiled into a special issue of Anthropocene, a new journal launching in 2013 by Elsevier, devoted to addressing one of the grand challenges of our time.

Session 8: T24. Geomorphology of the Anthropocene: The Surficial Legacy of Past and Present Human Activities
Talks: https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/webprogram/Session30644.html
When: Sunday, 4 Nov., 8 a.m. to noon
Where: Charlotte Convention Center, Room 207A
Poster Session: https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/webprogram/Session31925.html
When: Sunday, 4 Nov., 9 a.m. to 6:30 p.m.
Where: Charlotte Convention Center Hall B

Contacts: 
Anne J. Jefferson: ajeffer9@kent.edu, +1-980-213-5933
Karl W. Wegmann: kwwegman@ncsu.edu
Anne Chin: anne.chin@ucdenver.edu, +1-979-492-0074

Find out what else is new and newsworthy by browsing the complete technical program schedule at https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/finalprogram/.

To identify presentations in specific areas of interest, search topical sessions by discipline categories or sponsors using the drop-down menus atwww.geosociety.org/meetings/2012/sessions/topical.asp, or use your browser’s “find” feature to search for keywords or convener names.

The repo girl is at the door (London Review of Books)

Mike Davis, 3 November 2012

http://www.lrb.co.uk

In the spirit of Donald Rumsfeld we might distinguish between natural inevitabilities and unnatural inevitabilities. Someday, for example, the precarious flank of the massive Cumbre Vieja volcano on La Palma in the Canary Islands will collapse and send a mega-tsunami across the Atlantic. The damage from Boston to New York City will dwarf last year’s disaster in Japan. It’s inevitable, but volcanologists don’t know whether the destabilising eruption will occur tomorrow or in five thousand years. So for now, it’s merely a titillating topic for NOVA or the National Geographic Channel.

Another, much more frequent example of natural inevitability is the pre-global-warming hurricane cycle. Two or three times each century a perfect storm has crashed into the US Atlantic seaboard and wreaked havoc as far as the Great Lakes. But a $20 billion disaster every few decades is why we have an insurance industry. And even the loss, now and then, of an entire city to nature (San Francisco in 1906 or New Orleans in 2005) is an affordable tragedy.

But the construction since 1960 of several trillion dollars’ worth of prime real estate on barrier islands, bay fill, recycled swamps and coastal lowlands has radically transformed the calculus of loss. Subtract every carbon dioxide molecule added to the atmosphere in the last thirty years and ‘ordinary’ storms would still collect ever larger tolls from certifiably insane coastal overdevelopment.

Carbon, however, has never been more prosperous. Global emissions, by the most optimistic estimate, conform to the Intergovernmental Panel on Climate Change’s ‘worst case’ scenario. The World Bank, for its part, now accepts the inevitability of a global temperature increase of at least 2 degrees Celsius – near the famous ‘red line’ of the last decade’s climate Cassandras. The Bank, moreover, is refocusing developmental aid from mitigation to adaptation.

This is the true meaning of Hurricane Sandy: the repo girl is at the door. Climate change adaptation is a synonym for a multi-trillion-dollar reconstruction of urban coastal infrastructure and land-use patterns. Imitate the Dutch or live in Waterworld.

How long will it take for this realisation to percolate through the tumoured brain of American politics? Until 2006, American public opinion was broadly in step with European concerns about global warming. Following Climategate, however, the energy-industry-subsidised right went on the offensive and polls recorded a dramatic decline in public perception of climate change as a scientific fact.

Even more surprisingly, opinion surveys tracking public reactions to extreme climate events, like the recent epic drought in the Great Plains, have failed to detect significant change in opinion. The presidential race, meanwhile, has largely been a contest about which candidate stoops lowest to administer oral sex to fossil fuel producers.

The business press exults in the brilliant future of shale gas and non-traditional oil. The USA, for the first time in 63 years, is a net exporter of oil products. And we are locked into fossil fuel dependence for another generation or two.

Alternatives are dissolving. Creating green jobs, the major industrial strategy of the Obama administration, has been a complete bust thanks to the shale gas revolution and China’s dumping of cheap solar energy cells on the world market. The meltdown of Europe’s carbon trading system, moreover, has hardly bolstered the credibility of ‘cap and trade’ in an American recession.

Hard rains and rising tides on the Jersey shore, alas, do not automatically translate into enthusiasm about renewable energy or an urgency to build dykes. Eventually, however, the change must come and Washington will start to pay the compound interest for failing to mitigate warming or reform land use.

But this isn’t the truly bad news. The grimmest reckoning is the inverse relationship between the costs of climate change adaptation in rich countries and the amount of aid available to poorer countries. The tropical and semi-tropical poor countries that are least responsible for creating a greenhouse planet will bear the greatest burden of coastal inundation, extreme weather, and agricultural water shortages. Not that it was ever likely that the emitters would ride to the rescue of the poor people downstream, but Sandy is the beginning of the race for the lifeboats on the Titanic.

De Sandy a Deus (FSP)

WALTER CENEVIVA

Algo me diz que a aproximação de Brasil, África do Sul e Austrália será boa para os três países

SE HOUVESSE um supremo tribunal interplanetário para julgar a culpa pelos efeitos dramáticos do furacão Sandy, gerados pelos habitantes da Terra contra a natureza, talvez a decisão fosse condenatória. As mortes e a destruição decorrentes do Sandy justificariam uma pergunta hoje de uso comum: como ficaria a dosimetria? Quem foi, e em que grau, responsável pelo mau uso da superfície, do ar e das entranhas do planeta no hemisfério norte?

O limite da pergunta se explica. Nós, do hemisfério sul, começamos a intervir na vida dos continentes há menos de 600 anos. Os do norte assinalaram sua presença há uns 12.000 anos -boa parte do hemisfério sul era desconhecida pelo menos até o século 16.

Esses 600 anos marcaram a ocupação de todo planeta. Mesmo assim, só no século 20 surgiram muitas das duas centenas de nações novas, com independência ao menos formal. Desapareceram colônias de países europeus e asiáticos nos cinco continentes.

O avanço dos conquistadores eurasiáticos nessa área marcou a história da Terra. O remanescente apenas alcançou o nível de vida civilizada, segundo os padrões ocidentais, quando conquistadores europeus se instalaram no México e nos Estados Unidos e igualmente com a verificação da terra que se sabia existir na latitude atingida por Pedro Álvares Cabral.

Percebo a pergunta do leitor: por qual a razão uma coluna jurídica precisa dar tantas referências geográficas? Simples: a Constituição brasileira enuncia princípios que, favorecendo relações internacionais, preservam, no art. 4º, a independência nacional; garantem regras de autodeterminação dos povos e de não intervenção. O mesmo resulta do art. 21, I (relações com outros Estados e organizações internacionais), colocando sob o presidente da República a condução do relacionamento externo.

O aprofundamento do exame impõe o conhecimento das áreas envolvidas. Existem três países de grande extensão territorial ao sul do Equador -Austrália, África do Sul e Brasil- com expressão bem marcada no cenário internacional. Os 50 milhões de sul-africanos ocupam 1,2 milhões de quilômetros quadrados, muito menos que os 7,7 milhões da amplitude australiana, mas de população rarefeita e modesta, na casa dos 21 milhões. Ambos menores que o Brasil nos dois quesitos, pois somos 192 milhões espalhados em 8,3 milhões de quilômetros quadrados, com milhares de cidades.

Dois outros pontos diferenciam os três países: hoje se pode dizer que o território brasileiro está inteiramente ocupado. Não a Austrália, nem tanto por ser o país mais plano do mundo, mas pelos seus quatro grandes desertos. A África do Sul ainda vive consequências da política da separação entre brancos a negros, até a segunda metade do século 20.

Dentre os três, se for o caso de composição uniforme dos interesses multinacionais, nosso país tem presença marcante, o que não obsta a associação dos três para percorrer caminho mais adequado para o futuro comum. A composição dos instrumentos legais para viabilizar a aproximação tem a vantagem de facilitar o acesso marítimo, pelo Oceano Atlântico e pelo Indico, só no hemisfério sul. Algo me diz que, de Sandy a Deus, a aproximação do sul será boa para os três na linha reta do trópico de Capricórnio.

It’s Global Warming, Stupid (Bloomberg)

By  on November 01, 2012

http://www.businessweek.com/articles/2012-11-01/its-global-warming-stupid

Yes, yes, it’s unsophisticated to blame any given storm on climate change. Men and women in white lab coats tell us—and they’re right—that many factors contribute to each severe weather episode. Climate deniers exploit scientific complexity to avoid any discussion at all.

Clarity, however, is not beyond reach. Hurricane Sandy demands it: At least 40 U.S. deaths. Economic losses expected to climb as high as $50 billion. Eight million homes without power. Hundreds of thousands of people evacuated. More than 15,000 flights grounded. Factories, stores, and hospitals shut. Lower Manhattan dark, silent, and underwater.

An unscientific survey of the social networking literature on Sandy reveals an illuminating tweet (you read that correctly) from Jonathan Foley, director of the Institute on the Environment at the University of Minnesota. On Oct. 29, Foley thumbed thusly: “Would this kind of storm happen without climate change? Yes. Fueled by many factors. Is storm stronger because of climate change? Yes.” Eric Pooley, senior vice president of the Environmental Defense Fund (and former deputy editor of Bloomberg Businessweek), offers a baseball analogy: “We can’t say that steroids caused any one home run by Barry Bonds, but steroids sure helped him hit more and hit them farther. Now we have weather on steroids.”

In an Oct. 30 blog post, Mark Fischetti of Scientific American took a spin through Ph.D.-land and found more and more credentialed experts willing to shrug off the climate caveats. The broadening consensus: “Climate change amps up other basic factors that contribute to big storms. For example, the oceans have warmed, providing more energy for storms. And the Earth’s atmosphere has warmed, so it retains more moisture, which is drawn into storms and is then dumped on us.” Even those of us who are science-phobic can get the gist of that.

Sandy featured a scary extra twist implicating climate change. An Atlantic hurricane moving up the East Coast crashed into cold air dipping south from Canada. The collision supercharged the storm’s energy level and extended its geographical reach. Pushing that cold air south was an atmospheric pattern, known as a blocking high, above the Arctic Ocean. Climate scientists Charles Greene and Bruce Monger of Cornell University, writing earlier this year in Oceanography, provided evidence that Arctic icemelts linked to global warming contribute to the very atmospheric pattern that sent the frigid burst down across Canada and the eastern U.S.

If all that doesn’t impress, forget the scientists ostensibly devoted to advancing knowledge and saving lives. Listen instead to corporate insurers committed to compiling statistics for profit.

On Oct. 17 the giant German reinsurance company Munich Re issued a prescient report titled Severe Weather in North America. Globally, the rate of extreme weather events is rising, and “nowhere in the world is the rising number of natural catastrophes more evident than in North America.” From 1980 through 2011, weather disasters caused losses totaling $1.06 trillion. Munich Re found “a nearly quintupled number of weather-related loss events in North America for the past three decades.” By contrast, there was “an increase factor of 4 in Asia, 2.5 in Africa, 2 in Europe, and 1.5 in South America.” Human-caused climate change “is believed to contribute to this trend,” the report said, “though it influences various perils in different ways.”

Global warming “particularly affects formation of heat waves, droughts, intense precipitation events, and in the long run most probably also tropical cyclone intensity,” Munich Re said. This July was the hottest month recorded in the U.S. since record-keeping began in 1895, according to the National Oceanic and Atmospheric Administration. The U.S. Drought Monitor reported that two-thirds of the continental U.S. suffered drought conditions this summer.

Granted, Munich Re wants to sell more reinsurance (backup policies purchased by other insurance companies), so maybe it has a selfish reason to stir anxiety. But it has no obvious motive for fingering global warming vs. other causes. “If the first effects of climate change are already perceptible,” said Peter Hoppe, the company’s chief of geo-risks research, “all alerts and measures against it have become even more pressing.”

Which raises the question of what alerts and measures to undertake. In his book The Conundrum, David Owen, a staff writer at theNew Yorker, contends that as long as the West places high and unquestioning value on economic growth and consumer gratification—with China and the rest of the developing world right behind—we will continue to burn the fossil fuels whose emissions trap heat in the atmosphere. Fast trains, hybrid cars, compact fluorescent light bulbs, carbon offsets—they’re just not enough, Owen writes.

Yet even he would surely agree that the only responsible first step is to put climate change back on the table for discussion. The issue was MIA during the presidential debates and, regardless of who wins on Nov. 6, is unlikely to appear on the near-term congressional calendar. After Sandy, that seems insane.

Mitt Romney has gone from being a supporter years ago of clean energy and emission caps to, more recently, a climate agnostic. On Aug. 30, he belittled his opponent’s vow to arrest climate change, made during the 2008 presidential campaign. “President Obama promised to begin to slow the rise of the oceans and heal the planet,” Romney told the Republican National Convention in storm-tossed Tampa. “My promise is to help you and your family.” Two months later, in the wake of Sandy, submerged families in New Jersey and New York urgently needed some help dealing with that rising-ocean stuff.

Obama and his strategists clearly decided that in a tight race during fragile economic times, he should compete with Romney by promising to mine more coal and drill more oil. On the campaign trail, when Obama refers to the environment, he does so only in the context of spurring “green jobs.” During his time in office, Obama has made modest progress on climate issues. His administration’s fuel-efficiency standards will reduce by half the amount of greenhouse gas emissions from new cars and trucks by 2025. His regulations and proposed rules to curb mercury, carbon, and other emissions from coal-fired power plants are forcing utilities to retire some of the dirtiest old facilities. And the country has doubled the generation of energy from renewable sources such as solar and wind.

Still, renewable energy accounts for less than 15 percent of the country’s electricity. The U.S. cannot shake its fossil fuel addiction by going cold turkey. Offices and factories can’t function in the dark. Shippers and drivers and air travelers will not abandon petroleum overnight. While scientists and entrepreneurs search for breakthrough technologies, the next president should push an energy plan that exploits plentiful domestic natural gas supplies. Burned for power, gas emits about half as much carbon as coal. That’s a trade-off already under way, and it’s worth expanding. Environmentalists taking a hard no-gas line are making a mistake.

Conservatives champion market forces—as do smart liberals—and financial incentives should be part of the climate agenda. In 2009 the House of Representatives passed cap-and-trade legislation that would have rewarded more nimble industrial players that figure out how to use cleaner energy. The bill died in the Senate in 2010, a victim of Tea Party-inspired Republican obstructionism and Obama’s decision to spend his political capital to push health-care reform.

Despite Republican fanaticism about all forms of government intervention in the economy, the idea of pricing carbon must remain a part of the national debate. One politically plausible way to tax carbon emissions is to transfer the revenue to individuals. Alaska, which pays dividends to its citizens from royalties imposed on oil companies, could provide inspiration (just as Romneycare in Massachusetts pointed the way to Obamacare).

Ultimately, the global warming crisis will require global solutions. Washington can become a credible advocate for moving the Chinese and Indian economies away from coal and toward alternatives only if the U.S. takes concerted political action. At the last United Nations conference on climate change in Durban, South Africa, the world’s governments agreed to seek a new legal agreement that binds signatories to reduce their carbon emissions. Negotiators agreed to come up with a new treaty by 2015, to be put in place by 2020. To work, the treaty will need to include a way to penalize countries that don’t meet emission-reduction targets—something the U.S. has until now refused to support.

If Hurricane Sandy does nothing else, it should suggest that we need to commit more to disaster preparation and response. As with climate change, Romney has displayed an alarmingly cavalier attitude on weather emergencies. During one Republican primary debate last year, he was asked point-blank whether the functions of the Federal Emergency Management Agency ought to be turned back to the states. “Absolutely,” he replied. Let the states fend for themselves or, better yet, put the private sector in charge. Pay-as-you-go rooftop rescue service may appeal to plutocrats; when the flood waters are rising, ordinary folks welcome the National Guard.

It’s possible Romney’s kill-FEMA remark was merely a pander to the Right, rather than a serious policy proposal. Still, the reconfirmed need for strong federal disaster capability—FEMA and Obama got glowing reviews from New Jersey Governor Chris Christie, a Romney supporter—makes the Republican presidential candidate’s campaign-trail statement all the more reprehensible.

The U.S. has allowed transportation and other infrastructure to grow obsolete and deteriorate, which poses a threat not just to public safety but also to the nation’s economic health. With once-in-a-century floods now occurring every few years, New York Governor Andrew Cuomo and New York City Mayor Michael Bloomberg said the country’s biggest city will need to consider building surge protectors and somehow waterproofing its enormous subway system. “It’s not prudent to sit here and say it’s not going to happen again,” Cuomo said. “I believe it is going to happen again.”

David Rothkopf, the chief executive and editor-at-large of Foreign Policy, noted in an Oct. 29 blog post that Sandy also brought his hometown, Washington, to a standstill, impeding affairs of state. To lessen future impact, he suggested burying urban and suburban power lines, an expensive but sensible improvement.

Where to get the money? Rothkopf proposed shifting funds from post-Sept. 11 bureaucratic leviathans such as the Department of Homeland Security, which he alleges is shot through with waste. In truth, what’s lacking in America’s approach to climate change is not the resources to act but the political will to do so. A Pew Research Center poll conducted in October found that two-thirds of Americans say there is “solid evidence” the earth is getting warmer. That’s down 10 points since 2006. Among Republicans, more than half say it’s either not a serious problem or not a problem at all.

Such numbers reflect the success of climate deniers in framing action on global warming as inimical to economic growth. This is both shortsighted and dangerous. The U.S. can’t afford regular Sandy-size disruptions in economic activity. To limit the costs of climate-related disasters, both politicians and the public need to accept how much they’re helping to cause them.

Mudança climática é tabu na campanha eleitoral dos Estados Unidos (Envolverde/IPS)

Por Becky Bergdahl, da IPS – 25/10/2012

sa12 300x198 Mudança climática é tabu na campanha eleitoral dos Estados Unidos

Nova York, Estados Unidos, 25/10/2012 – Os Estados Unidos sofreram este ano o verão mais quente de sua história, com secas e incêndios em diversas partes de seu território. E, segundo um informe da firma de resseguros Munich Re, as perdas com pagamentos de seguros devido a eventos climáticos extremos quase quadruplicaram desde 1980. Diante disto, alguns poderiam esperar que o aquecimento global fosse um dos temas mais importantes da campanha no país para as eleições presidenciais de 6 de novembro.

Entretanto, nos três debates eleitorais, transmitidos pela televisão para todo o país e boa parte do mundo, nem o presidente e candidato à reeleição, Barack Obama, do Partido Democrata, nem seu adversário, Mitt Romney, do Partido Republicano, sequer mencionaram o tema. Houve outro debate, entre os candidatos a vice-presidentes, no qual a mudança climática também foi omitida.

“Está se perdendo a oportunidade de se falar sobre um dos principais desafios que enfrentamos”, disse à IPS Bob Deans, assessor do ecologista e não governamental Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais. “Segundo um novo estudo da Universidade do Texas, 73% da população norte-americana acredita que a mudança climática está efetivamente ocorrendo. Já em recente pesquisa da Universidade de Yale, 70% dos entrevistados deram a mesma resposta. As consultas foram feitas em setembro.

Assim, o que vemos é que sete em cada dez norte-americanos têm conhecimento do problema”, pontuou Deans, que também citou um informe da Munich Re, segundo o qual os desastres naturais aumentaram mais na América do Norte do que em qualquer outra parte do mundo desde 1980. As perdas asseguradas por catástrofes climáticas na região totalizaram US$ 510 bilhões entre 1980 e 2011, segundo a firma alemã, a maior multinacional de resseguros do mundo.

Isto mostra que a mudança climática não é apenas uma questão ambiental, mas também é financeira, segundo Deans, integrante de uma das organizações ecologistas mais poderosas dos Estados Unidos. “Conforme o clima vai ficando extremo, as pessoas vão entendendo que também se trata de um assunto econômico sério, não apenas uma questão de abraçar árvores”, afirmou o ativista.

“O aumento do nível do mar pode colocar em risco as casas, e se uma casa está ameaçada não se consegue obter uma hipoteca. Os produtores de milho não conseguem uma boa colheita em anos. Vemos famílias que tiveram fazendas durante anos e agora não podem mais sustentá-las”, destacou Deans. Durante os debates públicos, incluindo um centrado em política externa, no dia 22, tanto Obama quanto Romney mencionaram a necessidade de se reduzir os preços dos combustíveis. Porém, nenhum se manisfestou sobre a questão de se reduzir as emissões de gases-estufa responsáveis pela mudança climática.

“Fica cada vez mais óbvio que Obama e Romney não são diferentes. Ambos se equivocam em pensar que qualquer menção ao clima é uma desvantagem política”, disse à IPS a ativista Kyle Ash, do Greenpeace Estados Unidos. “Apesar de a última pesquisa ter demonstrando que a vasta maioria do público está muito preocupada pela mudança climática, os dois candidatos preferem atender os interesses dos combustíveis fósseis em lugar de investir em soluções para o problema do clima”, apontou.

“A maior diferença entre ambos está na plataforma da campanha republicana, que diretamente nega a mudança climática. Mas, os dois candidatos estão em cargos administrativos que adotaram políticas contra a contaminação”, disse Ash, para quem tanto Obama quanto Romney se arriscam a perder votos se continuarem ignorando este assunto tão importante. “Centenas de milhares de norte-americanos solicitaram a Obama e a Romney que expressem suas opiniões sobre política climática, já que é um tema grave e premente para a economia, e inclusive para nosso estilo de vida básico”, afirmou Ash.

Em uma tentativa de mobilizar a população e pressionar os líderes políticos, a seção norte-americana do grupo internacional de ação climática 350.org lançou uma nova campanha, denominada Do The Math Tour (Gire Faça os Cálculos), que começará em 7 de novembro, dia seguinte às eleições, e incluirá atividades em 20 cidades. Conta com apoio de celebridades, como a jornalista e ativista canadense Naomi Klein e o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz.

“Se vamos enfrentar as campanhas pelos combustíveis fósseis, precisamos de um movimento. Elas têm todo o dinheiro, por isso precisamos testar algo diferente. Este giro está criado para gerar um movimento suficientemente forte para vencer”, disse à IPS o ativista Daniel Kessler, da 350. Org. “É um cálculo simples. Podemos queimar até mais 565 gigatoneladas de carbono e manter o aquecimento global abaixo dos dois graus. Qualquer coisa além disso colocará em risco a vida na Terra”, disse Kessler. “As corporações agora têm 2.795 gigatoneladas em suas reservas, cinco vezes mais do que a quantidade segura. E planejam queimar tudo isso, a menos que atuemos rapidamente para detê-las”, acrescentou.

Kessler também disse que, embora nenhum candidato fale abertamente sobre a mudança climática, há claras diferenças entre Obama e Romney. “Parece que Romney como presidente seria um desastre tanto para o meio ambiente quanto para o clima”, afirmou. “Disse que quer tirar da EPA (Agência de Proteção Ambiental) a autoridade para regular as emissões de carbono, acabar com os créditos fiscais para energia renovável e manter os enormes subsídios às firmas de petróleo e carvão, que já estão entre as mais lucrativas do mundo”, recordou Kessler.

“As políticas de Obama não são suficientemente fortes para enfrentar o problema da mudança climática, mas ele tem que lutar para proteger a EPA e fazer o maior investimento em energias limpas na história mundial”, enfatizou. Os comandos das campanhas dos candidatos não responderam aos pedidos da IPS para que comentassem este assunto. O aquecimento global “é completamente ignorado pelo presidente Obama e por Romney nos debates públicos”, disse Scott McLarty, coordenador de mídia para o Partido Verde. “Mas, nos debates alternativos, a candidata do Partido Verde, Jill Stein, falou sobre a mudança climática várias vezes. E continuará falando”, disse McLarty à IPS.

Scientific Illiteracy: Why The Italian Earthquake Verdict is Even Worse Than it Seems (Time)

By Jeffrey Kluger – Oct. 24, 2012

image: An aerial view of the destruction in the city of L'Aquila, central Italy, April 6, 2009. GUARDIA FORESTALE HANDOUT / AP. An aerial view of the destruction in the city of L’Aquila, central Italy, April 6, 2009.

Yesterday was a very good day for stupid — better than any it’s had in a while. Stupid gets fewer good days in the 21st century than it used to get, but it enjoyed a great ride for a long time — back in the day when there were witches to burn and demons to exorcise and astronomers to put on trial for saying that the Earth orbits around the sun.

But yesterday was a reminder of stupid’s golden era, when an Italian court sentenced six scientists and a government official to six years in prison on manslaughter charges, for failing to predict a 2009 earthquake that killed 300 people in the town of l’Aquila. The defendants are also required to pay €7.8 million ($10 million) in damages. “I’m dejected, despairing,” said one of the scientists, Enzo Boschi, in a statement to Italian media. “I still don’t understand what I’m accused of.”

As well he shouldn’t. The official charge brought against the researchers, who were members of the National Institute of Geophysics and Volcanology (INGV), was based on a meeting they had in the week leading up to the quake, at which they discussed the possible significance of recent seismic rumblings that had been detected  in the vicinity of l’Aquila. They concluded that it was “unlikely,” though not impossible, that a serious quake would occur there and thus did not order the evacuation of the town. This was both sound science and smart policy.

The earthquake division of the U.S. Geological Survey (USGS) estimates that the world is shaken by several million earthquakes each year, most of which escape notice either because they are too small or are in remote areas that are poorly monitored. An average of 50 earthquakes do manage to register on global seismographs every day, or about 18,000 annually. The overwhelming majority do not lead to major quakes and the technology does not exist to determine which ones will. The best earthquake forecasters can do is apply their knowledge and experience to each case, knowing that you can’t evacuate 50 towns or cities every day — and knowing too that sometimes you will unavoidably, even tragically, be wrong.

“If scientists can be held personally and legally responsible for situations where predictions don’t pan out, then it will be very hard to find scientists to stick their necks out in the future,” said David Oglesby, an associate professor on the earth sciences faculty of the University of California, Riverside, according to CNN.com.

The Italian seismologists are appealing their sentences and the global outcry over the wrong-headedness of the ruling will likely weigh in their favor. But whatever the outcome of their case, they’re really just the most recent victims of  the larger, ongoing problem of scientific illiteracy.

Just the day after the ruling came down, University of Michigan researchers released the latest results from the Generation X Report, a longitudinal study funded by the National Science Foundation that has been tracking the Gen X cohort since 1986. One of the smaller but more troubling data points in the new release was the finding that only 43% of Gen Xers (53% of males and 32% of females) can correctly identify a picture of a spiral galaxy — or know that we live in one.

Certainly, it’s possible to move successfully through life without that kind of knowledge. “Knowing your cosmic address is not a necessary job skill,” concedes study author Jon D. Miller of the University of Michigan, in a release accompanying the report. But not knowing it does suggest a certain lack of familiarity with the larger themes of the physical universe — and that has implications. It’s of a piece with the people who believe humans and dinosaurs co-existed, or the 50% of Americans who do not believe that human beings evolved from apes, or the 1 on 5 who, like Galileo’s inquisitors, don’t believe the Earth revolves around the sun.

More troubling than these types of individual illiteracy are the larger, population-wide ones that have a direct impact on public policy. As my colleague Bryan Walsh observed, the issue of climate change received not a single mention in all three of this year’s presidential debates, and has barely been flicked at on the campaign trail. Part of that might simply be combat fatigue; we’ve been having the climate argument for 25 years. But the fact is there shouldn’t be any argument at all. Serious scientists who doubt that climate change is a real threat are down to just a handful of wild breeding pairs. But sowing doubt about the matter has been a thriving industry of conservatives for decades — most recently in the form of a faux scientific study published by the Cato Institute, that purports to debunk climate science as fatally flawed at best or a hoax at worst. Speaking of a federally funded and Congressionally mandated report by the U.S. Global Change Research Program that responsibly reviewed the state of climate science, the Cato publication argues:

It is immediately obvious that the intent of the report is not to provide a accurate [sic] scientific assessment of the current and future impacts of climate change in the United States, but to confuse the reader with a loose handling of normal climate[italics theirs]…presented as climate change events.

Well, no, but never mind. Our willingness to believe in junk science like this exacts a very real price — in an electorate that won’t demand action from its leaders on a matter of global significance; in parents who leave their babies unvaccinated because someone sent them a blog post fraudulently linking vaccines to autism; in young gays and lesbians forced to submit to “conversion therapy” to change the unchangeable; in a team of good Italian scientists who may spend six years in jail for failing to predict the unpredictable. No one can make us get smart about things we don’t want to get smart about. But every day we fail to do so is another good day for stupid — and another very bad one for all of us.

Itália condena sete cientistas por não prever terremoto (Folha de São Paulo)

JC e-mail 4609, de 23 de Outubro de 2012.

Em 2009, o abalo sísmico em L’Aquila matou mais de 300 pessoas e deixou cerca de 65 mil desabrigadas. Justiça alega que os especialistas foram negligentes.

Um tribunal da Itália condenou ontem (22) sete cientistas a cumprir seis anos de prisão por não terem previsto o terremoto que atingiu o país em 2009, na cidade de L’Aquila, região de Abruzzo. Mais de 300 pessoas morreram.

Todos os cientistas, que vão recorrer em liberdade, eram membros da Comissão Nacional para Previsão e Prevenção de Riscos. Foram acusados de negligência, por não terem analisado corretamente as possibilidades do terremoto acontecer e, assim, alertar as autoridades.

Entre os sete condenados estão grandes nomes da ciência italiana, como o professor Enzo Boschi, que presidiu o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, e o vice-diretor da Defesa Civil, Bernardo de Bernardinis.

Cientistas de diversas partes do mundo protestaram contra a decisão do tribunal em condená-los por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Em protesto, uma carta com mais de 5.000 assinaturas de cientistas foi entregue ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, alegando que a ciência não possui meios para prever terremotos, e que o processo pode impedir que futuramente especialistas aconselhem governos a respeito de riscos sísmicos.

Imprevisível – Segundo a técnica de sismologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) Célia Fernandes, é muito difícil identificar o momento exato em que irá acontecer um abalo sísmico. “Todos os profissionais de sismologia trabalham com o objetivo de prever terremotos, mas não existe regra na natureza. Mesmo a recorrência de sismos não é garantia de que um terremoto de grande magnitude está prestes a acontecer”, afirma.

Os cientistas se reuniram na cidade de L’Aquila em 31 de março de 2009, seis dias antes do terremoto, e não comunicaram sobre a chance de um abalo sísmico. Para o tribunal, eles falharam por terem subestimado os riscos, limitando a ação das autoridades públicas, que não tiveram tempo suficiente para tomar medidas necessárias para proteger a população.

Segundo os promotores, uma série de tremores de baixo nível atingiu a região nos meses que antecederam o terremoto e isso deveria ter sido interpretado pelos especialistas como um sinal do que estava para acontecer.

O terremoto de magnitude 6,3 graus atingiu L’Aquila em abril de 2009. Além das mortes, também feriu outras 1.500 pessoas. Estima-se que 65 mil tenham ficado desabrigadas. A condenação dos cientistas ainda não é definitiva. Eles devem entrar com um recurso.

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Artigos:

David Alexander. An evaluation of medium-term recovery processes after the 6 April 2009 earthquake in L’Aquila, Central Italy. Environmental Hazards, iFirst.

Abstract

This article uses the earthquake of 6 April 2009 at L’Aquila, central Italy (magnitude 6.3) as a case history of processes of recovery from disaster. These are evaluated according to criteria linked to both vulnerability analysis and disaster risk-reduction processes. The short- and medium-term responses to the disaster are evaluated, and 11 criticisms are made of the Italian Government’s policy on transitional shelter, which has led to isolation, social fragmentation and deprivation of services. Government policy on disaster risk is further evaluated in the light of the UNISDR Hyogo Framework for Action. Lack of governance and democratic participation is evident in the response to disasters. It is concluded that without an adequately planned strategy for managing the long-term recovery process, events such as the L’Aquila earthquake open up Pandora’s box of unwelcome consequences, including economic stagnation, stalled reconstruction, alienation of the local population, fiscal deprivation and corruption. Such phenomena tend to perpetuate rather than reduce vulnerability to disasters.

“[…] science and scientists were not on trial. The hypothesis of culpability being tested in the courts referred to the failure to adopt a precautionary approach in the face of clear indications of impending seismic impact, not failure to predict an earthquake, and this is amply documented in official records”.

David E. Alexander. The L’Aquila Earthquake of 6 April 2009 and Italian Government Policy on Disaster Response. Journal of Natural Resources Policy Research, Vol. 2, Iss. 4, 2010

Abstract

This paper describes the impact of the earthquake that struck the central Italian city of L’Aquila on 6 April 2009, killing 308 people and leaving 67 500 homeless. The pre-impact, emergency, and early recovery phases are discussed in terms of the nature and effectiveness of government policy. Disaster risk reduction (DRR) in Italy is evaluated in relation to the structure of civil protection and changes wrought by both the L’Aquila disaster and public scandals connected with the misappropriation of funds. Six of the most important lessons are derived from this analysis and related to DRR needs both in Italy and elsewhere in the world.

“As articulated at the meeting of the Commission on Major Risks on 31 March 2009, the Italian Government’s position was unequivocal: there was no cause for alarm. This attitude permeated its way down the ranks of the civil protection system. Then, at 00:30 hrs on Monday 6 April 2010, a tremor that was larger than usual shook L’Aquila. Residents rushed out of their houses in alarm. The strategy adopted by civil protection authorities was to tour the streets with loudspeakers advising people to calm down and return home. In the town of Pagánica, less than 10 km northeast of L’Aquila, residents did exactly that: in the ensuing main shock three hours later, eight of them died and 40 were seriously injured. In L’Aquila city I investigated one case in which a young lady had decided to remain out of doors after the foreshock, while her parents returned home. Their bodies were recovered by firemen from a space barely 15 cm wide into which the building had compressed as it collapsed”.

Um país estranho (FSP)

VLADIMIR SAFATLE

São Paulo, terça-feira, 23 de outubro de 2012

A Islândia é uma ilha com pouco mais de 300 mil habitantes que parece decidida a inventar a democracia do futuro.

Por uma razão não totalmente clara, esse país que fora um dos primeiros a quebrar com a crise financeira de 2008 sumiu em larga medida das páginas da imprensa mundial. Coisas estranhas, no entanto, aconteceram por lá.

Primeiro, o presidente da República submeteu a plebiscito propostas de ajuda estatal a bancos falidos. O ex-primeiro-ministro grego George Papandreou foi posto para fora do governo quando aventou uma ideia semelhante. O povo islandês, todavia, não se fez de rogado e disse claramente que não pagaria nenhuma dívida de bancos.

Mais do que isso, os executivos dos bancos foram presos e o primeiro-ministro que governava o país à época da crise foi julgado e condenado.

Algo muito diferente do resto da Europa, onde os executivos que quebraram a economia mundial foram para casa levando no bolso “stock options” vindos diretamente das ajudas estatais.

Como se não bastasse, a Islândia resolveu escrever uma nova Constituição. Submetida a sufrágio universal, ela foi aprovada no último fim de semana. A Constituição não foi redigida por membros do Parlamento ou por juristas, mas por 25 “pessoas comuns” escolhidas de maneira direta.

Durante sua redação, qualquer um podia utilizar as redes sociais para enviar sugestões de leis e questionar o projeto. Todas as discussões entre os membros do Conselho Constitucional podiam ser acompanhadas do computador de qualquer cidadão.

O resultado é uma Constituição que estatiza todos os recursos naturais, impede o Estado de ter documentos secretos sobre seus cidadãos e cria as bases de uma democracia direta, onde basta o pedido de 10% da população para que uma lei aprovada pelo Parlamento seja objeto de plebiscito.

Seu preâmbulo não poderia ser mais claro a respeito do espírito de todo o documento: “Nós, o povo da Islândia, queremos criar uma sociedade justa que ofereça as mesmas oportunidades a todos. Nossas diferentes origens são uma riqueza comum e, juntos, somos responsáveis pela herança de gerações”.

Em uma época na qual a Europa afunda na xenofobia e esquece o igualitarismo como valor republicano fundamental, a Constituição islandesa soa estranha. Esse estranho país, contudo, já não está mais em crise econômica.

Cresceu 2,1% no ano passado e deve crescer 2,7% neste ano. Eles fizeram tudo o que Portugal, Espanha, Grécia, Itália e outros não fizeram. Ou seja, eles confiaram na força da soberania popular e resolveram guiar seu destino com as próprias mãos. Algo atualmente muito estranho.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

País ‘concorre’ a troféu por travar negociações na COP 11 (OESP)

JC e-mail 4605, de 17 de Outubro de 2012

Brasil é indicado pela segunda vez, durante a Convenção da Diversidade Biológica, a prêmio organizado por rede internacional de ONGs.

Pela segunda edição seguida da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), o Brasil figura hoje entre os indicados para o Troféu Dodô, que “premia” os países que menos têm evoluído nas negociações durante o encontro para evitar perdas de biodiversidade. Canadá, China, Paraguai e a Grã-Bretanha são os outros indicados pela CBD Alliance, uma rede internacional de ONGs que participa da convenção.

O pássaro dodô é o escolhido para dar nome ao prêmio por estar extinto há cerca de quatro séculos – a espécie vivia na costa leste da África, na Ilha Maurício. Nas convenções do clima, o equivalente é o Troféu Fóssil do Dia – o País foi “agraciado” em Durban, há quase um ano.

Entre as razões para a presença do País na lista está a falta de preocupação do governo com a biodiversidade na negociação de mecanismos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) – sistema de compensação financeira para atividades que diminuam a emissão de carbono.

Na 11ª conferência das partes (COP-11) da CBD em Hyderabad, na Índia, o Brasil quer evitar a definição de salvaguardas de biodiversidade nos textos, fazendo pressão para que haja diferenças claras entre os acordos da CBD e os estabelecidos nas Convenções sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC).

O governo brasileiro se alinhou a outros países descontentes, como Colômbia e Argentina, para criticar o texto que está sendo trabalhado na conferência da Índia. Em nota, o bloco afirmou que o documento está atrasado e não leva em conta as resoluções alcançadas nas Conferências do Clima de Cancún e de Durban.

“Muitas das recomendações que estamos vendo na COP-11 ou são redundantes ou colocam barreiras para a implementação dessa importante ferramenta (de Redd+)”, dizem os países. Além disso, o Brasil foi indicado ao troféu pelo fato de o governo não ter, segundo a rede de ONGs, uma boa relação com comunidades locais e tribos indígenas que vivem em áreas de relevância ecológica e biológica.

Nova indicação – Há dois anos, o País havia sido indicado por outro motivo: durante o encontro na cidade japonesa de Nagoya, os representantes brasileiros promoveram de forma escancarada os biocombustíveis e foram criticados por tentar abafar os possíveis impactos sobre a biodiversidade e as populações.

Os vencedores de 2010, porém, foram o Canadá e a União Europeia. O Canadá voltou a ser indicado neste ano, também acusado de tentar evitar a discussão sobre os biocombustíveis.

De acordo com as ONGs, a China tem desencorajado o desenvolvimento de áreas marinhas em países vizinhos, enquanto o Paraguai tem bloqueado qualquer progresso em assuntos socioeconômicos nas questões de biossegurança. Já a Grã-Bretanha estaria trabalhando para evitar discussões sobre biologia sintética e geoengenharia.

(O Estado de São Paulo)

ONU quer garantir que temperatura global não se eleve mais que 2ºC (Globo Natureza)

JC e-mail 4582, de 13 de Setembro de 2012

As negociações climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) devem continuar pressionando por atitudes mais ambiciosas para garantir que o aquecimento global não ultrapasse os 2 graus, disse um negociador da União Europeia nesta semana, um mês depois de os EUA terem sido acusados de apresentar um retrocesso na meta.

Quase 200 países concordaram em 2010 em limitar o aumento das temperaturas para abaixo de 2 graus Celsius, acima da era pré-industrial para evitar os impactos perigos da mudança climática, como enchentes, secas e elevação do nível das marés.

Para desacelerar o ritmo do aquecimento global, as conversações climáticas da ONU na África do Sul concordaram em desenvolver um acordo climático legalmente vinculante até 2015, que poderia entrar em vigor no máximo até 2020.

Entretanto, especialistas advertem que a chance de limitar o aumento da temperatura global para menos de 2 graus está ficando cada vez menor, à medida que aumenta a emissão dos gases de efeito estufa por causa da queima de combustíveis fósseis.

“Está muito claro que devemos pressionar nas negociações de que a meta de 2 graus não é suficiente. A razão pela qual não estamos fazendo o bastante se deve à situação política em algumas partes do mundo”, disse Peter Betts, o diretor para mudança climática internacional da Grã-Bretanha e negociador sênior da UE, a um grupo de mudança climática no Parlamento britânico.

Na última semana, cientistas e diplomatas se reuniram em Bangcoc para a reunião da Convenção da ONU sobre Mudança Climática (UNFCCC, na sigla em inglês), a última antes do encontro anual que será realizado entre novembro e dezembro em Doha, no Qatar.

Flexibilidade nas metas – No mês passado, os EUA foram criticados por dizer que apoiavam uma abordagem mais flexível para um novo acordo climático – que não necessariamente manteria o limite de 2 graus -, mas depois acrescentaram que a flexibilidade daria ao mundo uma chance maior de chegar a um novo acordo.

Diversos países, incluindo alguns dos mais vulneráveis à mudança climática, dizem que o limite de 2 graus não é suficiente e que um limite de 1,5 graus seria mais seguro. As emissões do principal gás de efeito estufa, o dióxido de carbono, subiram 3,1% em 2011, em um recorde de alta. A China foi a maior emissora do mundo, seguida pelos EUA.

As negociações para a criação de um novo acordo global para o clima, nos mesmos moldes de Kyoto, já iniciaram. Na última conferência climática foi aprovada uma série de medidas que estabelece metas para países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O documento denominado “Plataforma de Durban para Ação Aumentada” aponta uma série de medidas que deverão ser implementadas, mas na prática, não há medidas efetivas urgentes para conter em todo o planeta o aumento dos níveis de poluição nos próximos oito anos.

Obrigação para todos no futuro – Ele prevê a criação de um acordo global climático que vai compreender todos os países integrantes da UNFCCC e irá substituir o Protocolo de Kyoto. Será desenhado pelos países “um protocolo, outro instrumento legal ou um resultado acordado com força legal” para combater as mudanças climáticas.

Isso quer dizer que metas de redução de gases serão definidas para todas as nações, incluindo Estados Unidos e China, que não aceitavam qualquer tipo de negociação se uma das partes não fosse incluída nas obrigações de redução.

O delineamento deste novo plano começará a ser feito a partir das próximas negociações da ONU, o que inclui a COP 18, que vai acontecer em 2012 no Catar. O documento afirma que um grupo de trabalho será criado e que deve concluir o novo plano em 2015.

As medidas de contenção da poluição só deverão ser implementadas pelos países a partir de 2020, prazo estabelecido na Plataforma de Durban, e deverão levar em conta as recomendações do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que será divulgado entre 2014 e 2015.

Em 2007, o organismo divulgou um documento que apontava para um aumento médio global das temperaturas entre 1,8 ºC e 4,0 ºC até 2100, com possibilidade de alta para 6,4 ºC se a população e a economia continuarem crescendo rapidamente e se for mantido o consumo intenso dos combustíveis fósseis.

Entretanto, a estimativa mais confiável fala em um aumento médio de 3ºC, assumindo que os níveis de dióxido de carbono se estabilizem em 45% acima da taxa atual. Aponta também, com mais de 90% de confiabilidade, que a maior parte do aumento de temperatura observado nos últimos 50 anos foi provocada por atividades humanas.

O esvaziamento da discussão ecológica atual que não questiona o modelo econômico e de desenvolvimento (EcoDebate)

Publicado em setembro 6, 2012 por 

“A pergunta passa a ser ‘o que eu devo fazer para ajudar?’ (…) enquanto a questão principal deveria ser ‘contra quem e contra o quê eu devo lutar?’”

 Vladimir Safatle faz parte de uma nova leva de intelectuais de esquerda que não se intimida diante da diversidade de questões trazidas pelo mundo contemporâneo. Nessa entrevista, o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a crise da democracia representativa pode ser a chave para compreender melhor fatos que à primeira vista não estão relacionados, desvelando mecanismos que ligam islandeses a pescadores brasileiros, ecologistas a jovens que voltam a reivindicar as ruas como espaço do fazer político. Um dos autores de ‘Occupy’ (Boitempo, 2012), Safatle defende que vivemos um momento em que a crítica da democracia, longe de balizar o totalitarismo, reacende a capacidade de reinvenção democrática na perspectiva da soberania popular. Com o lançamento de ‘A esquerda que não teme dizer seu nome’ (Três Estrelas, 2012), o filósofo propõe a urgência da saída do “cômodo e depressivo fatalismo”, que, desde a queda do muro de Berlim, alimenta a falsa impressão de que nenhuma ruptura radical está na pauta do campo político.

No seu livro, o senhor defende que falta à esquerda mostrar o que é inegociável. Abandonar o pragmatismo, superar os impasses da ‘governabilidade’, dentre outros elementos, seriam caminhos para isso. Em contrapartida, paira uma dúvida sobre os próprios partidos, sindicatos e estruturas semelhantes: será que serão capazes de se transformar? Os jovens que ocupam as ruas do mundo parecem não se identificar com esse tipo de organização da vida política. Por que isso acontece?

O que aconteceu com os partidos de esquerda?

Os partidos de esquerda passaram por duas fases. A primeira, muito marcada pela polaridade entre os partidos socialdemocratas e os partidos comunistas, sustentou o desenvolvimento dos Estados de bem-estar social na Europa nos anos 1950 e 1960. O segundo momento dos partidos de esquerda é resultado das ideias libertárias de maio de 1968, que vai gerar uma miríade de partidos libertários, sendo o mais importante deles o partido verde. Os partidos verdes vão conseguir impor uma pauta ecológica fundamental no debate político, mas este movimento também se esgotou. Talvez o último relance dele esteja acontecendo na Alemanha com o Partido Pirata. Só que falta uma terceira leva de partidos que sejam capazes de processar a situação fim de linha da crise de 2008, que ainda vai se perpetuar durante muito tempo.

Como esses partidos se caracterizariam?

Falta uma geração de partidos que tenha consciência de problemas vinculados à desigualdade econômica, coisa que esses partidos de segunda geração não têm. Diga-se de passagem, o Partido Verde alemão foi responsável pela lei que desregulamentou e flexibilizou o mercado de trabalho, votada na época do Gerhard Schröder [premier alemão de 1998 a 2005]. Falta uma geração de partidos com a coragem de radicalizar os processos de institucionalização da soberania popular. Partidos que não funcionem como partidos. Isso pode parecer uma coisa estranha, mas no fundo é muito importante. Partidos que não tenham essa estrutura centralizada, estrategicamente orientada, em que as discussões se submetem às estratégias político-partidárias eleitorais do dia. Por que os jovens não querem entrar em partidos hoje? Porque não querem ter a sua capacidade crítica instrumentalizada por cálculos eleitorais. Ninguém mais quer ficar fazendo uma aliança política com fulano para garantir a eleição de sicrano. Esse tipo de raciocínio de mercador, que conseguiu monopolizar a política em todos os seus níveis – inclusive no campo das esquerdas – é o que boa parte dos jovens de hoje se recusa veementemente a seguir, com todas as razões.

O que se coloca no lugar disso?

É fundamental encontrar um modelo de participação eleitoral em que esse tipo de posição não seja rifada. Ninguém aqui está fazendo a profissão de fé que vigorou nos anos 1990 de mudar o mundo sem tomar o poder. Isso não funcionou nem funcionará, o Egito é um exemplo. O grupo que realmente mobilizou o processo revolucionário chama-se Movimento 6 de abril. Eles decidiram não entrar no jogo eleitoral e estão cada vez mais isolados. Essa coisa da força que vem das ruas e vai pressionar o regime de fora tem limite. Então, não se trata de uma crítica abstrata do processo eleitoral, mas da constatação de que é necessário saber entrar nesse processo de uma maneira diferente da que vimos até hoje. Talvez a criação de alianças flexíveis para uma eleição que depois se dissolvem, como a Frente de Esquerda na França, coisas desse tipo. É difícil saber o que vai aparecer, mas uma coisa é certa: o que temos hoje não dá mais conta. Há uma fixação muito grande na democracia representativa. Desde os anos 1970 vivemos nas Ciências Políticas uma espécie de deleite em ficar discutindo como deve ser o jogo democrático, a estrutura dos partidos, dos poderes e blá, blá, blá. Esse tipo de perspectiva bloqueia radicalmente a ideia de que uma das questões centrais da democracia é fazer a crítica da democracia. Quando a democracia perde sua capacidade de reinvenção, ela morre. É o que está acontecendo agora.

O que contribuiu para a recomposição do espaço público das ruas e por que ele foi abandonado durante tanto tempo?

Para você ter crítica social e mobilização é necessário desencanto. Vários níveis de desencanto foram necessários para que as pessoas voltassem às ruas. Quando eu tinha vinte e poucos anos, o discurso era de que nunca mais veríamos grandes mobilizações populares. Poderia haver mobilizações pontuais sobre questões pontuais, mas nunca uma mobilização que colocasse em xeque o modelo de funcionamento e gestão da vida social no interior das sociedades capitalistas avançadas. Hoje vemos que quem fez essas previsões não só errou como tinha interesses ideológicos inconfessáveis. As pessoas que saíram às ruas em 2011 queriam discutir o modelo de funcionamento da estrutura econômica e social das nossas sociedades. No momento em que isso aconteceu, muitos, principalmente da imprensa, se deleitaram em dizer que eles não tinham propostas, o que é falso. Quem foi às ruas buscou o direito de colocar os problemas em questão. Muitas vezes, a pior maneira de se pensar em um problema é “solucioná-lo” muito rapidamente. Também houve quem não tenha ido às ruas e, diante da crise financeira, apareceu com soluções prontas. Essas ‘soluções’ só pioraram os problemas.

No que diz respeito à agenda ambiental, existem muitas ‘soluções’ que, na verdade, provocam um esvaziamento deliberado do potencial político das questões ecológicas. Vemos a individualização da responsabilidade pela poluição presente no discurso das sacolas plásticas, do tempo que as pessoas devem gastar tomando banho, etc. e também um esforço em afastar a população da discussão travestindo-a como eminentemente técnica. Como vê isso?

É uma tentativa de retirar a força política da questão ecológica transformando-a em uma questão moral. A discussão gira em torno dos atos dos indivíduos, que precisam ser modificados. Você precisa gastar menos tempo no banho, comprar produtos bio e coisas desse tipo. É uma maneira muita astuta de operar um deslocamento que é mortal para o problema ecológico, porque a pergunta passa a ser “o que eu devo fazer para ajudar?” – e, a princípio, parece legal todo mundo fazer alguma coisa para ajudar –, enquanto a questão principal deveria ser “contra quem e contra o quê eu devo lutar?”. Sem isso, a tendência é esvaziar completamente a dimensão da discussão ecológica, não se questiona o modelo econômico e de desenvolvimento. E o forte potencial político dessa discussão reside justamente nesse questionamento do modelo de desenvolvimento das sociedades capitalistas avançadas, colocando em xeque o modelo de organização e gestão das cidades, dos transportes, dos resíduos, da energia… Como resultado desse deslocamento da dimensão política para a moral, nada disso é colocado em questão, por mais que todo mundo defenda com a mão no coração “as florestas”, a questão que a ecologia trouxe está fora do debate.

A retórica do discurso técnico na qual as pessoas não conseguem ter acesso aos fatos sem a mediação de especialistas é um obstáculo para a reconstrução do campo político nas bases dessa democracia direta, estreitamente ligada aos reais interesses das populações, não?

Posso dar um exemplo sobre esse tipo de problema. A Islândia foi um dos primeiros países a entrar na crise financeira de 2008. Bancos islandeses venderam fundos de investimento na Holanda e na Inglaterra e quando esses bancos quebraram, os governos holandês e inglês exigiram que o governo da Islândia bancasse a dívida dos bancos. Diante disso, o parlamento islandês resolveu votar uma lei de ajuda aos bancos falidos e a lei passou. Mas o presidente da Islândia, que era um sujeito mais esclarecido, lembrou que a Constituição do país previa a convocação de um referendo popular em casos como aquele. Resumindo, ele lembrou que o princípio central da democracia é: quem paga a orquestra, escolhe a música. Quem pagaria aquela dívida não seria o parlamento, mas a população, que teria seus recursos e salários expropriados por uma série de impostos destinados ao pagamento da dívida dos bancos. A população islandesa decidiu que não queria isso. Depois do resultado do referendo, aconteceu a coisa mais fantástica, que é a essência da democracia parlamentar atual: o parlamento votou e aprovou mais uma vez a mesma lei de ajuda aos bancos. Então, novamente, o presidente acionou o mecanismo do referendo popular e, pela segunda vez, os islandeses disseram não. O que isso significa? Alguns podem questionar “como uma questão ‘técnica’ dessas vai parar em referendo popular?”, acusar o presidente de demagogia, etc., o que é absolutamente surreal. Não é possível que parlamentares que têm suas campanhas pagas por bancos definam o que vai acontecer com o dinheiro da população em relação ao pagamento ou não da dívida destes bancos. Não faltaram economistas prevendo que a Islândia iria quebrar. No entanto, de todos os países que entraram na crise, a Islândia é um dos que está em melhor situação atualmente. A tentativa de retirar a força política da decisão era simplesmente uma construção ideológica para legitimar os “técnicos”, que, no fundo, de técnicos não têm nada porque representantes do poder financeiro que conseguiu tomar conta de todas as instituições das democracias avançadas. Esse é o limite da democracia atual. O sistema financeiro é o grande inimigo da democracia.

Existe um tipo de agenda ambiental apoiada na entrada de bens comuns para o mercado que vem sendo denunciada como a solução encontrada pelo sistema financeiro para sair da crise ao mesmo tempo em que, também apoiada na retórica da crise, Angela Merkel lidera na zona do Euro políticas de austeridade que deslegitimam a vontade soberana dos povos, como no caso grego. Como ‘a esquerda que não teme dizer seu nome’ se coloca nesse processo?

Os problemas ligados à ecologia têm um forte potencial não só mobilizador como também transformador. No entanto, nós temos hoje duas ecologias. Uma tem um potencial transformador, mas a outra é conservadora. O capitalismo vê na ecologia um dos elementos de sua renovação. Hoje, qualquer liberal, qualquer analista de Wall Street vai admitir o discurso ecológico. Há alguns autores que falam que depois da bolha imobiliária, nós temos agora a bolha verde. Uma vez escrevi um pequeno texto sobre o filme Wall Street [2010], de Oliver Stone, que me impressionou pela agudez da metáfora. Um jovem analista do mercado aposta no potencial financeiro das energias renováveis. Ele era um visionário porque, de certa maneira, pregava uma reconciliação entre o setor mais rentista da economia e algumas exigências presentes na pauta ecológica. Isso só pode ser feito rifando completamente a dimensão em que a reflexão ecológica aparece como um elemento fundamental de afirmação da soberania popular. Existe uma tendência bizarra, mas muito concreta, de articulação entre um determinado setor de lutas ecológicas e o capital financeiro. Inclusive, do ponto de vista eleitoral, acontece muita coisa complicada. Os partidos verdes europeus preferem se aliar a partidos de centro do que aos partidos de esquerda. Por exemplo, na Alemanha, o Partido Verde prefere uma aliança com a CDU [partido democrata-cristão da primeira-ministra Angela Merkel] do que uma aliança com a Die LINK, que é um partido de esquerda mais dura. Na França foi a mesma coisa. Tudo isso me parece muito preocupante. É necessário livrar a agenda ecológica dessa tendência à justificativa de um liberalismo renovado para recolocá-la no lugar onde ela sempre esteve, ou seja, como elemento fundamental da reflexão da esquerda sobre o caráter deletério dos processos de desenvolvimento do capitalismo avançado.

Como o novo pensamento de esquerda pode articular uma mirada filosófica diferente para a questão do uso produtivista da natureza, característico do neodesenvolvimentismo aqui no Brasil?

Eu reconheço que esse produtivismo em relação à natureza também esteve muito presente em certos setores da esquerda que, durante muito tempo, entenderam a natureza como fonte de recursos e só. Basta lembrar que nos países comunistas a política ambiental foi catastrófica. Isso, inclusive, tem base teórica, vem de uma leitura do pensamento marxista em que a natureza era um discurso reificado, sem realidade ontológica em si. Em última instância, a natureza era o fruto do trabalho humano então a intervenção humana na natureza já estava justificada de antemão, sem maiores contradições. Mas acredito que do ponto de vista da esquerda hoje existe uma consciência tácita a respeito da centralidade da agenda ecológica. Não foram poucos os filósofos no século 20 que nos alertaram para o impacto negativo da redução da relação com a natureza a sua dimensão eminentemente técnica. Por mais que o desenvolvimento técnico pareça nos assegurar a dominação da natureza, o fato de compreender a relação humana com a natureza sob o signo da dominação já é um problema grave. Então, essa ideia de que, sim, vivemos em um país que tem necessidades de desenvolvimento maiores porque há urgências de inclusão social não invalida o fato de estarmos no interior de um processo de reflexão sobre o que significa riqueza social. Será que riqueza social significa ter um conjunto determinado de bens de consumo, ter transporte individual, ter uma relação extrativista da energia natural? Ou significa ser capaz de criar um modelo de relação com a natureza que garanta de maneira fundamental a qualidade de vida? Essa é uma bela questão que só o debate ecológico foi capaz de colocar.

Assim como em movimentos urbanos, a exemplo do Ocuppy, a pauta ecológica delineia um horizonte onde outro modelo de sociedade é possível, fazendo cada vez mais a crítica ao poder do sistema financeiro para bloqueá-lo?

A pauta ecológica atinge o modelo na sua esfera econômica mais clara ao afirmar que nós não queremos uma situação na qual todos os agentes econômicos estejam submetidos aos interesses de uma meia dúzia de multinacionais que detém não só a estrutura de produção, mas também o desenvolvimento da técnica. Quando se fala em agricultura familiar, o que isso quer dizer? Que, enquanto modelo econômico, não é possível estabelecer uma brutal concentração de terras, de tecnologia, de insumos. Insistir na agricultura familiar é, dentre outras coisas, insistir na pulverização radical da posse não só da terra, mas dos bens e das técnicas. Porque se isso não ocorrer, você tem não só consequências demográficas muito brutais, como o inchaço das periferias urbanas, mas também uma espécie de situação na qual a criatividade inerente à pulverização das técnicas é perdida. Milhares de produtores não vão produzir as mesmas coisas, nem sob as mesmas condições.

Por exemplo?

Por exemplo, quando essas questões ecológicas se vinculam ao problema da soberania alimentar. O fato de que você tem uma política agrícola que vai eliminando completamente a diversidade alimentar não é só uma questão de garantia das tradições – eu seria o último a fazer aqui a defesa abstrata da particularidade das tradições. Dentre outras coisas, é preciso reconhecer que a tradição tem uma dimensão de experiência que será muito importante para nós quando tivermos condições de compreender como os saberes alimentares se constituíram e o que eles garantem. Há uma tendência monopolista muito forte, nós vemos nas últimas décadas algo que está na base da tradição marxista, a ideia de que vai chegar um momento em que a própria noção de concorrência começa a desaparecer. Esse processo concentracionista toma a relação com a natureza de assalto, da maneira mais brutal possível. Todos esses movimentos camponeses, como a Via Campesina, insistem que há um risco não só econômico como social em se permitir a concentração das atividades agrícolas na mão de multinacionais. As sociedades pagarão caro se não conseguirem bloquear esse processo.

Pegando carona nesse exemplo da Via Campesina, cada vez mais surgem relatos de populações tradicionais emparedadas por esse modelo de desenvolvimento, mas, ainda sim, estes relatos bastante concretos e verificáveis são deslegitimados…

Tenta-se desqualificar essas resistências como uma espécie de arcaísmo. É como se dissessem “vocês precisam entender que têm uma visão absolutamente romântica do mundo”. É um discurso que condena “a crítica às luzes”, no final das contas. Diz muito a tentativa de retirar dessas lutas uma espécie de prova maior do conservadorismo de certas populações que no fundo são as populações mais vulneráveis, pois sabem que quando essas empresas chegam eles vão para o espaço simplesmente. Quando a Petrobrás chega para fazer a exploração de petróleo nas bacias, a vida dos pescadores é a última coisa na qual ela vai pensar. “Imagina você ficar preocupado com peixe quando o país quer se transformar em uma grande potência petrolífera?”. Ou seja, eles querem vender essa perspectiva, mas uma questão fundamental da esquerda é saber defender as alas mais vulneráveis da sociedade. Existe um modelo retórico que procura nos fazer acreditar que toda resistência seja, no fundo, uma recusa do progresso. Acho importante recolocar de maneira clara o que significa ‘progresso’ no interior desse contexto. O progresso procuraria dar conta de certas exigências fundamentais de bem-estar. O progresso científico não é simplesmente um processo de dominação da natureza, mas também um processo de otimização do bem-estar humano. Mas esse dito ‘progresso’ promete uma maior qualidade de vida para as populações e acaba produzindo o inverso. Para que essa inversão não ocorra, é necessária uma reconstituição brutal dos modelos de relação com a natureza. E, nesse processo, o interessante é que nasce outra consciência da organização social.

* Entrevista realizada por Maíra Mathias para a revista Poli n° 24, de julho e agosto de 2012

** Entrevista socializada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio(EPSJV/Fiocruz), publicada pelo EcoDebate, 06/09/2012

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Realistically What Might the Future Climate Look Like? (Skeptical Science)

Posted on 31 August 2012 by dana1981

Robert Watson, former Chair of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), recently made headlines by declaring that it is unlikely we will be able to limit global warming to the 2°C ‘danger limit’.  This past April, the International Energy Agency similarly warnedthat we are rapidly running out of time to avoid blowing past 2°C global warming compared to late 19th Century temperatures.  The reason for their pessimism is illustrated in the ‘ski slopes’ graphic, which depicts how steep emissions cuts will have to be in order to give ourselves a good chance to stay below the 2°C target, given different peak emissions dates (Figure 1).

ski slopes

Figure 1: Three scenarios, each of which would limit the total global emission of carbon dioxide from fossil-fuel burning and industrial processes to 750 billion tonnes over the period 2010–2050.  Source: German Advisory Council on Global Change, WBGU (2009)

Clearly our CO2 emissions have not yet peaked – in fact they increased by 1 billion tonnes between 2010 and 2011 despite a continued global economic recession; therefore, the green curve is no longer an option.  There has also been little progress toward an international climate accord to replace the Kyoto Protocol, which suggests that the blue curve does not represent a likely scenario either – in order to achieve peak emissions in 2015 we would have to take serious steps to reduce emissions today, which we are not.  The red curve seems the most likely, but the required cuts are so steep that it is unlikely we will be able to achieve them, which means we are indeed likely to surpass the 2°C target.

Thus it is worth exploring the question, what would a world with >2°C global surface warming look like?

Global Warming Impacts

The 2007 IPCC Fourth Assessment Report (AR4) summarizes the magnitudes of impact of various degrees of warming here, and graphically in Figure 2, relative to ~1990 temperatures (~0.6°C above late 19th Century temperatures).

fig spm.2

Figure 2: Illustrative examples of global impacts projected for climate changes (and sea level and atmospheric carbon dioxide where relevant) associated with different amounts of increase in global average surface temperature in the 21st century. The black lines link impacts, dotted arrows indicate impacts continuing with increasing temperature. Entries are placed so that the left-hand side of the text indicates the approximate onset of a given impact. Quantitative entries for water stress and flooding represent the additional impacts of climate change relative to the conditions projected across the range of Special Report on Emissions Scenarios (SRES) scenarios. Adaptation to climate change is not included in these estimations. Confidence levels for all statements are high.  IPCC AR4 WGII Figure SPM.2.  Click the image for a larger version.

Some adverse impacts are expected even before we reach the 2°C limit, for example hundreds of millions of people being subjected to increased water stress, increasing drought at mid-latitudes (as we recently discussed here), increased coral bleaching, increased coastal damage from floods and storms, and increased morbidity and mortality from more frequent and intense heat waves (see here), floods, and droughts.  However, by and large these are impacts which we should be able to adapt to, at a cost, but without disastrous consequences.

Once we surpass the 2°C target, the impacts listed above are exacerbated, and some new impacts will occur.  Most corals will bleach, and widespread coral mortality is expected ~3°C above late 19th Century temperatures.  Up to 30% of global species will be at risk for extinction, and the figure could exceed 40% if we surpass 4°C, as we continue on the path toward the Earth’s sixth mass extinction.  Coastal flooding will impact millions more people at ~2.5°C, and a number of adverse health effects are expected to continue rising along with temperatures.

Reasons for Concern

Smith et al. (2009) (on which the late great Stephen Schneider was a co-author) updated the IPCC impact assessment, arriving at similar conclusions.  For example,

“There is medium confidence that ~20–30% of known plant and animal species are likely to be at increased risk of extinction if increases in global average temperature exceed 1.5 °C to 2.5 °C over 1980–1999”

“increases in drought, heat waves, and floods are projected in many regions and would have adverse impacts, including increased water stress, wildfire frequency, and flood risks (starting at less than 1 °C of additional warming above 1990 levels) and adverse health effects (slightly above 1 °C)”

“climate change over the next century is likely to adversely affect hundreds of millions of people through increased coastal flooding after a further 2 °C warming from 1990 levels; reductions in water supplies (0.4 to 1.7 billion people affected with less than a 1 °C warming from 1990 levels); and increased health impacts (that are already being observed”

Smith et al. updated the 2001 IPCC report ‘burning embers’ diagram to reflect their findings (Figure 3).  On this figure, white regions indicate neutral or low impacts or risks, yellow indicates negative impacts for some systems or more significant risks, and red indicates substantial negative impacts or risks that are more widespread and/or severe.  They have grouped the various climate change consequences into ‘reasons for concern’ (RFCs), summarized below.

smith embers

Figure 3:  Risks from climate change, by reason for concern (RFC). Climate change consequences are plotted against increases in global mean temperature (°C) after 1990. Each column corresponds to a specific RFC and represents additional outcomes associated with increasing global mean temperature. The color scheme represents progressively increasing levels of risk and should not be interpreted as representing ‘‘dangerous anthropogenic interference,’’ which is a value judgment. The historical period 1900 to 2000 warmed by 0.6 °C and led to some impacts. It should be noted that this figure addresses only how risks change as global mean temperature increases, not how risks might change at different rates of warming. Furthermore, it does not address when impacts might be realized, nor does it account for the effects of different development pathways on vulnerability.

  • Risk to Unique and Threatened Systems addresses the potential for increased damage to or irreversible loss of unique and threatened systems, such as coral reefs, tropical glaciers, endangered species, unique ecosystems, biodiversity hotspots, small island states, and indigenous communities.
  • Risk of Extreme Weather Events tracks increases in extreme events with substantial consequences for societies and natural systems. Examples include increase in the frequency, intensity, or consequences of heat waves, floods, droughts, wildfires, or tropical cyclones.
  • Distribution of Impacts concerns disparities of impacts.  Some regions, countries, and populations face greater harm from climate change, whereas other regions, countries, or populations would be much less harmed—and some may benefit; the magnitude of harm can also vary within regions and across sectors and populations.
  • Aggregate Damages covers comprehensive measures of impacts. Impacts distributed across the globe can be aggregated into a single metric, such as monetary damages, lives affected, or lives lost. Aggregation techniques vary in their treatment of equity of outcomes, as well as treatment of impacts that are not easily quantified.
  • Risks of Large-Scale Discontinuities represents the likelihood that certain phenomena (sometimes called tipping points) would occur, any of which may be accompanied by very large impacts. These phenomena include the deglaciation (partial or complete) of the West Antarctic or Greenland ice sheets and major changes in some components of the Earth’s climate system, such as a substantial reduction or collapse of the North Atlantic Meridional Overturning Circulation.

All of these reasons for concern enter the red (substantial negative impact, high risk) region by 4°C.  Aggregate impacts are in the red region by 3°C, and some types of concerns are in the red region by 1°C.

For more details we also recommend Mark Lynas’ book Six Degrees, which goes through the climate impacts from each subsequent degree of warming, based on a very thorough review of the scientific literature.  A brief review of the book by Eric Steig and summary of some key impacts is available here.  National Geographic also did a series of videos on the Six Degrees theme, which no longer seem to be available on their websites, but which can still be found on YouTube.

This is Why Reducing Emissions is Critical

We’re not yet committed to surpassing 2°C global warming, but as Watson noted, we are quickly running out of time to realistically give ourselves a chance to stay below that ‘danger limit’.  However, 2°C is not a do-or-die threshold.  Every bit of CO2 emissions we can reduce means that much avoided future warming, which means that much avoided climate change impacts.  As Lonnie Thompson noted, the more global warming we manage to mitigate, the less adaption and suffering we will be forced to cope with in the future.

Realistically, based on the current political climate (which we will explore in another post next week), limiting global warming to 2°C is probably the best we can do.  However, there is a big difference between 2°C and 3°C, between 3°C and 4°C, and anything greater than 4°C can probably accurately be described as catastrophic, since various tipping points are expected to be triggered at this level.  Right now, we are on track for the catastrophic consequences (widespread coral mortality, mass extinctions, hundreds of millions of people adversely impacted by droughts, floods, heat waves, etc.).  But we’re not stuck on that track just yet, and we need to move ourselves as far off of it as possible by reducing our greenhouse gas emissions as soon and as much as possible.

There are of course many people who believe that the planet will not warm as much, or that the impacts of the associated climate change will be as bad as the body of scientific evidence suggests.  That is certainly a possiblity, and we very much hope that their optimistic view is correct.  However, what we have presented here is the best summary of scientific evidence available, and it paints a very bleak picture if we fail to rapidly reduce our greenhouse gas emissions.

If we continue forward on our current path, catastrophe is not just a possible outcome, it is the most probable outcome.  And an intelligent risk management approach would involve taking steps to prevent a catastrophic scenario if it were a mere possibility, let alone the most probable outcome.  This is especially true since the most important component of the solution – carbon pricing – can be implemented at a relatively low cost, and a far lower cost than trying to adapt to the climate change consequences we have discussed here (Figure 4).

Figure 4:  Approximate costs of climate action (green) and inaction (red) in 2100 and 2200. Sources: German Institute for Economic Research andWatkiss et al. 2005

Climate contrarians will often mock ‘CAGW’ (catastrophic anthropogenic global warming), but the sad reality is that CAGW is looking more and more likely every day.  But it’s critical that we don’t give up, that we keep doing everything we can do to reduce our emissions as much as possible in order to avoid as many catastrophic consequences as possible, for the sake of future generations and all species on Earth.  The future climate will probably be much more challenging for life on Earth than today’s, but we still can and must limit the damage.

Shading Earth: Delivering Solar Geoengineering Materials to Combat Global Warming May Be Feasible and Affordable (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 29, 2012) — A cost analysis of the technologies needed to transport materials into the stratosphere to reduce the amount of sunlight hitting Earth and therefore reduce the effects of global climate change has shown that they are both feasible and affordable.

A cost analysis of the technologies needed to transport materials into the stratosphere to reduce the amount of sunlight hitting Earth and therefore reduce the effects of global climate change has shown that they are both feasible and affordable. (Credit: © mozZz / Fotolia)

Published August 31, 2012, in IOP Publishing’s journal Environmental Research Letters, the study has shown that the basic technology currently exists and could be assembled and implemented in a number of different forms for less than USD $5 billion a year.

Put into context, the cost of reducing carbon dioxide emissions is currently estimated to be between 0.2 and 2.5 per cent of GDP in the year 2030, which is equivalent to roughly USD $200 to $2000 billion.

Solar radiation management (SRM) looks to induce the effects similar to those observed after volcanic eruptions; however, the authors state that it is not a preferred strategy and that such a claim could only be made after the thorough investigation of the implications, risks and costs associated with these issues.

The authors caution that reducing incident sunlight does nothing at all to reduce greenhouse gas concentrations in the atmosphere, nor the resulting increase in the acid content of the oceans. They note that other research has shown that the effects of solar radiation management are not uniform, and would cause different temperature and precipitation changes in different countries.

Co-author of the study, Professor Jay Apt, said: “As economists are beginning to explore the role of several types of geoengineering, it is important that a cost analysis of SRM is carried out. The basic feasibility of SRM with current technology is still being disputed and some political scientists and policy makers are concerned about unilateral action.”

In the study, the researchers, from Aurora Flight Sciences, Harvard University and Carnegie Mellon University, performed an engineering cost analysis on six systems capable of delivering 1-5 million metric tonnes of material to altitudes of 18-30 km: existing aircraft, a new airplane designed to perform at altitudes up to 30 km, a new hybrid airship, rockets, guns and suspended pipes carrying gas or slurry to inject the particles into the atmosphere.

Based on existing research into solar radiation management, the researchers performed their cost analyses for systems that could deliver around one million tonnes of aerosols each year at an altitude between 18 and 25 km and between a latitude range of 30°N and 30°S.

The study concluded that using aircraft is easily within the current capabilities of aerospace engineering, manufacturing and operations. The development of new, specialized aircraft appeared to be the cheapest option, with costs of around $1 to $2 billion a year; existing aircraft would be more expensive as they are not optimized for high altitudes and would need considerable and expensive modifications to do so.

Guns and rockets appeared to be capable of delivering materials at high altitudes but the costs associated with these are much higher than those of airplanes and airships due to their lack of reusability.

Although completely theoretical at this point in time, a large gas pipe, rising to 20 km in the sky and suspended by helium-filled floating platforms, would offer the lowest recurring cost-per-kilogram of particles delivered but the costs of research into the materials required, the development of the pipe and the testing to ensure safety, would be high; the whole system carries a large uncertainty.

Professor Apt continued: “We hope our study will help other scientists looking at more novel methods for dispersing particles and help them to explore methods with increased efficiency and reduced environmental risk.”

The researchers make it clear that they have not sought to address the science of aerosols in the stratosphere, nor issues of risk, effectiveness or governance that will add to the costs of solar radiation management geoengineering.

Journal Reference:

  1. Justin McClellan, David W Keith, Jay Apt. Cost analysis of stratospheric albedo modification delivery systems.Environmental Research Letters, 2012; 7 (3): 034019 DOI:10.1088/1748-9326/7/3/034019

Conflitos pela água surgem no horizonte (IPS)

Inter Press Service – Reportagens

31/8/2012 – 10h21

por Thalif Deen, da IPS

conflitos Conflitos pela água surgem no horizonte

Participantes das atividades da Semana Mundial da Água, em Estocolmo. Foto: Peter Tvärberg, SIWI/CC by 2.0

Estocolmo, Suécia, 31/8/2012 – Diante da provável escassez de água nas próximas décadas, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos já previu um cenário futuro cinza: conflitos étnicos, tensões regionais, instabilidade política e inclusive matanças. Nos próximos dez anos, “muitos países importantes para os Estados Unidos seguramente experimentarão problemas relacionados à água, como escassez, má qualidade ou inundações, que alimentarão riscos de instabilidade e de fracassos no funcionamento dos Estados, aumentando as tensões regionais”, alerta a Avaliação Nacional de Inteligência, publicada em março.

Em julho, o presidente do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos, Chris Kojm, previu que até 2030 cerca de metade da população mundial (atualmente mais de sete bilhões de pessoas) viverá em áreas com severos problemas de água, elevando a probabilidade de assassinatos em massa. No entanto, o jornal The New York Timescitou Timothy Snyder, professor de história na Universidade de Yale, afirmando em um simpósio que “o pânico ecológico levará a matanças nas próximas décadas”.

Por sua vez, o diretor do Centro da Água da Universidade de Columbia, Upmanu Lall, foi mais cauteloso. “Não estou certo de que seja possível prever assassinatos em massa como resultado” da falta de água, disse à IPS. Lall afirmou que não prevê guerras ou conflitos internacionais por recursos hídricos. “Contudo, creio que a competição dentro de alguns dos maiores países, como a Índia, poderia levar a uma luta interna e ao aumento do terrorismo e dos conflitos sectários”, opinou. Porém, “evitar este futuro é possível se trabalharmos nele hoje”, ressaltou.

Este é um dos temas analisados na conferência internacional realizada em Estocolmo por ocasião da Semana Mundial da Água, que termina hoje. Lall considera realista a projeção de que, se tudo continuar igual, quase metade da população mundial viverá em “forte tensão pela água” até 2030. “É um desafio urgente, especialmente se considerarmos a possibilidade de grandes secas, por exemplo, as deste ano nos Estados Unidos e na Índia”, afirmou.

Os impactos serão muito graves e duradouros, alertou Lall. Porém, “se pudermos traduzir esta preocupação em ação, especialmente sobre com melhorar o uso da água na agricultura, de longe o setor consumidor mais ineficiente, então poderemos evitar este desastre”, aponto o especialista. No momento, há conversações nessa direção, mas não existem mandatos nem metas internacionais. Lall acrescentou que “é importante que isto seja assumido nos mais altos níveis para evitar uma considerável angústia na população e nas economias do mundo”.

Gary White, chefe-executivo e cofundador da organização Water.Org, acredita que o acesso aos recursos hídricos poderia ser motivo de conflitos nos próximos anos. “Particularmente em áreas pressionadas pela falta de água e nas quais há grandes concentrações de população pobre”, disse à IPS. “Entretanto, também acredito que a maioria dos governos que virão atuarão e adotarão políticas, regulações e acordos transitórios corretos e necessários para impedir grandes conflitos”, ressaltou.

White alertou que podem ocorrer casos de escassez aguda que teriam como consequência grandes perdas humanas e econômicas, mas acrescentou acreditar que “um conflito declarado seria algo excepcional”. Em geral, as crises regionais da água são geradas de forma relativamente lenta em comparação com a maioria dos desastres naturais, e, portanto, pode-se aprender lições para evitar impactos semelhantes em outros lugares, acrescentou.

“No entanto, essas crises e esses conflitos terão um impacto muito maior nos pobres, porque as populações mais abastadas sempre têm opções de utilizar tecnologia para tratar os recursos hídricos locais (como a dessalinização) ou para transportar água por aquedutos ao longo de grandes distâncias”, pontuou White. “Sempre afirmei que o direito básico deve ser de todos poderem pagar para obter água potável”, disse à IPS, referindo-se à decisão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de, em 2010, declarar a água e o saneamento um direito humano.

Hoje os pobres pagam mais pela água do que os ricos, seja em dinheiro ou em trabalho investido para adquiri-la. Tampouco os primeiros têm assegurada uma qualidade decente do recurso, lamentou White. “Aqui, quando digo pobres me refiro aos desfavorecidos economicamente em uma sociedade particular, e também às nações que não são tão ricas”, explicou. A menos que sejam estendidos serviços a essas pessoas, elas sofrerão, advertiu. E, para fazer isso, é preciso investimentos para desenvolvê-los e mantê-los.

“De fato, todos deveriam pagar um preço pela água, mas segundo seus meios, assim fortaleceriam seu direito de acesso a uma oferta confiável e de qualidade”, observou Lall, acrescentando que essa deveria ser a grande meta, e não apenas a declaração da água como um direito humano. Envolverde/IPS

Profeta do nada óbvio (FSP)

RUY CASTRO

São Paulo, segunda-feira, 09 de julho de 2012

RIO DE JANEIRO – Nelson Rodrigues era diabólico. Com toda a miopia e aversão a óculos, seu poder de enxergar ao longe era desconcertante. Como em 1970, quando, durante meses, sustentou sozinho a certeza de que a seleção brasileira “ganharia andando” a Copa do México (seus colegas, os “profetas da derrota”, apostavam na correria das seleções europeias). Bem, o Brasil ganhou andando.

Outra premonição foi a de fins de maio de 1962, quando garantiu que, se Pelé se machucasse na Copa do Chile, o garoto Amarildo o substituiria como um “possesso”. Um mês depois, Pelé se contundiu na segunda partida e a Copa acabou para ele. Amarildo entrou nos jogos restantes, fez os gols que Pelé faria e foi o “Possesso” que Nelson anteviu.

Outra de suas “verdades eternas” -proclamada na “Resenha Facit”, que Nelson estrelava na TV Rio com João Saldanha, Armando Nogueira e demais- foi a de que o videoteipe era “burro”. Na hora, parecia absurdo -como contestar algo que se podia ver e rever? Trinta anos depois, uma infração de Júnior Baiano na área do Brasil passou em branco pelos videoteipes e só apareceu, dias depois, por um ângulo inusitado de câmera. O juiz, que marcara o pênalti, estava certo. O videoteipe era mesmo burro.

Em fins dos anos 60, Nelson produziu outra frase impossível de ser verificada e que parecia provocação: “Ainda seremos o maior país ex-católico do mundo”. Previa um declínio da fé católica no Brasil porque setores da igreja estavam trocando a promessa da vida eterna pela luta armada contra a ditadura.

Nas décadas seguintes, sai papa, entra papa, essa linha política seria abandonada. Mas o encanto se quebrara. Em 1970, os católicos eram 90% dos brasileiros. Hoje, segundo o IBGE, são 64%. E, em 2030, serão menos de 50%. Nelson errou a causa, mas sua sentença continuou de pé.