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Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias (IPS/Envolverde)

Inter Press Service – Reportagens
25/6/2013 – 09h51

por Fabíola Ortiz, da IPS

ca18 300x168 Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias

Concentração na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em um dos muitos protestos pacíficos no Brasil. Foto: Fabíola Ortiz/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2013 – Matheus Mendes Costa, universitário, 21 anos, passou 13 horas detido em uma cela com não mais que três metros quadrados, em uma delegacia da cidade do Rio de Janeiro. Ele foi preso sob a acusação de agressão a policiais e destruição de instalações públicas. Costa, estudante de economia foi detido na madrugada do dia 18, durante uma das numerosas manifestações que paralisaram centenas de cidades pelo Brasil, dentro dos protestos detonados pelo movimento contra o aumento no preço do transporte público em algumas cidades e que, depois, passaram a exigir direitos sociais e políticos. Costa foi preso quando participava pacificamente, assegurou, ao lado de seu pai na manifestação que naquela noite tomou as ruas da cidade.

A dura e nada seletiva repressão policial é vista pelos analistas como um dos elementos que mais contribuíram para avivar a onda de protestos que sacodem o Brasil. A própria presidente Dilma Rousseff pediu contenção às forças da ordem em seu discurso ao país na noite do dia 21, destacando que a população tem o direito de protestar e garantiu que as desordens são provocadas por uma minoria de infiltrados. Além disso, ontem, Dilma se reuniu com o Movimento Passe Livre, e horas depois com os governadores dos 27 Estados e os prefeitos das maiores cidades. Nos dois encontros, a mudança da atuação policial estava na agenda.

“Estava com a mochila da faculdade e não imaginei que poderia me acontecer alguma coisa. O policial me agarrou pela mochila e arrancou o cartaz que eu carregava”, contou o jovem à IPS. O rapaz foi levado a um destacamento do Batalhão de Choque da Polícia Militar em um grupo de dez pessoas, na maioria estudantes e, inclusive, um sem-teto. “Nenhum de nós tinha perfil de vândalo. Um policial nos aterrorizou dizendo que lançaria uma bomba de gás lacrimogêneo contra nós. Os policiais que me pegaram não tinham identificação”, acrescentou o jovem.

Para serem liberados, Costa e os demais detidos tiveram que pagar fianças altíssimas. O estudante disse que não foi observado nenhum critério nos valores estabelecidos. “Éramos dez em uma cela pequena e nem todos puderam avisar suas famílias. Os policiais nos submeteram a diferentes humilhações. Até o mendigo, para ser libertado, precisou pagar uma fiança, a maior de todas, e tivemos que nos cotizar para ajudá-lo”, ressaltou Costa.

Analistas políticos e ativistas de direitos humanos coincidem em indicar que nas manifestações houve repressão policial indiscriminada junto com desordens e vandalismos cometidos majoritariamente por grupos infiltrados, responsáveis por saques de dependências públicas e lojas, que ofuscaram o objetivo pacífico das manifestações. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou que, somente no Rio de Janeiro, foram detidos arbitrariamente, até o dia 21, cerca de 60 manifestantes que ficaram presos em meio a batalhas entre forças policias e grupos de vândalos.

“Fiquei angustiado porque a polícia não fez seu trabalho de deter os violentos, mas se dedicou a deter inocentes com falsas acusações. Tive que pagar a fiança sem que me deixassem demonstrar que não havia feito nada agressivo”, criticou Costa, que deve enfrentar um julgamento por participação em grupo para delinquir.

O que aconteceu com Jorge Luiz de Jesus, de 18 anos, foi pior. Ele passou uma semana preso e esteve parte do tempo na rigorosa prisão de Bangu, onde compartilhou a cela com traficantes, assaltantes e violadores. Depois foi transferido para outra prisão, misturado com outros cem detentos. Sua prisão se agravou porque a polícia o acusou de carregar uma mochila com uma granada. “Expliquei que aquela mochila não era minha, e então o policial lançou um aerossol no meu rosto e disse ‘agora é sua’. A acusação foi forjada”, denunciou Jesus à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Essa comissão está recolhendo dezenas de casos de detenção arbitrária durante as manifestações na cidade. O Ministério Público estadual iniciou uma investigação sobre os denunciados abusos policiais e militares, principalmente por parte do Batalhão de Choque. Para evitar que os manifestantes sejam confundidos com gente violenta e detidos por vandalismo, a OAB do Rio de Janeiro mobilizou 70 advogados que percorrem as ruas, delegacias e hospitais da cidade para prestar assistência legal.

O presidente da OAB/RJ, Felipe Santa Cruz, destacou à IPS a presença de grupos fascistas infiltrados nos protestos e criticou a falta de preparo das forças de segurança para proteger os manifestantes de grupos que vão às manifestações para criar violência. “A polícia não tem um histórico repressivo, mas está militarizada e sua conduta é de enfrentamento. Isso facilitou a atuação de grupos neonazistas infiltrados, que atacaram com suas barras de ferro desde o começo das manifestações. A polícia deve garantir o direito ao protesto, mas acabou atacando os manifestantes”, afirmou Santa Cruz.

A falta de preparo das forças de segurança é alvo de inúmeras críticas. O pai do jovem Costa, um ativista pelos direitos humanos que preside a organização não governamental  Rio Paz, qualificou a desordenada atuação policial de “atentado à democracia”. Antônio Carlos Costa afirmou que “a polícia não tem preparo para atuar com a população em condições normais, quanto mais em situações de grandes protestos. O movimento foi espontâneo, ganhou o povo e as pessoas foram às ruas pelas razões mais nobres”.

As demandas se centram em pedir a reforma do Brasil, disse Antônio Carlos, para quem o movimento popular se caracteriza por seu caráter reformista e não por pretender subverter a ordem, mas gerar “uma limpeza moral” da maior democracia latino-americana. Este ativista considera que, por isso, é um erro o poder público ver e apresentar suas ações como agressivas e de caráter terrorista.

O que levou a população às ruas, segundo o presidente da Rio Paz, foi uma revolta contra os multimilionários gastos na construção e remodelação dos estádios de futebol para a Copa do Mundo no ano que vem, com seu preâmbulo da atual Copa das Confederações. A Copa das Confederações começou no dia 15, paralelamente ao início dos protestos, e terminará no dia 30.

Entre 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro também receberá a Jornada Mundial da Juventude, da qual participará o papa Francisco, e em 2016 será sede dos Jogos Olímpicos. “As autoridades subestimaram a conscientização da população”, opinou o ativista Costa. “Houve muita vontade política e muito gasto de dinheiro público para fazer as construções pedidas pela Fifa, enquanto há dívidas sem pagar em nossas escolas e nossos hospitais. A rua gritou, e é preciso ouvir esse grito”, enfatizou Antônio Carlos Costa. Envolverde/IPS

Momento histórico vivido no Brasil (Adital/Envolverde)

Sociedade
26/6/2013 – 09h29

por Leonardo Boff*

ca28 300x160 Momento histórico vivido no BrasilEstou fora do país, na Europa a trabalho e constato o grande interesse que todas as mídias aqui conferem às manifestações no Brasil. Há bons especialistas na Alemanha e França que emitem juízos pertinentes. Todos concordam nisso, no caráter social das manifestações, longe dos interesses da política convencional. É o triunfo dos novos meios e congregação que são as mídias sociais.

O grupo da libertação e a Igreja da libertação sempre avivaram a memória antiga do ideal da democracia, presente, nas primeiras comunidades cristãs até o século segundo, pelo menos. Repetia-se o refrão clássico: “o que interessa a todos deve poder ser discutido e decidido por todos”. E isso funcionava até para a eleição dos bispos e do Papa. Depois se perdeu esse ideal nas nunca foi totalmente esquecido. O ideal democrático de ir além da democracia delegatícia ou representativa e chegar à democracia participativa, de baixo para cima, envolvendo o maior número possível de pessoas, sempre esteve presente no ideário dos movimentos sociais, das comunidades de base, dos Sem Terra e de outros. Mas, nos faltavam os instrumentos para implementar efetivamente essa democracia universal, popular e participativa.

Eis que esse instrumento nos foi dado pelas várias mídias sociais. Elas são sociais, abertas a todos. Todos agora têm um meio de manifestar sua opinião, agregar pessoas que assumem a mesma causa e promover o poder das ruas e das praças. O sistema dominante ocupou todos os espaços. Só ficaram as ruas e as praças que, por sua natureza, são de todos e do povo.

Agora, surgiram a rua e a praça virtuais, criadas pelas mídias sociais.

O velho sonho democrático segundo o qual o que interessa a todos, todos têm direito de opinar e contribuir para alcançar um objetivo comum pode, enfim, ganhar forma.

Tais redes sociais podem desbancar ditaduras, como no Norte da África; enfrentar regimes repressivos, como na Turquia; e agora mostram no Brasil que são os veículos adequados de revindicações sociais, sempre feitas e quase sempre postergadas ou negadas: transporte de qualidade (os vagões da Central do Brasil têm quarenta anos), saúde, educação, segurança, saneamento básico. São causas que têm a ver com a vida comezinha, cotidiana e comum à maioria dos mortais. Portando, coisas da Política em maiúsculo. Nutro a convicção de que a partir de agora se poderá refundar o Brasil a partir de onde sempre deveria ter começado, a partir do povo mesmo que já encostou nos limites do Brasil feito para as elites. Estas costumavam fazer políticas pobres para os pobres e ricas para os ricos. Essa lógica deve mudar daqui para frente. Ai dos políticos que não mantiverem uma relação orgânica com o povo. Estes merecem ser varridos da praça e das ruas.

Escreveu-me um amigo que elaborou uma das interpretações do Brasil mais originais e consistentes, o Brasil como grande feitoria e empresa do Capital Mundial, Luiz Gonzaga de Souza Lima. Permito-me citá-lo: “Acho que o povo esbarrou nos limites da formação social empresarial, nos limites da organização social para os negócios. Esbarrou nos limites da Empresa Brasil. E os ultrapassou. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil, quer uma sociedade de humanos, coisa diversa da sociedade dos negócios. É a Refundação em movimento”.

Creio que este autor captou o sentido profundo e, para muitos, ainda escondido das atuais manifestações multitudinárias que estão ocorrendo no Brasil.

Anuncia-se um parto novo. Devemos fazer tudo para que não seja abortado por aqueles daqui e de lá de fora que querem recolonizar o Brasil e condená-lo a ser apenas um fornecedor de commodities para os países centrais que alimentam ainda uma visão colonial do mundo, cegos para os processos que nos conduzirão fatalmente a uma nova consciência planetária e à exigência de uma governança global. Problemas globais exigem soluções globais. Soluções globais pressupõem estruturas globais de implementação e de orientação. O Brasil pode ser um dos primeiros nos quais esse inédito viável pode começar a sua marcha de realização. Dai ser importante não permitirmos que o movimento seja desvirtuado. Música nova exige um ouvido novo. Todos são convocados a pensar este novo, dar-lhe sustentabilidade e fazê-lo frutificar num Brasil mais integrado, mais saudável, mais educado e melhor servido em suas necessidades básicas.

Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra.

** Publicado originalmente no site Adital.

O êxtase da conexão nas ruas (Observatório da Imprensa/Envolverde)

Sociedade
26/6/2013 – 08h19

por Muniz Sodré*

ca47 300x200 O êxtase da conexão nas ruasUma cena exemplar. Um conhecido repórter dispõe-se a cobrir na rua um momento do protesto quando um dos manifestantes o proíbe de trabalhar. Ante a ponderação do jornalista de que nem a ditadura o havia impedido, o outro retruca: “Eu sou o povo, sou eu quem decide sobre quem trabalha ou não”.

O episódio pode servir de paradigma para o ethos de incerteza a propósito das manifestações de rua que se espalham como rastilho de pólvora por já mais de cem cidades do país. A frase do manifestante pode ser lida tanto como uma insólita afirmação de soberania popular quanto como um exemplo da velha truculência daqueles que no passado assumiam o poder absoluto em nome do povo – algo como um pequeno Stalin redivivo.

A verdade, porém, é que ainda não há um guia para a perplexidade (ou, como disse um colunista, para “o mundo da total complexidade”) que se abateu não apenas sobre políticos e jornalistas, mas também sobre alguns acadêmicos a propósito das manifestações de rua. Quando arriscam explicações, estas oscilam entre uma difusa indignação com o estado de coisas e a atração pela pura e simples ausência de finalidade. Uma coisa é certa: a finalidade inicial, que era protestar contra o aumento da passagem de ônibus (já atendida pelas principais prefeituras) foi ultrapassada por um fenômeno ainda pouco palpável do ponto de vista público.

Convocaram-se especialistas estrangeiros em comunicação, a exemplo do sociólogo espanhol Manuel Castells, autor de alentados volumes sobre as redes, que não hesitou em eleger a internet como protagonista dos acontecimentos. De fato, um dos vários slogans (hashtags, diz-se agora) brandidos por manifestantes dizia: “Saímos do Facebook”.Algo assim como aquela conhecida cena de A Rosa Púrpura do Cairo,em que Woody Allen faz o personagem sair da tela e entrar na vida real. A tela é agora a rede social, seus personagens teriam ganhado a rua.

Discurso ininterrupto

Mas aí é possível levantar alguma dúvida. De fato, mesmo com a ressalva de que se devem pôr ao lado da internet outras motivações sociais, permanece a impressão de que, na opinião absoluta dos especialistas, a internet é “a condição necessária para os movimentos sociais nos dias de hoje”. Não seria esta uma necessidade tíbia, mero “castelo” no ar dos argumentos? Suponhamos que, numa pequena cidade, se convocassem as pessoas por megafone a uma manifestação. Seria “megafônica” a essência desse movimento?

Só para variar um pouco o ramerrão argumentativo, pensemos na hipótese, mesmo provisória, de que o sucesso fabuloso da tecnologia eletrônica possa estar toldando a plena percepção dos fenômenos sociais. Isto não é novo na história ocidental. O velho e atualíssimo Karl Marx já havia observado que “as revoluções burguesas, como as do século 18, precipitam-se rapidamente de sucesso em sucesso, seus efeitos dramáticos ultrapassam um ao outro, homens e coisas parecem envoltos em resplendores de diamante, o entusiasmo que chega ao êxtase é o estado permanente da sociedade – mas são de breve duração” (18 de Brumário de Luis Napoleão).

É de extraordinária pertinência esse “homens e coisas envoltos em resplendores de diamante”, esse “entusiasmo que chega ao êxtase”, pois a tecnologia eletrônica – produto notável da consciência hegemônica – propicia a todos, a todos nós, um entusiasmo extático. Não se trata de nenhuma grande mensagem transmitida, nenhuma revelação partilhada, pois toda essa história de conteúdo na mídia se resume na popularíssima expressão americana bullshit. Trata-se mesmo do êxtase da conexão.E dificilmente se entra em êxtase de olhos abertos. Não à toa, um dos cartazes da manifestação de rua pedia à polícia: “Não atirem nos meus sonhos!”

Não há dúvida, entretanto, de que a internet é um poderoso recurso de mobilização de jovens e adultos, principalmente jovens de classe média. Em outras palavras, é um extraordinário “megafone”. Têm razão aqueles que disseram ter saído do Facebook.Politicamente, a rede tem seus problemas, pois agora se sabe que informa sobre seus peões aos serviços americanos de espionagem. Comercialmente, nunca foi tão bem: segundo o site Olhar Digital, a rede digital atingiu, nos últimos 28 dias, a marca de um milhão de anunciantes ativos, assim como a marca de 16 milhões de pequenas empresas que frequentam regularmente as suas páginas. Os pequenos anunciantes são fundamentais para os negócios: no ano passado, injetaram 32 bilhões de dólares nos cofres da empresa, que ainda conta com outras receitas publicitárias.

Só que a influência de uma rede social sobre o seu “público” é diferente daquela que teria a mídia jurássica, e de nada vale buscar ali explicações para o comportamento coletivo nas ruas por parte de seus membros ativos. Talvez, porém, uma frase em outro cartaz forneça alguma pista: “País mudo é um país que não muda”. O que dizer então do discurso ininterrupto da televisão, do rádio, da enxurrada de revistas e das próprias redes sociais? A se levar a sério o cartaz, tudo isso não diz nada. É o “falatório” temido por filósofos.

Arrogância visível

O cartaz proclama um desejo de mudança. Mas mudar por que, é o que perguntava semana passada o El País:

“O Brasil está pior do que há dez anos? Não, está melhor. Pelo menos, é mais rico, tem menos pobres, e aumentam os milionários. É mais democrático e menos desigual. Como se explica então que a presidenta Dilma Rousseff com um consenso popular de 75% – um recorde que chegou a superar o do popular Lula da Silva – possa ter sido vaiada repetidamente na estreia da Copa das Confederações em Brasília por quase 80.000 torcedores de classe média que puderam dar-se ao luxo de pagar até 400 dólares por um ingresso?”

Para o prestigiado jornal espanhol, os protestos contra o aumento dos preços de ônibus por jovens que em sua maioria têm carros, os aplausos aos manifestantes por parte da classe média “C” que está ascendendo economicamente, os aparentes protestos contra a Copa por parte de gente que sempre se orgulhou de seu futebol e assim por diante – tudo isso seria estranho num país invejado até pela Europa e pelos Estados Unidos por seu desemprego quase nulo.

O próprio jornal, entretanto, arrisca uma resposta. Chegados à nova classe média, os pobres teriam tomado consciência de ter dado um salto qualitativo na esfera do consumo e agora querem mais. Mais o quê?

“Serviços públicos de primeiro mundo, ensino de qualidade, hospitais dignos sem filas desumanas, políticos menos corruptos, partidos que não sejam meros negócios privados, uma polícia que não atue como na ditadura e uma sociedade menos excludente. Definitivamente, querem “aquilo que aprenderam a desejar para ser mais felizes ou menos infelizes do que foram no passado”.

Isso é, evidentemente, pura especulação. Dizeres de cartazes podem ser sintomáticos, mas não realmente explicativos, pois é bastante provável que componham apenas um cenário estético para as incursões. Na realidade, ainda é muito cedo para se ter alguma clareza sobre o que realmente move os manifestantes. Nesse meio tempo, fazem-se apostas teóricas no advento de uma nova era, em que não é mais o futuro (portanto, nada de projetos políticos) e sim o presente que importa. E para compreendê-lo, diz-se, seriam necessárias novas ferramentas e narrativas.

Para a turma da euforia tecnológica, as ferramentas estariam nos posts dos sites.Exemplo de narrativa nova é a do sociólogo Michel Maffesoli, um apaixonado pelo Brasil e bastante conhecido nos círculos acadêmicos, para quem os jovens manifestantes são aquilo que ele chama de “a sociedade oficiosa”, ou seja…

“…a sociedade au noir, na sombra, escondida, que não se sente mais representada. Mas que não vai afrontar a sociedade oficial. E vai criar os seus próprios espaços, as suas utopias intersticiais: um lugar para se encontrar, cantar, eventualmente protestar, tirar proveito das reuniões para estar junto. O tripé dos valores modernos da sociedade oficial é: razão, trabalho e progresso. A nova geração acentua não o trabalho, mas a criação. Não o progresso, mas o presente. Não a razão, mas a imaginação”.

Bem, aqui no Brasil, o oficioso está decididamente afrontando o oficial. No fosso entre o oficial e o oficioso, cava-se o espaço para uma indignação que pode ser pacífica ou violenta. A pacífica foi anunciada anos atrás pelo francês Stéphane Hessel (1917-2013), num livrinho consumido por centenas de milhares de pessoas. Chamava-se Indignem-se!, publicado na coleção “Os que andam contra o vento”. Indignar-se contra o quê? Para ele, contra o poder do dinheiro, “que nunca foi tão grande, insolente e egoísta”.

Aqui, apenas a violência parece dar a medida real do grau de indignação nas manifestações brasileiras. Há algumas pistas, mas não palavras fortes. Também não há lideranças, mas “referências”, conforme a definição de suas “não-lideranças”. Realmente, não se sabe quem comanda, mas isso não deve ser recebido como algo tão estranho assim, já que também não se sabe muito bem quem é o verdadeiro poder no Brasil. A presidente manda em seus ministros, que não parecem mandar em nada, ao mesmo tempo em que é evidente não estarem as fontes do poder presidencial na figura da presidente, e onde estão ninguém sabe bem ao certo. Visível mesmo é arrogância dos executivos secundada pela surdez da classe política. Aliás, antiga surdez e nova mudez, porque ninguém tem visto político falando muito nestes dias. Onde se esconderiam os falastrões de sempre?

Espetáculo da violência

Quanto aos manifestantes nas ruas, não são todos exatamente os “jovens” de que fala o sociólogo, e sim um amálgama indefinido de gente saída da “Matrix” (a internet, as redes sociais), membros de pequenos partidos sem votos (mas beneficiários do Fundo Partidário), vândalos, bandidos mascarados que depredam e saqueiam, enfim o chienlit de que falou De Gaulle em maio de 1968. Talvez a violência seja uma resposta à costumeira ação policial, mas é também parte do espetáculo da revolta: na tevê e nas redes sociais, gera imagens que repercutem. Vale lembrar Rivarol, cronista da Revolução Francesa, para quem a revolução terminou quando chegou ao fim o espetáculo das execuções pela guilhotina. Mas também vale lembrar que a violência serve à velha direita golpista.

Nada disso invalida, porém, a potência da experiência que tomou de assalto as ruas – a experiência da revolta. Re-volta, ao pé do étimo, significa o retorno a um sentido que se perdeu, daí a sua possibilidade de mover-se por um ideal ético no rumo de uma renovação política. As massas revoltam-se para obter alguma coisa. Mas não está claro o que pretende obter a revolta de agora ­­­– nem sequer se pretende mesmo alguma coisa. Não há reivindicações; as demandas, se há, são fragmentárias.

O certo mesmo é que algo transbordou, o “saco” coletivo encheu diante da arrogância do poder, da impunidade dos puníveis, da indiferença das classes dirigentes ao desmantelamento da vida nas cidades (imobilidade urbana, criminalidade epidêmica, exorbitância dos impostos, preços atuais enlouquecidos por causa da futura festa olímpica) e também do falatório vazio da mídia (carros de tevê e jornalistas foram apupados). Indignado, o “espírito comum” virou Poltergeist, essa entidade mítica que às vezes perturba a tranquilidade das casas e, agora, das ruas.

Ora, essa metamorfose, a despeito daqueles que só enxergam a sua superfície eletrônica, também parece-nos justamente o contrário da catatonia verborrágica das redes sociais, onde o sujeito apõe a sua assinatura digital num manifesto qualquer e, de consciência limpa, agenda a balada. Manifestação é coisa anticatatônica, porque se faz com mãos e pés, com o confronto dos corpos num território concreto, sob a forma de um “nós” inquietante, monstruoso, chamado multidão. Esta última é uma besta que dorme e, uma vez acordada, pode dar medo.

Por isso, há algum alento humano na redescoberta do poder das ruas, ainda que tudo isso possa ser efêmero. A revolta de maio de 1968 na França começou a acabar quando a ela se juntaram organizações políticas e quando as ações de rua passaram a visar mais a sua reprodução midiática do que a real contestação do poder. Ou seja, quando se converteram no espetáculo da violência.

Por enquanto, como ninguém parece saber muito bem o que acontece, também não sei por que me vem à cabeça o poema “Gaúcho” do tão esquecido Ascenso Ferreira: “Riscando os cavalos!/ Tinindo as esporas!/ Través das coxilhas!/ Saí de meus pagos em louca arrancada!/ – Para quê?/ – Para nada!”

* Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.

A multiplicidade não é uma sopa de letrinhas (uninomade.net)

“A potência está numa afirmação criadora onde se é todo nela, e não em um monte de essenciazinhas meia bomba espalhadas por aí, expressões do niilismo da forma-mercadoria,”

A multiplicidade não é uma sopa de letrinhas de clichês e o fascismo não é mais um estilo vida entre outros possíveis

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Por Rodrigo Guerón, no facebook – 

24/06/2013

– mal traçadas e não revisadas linhas, escritas na correria dos acontecimentos das revoltas dos últimos dias, depois de uma troca de ideias virtuais com minha amiga Ivana Bentes –

 Escrevi há apenas cinco dias um texto, http://www.releasevirtual.com.br/o-que-e-e-o-que-nao-pode-ser-que-nao-e/,no qual mostrei entusiasmo como o movimento que começou contra o aumento das passagens, falei sobre a relação entre desejo e política mostrando como o capital sempre deixa o desejo aflorar para capturá-lo e as esquerdas, por sua vez, têm medo do desejo (as oficiais, burocratizadas, acadêmicas, hirarquizadas em partido, com exceções portanto: eis o pessoal do MPL mandando bem), isto é, não percebem que ele é revolucionário, ou no mínimo transformador: por isso perdem constantemente a batalha. Ainda por cima bati duro, sempre numa crítica que se pretendia “pela esquerda”, em certas posições de certos petistas e alguns militantes de esquerda (alguns, insisto, com exceções), chamando-os de “Reginas Duarte de vermelho”.

O problema, no entanto, é que não dá para usar, como vejo alguns fazerem, uma espécie de “cartilha pós-moderna padrão” para explicar tudo o tempo todo, sem avaliar cada momento a cada dia, como as coisas mudaram, foram e voltaram, as muitas forças ( e contra forças), quais são elas, quando e onde estão, mais e/ou menos forte e, sobretudo, onde cada um de nós está, se posiciona e age, em vez de ficar pairando sobre tudo (num sintoma de verticalização intelectual, de autoridade acadêmica, de especialista em “novos movimentos”, “multiplicidade” e etc). Em outros termos, não dá para desprezar os fatos e os acontecimentos. Se não fizermos assim vamos terminar por apresentar uma concepção de “multiplicidade” que mais parece ser uma grande sopa de letrinhas de clichês onde, no final, a potência da diferença, do singular, aquilo que escapa a maneira homogeneizadora como o capital regula os modos de vida, se esvazia quase que completamente.

Além disso, desqualificar qualquer relação com a história, numa espécie de “positivismo pós-moderno”, teleologia hegeliana rasteira, determinismo histórico com brinco no umbigo, encarando a pós-modernidade como “uma grande nova fase” onde todo o resto estaria “velho” e “superado”, é impotência pura, prato cheio para ações reacionárias (no sentido de “reativas”). Se há uma potência no pós-moderno (noção bem problemática, mas não tenho dúvidas que não somos mais modernos, e gosto disso) é exatamente no fato dele nos jogar para fora de qualquer teleologia histórica, isto é, o pós-moderno não pode ser visto como nenhum “fim da história” e sim como a oportunidade (a ser efetivada ou não) do fim da “grande narrativa histórica” e a liberação de novas histórias para além de qualquer “telos”. Estou completamente de acordo com aquele velho filósofo bigodudo que disse que não há criação e nem reinvenção na vida sem que façamos um movimento de “livre-se do seu passado”, mas o mesmo filósofo pensou isso num texto cujo título é “Das Utilidades e dos Inconvenientes da História para a Vida”, ou seja, as “utilidades” da história estão aí também.

Assim, sobre as manifestações da última quinta-feira (e não em relação a quase todas antes), o que eu achei é que as coisas ficaram esquisitas. Poderíamos até ver ainda ali uma multiplicidade que não era “sopa de letrinhas” (potente em suas diferenças), onde tinha de tudo, mas numa correlação de forças já bem diferente de antes; ou seja, um certo movimento pasteurizador de tudo me parecia cada vez mais evidente. Um grupo grande de meninos que pareciam de uma escola pública, ou de algum coletivo, bem espertos politicamente, com o qual andamos durante um tempo, estava também muito incomodado com isso; ou seja, a antipolítica que se espelhava pela manifestação que, mesmo como carnaval, parecia pobre: mais pra micareta do que pra bloco de rua; mais pra auditório de Luciano Hulk que pra baile funk.

No caso da predominância do hino nacional e da bandeira, posso até concordar com o argumento que diz ser meio absurdo ficar cobrando dos garotos o fato deles só cantarem hino nacional e gritos de torcida do Brasil se muitos deles estão indo pela primeira vez às ruas para se manifestar; ou seja, eles cantam o que sabem. Mas isso não significa que algum determinismo fatalista supostamente pós-moderno vá fazer com que eu deixe de considerar toda a semiótica destes símbolos na ligação com outros momentos da história do Brasil. Dizer que tudo já passou e é outro momento é um argumento que pode ser usado numa nota oficial das forças armadas contra a apuração dos crimes da ditadura.

Mas sim, evidentemente, é outro momento (radicalmente outro), e é o mesmo (assustadoramente repetitivo): “tudo ao mesmo tempo agora”. Por exemplo, a falta de apuração dos crimes da ditadura têm uma íntima relação com a violência da polícia militar sobre as pessoas que estavam nos bares da Lapa: violência molar e molecular a qual não fomos capazes, ao longo de todos estes anos, de se contrapor com eficácia (força) política. E que aliás, foi fichinha perto do que acontece na periferia e nas favelas frequentemente.

Ainda me detendo na última quinta-feira, eu acho que a ação conservadora foi de fato efetiva: os partidos, e alguns movimentos sociais, foram expulsos da manifestação debaixo porrada. Quando atacaram o pessoal da CUT foi bem em frente ao carro de som e o babaca lá, que não era nenhum neófito, ficou gritando o tal “sem violência” em vez de falar dos direitos que as pessoas têm de levar a bandeira. Na frente do ataque estavam visivelmente uns caras que pareciam milicos a paisana. Acabei de escrever que é ridículo a esquerda não ver a crise da democracia representativa e da forma-partido, mas quando o “grande” analista político da Globo fala isso, está querendo outra coisa do que eu. Como disse mais uma vez o filósofo, a pergunta não é “o que é?” e sim “o que quer?” tal ou tal força. Já ao pessoal que se concentrou no IFCS para ir, no momento em que saiu em direção à Presidente Vargas, foi atacado por uns caras que pareciam milicianos e que sabiam muito bem quem eram os líderes. Em Sampa, na Paulista, eles batiam em quem estava apenas com uma camisa vermelha, e não foi só a bandeira dos partidos, mas também a bandeira do Educafro que foi rasgada. Existe ( e eu apurei com cuidado esta informação) uma pauta própria da PM, em especial do Rio e na Bahia, ou seja, os policiais estão em franco confronto com os governadores e secretários de segurança (não que o Cabral não fosse capaz de ordenar aquela repressão na Lapa).

E, finalmente, tem toda a captura pela mídia, a pauta que ela tenta impor (com sucesso apenas parcial) e, sobretudo, o discurso dos “vândalos” que é abraçado por vários manifestantes que se apresentam prontamente como voluntários da polícia e da mídia contra os que não se manifestam nos padrões de “bom comportamento”. Padrões de bom comportamento estes que são rompidos de formas diferentes entre si, ou seja, não é apenas um tipo de ato de “quebra da ordem”, de insurgência – e podem ser mesmo eventualmente uma “ação da ordem” – que estoura em meio às manifestações; e é cínico não admitir que eles tiveram alguma função política na pressão para fazer baixar as passagens. E aí os eufóricos das novas tecnologias devem fazer uma pergunta: se é evidente que as mudanças políticas trazidas pelas redes sociais, as possibilidades de luta, de articulações produtivas e de resistência são enormes (vejamos o exemplo da Globo mostrando com 24 horas de atraso a violência na Lapa que antes tentou esconder – porque apoiou – graças a situação que se criou nas rede), por que tantas pessoas entram na rede para irem direto aos portais das grandes corporações de comunicação? Por que nas redes de relacionamento boa parte do que é compartilhado são notícias e imagens postadas por estas corporações? Por que tanto se busca este pensamento hierarquizado ali onde a potência está numa horizontalidade? É claro que vimos esses anos mil e uma formas de resistências e formas de organização produtiva nas redes, mas também não se pode deixar de notar o fascismo molecular impressionante que circula nelas (e que desceu às ruas quinta, principalmente na Paulista), e nem como as formas molares de organização têm tratado de aglutinar estas forças de forma mais sistemática de uns anos para cá, dentro da própria rede.

Não adianta ficar procurando linhas de fuga sem estar atento às capturas. E mais, uma das mais violentas formas do biopoder no capitalismo contemporâneo é impor esta alegria que nunca pode parar, esse otimismo que interdita a tristeza, a hesitação, a dor que provoca a dúvida. A propósito, eu já fiz um ensaio cinematográfico sobre isso “Eu estou bem cada vez melhor”…http://vimeo.com/65393274

Não fui o único a sair com um certo mal estar daquela manifestação, outras pessoas que também não são de uma esquerda burocrática e hierarquizada saíram. Aliás, o MPL se retirou em São Paulo e disse, em nota, que a direita tinha capturado o movimento. O mal estar, o incômodo, podem fazer pensar. Pelo que entendi do Espinosa e impressionante atualidade política da teoria dos afetos, não se trata de nenhuma forma de auto-ajuda antecipada em pleno século XVII.

E para encerrar, uma última reflexão: o fascismo não é parte da multiplicidade, ele é uma força anti-multipplicidade, destruidora das diferenças, e que pode se instalar no coração desta para diluí-las. Ou como disse aquele filósofo careca: o fascismo é “Eros fora”. Não se trata de escolher, ou usar tênis, ou ser punk, ou usar sandália de couro, ou entrar para PSTU, ou ser “coxinha”, ou gostar de funk, ou ser gay, ou ser fascista. A potência está numa afirmação criadora onde se é todo nela, e não em um monte de essenciazinhas meia bomba espalhadas por aí, expressões do niilismo da forma-mercadoria, que é a maneira como o capitalismo reduz os fluxos do desejo – sem os quais nem ele nem nós vivemos – a fluxos de merda. Nem muito menos pode haver possibilidade de vida numa força que existe para destruir toda e qualquer diferença: mesmo violento, do ponto de vista da vida e da política como forma de liberação social de novas possibilidades de vida, o fascismo é uma anti-força.

A falácia do liberalismo é tentar nos convencer que o fascismo é mais uma escolha que temos que “tolerar”, talvez porque o capital goste sempre de mantê-lo como uma carta na manga a qual ele pode lançar mão em situações limites. Assim, os que criticaram o filme “Tropa de Elite” de José Padilha, que fazia a apologia do Boppe e da violência policial, foram acusados de “intolerantes”, “patrulhadores” e etc. Pois bem, senhores liberais ingênuos e senhores liberais cínicos, o Boppe, o choque, a PM e etc, aparecem agora claramente como a carta na manga para manter os negócios copa – empreiteiras – Estado – corporações de comunicação – FIFA – patrocinadores em geral. “Não existe capitalismo liberal, só existe capitalismo de Estado”; disse o filósofo. E isso significa, inclusive, capitalismo com polícia sem limites: quando os limites existem, são as lutas que os conquistaram. O Wiki Leaks que nos ajude…

Por isso, que o mesmo filósofo que falou em multiplicidade, produção de subjetividade e diferença, afirmou a univocidade do ser. Isso não quer dizer que ele tenha dito, numa tentativa besta de quantificar, que o “Ser é Um”, mas que o Ser é todo no ato criador. A condescendência liberal com tudo na falsa multiplicidade-sopa-de-letrinha é a própria padronização-clichê que esvazia a possibilidade da criação da vida – e portanto da criação política – para além da forma mercadoria. Trata-se de uma operação política de poder que esvazia a possibilidade do devir revolucionário. Isso pode parecer uma simples elucubração filosófica, mas é a que faz politicamente toda a diferença; literalmente.

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Nem tudo é igual na revolta do Brasil (Desinformemonos)

“As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água demonstrou isso na Bolívia e, agora no Brasil, dezenas de cidades também estão fazendo isso”, pontua Rafael Siqueira, do Movimento Passe Livre.

BRISA ARAUJO
FOTOS: MÍDIA NINJA
Número 98    junio 2013

midianinja11Centenas de milhares de pessoas continuam nas ruas do Brasil enquanto os governos baixam as tarifas dos transportes – demanda que detonou as primeiras marchas – numa tentativa de acalmar os manifestantes. Novos atores sociais chegam às manifestações para desconcerto dos políticos de todas as orientações.

No dia 19 de junho, o movimento social ganhou a revogação do aumento de 20 centavos na tarifa dos transportes públicos de São Paulo, seguida pela diminuição das tarifas em outras importantes cidades do país. Mas na marcha de comemoração do dia seguinte, algo mais saltou aos olhos: mais de um milhão e 200 mil brasileiros de distintos grupos sociais saíram às ruas de mais de cem cidades em marchas que reivindicaram causas diversas, desde saúde e educação pública até a ira contra os partidos políticos, a corrupção no governo e os altos impostos.

O transporte foi o princípio

As marchas explodiram na quinta maior economia do mundo por uma causa aparentemente local e pontual, que é o preço do transporte nas grandes cidades. De alguma maneira, foi a gota d’água.

Rafael Siqueira, professor de música e militante do Movimento Passe Livre (MPL), indica que a mobilidade é um problema nacional. “Os sistemas de transporte público são caóticos em todo o país e no início de 2013 aumentam as tarifas em várias idades. Ainda que cada cidade tenha a sua situação particular, o problema é nacional”, explica. O MPL é formado por trabalhadores e estudantes e atua nacionalmente desde 2005, depois de revoltas na Bahia, em 2003 e Santa Catarina, em 2004. Uma das principais bandeiras do movimento é o acesso universal ao sistema de transporte urbano, que para eles deve ser gerido pelo Estado e não por empresas privadas.

Segundo Carlos Eduardo Martins, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a maciça adesão às manifestações inicialmente convocadas pelo MPL vem de uma indignação pela desmedida repressão policial contra o aumento, mas tem bases sociais mais profundas, como “a deterioração das condições materiais de vida pela inflação dos preços de habitação e a péssima qualidade dos serviços públicos de saúde, educação e transporte”. O professor afirma que a falta de definição entre o que é direita e esquerda no país também gera uma falta de esperança na política, já que “o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a dirigir o bloco de poder que reúne o grande capital nacional e estrangeiro, as oligarquias financeiras e o agronegócio. A consequência é uma ampla corrupção da vida política nacional”.

Inconformidade com os gastos excessivos no futebol

Desde o sábado 15 de junho, outro fator entrou na complexa conjuntura política brasileira. A Copa das Confederações, torneio de futebol da FIFA, é o primeiro evento que utiliza as megaobras programadas para o Mundial de Futebol de 2014. Os estádios Mané Garrincha (Brasília), Mineirão (Belo Horizonte), Castelão (Fortaleza) e o tradicional Maracanã (Rio de Janeiro) são agora cenário de manifestações fortemente reprimidas pela polícia durante todos os partidos do torneio. Fora dos estádios, pessoas se expressaram “contra o que se consideram gastos excessivos e abusivos na construção dos estádios. Além disso, reivindicam que esses recursos sejam investidos em áreas mais importantes para os cidadãos, como saúde, educação e mobilidade urbana”, resume o sociólogo Wagner Iglecias, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista com Desinformémonos.

Os Comitês Populares da Copa (COPACs) são movimentos sociais presentes nas 12 cidades que serão sede do torneio do próximo ano e estão articulados nacionalmente. Uma das principais preocupações dos comitês são os despejos nas cercanias dos estádios, assim como o aumento do fosso entre as classes altas e baixas das cidades. “Muitas das obras para o mundial são fruto de projetos antigos das classes dominantes, que agora encontram um motivo necessário para justificar reformas que provocarão o distanciamento dos pobres para a periferia mais distante de Fortaleza, causando segregação e distinção social”, defende o COPAC de Fortaleza, Ceará. Esta cidade já tem um claro exemplo deste processo: nas comunidades de Lagoa da Zeza e Vila Cazumba, mais de 5 mil pessoas foram desalojadas para um conjunto habitacional muito distante do centro, onde não há infraestrutura de escolas e creches.

O COPAC do Rio de Janeiro reforça as denúncias: “O que vemos hoje é o aumento da violação a direitos, principalmente contra comunidades pobres. Além disso, sabemos que a velocidade dos programas de urbanização de algumas favelas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), assim como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são parte de um conjunto de ações para que a cidade passe uma imagem de ‘ordem e progresso’ para os investidores e os turistas”, denunciam.

Os novos atores, entre o conservadorismo e a ira contra a classe política

Grande parte dos participantes das últimas marchas, no entanto, não são parte de movimentos sociais nem de nenhum partido político. São tão contrários a eles que nas grandes marchas do dia 20 de junho atacaram física e verbalmente pessoas com camisas ou bandeiras de partidos políticos. Convocados pelas redes sociais e estimulados por palavras de ordem nacionalistas e contra a classe política, representam, pontua o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto, “um Brasil muito conservador. As manifestações nos mostram que não porque centenas de milhares de pessoas saiam às ruas por uma reivindicação justa, a realidade mudou e vivemos agora numa comunidade de Ursinhos Carinhosos”, ironiza. O jornalista considera um erro assumir que estamos diante de um movimento fascista, como parte da esquerda teme. “É um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, que subitamente deu de cara com as manifestações de rua mas que não tem nenhuma formação política, somente muita raiva e indignação. Sua revolta não foi necessariamente contra os partidos, mas contra as instituições tradicionais que representam a autoridade como um todo”, analisou.

O futuro da política

Para Carlos Eduardo Martins, as marchas expressam “o colapso do sistema político brasileiro”. Iglecias acredita que são uma mostra de que o sistema políticos está demasiado afastado dos cidadãos e de suas preocupações cotidianas. “O sistema político brasileiro tem estado demasiado fechado em si mesmo, muito mais próximo dos interesses privados que da sociedade”, afirmou o sociólogo.

No calor do momento, algumas pessoas questionaram a ameaça de que as forças políticas de direita se aproveitassem da massificação para promover algum tipo de golpe de Estado, semelhante ao que aconteceu no Brasil em 1964 – quando a classe média descontente com os rumos do governo de João Goulart favoreceu um complô militar que derrubou o presidente. Para o professor da USP, esta possibilidade resulta pouco provável “porque há um sentimento muito forte de que este movimento pertence à sociedade civil, é um movimento que não quer a proteção de partidos, grupos, da mídia ou de qualquer outro ator político”, avaliou.

O que se pode dizer com segurança é que as manifestações que levaram mais de um milhão e meio de pessoas às ruas não são banais. O militante do MPL avalia que “a história prova que as manifestações mudam as coisas. Ou a escravidão ainda é normal? Ou a França ainda é uma monarquia? As manifestações criam um novo tipo de relação entre a população e o poder público. A Guerra da Água mostrou isso na Bolívia e agora no Brasil dezenas de cidades também estão mostrando”, finaliza Rafael Siqueira.

Brazil’s Protesters, in Their Own Words (N.Y.Times)

June 20, 2013, 3:13 pm9 Comments
By ROBERT MACKEY

A video interview with a supporter of the protests in Brazil, recorded during a demonstration in São Paulo on Monday night, by the filmmaker Otavio Cury and the journalist Dom Phillips.

As my colleague Simon Romero reports, Brazil is braced for another round of protests on Thursday, with demonstrations planned for dozens of cities, even after the authorities retreated from plans to raise bus fares across the country in the face of massive street protests.

Despite bus fare reductions in some cities, big protests planned in today. Follow them live & on social media http://bit.ly/14EUSUz 

18 RETWEETS 3 FAVORITES

The size and intensity of the demonstrations has created an instant demand in the global media for English-speaking academics and journalists who can explain the root causes of the protests to the rest of the world. Less often heard are the voices of the protesters themselves, and Brazilians who sympathize with their demands.

That makes the work of two contributors to the Brazilian newspaper Folha de São Paulo’s blog “From Brazil,” particularly valuable. Reporting from the streets of São Paulo this week, the filmmaker Otavio Cury and Dom Phillips, a British journalist based in Brazil, have produced two video reports, with English subtitles, in which Brazilians explain in clear terms the frustration and anger behind the movement.

In one video recorded on Monday night, a 46-year-old maid named Maria Lucia who was trying to make her way home through that night’s demonstration in São Paulo stopped to explain why she supported the protests. The second video report amplifies the voices of eight protesters who marched that night in a crowd estimated at more than 65,000.

The voices of Brazilian protesters in a video report recorded on Monday for the newspaper Folha de São Paulo’s “From Brazil” blog.

Mr. Cury offered one more, wordless, glimpse of the energy on São Paulo’s streets in a brief video clip of a protest marching band recorded during a demonstration Tuesday night.

Video of a marching band of protesters, recorded on Tuesday in São Paulo.

Não é hora de sair do movimento (uninomade.net)

Por Giuseppe Cocco, no facebook

22/06/2013

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Esquematicamente, faço um balanço depois das manifestações de quinta-feira, 20 de junho de 2013, a partir da experiência no Rio de Janeiro:

1) A partir de ontem o movimento pelo passe livre “passou” a ser outra coisa. Realmente monstruosa e o monstro é horrível e belo ao mesmo tempo.

2) Essa outra coisa ninguém sabe o que é e está totalmente em disputa.

O fato que as agremiações de esquerda tenham sido agredidas não significa que o movimento seja de direita. Foram agredidas por pequenos grupos, mas no meio de uma hostilidade geral à politica, ao mesmo tempo em que as organizações populares passeavam tranquilamente.

O que é certo é que o movimento coloca em crise todas as representações políticas e os planos de governo, político-partidários, eleitorais etc.

A grande mídia e a direita estão jogando pesado. Pra começar, é preciso entender quem agrediu.

O PT subavaliou e subavalia o custo de se manter em coalizões espúrias, de pensar que poderia resolver tudo desde cima, com base no neodesenvolvimentismo e nas técnicas gerenciais e de marketing eleitoral. O PT poderia perceber que tudo isso entrou em pane e se faz necessário inovar. Rapidamente! Dar sinais fortes disso.

3) O campo progressista passa – ele todo – inclusive a oposição de esquerda e o setores multitudinários do movimento, por três desafios e armadilhas:

a) O campo de governo (o PT) não tem um plano B. A atuação do Haddad admitindo um recuo junto ao Alckmin é desastrosa: amplifica a sensação: direita e esquerda são a mesma coisa. Uma sensação difusa, que não se materializava eleitoralmente, mas agora explodiu. Aí, o governo espera que “passe”, só que não passa e o monstro continua lá.

b) Diante do imobilismo do governo federal, o campo do PT está tentado (sobretudo depois de ontem) em polarizar em torno do golpismo e, ao invés de ira para dentro do movimento, com base no que deveria ser uma franca abertura — por exempo, colocando um Paulo Vannucchi no MJ, um Célio Turino no MinC, uma Ermínia Maricato nos Transportes e Cidade (ministerios unificados), — declarando moratória geral sobre preços dos transportes, aberturas de assembleias de participação em todos os territorios etc etc.

c) Decretar a idiotice que todo o movimento é direita, além de ser uma inverdade, é entregá-lo nas mãos do golpismo e da direita. Entre esses indigentes políticos do PT, há aqueles que pedem repressão. Não dá nem para acreditar. E não se trata apenas de um princípio, mas do óbvio que a repressão quem faz e quem se aproveita é a direita. É só ler O Globo do dia seguinte, depois que PM gazeou todo mundo ontem até a meia-noite.

Aqueles que “fazem multidão” dentro do movimento tem o desafio nada simples de se organizar para entender que a radicalização é democrática e passa também por dentro do movimento. Criticar – inclusive radicalmente – a Copa e as Olimpíadas de Cabral e Paes, os símbolos do poder e não estar preocupado com a proliferação de cartazes e comportamentos fascistas NAS manifestações está virando uma outra forma de idiotice.

Isto significa que é preciso passar a criticar a forma-manifestação e – com base no recuo geral dos preços das passagens – propor outras coisas que propiciem processos instituintes.

Agora, tudo isso passa hoje por dentro das manifestações. É ali que é preciso fazer essa batalha política, e está tudo muito complicado. Mas é aí, dentro do movimento, que a democracia precisa avançar.

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O sistema de transporte é mais violento do que a polícia (uninomade.net)

Por Bruno Cava, republicação do Quadrado dos loucos

14/06/2013

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Ligo o rádio e ouço que o trânsito está um caos. Desconfio imediatamente. O trânsito me parece muito organizado. Vejo fluxos turbulentos de ônibus, carros, motos, trens, indo e vindo do subúrbio ao centro e então do centro ao subúrbio. Todos os dias, ininterruptamente. São milhões de veículos abarrotados de uma gente resignada, olhares perdidos, no tempo morto do transporte diário. Vamos sentadinhos ou de pé, em qualquer caso comprimidos na massa de semelhantes de cara fechada. Acordamos cedo para enfrentar essa via-crúcis e no final do dia só queremos que acabe logo para chegar em casa, tomar banho e no dia seguinte subir a pedra de novo. São milhões e milhões de horas humanas gastas, jamais remuneradas. Pelo contrário, taxadas a preços que não param de aumentar.

Todos os dias nos acotovelamos, nos estranhamos, nos empurramos, passamos à frente, ou somos sobrepujados pelos mais espertos ou fortes. Brigamos por lugares apertadíssimos, repelindo a carne alheia. De carro, buzinamos, fechamos, brigamos com o motorista vizinho, xingamos o motociclista. A culpa é sempre do outro mal educado. Ou então é nossa, por ainda não podermos comprar o conforto do carro particular, por não morarmos ou trabalharmos no lugar correto. No mais das vezes, nos refugiamos nas mentes, lamentando a condição miserável de passageiro. Que passe logo.

Enquanto isso, uma dinheirama à noite estará depositada nos caixas dos ônibus, ficará nas bilheterias do metrô, do trem, das barcas, ou então estará trocada nos postos de gasolina, por ainda mais crédito medido em quilômetros para rodar no purgatório de asfalto. Esse dinheiro irrigará empresários, dirigentes, burocratas, campanhas eleitorais. Será reaplicado para tirar ainda mais valor dos fluxos. Não. Sejamos realistas. O trânsito está bem organizado. Nós somos a maior prova disso. Como poderíamos aguentar ainda outro dia, amanhã mesmo, se não tivesse sido pensado de cabo a rabo para funcionar assim? Só pode ser por que é para funcionar assim.

A grande imprensa faz crer que bastaria ajustar a eficiência do sistema, melhorar a gestão, reduzir a corrupção etc. Detalhes de minúscula importância. Vejo a TV chamando o trânsito de caótico, mas nenhuma palavra sobre o completo alijamento das pessoas na decisão sobre as linhas, as empresas, as obras e os equipamentos. A ausência de caráter democrático nas macro ou micro decisões no plano dos transportes é absoluta. Tampouco alguma reportagem, notícia ou artigo a respeito da confusão de prefeitura e empresa de ônibus, unha e carne num projeto político que vai das eleições à governabilidade. Nenhum jornalista dá nome aos bois. Aí quando um ônibus cai do viaduto, a culpa foi de um passageiro agressivo. Quando a mulher é estuprada numa vã ou num ônibus, a culpa é de alguns marginais. Escondem o fato que, por trás dessas exceções, subsiste uma regra menos confessável. Atrás do que o sensacionalismo diverte, há razões estruturais. O capitalismo é um sistema de dominação indireta.

Como se a tensão entre passageiros e motoristas/cobradores não fosse causada pelo ódio que todos têm dos ônibus. O que, por sua vez, exprime vicariamente o ódio que se tem pelo sistema de transportes como um todo. Isto é, pela simbiose entre prefeitura e empresa, numa gestão que parece operar mediante algum inacessível plano divino. Como se não fôssemos desgastados e estressados diariamente, até a exaustão mental (não fossem os tarjas pretas!). Como se as mulheres não tivessem de encarar, até a neurose, um abuso sexual sistemático, quase naturalizado pela indiferença com que esse abuso é observado pelos outros ao redor. Porque muitos homens se esfregam nelas nos veículos lotados, passam-lhes o pau, e alguns fazem isso como um ritual diário. Várias são estupradas nos pontos mais isolados, de dia ou de noite.

Antigamente, os escravos eram gastos no engenho e tinham de ser trocados a cada 7 ou 8 anos. Revoltavam-se demasiado. Fugiam. Culpavam o senhor. Hoje, a carne é moída pelo menos duas vezes ao dia, de manhã cedo e à tardinha. Mas os músculos e nervos a gente dá sobrevida com os modernos tratamentos da medicina do trabalho. Principalmente a televisão, a nossa maior terapeuta. A culpa geralmente é atribuída a nós mesmos, muitas vezes autoatribuída: se estamos sofrendo é porque fracassamos. Por não nos esforçarmos o suficiente para sair dessa vida de merda, como fulana ou beltrano…

Em vez de admitir como seria muito mais fácil, muito mais prático, lutar coletivamente por um transporte para todos, achamos que o problema é individual, que no fundo teríamos uma parcela da culpa, e nos resignamos. Imagine contudo o efeito político, se as energias que despendemos para, num esforço individual inglório, sair dessa condição e “subir na vida” fossem aplicadas coletivamente na luta dos transportes? Como teríamos um transporte muito melhor e para todos, do que tentar subir sozinho somente mais um degrau na escala de degradação generalizada da vida na metrópole?

Os movimentos e lutas do passe livre são a melhor saída. Talvez a única. Arregaçam à força um rombo no beco sem saída, aonde nos coloca a falsa oposição entre “público” e “privado”. Rejeitam em bloco as narrativas da grande imprensa, seus opinólogos e especialistas, de que faltaria gestão ou eficiência (e que o povo é mal educado). O problema do transporte afinal não é ele ser público nem privado, como estas também não são suas soluções. Nem ser mal gerido. O problema é e sempre foi falta de democracia.

E democracia, inexoravelmente, significa tumulto. O tumulto é o pulmão das democracias. É nele que atua o poder constituinte, o que faz a constituição e a lei não serem apenas folhas de papel para a exegese das faculdades de direito. Não devemos confiar a constituição a capas-pretas, cortes supremas ou ao francamente conservador discurso do “ativismo judicial”. O tumulto é o momento em que nós a fazemos nossa, e de onde dimanam todos os direitos e todas as instâncias democráticas. O tumulto é um ato de dignidade, o que só acontece ao irresignar-se diante do intolerável. A dignidade não é humana: é o oposto da humilhação. Uma das maiores e mais disseminadas violências hoje está no sistema de transportes.

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Bens públicos e violência: notas sobre São Paulo (uninomade.net)

Por Rafael Zanatta, no E-mancipação

14/06/2013

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Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.

De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.

O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.

O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.

Mas a dimensão da violência não é outra?

Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.

Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).

O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).

O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.

Qual a alternativa então?

Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).

Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.

Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.

De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.

O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.

O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.

Mas a dimensão da violência não é outra?

Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.

Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).

O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).

O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.

Qual a alternativa então?

Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).

Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.

Divulgue na rede

Cientistas sociais procuram modelo para onda de protestos no Brasil (Folha de S.Paulo)

23/06/2013 – 11h09

CASSIANO ELEK MACHADO
GRACILIANO ROCHA

Olhem para paris, diz Teresa Caldeira. Mas não a de Maio de 68: para a antropóloga brasileira radicada nos EUA, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, a análise das manifestações que tomaram o país na semana passada deve se pautar pelos distúrbios que eclodiram nas periferias francesas em 2005, quando cidades suburbanas na região metropolitana de Paris (“banlieues”) explodiram em uma onda de protestos sociais.

Especialista em antropologia urbana, Caldeira, 58, pesquisa a cultura da periferia, em especial a de São Paulo, e diz que se vários cientistas sociais se declararam surpresos, para ela não há novidade.

“Todos comparam com Istambul ou com a Primavera Árabe, mas deveriam olhar para o que houve em Paris há oito anos”, diz Caldeira. “Dá muito bem para entender o que está acontecendo e isso vem sendo articulado há muito tempo”, acredita a antropóloga, autora do livro “Cidade de Muro: Crime, Segregação e Cidadania” (Editora 34).

Ela lembra que o Movimento Passe Livre (MPL) existe há muitos anos e afirma que ele “articula todo o imaginário da produção cultural da periferia”.

“A Folha fez uma foto em 2010 de um grafite feito pelo MPL no Minhocão, em São Paulo, que dizia ‘A cidade só existe para quem pode se movimentar por ela’.”

Caldeira reproduziu a imagem em um artigo dela na revista “Public Culture” (Duke University Press, 2012) e a frase do grafite como uma ideia fundamental do movimento cultural da periferia. “Rap, literatura marginal, pixação, saraus, todos se fazem na base e rede e de circulação. E circular por São Paulo é um caos para quem não tem dinheiro.”

Opinião diferente tem o sociólogo francês Sebastian Roché. Em seu livro “Le Frisson de l’Émeute”, (Seuil, sem tradução no Brasil), ele afirma que as revoltas que inflamaram a França -cujo estopim foi a morte de dois adolescentes eletrocutados em uma perseguição policial- foram protagonizadas por jovens que se consideram vítimas da xenofobia por não terem a pele branca e, na maioria, filhos de imigrantes e muçulmanos.

“Os jovens muçulmanos, muito numerosos nas ‘banlieues’, não se sentem aceitos nem respeitados em suas crenças. Além disso, essa juventude foi abandonada à própria sorte. Nas ‘banlieues’, a taxa de desemprego oscila entre 25% e 40% entre jovens com menos de 25 anos”, frisa Roché.

Professor da celebrada Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos), da Universidade de Grenoble e pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Social), Roché diz ter acompanhado com atenção a onda de protestos no Brasil, e não vê “muitos pontos de comparação” entre o que aconteceu aqui e lá. Na França, diz ele, “não foram pobres destruindo o meio de vida de outros pobres”.

“A burguesia ou o governo não foram os alvos. Nenhum espaço do poder foi sitiado ou tomado. Ninguém se aproximou, por exemplo, do parlamento nem da sede do governo [como ocorreu no Brasil]. Aqui, os grupos operavam durante a noite, escondiam o rosto em capuzes e muitas vezes buscavam o confronto com a polícia. Não houve qualquer manifestação de massa, nenhum líder ou palavra de ordem emergiu.”

Teresa Caldeira, que no ano passado ganhou a prestigiosa bolsa Guggenheim de pesquisa, nos EUA, aponta outra foto dos movimentos recentes, que ela diz ter visto nas redes sociais, como icônica do que está acontecendo. Dois rapazes seguravam cartazes: um dizendo “O Brasil acordou” e outro “A periferia nunca dormiu”.

Também chamaram a atenção dela as faixas que faziam referências ao trabalho da polícia. “A PM está fazendo na Paulista o que faz todo dia na periferia”, dizia uma delas. “Há uma tensão de classes latente. E não me surpreende que os protestos tenham chegado agora na periferia”, diz ela, citando como exemplo as manifestações dos últimos dias em regiões como a estrada do M’Boi Mirim (na zona sul de São Paulo).

Ela aposta que, “tal como em Paris, em 2005, veremos agora a explosão da periferia”. Ainda que, segundo ela, a presença de classes A e B tenha tido importante papel na eclosão dos movimentos, os protestos veiculam uma insatisfação que vem sendo cozinhada nas periferias. “Uma coisa é de onde vem o caldo e a outra é a forma que a manifestação adquire. Na forma, parece um pouco com a Primavera Árabe: a maneira como circularam as informações e a insatisfação com as instituições políticas tradicionais”, diz.

“No conteúdo, é muito significativo que tenha estourado pelos R$ 0,20. Ninguém aguenta mais os ônibus da cidade. Conheço muita gente da periferia, devido às pesquisas, que todos os dias posta algo em mídias sociais contra o transporte público.”

Para o francês Roché, “a melhoria das condições de vida faz com que aqueles que se sentem excluídos se mobilizem coletivamente para reivindicar, como é o caso do Brasil”. “Na França, a questão é de exclusão social em um período de estagnação econômica, e a revolta de 2005 não gerou um modelo coletivo de massas e organizado. Não houve protesto contestador, mas sim apropriações individuais, como roubos e saques, ou então confrontos e destruição para exprimir a raiva. Nas ‘banlieues’, não houve reivindicação explícita.”

Ele afirma que, embora “revoltas possam ensinar muito aos governantes”, isso depende de eles “serem capazes de olhá-las de frente”. “Na França, nós não aprendemos muito. Em novembro de 2005, a França estava a um ano e meio das eleições presidenciais. O então ministro do Interior [Nicolas Sarkozy, presidente entre 2007-2012] viu naquilo uma oportunidade de reafirmar sua autoridade e estigmatizar as ‘banlieues’ e seus habitantes com vistas à eleição de 2007” -que ele terminaria vencendo. “Nenhuma análise política foi feita pelo Parlamento e menos ainda pelo ministério do Interior, proibido de refletir sobre sua atuação pelo próprio ministro.”

Para o sociólogo, as revoltas urbanas podem, ainda, exprimir um desejo de participação direta nas decisões públicas, no caso de países como Brasil e Turquia. “Nesses dois países, muitos jovens com acesso à educação apresentam reivindicações sobre o direito à diferença e que sejam levadas em conta suas demandas sociais pelo poder central desses países.”
O estudioso considera que “há progressos econômicos tanto no Brasil quanto na Turquia, e esses movimentos de contestação se dão em um contexto bem diferente do que ocorreu na França, cujo crescimento econômico tem sido mínimo ou nulo nos últimos anos”.

Para o sociólogo “o que está acontecendo no Brasil se parece mais com o Maio de 68”. “Naquela época a França vivia em pleno Les Trente Glorieuses [como ficaram conhecidas as três décadas de crescimento e prosperidade no pós-Guerra], e a juventude, com trabalho ou diplomas, mergulhou numa luta para que seu modo de vida e aspirações fossem reconhecidos pelo governo”, recorda.

La privatización de los comunes que encendió la Primavera Turca / A Primavera do Direito à Cidade (outraspalavras.net)

10/6/2013

Bernardo Gutierrez | Tradução: Bruna Bernacchio

Taksim é nosso, Istambul é nossa!”. Os gritos não pertencem a algum dos jovens que ocuparam o Parque Taksim Gezi, da capital turca, na virada do mês. Tampouco é um mote que esteja correndo o mundo no Twitter, sob a tag #OccupyGezi. “Taksim é nosso” está sendo pronunciado por um cidadão anônimo no vídeo Tkasim Square (Istambul Commons), durante uma manifestação celebrada no outono passado. “Taksim é nosso” – continua a voz no megafone – “não importa as opções políticas que tenham as pessoas”.

O vídeo foi produzido no âmbito do projeto Mapeando o Comum [Mapping the Commons], idealizado pelo estúdio sevilhano Hacktitetura e desenvolvido pelo ativistaPablo de Soto, em Atenas e Istambul. E contextualiza com perfeição a vertiginosa insurreição que está vivendo Istambul e toda a Turquia. O centro comercial planejado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, que incendiou #OccupyGezi, é apenas a ponta de um iceberg maior: um duro plano neoliberal para privatizar bens comuns (águas, bosques) e espaço público. Até que ponto o ataque ao comu, e concretamente a privatização dos espaços urbanos deflagraram a Primavera Turca?

O projeto Mapeando o Comum — definido por seus próprios autores como uma performance que pode tornar-se reflexão, uma obra de arte ou uma ação social — é um verdadeiro passeio pelas raízes de #OccupyGezi. A cartografia, realizada na plataformaMeipi, organiza o comu de Istambul em quatro categorias: bens naturais, cultura, espaço público e digital. Os vídeos publicados, todos com falas parcialmente em inglês, resumem os ataques que o o espaço público sofre na era Erdogan.

“Communication space”, por exemplo, revela, por meio dos protestos dos estudantes universitários, a luta pelo conhecimento e comunicação livres. Em “Water as a commons”, o assunto central é a privatização da gestão da água na região. “For-rest”denuncia que a terceira ponte sobre o estreito de Bósforo, que o governo de Erdogan planeja, implicaria na desaparecimento do bosque Belgrado, pulmão verde da cidade. A repressão no espaço público de manifestações sócio-culturais como festas nas ruas ou o fim da única praça de pedestres (Galata Square) de Istambul são tema os vídeos Cultural expressions in public space e o Galata Tower Square.

Até que ponto a privatização selvagem dos bens comuns naturais e urbanos de Istambul incendiou a revolta de #OccupyGezi? O ativista Pablo de Soto, em declarações ao jornal espanhol El Diario, sustenta que os fatos estão intrinsecamente relacionados: “O corte das árvores para construir um centro comercial para a elite e os turistas foi o pavio de incêndio, o catalizador final dos protestos por justiça social e econômica”.

A arquiteta turca Pelin Tan, em seu artigo Um relato de Gezi Park reforma a tese: “Para o governo turco, as novas políticas urbanas são a desculpa para atos de segragação, para incentivar estilos de vida neoliberais, o progressivo endividamento dos seus cidadãos, exploração, racismo, corrupção, e a instalação de um estado de exceção que viola os direitos humanos”. Por sua vez, a prestigiosa plataforma Architizer também situa os bens comuns urbanos como claro estopim da revolta.

#OccupyGezi é muito mais que um grito ecologista para salvar os árvores de Taksim. Mas não exclusivamente é apenas uma revolta antagonista contra a arrogância macropolítica do governo turco ou a suposta tentativa de islamização da Turquia que, segundo a imprensa ocidental, Erdogan conduz.

Em A Catedral e o Bazar, o hacker Eric S. Raymond contrapunha dois modelos na elaboração de software. A Catedral representa o modelo de desenvolvimento hermético e vertical do software proprietário. O bazar, com sua dinâmica horizontal e barulhenta, representaria a Linux e outros projetos de software livre, baseados no trabalho comunitário. Nenhum lugar como Istambul, com seu barulhento Gran Bazar, encarna melhor a metáfora urbana da tese de Raymond. De um lado, a catedral de receitas top down e privatizantes, do Governo de Erdogan. Do outro, o grande bazar humano de Istambul, seu espaço público, a tradição comunal das comunidades da cidade. #OccupyGezi e sua convivência humana resumem o choque de trens da história, entre dois modelos incompatíveis.

Derya Calik, estudante e ativista, descreve em uma entrevista a estratégia da catedral neoliberal contra os manifestantes de Taksim. “Na Turquia, não temos uma boa conexão 3G. Quando muito usada, a rede entra em colapso. Além disso, muitas pessoas foram informadas do uso de inibidores de sinal, por parte da polícia. Por isso, começamos a utilizar uma conexão VPN (Rede Virtual Privada). E, além disso, as lojas, restaurantes, hotéis e os residentes da zona cederam Wi-Fi aos manifestantes, abrindo as senhas de suas redes”. O bazar colaborativo de Istambul, no momento, driblou a aprisionadora catedral de Erdogan.

É possível fazer alguma comparação entre #OccupyGezzi e a acampada da Porta do Sol de Madri do 15M ou do Occupy Wall Street em Zuccotti? Pelin Tan, no texto já citado, destaca que “a ocupação de Gezi é um símbolo de estar juntos no comum (a arquiteta emprega a quase intraduzível palavra commoning), apesar de nossas diferenças”. Em #OccupyGezi, continua ela, envolveu-se “gente de diferentes classes, bairros e movimentos culturais — mais que organizações políticas e grupos de oposição”. Uma auto-organização transversal do bazar colaborativo, que a violência policial multiplicou até limites não esperados. Da praça ao mundo. Do hiperlocal à geopolítica.

Já o ativista Orsan Selap, habitual nas listas de correios de TakeTheSquare.net criadas no início do 15M espanhol, ressalta a El Diario a importância das redes na incipiente Primavera Turca: “O pensamento peer-to-peer (P2P) e em favor do comum nos dá uma alternativa clara ao capitalismo. Nesses momentos, nas redes sociais, as ruas e as lutas de Istambul estão convertendo-se em algo com muitos vínculos internacionais”.

(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim

De Taksim ao mundo. Do hiperlocal ao global. Do urbano à geopolítica. Em seu aclamado livro Cidades rebeldes, o sociólogo David Harvey afirma que a “revolução será urbana ou não será”. E adapta ao século XXI “o direito à cidade”, um velho grito dos anos sessenta, título de um mítico livro de Henry Lefebvre. O direito à cidade seria um “espaço social com interações e práticas onde a produção social tem lugar”.

A metrópole moderna tem um papel importante na produção do comum. Curiosamente, os movimentos sociais de Istambul estão remesclando o grito de Lefebvre-Harvey. No texto “O movimento pelo Direito à Cidade e o verão turco”, a jornalista independente Jay Cassano faz um detalhado repasse dos ataques neoliberais que Istambul está sofrendo nos últimos tempos, além do projeto de centro comercial para Gezi Taksim.

Jay cita em seu artigo a conversão do histórico cine Emek em shopping center. Menciona a terceira ponte sobre o Bósforo. E destaca o forte processo de segragação que Istambul está sofrendo, especialmente nos “bairros históricos de Sulukule, Tarlabasi, Tophane e Fener-Balat, onde vivem os imigrantes e a minoria curda”. Precisamente, Mapeando os Comuns dedica um vídeo ao distrito de Fenet-Balat-Ayvansaray, onde os vizinhos resistem ao plano urbanístico do Ajuntamento pela Associação Febayder.

O coletivo Reclaim Istambul, inspirado no coletivo britânico Reclaim the streets, que lutava pelo espaço público, faz uma verdadeira lista dos horrores urbanísticos planejados para a capital turca: “Centenas de edifícios gradeados, torres de escritórios, centros comerciais e projetos multiusos crescendo como flechas em toda a cidade”. Entre a penca de projetos de corte neoliberal, destacam Via Port Venezia (“redesenhamos Veneza e a trouxemos a Istambul”) ou Mall of Istambul (“aproveite de perto de um dos maiores shoppings da Turquia”). Em certo sentido, #OccupyGezi nasceu como grito coletivo para evitar que a milenária Istambul acabe se convertendo em Las Vegas ou Dubai.

O Reclaim Istambul é responsável por um dos documentários mais polêmicos dos últimos tempo, Ekümenópolis. Com um verdadeiro coquetel de imagens, entrevistas, músicas, gráficos e animações, Ekümenópolis desenha o selvagem ataque ao comum urbano e natural que sofre a cidade. A contundência de sua sinopse dá uma ideia da dureza de seu conteúdo: “Há alguns anos, Istambul tinha 3,5 milhões de habitantes. Hoje somos 15 milhões e em 15 anos seremos 23. Foram ultrapassados os limites ecológicos e de população. Perdeu-se a coesão social. Aqui surgiu uma imagem do urbanismo neoliberal: Ekümenópolis”.

“É mais que uma revolução tecnológica: é uma revolução cultural. Os rígidos modelos verticais para intensificar os sistemas de produção de massa do século passado estão sendo substituídos por flexíveis redes peer-to-peer, que nos levam até uma nova estética de códigos”. A frase é do arquiteto Joseph Grima, diretor da última edição da Bienal de Desenho de Istambul, celebrada ao final de 2012. Adhocracy, o título da Bienal, não foi casual. A adocracia, outro termo recentemente ressuscitado, é um novo modelo de organização flexível, intuitiva, transversal. A adocracia é horizontal, rotativa. Por isso, Adhocracy foi muito mais que uma exposição. Foi um laboratório.

Uma de suas comissárias, Ethel Baraona (dPr-Barcelona), respondendo a um questionário sobre #OccupyGezi, destaca o vínculo da Bienal com o comum urbano: “Uma grande parte dos projetos estava relacionada com o ativismo urbano, com a intenção de chamar a atenção do espaço público como espaço de intercâmbio de conhecimentos e de ação”. A Bienal adocrata espalhou por Istambul o dinamismo de coletivos-projetos como Crafting NeigborhoodsRecetas UrbanasOpen Structures,Maker Faire Africa, Arduino ou Zuloark (representando o madrilenho El Campo de Cebada).

Especialmente metafórico foi o projeto Drone Shade, da artista James Bridle. Depois de polvilhar de sombras de “drones” (aviões não tripulados) a Faixa de Gaza ou Londres, James desenhou com linhas brancas, no coração urbano de Istambul, a suposta sombra dos drones que os Estados Unidos utilizam da Turquia. O espaço público como tabuleiro do mundo. Como metáfora geopolítica. A metralhadora top down e neoliberal de Erdogan, representada em uma forma de contornos brancos. A aliança militar estadounidense-turca, que persegue o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte da Turquia e no norte do Irã, como uma verdade ao rés do chão. A cidade como campo de batalha.

Será #OccupyGezi é a primeira revolução incendiada pelo comum urbano? Talvez a primeira, mas não a última. O modelo da catedral neoliberal de Istambul replica-se em todo o mundo. As remoções e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro pré-olímpico são um exemplo. O projeto EuroVegas de Madri, como destaca Pablo de Soto, “é um escândalo de privatização e exceção da legalidade com mesmo grau destrutivo do parque Gezi em Taksim”.

Chegou a era das Cidades Rebeldes de David Harvey? Veremos uma sequência de revoluções urbanas em um planeta que esgota seus recursos naturais a um ritmo assustador? Ainda que não haja respostas, existem intuições. O antropólogo e ativista do 15M Adolfo Estalella, em seu provocador texto El procomún no es un commons vaticina uma forte politização dos núcleos urbanos: “O pró-comum é a figura que permite politizar a cidade. Se há dez anos a globalização era o objetivo de ativismo, agora é a cidade. Por isso, o comum é, para o ativismo atual o que a globalização era para este há dez anos”.

http://outraspalavras.net/2013/06/10/a-primavera-do-direito-a-cidade/

fonte original: http://www.eldiario.es/turing/privatizacion-comunes-encendio-Primavera-Turca_0_139986455.html

Cientistas desenvolvem simulador de mídias sociais (Fapesp)

Criado por pesquisadores da IBM e do Instituto de Matemática e Estatística da USP, sistema possibilitará prever o impacto de ações de comunicação em redes como Twitter e Facebook

04/06/2013

Elton Alisson

Agência FAPESP – O poder de difusão e a velocidade de propagação das informações nas mídias sociais têm despertado o interesse de empresas e organizações em realizar ações de comunicação em plataformas como Twitter e Facebook.

Um dos desafios com os quais se deparam ao tomar essa decisão, no entanto, é prever o impacto que as campanhas terão nessas mídias sociais, uma vez que elas apresentam um efeito altamente “viral” – as informações se propagam nelas muito rapidamente e é difícil estimar a repercussão que terão.

“Se antes uma pessoa divulgava uma informação no boca-a-boca para mais três ou quatro pessoas, agora ela possui uma audiência que pode chegar aos milhares de seguidores por meio da internet. Daí a dificuldade de prever o impacto de uma ação em uma mídia social”, disse Claudio Pinhanez, líder do grupo de pesquisa em sistemas de serviços da IBM Research – Brazil – o laboratório brasileiro de pesquisa da empresa norte-americana de tecnologia da informação – à Agência FAPESP.

Para tentar encontrar uma resposta a esse desafio, o grupo iniciou um projeto em parceria com pesquisadores do Departamento de Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP) a fim de desenvolver um simulador capaz de prever o impacto das ações de comunicação em mídias sociais com base nos padrões de comportamento dos usuários.

Os primeiros resultados do projeto foram apresentados no início de maio durante o 14th International Workshop on Multi-Agent-Based Simulation, realizado na cidade de Saint Paul, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos e, posteriormente, no Latin American eScience Workshop 2013, que ocorreu nos dias 14 e 15 de maio no Espaço Apas, em São Paulo.

Promovido pela FAPESP e pela Microsoft Research, o segundo evento reuniu pesquisadores e estudantes da Europa, da América do Sul e do Norte, da Ásia e da Oceania para discutir avanços em diversas áreas do conhecimento possibilitados pela melhoria na capacidade de análise de grandes volumes de informações produzidas por projetos de pesquisa.

Segundo Pinhanez, para desenvolver um método inicial para modelar e simular as interações entre os usuários de redes sociais, foram coletadas mensagens publicadas por 25 mil pessoas nas redes no Twitter do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e de seu adversário político, Mitt Romney, em outubro de 2012, último mês da recente campanha eleitoral presidencial norte-americana.

Os pesquisadores analisaram o conteúdo das mensagens e o comportamento dos usuários nas redes de Obama e Romney, de modo a identificar padrões de ações, a frequência com que postavam mensagens, se eram mais positivas ou negativas e qual a influência dessas mensagens sobre outros usuários.

Com base nesse conjunto de dados, desenvolveram um modelo de simulação de agentes – um sistema por meio do qual cada usuário avaliado é representado por programas individuais de computador que rodam integrados e ao mesmo tempo – que indica as probabilidades de ação na rede de cada uma dessas pessoas, apontando qual o momento do dia mais provável para publicar uma mensagem positiva ou negativa com base em seu histórico de comportamento.

Uma das constatações nos experimentos com o simulador foi que a retirada dos dez usuários mais engajados nas discussões realizadas no Twitter do presidente teria mais impacto na rede social do que se o próprio Obama fosse excluído.

“Esses resultados são preliminares e ainda não temos como dizer que são válidos, porque o modelo ainda é inicial e muito simples. Servem, contudo, para demonstrar que o modelo é capaz de mostrar situações interessantes e que, quando estiver pronto, será muito útil para testar hipóteses e responder a perguntas do tipo ‘será que a frequência com que o presidente Obama publica uma mensagem afeta sua rede social?’”, disse Pinhanez.

A IBM já possuía um sistema que permite a análise de “sentimento” – como é denominada a classificação do tom de uma mensagem – de grandes volumes de textos em inglês e em fluxo contínuo (em tempo real de informação), que a empresa pretende aprimorar para disponibilizá-la no Brasil.

“Estamos trabalhando para trazer uma série de tecnologias e adaptá-las para a língua portuguesa e à cultura brasileira, uma vez que o Brasil é o segundo país mais engajado em redes sociais no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos”, afirmou Pinhanez.

Desafios

Segundo os pesquisadores, um dos principais desafios para a análise de sentimento de mensagens publicadas nas redes sociais no Brasil é que o português usado nessas novas mídias costuma não seguir as normas cultas da língua portuguesa, e isso não se deve, necessariamente, ao fato de o usuário não dominar o idioma.

“Existem convenções de como se escrever de maneira cool nas redes sociais”, disse Pinhanez. Por causa disso, um dos desafios no Brasil será o de incorporar o novo vocabulário surgido nesses fóruns.

Além disso, os textos são mais curtos e informais do que os publicados em sites de avaliações de filmes, por exemplo, como o do Internet Movie Database, em que os comentários são mais longos, mais bem formatados e rotulados.

“Com base nesse tipo de critério, podemos saber, de antemão, qual o sentimento do texto: se o usuário deu muitas estrelas para o filme é que ele está falando bem. E se deu poucas estrelas é porque sua avaliação foi negativa”, disse Samuel Martins Barbosa Neto, doutorando do IME e participante do projeto.

“A linguagem usada no Twitter é muito mais natural. Há muita expressão e variações de palavras, o que torna muito mais complicada a classificação das mensagens. Às vezes não se tem informação suficiente para assegurar que, de fato, um determinado tweet é positivo ou negativo, uma vez que ele não tem um rótulo que permita compará-lo com outros. Por isso, muitas dessas mensagens precisam ser rotuladas manualmente”, explicou Barbosa Neto.

Outro desafio é extrair dados das redes sociais. No início, o acesso aos dados das mensagens de redes, como o Twitter, era totalmente aberto. Hoje, é limitado. Além disso, o número de informações geradas por redes sociais cresceu exponencialmente, impondo aos pesquisadores o desafio de extrair mostras significativas de grandes volumes de dados para validar suas pesquisas.

“A rede do Obama no Twitter deve ter chegado aos 25 milhões de seguidores. Como podemos apenas extrair uma pequena parte desses dados, o desafio é garantir que eles não sejam enviesados – representando, por exemplo, apenas um nicho de seguidores – para gerar um resultado válido”, explicou Barbosa Neto.

Colaboração de pesquisa

Roberto Marcondes Cesar Junior, professor do IME-USP e orientador do trabalho de doutorado de Barbosa Neto, conta que o projeto de desenvolvimento do simulador de rede social é o primeiro realizado por seu grupo em colaboração com a IBM Research – Brazil.

O grupo do IME trabalha há dez anos no desenvolvimento de projetos de análise de dados usando modelos estatísticos em áreas como Biologia e Medicina, para descobertas de novos genes e de redes gênicas, por exemplo. E, mais recentemente, começou a desenvolver pesquisas para a aplicação de modelos matemáticos em Ciências Sociais.

“Ingressamos nessa área com o intuito de aplicar as mesmas técnicas matemáticas e computacionais em situações em que os dados provêm de alguma atividade humana, especificamente, em vez da ação de um gene ou de uma proteína, por exemplo, e vimos a oportunidade de trabalhar essas técnicas em redes sociais, que, do ponto de vista abstrato, têm muitas semelhanças com uma rede gênica, porque são redes que conectam elementos”, comparou Marcondes Cesar, que é membro da Coordenação Adjunta de Ciências Exatas e Engenharias da FAPESP e coordena o Projeto Temático “Modelos e métodos de e-Science para ciências da vida e agrárias”.

“Enquanto em uma rede gênica os elementos são os genes, que trocam informação bioquímica, em uma rede social os integrantes são os usuários, que trocam mensagens de texto”, disse.

A parceria com a IBM Research – Brazil, segundo Marcondes Cesar, possibilita implementar as ferramentas desenvolvidas na universidade. Para facilitar a realização do projeto, o estudante de doutorado orientado por ele foi contratado como estagiário pela empresa.

“Temos feito muitos projetos em parceria com universidades e instituições de pesquisa. Acreditamos muito em inovação aberta e atuamos bastante dessa forma”, disse Pinhanez.

Segundo Pinhanez, poucos grupos de pesquisa no mundo tentaram desenvolver um simulador de mídias sociais, em grande parte pela dificuldade de se montar uma equipe multidisciplinar de pesquisa.

“Acho que, pela primeira vez, a comunidade científica tem algo parecido com o mapa de quem conhece quem no mundo. É um mapa ainda incompleto, cheio de erros e enviesado, mas o nosso trabalho é uma das primeiras simulações de comportamento de um número tão grande de pessoas”, afirmou. “Antes, quando se fazia isso era, no máximo, com 300 pessoas, e era preciso ficar coletando dados por anos.”

O artigo Large-Scale Multi-Agent-based Modeling and Simulation of Microblogging-based Online Social Network, de Pinhanez e outros, pode ser lido nos anais do 14th International Workshop on Multi-Agent-Based Simulation.

Conservation without supervision: Peruvian community group creates and patrols its own protected area (Mongabay)

By:Jenny R. Isaacs

April 30, 2013

“Rural dwellers are not passive respondents to external conservation agents but are active proponents and executers of their own conservation initiatives.”—Noga Shanee, Projects Director forNeotropical Primate Conservation (NPC), in an interview with mongabay.com.

When we think of conservation areas, many of us think of iconic National Parks overseen by uniformed government employees or wilderness areas purchased and run from afar by big-donor organizations like The Nature Conservancy, Wildlife Conservation Society, WWF, or Conservation International. But what happens to ecosystems and wildlife in areas where there’s a total lack of government presence and no money coming in for its protection? This is the story of one rural Peruvian community that took conservation matters into their own hands, with a little help from a dedicated pair of primate researchers, in order to protect a high biodiversity cloud forest.

On the 22nd of November, 2012, the Peruvian Andes village of Líbano celebrated the launch of the Hocicón Reserve, formed under an innovative conservation model in accordance with federal law which allows for local administration of lands by community organizations (in this case the Rondas Campesinas). The new reserve protects an area of tropical Andean cloud forest in one of the most diverse biomes on earth, home to many endangered and unique species including the endemic Andean night monkey (Aotus miconax), the Endangered white-bellied spider monkey (Ateles belzebuth), jaguars, tapirs and many more. Hocicón, a 505.9 hectare protected area, is on the border of the Amazonas and San Martin regions—two of the most densely populated rural regions in Peru with some of the highest deforestation rates in the country. The rural population in these regions—Campesinos or ‘peasant farmers’—are predominantly of mixed indigenous and European origin and, like the native wildlife, are also endangered, by land insecurity and degraded natural resources.

Noga and Sam Shanee have helped provide technical assistance to the creation of the Hocicón reserve. Ronda leader, Marcos Díaz Delgado, was instrumental in the reserve's creation. Photo courtesy of NPC.
Noga and Sam Shanee have helped provide technical assistance to the creation of the Hocicón reserve. Ronda leader, Marcos Díaz Delgado, was instrumental in the reserve’s creation. Photo courtesy of NPC.

Noga Shanee and her husband Sam, of the organizationNeotropical Primate Conservation (NPC), work primarily in Peru to support the connection between communities and conservation. They live most of each year not far from the Hocicón reserve they helped to create. “We created NPC as a result of our experience as conservation practitioners and the need we felt to finding efficient solutions to the grave situation in which we found the yellow tailed woolly monkey and its habitat,” Noga told mongabay.com.

The Shanees’ work in primate conservation brought them in close contact with local residents, where it became clear that protection of nature might best be achieved by supporting grassroots community efforts. In the last few years, they have administratively assisted in registering seven conservation areas with the local and national governments before helping to establish the Hocicón reserve under the Ronda Campesina group in Libano. Through NPC they offer Libano residents technical support (GPS equipment, GIS mapping, basic biological assessment and the writing of a basic report), advice on quantifying the ecological importance of the area, and help with legal matters.

Such assistance is necessary because according to governmental demands for conservation projects “local initiators have to execute plans of economic activities and reserve maintenance involving factors which many rural campesinos don’t have the capacity and/or resources to undertake,” writes Noga Shanee in a forthcoming article, which details their fieldwork and the many obstacles that prohibit local community groups from establishing official protected areas. “The main restrictions found to Campesino conservation initiatives was a lack of access to support from governmental and non-governmental institutions and a lack of access to economic resources for the extended bureaucratic processes of registering these protected areas.”

The Andean night monkey (Aotus miconax) is endemic to Peruvian forests which are being protected not by the government or big NGOs, but local communities. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.
The Andean night monkey (Aotus miconax) is endemic to Peruvian forests which are being protected not by the government or big NGOs, but local communities. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.

Noga Shanee says that the bigger problem is disconnect between the state’s expressed desire for conservation and the overly restrictive process of providing for it.

“The Peruvian state presents itself as an enthusiastic promoter of conservation and public participation in environmental issues, taking pride in legislation that allows private and community conservation,” she notes. “However, our experience shows us that the process of legally registering privately run conservation areas is extremely complicated, expensive and slow, requiring teams of specialists and cost on average $20,000 US dollars, just up to the initial registration of the area. After completing this arduous process, the government does not provide any support for the conservation initiators; on the contrary, they require additional reports and economic investments. Therefore, this process is inaccessible to most of the rural population creating inequality and losing opportunities for local participation and conservation efficiency…most local people are unable to create their own reserves and need the help of NGOs. The creation of these reserves including the elaboration of the proposal and waiting for registration takes from 1.5 to 5 years. During this time the land is not legally protected and other land uses are possible which in some cases has led to conflicts.”

One effect of this long, and expensive process is the exclusion of non-experts, small groups, and those lacking connections to government officials or influential NGOs in the process of establishing reserves.

“Although it is perceived locally that broad inter-institutional cooperation would be the best way towards effective regional conservation, cooperation is rare, mainly due to competitiveness related to economic pressures,” Shanee writes.

Launching community reserves from the ground up has proven to be a great way to overcome these bureaucratic obstacles while combating a myriad of threats to both animals and local people.

Ronderos voting to create Hocicón Reserve. Photo by: Noga Shanee.
Ronderos voting to create Hocicón Reserve. Photo by: Noga Shanee.

“The area suffers from high levels of deforestation fueled by immigration, road construction, extractive industries, hydroelectric dams, cattle ranching and lately a boom of palm oil plantations. The Ronda Campesina [community group, which launched the reserve,] has been protesting for many years against this development model (aggressively promoted by the government) which is so destructive to natural habitats and to rural societies,” Noga Shanee, told mongabay.com.

Such threats are caused by a number of actors, according to Shanee, including the federal government, international corporations, and even the rural campesinos [farmers] themselves.

“Severe economic and social pressures are found to force campesinos into unsustainable practices,” writes Noga Shanee, in a recently submitted paper.

Clown tree frog (Dendropsophus sarayacuensis) in the region. Nestor Allgas Marchena/NPC.
Clown tree frog (Dendropsophus sarayacuensis) in the region. Nestor Allgas Marchena/NPC.

In her PhD Thesis on the subject written for Kent University in the UK, Noga Shanee summarized that “current conservation efforts are far from sufficient to offset the mounting threats they face,” adding “an amalgam of contradicting agendas, power struggles, superficial-spectacular solutions, and prejudices towards rural populations hinder the efficiency of conservation interventions” as “the immense pressures impacting human populations transforms directly into environmentally degrading processes.”

The Hocicón conservation model is not your typical conservation solution to these problems. In contrast to uniformed park officials greeting visitors or teams of well-paid foreign biologists in the field monitoring wildlife populations, these reserves are organic extensions of the community—policed and patrolled by the local residents themselves; such projects bring, according to Shanee, “a sense of pride and inclusion to the rural people who implement them.”

The Rondas enjoy distinctive legal rights within Peruvian society because of long-standing traditional land claims by indigenous peoples in combination with large areas of territory devoid of governmental or NGO supervision.

“The areas we are working and living in (departments of Amazonas and San Martin in Northern Peru) are almost completely abandoned by the government and would be in complete anarchy if it wasn’t for the Rondas…The Ronda Campesina (Peasant Patrol) is a network of autonomous, civil organizations, aimed at self-protection,” Shanee explains. “They practice vigilance and civil justice in the rural Peruvian countryside where state control is insufficient.”

The royal sunangel (Heliangelus regalis) is listed as Endangered by the IUCN Red List. Photo by: Sachar Alterman/NPC.
The royal sunangel (Heliangelus regalis) is listed as Endangered by the IUCN Red List. Photo by: Sachar Alterman/NPC.

Ronda bases can be organized by any population (community, town, or village). Nationally, the Ronda has more than half a million active members, in more than 5,000 bases, mainly, but not only, in Northern Peru and solves about 180,000 civil justice cases per year. Rondas also protest against external environmental hazards, such as polluting mining operations. According to Noga Shanee’s thesis, “by criticism and setting examples, the Rondas pressure both the government and NGOs to act more efficiently and morally towards conservation.”

Sam Shanee, also of NPC, says Ronda self-government is purely for protective purposes. “The ronda is basically a neighborhood watch group in most villages (I myself am a ‘rondero’ in the village where we live). All that this new approach entails in its most basic form is a group of villagers (or the entire village) getting together a deciding to protect an area of forest or other natural habitat near where they live… there has been no use of force for the creation of this first ARCA and the Ronda is not really a militia organization except when necessary, for example in the face of terrorism, drug cartels, illegal mining/logging etc.”

White-bellied spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.
White-bellied spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.

In the absence of top-down support or supervision, the Rondas offer their own path to conservation. The Ronda-run Conservation Areas, known as ARCAs, are quick, extremely low-cost, and are uniquely tailored to the Ronda social structure, allowing for participation of local people in conservation efforts, according to the Shanees.

Marcos Díaz Delgado, a national Ronda leader, told mongabay.com that “The [Ronda-run Conservation Areas (ARCAs)] are an alternative to the state’s legal conservation system which is extremely slow, expensive and fails to reach many remote, rural parts of our country. As a special jurisdiction we don’t only defend our safety and our human rights, but we also defend the natural world inside our territories. We invite the state authorities and all social organizations to join us for the collective defense of our natural resources.”

The ARCAs were designed to streamline the process of establishing protected areas: because of the Rondas special legal status, they only necessitate the minimal process (mapping and basic biological info), and cost almost nothing. Therefore “the Ronda Campesina’s conservation initiatives are an honest and efficient answer to habitat and species loss in Peru as well as to the deficiencies of mainstream, non participative conservation,” Noga Shanee says, adding that while this project is a collaboration between NPC and the Ronda, “we are hoping that they will become more and more self sufficient with time…our help is trying to organize, augment and formalize this initiative”. Orin Starn, Chair and Professor of Cultural Anthropology at Duke University, and author of the book Night Watch, the Politics of Protest in the Andes, told mongabay.com that, “the Rondas are the largest, most influential grassroots movement in Peru’s northern mountains. Environmentalism is a relatively new development to this area, and it’ll be very interesting to see the directions that this new collaboration between an old peasant movement and the new NGO-driven green activism may take.”

Noga Shanee (in pink) with community members. Photo courtesy of NPC.
Noga Shanee (in pink) with community members. Photo courtesy of NPC.

The Shanees’ work in the Amazon continues to illustrate the close biocultural connection between nature and community. Noga sees this connection as a positive force for change when strengthened. In her thesis she writes that destructive pressures on local communities and forests “also create positive consequences by creating new conservation opportunities.” By turning local environmental and social crisis into opportunity, new collaborations and conservation without supervision, born of necessity, can emerge, offering real hope for biocultural diversity.

“All over the world there are small groups of local farmers and indigenous people that organize themselves in order to protect their neighboring forests,” Noga Shanee says. “These initiatives are rarely heard about as these people often lack resources and expertise to promote their successes through academic or popular publications.” But she adds that she hopes the Hocicón model will become increasingly common in Peru and even spread abroad.

“This initiative can inspire other grassroots organizations to organize themselves to administer conservation, which could benefit many different species and habitats around the world. “

She believes that community-run conservation will prosper, saying, “we might be naïve and of course this project can fail, but our work in Peru has shown us that local communities put huge efforts in conserving their forests, usually with no help from mainstream conservationists and sometimes even despite them. We believe that they deserve the chance.”

Cloud forest in Northeastern Peru. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.
Cloud forest in Northeastern Peru. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.

Noga in front in purple with community leaders. Photo courtesy of NPC.
Noga in front in purple with community leaders. Photo courtesy of NPC.

White-fronted spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.
White-fronted spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.

CITATIONS:

Shanee N (2012) The Dynamics of Threats and Conservation Efforts for the Tropical Andes Hotspot in Amazonas and San Martin, Peru. PhD Thesis (Kent University, Canterbury). Supervised by Prof. Stuart R. Harrop.

Shanee, Noga, Sam Shanee, and Robert H. Horwich (2012 in revision). “Locally run conservation initiatives in northeastern Peru and their effectiveness as conservation methods,” shared by permission of the authors

Starn O (1999) Nightwatch: the politics of protest in the Andes (Duke Univ Pr, Los Angeles) p 329.

Chapin, M. (2004) A Challenge to Conservationists. World Watch, 17, 17-31

Sobrevila, Claudia. (2008) “The Role of Indigenous Peoples in Biodiversity Conservation; The Natural but Often Forgotten Partners” World Bank Report.

Read more athttp://news.mongabay.com/2013/0430-isaacs-rondas.html#LcSylhiLfpBJhPkz.99

Playing for All Kinds of Possibilities (N.Y.Times)

Buckets of Blickets: Children and Logic: A game developed by researchers at the University of California, Berkeley hopes to show how imaginative play in children may influence development of abstract thought.

By DAVID DOBBS

Published: April 22, 2013

When it comes to play, humans don’t play around.

Alison Gopnik and the Gopnik Lab/University of California, Berkeley. Esther and Benny, both 4, play Blickets with Sophie Bridgers in a lab at the University of California, Berkeley. Children, lacking prior biases, excel in the game, based on associations, but adults flunk it.

Other species play, but none play for as much of their lives as humans do, or as imaginatively, or with as much protection from the family circle. Human children are unique in using play to explore hypothetical situations rather than to rehearse actual challenges they’ll face later. Kittens may pretend to be cats fighting, but they will not pretend to be children; children, by contrast, will readily pretend to be cats or kittens — and then to be Hannah Montana, followed by Spider-Man saving the day.

And in doing so, they develop some of humanity’s most consequential faculties. They learn the art, pleasure and power of hypothesis — of imagining new possibilities. And serious students of play believe that this helps make the species great.

The idea that play contributes to human success goes back at least a century. But in the last 25 years or so, researchers like Elizabeth S. SpelkeBrian Sutton-SmithJaak Panksepp and Alison Gopnik have developed this notion more richly and tied it more closely to both neuroscience and human evolution. They see play as essential not just to individual development, but to humanity’s unusual ability to inhabit, exploit and change the environment.

Dr. Gopnik, author of “The Scientist in the Crib” and “The Philosophical Baby,” and a professor of psychology at the University of California, Berkeley, has been studying the ways that children learn to assess their environment through play. Lately she has focused on the distinction between “exploring” new environments and “exploiting” them. When we’re quite young, we are more willing to explore, she finds; adults are more inclined to exploit.

To exploit, one leans heavily on lessons (and often unconscious rules) learned earlier — so-called prior biases. These biases are useful to adults because they save time and reduce error: By going to the restaurant you know is good, instead of the new place across town, you increase the chance that you’ll enjoy the evening.

Most adults are slow to set such biases aside; young children fling them away like bad fruit.

Dr. Gopnik shows this brilliantly with a game she invented with the psychologist David Sobel (her student, now a professor at Brown). In the game, which has the fetching name Blickets, players try to figure out what it is that makes an otherwise undistinguished clay figure a blicket. In some scenarios you can win even if you’re applying a prior bias. In others you can’t.

Last summer I joined Dr. Gopnik behind a wall of one-way glass to watch her lab manager, Sophie Bridgers, play the game with an extremely alert 4-year-old, Esther.

Seated at a child-size table, Esther leaned forward on her elbows to watch as Ms. Bridgers brought out a small bin of clay shapes and told her that some of them were blickets but most were not.

“You cannot tell which ones are blickets by looking at them. But the ones that are blickets have blicketness inside. And luckily,” Ms. Bridgers went on, holding up a box with a red plastic top, “I have my machine. Blicketness makes my machine turn on and play music.”

It’s a ruse, of course. The box responds not to the clay shapes but to a switch under the table controlled by Ms. Bridgers.

Now came the challenge. The game can be played by either of two rules, called “and” and “or.” The “or” version is easier: When a blicket is placed atop the machine, it will light the machine up whether placed there by itself or with other pieces. It is either a blicket or it isn’t; it doesn’t depend on the presence of any other object.

In the “and” trial, however, a blicket reveals its blicketness only if both it and another blicket are placed on the machine; and it will light up the box even if it and the other blicket are accompanied by a non-blicket. It can be harder than it sounds, and this is the game that Esther played.

First, Ms. Bridgers put each of three clay shapes on the box individually — rectangle, then triangle, then a bridge. None activated the machine. Then she put them on the box in three successive combinations.

1. Rectangle and triangle: No response.

2. Rectangle and bridge: Machine lighted up and played a tune!

3. Triangle and bridge: No response.

Ms. Bridgers then picked up each piece in turn and asked Esther whether it was a blicket. I had been indulging my adult (and journalistic) prior bias for recorded observation by filling several pages with notes and diagrams, and I started flipping frantically through my notebook.

I was still looking when Esther, having given maybe three seconds’ thought to the matter, correctly identified all three. The rectangle? “A blicket,” she said. Triangle? A shake of the head: No. Bridge? “A blicket.” A 4-year-old had instantly discerned a rule that I recognized only after Dr. Gopnik explained it to me.

Esther, along with most other 4- and 5-year-olds tested, bested not just me but most of 88 California undergraduates who took the “and” test. We educated grown-ups failed because our prior biases dictated that we play the game by the more common and efficient “or” rule.

“Or” rules apply far more often in actual life, when a thing’s essence seldom depends on another object’s presence. An arrow’s utility may depend on a bow, but its identity as an arrow does not. Since the “or” rule is more likely correct and simpler to use, I grabbed it and clung.

Esther, however, quickly ditched the “or” rule and hit upon the far less likely “and” rule. Such low-probability hypotheses often fail. But children, like adventurous scientists in a lab, will try these wild ideas anyway, because even if they fail, they often produce interesting results.

Esther and her twin brother, Benny (who played another version of the game), generated low-probability hypotheses as fast as I could breathe. “Maybe if you turn it over and put it on the other end!” “Let’s put all three on!” They were hypothesis machines. Their mother, Wendy Wolfson (who is a science writer), told me they’re like this all the time. “It’s like living with a pair of especially inquisitive otters.”

Alas, Dr. Gopnik said, this trait peaks around 4 or 5. After that, we gradually take less interest in seeing what happens and more in getting it right.

Yet this playlike spirit of speculation and exploration does stay with us, both as individuals and as a species. Studies suggest that free, self-directed play in safe environments enhances resilience, creativity, flexibility, social understanding, emotional and cognitive control, and resistance to stress, depression and anxiety. And we continue to explore as adults, even if not so freely. That’s how we got to the Internet, the moon, and Dr. Gopnik’s lab.

Finally, in the long game of evolution, Dr. Gopnik and some of her fellow scientists hypothesize that humans’ extended period of imaginative play, along with the traits it develops, has helped select for the big brain and rich neural networks that characterize Homo sapiens. This may strike you either as a low-probability or a high-probability hypothesis. But it certainly seems worth playing with.

A Radical Anthropologist Finds Himself in Academic ‘Exile’ (The Chronicle of Higher Education)

April 15, 2013

A Radical Anthropologist Finds Himself in Academic 'Exile' 1

Pete Marovich for The Chronicle. David Graeber, an anthropologist who studies and participates in the radical left, finds fans of his work inside academe and out. Here he speaks with audience members during a talk at a public library in Washington, D.C.

By Christopher Shea

Who’s afraid of David Graeber? Not the dozens of D.C.-area residents who showed up on a recent night at the Martin Luther King Jr. Memorial Library to hear the anthropologist and radical activist talk about his new book, The Democracy Project: A History, a Crisis, a Movement(Spiegel & Grau). Aimed at the mainstream, the book discusses Mr. Graeber’s involvement in the Occupy Wall Street movement and the idea that principles drawn from anarchist theory—a wholesale rejection of current electoral politics, for starters, in favor of groups operating on the basis of consensus—offer an alternative to our present polity, which he calls “organized bribery” (or “mafia capitalism”).

On this warm spring evening the rumpled scholar was interviewed by a friendly and more conventionally telegenic writer, Thomas Frank. Graying lefties and young liberals and radicals in the crowd alike seemed impressed. Even the token skeptical economist in the audience framed her question respectfully, and C-Span broadcast live.

Mr. Graeber is a star in the left-academic world. Indeed, it’s possible that, given his activism and his writings, he is the most influential anthropologist in the world. He played a part in establishing the nonhierarchical “organization” of the Occupy movement, in its early days in Manhattan, and his 500-plus-page Debt: The First 5,000 Years (Melville House, 2011) struck scholars for its verve and sweep. It made the case that lending and borrowing evolved out of humane, communitarian impulses in premodern societies—out of a free-floating interest in the common weal—and only later became institutionalized actions spawning moral guilt and legal punishment.

The book ranged from discussions of ancient Sumerian economics to analyses of how Nambikwara tribesmen in Brazil settle their affairs to the international monetary system. “An argument of Debt’s scope hasn’t been made by a professional anthropologist for the best part of a century, certainly not one with as much contemporary relevance,” wrote the British anthropologist Keith Hart, of Goldsmiths College, University of London, in a review on his Web site last year. The book won a prize for best book in anthropology from the Society for Cultural Anthropology in 2012 and according to his agent has sold nearly 100,000 copies in English alone.

But strikingly, Mr. Graeber, 52, has been unable to get an academic job in the United States. In an incident that drew national attention, Yale University, in 2005, told him it would not renew his contract (which would have promoted him from assistant professor to “term associate” professor). After a fight, he won a reprieve—but only for two years. He never came up for tenure.

Foreign universities immediately sent out feelers, he says. From 2008 through this spring, Mr. Graeber was a lecturer and then a reader at Goldsmiths College and, just last month, he accepted a professorship at the London School of Economics and Political Science.

But no American universities approached him, he says, and nearly 20 job applications in this country (or Canada) have borne no fruit. The applications came in two waves: directly after the Yale brouhaha and a couple of years later, when he concluded he wanted to return to the States for reasons that were partly personal (a long-distance romantic relationship, the death of his mother and older brother).

His academic “exile,” as he calls it, has not gone unnoticed. “It is possible to view the fact that Graeber has not secured a permanent academic position in the United States after his controversial departure from Yale University as evidence of U.S. anthropology’s intolerance of political outspokenness,” writes Jeff Maskovsky, an associate professor of anthropology at the Graduate Center of the City University of New York, in the March issue of American Anthropologist.

That charge might seem paradoxical, given anthropology’s reputation as a leftist redoubt, but some of Mr. Graeber’s champions see that leftism as shallower than it might first appear. Anthropology “is radical in the abstract,” says Laura Nader, a professor in the field at the University of California at Berkeley. “You can quote Foucault and Gramsci, but if you tell it like it is,” it’s a different story, she says.

Mr. Graeber “talks about possibilities, and God, if there’s anything we need now it’s possibilities,” she says. “We are in tunnels. We are turned in. We are more ethnocentric than ever. We’ve turned the United States into a military zone. And into this move-to-the-right country comes David Graeber.”

When he applied to Berkeley in the early 2000s and the department failed to hire him, “we really missed the boat,” she says.

Jonathan Marks, a professor of anthropology at the University of North Carolina at Charlotte, who had no direct experience with any Graeber job search, agrees: “Whoever had a chance to hire him and didn’t missed out on having the author of one of the most important books in recent memory on their faculty,” he wrote in an e-mail.

 ‘Incredibly Conformist’

Mr. Graeber was at first reluctant to talk about his failed job searches, for fear of coming across as bitter and souring future chances, but he decided to open up after the LSE job became official. As he recalled, the places to which he applied twice were the City University of New York Graduate Center, the New School, Cornell University, and the University of Chicago. The others were Hunter College, Emory, Duke, Columbia, Stanford, and Johns Hopkins—as well as the University of Toronto. He heard indirectly of colleagues at other universities trying to secure him a position, to no avail.

Responding to anthropologists’ frequent claim that they embrace activist scholarship, he echoes Ms. Nader: “They don’t mean it”—at least when it comes truly radical activism.

“If I were to generalize,” Mr. Graeber says, “I would say that what we see is a university system which mitigates against creativity and any form of daring. It’s incredibly conformist and it represents itself as the opposite, and I think this kind of conformism is a result of the bureaucratization of the university.”

He and his allies also suspect that false information emanating from his public fight with Yale, garnered secondhand, has hurt him.

When Yale announced it was not renewing his contract, students and some professors rallied behind him, and he gave interviews suggesting that the decision was politically motivated. (The story made The New York Times.) He had spent part of a sabbatical working with the Global Justice Movement, which has mounted protests against such groups as the International Monetary Fund and the World Bank. Perhaps surprisingly, he did not take much part in the heated Yale debate over graduate-student unionization. He was, he likes to say, “a scholar in New Haven and an activist in New York.”

During the dispute over his Yale position, he said, he’d been accused of not doing service work (though he did all he was asked, he said), of being late for classes, and of being ill prepared to teach. Yancey Orr, a graduate student in religion at the time who took courses from Mr. Graeber and is now an assistant professor of anthropology at the University of Alberta, says that charge is absurd: “He was easily the most helpful seminar leader you could ask for.”

Being denied tenure at Yale is hardly unusual, but not getting rehired at Mr. Graeber’s stage is. Some professors Mr. Orr has talked to at institutions that failed to hire Mr. Graeber were under the impression that he went nuclear over a tenure denial, but the situation was more complex, more unorthodox, says Mr. Orr.

The chairs of the departments to which Mr. Graeber applied who could be reached all cited confidentiality in declining to talk about the decisions—or, typically, even to confirm he’d applied. But several denied that politics would affect such decisions. “I can say without hesitation,” wrote James Ferguson, the chair of anthropology at Stanford, in an e-mail, “that I personally would not regard Graeber’s political orientation as in any way disqualifying, nor would I expect such views to be held by my colleagues.”

“As is known throughout the world,” wrote Janet Roitman, chair of anthropology at the New School, “the New School prides itself for its longstanding tradition of radical politics; David would not have been the first hire or tenured faculty member to pursue ‘radical’ political positions or to engage in activism.”

Some anthropologists, including Alex Golub, a contributor to the popular blog Savage Minds and an assistant professor at the University of Hawaii-Manoa, suggested that a general dearth of jobs in the field would be enough to explain Mr. Graeber’s run of bad luck—especially because the book that brought him fame, Debt, had not been published at the time of the searches. (Though he’d published four others by 2009, as well as a much-read pamphlet, “Fragments of an Anarchist Anthropology,” with Prickly Paradigm.) But Mr. Graeber scoffs at that: “Gee, I applied for 17. Somebody got those jobs.” Moreover, Britain is not brimming with anthropology jobs, either, yet he’s had little problem there.

“I believe it’s possible that his politics have helped him in some cases and hurt him in others,” says Mr. Maskovksy, of CUNY, who in his American Anthropologist essay raised the issue of what Mr. Graeber’s academic exile to England meant for the profession . “He has a huge following among graduate students because of his protest work and because he links his protest work to the kind of anthropology he wants to do. But there’s a huge gap between generating that kind of interest and respect, on the one hand, and job-hiring decisions. I don’t know what makes people hire and what makes them not.”

On Collegiality

One charge that has dogged Mr. Graeber is that he is “difficult,” an attribute that’s obviously hard to gauge. Ms. Nader says she urged him to soften his rough edges—to send thank-you cards, even, when protocol suggested it. (Mr. Graeber does not recall that counseling session on manners and says he always sends thank-you notes.) But she finds it deplorable that scholars would value superficial clubbability over originality of thought; she decries the “‘harmony ideology’ that has hit the academy.” She also thinks the fact that he “writes in English,” eschewing jargon, hasn’t helped him.

There is some evidence of Mr. Graeber’s contentiousness. During an online seminar about Debt on the blog Crooked Timber, Henry Farrell, an associate professor of political science at George Washington University, said Mr. Graeber had—for example—provided insufficient evidence that in the first Gulf War the United States had attacked Iraq partly because Iraq had stopped using dollars as its reserve currency and turned to the euro. In Mr. Graeber’s response, he accused Mr. Farrell of “consummate dishonesty” and said he had failed to engage with the argument and instead sought to show its maker was a “lunatic.” Mr. Farrell responded that he was “very unhappy” with Mr. Graeber’s charges and tone.

From February to April 1, J. Bradford DeLong, an economist at the University of California at Berkeley, baited Mr. Graeber by setting up an automated Twitter stream that sarcastically recounted dozens of alleged (or actual) errors of fact in Debt. For example: “Learned that 12 Regional Fed Banks not private banks like Citi or Goldman Sachs? Stay away until you do! #Graebererrors.” Mr. Graeber responded aggressively. At one point he wrote, on Twitter, referring to Mr. DeLong’s work in the Clinton Treasury Department on the North American Free Trade Agreement: “I bet the poor guy had a rough time at 14. Tried to compensate by gaining power, then look—destroyed Mexico’s economy.”

Mr. Graeber calls some of Mr. DeLong’s postings “libelous”—a virtual campaign of harassment. “He has been on a crusade to hurt me in every way,” he says, growing angry.

“Yet these guys are considered mainstream and I’m the crazy guy who can’t get a job.” He adds, “I don’t even write negative book reviews.”

Mr. Graeber, who says he gets along just fine with his colleagues in London—and, indeed, with most of his former colleagues at Yale—has his own take on what scholars mean by “collegiality”: “What collegiality means in practice is: ‘He knows how to operate appropriately within an extremely hierarchical environment.’ You never see anyone accused of lack of collegiality for abusing their inferiors. It means ‘not playing the game in what we say is the proper way.'”

In his American Anthropologist essay, CUNY’s Mr. Maskovsky said that the many graduate students who took part in Occupy Wall Street might view Mr. Graeber’s difficulty finding a job as a cautionary tale. Would their advisers see their activism as, at the least, a distraction from their research?

Manissa Maharawal is one such student, at CUNY, a participant in Occupy now studying the activist projects that emerged from it. She says she has received nothing but support from her advisers and doesn’t understand the politics of academic hiring, but finds the Graeber situation perplexing—in a bad way. “His work is really good, he’s well reviewed, he’s become pretty famous in the last year,” she says. “I’m not sure what’s going on. You can have all the boxes you’re supposed to check checked and still not get a job. It’s scary, for sure.”

Atual projeto de nação não tem lugar para povos indígenas, diz indígena e doutor em antropologia (EBC)

Thiago Pimenta – Portal EBC 12.04.2013 – 14h28 | Atualizado em 13.04.2013 – 17h09

Gersem Baniwa (Daiane Souza/UnB Agência)

Após manifesto de funcionários da Funai por um plano de  indigenismo brasileiro, o Portal EBC entrevistou o indígena e doutor emantropologia Social, Gersem Baniwa, que atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Na opinião de Gersem, que é originário do grupo indígena Baniwa (localizado normalmente no noroeste do Amazonas), um plano indigenista passa previamente por um projeto de nação do país, não podendo acontecer de forma dissociada: “Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o Brasíl ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas”, destaca.

O pesquisador,  que já trabalhou em projetos no Ministério da Educação, reconhece alguns avanços das ações do governo na área escolar e na saúde indígena. O pesquisador reforça os esforços de gestores e técnicos que tentam avançar nas políticas indigenistas, mas denuncia as pressões sofridas pelos índios brasileiros por outros setores.


PLANO INDIGENISTA

Portal EBC: Antes de tudo, em que consiste um plano indigenista?
Gersem: Um plano indigenista para o Brasil passa pela existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas.

Portal EBC: O texto da Constituição de 88 reconhece aos indígenas o direito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e dá a eles os direitos originários sobre as terras que ocupam. Jà a União é responsável por demarcar essas terras, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Não seria esse o começo desse projeto?

Gersem: A sociedade brasileira tentou dar sua contribuição por ocasião da Constituinte de 1988, assegurando direitos básicos que garantissem a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas, por meio dos direitos sobre suas terras tradicionais e o reconhecimento de suas culturas, tradições e organização social, além do reconhecimento da plena capacidade civil e de cidadania. Minha hipótese é de que essas conquistas legais tinham relação com sentimento de culpa pelos séculos de massacres e mortes impostos aos índios pelos colonizadores, portanto, como medidas reparadoras do ponto de vista moral.

Mesmo reconhecendo alguns avanços pontuais no campo da educação (acesso à educação básica e superior ampliado), do direito à terra principalmente na Amazônia Legal e de participação política (06 prefeitos e 76 vereadores indígenas), o Estado continua passando por cima das cabeças e de caveiras dos povos indígenas como acontece de forma escancarada e vergonhosa no Estado de Mato Grosso do Sul, onde os índios Guarani-Kaiowá continuam sob fogo cruzado por fazendeiros e políticos da região. Para as elites econômicas e políticas do país, os povos indígenas continuam sendo percebidos e tratados como empecilhos para o desenvolvimento econômico do país (que na verdade é o enriquecimento desses grupos). Portanto, um plano indigenista brasileiro depende necessariamente da clareza de que nação, sociedade e país se quer construir. Os povos indígenas só terão chance se o Brasil assumir com seriedade a construção de um projeto de nação baseada em uma sociedade pluriétnica, multicultural e solidária.

Portal EBC: Quais seriam os pontos são mais importantes para um bom plano indigenista para o país?

Gersem: O ponto mais importante de um plano indigenista é garantir as condições reais para a garantia plena dos direitos indígenas, baseadas no protagonismo e na cidadania dos indivíduos e coletividades indígenas. Somente a garantia desses direitos pode garantir a continuidade étnica e cultural desses povos, por meio de segurança territorial, segurança econômico-alimentar, política de educação adequada e  política de saúde eficiente.  Isso também daria sinal de que os povos indígenas podem ter seu espaço na sociedade brasileira. Percebemos uma grande contradição na política indigenista atual: uma parte minoritária do Estado (governo) que tenta adotar o discurso e a prática em favor dos povos indígenas e a outras majoritária que ao contrário, adota discursos e práticas anti-indígenas.


SITUAÇÃO ATUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

Portal EBC: Como você vê a atual situação dos indígenas brasileiros? O que precisa mudar?

Gesem: Hoje os povos indígenas do Brasil passam por uma situação muito difícil e ruim, com violações constantes aos seus direitos e com a crescente violência física e de morte que sofrem. Os dez anos seguintes à promulgação da CF de 1988 foram de gradativo processo de conquistas de direitos concretos (demarcação de terras, educação escolar, organização social e participação política) mas, os últimos três anos foram de estagnação com forte tendência de retrocesso sem precedentes para os povos indígenas.  A leitura que faço é que o Estado (comandado pelas elites políticas e econômicas) se arrependeu de reconhecer os direitos indígenas e agora faz de tudo para, em primeiro plano, violar esses direitos e em segundo plano, anular ou reduzir esses direitos. Ou é isso, ou o Estado está assumindo sua incapacidade e incompetência para garantir os direitos dos povos indígenas. As políticas existentes são completamente insatisfatórias. Estão sempre voltadas para resolver ou minimizar problemas acumulados. As políticas indigenistas continuam sendo autoritárias, paternalistas e tutelares. Embora o Brasil tenha adotado a Convenção 169 da OIT, há anos, até hoje ela não foi regulamentada. Neste sentido, um plano indigenista moderno precisa superar seriamente a visão imediatista, autoritária e de descaso institucional. Precisa ser construído um plano transparente e participativo de curto, médio e longo prazo, com metas, objetivos e condições claros de implementação. O mais importante é o plano indigenista ser do Estado e não apenas de um governo ou do órgão indigenista.

Portal EBC: Que ações merecem destaque na atual política indigenista?

Gersem: É importante reconhecer que nos últimos houve esforços e tentativas do governo federal em avançar nas políticas de atendimento voltadas para os povos indígenas, principalmente após o fim do monopólio da política indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), no início da década de 1990. O Ministério da Saúde tem se esforçado para tentar responder às demandas indígenas. O Ministério do Meio Ambiente iniciou experiências inovadoras ainda no final da década de 1990 em apoio técnico e financeiro para projetos socioeconômicos alternativos e autossustentáveis de comunidades indígenas na Amazônia. O Ministério da Educação empreendeu esforços junto aos estados e municípios em busca de melhorias no atendimento escolar às aldeias indígenas. Sem dúvida que essas experiências das últimas duas décadas lograram avanços e êxitos parciais e de algum modo contribuíram para a recuperação da autoestima e de esperança no futuro dos povos indígenas, expressa por meio do crescimento demográfico desses povos que está se aproximando de um milhão de indígenas no país (considerando que na década de 1960 chegaram à cifra de 200.000 indígenas) e da presença cidadã dos indígenas na vida do país. As experiências revelaram também questões preocupantes, como as limitações do Estado no atendimento aos direitos e anseios indígenas. Os gestores e técnicos de ministérios bem que tentaram avançar nas políticas voltadas aos povos indígenas, mas percebe-se atualmente o limite dessas possibilidades, diante do contexto político e econômico do país. Essas possibilidades esbarram na falta de vontade política dos dirigentes maiores em dar relevância às questões indígenas. Sem determinação política o tema nunca entra na lista de prioridades do governo e, por isso, as instâncias e estruturas que atuam junto a esses povos estão sempre esvaziadas, desestruturadas e desqualificadas, sem recursos financeiros, sem equipes e sem condições administrativas. Deste modo fica difícil assegurar os direitos indígenas que ficam a mercê dos interesses econômicos anti-indígenas. Muitas vezes parece que o governo se presta a servir aos interesses desses grupos.

Portal EBC: Como você avalia o trabalho da Funai hoje?

Gersem: Nos últimos dez anos a Funai tem se esforçado para estar ao lado dos povos indígenas no enfrentamento dos problemas existentes nas aldeias, mas é um órgão do Estado e dos governos, portanto, dominada pela incapacidade e ineficiência institucional. É um órgão com eminência de falência institucional, por ausência de força e crédito político, falta de recursos humanos, equipe reduzida e mal preparada, e com infraestrutura arcaica. É evidente o processo de sucateamento e enfraquecimento do órgão nos últimos anos, na mesma proporção em que as oligarquias econômicas e políticas nos municípios e Estados se organizaram e se fortaleceram contra os direitos indígenas. O enfraquecimento da Funai é o mais claro exemplo do descompromisso do governo e do Estado para com a defesa e garantia dos direitos indígenas no país. Com isso, os povos indígenas cada vez mais estão à mercê e se tornam reféns de municípios, estados e grupos políticos e econômicos hostis aos direitos indígenas. Isso deixa claro também a necessidade de reorganização e fortalecimento do papel do governo federal na defesa e garantia desses direitos.

Portal EBC: Como você vê a atual atenção à saúde prestada aos indígenas?

Gersem: A política de saúde indígena no Brasil é a que mais se esforçou na busca por um plano mais adequado para o atendimento aos povos indígenas que teve início com a implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI´s), enquanto uma etnoterritorialização do atendimento, o que é uma ideia inovadora com grandes possibilidades. No entanto, tem sofrido como todas as demais políticas indigenistas das profundas contradições e irracionalidades da política e da administração pública brasileira. Recentemente foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena, como resultado de décadas de luta dos povos indígenas, mais uma iniciativa relevante e, no entanto, foi neutralizada pelos gargalos administrativos homogêneos da burocracia estatal pensada para atender as realidades dos centros urbanos. Sem equipes e sem condições logísticas adequadas, a política de saúde indígena está sendo um pesadelo para a saúde dos povos indígenas. O mesmo acontece no campo das políticas de educação escolar indígena, principalmente em regiões da Amazônia e do Nordeste, onde construções de infraestrutura e transporte logístico básicas não são possíveis de serem resolvidas pelos irracionais procedimentos licitatórios. O mesmo acontece com a falta de recursos humanos qualificados para atuar nas aldeias ou próximo às aldeias, pois as formas de contratação, temporárias ou de carreira, não são adequadas, pois dificilmente profissionais qualificados se dispõem a trabalhar nas aldeias com baixos salários pagos pelo poder público.

Portal EBC: Como você vê a situação dos indígenas isolados e recém-contatados?
Gersem: Entendo que esses povos apresentam consciência sobre a situação de não estabelecerem contato permanente com a sociedade nacional e por isso devem ser respeitados nessa decisão. Neste sentido, cabe ao Estado protegê-los, criar condições de proteção sem ação interventiva ou esforço para estabelecer contato, pois estes povos fazem parte da nação brasileira, ainda que desconhecidos da população majoritária.


PRESSÕES SOFRIDAS POR POVOS INDÍGENAS

Portal EBC: Quais são as maiores pressões sofridas pelos indígenas brasileiros? Quais são os agentes dessas pressões?

Gersem: Na atualidade, as maiores pressões aos povos indígenas vêm dos grupos ruralistas e mineradores do país além, é claro, dos próprios agentes do Estado e das grandes construtoras interessados pelos territórios indígenas e principalmente pelos recursos naturais neles existentes. As principais ameaças vêm das elites econômicas, principalmente ruralistas, na medida em que estão, a todo custo, espoliando as terras indígenas. É importante afirmar que não é possível garantir a continuidade etnocultural dos povos indígenas sem a garantia territorial. Mas não podemos esquecer a outra ameaça que vem das igrejas religiosas, que estão realizando, verdadeiros massacres culturais por meio de suas imposições doutrinárias em detrimento das culturas e valores indígenas.

Portal EBC: De que forma essas pressões podem ser aliviadas?

Gersem: Primeiro, a partir de um ordenamento territorial, respeitando-se os direitos constitucionais dos povos indígenas. No Brasil, é necessário se criar o hábito e a cultura de se respeitar as leis e o Estado ou governos precisam criar vontade e capacidades para exerceram o poder para zelar pelo cumprimento das leis, indistintamente de classes, grupos sociais ou credos. Segundo, é necessário respeitar a legislação nacional e internacional que asseguram a participação e a consulta prévia e qualificada aos povos indígenas em qualquer projeto ou programa governamental que lhes afetem. Em terceiro lugar, o que é mais importante é a superação do preconceito histórico sobre os povos indígenas de que são empecilhos para o desenvolvimento do país e a superação do racismo que considera os povos indígenas como atrasados ou não civilizados. Não é possível pensar o Brasil desenvolvido e civilizado enquanto não aprender a respeitar e valorizar um dos seus três pilares étnicos, que formaram o povo e a nação brasileira, que são os povos indígenas ou povos originários.

Portal EBC: As grandes obras como a construção de hidrelétricas e rodovias também ameaçam os povos indígenas?

Gersem: Sem dúvida, depois da luta pela terra as construções de grandes obras ameaçam seriamente a vida presente e futura dos povos indígenas, na medida em que afetam diretamente os ecossistema dos territórios indígenas que são fundamentais para a sobrevivência física e cultural. É importante destacar que os povos indígenas precisam integralmente de seus territórios, enquanto ecossistemas integrados e abrangentes para perpetuarem suas culturas, tradições, seus conhecimentos e seus modos de vida.

Portal EBC: Qual a sua opinião sobre a recente militarização nessas grandes obras, como a presença da Força Nacional no Complexo Tapajós?

Gersem: Acho completamente desnecessária e mostra claramente a atitude arbitrária e autoritária do governo. Mostra ainda total falta de sensibilidade e capacidade de diálogo com o movimento social indígena. E o que mais assusta com essa atitude do governo é a possibilidade de que o governo esteja radicalmente decidido a seguir o discurso de em nome do “relevante interesse público” passar por cima dos povos indígenas, ou seja, mais uma vez os povos indígenas podem pagar com suas vidas o suposto bem estar da sociedade majoritária e pode no futuro próximo estimular instabilidade social nas regiões e no país. Um diálogo franco, transparente e democrático com os interessados deveria ser instituído para mediar e solucionar conflitos de interesses. Nem sempre a força física e militar é a melhor solução para muitos casos.

Portal EBC: A lei 5.371 diz que a Funai deve exercer o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. Como você vê a questão do poder de polícia conferido à Funai? A instituição deve ter autonomia ou deve recorrer a outros órgãos de segurança pública?

Gersem: Em primeiro lugar não tenho nada contra o poder de polícia da Funai, mas acho isso completamente inviável pelas condições em que o órgão se encontra: enfraquecido, desestruturado e principalmente sem equipe qualificada. Em segundo lugar, é importante considerar o papel do estado brasileiro na defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas e, para isso, dispõe de vários instrumentos e mecanismos institucionais, como Ministério Público, a Polícia Federal e a Força Nacional e outros órgãos. Não acredito que somente uma Funai armada irá resolver os problemas dela e dos povos indígenas, mas sim um plano indigenista sério, forte e eficiente, com o peso e a responsabilidade do Estado e dos governos.

Portal EBC: Um delegado da Polícia Federal da Delegacia Vilhena, em Rondônia, sugeriu que a Funai fizesse a regularização quanto ao porte de armas de fogo por parte dos servidores. Você é contra ou a favor do porte de armas por funcionários da instituição?

Gersem: Em primeiro lugar sou contra porte de armas para qualquer cidadão que não represente órgãos de segurança pública, de modo que os funcionários da Funai só deveriam portar armas caso eles exerçam poder de polícia, caso contrário sou completamente contra.


PERSPECTIVAS PARA O INDIGENISMO BRASILEIRO

Portal EBC: Na sua opinião, qual é a maior urgência do indigenismo brasileiro?

Gersem: A maior urgência é a definição clara de uma política indigenista para o país com metas de curto, médio e longo prazo. Uma política que estabeleça com clareza o lugar dos povos indígenas na nação brasileira. E para mostrar compromisso e seriedade com esta política é fundamental a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas que expresse este plano indigenista de curto, médio e longo prazo de forma articulado. O governo federal precisa assumir a responsabilidade pela defesa e proteção dos direitos desses povos, conforme determina a Constituição Federal. Só uma atuação exemplar do governo federal pode tirar os povos indígenas das mãos sanguinárias das elites econômicas, principalmente ruralistas.

Portal EBC: Quais são as perspectivas futuras para o indigenismo brasileiro?

Gersem: De muita angústia, muita dúvida e muita luta na tentativa de evitar que mais uma onda de genocídios volte a ser executada no Brasil. A esperança está em uma geração de jovens indígenas que estão se formando nas academias brasileiras e que ao longo dos próximos anos vão estar assumindo a liderança de suas aldeias e seus povos e, em muitos casos, também ocupando espaços nos órgãos da administração pública e nos poderes constituídos do país e que podem propor e construir novas alternativas de resistência e sobrevivência dos povos indígenas do Brasil. O grande desafio dessa nova geração de lideranças indígenas é domesticar a hostilidade, a ambição, a vaidade e o senso de tirania dos grupos políticos e econômicos que dominam as estruturas e as políticas do Estado e dos governos. Mas tenho certeza que os povos indígenas continuarão sua histórica luta de resistência mas também de fé por dias melhores em mundos melhores.

Edição: Leyberson Pedrosa

O novo velho Mano Brown (Revista Fórum)

10/04/2013 2:44 pm

Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez

“A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso”

“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.

A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”

O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”

Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”

Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?

Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.

O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.

Fórum – Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?

Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.

Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.

Fórum – E quem está matando nas periferias?

Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.

Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…

Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.

Fórum – Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?

Brown – Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.

A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.

“Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra”

Fórum – Um cenário de guerra, mesmo.

Brown – É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.

Fórum – Você entende isso como uma reação da elite?

Brown – Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…

Fórum – E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…

Brown – Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?

Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.

Fórum – Será que o povo leu isso desse jeito?

Brown – Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.

“O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir”

Fórum – Qual a sua opinião sobre o PCC?

Brown – O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.

Fórum – Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?

Brown – Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.

Fórum – Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.

Brown – Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.

Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.

Fórum – Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia. 

Brown – É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.

Fórum – Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse? 

Brown – O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.

Fórum – “Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?

Brown – Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas faltam um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.

Fórum – Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?

Brown – Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.

“Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica”

Fórum – Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?

Brown – O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.

Fórum – Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.

Brown – Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.

“Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê?”

Fórum – Você nunca pensou em se envolver com política?

Brown – Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.

Fórum – No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?

Brown – Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.

Fórum – Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?

Brown – Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.

Fórum – E o Marighella, como você chegou a ele?

Brown – Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.

Fórum – Você se surpreendeu com a história dele? 

Brown – Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.

Fórum – E religião, você tem proximidade com alguma delas?

Brown – Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?

O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.

Fórum – As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…

Brown – Já foram mais.

Fórum – Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo? 

Brown – O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.

Fórum – E o que mudou?

Brown – O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?

Fórum – Eles nunca tentaram chegar em você?

Brown – Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.

“Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom”

Fórum – Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?

Brown – Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.

Fórum – O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?

Brown – Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.

Fórum – Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?

Brown – O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.

Fórum – Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?

Brown – Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.

Fórum – A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…

Brown – Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.

Fórum – Sua relação com o Lula sempre foi forte.

Brown – É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.

Fórum – E você ainda tem simpatia pelo PT?

Brown – Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.

Fórum – Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?

Brown – Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.

Fórum – Quantos discos o Racionais vendeu?

Brown – Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.

Fórum – O que você pensa da pirataria?

Brown – Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.

Fórum – Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?

Brown – Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.

Fórum – E essas novas ideias…

Brown – Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.

Fórum – Você gosta de polêmicas, Brown?

Brown – O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.

Fórum – Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia. 

Brown – A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.

Fórum – Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?

Brown – Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.

Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?

“Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir”

Fórum – Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?

Brown – O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.

Fórum – O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?

Brown – Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.

Fórum – Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?

Brown – Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.

Fórum – Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?

Brown – A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.

Fórum – E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.

Brown – Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.

Fórum – E o Neymar?

Brown – O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano. F

Agradecemos à Produtora Boogie Naipe pela colaboração

Lições Espanholas: debate entre o movimento 15M da Espanha e os movimentos de Porto Alegre (MaterialismoS)

Publicado em abril 4, 2013 por 

Debate com participante do movimento 15M, da Espanha, este sábado às 17h45 no Quilombo das Artes/Assentamento Urbano Utopia e Luta, escadaria da Borges.

Lições Espanholas MaterialismosG

Enquanto Porto Alegre viu, nas últimas semanas, aquilo que pode ser o início de um novo movimento de massa, a Espanha tem vivido desde maio de 2011 um momento riquíssimo de mobilização popular. Mais antigo, mais numeroso e mais duradouro que o movimento Occupy dos Estados Unidos, o 15M foi o primeiro dos movimentos globais a seguir o exemplo da Primavera Árabe e reagir contra as políticas de austeridade, a ditadura do capital financeiro e a erosão da democracia representativa no estado espanhol e na Europa; foi da Espanha que originalmente partiu o chamado para o dia de ação global de 15 de outubro de 2011, que transformou Occupy em um fenômeno global.

Nestes quase dois anos, o 15M se deparou com vários desafios que os movimentos de Porto Alegre terão de enfrentar cada vez mais: a necessidade de ampliar seu alcance para parcelas cada vez maiores da população; as tentativas de criminalização pela polícia e a mídia; a relação com os partidos políticos e a política institucional; o problema de como aumentar a capacidade de agir mantendo a democracia interna; a necessidade de desenvolver diversidade e flexibilidade de táticas de ação e comunicação para atacar as questões sociais de diferentes ângulos.

Este encontro é uma oportunidade para aprender mais sobre esta experiência com alguém que a vive por dentro: Sérgio González, cientista político e ecólogo, membro da rede 15M de Barcelona e do projeto X.net, associação de defesa da cultura livre e da democracia em rede. É também uma ocasião para refletir sobre o que estamos fazendo em Porto Alegre, e pensar, a partir daquilo que tem se construído na Espanha, quais podem ser nossos próximos passos.

O debate é coorganizado pelo grupo de pesquisa MaterialismoS e o Assentamento Urbano Utopia e Luta, e dá continuidade a discussões iniciadas no evento O que significa mudar o mundo hoje? de outubro de 2011.

Para saber mais sobre o 15M:

http://es.wikipedia.org/wiki/Movimiento_15-M
https://es.wikipedia.org/wiki/X.net
https://es.wikipedia.org/wiki/Stop_Desahucios#Stop_Desahucios
http://15mparato.wordpress.com/
http://www.youtube.com/watch?v=kODIHGNokrI&list=PL92FE5C92CA3F3211

Para saber mais sobre o Assentamento Urbano Utopia e Luta:

http://www.sul21.com.br/jornal/2011/09/assentamento-em-predio-publico-de-porto-alegre-desafia-politica-habitacional/

A política do futuro já chegou (Revista Fórum)

25/03/2013 9:12 pm

Uma iniciativa popular na Espanha propõe exercer a democracia direta. A ideia se disseminou na internet e evidenciou a crise institucional do país, e também, a necessidade de outro sistema de representação.

Por Manuel Castells*

No dia 8 de janeiro foi anunciada, na internet, a criação do “partido do futuro”, um método experimental para construir uma democracia sem intermediários, que substituiria as atuais instituições deslegitimadas na mente dos cidadãos. A repercussão social e midiática tem sido considerável. Apenas no primeiro dia de lançamento, apesar do colapso do servidor ao receber 600 petições por segundo, foram 13 mil seguidores no twitter, 7 mil no Facebook e 100 mil visitas no Youtube. Mídias estrangeiras e espanholas têm repercutido o futuro que anuncia o triunfo eleitoral de seu programa: democracia e ponto. (http://partidodelfuturo.net).

Movimento 15-M em Madri: nova política (Foto: Wikimedia Commons)

Sinal de que já não se pode ignorar o que surge do 15-M (nascimento do movimento dos indignados). Porque este partido emerge do caldo  criado pelo movimento, embora de forma alguma se equipare ao mesmo. Porque não há “o movimento” com estrutura organizada, nem representantes, e sim pessoas em movimento que compartilham de uma denúncia básica das formas de representação política que tem deixado pessoas indefesas diante dos efeitos de uma crise que não foram culpadas, porém sofrem os resultados a cada dia. O 15-M é uma prática coletiva e individual diversificada e de mudanças, que vive na rede e nas ruas, e cujos componentes tomam iniciativas de todo o tipo, desde a defesa contra o escândalo das hipotecas até a proposta de lei eleitoral que democratize a política.

Porém, até agora, muitas destas iniciativas parecem condenadas a um beco sem saída. Por um lado, as pesquisas mostram que uma grande maioria dos cidadãos (cerca de 70%) concorda com a crítica do 15-M e com muitas de suas propostas. Por outro lado, toda esta mobilização não se traduz em medidas concretas que aliviem as pessoas, pois há um bloqueio institucional para a adoção destas propostas. Os dois grandes partidos espanhóis são corresponsáveis pela submissão da política aos poderes financeiros no tratamento da crise, compartilhando, por exemplo, a gestão irresponsável dos diretores do Banco da Espanha, com um governador socialista, no caso de Bankia e do sistema de caixas, que tem conduzido a ruína milhares de famílias. Por isso, o 15-M se expressou no espaço público, em acampamentos, manifestações, assembleias de bairro e em ações pontuais de denúncia. Mas, embora esta intervenção seja essencial para criar consciência, se esgota em si mesma quando se confronta com uma repressão policial cada vez mais violenta.

Felizmente, o 15-M tem freado qualquer impulso de protesto violento, e tem feito um papel de canalizador pacífico da ira popular. O dilema é como superar as barreiras atuais sem deixar de ser um movimento espontâneo, auto-organizado, com múltiplas iniciativas que não são um programa. E por isso, podem unir potencialmente os 99% que sabem o que não querem, e que concordam em buscar um conjunto de novas vias políticas de gestão pela vida.

Para avançar nesse sentido, tem surgido uma iniciativa espontânea de ocupar o único espaço em que o movimento é pouco presente: as instituições. Mas não imediatamente, porque seu projeto não é ser uma minoria parlamentar, e sim de modificar a forma de fazer política, mediante uma democracia direta, instrumentada na internet, propondo referendos sobre temas-chaves, elaborando propostas legislativas mediante consultas e debates no espaço público, urbano e cibernético, implantando medidas concretas de debates entre os cidadãos e utilizando a plataforma com propostas que saiam do povo.

Na realidade, não é um partido, embora esteja inscrito no registro dos partidos, mas sim um experimento político, que vai se reinventando conforme avança. No horizonte vislumbra-se um momento em que o apoio do povo para votar contra todos os políticos de uma vez e em favor de uma plataforma eleitoral que tenha como único ponto no programa, permitir uma ocupação legal do parlamento e o desmantelamento do sistema tradicional de representação por dentro dele mesmo. Não é tão descabido. É muito o que aconteceu na Islândia, referência explicita do partido do futuro.

Mas, como evitar reproduzir o esquema de partido no processo de conquistar a maioria eleitoral? Aqui é onde surge a decisão, criticada pela classe política e alguns meios, das pessoas que têm tomado esta iniciativa de manter-se no anonimato. Porque se não há nomes, não há lideres, nem cargos, nem comitês federais, nem porta-vozes que dizem falar pelos demais, mas que acabam representando a si mesmos. Se não há rostos, o que sobra são ideias, práticas, iniciativas. De fato, é a prática da máscara como forma de criação de um sujeito coletivo composto de milhões de indivíduos mascarados, como fizeram os zapatistas, ou como fazem os Anonymous com a sua famosa máscara reconhecida em todo o mundo, mas com múltiplos portadores. Inclusive o anonimato do protesto se encontra em nossos clássicos: “Fuenteovejuna todos a una”.

Talvez chegue o momento em que as listas eleitorais queiram nomes, mas não necessariamente serão líderes, porque poderão ser sorteados os nomes entre milhares de pessoas que estejam de acordo com uma plataforma de ideias. No fundo se trata de pôr em primeiro plano a política das ideias com a que os políticos enchem a boca, enquanto fazem sua carreira entre cotoveladas. A personalização da política é maior sequela da liderança ao longo da história, baseada na demagogia, na ditadura do chefe e na política do escândalo para destruir pessoas representativas. O X do partido do futuro não é para esconder-se, mas sim para que seu conteúdo preencha as pessoas que projetem neste experimento seus sonhos pessoais em um sonho coletivo: democracia e ponto. A definir.

*Tradução: Carolina Rovai. Artigo publicado originalmente no La Vanguardia

‘Networked Minds’ Require Fundamentally New Kind of Economics (Science Daily)

Mar. 20, 2013 — In their computer simulations of human evolution, scientists at ETH Zurich find the emergence of the “homo socialis” with “other-regarding” preferences. The results explain some intriguing findings in experimental economics and call for a new economic theory of “networked minds”.

In their computer simulations of human evolution, scientists at ETH Zurich find the emergence of the “homo socialis” with “other-regarding” preferences. The results explain some intriguing findings in experimental economics and call for a new economic theory of “networked minds”. (Credit: © violetkaipa / Fotolia)

Economics has a beautiful body of theory. But does it describe real markets? Doubts have come up not only in the wake of the financial crisis, since financial crashes should not occur according to the then established theories. Since ages, economic theory is based on concepts such as efficient markets and the “homo economicus”, i.e. the assumption of competitively optimizing individuals and firms. It was believed that any behavior deviating from this would create disadvantages and, hence, be eliminated by natural selection. But experimental evidence from behavioral economics show that, on average, people behave more fairness-oriented and other-regarding than expected. A new theory by scientists from ETH Zurich now explains why.

“We have simulated interactions of individuals facing social dilemma situations, where it would be favorable for everyone to cooperate, but non-cooperative behavior is tempting,” explains Dr. Thomas Grund, one of the authors of the study. “Hence, cooperation tends to erode, which is bad for everyone.” This may create tragedies of the commons such as over-fishing, environmental pollution, or tax evasion.

Evolution of “friendliness”

Prof. Dirk Helbing of ETH Zurich, who coordinated the study, adds: “Compared to conventional models for the evolution of social cooperation, we have distinguished between the actual behavior – cooperation or not – and an inherited character trait, describing the degree of other-regarding preferences, which we call the friendliness.” The actual behavior considers not only the own advantage (“payoff”), but also gives a weight to the payoff of the interaction partners depending on the individual friendliness. For the “homo economicus”, the weight is zero. The friendliness spreads from one generation to the next according to natural selection. This is merely based on the own payoff, but mutations happen.

For most parameter combinations, the model predicts the evolution of a payoff-maximizing “homo economicus” with selfish preferences, as assumed by a great share of the economic literature. Very surprisingly, however, biological selection may create a “homo socialis” with other-regarding preferences, namely if offsprings tend to stay close to their parents. In such a case, clusters of friendly people, who are “conditionally cooperative”, may evolve over time.

If an unconditionally cooperative individual is born by chance, it may be exploited by everyone and not leave any offspring. However, if born in a favorable, conditionally cooperative environment, it may trigger cascade-like transitions to cooperative behavior, such that other-regarding behavior pays off. Consequently, a “homo socialis” spreads.

Networked minds create a cooperative human species

“This has fundamental implications for the way, economic theories should look like,” underlines Professor Helbing. Most of today’s economic knowledge is for the “homo economicus”, but people wonder whether that theory really applies. A comparable body of work for the “homo socialis” still needs to be written.

While the “homo economicus” optimizes its utility independently, the “homo socialis” puts himself or herself into the shoes of others to consider their interests as well,” explains Grund, and Helbing adds: “This establishes something like “networked minds”. Everyone’s decisions depend on the preferences of others.” This becomes even more important in our networked world.

A participatory kind of economy

How will this change our economy? Today, many customers doubt that they get the best service by people who are driven by their own profits and bonuses. “Our theory predicts that the level of other-regarding preferences is distributed broadly, from selfish to altruistic. Academic education in economics has largely promoted the selfish type. Perhaps, our economic thinking needs to fundamentally change, and our economy should be run by different kinds of people,” suggests Grund. “The true capitalist has other-regarding preferences,” adds Helbing, “as the “homo socialis” earns much more payoff.” This is, because the “homo socialis” manages to overcome the downwards spiral that tends to drive the “homo economicus” towards tragedies of the commons. The breakdown of trust and cooperation in the financial markets back in 2008 might be seen as good example.

“Social media will promote a new kind of participatory economy, in which competition goes hand in hand with cooperation,” believes Helbing. Indeed, the digital economy’s paradigm of the “prosumer” states that the Internet, social platforms, 3D printers and other developments will enable the co-producing consumer. “It will be hard to tell who is consumer and who is producer”, says Christian Waloszek. “You might be both at the same time, and this creates a much more cooperative perspective.”

Journal Reference:

  1. Thomas Grund, Christian Waloszek, Dirk Helbing. How Natural Selection Can Create Both Self- and Other-Regarding Preferences, and Networked Minds.Scientific Reports, 2013; 3 DOI: 10.1038/srep01480

Making a New Economy: Getting Cooperative (Truthout)

Saturday, 16 March 2013 00:00By David MorganTruthout | Op-Ed

Hands together(Image: Hands together via Shutterstock)

A new economy is coming. While Wall Street banks are on a trend of corporate mergers and acquisitions, Main Street businesses are generating community wealth while undergoing a transition of their own. Traditional companies are becoming worker cooperatives, both to sustain during tough economic times and because years of success have enabled these companies to reward their workers. State and local governments are beginning to get wise to this trend, too, adding legislative influence to an already vibrant movement.

Take the example of Zingerman’s Community of Businesses, an umbrella company that runs a fleet of food service outfits based in Ann Arbor, Michigan. Over the course of more than 30 years, Zingerman’s has become a statewide destination for food lovers, and their owners have become business community luminaries. Nearly 600 employees work in the eight distinct businesses that comprise the Zingerman’s Community, generating annual revenues of $46 million. Inc. Magazine once rated Zingerman’s among the coolest companies in the States, and the very same leaders whose vision has been so celebrated are now designing a plan to transition Zingerman’s to an employee-owned worker cooperative. When the transition is complete, Zingerman’s will be among the largest worker co-ops in the United States.

“It’s exciting to see so many of these transitions happening today, and when a relatively large and remarkably successful company like Zingerman’s moves in this direction, it says something powerful about the possibilities of the Next Economy,” says John Abrams of South Mountain Company. Abrams is advising Zingerman’s on its transition, and brings more than 25 years of experience to the Zingerman’s table. In 1987, Abrams was among those who transitioned his workplace, a design/build firm in Massachusetts named South Mountain Company, to a worker-owned cooperative. “Ownership is a very big deal,” he explains, “and when the people who are making the decisions share in both the rewards and the consequences of those decisions, it’s natural that better decisions result.”

Putting decision-making power in the employees’ hands can keep a local economy going in tough times, and create stable jobs that are far less likely to disappear in times of crisis. The high-profile example of Chicago’s Republic Windows & Doors is one such case of a transition born out of conflict and economic strife. In late 2008, Bank of America cancelled the company’s line of credit, driving it into bankruptcy, and the workers were set to be laid off without their due severance pay or other benefits. Days later, the embattled workers occupied the factory and took control of what the bank had threatened to take away. Assisted by many players in the cooperative movement, those same workers who occupied Republic Windows & Doors have since decided to take permanent control of the company and turn it into a cooperative called New Era Windows.

These recent conversions draw from deep roots. Businesses transitioning today enjoy a broad support network of co-ops drawing from decades of experience. Pioneering company conversions include the 25-year-old Collective Copies of western Massachusetts, whose unionized, striking employees pooled their skills and experience to change over the failing and exploitative Gnomon Copies, revitalizing, strengthening, and updating it to a modern, collectively-run print shop.

These historical examples and the current economic climate are convincing municipalities across the country that transitioning to a co-op-focused economy is a good idea. Recently, two dozen city officials met in Reading, Pennsylvania, to discuss boosting the local economy by creating co-ops, and the mayor of Richmond, California, created a co-op development position to advise the city government.

The picture isn’t as rosy elsewhere in the country, however. “You can’t even form a cooperative in every state in the US,” says Melissa Hoover, president of the US Federation of Worker Cooperatives, because “the legal form simply does not exist in some states.” Indeed, even among cooperative enterprises, only one percent are worker-owned.

As one of the five states that offer worker cooperatives an official business identity, Massachusetts leads the way in supporting worker cooperatives. Legislation is currently on the table that would formalize and clarify the transition process for companies looking to become worker-owned. The new laws would require business owners to notify their workers when they intend to sell the company, making it clear to employees that they are eligible to purchase or bid on the company. It would also give the employees the right of first refusal.

Where co-ops don’t already have a foothold, advocacy groups are making strides, including the formative New Orleans Cooperative Development Project, which describes itself as “a community consortium to facilitate the startup and development of worker-owned cooperative businesses in the region.” In the midwest, the Cincinnati Union Co-op Initiative, pairs United Steelworkers – the largest US-based union – with the Mondragon Cooperative Complex, the largest co-op worker system in the world.

“To survive the boom and bust, bubble-driven economic cycles fueled by Wall Street, we must look for new ways to create and sustain good jobs on Main Street,” Leo Gerard, president of United Steelworkers, told The Nation last year. “Worker-ownership can provide the opportunity to figure out collective alternatives to layoffs, bankruptcies and closings.”

The cooperative movement enjoys growing acceptance in the business community, aided by visionary political leadership that recognizes the value of community resilience. A crucial part of the co-op movement is how it integrates with our communities; each new co-op makes the economy more accountable to the people who live on Main Street, and has the power to change how we will build a new economy.

Copyright, Truthout. May not be reprinted without permission.

David Graeber: Some Remarks on Consensus (Occupy Wall Street)

Posted on Feb. 26, 2013, 3:37 p.m. EST by OccupyWallSt 

the medium is the message

As part of our recent series on Occupy and consensus, we are posting this timely piece by David Graeber, originally published at OccupyWallStreet.net

There has been a flurry of discussion around process in OWS of late. This can only be a good thing. Atrophy and complacency are the death of movements. Any viable experiment in freedom is pretty much going to have to constantly re-examine itself, see what’s working and what isn’t—partly because situations keep changing, partly because we’re trying to invent a culture of democracy in a society where almost no one really has any experience in democratic decision-making, and most have been told for most of their lives that it would be impossible, and partly just because it’s all an experiment, and it’s in the nature of experiments that sometimes they don’t work.

A lot of this debate has centered around the role of consensus. This is healthy too, because there seem to be a lot of misconceptions floating around about what consensus is and is supposed to be about. Some of these misconceptions are so basic, though, I must admit I find them a bit startling.

Just one telling example. Justine Tunney recently wrote a piece called “Occupiers: Stop Using Consensus!” that begins by describing it as “the idea that a group must strictly adhere to a protocol where all decisions are unanimous”—and then goes on to claim that OWS used such a process, with disastrous results. This is bizarre. OWS never used absolute consensus. On the very first meeting on August 2, 2011 we established we’d use a form of modified consensus with a fallback to a two-thirds vote. Anyway, the description is wrong even if we had been using absolute consensus (an approach nowadays rarely used in groups of over 20 or 30 people), since consensus is not a system of unanimous voting, it’s a system where any participant has the right to veto a proposal which they consider either to violate some fundamental principle, or which they object to so fundamentally that proceeding would cause them to quit the group. If we can have people who have been involved with OWS from the very beginning who still don’t know that much, but think consensus is some kind of “strict” unanimous voting system, we’ve got a major problem. How could anyone have worked with OWS that long and still remained apparently completely unaware of the basic principles under which we were supposed to be operating?

Granted, this seems to be an extreme case. But it reflects a more general confusion. And it exists on both sides of the argument: both some of the consensus’ greatest supporters, and its greatest detractors, seem to think “consensus” is a formal set of rules, analogous to Roberts’ Rules of Order, which must be strictly observed, or thrown away. This certainly was not what people who first developed formal process thought that they were doing! They saw consensus as a set of principles, a commitment to making decisions in a spirit of problem-solving, mutual respect, and above all, a refusal of coercion. It was an attempt to create processes that could work in a truly free society. None of them, even the most legalistic, were so presumptuous to claim those were the only procedures that could ever work in a free society. That would have been ridiculous.

Let me return to this point in a moment. First,

1) CONSENSUS IS “A WHITE THING” (OR A MIDDLE CLASS WHITE THING, OR AN ELITIST FORM OF OPPRESSION, ETC)

The first thing to be said about this statement is that this idea is a very American thing. Anyone I mention it to who is not from the United States tends to react to the statement with complete confusion. Even in the US, it is a relatively recent idea, and the product of a very particular set of historical circumstances.

The confusion overseas is due to the fact that almost everywhere except the US, the exact opposite is true. In the Americas, Africa, Asia, Oceania, one finds longstanding traditions of making decisions by consensus, and then, histories of white colonialists coming and imposing Roberts Rules of Order, majority voting, elected representatives, and the whole associated package—by force. South Asian panchayat councils did not operate by majority voting and still don’t unless there has been a direct colonial influence, or by political parties that learned their idea of democracy in colonial schools and government bodies the colonialists set up. The same is true of communal assemblies in Africa. (In China, village assemblies also operated by consensus until the ’50s when the Communist Party imposed majority voting, since Mao felt voting was more “Western” and therefore “modern.”) Almost everywhere in the Americas, indigenous communities use consensus and the white or mestizo descendants of colonialists use majority voting (insofar as they made decisions on an equal basis at all, which mostly they didn’t), and when you find an indigenous community using majority voting, it is again under the explicit influence of European ideas—almost always, along with elected officials, and formal rules of procedure obviously learned in colonial schools or borrowed from colonial regimes. Insofar as anyone is teaching anyone else to use consensus, it’s the other way around: as in the case of the Maya-speaking Zapatista communities who insisted the EZLN adopt consensus over the strong initial objections of Spanish-speaking mestizos like Marcos, or for that matter the white Australian activists I know who told me that student groups in the ’80s and ’90s had to turn to veterans of the Maoist New People’s Army to train them in consensus process—not because Maoists were supposed to believe in consensus, since Mao himself didn’t like the idea, but because NPA guerillas were mostly from rural communities in the Philippines that had always used consensus to make decisions and therefore guerilla units had adopted the same techniques spontaneously.

So where does the idea that consensus is a “white thing” actually come from? Indigenous communities in America all used consensus decision-making instead of voting. Africans brought to the Americas had been kidnapped from communities where consensus was the normal mode of making collective decisions, and violently thrust into a society where “democracy” meant voting (even though they themselves were not allowed to vote.) Meanwhile, the only significant group of white settlers who employed consensus were the Quakers—and even they had developed much of their process under the influence of Native Americans like the Haudenosaunee.

As far as I can make out the ideas comes out of political arguments that surrounded the rise of Black Nationalism in the 1960s. The very first mass movement in the United States that operated by consensus was the SNCC, or Student Non-Violent Coordinating Committee, a primarily African-American group created in 1960 as a horizontal alternative to Martin Luther King’s (very vertical) SCLC. SNCC operated in a decentralized fashion and used consensus decision-making. It was SNCC for instance that organized the famous “freedom rides” and most of the direct action campaigns of the early ’60s. By 1964, an emerging Black Power faction was looking for an issue with which to isolate and ultimately expel the white members of the group. They seized on consensus as a kind of wedge issue—this made sense, politically, because many of those white allies were Quakers, and it was advantageous, at first, to frame the argument as one of efficiency, rather than being about more fundamental moral and political issues like non-violence. It’s important to emphasize though that the objections to consensus as inefficient and culturally alien that were put forward at the time were not put forward in the name of moving to some other form of direct democracy (i.e., majority voting), but ultimately, part of a rejection of the whole package of horizontality, consensus, and non-violence with the ultimate aim of creating top-down organizational structures that could support much greater militancy. It also corresponded to an overt attack on the place of women in the organization—an organization that had in fact been founded by the famous African-American activist Ella Baker on the principle “strong people don’t need strong leaders.” Stokely Carmichael, the most famous early Black Power advocate in SNCC, notoriously responded to a paper circulated by feminists noting that women seemed to be systematically excluded from positions in the emerging leadership structure by saying as far as he was concerned, “the only position for women in SNCC is prone.”

Within a few years SNCC began to splinter; white allies were expelled in 1965; after a brief merger with the Panthers it split again, and dissolved in the ’70s.

These tensions—challenges to horizontalism and consensus, macho leadership styles, the marginalization of women—were by no means peculiar to SNCC. Similar battles were going on in predominantly white groups: notably SDS, which ultimately ditched consensus too, and ended up splitting between Maoists and Weathermen. This is one reason the feminist movement of the early ’70s, which within the New Left began partly as a reaction to just this kind of macho posturing, embraced consensus as an antidote. (Anarchists only later adopted it from them.) But one point bears emphasizing. It’s important. None of those who challenged consensus did so in the name of a different form of direct democracy. In fact, I’m not aware of any example of an activist group that abandoned consensus and then went on to settle on some different, but equally horizontal approach to decision-making. The end result is invariably abandoning direct democracy entirely Sometimes that’s because, as here, that is explicitly what those challenging consensus want. But even when it’s not, the same thing happens, because moving from consensus sets off a dynamic that inevitably leads in a vertical direction. When consensus is abandoned, some are likely to quit in protest. These are likely to be the most dedicated to horizontal principles. Factions form. Minority factions that consistently lose key votes, and don’t have their concerns incorporated in resulting proposals, will often split off. Since they too are likely to consist of more horizontally oriented participants, the group becomes ever more vertical. Before long, those who never liked direct democracy to begin with start saying it’s what’s really to blame for all these problems, it’s inefficient, things would run far more smoothly with clearly defined leadership roles—and it only takes a vote of 51% of the remaining, much more vertical group, to ditch direct democracy entirely.

Obviously, the widespread perception of consensus process as white isn’t just be a hold-over from events that took place forty years ago. A lot of the problem is that, since the ’70s, consensus process has largely been developed among direct-action oriented groups, and, while there are certainly African-American-based groups operating in what might be called the Ella Baker tradition, most of those groups have been largely white. The reasons are pretty obvious. Those lacking white privilege face much higher levels of state repression, and (unlike, in say, Mexico, or India, where those who face the most repression are generally speaking already organized in semi-autonomous communities that operate at least partly by consensus), in the US, this limits the degree to which it’s possible to engage in creating experimental spaces outside the system. Communities face immediate such practical concerns so pressing many feel working outside the system would be irresponsible. Those who don’t often feel they have no choice but to adopt either strict, rigorous, MLK-style non-violence, or adopt revolutionary militarism like the panthers—both of which tend to lead to top down forms of organization. As a result, the culture of consensus, the style in which it’s conducted, the sensibilities surrounding it, inevitably comes to reflect the white middle-class background of so many of those who have created and shaped it, and the result is that those who do not share these sensibilities feel alienated and excluded. Obviously this is something that urgently needs to be addressed. But the problem here is not with the principles underlying consensus (that all voices have equal weight, that no one be compelled to act against their will), but with the way it’s being done—and the fact that the way it’s being done have the effect of undermining those very principles.

2) RULES VERSUS PRINCIPLES

I think the real problem here is a misunderstanding about what we’re basically arguing about. A lot of people on both sides of the debate seem to think “consensus” is a set of rules. If you follow the rules, you’re doing consensus. If you break the rules, or even do them in the wrong order it’s somehow not. I’ve seen people show up to meetings armed with elaborate diagrams or flow-charts for some kind of formal process downloaded from some web page and insist that only this is the really real thing. So it’s hardly surprising that other people put off by all this, or who see that particular form of process hit some kind of loggerhead, say “well consensus doesn’t work. Let’s try something else.”

As far as I’m concerned both sides completely miss the point.

I’ll say it again. Consensus is not a set of rules. It’s a set of principles. Actually I’d even go so far to say that if you really boil it down, it ultimately comes down to just two principles: everyone should have equal say (call this “equality”), and nobody should be compelled to do anything they really don’t want to do (call this, “freedom.”)

Basically, that’s it. The rules are just a way to try to come to decisions in the spirit of those principles. “Formal consensus process,” in is various manifestations, is just one technique people have made up, over the years, to try to come to group decisions that solve practical problems in a way that ensures no one’s perspective is ignored, and no one is forced to do anything or comply with rules they find truly obnoxious. That’s it. It’s a way to find consensus. It’s not itself “consensus.” Formal process as it exists today has been proved to work pretty well for some kinds of people, under some circumstances. It is obviously completely inappropriate in others. To take an obvious example: most small groups of friends don’t need formal process at all. Other groups might, over time, develop a completely different approach that suits their own dynamics, relations, situation, culture, sensibilities. And there’s absolutely no reason any group can’t improvise an entirely new one if that’s what they want to do. As long as they are trying to create a process that embodies those basic principles, one that gives everyone equal say and doesn’t force anyone to go along with a decision they find fundamentally objectionable, then what they come up with is a form of consensus process—no matter how it operates. After all, it a group of people all decide they want to be bound by a majority decision, well, who exactly is going to stop them? But if they all decide to be bound by a majority decision, then they have reached a consensus (in fact, an absolute consensus) that they want to operate that way. The same would be true if they all decided they wanted to be bound by the decisions of a Ouija Board, or appointed one member of the group Il Duce. Who’s going to stop them? However, for the exact same reason, the moment the majority (or Ouija board, or Il Duce) comes up with a decision to do something that some people think is absolutely outrageous and refuse to do, how exactly is anyone going to force them to go along? Threaten to shoot them? Basically, it could only happen if the majority is somehow in control of some key resource—money, space, connections, a name—and others aren’t. That is, if there is some means of coercion, subtle or otherwise. In the absence of a way to compel people to do things they do not wish to do, you’re ultimately stuck with some kind of consensus whether you like it or not.

The question then is what kind of decision making process is most likely to lead to decisions that no one will object to so fundamentally that they will march off in frustration or simply refuse to cooperate? Sometimes that will be some sort of formal consensus process. In other circumstances that’s the last thing one should try. Still, there’s a reason that 51/49% majority voting is so rarely employed in such circumstances: usually, it is the method least likely to come up with such decisions.

Think of it this way.

Imagine the city is about to destroy some cherished landmark and someone puts up posters calling for people to meet in a nearby square to organize against it. Fifty people show up. Someone says, okay, “I propose we all lay down in front of the bulldozers. Let’s hold a vote.” So 30 people raised their hands yes, and 20 people raise their hands no. Well, what possible reason is there that the 20 people who said no would somehow feel obliged to now go and lay in front of the bulldozers? These were just 50 strangers gathered in a square. Why should the opinions of a majority of a group of strangers oblige the minority to do anything—let alone something which will expose them to personal danger?

The example might seem absurd—who would hold such a vote?—but I experienced something almost exactly like it a few years ago, at an “all-anarchist” meeting called in London before a mass mobilization against the G8. About 200 people showed up at the RampArts Social Center. The facilitator, a syndicalist who disliked consensus, explained that another group had proposed a march, followed by some kind of direct action, and immediately proceeded to hold a vote on whether we, as a group, wanted to join as. Oddly, it did not seem to occur to him that, since we were not in fact a group, but just a bunch of people who had showed up at a meeting, there was no reason to think that those who did not want to join such an action would be swayed by the result. In fact he wasn’t taking a vote at all. He was taking a poll: “how many people are thinking of joining the march?” Now, there’s nothing wrong with polls; arguably, the most helpful thing he could have done under the circumstance was to ask for a show of hands so everyone could see what other people were thinking. The results might even have changed some people’s minds—”well, it looks like a lot of people are going to that march, maybe I will too” (though in this case, in fact, it didn’t.) But the facilitator thought he was actually conducting a vote on what to do, as if they were somehow bound by the decision.

How could he have been so oblivious? Well, he was a syndicalist; unions use majority vote; that’s why he preferred it. But of course, unions are membership-based groups. If you join a union, you are, by the very act of doing so, agreeing to abide by its rules, which includes, accepting majority vote decisions. Those who do not follow the group’s rules can be sanctioned, or even expelled. It simply didn’t occur to him that most unions’ voting system depended on the prior existence of membership rolls, dues, charters, and usually, legal standing—which in effect meant that either everyone who had voluntarily joined the unions was in effect consenting to the rules, or else, if membership was obligatory in a certain shop or industry owing to some prior government-enforced agreement, was ultimately enforced by the power of the state. To act the same way when people had not consented to be bound by such a decision, and then expect them to follow the dictates of the majority anyway, is just going to annoy people and make them less, not more, likely to do so.

So let’s go back to Justine’s first example,

the first time I saw a block used at Occupy was at one of the first general assemblies in August 2011. There were about a hundred people that day and in the middle of the meeting a proposal was made to join Verizon workers on the picket line as a gesture of solidarity in the hope that they might also support us in return. People loved the idea and there was quite a bit of positive energy until one woman in the crowd, busy tweeting on her phone, casually raised her hand and said, “I block that”. The moderator, quite flabbergasted asked why she blocked and she explained that showing solidarity with workers would alienate the phantasm of our right-wing supporters. Discussion then abruptly ended and the meeting went on. The truth was irrelevant, popular opinion didn’t matter, and solidarity—the most important of all leftist values—was thrown to the wind based on the whims of just one individual. Occupy had to find a new way to do outreach.

Now, I was at this meeting, and I remember the event quite vividly because at the time I was one of the participants who was more than a little bit annoyed by the block. But I also know that this is simply not what happened.

First of all, as I remarked, OWS from the beginning did not have a system where just one person could block a proposal; in the event of a block, we had the option to fall back on a 2/3 majority vote. So if everyone had really loved the proposal, the block could have been simply brushed aside. While many felt the woman in question was being ridiculous (most of us suspected the “national movement” she claimed to represent didn’t really exist), the facilitator, when she asked if anyone felt the same way, was surprised to discover a significant contingent–some, but not all, insurrectionist anarchists–did in fact object to holding the next meeting at a picket line, since they didn’t want to immediately identify the movement with the institutional left. Once it became clear it was not just one crazy person, but a significant chunk of the meeting—probably not quite a third, but close (there weren’t really a hundred people there, incidentally; more like sixty)—she asked if anyone felt strongly that we should move to a vote, and no one insisted. Was this a terrible failure of process? I must admit at the time I found it exasperating. But in retrospect I realize that had we forced a vote, the results might well have been catastrophic. Because at that point we, too were just a bunch of people who’d all showed up in a park. We weren’t a “group” at all. Nobody had committed to anything; certainly, no one had committed to going along with a majority decision.

A block is not a “no” vote. It’s a veto. Or maybe a better way to put it is that giving everyone the power to block is like giving the power to take on the role of the Supreme Court, and stop a piece of legislation that they feel to be unconstitutional, to anyone who has the courage to stand up in front of the entire group and use it. When you block you are saying a proposal violates one of the group’s agreed-on common principles. Of course, in this case we didn’t have any agreed-on common principles. In cases like that, the usual rule of thumb is that you should only block if you feel so strongly about an issue that you’d actually leave the group. In this sense I suspect the initial blocker was indeed being irresponsible (she wouldn’t have really left; and many wouldn’t have mourned her if she had.) However, others felt strongly. Had we held a vote and decided to hold our next meeting at a picket line over their objections, many of them would likely not have shown up. The anti-authoritarian contingent would have been weakened. Had that happened, there was a real chance later decisions, much more important ones, might have gone the other way. I am thinking here in particular of the crucial decision, made some weeks later, not to appoint official marshals and police liaisons for September 17. Judging by the experience of other camps, had that happened, everything might have gone differently and the entire occupation failed. In retrospect, the loss of one early opportunity to create ties with striking unionists now seems a small price to pay for heading off on a road that might have led to that. Especially since we had no trouble establishing strong ties with unions later—precisely because we had succeeded in creating a real occupation in the park.

There are a lot of other issues that one could discuss. Above all, we desperately need to have a conversation about decentralization. Another point of confusion about consensus is the idea that it’s crucial to get approval from everyone about everything, which is again stifling and absurd. Consensus only works if working groups or collectives don’t feel they need to seek constant approval from the larger group, if initiative arises from below, and people only check upwards if there’s a genuinely compelling reason not to go ahead with some initiative without clearing it with everyone else. In a weird way, the very unwieldiness of consensus meetings is helpful here, since it can discourage people from taking trivial issues to a larger group, and thus potentially waste hours of everyone’s time.

But all this will no doubt will be hashed out in the discussions that are going on (another good rule of thumb for consensus meetings: you don’t need to say everything you can think to say if you’re pretty sure someone else will make a lot of the same points anyway). Mainly what I want to say is this:

Our power is in our principles. The power of Occupy has always been that it is an experiment in human freedom. That’s what inspired so many to join us. That’s what terrified the banks and politicians, who scrambled to do everything in their power—infiltration, disruption, propaganda, terror, violence—to be able to tell the word we’d failed, that they had proved a genuinely free society is impossible, that it would necessarily collapse into chaos, squalor, antagonism, violence, and dysfunction. We cannot allow them such a victory. The only way to fight back is to renew our absolute commitment to those principles. We will never compromise on equality and freedom. We will always base our relations to each other on those principles. We will not fall back on top-down structures and forms of decision making premised on the power of coercion. But as long as we do that, and if we really believe in those principles, that necessarily means being as open and flexible as we can about pretty much everything else.

Entrevista sobre empreendedorismo e pacificação (Cirandas.net)

11 de Março de 2013, por Celso Alexandre Souza de Alvear

No início de março a jornalista Bruna Cerdeira do portal das UPPs me pediu uma entrevista sobre empreendedorismo e pacificação, devido a nosso projeto RioEcoSol. Quando liguei para saber se ela tinha recebido minha resposta, ela disse que não teve como usá-la, pois demorei muito (acho que demorei uns 3 dias pra responder) e que já tinha feito a matéria. Mas acho que minha resposta não agradou muito ela não… Pedi para ela me informar quando entrasse no ar, porém até hoje não tive resposta e não vi nada no site da upps. Assim, estou publicando minha resposta. Acho importante desmistificar um pouco essa visão acrítica que depois da pacificação aumentou o empreendedorismo nas favelas. Abaixo minhas respostas:

Repórter: Fui informada que o senhor foi o responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas: Cidade de Deus, Complexo do Alemão, Manguinhos e Santa Marta.

Na verdade, não fui responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas, mas sim pelo livro  resultante da pesquisa sobre economia solidária e economia popular nas 4 favelas (conhecida como RioEcoSol). Diferentemente da maior parte das abordagem de empreendedorismo, que prezam pela competição e pela individualidade dos empreendimentos (sob uma ótica capitalista de quanto mais lucro melhor), a economia solidária preza por uma relação de trabalho sem chefes e empregados (numa cooperativa todos os trabalhadores são donos do empreendimento) e numa lógica de cooperação e solidariedade entre os empreendimentos e entre esses e seu território.

De qualquer jeito, espero que possa te ajudar com sua pesquisa. Seguem minhas respostas.

1) Como a pacificação está ajudando a transformar as comunidades em ambientes favoráveis ao empreendedorismo e a fomentar o consumo dos produtos dos negócios locais pelos moradores?

O programa de pacificação ajudou na vida dos moradores e dos empreendimentos dessas favelas com a possibilidade de um transito mais livre no território e com uma diminuição de uma estigmatização negativa dessas favelas e dos empreendimentos localizados nelas (principalmente aqueles que vendem para pessoas de fora de suas favelas). Porém, com a repressão da polícia a diversas atividades culturais na favela (como no caso dos bailes funks), muitos empreendimentos relatam uma grande diminuição de suas vendas, pois essas atividades culturais geravam uma dinâmica econômica endógena. Outro problema é que muitos empreendimentos relatam que, com o programa de pacificação, muitos empreendimentos familiares vêm sofrendo coerção para se formalizarem (alguns empreendimentos populares, familiares, ou coletivos não tem capacidade para se formalizarem no momento).

Por fim, com o livre transito nesses territórios, a tendência é que os grandes empresários entrem nesses territórios acabando com todo o comércio local (assim como os de Barra/Jacarepaguá tem feito na Cidade de Deus, de botafogo e da zona sul estão fazendo no Santa Marta etc.). Existem vários exemplos de rádios comunitárias que foram fechadas depois da pacificação e de tvs comunitárias que fecharam pois as teves a cabo não tiveram interessem em colocar na grade. No alemão, também temos o exemplo de um empreendedor que comercializava internet (de forma regular e legal) antes da pacificação, mas que agora, com a entrada de velox, tem dificuldades para competir com essas grandes empresas. A pergunta seria então quais estratégias podem evitar a morte desses empreendimentos locais? Consideramos que só com políticas públicas e investimento do Estado pode-se evitar isso (e não com programas como pretendem casar a demanda desses territórios com o que o mercado pode ofertar). Uma política que deveria ser mais estimulado são os bancos comunitários e as moedas sociais. Isso porque, com a moeda social, por exemplo, você favorece a que se compre no comércio local, por conta do desconto.

2) Qual faixa etária (jovens, adultos) está se tornando a principal característica do empreendedorismo nas comunidades?

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

3) Que tipo de empreendimento mais cresce nessas 4 comunidades pacificadas e qual o perfil do empreendedor? (se tiver um dado mais geral, que englobe outras comunidades pacificadas)

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

4) Que cursos e/ou oficinas podem contribuir para a formação empresarial dos moradores com vocação para abrir seus próprios negócios?

Além de formações técnicas que possibilitem melhorar seus produtos e gerirem melhor seus empreendimentos, consideramos fundamental formações que desenvolvam a consciência crítica desses empreendedores, sob uma ótica de economia solidária, que permitam refletir seu empreendimento em relação a seu território. Sobre formação empresarial, não fizemos nenhuma pesquisa.