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Dilma cede à pressão dos ruralistas e rifa os direitos indígenas, diz antropóloga da USP (Folha de S.Paulo)

14/07/2013 – 00h45

RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das mais influentes estudiosas da questão indígena no país, acusa a gestão Dilma Rousseff de promover um desenvolvimentismo de “caráter selvagem”, sem “barreiras que atendam a imperativos de justiça, direitos humanos e conservação”.

Para ela, Dilma “parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos”.

Após citar “uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios”, ela chama a atenção para um projeto de lei –alçado ao status de urgência “com o beneplácito do líder do governo”– que permitiria o uso de terras indígenas para diversas finalidades, da construção de hidrelétricas à reforma agrária. “Se passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas”, diz.

Outro alerta é para a proposta que tenta tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações, passando atribuições ao Congresso. Isso, diz, fará com que a demarcação “deixe de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico e passe a ser exclusivamente político”.

Professora titular aposentada da USP e emérita da Universidade de Chicago, Cunha também tem críticas ao Judiciário. Ela fala numa “tendência crescente e preocupante” de paralisar processos de demarcação em seu início. E estima que, hoje, 90% das terras em fase de demarcação estão judicializadas.

Marcelo Justo-12.jul.13/Folhapress
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo

Folha – O que distingue o governo Dilma dos anteriores na questão indígena?

Manuela Carneiro da Cunha – Já disse em outra ocasião que neste governo a mão direita e a mão esquerda parecem se ignorar. A esquerda promove uma maior justiça social; a direita promove um chamado desenvolvimento sem qualquer limite.

O problema não é o desenvolvimentismo em si, mas seu caráter selvagem: a ausência de barreiras que atendam a imperativos de justiça, de direitos humanos, de conservação. Custos humanos e ambientais não estão sendo considerados.

Assiste-se agora a uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios. São vários projetos que destroem garantias que a Constituição de 1988 assegurou. E a União, que é a tutora, portanto a protetora dos direitos indígenas, não se ergue contra isso.

A própria AGU (Advocacia-Geral da União), que se pautava por uma tradição de defesa dos direitos indígenas, se aliou à bancada ruralista quando editou a infeliz portaria 303 (norma que estende para todas as demarcações as 19 condicionantes criadas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, de Roraima).

Como interpretar as recentes ações do governo?

Adotando uma interpretação caridosa, eu diria que o governo cede a pressões dos ruralistas, e rifa os direitos indígenas em troca de apoio.

Assim, na última quarta deu-se uma manobra escandalosa na Câmara: aprovou-se colocar em votação por acordo de líderes, e com o beneplácito do líder do governo, o regime de urgência para o Projeto de Lei Complementar 227/2012, que regulamentaria o parágrafo 6 do artigo 231 da Constituição, aquele que trata das terras indígenas.

O que significa?

Esse parágrafo abre uma exceção nos direitos de posse e usufruto exclusivo dos índios quando se tratar de relevante interesse da União.

O projeto, de autoria do vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura, pretende definir o que seria relevante interesse público da União. É assombrosa essa definição: praticamente tudo nela cabe. Permitiria que em terras indígenas passassem estradas, oleodutos, linhas de transmissão, hidrelétricas, ferrovias.

Permitiria que se concedessem áreas a terceiros em faixas de fronteira, que se mantivessem posseiros, agrupamentos urbanos, assentamentos de reforma agrária e até novos assentamentos. Permitiria que se mantivessem todas as terras sob domínio privado quando da promulgação da Constituição de 1988.

Permitiria tudo?

Esta cláusula seria o equivalente da anistia que os ruralistas conseguiram no Código Florestal. Mas dessa vez não se trataria de escapar de multas e de ter de recompor paisagens degradadas. Seria legalizar e perpetuar o esbulho. Se uma lei como essa passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas.

As condicionantes do STF e a portaria da AGU que a senhora citou foram muito criticadas por indígenas e antropólogos. Quais são os problemas?

Várias dessas condicionantes surgiram como uma forma de permitir um consenso entre os ministros do STF em relação ao caso Raposa Serra do Sol. Quando a Advocacia-Geral da União quis estender a outros casos essas condicionantes, que ainda dependem de uma análise mais aprofundada do próprio Supremo, e que foram estabelecidas para aquele caso concreto, ela tentou consolidar abusivamente uma interpretação desfavorável aos índios.

Cite um exemplo

Um exemplo é a alegada proibição de ampliação de terras indígenas. Essa condicionante se referia ao caso da Raposa, cuja demarcação havia sido validada pelo tribunal: não caberia ampliação de uma área recém demarcada. Quando se aplica essa mesma condição às terras guaranis, demarcadas em outro contexto, décadas atrás, fica evidente o absurdo. Nesse sentido, a portaria 303 é muito grave, pois denota uma intenção evidente de prejudicar os direitos indígenas em favor de interesses econômicos, contrariando toda a história da própria AGU, que sempre se destacou na defesa desses direitos.

O governo quer envolver a Embrapa, entre outros órgãos, nos processos de demarcação. Para alguns, há uma tentativa de enfraquecer a Funai. Qual a opinião da senhora?

A presidenta parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos. Esse bloco se opõe ferozmente à demarcação e à desintrusão (retirada de invasores) das áreas indígenas.

Marta Azevedo (presidente da Funai que deixou o cargo em junho) anunciou desde sua posse que daria prioridade à situação nas regiões onde se concentram os interesses dos fazendeiros. Foi um feito no ano passado conseguir a desintrusão, após 20 anos, da área Xavante Marãiwatsede. Com isso, cutucou-se a onça com vara curta.

Há vários modos da mão direita do governo enfraquecer a causa dos índios. Uma é retirando atribuições da Funai. Outra é deixando-a sem dinheiro. E outra ainda é colocando como presidente alguém a serviço de outras agendas.
Corre o boato de que o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que firmou sua carreira política como presidente da Funai e cuja atuação foi muito criticada, gostaria de colocar no posto uma pessoa sua.

Ganha força no Congresso a ideia de tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações. Que tal?

Se a PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição) for aprovada, acabarão os processos de demarcação de terras indígenas, pois os direitos dessas minorias serão submetidos aos jogos de poder de todos os grupos de interesse representados no Congresso Nacional, sobretudo à poderosa bancada ruralista.

Seria colocar a raposa para cuidar do galinheiro. A demarcação deixa de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico, como é hoje, e passa ser exclusivamente política.

Mas o Projeto de Lei Complementar 227/2012 (que define bens de interesse da União para fins de demarcação) é muito mais grave. É um rolo compressor esmagando a Constituição Federal.

Em que medida o Poder Judiciário é corresponsável pela demora nas demarcações e pelos conflitos?

Estima-se que que pelo menos 90% das terras em processo de demarcação estão judicializadas. As demoras são às vezes absurdas. No sul da Bahia, o caso Pataxó levou quase 100 anos para ser julgado pelo STF. No Mato Grosso do Sul existem casos que estão há mais de 30 anos em processos judiciais.

Há uma tendência crescente e preocupante do Judiciário de paralisar processos de demarcação administrativa logo em seu início, com base na simples apresentação de títulos de propriedade dos fazendeiros. Teses que há alguns anos atrás não vingavam, por não serem condizentes com a Constituição, começam a ganhar espaço no Judiciário.

Isso tem atrasado muitos processos demarcatórios, em todas as regiões do país, e contribuído para aumentar o grau de conflito em muitos casos. É o que vem ocorrendo no Mato Grosso do Sul.

Justiça que tarda não é justiça. No caso dos guaranis e caiovás do Mato Grosso do Sul, há gerações inteiras que nunca puderam viver sua cultura. A organização social tradicional não tinha como ser mantida, costumes e rituais ligados à cultura do milho não puderam ser realizados. Isso não seria etnocídio?

Há relação entre a morte de um terena no Mato Grosso do Sul por forças policiais numa reintegração de posse de uma área já declarada indígena e os protestos de mundurucus em Belo Monte, no Pará?

Nos dois casos, a Polícia Federal atuou contra os índios, e isso é inédito. Mas a relação é mais profunda.

No Mato Grosso do Sul consumou-se um esbulho de terras que vitimou em particular os terenas e os caiovás. Estes, aliás, em situação muito pior do que a dos terenas. Esse mesmo processo, que já estava em vigor no chamado arco do desmatamento, no norte de Mato Grosso e sudeste do Pará, está agora atingindo o sudoeste do Pará e do Amazonas, ou seja, o Tapajós, onde vivem os mundurucus.

Em suma: os mundurucus podem bem ser os caiovás e terenas de amanhã. E os caiovás têm uma média de 0,5 hectare por família (índice considerado abaixo do mínimo necessário para a própria subsistência).

O governo anunciou que vai indenizar fazendeiros em Sidrolândia (MS) que estão em área já declarada de terenas. Antes, as autoridades diziam que não havia respaldo legal para esse tipo de solução. O que mudou?

Não se trata de comprar terras, mas de indenizar os detentores de títulos de propriedade que, décadas atrás, foram irregularmente emitidos pela União.

Os títulos eram irregulares na medida em que incidiam sobre terras indígenas. Portanto, não se aplica a todas as áreas onde exista conflito com particulares, mas só naquelas onde a União está na origem do conflito, repassando terras indígenas a terceiros.

Para isso não é necessário mudar uma vírgula da legislação vigente. Depende apenas da consolidação de um entendimento jurídico pela AGU e de vontade política de desembolsar os recursos.

O que o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) anunciou é a possibilidade de usar recursos do Tesouro para compensar por títulos de boa fé que alguns fazendeiros possuem em terras que estão judicializadas no Mato Grosso do Sul.

Os Estados também emitiram títulos sobre terras indígenas, e muito. No Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade a criação de um fundo para compensar em dinheiro títulos de boa fé em terras indígenas. É uma solução semelhante à que o governo federal está propondo. Mas o fundo do Mato Grosso do Sul não tem um tostão. No caso da União, já há uma emenda parlamentar aprovada que destina R$ 50 milhões para acordos.

O importante agora é priorizar os casos mais dramáticos que envolvem os caiovás. E impedir o favorecimento de grandes fazendeiros e a abertura de uma nova indústria de indenizações, que já sangrou o Tesouro na década de 80.

Gilberto Carvalho também disse que o Brasil está prestes a deixar a lista dos países acusados de desrespeitar a Convenção 169 da OIT, documento que prevê consulta prévia aos indígenas antes de decisões que possam afetar seus direitos, como a construção de hidrelétricas. Há motivo para comemorar?

A Secretaria Geral da Presidência vem fazendo um trabalho admirável dentro do governo, tentando promover a regulamentação da consulta prévia aos povos indígenas, como determina a Convenção 169. Mas falta combinar com o restante do governo, que age em sentido contrário.

Veja o caso da implantação de hidrelétricas goela abaixo dos povos indígenas no Tapajós: o governo diz que quer consultá-los sobre o complexo de hidrelétricas, mas ao mesmo tempo já marca data para o leilão e inclusive para a emissão da licença ambiental das que ele considera principais. Que consulta é essa?

Uma verdadeira consulta se dá nas comunidades -e não só com as lideranças ou organizações indígenas-, no tempo delas e em língua que elas entendam e possam se expressar. E não pode ser uma atividade pontual, e sim um processo que acompanhe todas as fases do projeto.

Se está tudo decidido de antemão, vai-se consultar os índios sobre o que? Se querem bolsa-pescado ou tanques de piscicultura depois que os peixes do rio sumirem? A cor da parede da barragem?

Houve um aumento significativo da população indígena entre 1991 e 2000, conforme os Censos desses anos. Mas de 2000 a 2010, o crescimento foi proporcionalmente menor do que na população em geral. Alguma hipótese para essa “volatilidade demográfica”?

Os demógrafos explicam esse fenômeno. A categoria “indígena” surgiu no Censo de 1991. Até então a maioria dos índios se declaravam pardos, e muitas vezes também negros ou brancos. Em 1991 e em 2000, houve uma grande migração: muitos que se declaravam anteriormente pardos passaram a se declarar indígenas.

Isso provavelmente incluía o que (o antropólogo) Darcy Ribeiro chamou de “índios genéricos”, aqueles que, sendo descendentes de índios, não viviam em aldeias nem conheciam os povos a que pertenciam seus pais ou avós. É o que explicaria 60 mil pessoas que se declararam indígenas em São Paulo no Censo de 2000.

Já no Censo de 2010, é possível que o fato de se perguntar também a etnia e a língua indígena que se falava tenha inibido a auto-declaração desses descendentes de índios. Uma parte da variação resultou, portanto, do próprio Censo.
Mas, desde 1991, observa-se um crescimento demográfico maior da população indígena do que aquele da população não indígena.

O crescimento entre 1991 e 2000 foi da ordem de 3,5% ao ano em média, e o ocorrido entre 2000 e 2010 foi também dessa mesma ordem. Mas mantem-se um diferencial na mortalidade infantil: os indígenas ainda possuem uma taxa de mortalidade infantil muito maior do que aquela verificada entre os negros e brancos e amarelos.

A ideia, como princípio, de que o índio tem direito à terra nunca foi muito questionada no Brasil, conforme a senhora mesmo já disse. A Constituição não só consolidou esse entendimento como estabeleceu prazo de cinco anos para todas as demarcações. Por que isso não foi resolvido até hoje?

A legislação colonial e todas as constituições do Brasil sempre reconheceram os direitos dos índios a suas terras. Mas uma coisa é o princípio, outra sua aplicação. Na fábula clássica, o lobo encontra justificações sucessivas para devorar o carneiro. É que, como diz La Fontaine (escritor francês do século 17), “a razão do mais forte é sempre a melhor”.

Estamos assistindo a um remake do Brasil passado, como se o século 20 nunca houvesse existido. Voltamos a ser exportadores de commodities, voltamos a explorar riquezas sem consideração pelos custos humanos e ambientais. E voltamos também ao expediente dos séculos 16 e 17: afirma-se o princípio, mas abrem-se exceções que o tornam inócuo.

É o que tenta fazer o Projeto de Lei 227/2012: define o relevante interesse da União com tal latitude que as garantias constitucionais dos índios se tornam letra morta.

El EZLN y el Congreso Nacional Indígena responderán “en consecuencia ante cualquier intento” de reprimir a los yaquis (Desinformemonos)

Posted By ada On julio 7, 2013 @ 12:59 In Geografía,México,Reportajes,Reportajes México | No Comments

México. El Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) y los pueblos indios que conforman el Congreso Nacional Indígena (CNI), se solidarizaron e hicieron suya la lucha que actualmente libra la tribu yaqui en defensa de su agua. “Responderemos en consecuencia ante cualquier intento de reprimir esta digna lucha o cualquier otra lucha”, señalaron en un comunicado conjunto.

La tribu yaqui mantiene desde hace 38 días un campamento de resistencia en la carretera internacional, a la altura de Vícam, Sonora, para impedir el robo de agua planeado a través del Acueducto Independencia, una obra anticonstitucional planeada por el gobierno de Guillermo Padrés para abastecer a Hermosillo.

En un comunicado firmado desde el Caracol de Oventik, a una hora de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, la Comandancia General zapatista y los pueblos, tribus, naciones y barrios que integran el CNI, saludaron “la movilización histórica de la tribu yaqui en la defensa de su existencia y de su territorio”.

“Su lucha, compañeros, es nuestra también, pues, al igual que ustedes, mantenemos la certeza de que la tierra es nuestra madre y el agua que corre por sus venas no se vende, pues de ella depende la vida que es un derecho y que no nos ha sido dado por los malos gobierno ni por los empresarios”, indicaron en el comunicado signado a poco más de un mes de que se lleve a cabo la Cátedra Tata Juan Chávez Alonso, reunión convocada por los zapatistas para fortalecer la red de pueblos indios de México.

Ante la represión que enfrentan los yaquis por defender el agua del río que el gobierno del estado pretende desviar a la capital de Sonora, el EZLN y el CNI exigen “la cancelación inmediata de las órdenes de aprehensión y de la fabricación de delitos en contra de integrantes de la tribu yaqui”, y condenan “la criminalización de su lucha, diciendo a los malos gobiernos emanados de los partidos políticos que el río Yaqui ha sido históricamente el portador de la continuidad ancestral de la cultura y territorio”.

El CNI se conformó en octubre de 1996, luego de la visita de la comandanta Ramona a la ciudad de México. A partir de ese momento establecieron un trabajo en red que los coloca como la organización indígena nacional más consolidada de México. Con altas y bajas en estos 17 años de organización, los próximos 17 y 18 de agosto volverán a reunirse en San Cristóbal de las Casas, al lado del EZLN, organización convocante.

En el comunicado dado a conocer la noche del 7 de julio, insisten en que “si nos tocan a unos nos tocan a todos, por lo que responderemos en consecuencia ante cualquier intento de reprimir esta digna lucha o cualquier otra lucha”.

Finalmente, los zapatistas y el resto de los pueblos indios que conforman el CNI, llamaron “a la comunidad internacional y a los hermanos y hermanas de la Sexta Internacional a permanecer  atentos a los acontecimientos que se presenten en lo futuro en el territorio de la tribu Yaqui, sumándose a la solidaridad con la Tribu y a sus exigencias”.

A continuación el comunicado íntegro:

A la Tribu Yaqui,

Al Pueblo de México,

A la Sexta nacional e Internacional

A los gobiernos de México y del Mundo.  

Desde las montañas del sureste mexicano en territorio rebelde zapatista emitimos nuestra palabra conjunta como Pueblos, Naciones y Tribus Indígenas que conformamos el Congreso Nacional Indígena, a través de la cual enviamos un saludo fraterno de fuerza y solidaridad a los miembros de la Tribu Yaqui, a su Gobierno y Guardia Tradicional, esperando que se encuentren todos con bien.

Saludamos la movilización histórica de la Tribu Yaqui en la defensa de su existencia y de su territorio, misma que en los últimos 38 días se ha manifestado en el establecimiento de un campamento en resistencia en torno a la Carretera Internacional en Vicam, Primera Cabecera de la Tribu Yaqui, ante el robo del agua que el mal gobierno pretende concretar a través del Acueducto Independencia, a pesar de haber recorrido los caminos legales necesarios, en los que han obtenido triunfos que el propio gobierno no ha respetado. Su lucha, compañeros es nuestra también, pues, al igual que ustedes, mantenemos la certeza de que la tierra es nuestra madre y el agua que corre por sus venas no se vende, pues de ella depende la vida que es un derecho y que no nos ha sido dado por los malos gobierno ni por los empresarios.

Exigimos la cancelación inmediata de las órdenes de aprehensión y de la fabricación de delitos en contra de integrantes de la Tribu Yaqui y condenamos la criminalización de su lucha, diciendo a los malos gobiernos emanados de los partidos políticos que el río Yaqui ha sido históricamente el portador de la continuidad ancestral de la cultura y territorio de la Tribu Yaqui y los que conformamos el Congreso Nacional Indígena, reiteramos que si nos tocan a unos nos tocan a todos, por lo que responderemos en consecuencia ante cualquier intento de reprimir esta digna lucha o cualquier otra lucha.

Finalmente, hacemos un llamado a la comunidad internacional y a los hermanos y hermanas de la Sexta Internacional a permanecer  atentos a los acontecimientos que se presenten en lo futuro en el territorio de la tribu Yaqui, sumándose a la solidaridad con la Tribu y a sus exigencias.

 

Atentamente

A 7 de julio de 2013

Desde el Caracol Zapatista número II- Resistencia y Rebeldía por la Humanidad, de Oventic, Chiapas

Nunca más un México sin nosotros

Comité Clandestino Revolucionario Indígena- Comandancia General del EZLN

Congreso Nacional Indígena

Publicado el 08 de julio de 2013

A explosão do ódio (Carta Capital)

Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano

Por Márcio Sampaio de Castro — publicado 06/07/2013 06:47, última modificação 06/07/2013 06:54
NeonazistaNeonazista em manifestação na Alemanha. Wikimedia Commons.

Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.

A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.

Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.

Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?

Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.

CC: Quais as alternativas para isso?

AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.

CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?

AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.

CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?

Adriana Dias: A partir de uma disciplina que cursei na Unicamp, em 2002, na graduação, onde se discutia a negação do holocausto, tive a ideia de fazer um trabalho para conhecer um pouco os grupos neonazistas brasileiros. Como sou programadora, criei uma aranha de busca e percebi que estava entrando em um mundo muito grande. No início, eram apenas 7500 sites, em 2009 já eram mais de 20 mil. Existem também os blogs, que cresceram 450% nesse período, e as redes sociais.

CC: Quais as características desses sites?

AD: São compostos por páginas profundas, com diretórios dentro de diretórios. Nos diretórios mais profundos encontramos incentivos ao genocídio e assassinatos. Muitos deles são de origem norte-americana. Fazem apologia ao número 88, já que o H é a oitava letra do alfabeto e duplicado faz referência ao Heil Hitler. Uma frase muito comum de ser encontrada é o “nós devemos assegurar um futuro para as crianças brancas”, o slogan de 14 palavras inspirado em uma passagem do Mein Kampf, livro escrito por Hitler. Da combinação desses dois números, temos o 14/88, que é uma saudação. Muitos membros nos fóruns de internet se utilizam desses números como nicknames associados a nomes nórdicos. Coisas como Odin88 ou Thor 14/88.

CC: Por que esta forte influência dos sites norte-americanos?

AD: Eu fiz a minha pesquisa em inglês, espanhol e português. Os grandes pensadores do movimento estão nos EUA e um dos principais deles foi o David Lane, que morreu na prisão em 2007. O movimento surge muito forte lá por que a questão racial é muito dura entre eles. Esse lado mais duro permite a expansão desses pensamentos, ao lado do conceito de liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, esses sites são legais. É um discurso público e consequentemente é mais fácil de reproduzi-lo. Só que para mim, a liberdade de expressão se interrompe quando chega à dignidade humana. Representar outro ser humano como animal ou como um demônio está muito além da liberdade de expressão.

CC: A ligação com movimentos estrangeiros tem crescido?

AD: Já houve casos de grupos brasileiros serem rejeitados por serem sul-americanos, mas nos últimos tempos esta visão tem mudado e o ideário da raça branca tem aproximado esses grupos ao redor do mundo.

CC: O jornalista espanhol Antonio Salas, autor de O Diário de Um Skinhead, se infiltrou em grupos neonazistas. A senhora chegou perto de ter alguma experiência deste tipo?

AD: Antonio Salas produziu um trabalho heroico, se fazendo passar por um neonazista para conhecer estes grupos a fundo. Atualmente, ele tem que se manter oculto, pois é ameaçado de morte em 16 países. Eu pesquiso os sites e fóruns. Conheço perto de 500 desses fóruns e muitos funcionam como páginas de relacionamentos, mas os mais representativos chegam a um número de 12. Eles se dividem por temáticas, como o Fórum Verde, sobre ecologia, o Solar General, sobre religiosidade e o Movimento Cristão Identitário, que é protestante radical de direita e que tem a plataforma de criar um estado branco dentro dos EUA.

CC: Em sua pesquisa, o que mais chamou a atenção?

AD: A quantidade de ódio, a idolatria ao ódio. A ideia de achar que ele estrutura a personalidade. Eu, que tenho uma formação humanista, posso dizer que fiquei chocada com isso. Outro aspecto é a crença na noção de sangue que ultrapassaria a substancialidade. Ou seja, o sangue não seria material, estaria na alma. Isto explica por que entre eles a nação, tal qual nós a concebemos, não existe. O que existe é a nação racial. Por isto, é preciso destruir os movimentos populares, que estão associados a outra concepção de nação. Por fim, me chamou a atenção a facilidade para encontrar inimigos. Eu, como antropóloga, não acredito em raças, somente na raça humana, mas para eles, o casamento chamado de inter-racial, por exemplo, é considerado um genocídio.

CC: E no Brasil?

AD: No Brasil, existe o discurso separatista, que traz elementos complicadores.

CC: Como assim?

AD: Cada um quer uma coisa. Veja o caso do (Ricardo) Barollo, que mandou matar o (Bernardo) Dayrell, em 2009, no Paraná. Eles estavam lutando pela liderança do movimento no país, mas o que cada grupo defende a seu modo é a separação de São Paulo ou dos estados do sul do restante do Brasil. Nessas explosões de ódio, que mencionei há pouco, é exigido que eles ataquem os inimigos. Aliás, um dos critérios para aceitar um novo membro é que ele cometa uma violência contra um inimigo. Os grupos neonazistas têm matado e agredido gays em São Paulo, na região da rua Augusta, e ninguém fala nada. A polícia não faz nada. Já conversei com policiais que não consideram crime um indivíduo portar uma suástica bordada na blusa.

CC: Somente os gays?

AD: Não. Atacam bolivianos, negros, gays, nordestinos, judeus e depois relatam nos fóruns. Eles são organizados. Possuem inclusive estratégias de defesa. Muitos, quando são pegos, alegam loucura. São estratégias previamente montadas e as autoridades, por sua vez, não dão importância.

CC: Isto seria em função da cultura brasileira de deixar as coisas acontecerem para depois tomar uma atitude?

AD: Não, não acho. Acontece que no Brasil as minorias não têm importância e é por isso que ninguém faz nada.

Protestos apressam votação da lei de crimes de terrorismo no Brasil (Sul 21)

26/jun/2013, 9h44min

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Rachel Duarte

Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado poderá ser enquadrado como terrorismo no Brasil. Está prevista para esta quinta-feira (27) a votação do projeto de lei 728/2011 que tipifica o crime de terrorismo, ainda não regulamentado no país. O texto será colocado em pauta em pleno contexto de sucessivos protestos nos estados brasileiro que estão sendo respondidos de forma repressiva pelo braço armado do estado. O motivo da urgência na aprovação, segundo a Comissão Mista que discute o tema no Congresso Nacional é a proximidade da Copa do Mundo de 2014. Especialistas avaliam como temerária a proposta, uma vez que aponta para os problemas da segurança urbana soluções com base na Lei de Segurança Nacional. “Isto é retroceder ao estado de exceção”, critica o professor da Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), Eduardo Pazinato.

A Constituição Federal prevê o crime de terrorismo, mas não estabelece pena nem tipifica as ações. Apenas a Lei de Segurança Nacional, editada na década de 1980, menciona o terrorismo, mas ainda com redação feita durante o regime militar. Porém, a minuta do texto em iminente aprovação no Congresso tem referência no texto da reforma do Código Penal e outros 43 projetos de lei, além de nove tratados, protocolos e convenções internacionais. Os crimes de terrorismo serão imprescritíveis, com pena cumprida em regime fechado, sem benefício de progressão e devem variar de 24 a 30 anos de cadeia.

Será considerado terrorismo ainda as ações que provoquem pânico generalizado praticadas por motivos ideológicos, políticos, religiosos e de preconceito racial, o que abre brecha para classificar como terroristas integrantes de movimentos sociais que cometerem crimes durante protestos públicos, acredita o coordenador do Núcleo de Segurança Cidadã da FADISMA, Eduardo Pazinato. “Este texto acompanha a tendência internacional de lei e ordem que propõem mais leis penais para resolver problemas contemporâneos. Por meio do discurso da pacificação, se aumenta a criminalização das pessoas e os encarceramentos. Utilizar o paradigma da segurança nacional para regular a segurança urbana proporcionará a criminalização dos movimentos sociais, uma vez que parte de um movimento de massa poderá ser entendida como terrorismo”, explica.

Ou seja, se a nova lei já estivesse em vigor, os manifestantes que invadiram as ruas do país nos últimos dias contra o aumento da passagem e a postura repressiva da polícia militar poderiam ser enquadrados como terroristas em razão de algumas práticas excessivas. “Isto é temerário nesta conjuntura de grandes eventos no país, em que inúmeras reivindicações populares surgem nas ruas. Está se preconizando mais uma vez um novo tipo penal para aumentar penas e reduzir direitos de minorias que serão enquadradas como praticantes de delitos, ao invés de buscar resposta para as cobranças da sociedade que não sejam por meio da criminalização”, avalia Pazinato.

“Repressão é resposta política dos governos contra a mobilização social”, critica ativista gaúcho

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Para o ativista em Software Livre, Marcelo Branco, que esteve nos diversos manifestos realizados em Porto Alegre no último período, “o 1% que faz quebra-quebra nos protestos são pessoas marginalizadas pelo próprio estado e que cansaram de cobrar nas manifestações’. De toda forma, ele reconhece que tais práticas não podem ser toleradas pelas autoridades, porém ressalta que responder com mais autoritarismo é a pior escolha do estado. “A violência policial em relação aos protestos que estão acontecendo em Porto Alegre e em todo o país não se justifica. Mesmo se concordamos ou não com a razão dos protestos, reivindicar pacificamente nas ruas é algo legítimo. A luta popular já deixou de ser em relação ao preço das passagens, é para cobrar a resposta dos governos a esta brutal repressão que se ergueu no país”, fala.

Segundo o ex-coordenador da campanha da presidenta Dilma Rousseff na internet, as redes sociais possibilitaram uma nova organização social das lutas no mundo, que não pode ser controlada pelo estado. E esta, seria a principal razão de uma reação tão extrema por parte das autoridades. “Eles não tem líderes definidos, porque a organização é horizontal na rede, então, agem de forma generalizada com bombas, gás e balas de borracha contra civis desarmados”, qualifica Branco.

Na visão do especialista em segurança pública Eduardo Pazinato, os chamados ‘novíssimos movimentos sociais’, organizados pela internet, não tem a mínima semelhança com práticas terroristas para se justificar uma legislação neste sentido no país. “O terrorismo é uma ação coletiva por um propósito de conjuntura onde se aplica a violência de forma deliberada. Não é o que estes movimentos pretendem. A dinâmica deles é uma luta democrática que não pode ser encarada com endurecimento penal máximo. Isto é uma atitude populista do governo que busca atingir o senso comum demonstrando ‘eficiência do estado’ para enfrentar a questão da violência. Isto é o que está declarado nesta votação em meio aos protestos. O que é equivocado, pois não há direito à segurança sem a garantia da segurança a outros direitos fundamentais”, salienta.

“Intenção nunca foi criminalizar os movimentos sociais”, diz deputado Vaccarezza

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

O presidente da comissão de consolidação de leis e de dispositivos constitucionais, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que a intenção da proposta não é e nem nunca foi criminalizar movimentos sociais. “Nossa Constituição é genérica neste ponto e precisamos deixá-la clara justamente para evitar que juízes possam interpretar que ações de massa são terrorismo, especialmente agora que teremos grandes eventos, pessoas de vários lugares do mundo. É preciso regulamentar”, defende.

Segundo Vaccarezza, a comissão mista para regulamentação das leis nacionais ainda está debatendo a matéria e aceita sugestões pela internet. “No site do Senado está a minuta do projeto e queremos a contribuição de todos. Estamos falando com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e vamos falar com o ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) e com o Supremo Tribunal Federal (STF)”, fala.

No dia 18 de junho, o deputado esteve reunido com o relator do texto no Senado Federal, senador Romero Jucá (PMDB-RR). A intenção da comissão é votar o texto nesta semana. “Se não for possível, aguardaremos e reapresentamos mais tarde”, garante Vacarezza.

Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias (IPS/Envolverde)

Inter Press Service – Reportagens
25/6/2013 – 09h51

por Fabíola Ortiz, da IPS

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Concentração na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em um dos muitos protestos pacíficos no Brasil. Foto: Fabíola Ortiz/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2013 – Matheus Mendes Costa, universitário, 21 anos, passou 13 horas detido em uma cela com não mais que três metros quadrados, em uma delegacia da cidade do Rio de Janeiro. Ele foi preso sob a acusação de agressão a policiais e destruição de instalações públicas. Costa, estudante de economia foi detido na madrugada do dia 18, durante uma das numerosas manifestações que paralisaram centenas de cidades pelo Brasil, dentro dos protestos detonados pelo movimento contra o aumento no preço do transporte público em algumas cidades e que, depois, passaram a exigir direitos sociais e políticos. Costa foi preso quando participava pacificamente, assegurou, ao lado de seu pai na manifestação que naquela noite tomou as ruas da cidade.

A dura e nada seletiva repressão policial é vista pelos analistas como um dos elementos que mais contribuíram para avivar a onda de protestos que sacodem o Brasil. A própria presidente Dilma Rousseff pediu contenção às forças da ordem em seu discurso ao país na noite do dia 21, destacando que a população tem o direito de protestar e garantiu que as desordens são provocadas por uma minoria de infiltrados. Além disso, ontem, Dilma se reuniu com o Movimento Passe Livre, e horas depois com os governadores dos 27 Estados e os prefeitos das maiores cidades. Nos dois encontros, a mudança da atuação policial estava na agenda.

“Estava com a mochila da faculdade e não imaginei que poderia me acontecer alguma coisa. O policial me agarrou pela mochila e arrancou o cartaz que eu carregava”, contou o jovem à IPS. O rapaz foi levado a um destacamento do Batalhão de Choque da Polícia Militar em um grupo de dez pessoas, na maioria estudantes e, inclusive, um sem-teto. “Nenhum de nós tinha perfil de vândalo. Um policial nos aterrorizou dizendo que lançaria uma bomba de gás lacrimogêneo contra nós. Os policiais que me pegaram não tinham identificação”, acrescentou o jovem.

Para serem liberados, Costa e os demais detidos tiveram que pagar fianças altíssimas. O estudante disse que não foi observado nenhum critério nos valores estabelecidos. “Éramos dez em uma cela pequena e nem todos puderam avisar suas famílias. Os policiais nos submeteram a diferentes humilhações. Até o mendigo, para ser libertado, precisou pagar uma fiança, a maior de todas, e tivemos que nos cotizar para ajudá-lo”, ressaltou Costa.

Analistas políticos e ativistas de direitos humanos coincidem em indicar que nas manifestações houve repressão policial indiscriminada junto com desordens e vandalismos cometidos majoritariamente por grupos infiltrados, responsáveis por saques de dependências públicas e lojas, que ofuscaram o objetivo pacífico das manifestações. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou que, somente no Rio de Janeiro, foram detidos arbitrariamente, até o dia 21, cerca de 60 manifestantes que ficaram presos em meio a batalhas entre forças policias e grupos de vândalos.

“Fiquei angustiado porque a polícia não fez seu trabalho de deter os violentos, mas se dedicou a deter inocentes com falsas acusações. Tive que pagar a fiança sem que me deixassem demonstrar que não havia feito nada agressivo”, criticou Costa, que deve enfrentar um julgamento por participação em grupo para delinquir.

O que aconteceu com Jorge Luiz de Jesus, de 18 anos, foi pior. Ele passou uma semana preso e esteve parte do tempo na rigorosa prisão de Bangu, onde compartilhou a cela com traficantes, assaltantes e violadores. Depois foi transferido para outra prisão, misturado com outros cem detentos. Sua prisão se agravou porque a polícia o acusou de carregar uma mochila com uma granada. “Expliquei que aquela mochila não era minha, e então o policial lançou um aerossol no meu rosto e disse ‘agora é sua’. A acusação foi forjada”, denunciou Jesus à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Essa comissão está recolhendo dezenas de casos de detenção arbitrária durante as manifestações na cidade. O Ministério Público estadual iniciou uma investigação sobre os denunciados abusos policiais e militares, principalmente por parte do Batalhão de Choque. Para evitar que os manifestantes sejam confundidos com gente violenta e detidos por vandalismo, a OAB do Rio de Janeiro mobilizou 70 advogados que percorrem as ruas, delegacias e hospitais da cidade para prestar assistência legal.

O presidente da OAB/RJ, Felipe Santa Cruz, destacou à IPS a presença de grupos fascistas infiltrados nos protestos e criticou a falta de preparo das forças de segurança para proteger os manifestantes de grupos que vão às manifestações para criar violência. “A polícia não tem um histórico repressivo, mas está militarizada e sua conduta é de enfrentamento. Isso facilitou a atuação de grupos neonazistas infiltrados, que atacaram com suas barras de ferro desde o começo das manifestações. A polícia deve garantir o direito ao protesto, mas acabou atacando os manifestantes”, afirmou Santa Cruz.

A falta de preparo das forças de segurança é alvo de inúmeras críticas. O pai do jovem Costa, um ativista pelos direitos humanos que preside a organização não governamental  Rio Paz, qualificou a desordenada atuação policial de “atentado à democracia”. Antônio Carlos Costa afirmou que “a polícia não tem preparo para atuar com a população em condições normais, quanto mais em situações de grandes protestos. O movimento foi espontâneo, ganhou o povo e as pessoas foram às ruas pelas razões mais nobres”.

As demandas se centram em pedir a reforma do Brasil, disse Antônio Carlos, para quem o movimento popular se caracteriza por seu caráter reformista e não por pretender subverter a ordem, mas gerar “uma limpeza moral” da maior democracia latino-americana. Este ativista considera que, por isso, é um erro o poder público ver e apresentar suas ações como agressivas e de caráter terrorista.

O que levou a população às ruas, segundo o presidente da Rio Paz, foi uma revolta contra os multimilionários gastos na construção e remodelação dos estádios de futebol para a Copa do Mundo no ano que vem, com seu preâmbulo da atual Copa das Confederações. A Copa das Confederações começou no dia 15, paralelamente ao início dos protestos, e terminará no dia 30.

Entre 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro também receberá a Jornada Mundial da Juventude, da qual participará o papa Francisco, e em 2016 será sede dos Jogos Olímpicos. “As autoridades subestimaram a conscientização da população”, opinou o ativista Costa. “Houve muita vontade política e muito gasto de dinheiro público para fazer as construções pedidas pela Fifa, enquanto há dívidas sem pagar em nossas escolas e nossos hospitais. A rua gritou, e é preciso ouvir esse grito”, enfatizou Antônio Carlos Costa. Envolverde/IPS

Outono Indigena. Entrevista especial com Jorge Eremites de Oliveira (Envolverde)

17/6/2013 – 07h29

por Redação do IHU On-Line

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Foto: racismoambiental.net.br

“O governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do desenvolvimento econômico a qualquer custo e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras”, diz o historiador.

“A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Ao citar o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, o historiador Jorge Eremites de Oliveira lembra que “este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses”.

Ao comentar os conflitos entre indígenas e ruralistas e as frequentes manifestações em todo o país, ele assegura que “na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da OIT”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, aponta ainda que a “política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes”. E dispara: “A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais”.

Jorge Eremites de Oliveira é professor de Antropologia Social e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. É licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, mestre e doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Foi pesquisador colaborador junto ao Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos e trabalhou como professor universitário em Mato Grosso do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nos últimos anos, indígenas de várias regiões do país manifestam sua indignação com a política indigenista e com o modelo desenvolvimentista do governo federal. Trata-se de uma crise específica, conjuntural, ou não? Como descreve tais manifestações?

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Foto: http://www.diarioliberdade.org

Jorge Eremites de Oliveira – O atual modelo desenvolvimentista adotado pelo governo brasileiro é baseado no paradigma do crescimento econômico a qualquer custo e isso, obviamente, tem reflexos negativos na política indigenista oficial. Trata-se de um modelo que sistematicamente viola os direitos elementares dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de classes sociais em situação de vulnerabilidade. O resultado disso é a existência de crises estruturais, com particularidades em cada região do país, dependendo da conjuntura local. Daí compreender a grande insatisfação e indignação dos povos indígenas para com o governo central e seus aliados, seja por conta da construção de hidrelétricas, seja por conta da não regularização de terras de ocupação tradicional ou outro motivo.

Conflitos no MS

O que estamos observando em Mato Grosso do Sul, onde há a segunda maior população indígena no país, assim como em outros estados, é uma espécie de Outono Indígena, em alusão à Primavera Árabe iniciada em fins de 2010. Refiro-me a um levante dos povos originários em defesa de seus direitos, sobretudo do direito às terras de ocupação tradicional. Assim o fazem como último recurso para garantir sua existência física e cultural, haja vista que não abandonaram seus territórios por livre e espontânea vontade, pelo contrário. Foram e têm sido vítimas de violentos processos de esbulho, não raramente com o uso da força e o assassinato de muitas de suas lideranças.

Na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, adotada em Genebra em 1989, da qual o Brasil é signatário e a ratificou internamente.

Demarcação de terras

Eis o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Lei Maior: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses. As consequências disso têm sido nefastas para muitos povos originários e afronta os artigos 231 e 232 da Carta Constitucional. Não é por menos que a bancada ruralista e seus aliados no Congresso Nacional querem mudar o texto constitucional com a PEC 215/2000, motivo de recentes protestos feitos naquela casa pelo movimento indígena. Se isso vier a acontecer, será um grande retrocesso.

No caso dos Terena de Buriti, e de tantas outras comunidades indígenas, quero explicar que eles tinham a posse da terra, mas não tinham o título de propriedade. A titulação da terra a favor de terceiros ocorreu em períodos mais recentes de nossa história, nos quais apenas as elites políticas e econômicas tinham seus direitos assegurados pelo Estado. Mas eram exatamente elas, claro, que controlavam a máquina estatal, inclusive, por exemplo, o departamento de terras do governo de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. De lá saíram muitos títulos de propriedade sobre terras indígenas não regularizadas, tidas como terras devolutas, localizadas no antigo sul do estado, atual Mato Grosso do Sul.

A expulsão das comunidades indígenas não se deu unicamente pela ação de fazendeiros e seus comandados. Esbulhos também foram perpetrados com a conivência e o apoio de agentes do próprio Estado, inclusive da agência indigenista oficial, conforme comprovado em muitos documentos disponíveis em seus arquivos. Na maioria das vezes, autoridades governamentais tomaram ciência do ocorrido e nada fizeram para intervir nos conflitos. Este é o caso do que ocorreu com os Kaiowá de Panambizinho, no município sul-mato-grossense de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), quando houve a Marcha para Oeste e a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados.

Situação semelhante também aconteceu com os Kaiowá de Ñande Ru Marangatu, no município de Antônio João, no mesmo estado, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Eles também foram expulsos de grande parte de seu território entre fins da década de 1940 e começo da de 1950, sendo que o órgão indigenista oficial recebeu denúncia formal sobre o ocorrido e nada vez para apurar os fatos e reverter a situação.

Por razões dessa natureza é que o Estado brasileiro culmina por ser coautor de muitos crimes cometidos no passado e no presente contra os povos originários. E não me refiro, bem entendido, aos tempos de Cabral ou dos portugueses que o sucederam no período colonial. Definitivamente não é isso. Refiro-me, principalmente, a processos de esbulho ocorridos a partir da primeira metade século XX, mas que ainda hoje são praticados no país. Esta questão precisa ficar cristalina porque o direito não foi feito para atender a demandas de povos abstratos e relegados a temporalidades coloniais ou pré-coloniais. Existe para atender a necessidades das sociedades contemporâneas, de seres humanos reais, de carne e osso, dentre os quais estão aqueles cujos antepassados chegaram a essas terras há pelo menos 12 mil anos.

Terra indígena de Buriti

Esta situação é muitíssimo bem conhecida para Mato Grosso do Sul e outros estados. Foi ali, precisamente no município de Sidrolândia, no dia 30-05- 2013, que o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi assassinado. Ele portava um pequeno arco e algumas flechas, e isso era mais um sinal diacrítico de sua indianidade e disposição de lutar pela terra do que uma arma. Por outro lado, policiais federais portavam armas de fogo com munição letal e as usaram contra os Terena. Os agentes estavam ali para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse, referente a uma propriedade existente dentro da Terra Indígena Buriti, já identificada, delimitada e periciada como tal.

A tragédia ocorreu porque os Terena resolveram fazer o que o próprio Estado não fez desde a década de 1920: regularizar aquela terra e garantir que seja de usufruto exclusivo e permanente da comunidade, segundo seus usos, costumes e tradições. Ocorre que no começo da década de 1930 uma comissão terena foi ao Rio de Janeiro, então a capital federal, denunciar o processo de esbulho que sofriam e solicitar providências para a garantia de seus direitos territoriais. De lá para cá já se passaram quase um século e nada foi feito de efetivo. Não é de se estranhar, portanto, que tenham decidido, como último recurso, retomar parte de suas terras devido à situação de vulnerabilidade dos cerca de 2.500 indígenas que ali vivem confinados em 2.090 hectares.

Até agora foram mais de duas centenas de lideranças indígenas mortas apenas em Mato Grosso do Sul. Muitos crimes não foram devidamente investigados, tampouco houve o julgamento e a condenação dos assassinos e seus mandantes. O que aconteceu em Sidrolândia com Oziel Gabriel foi, portanto, o mesmo que aconteceu no estado com Marçal de Souza, Guarani morto em 1983 na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, e com Marcos Verón, Kaiowá assassinado em 2003 na Terra Indígena Takuara. Naquela parte do Brasil, e em tantas outras, os índios são vistos e tratados pela maioria da população regional como estrangeiros não humanos e, por extensão, como um estorvo e um obstáculo ao progresso. A lei que ali impera ainda é, como aprendemos a dizer desde criança, a do 44, chamada “Justiça de Mato Grosso” (do Sul e do Norte). Não se trata de lei alguma, senão do calibre da arma de fogo com que se fazia justiça desde muito tempo na região, segundo é conhecido na historiografia regional. A violência é, com efeito, uma marca fortíssima na história de Mato Grosso do Sul.

Desenvolvimentismo

No que se refere ainda ao modelo desenvolvimentista atual, cumpre explicar que ele (re) surgiu após o fim da ditadura militar (1964-1985) e a promulgação da Constituição Federal de 1988. Saíamos de um regime de exceção, também marcado pelo fracasso do “milagre econômico brasileiro”, e testemunhávamos o reordenamento do papel do Estado nacional e as tentativas de retomada do crescimento do país. Isso ocorreu e tem ocorrido dentro de um contexto maior, ligado à mundialização do capital. Nesse cenário ocorrem concomitantemente o deslocamento de investimentos e atividades produtivas e a polarização da riqueza, conforme apontado pelo economista francês François Chesnais.

Por isso a maior parte da riqueza fica para países localizados no hemisfério Norte, onde o consumismo é enorme e precisa ser atendido, ao passo que para países do hemisfério Sul há a transferência dos impactos negativos desses investimentos e atividades produtivas. Nesta parte meridional do planeta, onde vivemos, estão países com jovens democracias, economias em crescimento e uma história marcada por ditaduras e políticas colonialistas, como é o caso do Brasil. É exatamente aqui onde existem classes sociais e minorias étnicas em situação de maior vulnerabilidade as que mais sofrem com tudo isso.

Esta situação é percebida no caso da construção de usinas hidrelétricas como a de Belo Monte, cuja existência é justificada pelo sofisma do desenvolvimento sustentável. Nesse caso específico, o que se viu até agora foi um conjunto de procedimentos irregulares ligados ao licenciamento ambiental de uma grande usina hidrelétrica. Exemplo disso é o fato de as comunidades indígenas afetadas direta e indiretamente pelo empreendimento não terem sido prévia e devidamente consultadas sobre o projeto. Essa é uma exigência legal, conforme determina a Convenção n. 169 da OIT. O paradoxal disso tudo é saber que este projeto foi concebido durante a ditadura militar e tem sido executado de maneira arbitrária e violadora de direitos humanos nos dias atuais.

Existem até projetos para construção de hidrelétricas no Pantanal, onde empreendimentos desse tipo causarão enormes e irreversíveis prejuízos socioambientais, tanto à bio quanto à sociodiversidade da região.

Para finalizar esta não muito curta explicação inicial, diria que para barrar o Outono Indígena será preciso cometer mais violência contra os indígenas. Mas representantes do movimento ruralista têm demonstrado disposição e ousadia para isso, inclusive com a possibilidade de contrabando de armas de fogo do Paraguai, conforme um fazendeiro de Paranhos, Mato Grosso do Sul, disse à imprensa em 2012. E foi no mesmo município que mais recentemente, no dia 12-05-2013, pistoleiros teriam feito emboscada e assassinado Celso Rodrigues, 42 anos, Kaiowá morador da Terra Indígena Paraguaçu, segundo noticiado pela imprensa.

Resolver esta situação conflituosa, assegurando aos povos indígenas seus direitos territoriais e outros garantidos em lei, é um dever do Estado e da sociedade nacional. Isso é necessário para corrigir erros do passado e consolidar um outro projeto de nação, onde também haja o devido respeito às diferenças étnico-raciais, religiosas, de gênero, orientação sexual etc. Ademais, o custo financeiro disso tudo será muitíssimo menor se comparado com a estimativa de 50,8 a 84,5 bilhões de reais correspondentes ao preço anual da corrupção no país. Isso sem falar no alto custo do legislativo brasileiro, um dos mais caros e menos eficientes do mundo.

IHU On-Line – Como a política indigenista foi construída e alterada ao longo da história brasileira?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, desde o período imperial até a promulgação da Constituição Federal de 1988, a política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes.

A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais. Parece não existir qualquer possibilidade de convivência com os Outros, os originários, senão acabando com eles ou deportando-os para algum lugar longínquo, lá no meio da Amazônia, distante da civilização e dos nossos olhares. É o que podemos concluir a partir das palavras de Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de direito e procurador do estado do Paraná: “O Estado e seu Direito não conseguem aceitar as diferenças sociais e as injustiças que elas engendram e, na maior parte das vezes, as omitem ou mascaram, ajudando sua perpetuação”. [1]

Entretanto, o fato é que a Constituição Federal de 1988 é um divisor de águas no reordenamento do papel do Estado em relação aos povos indígenas e a outros assuntos. Com o Capítulo VII (Dos Índios), Artigos 231 e 232, por exemplo, pôs-se fim ao paradigma integracionista que vigorava até então, embora ainda se faça presente em sentenças proferidas na Justiça Federal. Por esse motivo, julgo ser necessário citar o que diz o texto constitucional:

CAPÍTULO VII – “DOS ÍNDIOS”

Artigo 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

1. São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
2. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios, dos lagos nelas existentes.
3. O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivadas com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados das lavras, na forma de lei.
4. As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas são imprescritíveis.
5. É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso, garantindo em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
6. São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção do direito à indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
7. Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, 3 e 4.
8. Artigo 232 – Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo. [Destaques meus]

Embora a chamada Constituição Cidadã seja clara no que diz respeito a reconhecer as diferenças socioculturais e as terras das comunidades indígenas, torna-se contraditório qualquer ação unilateral do governo federal em querer integrá-las às economias regionais.

Por razões dessa natureza é que a Fundação Nacional do Índio – Funai é um dos piores e menos eficientes órgãos governamentais, pois sucessivos governos não deram a ela a devida atenção, exceto para ali colocar seus “afilhados” em cargos de confiança, desprestigiando funcionários de carreira. Isso explica o porquê da “questão indígena” nunca ter sido tratada como prioridades dentre as ações do Estado. Basta saber qual é o orçamento anual da Funai e entenderemos melhor o assunto.

IHU On-Line – Os dados acerca do território brasileiro destinado à ocupação indígena são controversos. É possível estimar que percentual das terras brasileiras é ocupado pelos indígenas e que percentual, por sua vez, deveria ser ocupado por eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Seria leviano de minha parte querer apresentar um percentual sobre o tamanho das terras indígenas no país, mas o fato é que a maior parte delas está na região amazônica. Conforme recentemente explicou o antropólogo João Pacheco de Oliveira, em entrevista concedida ao Estadão, naquela região há terras da União que não são destinadas apenas aos indígenas, mas também servem como áreas de preservação ambiental, algo que por si só é importante.

No caso de Mato Grosso do Sul, e de muitos outros estados, o que se vê é uma situação exatamente diferente. Ali há milhares de indígenas confinados em pequeníssimas reservas, como se fossem “ilhas” cercadas por fazendas e cidades, conforme avaliou o historiador Antonio Jacó Brand, falecido recentemente. Na Terra Indígena Dourados, por exemplo, onde há duas aldeias, Jaguapiru e Bororó, vivem por volta de 13.500 pessoas em pouco mais de 3.400 hectares.

Situações assim possibilitam entender melhor os conflitos pela posse da terra em certas regiões do país. Além disso, faz-se necessário deixar claro que não se podem ceifar direitos das comunidades indígenas que vivem em Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por exemplo, sob o pretexto de que “há muita terra para pouco índio” na Amazônia.

IHU On-Line – Há uma crítica recorrente de parte da sociedade de que os indígenas não precisam de tantas terras para viver. Qual a importância da terra para eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Mas aonde, afinal de contas, estariam tantas terras assim? Com certeza, faço questão de registrar amiúde que não seria em Mato Grosso do Sul. Diria mais: se não precisam de “tantas terras”, então o que muitos de nós desejariam é vê-los mortos? Aí, sim, talvez tivessem alguma terra, ao menos para serem enterrados. Talvez seja esta dedução a que podemos chegar diante de tanta contrainformação, preconceito e violência cometida contra os povos indígenas.

Portanto, não é de se estranhar que setores da imprensa sejam financiados com dinheiro dos cofres públicos e do agronegócio em certos estados brasileiros, especialmente onde os conflitos pela posse da terra são grandes e envolvem indígenas e ruralistas.

Para os povos indígenas a terra não é uma mera mercadoria e, por isso, não pode ser percebida pela lógica do agronegócio. Mesmo assim, não é verdade que nelas não se produz alimento algum. Na Terra Indígena Buriti, por exemplo, os Terena produzem alimentos em suas roças e quintais, criam diversos animais e fazem manejo agroflorestal, entre outras atividades produtivas.

Uma terra indígena pertence à União, e para os índios ela é de fundamental importância para sua reprodução física e cultural. Para sociedades como a dos Guarani e Kaiowá, a terra possui, ao mesmo tempo, um grande valor econômico e religioso, chegando a ser quase como um parente, conforme tem sido explicado pelo antropólogo kaiowá Tonico Benites. Sem ela não há como viver bem, segundo uma cosmologia particular, e para eles a luta pela terra também é a luta em defesa da família extensa, da qual a terra faz parte.

IHU On-Line – Como avalia a postura do Estado brasileiro em relação aos indígenas? Percebe uma tentativa de diálogo ou o governo cede a interesses econômicos?

Jorge Eremites de Oliveira – Em complementação ao que disse anteriormente, avalio que o governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do “desenvolvimento econômico a qualquer custo” e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras.

Nesta linha de raciocínio, diria que há poucas e tímidas tentativas de diálogo com o movimento indígena, haja vista que o governo tende a ceder a interesses econômicos pragmáticos e não a um planejamento estratégico de longo prazo, no qual os povos indígenas tenham seus direitos assegurados.

IHU On-Line – Quais foram os resultados da política de demarcações de terras indígenas e quais os desafios ainda presentes?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, temos avanços registrados após a promulgação da Constituição Federal de 1988, mas muito ainda precisa ser feito, especialmente em regiões onde o agronegócio é muito forte e o valor das terras, elevado. Este é o caso de Mato Grosso do Sul.

Ali um dos desafios colocados na pauta do dia diz respeito à indenização não apenas da benfeitoria, mas também da terra nua de propriedades que o Estado titulou a favor de terceiros. Isso garantirá a regularização mais rápida das terras indígenas, conforme tem sido apontado por lideranças do movimento ruralista e por indígenas. Como fazer sem mudar o Art. 231 da Lei Maior é que constituiu um desafio a ser enfrentando.

Após a regularização das terras indígenas, será necessário, aí sim, um conjunto de políticas públicas, concebidas para atender às particularidades de cada comunidade indígena visando, com isso, a construção de sua autonomia.

IHU On-Line – Entre as mudanças sugeridas recentemente pelo governo está a proposta, da ministra Gleisi Hoffmann, de que as demarcações das terras indígenas recebam pareceres da Embrapa. Como valia essa medida?

Jorge Eremites de Oliveira – Com o devido respeito, a referida ministra pouco ou nada conhece sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. Ela aderiu ao discurso e às propostas do movimento ruralista e isso sugere que tem a ver com suas pretensões de ganhar o governo do Paraná nas próximas eleições. Chega a ser um desserviço ao país e uma violência só conhecida nos tempos da ditadura militar. A Embrapa não tem competência formal para tratar do assunto, tampouco possui recursos humanos especializados para assim o fazer.

Salvo engano, a estratégia do governo federal, via Casa Civil, tem sido a de sistematicamente promover a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas, como se não houvesse clareza nesse processo. Neste último aspecto, vale registrar que, de um ponto de vista legal, a identificação e delimitação de terras indígenas tem que ser feito em observação ao Decreto n. 1.775 e à Portaria MJ n. 14, ambos de 1996. O primeiro “dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências”, e a segunda estabelece “regras sobre a elaboração do Relatório circunstanciado de identificação e delimitação de terras indígenas”.

Regularização de terras indígenas

Resumidamente, diria que no Brasil a regularização de terras indígenas passa por três processos, segundo alguns colegas já apontaram e escrevi em recente artigo: o político, o administrativo e o judicial.

O processo administrativo diz respeito à ação da Funai em constituir um Grupo Técnico (GT), sob a coordenação de um antropólogo, cujo estudo deve ser realizado em conformidade com o que determinam as leis citadas anteriormente. O resultado do estudo de identificação, quando aprovado técnica e politicamente pelo órgão, tem seu resumo circunstanciado publicado no Diário Oficial da União, o que garante a publicização dos atos.

O processo jurídico, por seu turno, está diretamente relacionado com o princípio do amplo direito de defesa, o qual assegura que as partes envolvidas no litígio (comunidades indígenas, fazendeiros, prefeituras etc.) apresentem, em caso de se sentirem prejudicadas, um contraditório ao estudo produzido pela agência indigenista oficial. Isso primeiramente deveria ser feito em um prazo de 90 dias e diretamente àquele órgão. No entanto, amiúde é feito em juízo e a partir daí é iniciado um processo judicial, no qual comumente os fazendeiros são autores e a União e Funai, rés. O mesmo princípio do contraditório, elementar para a garantia do Estado Democrático de Direito, garante a solicitação de outro estudo, independente do feito para a Funai. Trata-se de uma perícia judicial, solicitada pela Justiça Federal em atendimento às exigências do juízo ou ao pedido das partes. Durante a realização das perícias, as partes podem ter seus próprios experts, chamados de “assistentes técnicos”, os quais comumente atuam na elaboração de estudos (contralaudos) em defesa de quem os contratou.

O início e a conclusão do processo administrativo e, sobretudo, do processo judicial podem levar anos, às vezes décadas, sem que as comunidades consigam manter o usufruto exclusivo e a posse permanente das áreas reivindicadas, de onde normalmente foram expulsas em algum momento da história.

Por último, o processo político, em minha opinião o mais importante de todos, refere-se também às ações e estratégias políticas dos movimentos indígenas e seus eventuais aliados (ONGs indigenistas, Ministério Público Federal, pesquisadores, parlamentares etc.) para a completa regularização das terras de ocupação tradicional, inclusive nas instâncias do Judiciário.

Mas, enfim, o discurso oficial da Casa Civil é idêntico ao feito no regime militar para extinguir o antigo Serviço de Proteção ao Índio – SPI, em 1967, como se todo esse processo fosse algo desconhecido. E como disse o filósofo alemão Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. E é exatamente de uma farsa que estou falando.

IHU On-Line – Como avalia a declaração do secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, de, no futuro, a partir de uma mudança na legislação brasileira, ser possível a instalação de usinas hidrelétricas em terras indígenas, tendo como sócios do empreendimento os próprios índios, a exemplo do que já ocorre no Canadá?

Jorge Eremites de Oliveira – Esta é mais uma declaração que gera preocupação e insegurança jurídica aos povos indígenas, pois uma mudança na legislação brasileira, seguramente na Constituição Federal, será mais um retrocesso e uma forma de ceifar direitos conquistados recentemente.

IHU On-Line – Qual a melhor maneira de resolver os conflitos entre indígenas e não indígenas?

Jorge Eremites de Oliveira – Inexiste uma fórmula mágica para isso. Penso que tratar a “questão indígena” como uma das prioridades de Estado seria o primeiro passo. Se não for assim, os conflitos continuarão e, seguramente, mais vidas humanas serão ceifadas, em sua esmagadora maioria de indígenas. Quanto a isso não tenho dúvida alguma.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Jorge Eremites de Oliveira – Com a devida licença, registro aqui uma moção de apoio aos Terena e a outros povos indígenas no Brasil, aprovada pelo colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPel, onde trabalho.

MOÇÃO DE APOIO AOS TERENA DE BURITI E A TODOS OS POVOS INDÍGENAS QUE LUTAM POR SEUS DIREITOS TERRITORIAIS NO BRASIL

O colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, reunido no dia 7 de maio de 2012, considerando:

– que o Estado Brasileiro não cumpriu com o que determina o Art. 67 da Constituição Federal de 1988 [ADCT]: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Esta situação é conhecida para todo o território nacional e também explica o prolongamento e o acirramento de muitos conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses;

– que a política indigenista oficial tem sistematicamente violado os direitos dos povos indígenas, inclusive por meio do descumprimento de leis internacionais das quais o país é signatário. Este é o caso da Convenção nº 169 da OIT, de 1989, sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais, aprovada pelo Congresso Nacional em 2002 e promulgada pela Presidência da República em 2004. Exemplo disso é o que ocorreu durante o licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, quando os povos indígenas afetados pelo empreendimento não foram prévia e devidamente consultados sobre o projeto;

– que o Governo Federal, por meio da Casa Civil, tem sistematicamente promovido a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas. Esta postura é típica de regimes de exceção, gera insegurança jurídica aos povos indígenas e denota uma postura colonialista norteada pelos paradigmas da assimilação e do desenvolvimento econômico a qualquer custo, subordinando poderes constituídos na República a interesses do movimento ruralista e seus aliados;

– Que os estudos para a ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, localizada nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul, foram devidamente concluídos e publicados em 2001, constituindo-se em um ato administrativo perfeito. Além disso, respeitando o direito ao contraditório, a área foi objeto de perícia judicial que concluiu se tratar de terra de ocupação tradicional indígena, conforme estabelece o Art. 231 da Carta Constitucional;

– e que no dia 30 de maio de 2013 o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi morto por policiais enviados para a área de conflito para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse dentro da própria Terra Indígena Buriti. Naquele mesmo dia outros indígenas também foram feridos por policiais a servido do Estado Brasileiro. Posteriormente, no dia 04 de junho de 2013, o indígena Josiel Gabriel Alves, 34 anos, primo de Oziel Gabriel, foi baleado nas costas por pessoas identificadas pelos Terena como “pistoleiros” a serviço de fazendeiros da região, correndo o risco de ficar com sequelas neurológicas, vem a público manifestar seu apoio e solidariedade aos Terena da Terra Indígena Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil.

Nosso posicionamento se dá em defesa da vida humana, pela regularização das terras indígenas existentes no território nacional e em repúdio a qualquer tipo de violência cometida contra os povos e comunidades tradicionais no Brasil. Por este motivo, esperamos que a justiça haja com rigor na apuração dos crimes cometidos contra os Terena e defendemos o cumprimento dos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, bem como da Convenção 169 da OIT, sem os quais não é possível existir no país o Estado Democrático de Direito.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Cientistas sociais procuram modelo para onda de protestos no Brasil (Folha de S.Paulo)

23/06/2013 – 11h09

CASSIANO ELEK MACHADO
GRACILIANO ROCHA

Olhem para paris, diz Teresa Caldeira. Mas não a de Maio de 68: para a antropóloga brasileira radicada nos EUA, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, a análise das manifestações que tomaram o país na semana passada deve se pautar pelos distúrbios que eclodiram nas periferias francesas em 2005, quando cidades suburbanas na região metropolitana de Paris (“banlieues”) explodiram em uma onda de protestos sociais.

Especialista em antropologia urbana, Caldeira, 58, pesquisa a cultura da periferia, em especial a de São Paulo, e diz que se vários cientistas sociais se declararam surpresos, para ela não há novidade.

“Todos comparam com Istambul ou com a Primavera Árabe, mas deveriam olhar para o que houve em Paris há oito anos”, diz Caldeira. “Dá muito bem para entender o que está acontecendo e isso vem sendo articulado há muito tempo”, acredita a antropóloga, autora do livro “Cidade de Muro: Crime, Segregação e Cidadania” (Editora 34).

Ela lembra que o Movimento Passe Livre (MPL) existe há muitos anos e afirma que ele “articula todo o imaginário da produção cultural da periferia”.

“A Folha fez uma foto em 2010 de um grafite feito pelo MPL no Minhocão, em São Paulo, que dizia ‘A cidade só existe para quem pode se movimentar por ela’.”

Caldeira reproduziu a imagem em um artigo dela na revista “Public Culture” (Duke University Press, 2012) e a frase do grafite como uma ideia fundamental do movimento cultural da periferia. “Rap, literatura marginal, pixação, saraus, todos se fazem na base e rede e de circulação. E circular por São Paulo é um caos para quem não tem dinheiro.”

Opinião diferente tem o sociólogo francês Sebastian Roché. Em seu livro “Le Frisson de l’Émeute”, (Seuil, sem tradução no Brasil), ele afirma que as revoltas que inflamaram a França -cujo estopim foi a morte de dois adolescentes eletrocutados em uma perseguição policial- foram protagonizadas por jovens que se consideram vítimas da xenofobia por não terem a pele branca e, na maioria, filhos de imigrantes e muçulmanos.

“Os jovens muçulmanos, muito numerosos nas ‘banlieues’, não se sentem aceitos nem respeitados em suas crenças. Além disso, essa juventude foi abandonada à própria sorte. Nas ‘banlieues’, a taxa de desemprego oscila entre 25% e 40% entre jovens com menos de 25 anos”, frisa Roché.

Professor da celebrada Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos), da Universidade de Grenoble e pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Social), Roché diz ter acompanhado com atenção a onda de protestos no Brasil, e não vê “muitos pontos de comparação” entre o que aconteceu aqui e lá. Na França, diz ele, “não foram pobres destruindo o meio de vida de outros pobres”.

“A burguesia ou o governo não foram os alvos. Nenhum espaço do poder foi sitiado ou tomado. Ninguém se aproximou, por exemplo, do parlamento nem da sede do governo [como ocorreu no Brasil]. Aqui, os grupos operavam durante a noite, escondiam o rosto em capuzes e muitas vezes buscavam o confronto com a polícia. Não houve qualquer manifestação de massa, nenhum líder ou palavra de ordem emergiu.”

Teresa Caldeira, que no ano passado ganhou a prestigiosa bolsa Guggenheim de pesquisa, nos EUA, aponta outra foto dos movimentos recentes, que ela diz ter visto nas redes sociais, como icônica do que está acontecendo. Dois rapazes seguravam cartazes: um dizendo “O Brasil acordou” e outro “A periferia nunca dormiu”.

Também chamaram a atenção dela as faixas que faziam referências ao trabalho da polícia. “A PM está fazendo na Paulista o que faz todo dia na periferia”, dizia uma delas. “Há uma tensão de classes latente. E não me surpreende que os protestos tenham chegado agora na periferia”, diz ela, citando como exemplo as manifestações dos últimos dias em regiões como a estrada do M’Boi Mirim (na zona sul de São Paulo).

Ela aposta que, “tal como em Paris, em 2005, veremos agora a explosão da periferia”. Ainda que, segundo ela, a presença de classes A e B tenha tido importante papel na eclosão dos movimentos, os protestos veiculam uma insatisfação que vem sendo cozinhada nas periferias. “Uma coisa é de onde vem o caldo e a outra é a forma que a manifestação adquire. Na forma, parece um pouco com a Primavera Árabe: a maneira como circularam as informações e a insatisfação com as instituições políticas tradicionais”, diz.

“No conteúdo, é muito significativo que tenha estourado pelos R$ 0,20. Ninguém aguenta mais os ônibus da cidade. Conheço muita gente da periferia, devido às pesquisas, que todos os dias posta algo em mídias sociais contra o transporte público.”

Para o francês Roché, “a melhoria das condições de vida faz com que aqueles que se sentem excluídos se mobilizem coletivamente para reivindicar, como é o caso do Brasil”. “Na França, a questão é de exclusão social em um período de estagnação econômica, e a revolta de 2005 não gerou um modelo coletivo de massas e organizado. Não houve protesto contestador, mas sim apropriações individuais, como roubos e saques, ou então confrontos e destruição para exprimir a raiva. Nas ‘banlieues’, não houve reivindicação explícita.”

Ele afirma que, embora “revoltas possam ensinar muito aos governantes”, isso depende de eles “serem capazes de olhá-las de frente”. “Na França, nós não aprendemos muito. Em novembro de 2005, a França estava a um ano e meio das eleições presidenciais. O então ministro do Interior [Nicolas Sarkozy, presidente entre 2007-2012] viu naquilo uma oportunidade de reafirmar sua autoridade e estigmatizar as ‘banlieues’ e seus habitantes com vistas à eleição de 2007” -que ele terminaria vencendo. “Nenhuma análise política foi feita pelo Parlamento e menos ainda pelo ministério do Interior, proibido de refletir sobre sua atuação pelo próprio ministro.”

Para o sociólogo, as revoltas urbanas podem, ainda, exprimir um desejo de participação direta nas decisões públicas, no caso de países como Brasil e Turquia. “Nesses dois países, muitos jovens com acesso à educação apresentam reivindicações sobre o direito à diferença e que sejam levadas em conta suas demandas sociais pelo poder central desses países.”
O estudioso considera que “há progressos econômicos tanto no Brasil quanto na Turquia, e esses movimentos de contestação se dão em um contexto bem diferente do que ocorreu na França, cujo crescimento econômico tem sido mínimo ou nulo nos últimos anos”.

Para o sociólogo “o que está acontecendo no Brasil se parece mais com o Maio de 68”. “Naquela época a França vivia em pleno Les Trente Glorieuses [como ficaram conhecidas as três décadas de crescimento e prosperidade no pós-Guerra], e a juventude, com trabalho ou diplomas, mergulhou numa luta para que seu modo de vida e aspirações fossem reconhecidos pelo governo”, recorda.

Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios (FSP)

09/06/2013 – 02h26

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE

Roseli Ruiz tem diploma de antropóloga e faz perícias em terras em litígio. Sua filha, Luana, dirige a ONG Recovê -“conviver”, em guarani. Mas ambas estão entre os mais ferrenhos defensores dos proprietários rurais de Mato Grosso do Sul na disputa de terras com indígenas.

“Fui invadida em 1998 e, no ano seguinte, fui fazer direito para entender esse desmando. No decorrer do curso detectei que o que estava fundamentando não era a legislação, e sim um relatório antropológico”, explica Roseli, que fez uma pós-graduação na Universidade Sagrado Coração, em Bauru (SP).

A propriedade fica em Antônio João (a 280 km ao sul de Campo Grande), na fronteira com o Paraguai, e tem 10 mil hectares. Uma parte minoritária está tomada por famílias guaranis-caiovás.

Com o tempo, conta Roseli, ela passou a fazer relatórios antropológicos em vários Estados, como Mato Grosso e Paraná. Seu próximo trabalho será na área da Raposa Serra do Sol, em Roraima.

A fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtoresA fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtores. Marlene Bergamo – 7.jun.2013/Folhapress.

Ela afirma que, em todos os estudos, não encontrou nenhuma terra indígena. Ela admite que algumas áreas indígenas precisam ser ampliadas, mas via indenização justa, “e não confisco”.

“Não é assunto para demarcação quando os índios foram retirados para colonização. Não se pode fundamentar em 1500. Senão, o prédio da Folha tem de ser desapropriado e entregue pra índio”, afirmou.

A antropóloga-fazendeira afirma que tem um bom relacionamento com os índios. “Na minha fazenda, do lado do Paraguai, temos uma aldeia. E, desde que nós mudamos, há 32 anos, quem socorre os índios sou eu. Quando ocorria uma picada de cobra, eles vinham na fazenda solicitar que fossemos buscar.”

Ao seu lado, a advogada Luana disse que a criação da ONG foi a solução encontrada para “nos legitimar e participar das reuniões e descobrir o que está acontecendo”.

A entrevista ocorreu durante uma carreata realizada pelos produtores rurais anteontem. Em certo momento, uma amiga cumprimentou Roseli brincando: “Não vai virar a casaca, hein?”.

*   *   *

12/06/2013 – 04h00

Presidente de associação contesta reportagem sobre índios

CARMEN RIAL
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA
DE FLORIANÓPOLIS (SC)

Esclarecemos que a mulher [Roseli Ruiz] objeto da reportagem “Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios” não é filiada à ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e que, conforme seu currículo Lattes, teria feito um curso “lato sensu” em antropologia, o que não equivale a um “diploma de antropóloga”.

Importa esclarecer que relatórios e laudos antropológicos são peças técnicas distintas, elaboradas por profissionais com formação acadêmica reconhecida e conhecimento etnográfico sobre o grupo ou a circunstância enfocados, impossíveis de serem elaborados em tempo exíguo e por profissionais sem a formação necessária. Sua atuação é incompatível com o nosso Código de Ética.

Survival condemns Steven Pinker’s ‘Brutal Savage’ myth (Survival International)

12 June 2013

Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon.Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon. © Fiona Watson/Survival

Survival International has launched a vigorous rebuttal of Harvard ‘evolutionary psychologist’ Steven Pinker’s claim that tribal people are more violent than state societies.

In articles published this week in US journal Truthout, and the UK-based OpenDemocracy, Survival International’s Director Stephen Corry accuses Pinker – once named by Time magazine as one of the world’s 100 most influential people – of ‘claiming scientific support for what is mere opinion by falsely charging contemporary tribal peoples with more or less unremitting villainy.’

Corry writes, ‘Pinker’s baldly stated facts shake and buckle under cross-examination’. He accuses Pinker of: omitting facts which don’t fit his argument; getting many of his facts wrong; citing only those experts who agree with him; and ignoring the many others who don’t.

Starting with the first example in Pinker’s recent book ‘The Better Angels of Our Nature’ – the 5,200-year-old ‘Iceman’ named Ötzi – Corry reveals how Pinker’s suggestion that he was killed in a clash with another tribe is implausible. Corry goes on to expose countless other errors in Pinker’s supposedly ‘scientific’ argument, which has close parallels with the recent book ‘The World Until Yesterday’ by Jared Diamond.

Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia's armed forces.Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia’s armed forces. © Survival

‘The data presented by these authors [Steven Pinker and Jared Diamond] is at least contentious, where it’s not plain wrong. They go out of their way to portray tribes as ‘Brutal Savages’ … [For example], twenty percent of the data Pinker uses to categorize the violence of the entire planet’s tribal peoples (excluding ‘hunter-gatherers’) is derived from a single anthropologist, Napoleon Chagnon – whose data has been severely criticized for decades.’

Of Pinker’s principal declaration – that our ancestors (and today’s tribal peoples) were more violent than ‘civilized’ Western society – Corry concludes, ‘Pinker [believes] we are brutal savages until tamed by a nation state bringing peaceful civilization. As far as contemporary tribal peoples are concerned, it couldn’t be further from the truth: the arrival of the state unleashes a savagery second to none in its brutality.’

Read more about the myth of the ‘Brutal Savage’ and how some writers are pushing the view that tribal people are particularly violent.

Estudo mostra que cotas não são o melhor instrumento para facilitar o acesso ao ensino superior (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4741, de 06 de Junho de 2013.

Trabalho demonstra ainda que ações afirmativas podem encorajar a evasão e levar à redução da qualidade dos cursos mais competitivos

As cotas sociais ou raciais nas universidades não são o melhor instrumento para facilitar o acesso ao ensino superior, não garantem que os alunos cotistas tenham o desempenho esperado, além de encorajar a evasão e levar à redução da qualidade dos cursos mais competitivos. As conclusões são do estudo “Ações Afirmativas nas Universidades Brasileiras”, feito sob encomenda pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) e preparado por quatro especialistas na área de educação, os professores José Goldemberg, Eunice Durham, Maria Helena de Castro Guimarães e Simon Schwartzman.

O estudo foi apresentado hoje por José Eduardo Krieger e Regina Pekelmann Markus, presidente e diretora da Aciesp, respectivamente, e José Goldemberg, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação, em coletiva de imprensa no Centro Universitário Maria Antônia. Segundo Krieger, o estudo foi pedido porque há diversos aspectos que permeiam a questão do acesso dos alunos nas universidades públicas.

Uma das preocupações que o trabalho levantou é a formação educacional do cidadão até a entrada na universidade, que depende de diversas influências, como o ambiente familiar e a sociedade, além do Ensino Básico e Fundamental. Segundo o estudo, a educação no país requer uma reestruturação competente, que exigirá tempo e investimentos vultosos para que ela seja qualidade. “Este trabalho é importante porque nos traz dados que serão importantes para ampliar as discussões e tomadas de decisão”, afirmou Regina.

Para os autores do estudo, as cotas nas universidades introduzem um novo tipo de discriminação, como exemplo dos quais são a discriminação contra o branco pobre (em relação ao negro pobre) e contra o pobre (branco ou negro), cuja família economizou para mandar o filho à escola privada, para prepará-lo melhor para os vestibulares. “O critério ideal para a implantação de ações afirmativas deveria basear-se na renda per capita”, sugerem.

Eles reconhecem que a discriminação social ou racial no Brasil é real, mas não apenas no acesso às universidades públicas, e deve ser eliminada. “O problema é decidir como fazê-lo, sem prejudicar o desempenho das universidades públicas, cuja excelência é indispensável para o desenvolvimento do país”, escrevem nas suas conclusões. “A melhor solução a nosso ver é por meio de cursos preparatórios gratuitos para ingresso nas universidades, que utilizariam preferencialmente os alunos de pós-graduação como professores, e criando um sistema de bolsas de estudo para apoiar estudantes carentes.”

Para Krieger, enquanto isso não ocorre é preciso encontrar outras soluções para o problema, mesmo que paliativas para sanar as lacunas, sem prejudicar o que já está bom. “Em 30, 40 anos, sucateamos um sistema (de educação) que funcionava”, disse. “A educação de São Paulo já foi boa. Toda a minha formação foi feita em escola pública. E em tão pouco tempo tudo mudou. Hoje, eu não colocaria seu filho para estudar numa delas. A única coisa que não mudou foi a qualidade da USP.”

A professora Regina, salientou que é preciso que o governo faça investimentos, porque a universidade deve ser para todos. “Mas em que condições?”, indagou. “Por isso, é preciso dar condições para que todos tenham o mesmo acesso”. O ponto fundamental é a qualidade das universidades. “As decisões a serem implementadas não devem prejudicar o desempenho das universidades públicas, cuja excelência é indispensável para o desenvolvimento do país”, finalizou Goldemberg.

(Vivian Costa)

Fight Clubs: On Napoleon Chagnon (The Nation)

One anthropologist’s place in his field’s ongoing battle over questions of power, means and ends.

Peter C. Baker

May 15, 2013   |    This article appeared in the June 3, 2013 edition of The Nation.

In December 1919, Franz Boas, the German-born academic widely recognized as the father of American anthropology, published a letter in this magazine accusing four of his American colleagues—whom he did not identify—of having used their research positions as cover for engaging in espionage in Central America during the recently concluded war. Ten days later, the governing council of the American Anthropological Association voted 20 to 10 to censure Boas, claiming that his highly public letter was unjustified and in no way represented the AAA’s position. Boas was a founding member and former president of the association, so the censure was doubly humiliating; it essentially forced him to resign from both the AAA’s governing body and the National Research Council.

Noble Savages
My Life Among Two Dangerous Tribes—The Yanomamö and the Anthropologists.
By Napoleon A. Chagnon.

The Boas incident was the prelude to a century in which anthropology has been haunted by questions of means and ends. What sorts of alliances with power are worth it? What responsibilities (if any) do anthropologists have to the populations they study? Above all, to what extent has Western anthropology been fatally compromised by its associations—direct and indirect, public and covert—with a violent and imperial foreign policy? In several books, the anthropologist David Price has cataloged the substantial sums of money funneled from the military and intelligence community to academic anthropology over the years, as well as the contribution of American anthropologists to every significant war effort in modern US history. Most recently, ethnographers have joined the Army’s Human Terrain System program, designed to aid military operations in Iraq and Afghanistan by decoding the nuances of local culture. Price notes that although the revelation of these collaborations has often sparked heated short-term controversy, the disputes have passed without prompting broad, discipline-wide reform—or even conversation. After all, what anthropologist wants to spend time discrediting anthropology, a discipline that relies on trust, most importantly the trust of foreign governments and the subject populations that are the source of the discipline’s prized product of local knowledge? At what point are the ethical costs of doing anthropology too high, for ethnographers as well as the people they study?

That last question applies equally to anthropologists who may not work directly for the military or do fieldwork in areas explicitly labeled war zones. There is no better example than the career of Napoleon Chagnon, author of the bestselling anthropological text of the twentieth century, a slim volume called Yanomamö. Published in 1968, when Chagnon was 30, the book describes his fieldwork among the eponymous group of about 20,000 people who lived (and still live) in rainforest villages on both sides of the Venezuela-Brazil border. (Chagnon called them the Yanomamö, but most people who study the group call them the Yanomami.) Chagnon claimed—and now claims again in his recently published memoir, Noble Savages—that he arrived at his first Yanomami village in 1964 expecting to meet egalitarian natives living in harmony with nature and each other. This, he says, was what his University of Michigan anthropology professors had prepared him for. Instead, he found a way of life more reminiscent of Thomas Hobbes’s notion of the “state of nature”: an aggressive people mired in a cycle of inter-village combat, revenge begetting revenge and deception begetting deception. Death by murder was strikingly common, as was brutality toward women.

For Chagnon, the shock was immediate. No sooner had he and his guide arrived than they found themselves surrounded by “a dozen burly, naked, filthy, hideous men staring at us down the shafts of their drawn arrows! Immense wads of green tobacco were stuck between their lower teeth and lips making them look even more hideous, and strands of dark-green slime dripped or hung from their noses.” Whatever else might be said about this type of writing, with its blend of the lurid and the exotic, it appealed to American undergrads—or at least their professors assumed it did, and they kept assigning Yanomamö in Anthro 101. Before long, the book was in its second edition, then its third; a sixth came out last year. Chagnon has claimed, not unreasonably, that it has been read by as many as 4 million people, and it has certainly sold over 1 million copies. Unlike most other academic anthropologists, especially those writing in the 1960s, Chagnon brought lucidity and flair to his descriptions of fieldwork’s trials: the impossibility of staying clean and avoiding insects, the Sisyphean ordeal of trying to make a cup of oatmeal, the deep frustration of miscommunication, the loneliness. But it is obvious from reading Yanomamö that he also found the fieldwork to be a thrilling adventure. Trekking through the rainforest, a shotgun in one hand and a machete in the other; shooting tapir to roast over an open fire; building dugout canoes; forging friendships; tagging along for raids—Chagnon made cultural anthropology look more exciting than any textbook or tweedy professor’s lecture on kinship rituals. The book’s popularity has also benefited from the stylish films about the Yanomami that Chagnon made with the renowned visual ethnographer Timothy Asch.

In both the book and the films, there is a lot of fighting: chest-pounding matches, club fights, ax fights, raids, counter-raids, ambushes. Chagnon decided that Yanomami warfare was in large part about women, and specifically the question of who got to have sex with them. Women were regularly abducted from other villages during raids, and success in combat boosted a man’s social status, increasing his odds of securing wives for himself and his relatives. In order to reach this conclusion, Chagnon first constructed elaborate genealogies, tracing family trees across generations and far-flung villages to observe the relationship between blood ties and war patterns. This required not just learning the Yanomami language, but also overcoming his hosts’ frequent reluctance to supply the information he wanted. The most significant obstacle was a system of name taboos, including a prohibition against speaking a person’s name in that person’s presence and another against uttering the names of the dead.

The book was controversial from the start. Chagnon presented the Yanomami as a people living in the “state of nature,” untouched by the influence of modern civilization and nation-states, and so providing something of an undiluted example of humankind’s evolutionary ancestry. The possibility that these “primitive,” “Stone Age” people were killing each other not in competition over strategic resources, but specifically to improve their “reproductive fitness”—their odds of passing on their genes, either by reproducing themselves or by boosting the reproductive prospects of their relatives—was irresistible to proponents of the emerging field of sociobiology, which looks to natural selection to explain human social behaviors like altruism, the emergence of nation-states and war. The discipline’s recognition skyrocketed after the publication of E.O. Wilson’s influentialSociobiology: The New Synthesis in 1975; in subsequent editions of Yanomamö, Chagnon placed more emphasis on the role of biology in explanations of human behavior. For sociobiologists and their descendants, especially so-called evolutionary psychologists, such thinking was nothing short of a scientific revolution; for their detractors, among them cultural anthropologists, it was reductionist mumbo-jumbo at best, and politically dangerous at worst—the squeezing of the Yanomami and similar groups into categories crafted from Western assumptions to serve Western interests. The battles were heated and inseparable from competition over funding. The Yanomami became something of a prize token: for Chagnon’s defenders and critics, the fighting that occurred among this small group of people in the Amazon simply could not be what the other camp claimed it was, nor mean what the other side said it meant. Allegations of bad faith, often tinged with personal hostility, were as thick in the air as insects in the Amazon rainforest.

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Even if the Yanomami are, or were, our “contemporary ancestors,” they live on land that is claimed by modern nation-states and happens to be rich in precious minerals. When the miners arrive, the Yanomami die, mostly from disease or poisonous chemical runoff, but sometimes also from shotgun blasts. During the 1980s and ’90s, anthropologists and indigenous rights groups became concerned about the possible effect that Chagnon’s theories might have outside the academy. This concern escalated after 1988, when Chagnon published an article in Science claiming that, among the Yanomami, men who killed other men also had the most wives and children. In 1989, the Brazilian Anthropological Association wrote to the AAA’s newsletter, arguing that Chagnon’s characterization of the Yanomami as a fundamentally “fierce people” (the subtitle of his book’s first three editions) was exaggerated to the point of falsehood, and less than helpful at a time when the Yanomami were under attack by miners and their allies in the Brazilian government, who were citing this supposedly endemic Yanomami violence as one of the reasons they should be segregated on twenty-one separate micro-reservations. As similar accusations circulated, it became increasingly difficult for Chagnon to obtain the permits required to do his work. In 1999, citing this obstacle, he announced his early retirement from the University of California, Santa Barbara, and returned to his home state of Michigan.

Around a year later, controversy about Chagnon’s Yanomami work reached a new level of scrutiny and public visibility, prompted by the publication of Patrick Tierney’s Darkness in El Dorado: How Scientists and Journalists Devastated the Amazon. Where previous Yanomami debates had rarely strayed beyond specialized academic venues, Tierney’s attack on Chagnon was published by W.W. Norton, a respected trade house, and garnered the attention of reviewers around the world. Tierney was at the time a journalist and indigenous rights activist; in Darkness in El Dorado, he took all the old complaints against Chagnon and wove them into a dramatic narrative of white men and the ruin they’d brought to the rainforest. His rogues’ gallery includes the French anthropologist Jacques Lizot, who for years used his store of foreign goods to pay Yanomami men and boys for sex. There was also the public television documentary crew that paid the Yanomami to dress and act differently (more “primitively”) than they otherwise would have—and then sat by, cameras rolling, while a young woman and her child died, despite having a motorboat that could have taken them to a hospital. There are miners and soldiers and corrupt politicians—and there’s Chagnon himself, whom Tierney portrays as the monomaniacal, violence-obsessed Colonel Kurtz of sociobiology, so entranced by the possibility of making a vital contribution to a beautiful, voguish theory that he lost all sight of Yanomami reality, research ethics and human decency.

In addition to rehashing—and, more than once, overcooking—the old accusations about Chagnon’s flawed assumptions, suspect methodology, dubious interpretations and their effects on the Yanomami, Tierney raised a new charge, one that seemed to dwarf the others in terms of its horror. The allegation related to a central aspect of Chagnon’s research program, one that had hardly been mentioned in his writings to date. The funding for Chagnon’s first few trips to South America came from the National Institute of Mental Health; but by 1967, Chagnon was collaborating with James Neel, a titan of modern genetics. Neel worked for the Atomic Energy Commission, the post–World War II agency created to study nuclear technology and its effects (including the infamous experiments in which Americans were exposed to large doses of radiation without their consent). As a geneticist, Neel saw the Yanomami as the closest link to our “evolutionary ancestors” he would ever get a chance to sample, an isolated population unaffected by industrialization or global conflict. Neel and Chagnon were both then based at the University of Michigan, and it was on Neel’s recommendation that Chagnon went to live with the Yanomami in the first place. Chagnon got AEC money; in return, whenever one of Neel’s teams wanted to collect blood and tissue samples, he served as their guide and translator.

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Though Neel had little concern for the specifics of Yanomami life and (according to Chagnon) a disdain for anthropology in general, he sometimes went on the sample-gathering trips. On one, in 1968, a measles outbreak was erupting just as his team arrived. In the account presented in Darkness in El Dorado, Neel and his team—despite delivering a thousand vaccines—made the epidemic worse, causing many more Yanomami to fall ill and die than would have otherwise. This was not, Tierney insinuated in the pre-publication proofs of the book sent to reviewers, a matter of neglect; instead, Neel had knowingly made the epidemic worse because it gave him the perfect chance to observe the immune systems of a virgin-soil population in action. In this account, a founding figure of modern genetics comes across as little different from a Nazi scientist, with America’s bestselling anthropologist as his willing handmaiden.

After Norton sent out the proofs of Tierney’s book, his tale of killer anthropologists started circulating at great speed on academic listservs. It was a “nightmarish story,” wrote two of Chagnon’s longtime critics in August 2000, “a real anthropological heart of darkness beyond the imagining of even a Josef [sic] Conrad (though not, perhaps a Josef Mengele).” Chagnon’s partisans set in motion efforts to discredit Tierney’s book page by page, hoping to stem the inevitable tide of bad press. Allies like Richard Dawkins, Edward Wilson, Steven Pinker, Daniel Dennett and Marc Hauser e-mailed people covering the book, urging them to denounce it. In late 2000, an excerpt appeared in The New Yorker, and the book—though still not released—was nominated for a National Book Award. Meanwhile, Tierney and Norton continued editing it, softening some of its more incendiary claims about the measles epidemic; when released, it still claimed that Neel had made the epidemic worse, but allowed that it had not been intentional.

Sensing the possibility of a public relations disaster for the entire discipline, the AAA’s leadership convened a task force to evaluate Tierney’s charges. This was highly unusual: unlike a state medical or legal board, for example, the AAA is not a licensing body; you need not be a member of the association to practice anthropology. (Chagnon canceled his membership in the late 1980s.) It has little in the way of meaningful investigative authority, and its ethics guidelines are notoriously muddled and difficult to apply. The task force’s preliminary report, released in 2001 soon after the book’s publication, concluded that Tierney’s argument was shot through with flaws: the accusation that Neel had worsened the measles epidemic, as one example, was found to be baseless and not even possible. But many of Tierney’s less sensational, more complex charges against Chagnon were substantiated, and the task force declared that the book was of definite value to the field. This satisfied no one, not least because of an obvious procedural failing: two of the task force’s members admitted to not having read the whole report.

The final report, released a few months later, was considerably more critical of Chagnon. But for his detractors, it was at best an imperfect attempt to grapple with fundamental questions, and at worst a PR move designed to hurry the discipline past an ugly episode. For Chagnon’s supporters, it was a disgraceful hatchet job, one more sign of cultural anthropology’s resentment over the encroachment of “hard” science onto its turf. Three years later, a referendum was put forth to rescind the report, on the grounds that the original task force had been illegitimate, biased and sloppy. Roughly 10 percent of the AAA’s members voted: 846 for, 338 against. The report was removed from the organization’s website, and the question of which, if any, of its conclusions had been true was left for die-hards to debate in academic journals and on their personal websites. There is little agreement even about what the controversy is exactly, and most often the people involved—tenured professors—do little more than talk past each other, bemoan the quality of debate, and then continue talking past each other. Davi Kopenawa, a prominent Yanomami activist, put it well: “I want to know how much they are making each month. How much does an anthropologist earn?… This is a lot of money. They may be fighting but they are happy. They fight and this makes them happy. They make money and fight.”

There were two other referendums on the ballot when the AAA voted to rescind the El Dorado report. One expressed a strong preference for holding the annual meetings at facilities staffed by unions; it passed by a vote of 695 to 624. The other was a repudiation of the 1919 censure of Franz Boas, whose accusations about anthropologist-spies had since been confirmed by researchers—including the fact that some of the men who voted to censure him were the spies he had declined to name out of respect for their safety. The language of the 2005 repudiation implied that the original censure had been a regrettable error from another era, the sort of mistake anthropology didn’t make anymore and hadn’t made for a long time. It passed by an overwhelming margin: 1,245 to 73.

* * *

Chagnon’s retirement was not what he’d hoped for. In 2000, overcome by the stress of working to clear his name, but nonetheless seeing his alleged complicity with genocide become headline news around the world, he collapsed and was hospitalized. In subsequent years, he found it impossible to put the affair behind him:

I did not travel much, did not fish much, did not hunt grouse and pheasants over my German short-haired pointers, did not go to many concerts, did not read much fiction for pleasure, and did not spend more time with members of my family.

Instead, he set to work on a memoir. But he repeatedly scrapped what he’d written “because of the anger that kept creeping into my writing, giving it a very depressive tone.”

In Secrets of the Tribe, a recent documentary about anthropologists and the Yanomami, Chagnon responds to his critics mostly by repeating simplified versions of their charges in a sanctimonious tone. Despite his attempts to expunge the anger from his memoir, much of Noble Savages has a similar quality. As Chagnon sees it, his critics are a coalition of anthropological “ayatollahs” scrambling to protect their own authority from scientific rigor, “Marxist”-style “Thought Police” guarding the “politically correct” conventional wisdom, “postmodernists” unqualified to make claims about his conduct because they can’t even decide if the world exists, Catholic missionaries who wanted the Yanomami for themselves, and “barefoot” “activist” types less interested in studying the people of the world than in leading a witch hunt for the bad guy in the “office down the hall.” (The long history of overlap between American anthropology and the American military-intelligence sector is not mentioned.) These are the sorts of people, we are given to understand, who don’t care about what is true or not—the sort willing to smear a man to keep an ideology alive.

But Chagnon is in a bind: he’s written a memoir to refute the charges against him, but he finds the charges so baseless, and their existence so revolting, that he can barely be bothered to address them, or even to characterize them accurately. (In this sense, Noble Savages mirrors Darkness in El Dorado, which might have been more rigorous if Tierney hadn’t been so furious.) A telling example is Chagnon’s response to criticism from his fellow anthropologist Brian Ferguson. In 1995, Ferguson published Yanomami Warfare: A Political History, a book centrally concerned with countering Chagnon’s analysis of Yanomami life and violence. He disputed Chagnon’s interpretations of his own data (convincingly, I think), but also advanced a more fundamental objection: that the Yanomami had been in contact, direct and otherwise, with the “outside” world at several points long before Chagnon’s arrival, and that these moments of contact had influenced everything from where their villages were established to how they related to each other. Warfare was not the Yanomami historical norm, Ferguson said, and when war did break out, it had at least as much to do with the effects of encroaching nation-states and empires as it did with women and revenge. One crucial result of these moments of contact was the Yanomami’s acquistion of steel. Steel tools are many times more efficient than stone ones; when some villages came to possess more than others, it tilted the scales toward conflict, especially in times of hardship and deprivation, such as those caused by disease outbreaks (which even by Chagnon’s calculations were a more common cause of Yanomami death than violence).

Whatever the soundness and validity of Ferguson’s complex argument, it deserves more of a response than the single sentence that Chagnon has buried in an endnote: “Ferguson also claimed that I caused animosity, jealousy, and conflicts by the way I gave metal tools to the Yanomamö.” You can almost hear Chagnon snorting in disbelief. Because the endnotes lack corresponding numbers in the main text, the path the reader must take to them is unmarked. No reader will learn from Chagnon what Ferguson actually thinks. It is true that, in Yanomamö, Chagnon admitted to intentionally exploiting local animosities and conflicts to gain information, especially in his efforts to work past the Yanomami’s pesky name taboos. It is also true that Ferguson discusses Chagnon and other anthropologists’ habit of handing out steels tools in exchange for information, labor and blood samples. But to make this the centerpiece of his critique is absurd. It is also a measure of Chagnon’s narcissism that he reduces an argument about hundreds of years of history, empires and culture to an argument about himself. (Tierney is guilty of a similar fixation: when he cites Ferguson’s arguments in Darkness in El Dorado, he is also seemingly obsessed with the possibility that Chagnon himself had caused Yanomami warfare.)

The irony is that in Noble Savages, a story of an allegedly Stone Age people, steel and its influence are ubiquitous. One village Chagnon visited exists where it does, a missionary tells him, because its residents wanted to be near the missionaries and the steel tools they brought with them. His hosts lie to him about other villages—how far away they are, the dangers he can expect en route—so that he won’t leave and share his steel gifts with others. When he’s not watching, they break into his supplies and make off with knives and fishhooks. “The very word madohe [trade goods] stirs people,” Chagnon says. If machetes or axes are present, he observes, club fights can escalate to machete fights, increasing the likelihood of their participants being crippled or killed. Even after pointing all this out, Chagnon takes a position worthy of the National Rifle Association: machetes don’t kill Yanomami, Yanomami do.

Elsewhere in his memoir, though, he insists that the introduction of new technology can alter—and has altered—the way people relate to each other, even by encouraging them to kill each other. Missionaries from the Salesians of Don Bosco, a Catholic charity, gave shotguns to the Yanomami, something Chagnon refused to do “as a matter of principle.” The results, he says, were disastrous. “Although the shotguns did not make the Yanomamö warlike, I believe that they probably caused an increase in mortality rates…. Shotguns may have even made the Yanomamö more willing to attack their enemies because the shotguns were more efficient killing weapons than their bows and arrows.” And: “The introduction of shotguns at Salesian missions would most likely change traditional Yanomamö warfare patterns.”

The Salesians might be the only people Chagnon dislikes more than cultural anthropologists. From his perspective, they were determined to make the rainforest into a theocracy, controlling who came and went (including anthropologists) and luring the heathen Yanomami to their settlements so as to render them dependent on the goods they supplied. It was the Salesians, Chagnon theorizes, who pulled strings to get Tierney the permits he needed to do his research in the Amazon for Darkness in El Dorado. In 2010, he even speculated that they paid Tierney to write his book. As with the postmodern barefoot ayatollahs of anthropology, the Salesians are presented to us as ruthless Machiavellians. Chagnon all but accuses them of turning a blind eye to the inevitable result of their largesse: if the guns were being used for raids, or even making the raids more common, so be it—this would make the guns more valuable, and the missionaries with the guns more powerful still. So shotguns, it seems, can influence warfare patterns, but never machetes—and anyway, Chagnon writes, the Yanomami (a supposedly untouched people) had “possessed steel tools many years prior to my first trip.

Now and then, Chagnon will recognize that, yes, war is complicated, a cumulative result of many intertwined factors. He even draws attention to the difference between motive, on the one hand, and human statements about motive, on the other. If a Yanomami was bitten by a snake and died, Chagnon recalls, his fellow villagers might decide that the snake had been sent by a rival village—therefore providing a pretext for revenge, which might involve seizing control of some strategic resources. Such behavior should sound familiar: quite recently, the leader of the most powerful nation on earth organized the invasion of another, oil-rich nation, claiming that he was acting on God’s personal instructions. The leader of the invaders also pointed out that, in addition to possessing terrible new weapons, the oil-rich country’s leader had once tried to kill his father. Oil was never mentioned: the history of war is a history of obfuscation about its motives. But whenever the Yanomami tell Chagnon that they’re fighting over women, he takes it as a direct expression of fact—one that, conveniently enough, supports the theory that for the Yanomami, as for all our ancestors, warfare was essentially about reproduction and its kissing cousin, revenge.

* * *

For all his claims to be working in opposition to the archetype of the noble savage, Chagnon is implicitly committed to the idea that the Yanomami he met were in some sense completely different from us—that they lived, to borrow a phrase from the pop science writer Jared Diamond, in a premodern sliver of the “world until yesterday” preserved in our midst. The Yanomami are, at different points in Chagnon’s book, “wild,” “primitive” and “Stone Age”—never mind all their steel, or the fact that they rely on farming, not hunting or gathering, for 70 percent of their diet. Never mind that none of their primary crops—bananas and plantains—are indigenous to the Amazon or even South America. No, the Yanomami are “pristine,” “pure,” “special,” even noble: “I have chosen to call this book Noble Savages,” Chagnon writes, “in part because the Yanomamö I lived among had a certain kind of nobility that most anthropologists rarely see in acculturated and depopulated tribes that have been defeated by and incorporated into the political states in whose jurisdiction they reside.”

When it comes to describing the definitively unpristine Yanomami—those who, even by his standard, have had extended contact with “civilization”—Chagnon vacillates between pity, disdain and (most often) disinterest. Readers of Noble Savages will learn almost nothing of contemporary Yanomami or their politics. They will certainly not learn about the assemblies at which representatives from different villages discuss the ongoing threats to their existence posed by mining interests, and the future of their relationships with Venezuela and Brazil. Yanomami have even traveled to the United States—not just to speak about the Chagnon controversy, but also to request the return of the blood samples gathered by research teams, including those led by James Neel. The Yanomami argue that they never consented to the indefinite storage of bodily materials in far-away freezers, a practice that violates their burial customs. (In 2010, several research facilities agreed to return the blood.) Chagnon says not one word about any of this; he’s too busy calling Yanomami leaders the puppets of Salesian missionaries, who are using them to advance their anti-Chagnon, anti-science agenda.

Chagnon’s fixation on those Yanomami he judged “pristine,” and his disinterest in any he’d determined to be “acculturated,” took its most explicit turn in 1990, when he was contacted by Cecilia Matos, the mistress of Venezuela’s then-president, Carlos Andrés Pérez. As Chagnon tells it, Pérez’s political career was winding down, and Matos wanted him to beef up his legacy by doing something to benefit people like the Yanomami. Though Chagnon had started a Yanomami Survival Fund in 1988, there is no evidence that he ever delivered any money to the people it was named for. The one time he was asked for advice about safeguarding the Yanomami’s living conditions, Chagnon recommended a rainforest biosphere project that would protect their land—but not all of it, just those parts whose inhabitants Chagnon deemed sufficiently untouched. About four-fifths of Yanomami lands in Venezuela would be unprotected, and so more open to mining concerns.

This aspect of the proposal goes unmentioned in Noble Savages; all Chagnon says, in his three-page account of the incident, is that before the project could be implemented, the usual network of detractors went to work spreading lies, which prompted hysterical protests, and so the project died. He doesn’t say that a similar project that included almost all Yanomami land was launched the following year. More damningly, he doesn’t tell his readers that in 1993 Pérez was impeached, removed from office and jailed after getting caught siphoning millions of dollars’ worth of public funds to private accounts he shared with his mistress. Matos was to be arrested too, but she fled the country; on her arrest order, she was accused of, among other things, misappropriating state resources to get a noble-sounding biosphere project running as a front for more profitable activities. Almost every commentator on the Chagnon saga, even among his army of vociferous allies, has agreed that his participation in this project, however tangential, was at the very least bad judgment. In a recent New York Times Magazine profile, Chagnon swatted away such accusations. In exchange for his help, Pérez had restored his research permit. “I got a year’s worth of data,” he said. “It was worth it for that reason.”

At the end of the Secrets of the Tribe documentary, Patrick Tierney says, “I don’t think that there’s any way [Chagnon’s defenders] can salvage [him] in the long run.” Time will tell, but I’d wager that Tierney is wrong: he is too enamored of the idea that scandal might lead to change, and too optimistic about facts trumping ideology (which is, of course, what Chagnon claims to hope for, too). Chagnon’s basic conclusions about the Yanomami were cited uncritically in Jared Diamond’s bestseller The World Until Yesterday, published in December [see Stephen Wertheim, “Hunter-Blatherer,” April 22]. Early reviews of Noble Savages were almost all positive. In a triumphant blurb, the anthropologist Robin Fox calls it the “final knockout punch in a fight [Chagnon] didn’t pick but has most assuredly won.” Chagnon was recently asked by the University of Michigan, his alma mater, to organize his life’s work into a digital archive for use by academics around the world. And last year, he was voted into the National Academy of Sciences.

In response, his old University of Michigan professor Marshall Sahlins resigned from the academy, citing not only Chagnon’s election but also the recruitment of NAS anthropologists by the US military. “The two are connected,” he told me recently. “Chagnon’s research and the imperial venture are both based on the same assumption, that pursuit of material self-interest is the natural human condition—the obvious, natural, best thing for the individual and the nation.”

Online, Chagnon’s fans have been selling T-shirts that caricature his critics’ positions as: Napoleon Chagnon kicked my dog! Word is the man himself thinks they’re hilarious and has ordered a bunch for friends and family. This semester, at age 74, Chagnon joined the anthropology department at the University of Missouri. “I feel like a battleship,” he told the campus newspaper, “shaking off the mothballs and taking to the high seas again.” Let’s christen it the USS Machete.

In “Library Man” (Feb. 7, 2011), Thomas Meaney reviewed Patrick Wilcken’s biography of Claude Lévi-Strauss, “a poet in the laboratory of anthropology.”

Read more: http://www.thenation.com/article/174369/fight-clubs-napoleon-chagnon#ixzz2VSi1oT30

“O governo está preparando uma tragédia”, afirmam indígenas (Xingú Vivo)

29/5/2013

A situação é grave na Usina Hidrelétrica Belo Monte. Os indígenas que ocupam pelo terceiro dia e pela segunda vez no mês o principal canteiro da barragem temem que uma tragédia de grandes proporções aconteça, com a autorização judicial da entrada da polícia para efetuar o despejo. Para eles, o governo está ameaçando repetir o confronto ocorrido na aldeia Teles Pires em novembro do ano passado, onde a Polícia Federal assassinou um indígena Munduruku e deixou dezenas de outros feridos.

Em coletiva à imprensa, Candido Waro declarou que os indígenas ocupados não irão cumprir a reintegração de posse. “Nós não vamos sair. Nós vamos morrer aqui, o governo vai matar todo mundo”, afirmou a liderança munduruku em coletiva à imprensa. O indígena reafirmou que o governo não tem cumprido com as exigências constitucionais no processo de consulta.

“O governo está preparando uma tragédia”, afirma Paygomuyatpu Munduruku. “Nós não vamos sair daqui. O governo tem nos ignorado, ofendido, humilhado, assassinado”. Para ele, está claro que o governo está tentando sufocar o movimento. “Ele já matou uma vez e vai matar de novo. Eles mataram porque nós somos contra as barragens”, explica. Os indígenas se mostraram “ofendidos” com a declaração do ministro Gilberto Carvalho à rede Globo de que ele não teria sido “comunicado oficialmente” sobre a vontade dos Munduruku de se reunirem com o governo federal.

VIOLÊNCIA POLICIAL

Além da pressão do governo federal, os indígenas têm sofrido diariamente ameaças e intimidações dos policiais que residem no canteiro de obras, e daqueles que estão cercando o empreendimento. O vídeo abaixo, registrado por um indígena dentro da ocupação, mostra um policial intimidando e ameaçando os manifestantes, ao apontar armas e dizer que vai “quebrar” um indígena.

Para o grupo que ocupa o canteiro, a única saída é que o governo federal, na figura do ministro Gilberto Carvalho ou da presidente Dilma Rousseff, vão ao canteiro e se comprometam a cumprir a pauta dos indígenas. Eles exigem a suspensão de todos os estudos e obras de barragens que afetem seus territórios até que sejam consultados como previsto por lei.

Confira a entrevista do antropólogo Renzo Taddei sobre o processo de licitação do Maracanã (Yahoo! Esporte Interativo)

Autor de estudo sobre torcidas organizadas, Renzo comentou tentativa infundada dos dirigentes do futebol brasileiro em erradicar as torcidas organizadas

Por Amanda Duarte, Gabriel Mansour e Pedro Muxfeldt | Yahoo! Esporte Interativo – ter, 28 de mai de 2013 02:22 BRT

Autor de diversas pesquisas sobre o fenômeno das torcidas organizadas no Brasil e na Argentina, o antropólogo Renzo Taddei falou com exclusividade ao Yahoo! Esporte Interativo sobre a proposta de elitização do público do Maracanã contida no estudo de viabilidade econômica realizado pela IMX Venues.

Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renzo também falou sobre a proposta de transformação do estádio em centro de entretenimento e, estudioso do assunto, enxergou conexão entre a política de aumento do valor dos ingressos com a tentativa de exclusão das organizadas dos estádios de futebol, algo que, para o acadêmico, não acontecerá da maneira prevista devido às ligações próximas entre as diretorias de clubes e suas torcidas e uma falha na visão que os comandantes do futebol e a mídia têm dos grupos de torcedores organizados. Confira a entrevista na íntegra:

Yahoo! Esporte Interativo: O estudo de viabilidade econômica do complexo do Maracanã prevê, textualmente, a “mudança do perfil do público e consequente aumento do valor médio dos ingressos”. Qual sua visão sobre esse processo de elitização do público dos estádios que já vem ocorrendo?

Renzo Taddei: Não está claro ao que exatamente o estudo se refere: se ao aumento da renda das classes populares, o que significa que o público se mantém o mesmo, ainda que seu “perfil” de consumo mude, ou à substituição das classes populares por classes médias e ricas, via encarecimento dos ingressos. Essas alternativas não são excludentes; em termos financeiros, podem até levar aos mesmos resultados. Em termos sociais e políticos, no entanto, são coisas muito diferentes.

Existe uma distinção importante a ser feita: uma coisa é um investimento privado ser economicamente viável, outra é uma política pública ser democrática e eficaz. Infelizmente o governo do Rio de Janeiro parece confundir as coisas: permitir que a iniciativa privada elabore políticas públicas é mais do que um erro político, é um tiro no próprio pé. No Brasil, como em diversos lugares do mundo, o futebol é muito mais do que um negócio, tem um papel importante na vida de muitas coletividades; o que o governo tem dificuldade de enxergar é que reduzir o futebol a um mero bom negócio pode ter consequências sociais funestas.

O futebol poderia ser um instrumento poderosíssimo na construção de uma sociedade melhor, dada a penetração que tem em diversos públicos e setores da sociedade. Para isso, deveria ser usado em conjunção com políticas públicas sérias e inteligentes. Se os gestores públicos soubessem usar o futebol com inteligência, seria possível até argumentar que ele deveria ser subsidiado. Mas, infelizmente, já há muitas décadas o futebol é controlado por interesses financeiros pouco comprometidos com objetivos e metas sociais maiores; a forma como o dinheiro que vem da transmissão televisiva define os rumos do esporte mostra como este é refém do mercado.

Ao usar critérios mercadológicos para julgar o valor de uma boa ideia, o governo permite que o apartheid social brasileiro se estenda às políticas sociais nas áreas de lazer e cultura.

Y!EI: Em outros pontos do estudo, fala-se na necessidade de transformar o complexo esportivo do Maracanã em “centro de entretenimento”. Que efeitos sociais a transformação de um símbolo cultural do Rio de Janeiro como o Maracanã em abrigo de shoppings e hotéis, como está previsto no estudo, podem causar?

RT: Colocando de forma direta, trata-se da transformação do mais importante espaço de comunhão que temos no Brasil em mais um espaço de segregação. A atratividade financeira do projeto faz com que nossos governantes se façam cegos ao papel simbólico do futebol, através do qual se dá um bocado da vida social das pessoas desse país, em todas as suas regiões e de todas as classes sociais. O futebol une gente que em outras ocasiões encontra-se separada em credos e partidos políticos distintos – credos e partidos que, via de regra, não funcionam com base em regras claras e conhecidas por todos, e num contexto em que os jogos sempre começam do zero a zero e o fair play é valorizado.

Ainda que não intencionalmente – ou, quem sabe, intencionalmente -, shoppings centers e hotéis são espaços de segregação, onde descamisados e gente de chinelo não entra. Aqui estou falando das dimensões simbólicas do futebol; vai da solução arquitetônica mesclar isso tudo e ver até onde o espírito do futebol vai ser descaracterizado.

De qualquer forma, para que um hotel exista num estádio haverá que se instalar barreiras e restrições à mobilidade das massas que hoje não existem. Não vejo como o resultado possa ser bom, em qualquer dimensão que não seja estritamente financeira, e apenas para quem vai investir no projeto. Em minha opinião, essa é apenas mais uma etapa do processo, apoiado pela Fifa, pela CBF e pelas federações estaduais, que transforma o futebol em refém do capital financeiro. Só não vê que parte do comportamento das torcidas é uma reação negativa a isso tudo quem não quer – e há um bocado de gente em postos importantes que efetivamente não tem qualquer interesse em enxergar isso.

Basta seguir os perfis das torcidas em redes sociais e ver a forma como elas se manifestam contra o que chamam de “futebol moderno”, que é nada mais do que o futebol refém do capital financeiro – das verbas de patrocínio que definem regras e formas de funcionamento do esporte, dos contratos que induzem os jogadores a estabelecerem relações muito superficiais com os times em que atuam, dentre muitas outras coisas.

Y!EI: Já nos dias de hoje, jogos às vezes de pouco apelo dos campeonatos estaduais, por exemplo o Carioca, têm ingressos com preços que chegam a R$ 80. Neste cenário, são nas torcidas organizadas onde mais se concentram integrantes das classes mais pobres da sociedade. O processo de “demonização” das organizadas pode ser entendido como um outro passo para a retirada da população pobre – especialmente jovem e negra – dos estádios?

RT: Sem dúvida. Mas isso só se dá porque há uma compreensão muito ruim, por parte do poder público e da mídia, de como funcionam as torcidas organizadas. Elas nunca deixarão de estar nos estádios, porque na maioria das vezes suas lideranças não pagam os ingressos. Há uma relação entre os clubes e as torcidas que não está considerada nessa abordagem econômica, porque esse é uma questão da política interna do futebol.

Os próprios dirigentes facilitam a entrada das organizadas, porque elas são parte fundamental do fenômeno e do espetáculo que é o futebol, e os jogadores e dirigentes reconhecem isso. É mais fácil ver isso quando se joga de visitante: muitas vezes quem vai ao jogo é apenas a torcida organizada, que viajou mil, dois mil quilômetros, em veículos mal conservados e lentos, apenas para assistir o jogo e voltar para casa.

Num estádio hostil, uma torcida atuante, que canta e demonstra apoio ao time pode afetar positivamente o estado psicológico dos jogadores do seu time – não há jogador ou técnico que não reconheça isso.

Por outro lado, é equivocado achar que os torcedores mais pobres estão nas torcidas organizadas. Algumas torcidas têm um faturamento alto, de atividades legais. O que se está confundindo aqui é a forma como as elites pensam o mundo, com seus maniqueísmos e preconceitos, e a forma como o mundo do futebol efetivamente existe; as duas coisas não são equivalentes, obviamente. O futebol não se resume à divisão de classes sociais, exatamente porque em grande parte do tempo funciona como elemento de comunhão social, e não de divisão. Transformar o futebol de acordo com a visão que as elites têm da divisão de classes sociais é assassinar o espírito do esporte, o que pra mim deveria ser crime inafiançável.

Veja também:

– Especial Maracanã PARTE 1: Empresa de Eike prevê mudança no perfil do público
– Especial Maracanã PARTE 2: Sociólogo analisa processo de elitização
– CBF não vai liberar Neymar para jogo de despedida na Vila Belmiro

‘Beautiful Game’ becomes ‘Pricey Game’ with World Cup, Confed Cup changing Brazilian soccer (Washington Post/AP)

By Associated Press, Published: May 28

RIO DE JANEIRO — It’s an image as Brazilian as Carnival or Rio’s Christ the Redeemer statue.

Drummers pound out a Samba rhythm. Swaying to the beat, fans sing and saunter up and down the aisles waving flags the size of bedsheets, seeming oblivious to the match below.

Little by little this picturesque mayhem in Brazilian soccer stadiums is disappearing, and ticket prices are soaring despite the toned-down version being sold.

The “Beautiful Game” has become the “Pricey Game.”

This year’s Confederations Cup and next year’s World Cup, the first in this South American country in 64 years, are speeding the changes. The national game is getting a different look with the use of numbered seating, a transformation that’s been going on for several years.

This might seem like a small thing, but it’s big in Brazil.

For decades, Brazilians simply raced into the stadiums and grabbed the best spots — some sitting, others standing in a crush amid thousands of others. At the Confederations Cup and World Cup, the seats will be assigned, and they won’t come cheaply. As an example, the least expensive seats for Sunday’s exhibition game between Brazil and England — the first major test event at Rio de Janeiro’s renovated Maracana Stadium — will be 90 reals ($45).

That’s 30 times more than the cheapest seat eight years ago at the historic stadium.

The Brazil-England match comes only days before the opening of the Confederations Cup, the eight-team warmup for the World Cup that starts on June 15. Maracana is the venue for the title game June 30 — and the World Cup final.

“The giant price change means there is a shift concerning the kind of people that are going to the new stadiums,” said Erick Omena de Melo, a native of Rio de Janeiro who is working on a doctorate in city planning at Oxford University in England. “It was previously a much more diverse place in the stadiums. But as the economy in Brazil changes, they are converting these stadiums to a much more middle-class, upper-middle class or even upper-class place that is much less for the lower-middle class and poor.”

Traditional general admission is being eliminated with luxury boxes and modern seating taking over at the six stadiums being used for the Confederations Cup, and the additional six that are to be ready for the World Cup. This change has already filtered down to the country’s heavily indebted club teams and is sure to take some of the spontaneity out of what Brazilians call “futebol” (pronounced foo-chee-BOHL).

Brazilian fans used to play a major role in the drama. These days they’re staying away. Average attendance for matches in Major League Soccer in the United States is higher than attendance for first-division matches in Brazil, which likes to call itself the “Home of Football.”

“What’s being done so far is transferring a European model to Brazil,” said Omena de Melo, who is working on a book about the social history of Maracana. “But Brazil is really different. It’s a totally different atmosphere at a football game. The changes are seen by many as a huge aggression against the traditional fans, the traditional crowds at football matches.”

Officials counter that ticket prices in Brazil are still below European levels, and that new and refurbished stadiums will improve safety that is needed in a country where soccer-related crime and violence is common. In addition, Brazil would never have been awarded the World Cup — and the 2016 Olympics in Rio de Janeiro — without a pledge to upgrade crumbling stadiums and tighten security.

The South American country is spending an estimated $3.5 billion on new stadiums and refurbishments, though most of the project has run behind schedule. The need to work 24-7 to finish the venues will run up the costs by millions more. FIFA has complained openly about the delays, acknowledging the Confederations Cup will be a maze of unfinished work.

FIFA Secretary General Jerome Valcke has admitted that “not all operational arrangements will be 100 percent,” then warned “this will be impossible to repeat for the FIFA World Cup.”

The new national stadium in Brasilia opened at a cost of more than $590 million, the most expensive of the 12 World Cup venues. But it has no local team to call it home, and many say it’s a “white elephant.”

It will host the opening of the Confederations Cup on June 15 with Brazil facing Japan.

Another stadium is going up in Manaus in the northern state of Amazonas — again with no local team. It’s the same in the southwestern city of Cuiaba, also without a team in Brazil’s top league.

Brazilian Sports Minister Aldo Rebelo — a Brazilian Communist Party member — defends the stadiums as “centers for sports and nonsports events,” and suggested they would be good places for businesses to hold conventions, shows and fairs.

Omena de Melo countered that the “gentrification” eliminates the diversity.

“Football in Brazil has been a kind of antenna that captures all the different values in Brazilian culture and correlates them into one,” Omena de Melo said. “This sort of informality has existed for a century in these stadiums.”

He used the example of Maracana to show how prices have soared.

The stadium has been closed twice for refurbishment since in the last decade. When it was closed in 2005 to be redone for the 2007 Pan American Games, Omena de Melo’s research showed the cheapest ticket was about $1.50.

In 2010, when it was closed again to be refurbished for next year’s World Cup, the cheapest ticket was about $20.

The Maracana was opened again a few weeks ago. Its capacity has been reduced to just under 79,000 — it held more than 170,000 for the final match of the 1950 World Cup — and plans call for it to be eventually shared by Brazilian clubs Flamengo and Fluminense.

In a country where the official minimum monthly salary is $339, the cheapest ticket for the Brazil-England match will be about $45 — 30 times the price of the cheapest ticket only eight years ago and out of reach for most Cariocas, the term for residents of Rio.

Rio de Janeiro sports journalist Telmo Zanini defended the rising prices and said adjusting to the seating changes will be easy in Rio and Sao Paulo in the prosperous southeast, but more difficult in provincial cities.

He cited a recent case in the city of Belo Horizonte “where people took seats and didn’t want to give them up when the ticketholders arrived. So police or stewards had to be called in.”

He said ticket prices had been rising for a long time, and declined to blame the World Cup. Rio de Janeiro and Sao Paulo are two of the world’s most expensive cities. A kilogram (2.2 pounds) of tomatoes recently sold for $6.50 at some Rio de Janeiro supermarkets, where a standard can of shaving cream costs $12. Shaving gel goes for $15.

“Poor people also can’t buy tickets in England or the United States,” Zanini said. “It’s a question of the market. You don’t see poor people buying tickets for Los Angeles Lakers games. The World Cup is not the only reason. Ticket prices have been going up for a long time. But with the World Cup stadiums we will have better quality stadiums. Some people have not gone to games previously because they did not feel safe.”

Marcello Campos, a 29-year-old fan of Rio club Flamengo who goes to at least one match a week, called the changes “a little difficult.”

“It’s going to be a challenge for the people who are used to the low prices; people who don’t have money to buy a ticket for 80 reals ($40) or 100 reals ($50). It’s expensive now.”

He said getting people to stay in numbered seats would be even tougher.

“It’s impossible for me to watch a football game sitting,” Campos said. “I’m too nervous to be sitting. I’ll need to fix that in my mind, to concentrate on sitting.”

He said the changes would be beneficial, imposing organization on chaos.

“We need to change the culture. It kind of gives everyone equal rights, not just those who show up first.”

Benefiting from many of the changes is a multinational consortium that won a contract in May from the state of Rio de Janeiro to run Maracana for 35 years. The consortium is made up of Brazilian construction conglomerate Odebrecht, Los Angeles-based Sports and entertainment company AEG, and the sport and entertainment company IMX, which is owned by Brazilian billionaire Eike Batista.

Critics say the deal gives the Rio de Janeiro state government less money than it invested in the venue and will lead to the demolition of an indigenous museum, a public school and some athletics facilities in the area. A public prosecutor estimated that $615 million in public money has been spent on Maracana since 2005, raising questions why a private consortium should reap most of the profits from taxpayer money.

The Brazilian soccer great Pele has come out against the privatization, saying the famous stadium “must be of the people, for the Brazilian people.” Others have also questioned selling off what has been traditionally a public space to private interests.

Omena de Melo cautioned that the new stadiums will not eliminate soccer-related violence.

“Violence tied to football could still be there, even after the gentrification,” he said. “If people can’t get inside the stadiums, they are going to get violent outside. You can’t isolate the stadium from the society where it exists. Brazilian society has a lot of problems caused by inequality, and violence is one of them.”

Luta contra o racismo no Brasil passa por salão de beleza (Agence France-Presse/Yahoo News)

Por Por Laura BONILLA CAL | AFP – 23/05/2013

A rede se dedica aos cabelos no estilo afro

A rede se dedica aos cabelos no estilo afro

A presidente da empresa, Leila Velez

A presidente da empresa, Leila Velez

Nada como um bom penteado para combater o racismo arraigado na sociedade brasileira, usando como armas principais tesouras e hidratantes para o cabelo.

Na periferia do Rio de Janeiro, uma rede de salões de beleza que se dedica a atender a negras e mulatas majoritariamente da classe C faz um grande sucesso.

Qual é a fórmula do êxito desta empresa que transforma o “afro” em cachos suaves, e que nega categoricamente a crença popular de que o cabelo crespo é ruim? O crescimento econômico do Brasil, que na última década permitiu que 40 milhões de brasileiros integrassem a classe média por meio de programas sociais do governo.

Dos 194 milhões de brasileiros, 50,7% são negros ou mulatos, e os donos do Beleza Natural, esta peculiar rede de salões de beleza, estimam que 70% das mulheres brasileiras têm cabelo crespo.

“Você é linda porque é negra”

“Este salão é para a consumidora esquecida, invisível, para levantar a autoestima da cliente de baixa renda. Uma mulher acostumada a servir, que merece ser servida, e bem servida”, explica à AFP a presidente da empresa, Leila Velez, uma mulata de 38 anos que aos 16 era gerente de um McDonald’s no Rio.

Velez criou com dificuldades o Beleza Natural há 20 anos junto com familiares. Hoje dirige as 13 filiais da empresa e uma fábrica de produtos para os cabelos, que conta com 1.700 funcionários.

A fábrica produz 250 toneladas de produtos de uso capilar por mês, incluindo o “super relaxante” de cachos criado por sua cunhada Zica Assis, uma ex-empregada doméstica que fez experimentos durante dez anos com frutas, como o açaí, até chegar à fórmula do produto na varanda de sua casa, em uma favela.

Os lucros da rede, que tem salões localizados da periferia a áreas nobres da cidade, cresceram 30% anualmente nos últimos oito anos, segundo Velez, que não revela os resultados da empresa.

Seu sucesso é tamanho que caravanas com centenas de mulheres vindas de outros estados chegam a cada fim de semana para que as viajantes sejam atendidas nos salões.

“Acredito que 100% de seu sucesso esteja ligado à questão da raça. Existem no Brasil, devido a uma carga cultural, muitas mulheres negras que não aceitam seu cabelo porque não é liso, que é o ideal de beleza mais conhecido”, explicou à AFP Victor Cunha da Almeida, professor da escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coautor de uma tese sobre o “Beleza” e sua aposta na “base da pirâmide” social, a classe C, que chega a 54% da população.

“Aí está a diferença do Beleza Natural, que não quer alisar o seu cabelo, quer domá-lo, suavizar os cachos. Diz a mulher: ‘você é linda porque é negra, é linda porque tem os cabelos assim'”.

Bruna Mara, uma cliente, confirma. “Sempre usava o cabelo liso; aqui me convenceram de que meus cachos poderiam ficar bonitos, e é mais natural”, confessa esta secretaria de 24 anos.

Princesas

“Não havia locais onde uma mulher negra com cabelo crespo fosse tratada como princesa”, ressalta o professor Cunha.

Quando alguém entra no mundo do Beleza Natural, decorado em vermelho e rosa, cheio de espelhos e focos luminosos, com flores frescas e café, sente-se em qualquer bairro rico do mundo, ou em um cenário de novela.

“Temos espelhos de corpo inteiro, porque muitas clientes não têm isso em suas casas”, explica Velez.

José Jorge de Carvalho, antropólogo especialista em questões raciais da Universidade de Brasília, ressalta que, apesar de ser visto no exterior como um exemplo de diversidade, o Brasil “é um país muito racista”.

“Estes salões de beleza fazem parte de um esforço de combate ao racismo, para melhorar a auto-estima das mulheres negras de classes popular”, afirma Carvalho, que lamenta o elevado uso no Brasil de pranchas para alisar o cabelo, algumas delas esquentadas diretamente no fogo e que “fritam o cabelo”.

Uma nova classe média

Atualmente, a rede de salões atende 90.000 mulheres por mês.

“Esta é a nova classe média, produzindo para a nova classe média”, comemora Marcelo Neri, ministro interino de Assuntos Estratégicos, em declarações à AFP.

As rendas das populações negra e parda brasileira foram as que mais cresceram

entre 2001 e 2009, 43% e 48% respectivamente, contra 21% para os brancos, segundo Neri, especialista na classe média brasileira.

No entanto, as desigualdades ainda são enormes: 125 anos depois da abolição da escravatura, os brancos no Brasil recebem em média quase o dobro do que os negros.

Ser atendido no “Beleza” é acessível, mas não barato. Custa em média 80 reais (10% do salário mínimo), e para mantê-lo em casa são necessários produtos que custam 50 reais mensais.

Apesar disso, a maioria paga em dinheiro, outro sinal do aumento real de poder aquisitivo da nova classe média brasileira.

Nos últimos 150 anos, já tentaram de tudo para a ‘cura gay’, diz livro (Folha de S.Paulo)

14/05/2013 – 16h32

da Livraria da Folha

A tentativa de transformar homossexuais em héteros usando métodos “científicos” já tem mais de 150 anos. A medicina, segundo os pesquisadores James Naylor Green e Ronaldo Polito, já tentou de tudo para “curá-los”.

“Confinamento, choques elétricos, medicação pesada, tratamento psicológico ou psiquiátrico, psicanálise individual, de grupo e familiar, camisa de força, transplante de testículos, eis aí algumas das “técnicas” de intervenção no corpo e na mente dos homens que preferem se relacionar afetiva e sexualmente com outros homens”, contam em “Frescos Trópicos”.

O título faz parte da coleção “Baú de Histórias”, coordenada pela historiadora Mary Del Priore, autora “Histórias Íntimas”“Ancestrais: Uma Introdução à História da África Atlântica”“A Família no Brasil Colonial”“500 Anos Brasil: Histórias e Reflexões“Festas e Utopias no Brasil Colonial” e“Matar para Não Morrer” e do recém-lançado “O Castelo de Papel”.

No livro, os autores examinam o período entre as décadas de 1870 e 1980, fundamentados em informações publicadas nessa época. Abaixo, leia trecho de “Frescos Trópicos”.

 

Acompanha o surgimento lento de uma consciência sobre a homossexualidade “Pode-se dizer que a medicina, nos últimos 150 anos, já tentou ou propôs de tudo para a “cura” dos homossexuais. Confinamento, choques elétricos, medicação pesada, tratamento psicológico ou psiquiátrico, psicanálise individual, de grupo e familiar, camisa de força, transplante de testículos, eis aí algumas das “técnicas” de intervenção no corpo e na mente dos homens que preferem se relacionar afetiva e sexualmente com outros homens.

Entre inúmeros exemplos do passado, citemos Pires de Almeira, em “Homossexualismo”, de 1906, que propõe um tratamento específico para os invertidos. Mas, primeiro, vamos entender o que ele chama de “invertido”: “é aquele que, de nascença, é já invertivo, e que, em toda a associação sexual, representa o papel de macho: é, pois, um macho mais macho, se se trata de um homem”. “Invertidos”, portanto, nascem homossexuais, diferentemente dos “pervertidos” que, segundo o autor, “depois de terem sido já sexuais normais, se tornaram invertidos por qualquer motivo”.

Para Pires de Almeida, o tratamento dos “pervertidos” é somente um pouco mais simples do que dos “invertidos”. Para estes ele recomenda, entre outros procedimentos:

“O invertido deveria ser acompanhado desde a infância, vigiado por uma espécie de tutor que, à feição de um aparelho ortopédico moral, fosse-lhe obstáculo ao desvio, trabalhando pertinentemente para que a consolidação se efetue em absoluto. (…)

Antes de tudo, devemos lembrar que tais desregramentos são puramente moléstias mentais; e, por isso, aconselharei, quando não tenhamos acompanhando o indivíduo desde a infância, e hajamos iniciado o tratamento em idade tardia, medicá-lo pela estética sugestiva; isto é, por meio do magnetismo e da sugestão combinados: bem orientar-lhe o espírito, dirigindo sua atenção para a beleza das formas femininas, cercá-lo de modelos célebres em pintura, na estatuária principalmente, e obrigá-lo à leitura de obras românticas em que tais belezas despertem as paixões tumultuosas. Facilitar-se-lhe-á o encontro com mulheres plasticamente sensuais, fáceis às carícias, graciosas, faceiras; não se hesitará até diante de certos subterfúrgios a princípio, tal como, por exemplo, o de provocar o coito do invertido com mulheres vestidas de homem; ou mesmo obrigá-lo a pernoitar com mulheres completamente nuas, ainda que não as goze.

Se, porém, existe, da parte do doente, repulsão invencível para as sociedades ambíguas, recorrer-se-á à convivência em outro meio: mulheres atraentes, sim, porém puras, puríssimas, virtuosas: o seio perfumado das famílias.”

“Frescos Trópicos”
Autores: Ronald Polito, James Naylor Green
Editora: José Olympio
Páginas: 196
Quanto: R$ 23,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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Mainstream green is still too white (Color Lines)

By Brentin Mock; Cross-posted from ColorLines

We missing anything here?Last year was the hottest on record for the continental United States, and it wasn’t an outlier. The last 12 years have been the warmest years since 1880, the year the National Oceanic and Atmospheric Administration began tracking this information. And climate scientists predict that the devastating blizzards, droughts, hurricanes, and wildfires we’ve been experiencing lately will worsen due to climate change.

In many ways these punishing weather events feel like Mother Nature seeking revenge for our failure to reduce greenhouse gas emissions, the primary cause of global warming. Despite abundant evidence, the U.S. government has yet to pass a law that would force a reduction in these emissions.

During his first term, President Obama did make climate change a priority, both in his campaign and in office. The American Clean Energy and Security Act that Congress produced passed through the House in June 2009 by a narrow margin. Yet the bill never reached a vote in the Senate, and it died quietly.

Environmentalists have been flummoxed ever since. One prominent cause-of-death theory says that large mainstream (and predominantly white) environmental groups failed to mobilize grassroots support and ignored those who bear a disproportionate burden of climate change, namely poor people of color.

With Obama in for a second term and reaffirmed in his environmental commitments, climate legislation has another chance at life. Now, observers are wondering if mainstream environmentalists learned the right lessons from the first climate bill failure and how they’ll work with people of color this time around.

Anatomy of a conflict

To hear some environmental leaders tell it, their defeat wasn’t due to a lack of investment in black and brown people living in poor and working class communities, but to an over-investment in Obama. For example, Dan Lashof, climate and clean air director for Natural Resources Defense Council (NRDC), has blamed the president for having the audacity to push healthcare reform and he’s pointed the finger at green groups for being too patient with Obama.

Asked what environmental advocates who led the first climate bill effort could have done differently in 2009, Bill McKibben, founder of the online grassroots organizing campaign 350.org, says their game plan was too insular. “There was no chance last time because all the action was in the closed rooms, not in the streets,” he tells Colorlines.com.

Yet that “action” took place behind closed doors for a reason: Major mainstream green groups including the Environmental Defense Fund and The Nature Conservancy teamed up with oil companies and some of the biggest polluters and emitters in the nation to form the United States Climate Action Partnership (USCAP). This ad hoc alliance was the driving force behind the failed 2009 bill and there were no environmental justice, civil rights, or people-of-color groups at the USCAP table.

Obama can’t be blamed for the blind spots of major groups. As recent Washington Post and Politico articles have pointed out, their leadership and membership simply don’t reflect the race or socieconomic class of people most vulnerable to climate change’s wrath.

Sarah Hansen, former executive director of the Environmental Grantmakers Association, argued recently that the mainstream has been stingy with funding and resources and inept at engaging environmental justice communities. In a National Committee for Responsive Philanthropy (NCRP) study, “Cultivating the Grassroots: A Winning Approach for Environmental and Climate Funders,” Hansen reported that philanthropies awarded most of their environmental dollars to large, predominantly white groups but received little return in terms of law and policy. Meanwhile, wrote Hansen, too few dollars have been invested in community- and environmental justice-based organizations.

According to the NCRP report, environmental organizations with $5 million-plus budgets made up only 2 percent of green groups in general but in 2009 received half of all grants in the field. The NCRP also found that 15 percent of all green dollars benefited marginalized populations between 2007 and 2009. Only 11 percent went to social justice causes.

In January, Harvard professor Theda Skocpol released a study of the first climate bill campaign’s failure and faulted green groups involved for choosing direct congressional lobbying over grassroots organizing. Some of the major organizations did spend money on field organizers, wrote Skocpol, but only to push public messaging like billboards and advertisements.

“The messaging campaigns would not make it their business to actually shape legislation — or even talk about details with ordinary citizens or grassroots groups,” Skocpol wrote in the report. The public “is seen as a kind of background chorus that, hopefully, will sing on key.”

Take one for the team?

That the environmental movement thought billboards and ads could replace educating and organizing actual people was their biggest flaw, a position shared by Hansen and Skocpol. In comparison, health reform advocates took a lobbying and grassroots approach while the climate-change bill made the rounds and got a law passed.

“If you want to gain the trust of the emerging non-white majority, it’s not just a messaging thing,” explains Ryan Young, legal counsel for the California-based Greenlining Institute, a policy research nonprofit focused on economic, environmental, and racial justice. “It’s a values thing. You must understand the values of these communities and craft policy around that.”

Why does this matter?

Consider how the website of the National Wildlife Federation (NWF) recently featured an article on city bird sanctuaries from the group’s print magazine titled “Urban Renewal.”

Having people of color on staff might have helped NWF understand that for some, “urban renewal” signifies a historical legacy of black and Latino neighborhoods being effectively erased by development projects such as sports stadiums. Cultural snafus like this have led to white environmental groups being clowned in influential outlets including The Daily Show.

In an interview about the unintended message of “Urban Renewal,” Jim Lyon, NWF’s vice president for conservation policy, told Colorlines.com that the group doesn’t “always get everything right” and that “he’d take it back to his staff.” (Ironically, one of the harshest critiques of urban renewal came from Jane Jacobs, a white conservationist.) On the topic of staff diversity, Lyon said the organization isn’t where they want it to be, but that they’ve made “good progress.” He would not release staff demographics, but said NWF achieves diversity through partnerships with other groups and programs like Eco-Schools USA, which he says “engages more than 1 million children of color” daily.

Beverly Wright, who heads the New Orleans-based Deep South Center for Environmental Justice, says racial oversights of traditionally white groups are the main reason black and Latino environmentalists have formed their own organizations. The culturally divided camps sometimes use the same words, but they’re often speaking different languages.

Take “cap-and-trade,” a scheme that would commodify greenhouse gas emissions for market-trading as a way to reduce those emissions. The first climate bill centered on cap-and-trade because most major environmental groups supported it. But cap-and-trade was anathema to environmental justice because it did nothing to curb local co-pollutants such as smog and soot, direct threats to communities of color. That’s not to mention that cap-and-trade was the brainchild of C. Boyden Gray, a conservative member of the Federalist Society and leader of FreedomWorks, today a major Tea Party funder.

Wright says major green groups tried to coax environmental justice organizations into supporting cap-and-trade by claiming it was for the “greater good.”

“But that meant white people get all the greater goods and we get the rest,” says Wright. “Until they want to have real discussions around racism, they won’t have our support. That’s what happened last time with the climate bill. It did not move, because they did not have diversity in their voices.”

“Diversity” doesn’t just mean hiring more people of color. As the 30-year-old Center for Health, Environment and Justice stated in March, the diversity conversation “really needs to be about resources and assistance to the front line communities rather than head counting.”

What’s next?

So in the new round of climate bill talks, will large environmental groups meaningfully engage community-based environmental justice groups?

The prognosis is mixed. Look at MomentUs, a mammoth collaborative started in January to ramp up support for new climate legislation. While MomentUs claims to be a game-changer, the strategy behind it seems very similar to that of USCAP’s — the one that failed to deliver a climate-change law the first time around. On its website, MomentUs describes its board of directors as “cultural, environmental, business, and marketing leaders who offer the diversity of viewpoints and keen insight vital to advancing MomentUs’s mission.” At press time, all of the directors are white. So is the staff, except for one office administrator.

Looking at MomentUs partners, it appears that the same traditionally white environmental organizations who teamed up for USCAP are now working with corporations including ALEC funder Duke Energy, predatory subprime mortgage king Wells Fargo, perennial labor union target Sodexho, and Disney. At press time there are no environmental justice or civil rights groups involved.

On the other side of the spectrum, The Sierra Club — one of the nation’s largest and whitest green groups — has had an expansive role in environmental justice and advocacy, particularly in the Gulf Coast. In January it joined the NAACP and labor unions in launching the Democracy Initiative, which will tackle voting rights, environmental justice, and other civil rights concerns.

To be sure, it’s way too early to make a conclusion about MomentUs or the Democracy Initiative, but the latter appears to be a step in the right direction in terms of highlighting the intersection between poor environmental outcomes and racism.

McKibben, the 350.org founder, has helped cultivate a multicultural fight against the Keystone XL pipeline project, but he admits that the overall environmental movement has “tons of work to do” on racial equity and inclusion.

“The sooner [mainstream environmentalists] absorb the message and are led by members of the environmental justice movement, the better,” he says.

In that case, the question is a matter of timing and power, of who decides when and which environmental justice activists get to lead.

Stay tuned.

Brentin Mock is a New Orleans-based journalist who serves as ColorLines’s reporting fellow on voting rights.     

Índios isolados, trabalhadores em fuga: um encontro amazônico (Yahoo Notícias)

Por Ana Aranha | Reportagem 3 por 4 – 18.abr.2013

Os seis trabalhadores da construção civil estavam perdidos em meio à floresta amazônica, no norte de Rondônia. Algumas horas antes, eles tinham corrido mato a dentro para fugir do caos que tomara o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, onde a Polícia Militar reprimia o movimento grevista, em 2011. Depois de andar cerca de seis quilômetros, o grupo tentava encontrar o caminho de volta à obra, ou a estrada, ou qualquer sinal de urbanidade. Sem sucesso.

Ao invés disso, foram encontrados.

Sem perceber que estavam sendo cercados, os trabalhadores uniformizados se viram rodeados por oito índios nus. Eles tinham o rosto e corpo pintados, flechas em punho e “murmuravam” palavras em uma língua que os trabalhadores não conheciam. Mas logo interpretaram o sentido: estavam rendidos.

Índios isolados no Acre, fotografados pela Funai em 2008

Hoje, excepcionalmente, esse espaço não será dedicado a um retrato, mas a um encontro. Encontro que pode servir de pista para compor o retrato dos povos indígenas que habitam o nosso país e os quais temos tanta dificuldade de entender.

Assustados, os trabalhadores da usina se comportaram como prisioneiros dos índios. Seguiram seus passos e pararam quando eles sinalizaram. O coração disparava a cada vez que os índios se reuniam em círculo. Observaram a construção de uma espécie de churrasqueira com gravetos, onde um porco do mato foi assado. Disfarçando o mal estar, comeram cada pedaço de carne que lhes foi oferecido. À noite, um dos trabalhadores foi repreendido pelos colegas por espiar os seios da índia mais nova, a regra era olhar para o chão.

A madrugada avançou, alguns índios deitaram e adormeceram. Os trabalhadores ficaram alertas. Pela manhã, caminharam até chegar a um local onde se ouvia um barulho familiar. Os índios sinalizaram em direção ao som, disseram algumas frases que ninguém entendeu e foram embora. Os trabalhadores correram na direção indicada até que, exaustos, chegaram à rodovia federal BR 364.

Esse relato foi registrado pela historiadora Ivaneide Bandeira Cardozo, da ONG indigenista Kanindé, que entrevistou um dos trabalhadores na presença de um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio). Ela acredita que os homens e mulheres descritos sejam parte de um grupo que a entidade e a Funai tentam rastrear há anos. “Pela descrição, parecem ser Kawahiba isolados”.

“Isolados” são os índios que não têm contato com a nossa sociedade, ou porque nunca cruzaram com um não-índio (casos cada vez mais raros) ou porque recusam o contato.

Na região que foi alagada pela usina de Jirau, havia rastros de um grupo isolado e nômade. A empresa repassou dinheiro para que a Funai mapeasse esses rastros. Depois de identificados, eles deveriam ganhar uma área de proteção. Mas o investimento não foi suficiente para encontrar ou proteger os índios.

Ao contrário, foram eles que encontraram e salvaram os funcionários da usina. “É difícil entender o que passou na cabeça dos índios quando viram os trabalhadores perdidos”, reflete Ivaneide. “Por que decidiram ajudar? Nunca vamos saber”.

O encontro ocorrido em 2011 é o reflexo oposto do desencontro que se deu na Câmara dos Deputados essa semana. Na terça dia 16, em uma cena inédita, os deputados federais correram pelo plenário como uma manada assustada. Fugiam de homens seminus, pintados de urucum e que balançavam seus chocalhos para protestar contra a mudança da lei que define como as terras indígenas são demarcadas.

Se o comportamento dos índios isolados e dos deputados deixa alguma pista, é que continuamos longe de entender os povos que habitam a nossa terra.

Quando retornaram à usina, os trabalhadores contaram sobre o encontro, mas o supervisor deu risada, chamando-os de mentirosos. Como se fosse impossível haver índios nas proximidades da obra, cravada no meio da floresta amazônica.

Para Ivaneide, a precisão dos detalhes é a maior evidência da veracidade da história. “Os trabalhadores eram de outros estados, uma pessoa sem convivência com indígenas não poderia saber tanto. Ele descreveu a pintura no peito, os traços no rosto dos homens, diferente das mulheres, a pena do gavião real, como tratavam a ponta das flechas. Até os detalhes de como montaram o moquém, que é onde assam a carne”. Segundo ela, o relato bate com hábitos comuns a etnias que vivem ou viveram na região, algumas consideradas extintas.

Existem 82 pistas de grupos indígenas isolados no Brasil, é a maior concentração de povos isolados do mundo. Em março desse ano, os funcionários da Funai fizeram uma carta aberta com um “pedido de socorro”. Nela, escrevem que não há equipe para proteger esses grupos, cujos territórios estão sendo invadidos pelas grandes obras, madeireiros e traficantes.

Como lidar com índios isolados é um dos temas mais complexos dentro da política indigenista. Talvez a pequena mensagem deixada pelo grupo que resgatou os trabalhadores e pelos que invadiram o congresso seja justamente sobre os nossos limites. Os índios tem um modo diferente de ser, nem sempre seremos capazes de entende-los. Talvez esses encontros sejam os momentos para refletir sobre os impactos das nossas escolhas. E fazer um esforço para, a partir dessa nova realidade, respeitar as escolhas deles.

Brazil accused of not protecting isolated indigenous group (AP)

By Associated Press, Published: April 18

SAO PAULO — Brazil’s government has failed to comply with a court order to protect the Awa indigenous people in the Amazon jungles, a British-based Indian rights group said Thursday.

Survival International said in a statement that authorities have ignored a federal judge’s deadline “to evict all invaders from the heartland of Earth’s most threatened tribe by the end of March.” It said the deadline passed and not a single illegal logger or settler has been evicted.

On March 12, 2012, judge Jirair Aram Meguerian ordered that all the loggers and settlers should be removed within 12 months.

The organization said the Awa tribe “is at extreme risk of extinction.”

It added that Funai, Brazil’s indigenous affairs agency was “still waiting for support from the Justice Ministry, the federal police and central government to evict the invaders.”

Funai’s press office said it had no immediate comment. Calls to the Justice Ministry and federal police went unanswered.

Survival International said that more than 30 percent of Awa territory has been deforested and that loggers are “rapidly closing in on their communities and have already been marking trees for deforestation.

It quotes an Awa Indian called Haikaramoka’a, as saying: “The loggers are ruining our forest. They have built roads. We are scared; they could go after the uncontacted Indians. We are scared because the loggers could kill us, and the uncontacted Indians.”

About 100 of the 450 Awa remain uncontacted and are at particular risk of diseases brought in by the outsiders. Survival International said.

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Atual projeto de nação não tem lugar para povos indígenas, diz indígena e doutor em antropologia (EBC)

Thiago Pimenta – Portal EBC 12.04.2013 – 14h28 | Atualizado em 13.04.2013 – 17h09

Gersem Baniwa (Daiane Souza/UnB Agência)

Após manifesto de funcionários da Funai por um plano de  indigenismo brasileiro, o Portal EBC entrevistou o indígena e doutor emantropologia Social, Gersem Baniwa, que atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Na opinião de Gersem, que é originário do grupo indígena Baniwa (localizado normalmente no noroeste do Amazonas), um plano indigenista passa previamente por um projeto de nação do país, não podendo acontecer de forma dissociada: “Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o Brasíl ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas”, destaca.

O pesquisador,  que já trabalhou em projetos no Ministério da Educação, reconhece alguns avanços das ações do governo na área escolar e na saúde indígena. O pesquisador reforça os esforços de gestores e técnicos que tentam avançar nas políticas indigenistas, mas denuncia as pressões sofridas pelos índios brasileiros por outros setores.


PLANO INDIGENISTA

Portal EBC: Antes de tudo, em que consiste um plano indigenista?
Gersem: Um plano indigenista para o Brasil passa pela existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas.

Portal EBC: O texto da Constituição de 88 reconhece aos indígenas o direito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e dá a eles os direitos originários sobre as terras que ocupam. Jà a União é responsável por demarcar essas terras, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Não seria esse o começo desse projeto?

Gersem: A sociedade brasileira tentou dar sua contribuição por ocasião da Constituinte de 1988, assegurando direitos básicos que garantissem a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas, por meio dos direitos sobre suas terras tradicionais e o reconhecimento de suas culturas, tradições e organização social, além do reconhecimento da plena capacidade civil e de cidadania. Minha hipótese é de que essas conquistas legais tinham relação com sentimento de culpa pelos séculos de massacres e mortes impostos aos índios pelos colonizadores, portanto, como medidas reparadoras do ponto de vista moral.

Mesmo reconhecendo alguns avanços pontuais no campo da educação (acesso à educação básica e superior ampliado), do direito à terra principalmente na Amazônia Legal e de participação política (06 prefeitos e 76 vereadores indígenas), o Estado continua passando por cima das cabeças e de caveiras dos povos indígenas como acontece de forma escancarada e vergonhosa no Estado de Mato Grosso do Sul, onde os índios Guarani-Kaiowá continuam sob fogo cruzado por fazendeiros e políticos da região. Para as elites econômicas e políticas do país, os povos indígenas continuam sendo percebidos e tratados como empecilhos para o desenvolvimento econômico do país (que na verdade é o enriquecimento desses grupos). Portanto, um plano indigenista brasileiro depende necessariamente da clareza de que nação, sociedade e país se quer construir. Os povos indígenas só terão chance se o Brasil assumir com seriedade a construção de um projeto de nação baseada em uma sociedade pluriétnica, multicultural e solidária.

Portal EBC: Quais seriam os pontos são mais importantes para um bom plano indigenista para o país?

Gersem: O ponto mais importante de um plano indigenista é garantir as condições reais para a garantia plena dos direitos indígenas, baseadas no protagonismo e na cidadania dos indivíduos e coletividades indígenas. Somente a garantia desses direitos pode garantir a continuidade étnica e cultural desses povos, por meio de segurança territorial, segurança econômico-alimentar, política de educação adequada e  política de saúde eficiente.  Isso também daria sinal de que os povos indígenas podem ter seu espaço na sociedade brasileira. Percebemos uma grande contradição na política indigenista atual: uma parte minoritária do Estado (governo) que tenta adotar o discurso e a prática em favor dos povos indígenas e a outras majoritária que ao contrário, adota discursos e práticas anti-indígenas.


SITUAÇÃO ATUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

Portal EBC: Como você vê a atual situação dos indígenas brasileiros? O que precisa mudar?

Gesem: Hoje os povos indígenas do Brasil passam por uma situação muito difícil e ruim, com violações constantes aos seus direitos e com a crescente violência física e de morte que sofrem. Os dez anos seguintes à promulgação da CF de 1988 foram de gradativo processo de conquistas de direitos concretos (demarcação de terras, educação escolar, organização social e participação política) mas, os últimos três anos foram de estagnação com forte tendência de retrocesso sem precedentes para os povos indígenas.  A leitura que faço é que o Estado (comandado pelas elites políticas e econômicas) se arrependeu de reconhecer os direitos indígenas e agora faz de tudo para, em primeiro plano, violar esses direitos e em segundo plano, anular ou reduzir esses direitos. Ou é isso, ou o Estado está assumindo sua incapacidade e incompetência para garantir os direitos dos povos indígenas. As políticas existentes são completamente insatisfatórias. Estão sempre voltadas para resolver ou minimizar problemas acumulados. As políticas indigenistas continuam sendo autoritárias, paternalistas e tutelares. Embora o Brasil tenha adotado a Convenção 169 da OIT, há anos, até hoje ela não foi regulamentada. Neste sentido, um plano indigenista moderno precisa superar seriamente a visão imediatista, autoritária e de descaso institucional. Precisa ser construído um plano transparente e participativo de curto, médio e longo prazo, com metas, objetivos e condições claros de implementação. O mais importante é o plano indigenista ser do Estado e não apenas de um governo ou do órgão indigenista.

Portal EBC: Que ações merecem destaque na atual política indigenista?

Gersem: É importante reconhecer que nos últimos houve esforços e tentativas do governo federal em avançar nas políticas de atendimento voltadas para os povos indígenas, principalmente após o fim do monopólio da política indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), no início da década de 1990. O Ministério da Saúde tem se esforçado para tentar responder às demandas indígenas. O Ministério do Meio Ambiente iniciou experiências inovadoras ainda no final da década de 1990 em apoio técnico e financeiro para projetos socioeconômicos alternativos e autossustentáveis de comunidades indígenas na Amazônia. O Ministério da Educação empreendeu esforços junto aos estados e municípios em busca de melhorias no atendimento escolar às aldeias indígenas. Sem dúvida que essas experiências das últimas duas décadas lograram avanços e êxitos parciais e de algum modo contribuíram para a recuperação da autoestima e de esperança no futuro dos povos indígenas, expressa por meio do crescimento demográfico desses povos que está se aproximando de um milhão de indígenas no país (considerando que na década de 1960 chegaram à cifra de 200.000 indígenas) e da presença cidadã dos indígenas na vida do país. As experiências revelaram também questões preocupantes, como as limitações do Estado no atendimento aos direitos e anseios indígenas. Os gestores e técnicos de ministérios bem que tentaram avançar nas políticas voltadas aos povos indígenas, mas percebe-se atualmente o limite dessas possibilidades, diante do contexto político e econômico do país. Essas possibilidades esbarram na falta de vontade política dos dirigentes maiores em dar relevância às questões indígenas. Sem determinação política o tema nunca entra na lista de prioridades do governo e, por isso, as instâncias e estruturas que atuam junto a esses povos estão sempre esvaziadas, desestruturadas e desqualificadas, sem recursos financeiros, sem equipes e sem condições administrativas. Deste modo fica difícil assegurar os direitos indígenas que ficam a mercê dos interesses econômicos anti-indígenas. Muitas vezes parece que o governo se presta a servir aos interesses desses grupos.

Portal EBC: Como você avalia o trabalho da Funai hoje?

Gersem: Nos últimos dez anos a Funai tem se esforçado para estar ao lado dos povos indígenas no enfrentamento dos problemas existentes nas aldeias, mas é um órgão do Estado e dos governos, portanto, dominada pela incapacidade e ineficiência institucional. É um órgão com eminência de falência institucional, por ausência de força e crédito político, falta de recursos humanos, equipe reduzida e mal preparada, e com infraestrutura arcaica. É evidente o processo de sucateamento e enfraquecimento do órgão nos últimos anos, na mesma proporção em que as oligarquias econômicas e políticas nos municípios e Estados se organizaram e se fortaleceram contra os direitos indígenas. O enfraquecimento da Funai é o mais claro exemplo do descompromisso do governo e do Estado para com a defesa e garantia dos direitos indígenas no país. Com isso, os povos indígenas cada vez mais estão à mercê e se tornam reféns de municípios, estados e grupos políticos e econômicos hostis aos direitos indígenas. Isso deixa claro também a necessidade de reorganização e fortalecimento do papel do governo federal na defesa e garantia desses direitos.

Portal EBC: Como você vê a atual atenção à saúde prestada aos indígenas?

Gersem: A política de saúde indígena no Brasil é a que mais se esforçou na busca por um plano mais adequado para o atendimento aos povos indígenas que teve início com a implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI´s), enquanto uma etnoterritorialização do atendimento, o que é uma ideia inovadora com grandes possibilidades. No entanto, tem sofrido como todas as demais políticas indigenistas das profundas contradições e irracionalidades da política e da administração pública brasileira. Recentemente foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena, como resultado de décadas de luta dos povos indígenas, mais uma iniciativa relevante e, no entanto, foi neutralizada pelos gargalos administrativos homogêneos da burocracia estatal pensada para atender as realidades dos centros urbanos. Sem equipes e sem condições logísticas adequadas, a política de saúde indígena está sendo um pesadelo para a saúde dos povos indígenas. O mesmo acontece no campo das políticas de educação escolar indígena, principalmente em regiões da Amazônia e do Nordeste, onde construções de infraestrutura e transporte logístico básicas não são possíveis de serem resolvidas pelos irracionais procedimentos licitatórios. O mesmo acontece com a falta de recursos humanos qualificados para atuar nas aldeias ou próximo às aldeias, pois as formas de contratação, temporárias ou de carreira, não são adequadas, pois dificilmente profissionais qualificados se dispõem a trabalhar nas aldeias com baixos salários pagos pelo poder público.

Portal EBC: Como você vê a situação dos indígenas isolados e recém-contatados?
Gersem: Entendo que esses povos apresentam consciência sobre a situação de não estabelecerem contato permanente com a sociedade nacional e por isso devem ser respeitados nessa decisão. Neste sentido, cabe ao Estado protegê-los, criar condições de proteção sem ação interventiva ou esforço para estabelecer contato, pois estes povos fazem parte da nação brasileira, ainda que desconhecidos da população majoritária.


PRESSÕES SOFRIDAS POR POVOS INDÍGENAS

Portal EBC: Quais são as maiores pressões sofridas pelos indígenas brasileiros? Quais são os agentes dessas pressões?

Gersem: Na atualidade, as maiores pressões aos povos indígenas vêm dos grupos ruralistas e mineradores do país além, é claro, dos próprios agentes do Estado e das grandes construtoras interessados pelos territórios indígenas e principalmente pelos recursos naturais neles existentes. As principais ameaças vêm das elites econômicas, principalmente ruralistas, na medida em que estão, a todo custo, espoliando as terras indígenas. É importante afirmar que não é possível garantir a continuidade etnocultural dos povos indígenas sem a garantia territorial. Mas não podemos esquecer a outra ameaça que vem das igrejas religiosas, que estão realizando, verdadeiros massacres culturais por meio de suas imposições doutrinárias em detrimento das culturas e valores indígenas.

Portal EBC: De que forma essas pressões podem ser aliviadas?

Gersem: Primeiro, a partir de um ordenamento territorial, respeitando-se os direitos constitucionais dos povos indígenas. No Brasil, é necessário se criar o hábito e a cultura de se respeitar as leis e o Estado ou governos precisam criar vontade e capacidades para exerceram o poder para zelar pelo cumprimento das leis, indistintamente de classes, grupos sociais ou credos. Segundo, é necessário respeitar a legislação nacional e internacional que asseguram a participação e a consulta prévia e qualificada aos povos indígenas em qualquer projeto ou programa governamental que lhes afetem. Em terceiro lugar, o que é mais importante é a superação do preconceito histórico sobre os povos indígenas de que são empecilhos para o desenvolvimento do país e a superação do racismo que considera os povos indígenas como atrasados ou não civilizados. Não é possível pensar o Brasil desenvolvido e civilizado enquanto não aprender a respeitar e valorizar um dos seus três pilares étnicos, que formaram o povo e a nação brasileira, que são os povos indígenas ou povos originários.

Portal EBC: As grandes obras como a construção de hidrelétricas e rodovias também ameaçam os povos indígenas?

Gersem: Sem dúvida, depois da luta pela terra as construções de grandes obras ameaçam seriamente a vida presente e futura dos povos indígenas, na medida em que afetam diretamente os ecossistema dos territórios indígenas que são fundamentais para a sobrevivência física e cultural. É importante destacar que os povos indígenas precisam integralmente de seus territórios, enquanto ecossistemas integrados e abrangentes para perpetuarem suas culturas, tradições, seus conhecimentos e seus modos de vida.

Portal EBC: Qual a sua opinião sobre a recente militarização nessas grandes obras, como a presença da Força Nacional no Complexo Tapajós?

Gersem: Acho completamente desnecessária e mostra claramente a atitude arbitrária e autoritária do governo. Mostra ainda total falta de sensibilidade e capacidade de diálogo com o movimento social indígena. E o que mais assusta com essa atitude do governo é a possibilidade de que o governo esteja radicalmente decidido a seguir o discurso de em nome do “relevante interesse público” passar por cima dos povos indígenas, ou seja, mais uma vez os povos indígenas podem pagar com suas vidas o suposto bem estar da sociedade majoritária e pode no futuro próximo estimular instabilidade social nas regiões e no país. Um diálogo franco, transparente e democrático com os interessados deveria ser instituído para mediar e solucionar conflitos de interesses. Nem sempre a força física e militar é a melhor solução para muitos casos.

Portal EBC: A lei 5.371 diz que a Funai deve exercer o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. Como você vê a questão do poder de polícia conferido à Funai? A instituição deve ter autonomia ou deve recorrer a outros órgãos de segurança pública?

Gersem: Em primeiro lugar não tenho nada contra o poder de polícia da Funai, mas acho isso completamente inviável pelas condições em que o órgão se encontra: enfraquecido, desestruturado e principalmente sem equipe qualificada. Em segundo lugar, é importante considerar o papel do estado brasileiro na defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas e, para isso, dispõe de vários instrumentos e mecanismos institucionais, como Ministério Público, a Polícia Federal e a Força Nacional e outros órgãos. Não acredito que somente uma Funai armada irá resolver os problemas dela e dos povos indígenas, mas sim um plano indigenista sério, forte e eficiente, com o peso e a responsabilidade do Estado e dos governos.

Portal EBC: Um delegado da Polícia Federal da Delegacia Vilhena, em Rondônia, sugeriu que a Funai fizesse a regularização quanto ao porte de armas de fogo por parte dos servidores. Você é contra ou a favor do porte de armas por funcionários da instituição?

Gersem: Em primeiro lugar sou contra porte de armas para qualquer cidadão que não represente órgãos de segurança pública, de modo que os funcionários da Funai só deveriam portar armas caso eles exerçam poder de polícia, caso contrário sou completamente contra.


PERSPECTIVAS PARA O INDIGENISMO BRASILEIRO

Portal EBC: Na sua opinião, qual é a maior urgência do indigenismo brasileiro?

Gersem: A maior urgência é a definição clara de uma política indigenista para o país com metas de curto, médio e longo prazo. Uma política que estabeleça com clareza o lugar dos povos indígenas na nação brasileira. E para mostrar compromisso e seriedade com esta política é fundamental a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas que expresse este plano indigenista de curto, médio e longo prazo de forma articulado. O governo federal precisa assumir a responsabilidade pela defesa e proteção dos direitos desses povos, conforme determina a Constituição Federal. Só uma atuação exemplar do governo federal pode tirar os povos indígenas das mãos sanguinárias das elites econômicas, principalmente ruralistas.

Portal EBC: Quais são as perspectivas futuras para o indigenismo brasileiro?

Gersem: De muita angústia, muita dúvida e muita luta na tentativa de evitar que mais uma onda de genocídios volte a ser executada no Brasil. A esperança está em uma geração de jovens indígenas que estão se formando nas academias brasileiras e que ao longo dos próximos anos vão estar assumindo a liderança de suas aldeias e seus povos e, em muitos casos, também ocupando espaços nos órgãos da administração pública e nos poderes constituídos do país e que podem propor e construir novas alternativas de resistência e sobrevivência dos povos indígenas do Brasil. O grande desafio dessa nova geração de lideranças indígenas é domesticar a hostilidade, a ambição, a vaidade e o senso de tirania dos grupos políticos e econômicos que dominam as estruturas e as políticas do Estado e dos governos. Mas tenho certeza que os povos indígenas continuarão sua histórica luta de resistência mas também de fé por dias melhores em mundos melhores.

Edição: Leyberson Pedrosa

O novo velho Mano Brown (Revista Fórum)

10/04/2013 2:44 pm

Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez

“A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso”

“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.

A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”

O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”

Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”

Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?

Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.

O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.

Fórum – Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?

Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.

Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.

Fórum – E quem está matando nas periferias?

Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.

Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…

Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.

Fórum – Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?

Brown – Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.

A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.

“Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra”

Fórum – Um cenário de guerra, mesmo.

Brown – É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.

Fórum – Você entende isso como uma reação da elite?

Brown – Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…

Fórum – E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…

Brown – Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?

Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.

Fórum – Será que o povo leu isso desse jeito?

Brown – Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.

“O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir”

Fórum – Qual a sua opinião sobre o PCC?

Brown – O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.

Fórum – Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?

Brown – Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.

Fórum – Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.

Brown – Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.

Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.

Fórum – Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia. 

Brown – É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.

Fórum – Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse? 

Brown – O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.

Fórum – “Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?

Brown – Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas faltam um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.

Fórum – Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?

Brown – Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.

“Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica”

Fórum – Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?

Brown – O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.

Fórum – Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.

Brown – Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.

“Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê?”

Fórum – Você nunca pensou em se envolver com política?

Brown – Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.

Fórum – No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?

Brown – Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.

Fórum – Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?

Brown – Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.

Fórum – E o Marighella, como você chegou a ele?

Brown – Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.

Fórum – Você se surpreendeu com a história dele? 

Brown – Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.

Fórum – E religião, você tem proximidade com alguma delas?

Brown – Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?

O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.

Fórum – As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…

Brown – Já foram mais.

Fórum – Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo? 

Brown – O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.

Fórum – E o que mudou?

Brown – O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?

Fórum – Eles nunca tentaram chegar em você?

Brown – Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.

“Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom”

Fórum – Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?

Brown – Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.

Fórum – O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?

Brown – Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.

Fórum – Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?

Brown – O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.

Fórum – Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?

Brown – Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.

Fórum – A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…

Brown – Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.

Fórum – Sua relação com o Lula sempre foi forte.

Brown – É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.

Fórum – E você ainda tem simpatia pelo PT?

Brown – Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.

Fórum – Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?

Brown – Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.

Fórum – Quantos discos o Racionais vendeu?

Brown – Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.

Fórum – O que você pensa da pirataria?

Brown – Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.

Fórum – Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?

Brown – Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.

Fórum – E essas novas ideias…

Brown – Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.

Fórum – Você gosta de polêmicas, Brown?

Brown – O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.

Fórum – Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia. 

Brown – A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.

Fórum – Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?

Brown – Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.

Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?

“Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir”

Fórum – Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?

Brown – O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.

Fórum – O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?

Brown – Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.

Fórum – Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?

Brown – Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.

Fórum – Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?

Brown – A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.

Fórum – E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.

Brown – Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.

Fórum – E o Neymar?

Brown – O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano. F

Agradecemos à Produtora Boogie Naipe pela colaboração

Multiplying the Old Divisions of Class in Britain (N.Y.Times)

By SARAH LYALL

Published: April 3, 2013

LONDON — Class in Britain used to be a relatively simple matter, or at least it used to be treated that way. It came in three flavors — upper, middle and working — and people supposedly knew by some mysterious native sixth sense exactly where they stood. As the very tall John Cleese declared to the less-tall Ronnie Corbett in the famous 1966 satirical television sketch meant to illustrate class attitudes in Britain — or, possibly, attitudes toward class attitudes — “I look down on him, because I am upper class.”

From left: John Cleese, Ronnie Barker and Ronnie Corbett in a video still from a satirical British TV sketch illustrating class. And height.

It is not as easy as all that, obviously. The 2010 election was enlivened at one point by a perfectly serious discussion of whether David Cameron, now the prime minister, counted as upper upper-middle class, or lower upper-middle class. But on Wednesday, along came the BBC, muddying the waters with a whole new set of definitions.

Having commissioned what it called The Great British Class Survey, an online questionnaire filled out by more than 161,000 people, the BBC concluded that in today’s complicated world, there are now seven different social classes. (“As if three weren’t annoying enough,” a woman named Laura Phelps said on Twitter.) These range from the “elite” at the top, distinguished by money, connections and rarefied cultural interests, to the “precariat” at the bottom, characterized by lack of money, lack of connections and unrarefied cultural interests.

That might sound kind of familiar, but Fiona Devine, a sociologist who helped devise the study, said, “It’s what’s in the middle which is really interesting and exciting.”

The middle categories, as the study defines them, include the “technical middle class,” a group that has a lot of money but few superior social connections or cultural activity; the “emergent service workers,” a young, urban group that has little money but a high amount of social and cultural capital; and the “new affluent workers,” who score high on social and cultural activity, but have only a middling amount of money.

“There’s a much more fuzzy area between the traditional working class and the traditional middle class,” Ms. Devine, a professor of sociology at Manchester University, said in remarks accompanying the research. “The survey has really allowed us to drill down and get a much more complete picture of class in modern Britain.”

Not everyone sees it that way. In a country that is not sure whether it is (a.) obsessed with class, or (b.) merely obsessed with whether it is as obsessed about class as it used to be (if it ever really was), the survey got widespread attention. But some Britons thought the researchers had not considered the correct criteria.

“There are only two classes: those with tattoos, and those without,” said one Daily Mail reader, commenting on the paper’s article about the new categories.

Another wrote: “What are they called in ‘Brave New World’? Alphas, Betas, Gammas and Epsilons? That’s well on the way to becoming a factual book. We already have most of the population on ‘Soma,’ ” a reference to the antidepressant in the book.

The study was published in the journal Sociology and conducted by Ms. Devine in conjunction with Mike Savage, a professor of sociology at the London School of Economics, and the BBC Lab UK.

Throwing out the old formula by which class was defined according to occupation, wealth and education, it created in its place a definition calculated according to “economic capital,” which includes income and savings; “social capital,” which refers to whom one knows from among 37 different occupations; and “cultural capital,” which is defined as the sorts of cultural interests one pursues, from a list of 27.

In the 1950s, the author Nancy Mitford argued that it was possible to tell which class people were in — upper class (“U”) or not upper class (“non-U”) — according to their choice of vocabulary. U-speakers said “rich” and “jam,” she observed, while non-U speakers said “wealthy” and “preserves,” among other things.

(“Almost everyone I know has some personal antipathy which they condemn as middle class quite irrationally,” Evelyn Waugh wrote in response. “My mother-in-law believes it is middle class to decant claret.”)

Mitford was being mischievous, except that she kind of wasn’t, since she was describing the way people actually spoke. In conjunction with today’s study, the BBC offered a modern adaptation of the Mitford test, a handy do-it-yourself online class calculator.

In their report, the researchers acknowledged that their Web survey showed a large amount of bias, in that the type of people who filled it out were the type of people inclined to fill out BBC surveys (well educated, and 90 percent white, for instance). So they conducted a separate face-to-face survey of 1,026 nationally representative people and then combined the two sets of results, arriving at the seven categories.

Cary L. Cooper, a professor at Lancaster University and the chairman of the Academy of Social Sciences, said that what he found intriguing was not what the study said about different social categories, but rather what it said about people’s desire to place themselves in one or another such category .

“People love filling in questionnaires,” Mr. Cooper said in an interview. “From a psychologists’ point of view, it’s very interesting that they love to pigeonhole themselves — ‘I am that kind of person,’ ‘No matter what people like to say, I am an X.’ ”

Britain remains a “status-conscious society,” he said, especially at times of social and economic insecurity. He attributed the public’s love of “Downton Abbey” and other class-related nostalgic entertainment to a yearning for a time when things were simpler, when “even though there was a rigid class system, at least it was stable.”

Back on the Daily Mail Web site, readers continued to debate the conclusions, and the limitations, of the BBC research.

“I couldn’t find ‘awesome’ class,” one commenter complained.

Another wrote: “What rubbish. Only three classes, working, middle and wealthy. You either have money, no money or some money.”