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Concluído primeiro recenseamento de nuvens do Brasil (Fapesp)

01 de dezembro de 2014

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Para conseguir prever com precisão eventos extremos, como tempestades, ou simular cenários de impactos das mudanças climáticas, é preciso avançar no conhecimento dos processos físicos que ocorrem no interior das nuvens e descobrir a variação de fatores como o tamanho das gotas de chuva, a proporção das camadas de água e de gelo e o funcionamento das descargas elétricas.

Com esse objetivo, uma série de campanhas para coleta de dados foi realizada entre 2010 e 2014 em seis cidades brasileiras – Alcântara (MA), Fortaleza (CE), Belém (PA), São José dos Campos (SP), Santa Maria (RS) e Manaus (AM) – no âmbito de um Projeto Temático FAPESP coordenado por Luiz Augusto Toledo Machado, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Essas campanhas contaram com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de diversas faculdades de Meteorologia no Brasil, que sediaram os experimentos.

Os principais resultados da iniciativa, conhecida como “Projeto Chuva”, foram descritos em um artigo de capa do Bulletin of the American Meteorological Society, revista de grande impacto na área de meteorologia.

Segundo Machado, as regiões escolhidas para a pesquisa de campo representam os diferentes regimes de precipitação existentes no Brasil. “É importante fazer essa caracterização regional para que os modelos matemáticos possam fazer previsões em alta resolução, ou seja, em escala de poucos quilômetros”, disse o pesquisador.

Um conjunto comum de instrumentos – que inclui radares de nuvens de dupla polarização – foi usado nos diferentes sítios de forma que as medidas pudessem ser comparadas e parametrizadas para modelagem.

O radar de dupla polarização, em conjunto com outros instrumentos, envia ondas horizontais e verticais que, por reflexão, indicam o formato dos cristais de gelo e das gotas de chuva, ajudando a elucidar a composição das nuvens e os mecanismos de formação e intensificação das descargas elétricas durante as tempestades. Também foram coletados dados como temperatura, umidade e composição de aerossóis.

Além disso, experimentos adicionais distintos foram realizados em cada uma das seis cidades. No caso de Alcântara, onde a coleta de dados ocorreu em março de 2010, o experimento teve como foco o desenvolvimento de algoritmos de estimativa de precipitação para o satélite internacional Global Precipitation Measurement (GPM) – lançado em fevereiro de 2014 pela Nasa (a agência espacial americana) e pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (Jaxa).

“Naquela região, o grande desafio é conseguir estimar a precipitação das chamadas nuvens quentes, que não têm cristais de gelo em seu interior. Elas são comuns na região do semiárido nordestino”, explicou Machado.

Por não abrigarem gelo, a chuva dessas nuvens passa despercebida pelos sensores de micro-ondas que equipam os satélites usados normalmente para medir a precipitação, resultando em dados imprecisos.

As medições de nuvens quentes feitas por radar em Alcântara, comparadas com as medições feitas por satélite, indicaram que os valores de volume de água estavam subestimados em mais de 50%.

Em Fortaleza, onde a coleta foi feita em abril de 2011, foi testado em parceria com a Defesa Civil um sistema de previsão de tempestades em tempo real e de acesso aberto chamado Sistema de Observação de Tempo Severo (SOS Chuva).

“Usamos os dados que estavam sendo coletados pelos radares e os colocamos em tempo real dentro de um sistema de informações geográficas. Dessa forma, é possível fazer previsões para as próximas duas horas. E saber onde chove forte no momento, onde tem relâmpago e como a situação vai se modificar em 20 ou 30 minutos. Também acrescentamos um mapa de alagamento, que permite prever as regiões que podem ficar alagadas caso a água suba um metro, por exemplo”, contou Machado.

A experiência foi tão bem-sucedida, contou o pesquisador, que a equipe decidiu repeti-la nas campanhas realizadas posteriormente. “O SOS Chuva contribui para diminuir a vulnerabilidade da população a eventos extremos do clima, pois oferece informações não apenas para os agentes da Defesa Civil como também para os cidadãos”, disse.

Em junho de 2011 foi realizada a campanha de coleta de dados em Belém, onde os pesquisadores usaram uma rede de instrumentos de GPS para estimar a quantidade de água na atmosfera. Os resultados devem ser publicados em breve. Também foram lançados balões meteorológicos capazes de voar durante 10 horas e coletar dados da atmosfera. “O objetivo era entender o fluxo de vapor d’água que vem do Oceano Atlântico que forma a chuva na Amazônia”, contou Machado.

Entre novembro de 2011 e março de 2012, foi realizada a campanha de São José dos Campos, cujo foco era estudar os relâmpagos e a eletricidade atmosférica. Para isso, foi utilizado um conjunto de redes de detecção de descargas elétricas em parceria com a Agência de Pesquisas Oceânicas e Atmosféricas (NOAA), dos Estados Unidos, e a Agência Europeia de Satélites Meteorológicos (Eumetsat).

“Foram coletados dados para desenvolver os algoritmos dos sensores de descarga elétrica dos satélites geoestacionários de terceira geração, que ainda serão lançados pela NOAA e pela Eumetsat nesta década. Outro objetivo era entender como a nuvem vai se modificando antes que ocorra a primeira descarga elétrica, de forma a prever a ocorrência de raios”, contou Machado.

Em Santa Maria, entre novembro e dezembro de 2012, foram testados, em parceria com pesquisadores argentinos, modelos matemáticos de previsão de eventos extremos. Segundo Machado, a região que abrange o sul do Brasil e o norte da Argentina que ocorrem as tempestades mais severas do mundo.

“Os resultados mostraram que os modelos ainda não são precisos o suficiente para prever com eficácia a ocorrência desses eventos extremos. Em 2017, faremos um novo experimento semelhante, chamado Relâmpago, no norte da Argentina”, contou Machado.

GOAmazon

As duas operações intensivas de coleta de dados realizadas em Manaus – a primeira entre fevereiro e março de 2014 e a segunda entre setembro e outubro do mesmo ano – ainda não haviam ocorrido quando o artigo foi submetido à publicação.

A campanha foi feita no âmbito do projeto Green Ocean Amazon e contou com dois aviões voando em diferentes alturas para acompanhar a pluma de poluição emitida pela região metropolitana de Manaus. O objetivo era avaliar a interação entre os poluentes e os compostos emitidos pela floresta, bem como seu impacto nas propriedades de nuvens (leia mais em http://agencia.fapesp.br/avioes_sobrevoam_a_amazonia_por_quase_200_horas_para_medir_impacto_da_poluicao/20150/). Os dados ainda estão em fase de análise.

Ao comentar as principais diferenças encontradas nas diversas regiões brasileiras, Machado destaca que as regiões Sul e Sudeste são as que apresentam gotas de chuva de tamanhos maiores e uma camada mista, na qual há água no estado líquido e sólido, mais desenvolvida. Essa é, segundo o pesquisador, a principal razão da maior incidência de descargas elétricas nesses locais.

Já as nuvens da Amazônia apresentam a camada de gelo no topo – acima de 20 quilômetros de altura – mais bem desenvolvida que a de outras regiões. As regiões litorâneas, como Alcântara e Fortaleza, apresentam em maior quantidade as chamadas nuvens quentes, nas quais quase não há descargas elétricas.

“Foi o primeiro recenseamento de nuvens feito no Brasil. Essas informações servirão de base para testar e desenvolver modelos capazes de descrever em detalhes a formação de nuvens, com alta resolução espacial e temporal”, concluiu o pesquisador.

Record Drought Reveals Stunning Changes Along Colorado River (National Geographic)

A boat traces the curves of Reflection Canyon, part of Glen Canyon.

A boat wends its way around the curves of Reflection Canyon, part of Lake Powell in Glen Canyon. The “bathtub rings” on the walls show past water levels.

PHOTOGRAPH BY MICHAEL MELFORD, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Jonathan Waterman

for National Geographic

PUBLISHED NOVEMBER 23, 2014

LAKE POWELL, Utah—In early September, at the abandoned Piute Farms marina on a remote edge of southern Utah’s Navajo reservation, we watched a ten-foot (three-meter) waterfall plunging off what used to be the end of the San Juan River.

Until 1990, this point marked the smooth confluence of the river with Lake Powell, one of the largest reservoirs in the U.S. But the lake has shrunk so much due to the recent drought that this waterfall has emerged, with sandy water as thick as a milkshake.

My partner DeEdda McLean and I had come to this area west of Mexican Hat, Utah, to kayak acrossLake Powell, a reservoir formed by the confluence of the San Juan and the Colorado Rivers and the holding power of Glen Canyon Dam, which lies just over the border in Arizona. Yet in place of a majestic reservoir, we saw only the thin ribbon of a reemergent river channel, which had been inundated for most of the past three decades by the lake. We called this new channel the San Powell, combining the name of the river and the lake.

Map of the Lake Mead and Lake Powell regions.

VIRGINIA W. MASON, NG STAFF SOURCE: BUREAU OF RECLAMATION, NATIONAL PARK SERVICE

We had also come to see firsthand how drought is changing the landscapes of the desert Southwest. Here, judging by the lack of conservation reform, water has seemed to be largely taken for granted. But our recent float suggests that profound changes may be in store for the region. (See “The American Nile.”)

Sweating in the desert heat, we loaded our 15-foot (5-meter) kayaks with two weeks’ worth of food and ten gallons of water—enough to last us two days. Drinking from the silty river or fecal-contaminated areas of Lake Powell frequented by houseboats was not an option (Glen Canyon Recreation Area, which includes the reservoir, is visited by more than two million people a year). The contours of our journey—where we camped, our hiking destinations, and how far we paddled each day—would be defined by the need to find potable springs.

Like bicyclists shunning the interstate, many kayakers have avoided Lake Powell ever since the builders of Glen Canyon Dam finished flooding 186 miles (300 kilometers) of the Colorado River Valley in 1980. The reservoir was named after John Wesley Powell, the National Geographic Society co-founder who first paddled most of the Colorado River and who later, in public office, tried to limit population growth in the arid Southwest. The dams and the enormous reservoirs that were later built in the desert would have horrified him.

Motorboaters call Powell’s lake the “Jewel of the Colorado” because of its unnatural emerald hue—Glen Canyon Dam now captures the silt that used to make the Colorado, after its confluence with the San Juan, the most colorful river in the West. Paddlers call it “Lake Foul” for the noise and stench of outboard engines.

Photo of Lake Powell in 2011.

In 2011, Lake Powell contained plenty of water.
PHOTOGRAPH BY JON WATERMAN

“Extreme” Drought

According to the U.S. Drought Monitor, 11 of the past 14 years have been drought years in the Southwest, with the drought ranging from “severe” to “extreme” to “exceptional,” depending on the year and the area.

At “full pool,” Lake Powell spans 254 square miles (660 square kilometers)—a quarter the size of Rhode Island. The lightning bolt-shaped canyon shore stretches 1,960 miles (3,150 kilometers), 667 miles (1,073 kilometers) longer than the West Coast of the continental United States.

The reservoir serves multiple purposes. It stores water from the Upper Basin states of Wyoming, Utah, New Mexico, and Colorado so that the Lower Basin states of California, Nevada, and Arizona can receive their allotted half of the Colorado River; it creates electricity through hydro-generators at Glen Canyon Dam; and it helps prevent flooding below Hoover Dam (240 miles or 390 kilometers downstream), the site of North America’s largest reservoir, Lake Mead.

11 of the past 14 years have been drought years in the Southwest.

The irony, as most students of this river’s history now know, is that the U.S. Bureau of Reclamation created these enormous reservoirs during the wettest period of the past millennium. According to modern tree-ring data (unavailable during the dam-building epoch), the previous millennium experienced droughts much more severe than those in the first 14 years of the 21st century. Many climate scientists think the Southwest is again due for a megadrought. The Bureau of Reclamation’s analysis of over a hundred climate projections suggests the Colorado River Basin will be much drier by the end of this century than it was in the past one, with the median projection showing 45 percent less runoff into the river.

Last winter was snowy in the Rockies, and runoff was at 96 percent of the historical average. Because of the previous years of drought, however, Lake Powell had risen to only half full by fall.

But Lake Mead was in even worse shape. This year it plunged to 39 percent of capacity, a low that has not been matched since Hoover Dam began backing up the Colorado River in 1935. In August, the Bureau of Reclamation announced that Lake Powell would release an additional 10 percent of its waters, or 2.5 trillion gallons, to Lake Mead. That release will lower the water in Lake Powell by about three feet (one meter).

Photo of Lake Powell in 2014.

By 2014, Lake Powell was full of plant life and silt.
PHOTOGRAPH BY JON WATERMAN

Rise of Ancient Ruins?

Fifty miles (80 kilometers) up from the Colorado River confluence, on what is commonly known as the San Juan River Arm of Lake Powell, we kept poking our paddles-cum-measuring sticks toward the shallow river bottom, shouting: “Good-bye, reservoir! Hello, San Powell River!” In a four-mile-per-hour, opaque current, always hunting for the deepest river braids, we breezed past fields of still-viscous, former lake-bottom silt deposits. Stepping out of the boat here would have been an invitation to disappear in quicksand.

We paddled downstream, looking for the edge of the reservoir. We passed caterwauling great blue herons, a yipping coyote, and squawking conspiracies of ravens. By late afternoon, dehydrated by the desert sun, we stopped at one of the few quicksand-free tent sites above the newly emerged river: a sandy yet dry creek bed draining the sacred Navajo Mountain.

We slept in the perfume of blooming nightshades; wild burros brayed throughout the night. Here, more than a dozen miles below our put-in at a marina that once served the reservoir, the swirling “San Powell” River continued to sigh 15 feet (5 meters) below our tent.

In October 2011, when the reservoir was at 70 percent of its capacity, I had stood on a rocky shore above where our tent now stood and photographed Lake Powell’s Zahn Bay here in the San Juan River Valley. It’s dry now, and the lake bottom is a cracked series of chocolate-colored hummocks, surrounded by the invasive Russian thistle and tamarisk, native willows and sunflowers, and pockmarked by burro hooves.

For five days, we wouldn’t see a human footprint or hear the ubiquitous whine of Lake Powell boat traffic.

Half full, the amazing vessel that is Lake Powell has lost 4.4 trillion gallons of water in the recent drought.

By day three, desperate to refill our water bottles, we found a newly created marsh where the river thinned before dropping into the deeper reservoir. Unlike anything I’d experienced elsewhere on the sterile Lake Powell, abundant small fish and aquatic life supported American pelicans, mallards, coots, mergansers, green herons, hawks, and kingfishers. The silty river is also sheltering endangered razorback suckers and pikeminnows that are preyed upon by non-native fish in the clearer waters of the lake.

Within a decade or two at the most, if the drought persists, we can expect to see hundreds of inundated ancient Anasazi ruins rising above the drying reservoir. Archaeologists will be delighted, just as kayakers like us delight at the reemergence of a river. But more than 36 million people in and around the Colorado River Basin depend on this vanishing water.

As we finally reached a body of water wide enough to be properly called the reservoir, many miles below where we had expected to find it, we continued paddling in a chocolate pudding of ground-up river debris. Some 94 feet (29 meters) above our craned heads, on the red sandstone walls of the reservoir, we saw the “bathtub rings”—the stains left by river minerals in wetter times.

That night we did a quick calculation: Half full, the amazing vessel that is Lake Powell has lost 4.4 trillion gallons of water in the recent drought; the deeper vessel of Lake Mead at 39 percent capacity has lost 5.6 trillion gallons of water.

Aerial view looking down on Lake Powell and the Glen Canyon dam.

This aerial view of Lake Powell and Glen Canyon Dam was taken in 2009.
PHOTOGRAPH BY PETER MCBRIDE, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Big Impact

As central California (beyond the reach of Colorado River water) has already been hamstrung by an even more exceptional drought, many farms and dairy operations have shut down, rationing has begun, homeowners are being fined for watering their lawns, and the state has begun relying on finite groundwater supplies. And as extensive farm networks are served by the Colorado River, it is likely that nationwide produce prices will soon begin to rise.

What’s next? As Lakes Powell and Mead continue to plummet, officials are now predicting rationing by 2017 for the junior Colorado River water-rights holders of Nevada and Arizona.

In the decades that follow, invasive flora and fauna will colonize dried-out reservoir bottoms. River running and reservoir boating may end. Those will seem like minor issues compared with the survival of cities like Los Angeles, Denver, Phoenix, and Las Vegas, all of which depend on the Colorado River. There is talk of diverting more water to the Colorado Basin users from places such as the Missouri River. A massive desalination plant is being built on the California coast. But such solutions won’t come cheap.

Officials are now predicting rationing by 2017 for the junior Colorado River water-rights holders of Nevada and Arizona.

We can hope for agricultural reform, such as irrigation changes, more aggressive crop rotation and fallowing, reverting to less water-intensive produce, or dismantling of the water-intensive southwestern dairy industry. And the exponential population growth of the region—as Powell warned at the end of the 19th century—will have to be addressed. (See “Arizona Irrigators Share Water With Desert River.”)

By mid-September, we reached the speedboat-accessible region of Lake Powell. Motorboaters often stopped to ask if we needed help. Many of these boaters offered us iced beer or bottled water imported from distant regions of the country.

Each day, for 14 days, except during two violent but brief rainstorms, the temperature climbed into the 90s. Often dizzy, and even exhausted from the heat, we parceled out our water, cup by cup, consuming over four gallons daily. And every other day, we walked or paddled miles out of our way so that we could enact a time-honored practice of desert cultures like the Anasazi’s, which vanished in the 13th-century megadrought.

Every other day, we uncapped our empty bottles while honoring this ritual of aridity: Bowing under shaded cliffs at moss-covered seeps, we pressed our lips onto cold sandstone walls and drank those precious drops until our bellies were full.

Jonathan Waterman is a writer and photographer based in Colorado. In 2010 National Geographic published his book Running Dry: A Journey From Source to Sea Down the Colorado River. He is also the co-author, with Pete McBride, of The Colorado River: Flowing Through Conflict.See his previous work “The American Nile.”

Get involved with the effort to restore the Colorado River throughChange the Course, a partnership of National Geographic and other organizations.

O Brasil secou (Super Interessante)

A falta d’água se alastrou pelo país, sintoma das mudanças climáticas e do desmatamento na Amazônia, cada vez mais debilitada. Nos aproximamos de um futuro desértico — e a culpa é toda nossa

por Camila Almeida

Novembro 2014

Em 2014, não choveu. Pelo menos não quanto deveria. Os índices de chuvas apresentam déficit, os reservatórios minguaram a percentuais críticos, a nascente do Rio São Francisco secou pela primeira vez na história. Esses eventos extremos estavam previstos pelos estudiosos das mudanças climáticas, causadas quase exclusivamente pela atividade humana, especialmente pela queima de combustíveis fósseis. Mas outro fator está agravando esse quadro: o desmatamento. A Amazônia é a responsável por manter úmido todo o continente, e sua depredação influencia diretamente no clima.

A floresta funciona como uma fábrica de chuvas. Por cima das nossas cabeças, há imensos rios seguindo seu curso, levando nuvens carregadas por onde passam. São os rios voadores, que começaram a ser estudados em 2006, numa parceria entre o aviador francês Gérard Moss e o engenheiro agrônomo Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Sobrevoando a Amazônia, eles descobriram todo o seu potencial de bombeamento de água e traçaram o curso que os rios voadores seguem pelo País. Esta capacidade da floresta de exportar umidade é um dos cinco segredos da floresta, poeticamente explicados no relatório O Futuro Climático da Amazônia, publicado recentemente por Nobre.

Nossa água vem da Amazônia
Entenda o processo de transpiração da floresta e a formação das nuvens sobre ela. Ao lado, conheça o percurso dos rios voadores e como eles levam chuvas por todo o continente.

O fluxo dos rios voadores é mais intenso no verão, estação em que chove na maior parte do País. Isso acontece graças à inclinação da Terra nesta época do ano, que favorece a entrada dos ventos marítimos na América do Sul. Mas há mais uma vantagem geográfica que garante esse circuito: a Cordilheira dos Andes, localizada a oeste da floresta. O imenso paredão faz com que os ventos não passem direto e deixem o resto do Brasil sem umidade. De acordo
com o físico Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), é no
começo do ano que os rios voadores reabastecem as fontes de água e reservatórios brasileiros. Ao se chocarem contra a Serra da Mantiqueira e da Canastra, no Sudeste, enchem a nascente de vários rios importantes, como o São Francisco. “Esta região é a caixa d’água do Brasil”, avalia Fearnside. “Se não chover na época em que tem que chover, os reservatórios
não serão recarregados ao longo do ano”, completa. Esse tem sido o drama em 2014.

Desmatamento que vai, volta 

Poder contar com a maior floresta tropical do mundo, inclusive em relação aos recursos hídricos, é um privilégio. Pouquíssimo valorizado. Nos últimos 40 anos, derrubamos 42 bilhões de árvores. Além disso, devido às queimadas, existe mais de 1 milhão de km² de floresta morta, degradada. O que não se imaginava é que uma revanche em forma de seca chegaria tão rápido. “Hoje, estamos vivendo a reciprocidade da inconsequência”, atesta Nobre. Há mais de 20 anos, estudos alertavam para esse perigo. Em 1991, o climatologista Carlos Nobre, irmão de Antonio e também do INPE, comandou uma simulação para avaliar os impactos no clima da mudança do uso da terra. Constataram que, se a floresta fosse substituída por plantações ou pastagens, a temperatura média da superfície aumentaria cerca de 2,5 ºC, a evapotranspiração das plantas diminuiria 30% e as chuvas cairiam 20%. Também se previa uma ampliação das estações secas na área amazônica. Hoje, com quase metade da floresta original danificada, tais efeitos parecem ter vindo à tona.
“O desmatamento zero é para ontem. Chegamos a níveis climáticos críticos. Precisamos começar a replantar o que já perdemos”, aponta Antonio Nobre. Apesar da urgência, as perspectivas não são animadoras. Só na região amazônica, há mais de 40 projetos do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal só no quesito geração de energia. São usinas, barragens e outras medidas que causam inundações e corte de árvores e que afetam diretamente populações indígenas. Os projetos de estradas também são preocupantes. A recuperação da Rodovia Manaus-Porto Velho (BR-319), abandonada desde a década de 1980 por falta de manuntenção, também consta no PAC. De acordo com Philip Fearnside, o projeto é um risco para a Amazônia. “Uma estrada valoriza demais a terra, e especulação gera desmatamento e favorece a grilagem”, explica. O mesmo acontece com a Rodovia Santarém-Cuiabá (BR-163), com mais de 1.700 km de extensão.

“A estrada vai ser recuperada para facilitar o transporte da soja produzida no Mato Grosso”, aponta Fearnside, sobre uma das áreas amazônicas que mais sofrem com o agronegócio. “A terra valoriza tanto que pecuaristas estão vendendo suas terras para produtores de soja do Sul. Por sua vez, isso tem aumentado muito o desmatamento no Pará, com a liberação de terrenos para a criação de gado desses pecuaristas”, critica o especialista. Ele também destaca o fortalecimento da bancada ruralista no Congresso, após as eleições deste ano.

Desmatamento e degradação:

Clima em crise

Neste verão, os rios voadores não avançaram sobre o Sudeste; tampouco as frentes frias. A ilha de calor instalada sobre a região, característica de uma urbanização extrema, cria bloqueios que afastam as chuvas. Por isso, a água esborrou na borda dessa bolha quente, gerando chuvas acima da média no Sul e países vizinhos. Hoje, há registros de seca em todos os Estados brasileiros. Em alguns deles, a seca é “excepcional”, ainda mais grave do que a “extrema”. O quadro já era grave no ano passado, quando o Nordeste viveu a pior seca dos últimos 50 anos, inserindo o Brasil no mapa de eventos climáticos extremos, da Organização Mundial de Meteorologia.

De acordo com o físico especialista em ciências atmosféricas Alexandre Araújo Costa, da Universidade Estadual do Ceará, o agravamento de secas e das cheias está relacionado ao aumento da temperatura na atmosfera. Aquecida, ela se expande, fazendo com que seja necessário reunir mais vapor d’água para formar nuvens. “Esse processo demanda mais tempo, portanto tende a prolongar os períodos de estiagem. Por outro lado, as nuvens se formam a partir de uma quantidade maior de vapor d’água, fazendo com que os eventos de precipitações se tornem mais intensos. Um planeta mais quente é um planeta de extremos”, explica.

Para a filósofa e ecologista Déborah Danowski, que lançou recentemente o livro Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, com seu marido e antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, entramos num caminho sem volta. “A crise climática não pode mais ser evitada. Se cortássemos agora as emissões de CO₂, a Terra ainda iria se aquecer aproximadamente 1 ºC. Isso porque já jogamos no ar uma quantidade tão grande, que muito dele ainda nem foi absorvido”, aponta. O que não quer dizer que não haja muito o que fazer. Para ela, o primeiro passo é repensar os modelos econômicos de crescimento e consumo. “O que nos cabe é tentar mitigar as causas que levam ao aprofundamento das mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, nos adaptar à vida em um mundo mais difícil ecologicamente.”

Estamos todos ilhados
Seja pelo excesso de calor ou pelas enchentes. Mais filosoficamente: não temos saída para o clima. Os eventos extremos parecem estar se tornando uma realidade no Brasil.

Aquecimento global pode minar luta contra a pobreza, alerta Banco Mundial (Carta Capital)

7/11/2014 – 11h38

por Redação da Deutsche Welle

agricola Aquecimento global pode minar luta contra a pobreza, alerta Banco Mundial

Em novo relatório sobre mudanças climáticas, instituição prevê grave impacto na agricultura. No Brasil, a produção de soja pode ser reduzida em 70% até 2050

As mudanças climáticas podem levar a retrocessos nos esforços para derrotar a pobreza extrema em todo o mundo, advertiu o Banco Mundial neste domingo 23, ao divulgar um relatório sobre os impactos do aquecimento global.

No documento, intitulado Reduzam o calor: enfrentando a nova normalidade climática (em tradução livre), o banco afirma que elevações bruscas de temperatura devem reduzir profundamente a produtividade nas lavouras e o abastecimento de água em muitas áreas.

O relatório, que foca em impactos regionais específicos do aquecimento global, prevê efeitos no Brasil. Um aumento de até 2 °C na temperatura média em relação aos tempos pré-industriais levaria a uma redução da produção agrícola do país – de até 70% para a soja e 50% para o trigo em 2050, diz o documento.

O Banco Mundial estima que, em 2050, a temperatura média seja 1,5 °C mais alta do que a registrada na era pré-industrial, com base no impacto das emissões de gases de efeito estufa do passado e atualmente.

“Sem uma ação forte e rápida, o aquecimento poderia exceder 1,5 °C ou 2 °C, e o impacto decorrente poderia piorar significativamente a pobreza intra e intergeracional em várias regiões do mundo”, diz o relatório.

Quanto ao nível do mar, o documento afirma que este continuará subindo por séculos, visto que as grandes capas de gelo da Groenlândia e da Antártica vêm derretendo lentamente. Se as temperaturas se mantiverem nos níveis atuais, os mares subirão 2,3 metros nos próximos 2 mil anos, aponta o estudo.

Entre outros efeitos citados, cidades andinas estariam ameaçadas pelo derretimento de geleiras, e comunidades do Caribe e da costa ocidental da Índia poderiam ver diminuir seus suprimentos de peixes. Na Macedônia, o cultivo de milho, trigo e uva seria reduzido em 50 %.

Ações urgentes

Sem ações coordenadas, o perigo é que o aumento da temperatura média global chegue a 4 °C até o fim do século, um cenário descrito pelo Banco Mundial como “um mundo assustador de aumento de riscos e instabilidade global”.

“Acabar com a pobreza, aumentar a prosperidade global e reduzir a desigualdade no mundo, o que já é difícil, vai ser muito mais difícil com um aquecimento de 2 °C, disse o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim. “Mas com [um aumento de] 4 °C, há sérias dúvidas de que essas metas possam ser alcançadas.”

Os piores efeitos do aquecimento global poderiam ser evitados através da redução das emissões de gases de efeito estufa, reitera o relatório.

Representantes de quase 200 países se reunirão em breve para a próxima Conferência Mundial do Clima. Realizado no Peru entre os dias 1º e 12 de dezembro, o evento tem como objetivo a definição das bases de um acordo global de limitações de emissões de gases do efeito estufa. Espera-se que o acordo seja firmado em Paris em 2015.

NM/afp/rtr

* Publicado originalmente pela Deutsche Welle e retirado do site Carta Capital.

(Carta Capital)

West Antarctic melt rate has tripled in last decade (Science Daily)

Date: December 2, 2014

Source: University of California – Irvine

Summary: A comprehensive, 21-year analysis of the fastest-melting region of Antarctica has found that the melt rate of glaciers there has tripled during the last decade.

UCI and NASA glaciologists, including Isabella Velicogna and Tyler Sutterley, have discovered that the melt rate of glaciers in West Antarctica has tripled, with the loss of a Mt. Everest’s worth of water weight every two years. Credit: Michael Studinger / NASA

A comprehensive, 21-year analysis of the fastest-melting region of Antarctica has found that the melt rate of glaciers there has tripled during the last decade.

The glaciers in the Amundsen Sea Embayment in West Antarctica are hemorrhaging ice faster than any other part of Antarctica and are the most significant Antarctic contributors to sea level rise. This study is the first to evaluate and reconcile observations from four different measurement techniques to produce an authoritative estimate of the amount and the rate of loss over the last two decades.

“The mass loss of these glaciers is increasing at an amazing rate,” said scientist Isabella Velicogna, jointly of the UC Irvine and NASA’s Jet Propulsion Laboratory. Velicogna is a coauthor of a paper on the results, which has been accepted for Dec. 5 publication in the journal Geophysical Research Letters.

Lead author Tyler Sutterley, a UCI doctoral candidate, and his team did the analysis to verify that the melting in this part of Antarctica is shifting into high gear. “Previous studies had suggested that this region is starting to change very dramatically since the 1990s, and we wanted to see how all the different techniques compared,” Sutterley said. “The remarkable agreement among the techniques gave us confidence that we are getting this right.”

The researchers reconciled measurements of the mass balance of glaciers flowing into the Amundsen Sea Embayment. Mass balance is a measure of how much ice the glaciers gain and lose over time from accumulating or melting snow, discharges of ice as icebergs, and other causes. Measurements from all four techniques were available from 2003 to 2009. Combined, the four data sets span the years 1992 to 2013.

The glaciers in the embayment lost mass throughout the entire period. The researchers calculated two separate quantities: the total amount of loss, and the changes in the rate of loss.

The total amount of loss averaged 83 gigatons per year (91.5 billion U.S. tons). By comparison, Mt. Everest weighs about 161 gigatons, meaning the Antarctic glaciers lost a Mt.-Everest’s-worth amount of water weight every two years over the last 21 years.

The rate of loss accelerated an average of 6.1 gigatons (6.7 billion U.S. tons) per year since 1992.

From 2003 to 2009, when all four observational techniques overlapped, the melt rate increased an average of 16.3 gigatons per year — almost three times the rate of increase for the full 21-year period. The total amount of loss was close to the average at 84 gigatons.

The four sets of observations include NASA’s Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) satellites, laser altimetry from NASA’s Operation IceBridge airborne campaign and earlier ICESat satellite, radar altimetry from the European Space Agency’s Envisat satellite, and mass budget analyses using radars and the University of Utrecht’s Regional Atmospheric Climate Model.

The scientists noted that glacier and ice sheet behavior worldwide is by far the greatest uncertainty in predicting future sea level. “We have an excellent observing network now. It’s critical that we maintain this network to continue monitoring the changes,” Velicogna said, “because the changes are proceeding very fast.”


Journal Reference:

  1. Tyler C. Sutterley, Isabella Velicogna, Eric Rignot, Jeremie Mouginot, Thomas Flament, Michiel R. van den Broeke, Jan M. van Wessem, Carleen H. Reijmer. Mass loss of the Amundsen Sea Embayment of West Antarctica from four independent techniquesGeophysical Research Letters, 2014; DOI: 10.1002/2014GL061940

The legacy of Climategate: 5 years later (Climate Etc.)

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by Judith Curry

UPDATE: new email from student that motivated “An open letter . .”

Every year at Thanksgiving, I am reminded of Climategate.

Over the Thanksgiving holiday in 2009, in the midst of extensive email discussions with Andy Revkin and Joe Romm (!), I penned my essay An open letter to graduate students and young scientists in fields related to climate research.  Which followed my essay (published at Climate Audit) On the credibility of climate research. In February 2010, I wrote an article Towards rebuilding trust.  The main themes of my writings were concerns about:

  • lack of transparency – need to make data and documentation publicly available
  • tribalism among scientists and circling the wagons strategy: attacking skeptics with ad hominem attacks, appeal to motive attacks, isolating skeptics through lack of access to data, manipulation of the peer review process to reject skeptic papers
  • the need for improved analysis and communication of uncertainty

Seems like motherhood and apple pie issues?  Well maybe from the perspective of 2014.  But in 2009/2010, this was heresy. One of the story lines from Climategate became me, and my engagement with skeptics:

So, what are we to make of all this 5 years later?  The ‘establishment’ has maintained that Climategate was overhyped and irrelevant, and that the various enquiries have exonerated the scientists and the science.  On the other hand, skeptics find Climategate to have been highly significant (found the inquiries to be bogus), and still discuss it.

There have been several interesting scholarly articles written on Climategate, including:

5 years later – meta issues

So, what has changed in the past 5 years and can any of it be attributed to Climategate?

Transparency has improved substantially.  Journals and funding agencies now expect data to be made publicly available, along with metadata.  The code for most climate models is now publicly available.  As far as I know, there are no outstanding FOIA requests for data (other than possibly some of Mann’s HS data and documentation).  Climategate shed a public light on the lack of transparency in climate science, which was deemed intolerable by pretty much everyone (except for some people who ‘owned’ climate data sets).

Understanding, documenting and communicating uncertainty has continued to grow in importance, and is the focus of much more scholarly attention.  With regards to the IPCC, I feel that WG2 in AR5 did a substantially better job with uncertainty and confidence levels (I was not impressed with what WG1 did).

Improved understanding of the deep uncertainty surrounding climate change has stimulated more sophisticated decision making analyses, beyond the simple linear model of predict then act.

The IAC review of the IPCC (instigated by Climategate) highlighted a number of problems with the IPCC.  The IPCC has made a token response to some of them, A number of serious scholarly critiques of the IPCC have been made (for a summary see Grundman article), with suggestions for reform. The problems with the IPCC remain endemic and serious, in my opinion (Kill the IPCC).

The IPCC AR5 arguably had a much smaller public impact than did the AR4.  Climategate has probably contributed to some people not paying attention to the AR5.  However, I think it was the failure of the AR5 to deal with the surface temperature hiatus in a significant way that resulted in this lessening impact.

Climategate illuminated a serious lack of leadership from the scientific and environmental communities.  Has this improved any?  Well IMO there remains a serious lack of leadership from the establishment communities (e.g. institutions). I regard the death of Steve Schneider perhaps to be significant in this regard.  On the plus side, in this leadership vacuum there has been a growing number of diverse voices entering into the public discussion on climate change.

The sociology of climate science received a substantial impetus from Climategate.   There have been a number of insightful analyses, which I’ve highlighted at CE, related to the politicization of science, and the social psychology of consensus building and groupthink.  There have also been a number of dubious to nonsensical studies on deniers, etc.

Hulme’s article remarks that Climategate has triggered a new interest in studying and understanding the various manifestations of climate change skepticism. The populist notion that all climate sceptics are either in the pay of oil barons or are right-wing ideologues, as is suggested for example by studies such as Oreskes and Conway (2011), cannot be sustained.

There has been a huge growth in attention to climate science communication, within academic circles and NGO/advocacy groups.  Climategate was a turning point: pronouncements from the IPCC were no longer sufficient.  Apparently as a result of the IPCC pronouncements no longer being sufficient, we’ve also seen  a substantial increase in the number of scientists acting as advocates for mitigation policies.

Institutionally, Climategate triggered the formation of the Global Warming Policy Foundation (GWPF), which has become quite influential in UK climate policy and to some extent internationally.

Climategate also motivated the formation of the Berkeley Earth Surface Temperature group.  The significance of this group includes being private sector, transparency in data and methods, extensive website and prepublication press releases, and publication of their papers in a brand new online journal.

As a result of Climategate, there is little tolerance for the editorial gatekeeping ways of trying to keep skeptical papers from being published.   I recall discussion in Climategate emails about a paper by Pat Michaels that found a climate sensitivity of 1.6C, that the Climategaters were trying to keep from being published.  Hmmm . . . 1.6C sensitivity . . .  seems pretty mainstream these days.  The BEST publications in new online journals  illustrate the waning stranglehold of the traditional high impact journal publications. We are even seeing skeptical papers being published in mainstream high impact journals (this is probably mostly attributable to the hiatus in warming).

The skeptical climate blogosphere has thrived and expanded, largely triggered by Climategate (Climate Etc. was triggered largely by Climategate).  Whereas the ‘warm’ blogosphere for the most part has waned (notably RealClimate), with the exception of Skeptical Science.  It seems that most of the ‘action’ on the warm side has switched to twitter, whereas skeptics prefer the blogosphere.

The growth of the technical skeptical blogosphere (pioneered by Steve McIntyre) has challenged traditional notions of expertise, i.e. credentials and sanctity of journal publications, through Climate Audit’s blogospheric deconstruction of many publications, particularly related to paleo proxies.  While the technical skeptical blogosphere seems to have provided the motive for the Climategate ‘hack’, the technical skeptical blogosphere has thrived, and many of these sites are followed by the media and decision makers of various stripes.

And finally, what about climate policy and politics?  Following the 2007 publication of the AR4 and through summer 2009, it seemed that climate (CO2 mitigation) policy was on an unstoppable juggernaut and that the COP in Copenhagen (Dec 2009) and U.S. carbon cap and trade legislation was on track.  By summer 2010, all of that had fallen apart.  Regarding the UN negotiations, most analysts have stated that Climategate played little role; it was all about raw politics and economics.  But I suspect that as a result of Climategate, climate science/scientists had lost the moral high ground, allowing raw politics and economics to take over.  But in the U.S., it seems that Climategate had a more palpable impact on climate legislation.  Senator James Inhofe stated that Climategate was the death knell of carbon cap and trade legislation.  More significantly, I saw somewhere that John Kerry said essentially the same thing (tho I can’t find the link).

Engaging with skeptics

5 years ago, my engagement with skeptics was sufficiently unusual and surprising to be picked up by the mainstream media.  Particularly in the UK, Netherlands and Germany, post-Climategate there are welcome efforts by climate scientists to engage with skeptics (academic, blogosphere, policy foundations) and skeptics are taken seriously in the media.  The Dutch effort ClimateDialogue is particularly notable in this regard.

In the U.S. (and Australia and Canada), the situation remains much more polarized.  A recent exchange illustrates the differences in the UK versus the US.  You may recall that several months ago, Nic Lewis hosted a dinner that included some skeptics (incl. Anthony Watts) as well as some climate scientists (including Richard Betts and Tamsin Edwards).  Well Tim Ball recently wrote an article at WUWT People starting to ask about motive for massive IPCC deception, with a lengthy quote from Mein Kampf,   Building on their engagement with Watts, Tamsin Edwards and Richard Betts responded over at WUWT with a post A big (goose) step backwards, where they criticize Ball’s post for the Mein Kampf quote and for snide remarks about the IPCC, without actually engaging with the real content of the post.  Anthony responds in a conciliatory way, stating that Ball’s article was posted at a time when he was unavailable to exercise any editorial control.

Seems like a rather small deal, no?  Well the 1100 comments at WUWT were absolutely vitriolic against Betts and Edwards.  On twitter, the vitriolic comments were coming from the warm side, i.e. how stupid they were to post at WUWT.  There is some relatively sane discussion of this over at ATTP, including comments from Betts and Edwards.   The most interesting comment IMO is from Eli Rabett:

They had invested effort and taken stick for their let’s break bread position without it ever being clear what the other side was offering them for making the effort. Having done the early Judy trick they found themselves at a fork in the road, and either had to cash in some of their winnings, fold, or go the way of Curry.

They chose a straddle, trying to play nice with Watts while condemning Ball. At the same time Tamsin is tweeting like crazy to defend the other flank. This may have slightly moved their Overton window, or not.

Well, it seems Betts and Edwards are trying to promote civility, something that the UK does pretty well.  Presumably they thought that posting at WUWT would be like posting at BishopHill.  NOT.  Climate change and social media is mostly blood sport over in the US (and Australia and Canada), where the situation remains very polarized and polarizing.

Regarding scientists that are skeptical of AGW or critical of the IPCC, they seem to be better off post-Climategate (in terms of getting journal articles published and interviews from mainstream media) and a larger population of such scientists have emerged.  This can partly be attributed to Climategate, but again I think the hiatus is a bigger factor.  Life for a scientist that is skeptical of ‘consensus’ climate science or critical of the IPCC is definitely easier post-Climategate.

Mann vs et al.

Climategate lives on in the lawsuits than Michael Mann has filed against CEI, National Review Online, Rand Simberg, and Mark Steyn.  For background, see these previous posts:

The lawsuit is related to the ‘fraudulent hockey stick’ that was illuminated by the Climategate emails.  Climategate considerably broadened public awareness of the hockey stick and the associated controversies, making it an icon for concerns about climate science and scientists.   This post is getting too long, so I don’t want to get into this subject any more here, but with these lawsuits there is no denying that the impacts of Climategate are still playing out.

Personal impact

My own saga, after the three essays I wrote immediately following Climategate (referenced above), was set in place with these three essays:

Particularly with the last two essays, I established myself as an ‘outsider’ to the climate ‘establishment’ and incurred the wrath of many of climate scientists (the feedback loop article is particularly hard hitting, read it if you missed it the first time).  The Scientific American article played no small role in my ‘radicalization’ at this time; it set me on a path where I no longer judged anything that I did in context of my academic peers in the climate science community.

Intellectually, I embarked on my ‘uncertainty odyssey’ following the March 2010 Royal Society Workshop on Scientific Uncertainty, which stimulated the publication of these two papers in 2011 that seeded the uncertainty series in the early days of Climate Etc:

This uncertainty odyssey spilled over into decision making under uncertainty, a topic I had been exploring since 2004 with the preparation of a major NSF STC proposal Environmental Predictions and Decisions, which made the semi-finals but was not funded.  I explored the issue of decision making under deep uncertainty in numerous blog posts, plus these papers published in 2012:

By the time 2011 rolled around, my ostracization by the climate establishment was pretty complete, so I redefined  (broadened) my academic peer group to include physicists, social scientists and philosophers (not to mention the extended peer community developed on my blog).  I found this much more stimulating and interesting than the circled wagons of the climate community.

To assess the personal impact of Climategate, I’m trying to figure out exactly where my head was at prior to Climategate in 2009. Wherever; I’m not sure it matters anymore.  In 2014, I no longer feel the major ostracism by my peers in the climate establishment; after all, many of the issues I’ve been raising that seemed so controversial have now become mainstream.  And the hiatus has helped open some minds.

The net effect of all this is that my ‘academic career advancement’ in terms of professional recognition, climbing the administrative ladder, etc. has been pretty much halted.  I’ve exchanged academic advancement that now seems to be of dubious advantage to me for a much more interesting and influential existence that that feels right in terms of my personal and scientific integrity.

Bottom line:  Climategate was career changing for me; I’ll let history decide if this was for better or worse (if history even cares).

Conclusion

In conclusion, I will quote this statement from Reiner Grundman:

We need much more reflection on this case which should not be closed off because of political expediency. The debate has only just begun.

UPDATE:  I just received this email from the student whose email, following my ClimateAudit essay, motivated my post “An open letter . . .”

Hi Judy,

I hope all is well. It is amazing that climategate was five years ago. I just successfully defended my dissertation in September and have started the xxxx Fellowship. It is going to be an exciting year learning about policy making. 🙂

I just wanted to send you a short note regarding your latest post – The legacy of climategate: 5 years later.

I still stand by my statements in the email all those years ago and although, months and years may turn into decades, you continue to inspire me.

History will decide. And it will care and what has happend was for the better.

All the best,

Acordo entre governadores autoriza transposição do Rio Paraíba do Sul (Diário do Vale)

Publicado em 27/11/2014, às 15h50
Última atualização em 27/11/2014, às 15h50
Divulgação Governo do Estado
Governadores concordaram que só serão feitas obras com a permissão dos três estados
Acordo: : Governadores concordaram que só serão feitas obras com a permissão dos três estados

Brasília

Os governadores do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e de Minas Gerias, Alberto Pinto Coelho (interino) firmaram, durante reunião em Brasília realizada na manhã de ontem, um acordo para realizar a transposição do Rio Paraíba do Sul. As licitações para as obras estão liberadas e podem começar a qualquer momento. O encontro foi convocado pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atuou como mediador.

Para chegar a esse acordo, os três governadores concordaram que só serão permitidas obras das quais os três Estados concordem. Além disso, eles se comprometeram em respeitar, nas obras, estudos de impactos ambiental e  realizar ações de compensação ao meio ambiente, como a recuperação de matas ciliares, por exemplo.

O advogado geral da União, Luís Inácio Adams, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, também participaram da reunião. Todos se comprometeram em entregar a Fux, no dia 28 de fevereiro, um documento com os termos do acordo. Com isso, todas as ações judiciais que tratam do tema serão extintas. O ministro elogiou o acordo firmado entre as partes e disse que todos cederam.

– Os estados manifestaram interesse mútuo em se ajudar. Uma ação jurídica jamais chegaria à solução que conseguimos hoje. Com isso, será feito um acordo técnico, que já está bastante adiantado, buscando uma solução conjunta para a questão. Com o cumprimento das normas estabelecidas no acordo, serão extintas as ações no Ministério Público sobre o tema – disse Fux.

Sem problemas

Após a reunião, os três governadores deram entrevistas dizendo que todos os Estados vão ganhar com o acordo. Por sua vez, Pezão e Coelho, fizeram questão de tranquilizar a população dos seus Estados afirmando que ficará garantido o volume de água para uso futuro de seus moradores. O governador do Rio de Janeiro ainda ressaltou que o acordo será focado na preservação ambiental.

– Falta pouco para fecharmos esse acordo. Está previsto um grande programa de reflorestamento, de tratamento do esgoto da Baixada Fluminense e de municípios como Resende e Barra Mansa. As equipes técnicas que cuidarão disso já estão fechadas, sob o comando do Ministério do Meio Ambiente. É muito importante a solidariedade dos três entes federativos. A população dos três estados vai ganhar com isso – explicou Pezão.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, exaltou a parceria entre os estados.

– Vamos nos debruçar sobre isso. Estamos confiantes em poder garantir a vazão no Rio de Janeiro e fazer a interligação em São Paulo. A participação de Minas Gerais também será importantíssima – disse Alckmin.

Entenda o caso

No início da crise hídrica deste ano, o governo de São Paulo anunciou que faria uma obra para transpor água do Rio Jaguari, de São Paulo, para as represas do sistema Cantareira, que opera com 9,1% de sua capacidade. Os Estados do Rio e de Minas reclamaram da decisão porque a água do Jaguari está em São Paulo, mas abastece o Rio Paraíba do Sul, usado por parte de São Paulo e pelos outros dois Estados. O governo de São Paulo alegava que tinha direito a fazer a obra pelo rio estar em seu Estado.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entrou então com uma ação no STF para barrar a decisão de São Paulo. O ministro responsável pela ação, Luiz Fux, convocou uma audiência de conciliação nesta quinta-feira com a presença dos governadores dos três Estados, Geraldo Alckmin (SP), Luiz Fernando Pezão (RJ) e Alberto Pinto Coelho (MG), além de representantes do governo federal.

Leia mais:  http://www.diariodovale.com.br/noticias/2,97610,Acordo-entre-governadores-autoriza-transposicao-do-Rio-Paraiba-do-Sul.html#ixzz3KOgUQ000

Brasil registra um grande terremoto a cada 50 anos (O Globo)

Cálculo é de novo centro de pesquisa, que vai detectar tremores em 80 pontos do país

Quatro instituições unem-se esta sexta-feira para formar o Serviço Sismológico Nacional. Os centros de pesquisa calculam que o país registra um terremoto de magnitude maior do que 6 graus na escala Richter a cada 50 anos, aproximadamente — o último foi em 1955, no noroeste de Mato Grosso, com índice de 6,2 graus. O tremor foi sentido em Cuiabá, a 370 km de distância.

As universidades de São Paulo (USP), de Brasília (UnB) e a Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) trabalharão sob a coordenação do Observatório Nacional. O grupo mantém cerca de 80 estações sismológicas no país e registros iniciados em 1767. A mais recente foi inaugurada no mês passado, na Ilha de Trindade, a cerca de 1,2 mil quilômetros ao leste de Vitória, no Espírito Santo.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/brasil-registra-um-grande-terremoto-cada-50-anos-14681727#ixzz3KMSImin8

(Renato Grandelle / O Globo)

Crise da água: “A situação é alarmante, estamos em perigo. Vai virar calamidade” (SpressoSP)

alckmin-falta-de-agua

 

Funcionário da Sabesp e diretor do Sintaema alerta para a contínua queda dos reservatórios e recomenda, ao governo de São Paulo e Sabesp, medida imediata para tentar evitar o colapso. “Declarar um racionamento que falte água para pobre e rico, ao invés de fazer um rodízio nas periferias”

Por Igor Carvalho

Nesta segunda-feira (24), o Sistema Cantareira amanheceu com 9,4% de sua capacidade. Já são dez dias de quedas sucessivas, que colocam o abastecimento de São Paulo em risco. Anderson Guahy, técnico em gestão da Sabesp e diretor de formação do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo (Sintaema), demonstrou preocupação sobre a crise hídrica paulista e alerta a população.

“A situação é alarmante, estamos em perigo. Vai virar calamidade, se não forem tomadas medidas imediatas pelo alto comando da Sabesp e pelo governo de São Paulo”, alerta o técnico.

Guahy explicou que os constantes cortes no fornecimento de água nas regiões periféricas é de conhecimento da Sabesp e poderia ser evitado. “A Sabesp tem que declarar um racionamento que falte água para pobre e rico, ao invés de fazer um rodízio nas periferias”

Uma previsão para o fim dos recursos hídricos no Cantareira ainda é “precipitado”, explica o técnico da Sabesp. “O nível de utilização vem caindo muito, mas não é o único fator, se fizer muito calor, por exemplo, a água pode evaporar mais rápido.”

“O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água” (Jornal Opção)

Edição 2048 (5 a 11 de outubro de 2014)

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País

Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?
Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?
Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?
Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

As plantas  do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os Buritis que vemos hoje estavam nascendo. eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. também por isso, o dano ao bioma é irreversível

Qual é a consequência imediata desse quadro?
Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?
Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?
Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?
De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?
Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?
Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.
Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?
Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?
Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.
Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.
Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?
Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.
Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?
A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: "A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional”

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?
É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?
Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?
Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?
Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?
Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.
É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?
Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?
Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

O possível colapso do Cantareira (Estadão)

O possível colapso do Cantareira

22.11.2014 | 03:00

O Estado de S. Paulo

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e o governo estadual estão se comportando como médicos do século passado. Sabendo que a doença é séria, se recusam a discutir o futuro com o paciente. Fazem o que podem para curar o doente, mas o poupam da angústia de enfrentar a realidade. Hoje, os médicos são educados para contar a verdade. Isso causa angústia, mas ao menos não priva o doente da liberdade de decidir como e onde quer viver enquanto espera o desfecho.

O Sistema Cantareira está se aproximando rapidamente do colapso. Quando não for possível retirar mais água das represas, 6 milhões de pessoas ficarão literalmente sem uma gota de água. É a parte da população de São Paulo que só pode ser abastecida pelo Cantareira. Esta é uma possibilidade real, cuja probabilidade é difícil de calcular. É por isso que vou tentar descrever de maneira objetiva a realidade hoje, deixando para os leitores as especulações sobre o futuro. Todos as informações foram extraídas de documentos oficiais da Agencia Nacional de Águas (ANA), do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e da Sabesp.

Gráficos

O Sistema Cantareira é composto por três represas. As duas maiores, Jaguari/Jacareí e Atibainha, representam 92% do sistema. Quando cheia até a borda, a Represa Jaguari/Jacareí (acompanhe pelo quadro nesta página) atinge a conta 844 (ou seja, 844 metros acima do nível do mar), armazena 1,047 bilhão de m3 de água (um m3 são 1.000 litros) e cobre uma área de 50 km2 (cada km2 corresponde a 100 quarteirões). No último dia 18, ela estava na cota 815,5, tendo baixado 28,5 metros, e continha somente 140 milhões de m3 de água (13,3% do máximo). Sua superfície cobria somente uma área de 16 km2, deixando 34 km2 de terra e lama expostos (é o que você pode ver nas fotografias publicadas diariamente).

Neste dia, foi iniciada a retirada da segunda fração da reserva técnica – também chamada de volume morto -, o que vai reduzir o volume para 42 milhões de m3 (4% do máximo) e reduzir a área coberta por água para 8 km2. O barro vai cobrir 84% da área da represa (o quadro mostra os mesmos números para a Represa do Atibainha).

É muito difícil acreditar que seja possível extrair dessas represas uma reserva técnica 3. Se ela existir, será muito pequena. A reserva técnica 1, de 182,5 milhões de m3, já foi consumida. A reserva técnica 2, de 106 milhões de m3, já começou a ser retirada da Represa de Jaguari/Jacareí e praticamente já foi toda retirada da Represa do Atibainha.

Os dados mostram que ainda restam 232 milhões de m3 nessas duas represas, sendo possível retirar 99 milhões de m3. Grande parte do restante não será possível utilizar.

Quando o nível da água baixou para 820, a água deixou de fluir por gravidade para o túnel. Para evitar a interrupção do fornecimento, foi construído um dique em volta do túnel. Grandes bombas flutuantes transportam a água para o interior do dique, de onde ela flui pelo túnel. Dessa maneira, foi possível retirar a chamada reserva técnica 1. Quando a água da parte de fora do dique acabou, um segundo dique foi construído, isolando um grande braço da represa para permitir a retirada da reserva técnica 2. Nesse segundo dique foi instalado um outro grupo de bombas. Hoje, as bombas do segundo dique transportam a água para esse braço isolado da represa e a água chega no primeiro dique, onde é bombeada novamente para poder alcançar a entrada do túnel. Como os locais em que a Sabesp decidiu instalar esses dois grupos de bombas não têm energia elétrica, grandes geradores movidos a diesel foram transportados até a proximidade das bombas. Caminhões-tanque levam o diesel por estradas precárias para manter os geradores ligados 24 horas. É desse esquema improvisado que agora dependem os 6 milhões de pessoas que recebem água do Sistema Cantareira.

O sistema de bombas é capaz de retirar até 20 m3 por segundo da represa (20 pequenas caixas de água por segundo). Mas o problema é que, atualmente, só chegam às represas, trazidos pelos rios, 6 m3 por segundo de água. Assim, a cada segundo, 14 m3 a mais do que chega são retirados da represa. A rápida velocidade de perda das reservas significa que a, cada dia, a represa perde 1,2 milhão de m3 de água.

Mantido esse ritmo de perdas, é fácil calcular que a duração das reservas atuais é de 79 dias até o término da reserva técnica 2 e de 6 meses até que toda a água existente na represa se esgote.

Para que esse prazo seja estendido é necessário que a entrada de água na represa aumente. Se os atuais 6 m3 por segundo aumentarem para um número menor do que 20 m3 por segundo, a represa vai continuar a ser delapidada, mais lentamente. Se ela chegar a 20 m3 por segundo (o mesmo que as bombas retiram hoje), a represa vai parar de esvaziar. Mas são necessários mais de 20 m3 por segundo, um aumento constante de 4 vezes no fluxo atual dos rios, para que a represa volte a encher.

O problema é que isso não está ocorrendo nestes dois primeiros meses de chuva deste final de ano (outubro e novembro) e não ocorreu nenhuma vez nos meses de chuva do início de 2014 (janeiro, fevereiro, março e abril).

É claro que pode chover, e espero que chova muito, mas se o futuro próximo se comportar como o passado próximo, 6 milhões de pessoas ficarão sem água. E, infelizmente, é impossível abastecer 6 milhões com caminhões-pipa. Como e onde essas pessoas vão viver até que o Cantareira se recupere ou outras represas tomem seu lugar? É isso que eu gostaria de saber.

MAIS INFORMAÇÕES: BOLETIM ANA/DAEE DE MONITORAMENTO DO SISTEMA CANTAREIRA (18/11/2014). PROJEÇÃO DE DEMANDA DO SISTEMA CANTAREIRA, SABESP, 2014, E DADOS DE REFERÊNCIA ACERCA DA OUTORGA DO SISTEMA CANTAREIRA ANA/DAEE, 2013

Of gods and men: Societies living in harsh environments are more likely to believe in moralizing gods (Science Daily)

Date: November 10, 2014

Source: National Evolutionary Synthesis Center (NESCent)

Summary: New research finds that cultures living in harsher ecosystems with limited resources are more prone to a belief in moralizing, high gods. The results indicate that other cross-disciplinary factors, including as political complexity, also influence this belief.


Just as physical adaptations help populations prosper in inhospitable habitats, belief in moralizing, high gods might be similarly advantageous for human cultures in poorer environments. A new study from the National Evolutionary Synthesis Center (NESCent) suggests that societies with less access to food and water are more likely to believe in these types of deities.

“When life is tough or when it’s uncertain, people believe in big gods,” says Russell Gray, a professor at the University of Auckland and a founding director of the Max Planck Institute for History and the Sciences in Jena, Germany. “Prosocial behavior maybe helps people do well in harsh or unpredictable environments.”

Gray and his coauthors found a strong correlation between belief in high gods who enforce a moral code and other societal characteristics. Political complexity–namely a social hierarchy beyond the local community– and the practice of animal husbandry were both strongly associated with a belief in moralizing gods.

The emergence of religion has long been explained as a result of either culture or environmental factors but not both. The new findings imply that complex practices and characteristics thought to be exclusive to humans arise from a medley of ecological, historical, and cultural variables.

“When researchers discuss the forces that shaped human history, there is considerable disagreement as to whether our behavior is primarily determined by culture or by the environment,” says primary author Carlos Botero, a researcher at the Initiative for Biological Complexity at North Carolina State University. “We wanted to throw away all preconceived notions regarding these processes and look at all the potential drivers together to see how different aspects of the human experience may have contributed to the behavioral patterns we see today.”

The paper, which is now available online, will be published in an upcoming issue of the Proceedings of the National Academies of Science. To study variables associated with the environment, history, and culture, the research team included experts in biology, ecology, linguistics, anthropology, and even religious studies. The senior author, Gray, studies the intersection of psychology and linguistics, while Botero, an evolutionary ecologist, has examined coordinated behaviors in birds.

This study began with a NESCent working group that explored the evolution of human cultures. On a whim, Botero plotted ethnographic data of societies that believe in moralizing, high gods and found that their global distribution is quite similar to a map of cooperative breeding in birds. The parallels between the two suggested that ecological factors must play a part. Furthermore, recent research has supported a connection between a belief in moralizing gods and group cooperation. However, prior to this study, evidence supporting a relationship between such beliefs and the environment was elusive.

“A lot of evolutionists have been busy trying to bang religion on the head. I think the challenge is to explain it,” Gray says.

“Although some aspects of religion appear maladaptive, the near universal prevalence of religion suggests that there’s got to be some adaptive value and by looking at how these things vary ecologically, we get some insight.”

Botero, Gray, and their coauthors used historical, social, and ecological data for 583 societies to illustrate the multifaceted relationship between belief in moralizing, high gods and external variables. Whereas previous research relied on rough estimates of ecological conditions, this study used high-resolution global datasets for variables like plant growth, precipitation, and temperature. The team also mined the Ethnographic Atlas– an electronic database of more than a thousand societies from the 20th century– for geographic coordinates and sociological data including the presence of religious beliefs, agriculture, and animal husbandry.

“The goal became not just to look at the ecological variables, but to look at the whole thing. Once we accounted for as many other factors as we could, we wanted to see if we could still detect an environmental effect,” Botero says. “The overall picture is that these beliefs are ultimately shaped by a combination of historical, ecological, and social factors.”

Botero believes that this study is just the tip of the iceberg in examining human behavior from a cross-disciplinary standpoint. The team plans to further this study by exploring the processes that have influenced the evolution of other human behaviors including taboos, circumcision, and the modification of natural habitats.

“We are at an unprecedented time in history,” Botero says. “Now we’re able to harness both data and a combination of multidisciplinary expertise to explore these kinds of questions in an empirical way.”


Journal Reference:

  1. C. A. Botero, B. Gardner, K. R. Kirby, J. Bulbulia, M. C. Gavin, R. D. Gray. The ecology of religious beliefsProceedings of the National Academy of Sciences, 2014; DOI: 10.1073/pnas.1408701111

Survey shows what Americans fear most (Science Daily)

Date: October 21, 2014

Source: Chapman University

Summary: The Chapman Survey on American Fears included 1,500 participants from across the nation and all walks of life. The research team leading this effort pared the information down into four basic categories: personal fears, crime, natural disasters and fear factors.


Chapman University has initiated the first comprehensive nationwide study on what strikes fear in Americans in the first of what is a planned annual study. According to the Chapman poll, the number one fear in America today is walking alone at night.

The Chapman Survey on American Fears included1,500 participants from across the nation and all walks of life. Underscoring Chapman’s growth and emergence in the sciences, the research team leading this effort pared the information down into four basic categories: personal fears, crime, natural disasters and fear factors.

The survey shows that the top five things Americans fear the most are:

1) Walking alone at night

2) Becoming the victim of identity theft

3) Safety on the internet

4) Being the victim of a mass/random shooting

5) Public speaking

“What initially lead us into this line of research was our desire to capture this information on a year-over-year basis so we can draw comparisons with what items are increasing in fear as well as decreasing,” said Dr. Christopher Bader, who led the team effort. “We learned through this initial survey that we had to phrase the questions according to fears vs. concerns to capture the information correctly, so that is how we present it,” Bader continued.

The top five things Americans worry or are concerned about are:

1) Having identity stolen on the internet

2) Corporate surveillance of internet activity

3) Running out of money in the future

4) Government surveillance of internet activity

5) Becoming ill/sick

“The sky is falling (and a serial killer is chasing me)”

Turning to the crime section of the Chapman Survey on American Fears, the team discovered findings that not only surprised them, but also those who work in fields pertaining to crime.

“What we found when we asked a series of questions pertaining to fears of various crimes is that a majority of Americans not only fear crimes such as, child abduction, gang violence, sexual assaults and others; but they also believe these crimes (and others) have increased over the past 20 years,” said Dr. Edward Day who led this portion of the research and analysis. “When we looked at statistical data from police and FBI records, it showed crime has actually decreased in America in the past 20 years. Criminologists often get angry responses when we try to tell people the crime rate has gone down.”

Despite evidence to the contrary, Americans do not feel like the United States is becoming a safer place. The Chapman Survey on American Fears asked how they think prevalence of several crimes today compare with 20 years ago. In all cases, the clear majority of respondents were pessimistic; and in all cases Americans believe crime has at least remained steady. Crimes specifically asked about were: child abduction, gang violence, human trafficking, mass riots, pedophilia, school shootings, serial killing and sexual assault.

“Fear of Disaster — Little Action to Prepare” 

Chapman’s growth in global climate change research and extreme events led another portion of The Chapman Survey on American Fears into the area of natural disasters and people’s preparedness. The findings showed that despite widespread fear, the vast majority of those surveyed do not have emergency kits — even in regions hardest hit by natural disasters.

The top five most feared natural disasters by Americans are:

1. Tornado/hurricane

2. Earthquakes

3. Floods

4. Pandemic or Major Epidemic

5. Power Outage

Despite these fears, only 25 percent of Americans have a disaster preparedness kit that includes food, water, clothing and medical supplies.

“Our research indicated that Americans are aware, but better communication strategies are needed to encourage the nearly 75 percent who are unprepared for catastrophe,” said Dr. Ann Gordon, who led this portion of the survey. “We are conducting follow-up studies to examine why so many Americans remain unprepared despite lessons learned from recent natural disasters,” Gordon continued. “And, we are also taking a closer look at ‘preppers’ — a community that takes preparedness to the extreme.”

Dr. Gordon’s work includes maps of America that breaks down the fears of natural disasters by region, which can be seen at http://www.chapman.edu/fearsurvey

“Fear Factors”

The remainder of The Chapman Survey on American Fears looks at fear factors.

“Through a complex series of analyses, we were able to determine what types of people tend to fear certain things, and what personal characteristics tend to be associated with most types of fear,” said Dr. Christopher Bader, who performed the analysis.

Factors Bader and his team looked at included: age, gender, race, work status, education, income, region of the country, urban vs. rural, political preference, religion, TV viewing, and gun ownership.

Through their analysis two key factors emerged: having a lower level of education and also high frequency of television viewing were the most consistent predictors of fear.

Dança da chuva em São Paulo tem 38 mil pessoas confirmadas nas redes sociais (IG)

Por iG São Paulo | 19/11/2014 12:55 – Atualizada às 19/11/2014 15:53

Ideia é mobilizar as pessoas contra a seca enfrentada no Estado. Idealizadores querem entrar para livro dos recordes

Durante uma aula da escola Miami Ad School oferecido pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), os alunos decidiram criar um evento nas redes sociais para conseguir atrair grande número de pessoas para uma dança da chuva que será realizada nesta sexta-feira (21), às 19h, no Masp. O evento já tem 38 mil pessoas confirmadas.

Reprodução/Facebook

Dança da chuva tem 38 mil pessoas confirmadas nas redes sociais

A dança da chuva vai ocorrer na mesma data em que a presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) anunciou que acabaria a cota do volume morto.

Segundo o estudante Eduardo Lunardi, um dos idealizadores do projeto, a ideia é mobilizar o maior número de pessoas possível para uma causa tão importante como a seca enfrentada pelo Estado de São Paulo. “Com a proporção que foi tomando, nós vimos a possibilidade de fazer algo ainda maior”. A ideia do grupo é entrar para o livro dos recordes como a maior dança da chuva do mundo, batendo a da Irlanda, em 2011, que reuniu 395 pessoas.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), existem possibilidades de pancadas de chuva no Estado na sexta-feira, por causa do ar quente e úmido. O nível do Sistema Cantareira chegou a 10,2% nesta terça-feira (18), de acordo com dados da Sabesp.

Represa do Jaguari, na cidade de Vargem, em setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de Vargem

Premonição multiplica pedido de folga de quem trabalha na Paulista (UOL)

Rodrigo Bertolotto

Do UOL, em São Paulo

19/11/201416h53 

Se você é supersticioso, usa muito rede social e trabalha na área da avenida Paulista, a próxima quarta-feira (26) é um bom dia para pedir uma folga ou para faltar ao serviço. Pelo menos, é isso o que está acontecendo com muita gente que trabalha no centro financeiro do Brasil.

“Esse vidente é de uma insanidade incrível. Ele podia, pelo menos, consultar um aeronauta para perceber que é impossível que isso aconteça porque as rotas de aviões não passam pela Paulista”, afirma o ex-piloto de avião José Carlos de Araújo, que trabalha na região.

O clima de temor começou com a previsão do vidente Juscelino Nóbrega da Luz, registrada em um cartório no centro da cidade. Na premonição documentada, um avião decolará do aeroporto de Congonhas com destino para Brasília e baterá contra um edifício, perto da esquina da avenida Paulista com a alameda Campinas.

Divulgação

Carta de síndico de um prédio na avenida Paulista que cita a previsão do vidente Juscelino Nóbrega da Luz

A previsão bombou nas redes sociais e nos bate-papos de rua e de elevador. Resultado: muitos empregados devem faltar e muitos comércios e escritórios devem fechar ou trabalhar com pouca gente no dia 26 de novembro. “Sou gerente e tenho de dar o exemplo, mas tenho um pouco de medo. Muitas meninas que trabalham comigo já confirmaram que não vem”, afirma Simone França, que gerencia uma clínica de estética no edifício Barão do Serro Azul.

O síndico desse edifício enviou aos condôminos do prédio comercial um alerta sobre o prognóstico de um acidente aéreo no local na manhã do dia 26 de novembro. O aviso sobre a premonição foi distribuído na terça-feira (18) por Severino Alves de Lima, 67. Ele disse que, mesmo não acreditando, escreveu o comunicado apenas para informar.

Tamanho é o burburinho que até a Aeronáutica já informou que nenhum avião decola de Congonhas para Brasília tem como rota sobrevoar a Paulista.

“Essas visões abalam o psicológico da gente. Eu não vou fazer entrega aqui na Paulista na quarta nem ferrando”, fala o motoboy Tiago Arruda, quando saia do edifício Barão do Serro Azul. O vidente teve a visão em 2005 e desde lá vem avisando os trabalhadores e moradores da região. Juscelino ganhou fama este ano por uma suposta previsão da morte em acidente aéreo do então presidenciável Eduardo Campos.

CLARIVIDENTE AFIRMA QUE AVIÃO CAIRÁ NA AVENIDA PAULISTA EM NOVEMBRO DE 2014

http://player.mais.uol.com.br/embed_v2.swf?mediaId=14987648&ver=1

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Número de voo da TAM é alterado após previsão de tragédia em SP (Folha de S.Paulo)

DE SÃO PAULO

20/11/2014 16h53

O número do voo da TAM previsto para sair próxima quarta-feira (26) de São Paulo para Brasília foi alterado após um síndico alertar para a previsão de queda de um avião na capital paulista.

De acordo com o vidente Juscelino Nóbrega da Luz, o avião que faria o voo JJ3720 atingiria um edifício comercial no cruzamento da Paulista com a alameda Campinas, próximo ao hotel Maksoud Plaza. Todas as passagens já foram vendidas pela companhia.

O número do voo, entretanto, foi alterado para JJ4732 apenas no dia em que está previsto o acidente. A TAM informou que a alteração foi feita porque a empresa “considerou o alerta e permanecerá atenta às operações no período citado”. A empresa disse ainda que “realiza manutenções preventivas com regularidade em toda a sua frota” e as “operações aéreas da empresa estão certificadas pelas principais autoridades aeronáuticas do mundo.”

O vidente diz que sonhou com o acidente em 2005 e desde então tem alertado o condomínio sobre suas premonições.

Rubens Cavallari/Folhapress
Condomínio que, segundo vidente, deve ser atingido por avião no próximo dia 26
Condomínio que, segundo vidente, deve ser atingido por avião no próximo dia 26

No comunicado, o síndico de outro prédio nas proximidades Severino Lima diz que o fez para “ficar com a consciência tranquila”, decidindo avisar sobre a possibilidade de um avião atingir um prédio no cruzamento da Paulista com a alameda Campinas.

Lima diz que espera que as previsões não se concretizem e que não quis ser alarmista. Questionado se estaria no prédio no dia 26, ele diz que sim. “Não sou crédulo nem incrédulo. As pessoas que têm esse dom acertam e erram. Na minha convicção, não deve acontecer nada, mas mesmo assim decidi informar.”

Reprodução

A profecia da Crise (Medium)

Margem do Rio Tietê, na altura da cidade de Itu, interior paulista. Foto: Mídia NINJA

Em 2003, quando a Sabesp teve seu capital aberto ao mercado, parlamentares e movimentos sociais já se preocupavam com a priorização de interesses privados sobre a universalização do acesso à água.

Por Felipe Bianchi do Barão de Itararé

19 nov 2014


Apesar de atingir seu estopim em 2014, as razões para a grave crise hídrica pela qual passa o estado de São Paulo remetem a episódios que pouco têm a ver com falta de chuva ou caprichos da natureza. Um deles nos leva de volta a 2003, quando a Assembleia de São Paulo (Alesp) aprovou — na calada da noite — o Projeto de Lei 410/2003, de autoria do PSDB e responsável por abrir o capital da Sabesp ao mercado financeiro. Foram 55 votos contra 22, em sessão iniciada às 4h30 da madrugada do dia 27 de agosto.

Com a mudança na forma de gestão da empresa, 50,3% do seu capital encontra-se mãos do Governo do Estado de São Paulo, enquanto a bolsa de Nova Iorque (NYSE) detem 24,9% e a BM&F Bovespa abocanha 24,8% das ações. Ao longo desse período, a empresa atingiu números impressionantes: sua valorização bateu a marca de 601% e seu valor de mercado passou de R$ 6 bilhões a mais de R$ 17,1 bilhões.

Em 2012, os expressivos resultados foram comemorados no ‘Sabesp Day’, em plena Big Apple, com uma série de atividades especiais na bolsa nova-iorquina. Durante as festividades, a presidente da empresa, Dilma Pena, reafirmou o compromisso de “oferecer 100% de água tratada, 100% de coleta de esgoto e 100% de tratamento de esgoto em todo o interior do Estado de São Paulo até 2014”. Celebrada pelos acionistas, a dirigente argumentou que “a cada novo ano, a Sabesp mostra ter condições de executar seu objetivo com eficiência, de maneira sólida, dinâmica, inovadora e sustentável em termos financeiros, ambientais e sociais”.

Ou faltou combinar com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou trata-se de uma realidade paralela. A conta da água não fecha. Apesar do sucesso da Sabesp na bolsa de valores, São Paulo sofre com a falta de abastecimento — o sistema da Cantareira, por exemplo, opera com 11% de sua capacidade e já utiliza a segunda cota do volume morto, levantando a seguinte questão: o modelo de gestão da Sabesp é o mais adequado para garantir a universalização do direito básico que é o acesso à água?

Sobre política e profecias

Na ocasião da votação que selou a entrada da Sabesp no mundo financeiro, a então deputada estadual Maria Lúcia Prandi fez uma declaração ‘profética’ sobre o tema, indagando se a empresa seria capaz de manter seu caráter público e priorizar os interesses da população ou se voltaria suas atenções aos desejos dos acionistas.


“Na prática, é uma quase privatização da Sabesp, que poderá perder seu caráter de empresa pública, abrindo espaço para os interesses privados, que visam lucros e não o benefício comum (…). Quem comprar as ações da Sabesp terá grande poder na gestão da empresa. Como ficará a questão das tarifas? Até que ponto a empresa vai querer investir em áreas carentes ou de difícil atendimento, como os morros? Como conseguir que as redes de esgoto e de distribuição de água cheguem a comunidades mais distantes?”


10 anos depois, ela comenta que “não se trata de profecia, mas de visão de mundo e de Estado”. Para a deputada federal, sua fala em 2003 foi uma “demonstração de que, a médio ou longo prazo, a população poderia pagar caro pela escolha que o governo estava prestes a fazer”.

Prandi recorda que, enquanto o PL 410/2003 estava em pauta, houve uma grande resistência na Alesp por parte de partidos à esquerda, que chegaram a realizar longos estudos sobre o tema para embasar o posicionamento contrário à matéria. “A Sabesp, à época, estava muito endividada. Tanto que havia forte pressão sobre os municípios não-conveniados. A capitalização foi uma das ferramentas que o governo lançou mão para sanar a situação e, na votação, foram vitoriosos”.

A tese de Prandi, no entanto, parece jogar luz sobre as origens de uma crise tratada de forma obscura pelo poder público paulista. “Ao vender ações, você sofre pressão de acionistas para aumentar o lucro, colocando os interesses dos donos das ações em primeiro lugar”, argumenta. “O acesso a um serviço essencial como o abastecimento de água nunca poderia ter sido relegado ao segundo plano”.

De acordo com ela, o governo poderia ter feitos ótimos investimentos que prevenissem crises como essa, já que há uma seca história no estado e o governo federal destina um significativo aporte financeiro para essa finalidade. “Mas a prioridade”, sugere, “parece ser agradar os acionistas”.

Primeira cota do Voume Morto, no sistema cantareira, São Paulo. Foto: Mídia NINJA

Governo optou por tratar água como negócio

Para Edson Aparecido da Silva, sociólogo e coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental, a opção feita 10 anos atrás pelo governo estadual foi de tratar a gestão da água como negócio. “Na época, a justificativa foi de que era preciso captar recursos em agências financeiras e bancos internacionais. Aderir à bolsa daria segurança aos que emprestassem dinheiro à Sabesp”, explica.

“Uma empresa pública com gestão privada”. Assim o sociólogo define a Sabesp, desde que passou a operar segundo a lógica de ampliação do lucro e de distribuição dos dividendos aos acionistas.

O principal problema, na avaliação de Silva, é a absoluta falta de transparência no modelo de gestão vigente. “Ainda que a quantidade de recursos investidos seja significativa — cerca de R$ 2 bilhões anuais -, não se tem a menor ideia de como é empregado. Os relatórios dizem apenas se foram feitos na região metropolitana, no interior ou no litoral, sem maiores detalhes, sendo que dentro desse valor podem estar embutidos, por exemplo, pagamentos a empresas terceirizadas que prestam serviço de má qualidade. A crise prova que os investimentos da Sabesp nos últimos anos podem ter sido péssimos”.

Ele repudia a postura de Geraldo Alckmin em não reconhecer publicamente a dimensão da crise e a responsabilidade que cabe à sua gestão, mesmo depois de pedir R$ 3,5 bilhões ao governo federal para bancar um pacote de medidas emergenciais. “Alckmin nsiste em negar que há redução da pressão da água durante certos períodos do dia, sendo que boa parte da população das periferias de São Paulo enfrenta o problema quase que diariamente. O governo poderia optar por uma política transparente, informando o cidadão das faixas de horário de racionamento a fim de reduzir, inclusive, o desperdício”.

Uma marca de cerveja nunca dirá ao seu consumidor ‘não compre cerveja’. É essa regra de mercado que a Sabesp tem seguido, mas seu produto é um serviço público, direito de todos”, afirma Edson Aparecido da Silva


Os números da Sabesp: declínio iminente?

O estatuto da Sabesp prevê que os acionistas podem receber até 25% do lucro líquido anual da empresa, mas desde a aprovação da regulamentação, o índice nunca foi menor que 26,1%. Em 2003, por exemplo, logo após a vitória de Geraldo Alckmin nas urnas de São Paulo, a porção que morreu nas mãos do capital privado atingiu obscenos 60,5% do montante total. Estima-se, ainda, que um terço do lucro líquido total da Sabesp já foi repassado aos acionistas, o que significa aproximadamente R$ 4,13 bilhões — o dobro do que a Sabesp investe anualmente em saneamento básico, segundo os cálculos do Jornal GGN

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente (Sintaema) entre 1988 e 1994 e atual vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Nivaldo Santana ressalta que a antes vigorosa taxa de lucro da Sabesp já tem acusado o golpe da crise: “A diminuição da receita tarifária, por conta da menor oferta de água, faz com que a empresa torne-se pouco atraente para os acionistas, até porque o investidor de Nova Iorque, por exemplo, não está preocupado se falta água para a população de São Paulo, mas sim com o retorno de seu investimento. Por isso, a tendência é que a queda nos números se acentue cada vez mais”.

Segundo ele, “o que se vê na Sabesp é uma administração privatista, que segue a lógica privada mesmo tendo uma gestão, ao menos em tese, mista”. “No curto prazo, a aprovação do PL 410/2003 visava fazer caixa para a Sabesp, mas a longo prazo, é parte de um projeto de redução do papel do Estado nos serviços públicos”, assinala.

Por fim, Santana destaca o fator ‘mídia’ como um grande empecilho para a discussão do problema: os grandes meios de comunicação não abordam a dimensão política da crise, em sua opinião, “dando enfoque excessivo ao problema da seca, ao fenômeno natural, como se nos restasse apenas torcer para que chova muito”. Para ele, “trata-se de uma cortina de fumaça sobre os investimentos insuficientes e ruins feitos pela Sabesp, poupando o governo estadual de críticas por parte da opinião pública”.

Coal Rush in India Could Tip Balance on Climate Change (N.Y.Times)

A mine in Jharkhand State. India’s coal rush could push the world past the brink of irreversible climate change, scientists say. CreditKuni Takahashi for The New York Times 

DHANBAD, India — Decades of strip mining have left this town in the heart of India’s coal fields a fiery moonscape, with mountains of black slag, sulfurous air and sickened residents.

But rather than reclaim these hills or rethink their exploitation, the government is digging deeper in a coal rush that could push the world into irreversible climate change and make India’s cities, already among the world’s most polluted, even more unlivable, scientists say.

“If India goes deeper and deeper into coal, we’re all doomed,” said Veerabhadran Ramanathan, director of the Center for Atmospheric Sciences at the Scripps Institution of Oceanography and one of the world’s top climate scientists. “And no place will suffer more than India.”

India’s coal mining plans may represent the biggest obstacle to a global climate pact to be negotiated at a conference in Paris next year. While the United States and China announced a landmark agreement that includes new targets for carbon emissions, and Europe has pledged to reduce greenhouse gas emissions by 40 percent, India, the world’s third-largest emitter, has shown no appetite for such a pledge.

“India’s development imperatives cannot be sacrificed at the altar of potential climate changes many years in the future,” India’s power minister, Piyush Goyal, said at a recent conference in New Delhi in response to a question. “The West will have to recognize we have the needs of the poor.”

Mr. Goyal has promised to double India’s use of domestic coal from 565 million tons last year to more than a billion tons by 2019, and he is trying to sell coal-mining licenses as swiftly as possible after years of delay. The government has signaled that it may denationalize commercial coal mining to accelerate extraction.

“India is the biggest challenge in global climate negotiations, not China,” said Durwood Zaelke, president of the Institute for Governance & Sustainable Development.

Prime Minister Narendra Modi has also vowed to build a vast array of solar power stations, and projects are already springing up in India’s sun-scorched west.

But India’s coal rush could push the world past the brink of irreversible climate change, with India among the worst affected, scientists say.

Indian cities are already the world’s most polluted, with Delhi’s air almost three times more toxic than Beijing’s by one crucial measure. An estimated 37 million Indians could be displaced by rising seas by 2050, far more than in any other country. India’s megacities are among the world’s hottest, with springtime temperatures in Delhi reaching 120 degrees. Traffic, which will only increase with new mining activity, is already the world’s most deadly. And half of Indians are farmers who rely on water from melting Himalayan glaciers and an increasingly fitful monsoons.

India’s coal is mostly of poor quality with a high ash content that makes it roughly twice as polluting as coal from the West. And while China gets 90 percent of its coal from underground mines, 90 percent of India’s coal is from strip mines, which are far more environmentally costly. In a country three times more densely populated than China, India’s mines and power plants directly affect millions of residents. Mercury poisoning has cursed generations of villagers in places like Bagesati, in Uttar Pradesh, with contorted bodies, decaying teeth and mental disorders.

The city of Dhanbad resembles a postapocalyptic movie set, with villages surrounded by barren slag heaps half-obscured by acrid smoke spewing from a century-old fire slowly burning through buried coal seams. Mining and fire cause subsidence that swallows homes, with inhabitants’ bodies sometimes never found.

Suffering widespread respiratory and skin disorders, residents accuse the government of allowing fires to burn and allowing pollution to poison them as a way of pushing people off land needed for India’s coal rush.

“The government wants more coal, but they are throwing their own people away to get it,” said Ashok Agarwal of the Save Jharia Coal Field Committee, a citizens’ group.

T. K. Lahiry, chairman of Bharat Coking Coal, a government-owned company that controls much of the Jharia region, denied neglecting fires and pollution but readily agreed that tens of thousands of residents must be displaced for India to realize its coal needs. Evictions are done too slowly, he said.

 Hauling coal by bicycle in Jharkhand in eastern India. The country plans to double its use of domestic coal by 2019 as part of efforts to reduce poverty. CreditKuni Takahashi for The New York Times 

“We need to shift these people to corporate villages far from the coal fields,” Mr. Lahiry said during an interview in his large office.

With land scarce, Bharat Coking is digging deeper at mines it already controls. On a tour of one huge strip mine, officials said they had recently purchased two mammoth Russian mining shovels to more than triple annual production to 10 million tons. The shovels are clawing coal from a 420-foot-deep pit, with huge trucks piling slag in flat-topped mountains. The deeper the mine goes, the more polluting the coal produced.

India has the world’s fifth-largest reserves of coal but little domestic oil or natural gas production. The country went on a coal-fired power plant building spree over the last five years, increasing capacity by 73 percent. But coal mining grew just 6 percent, leading to expensive coal imports, idle plants and widespread blackouts. Nearly 300 million Indians do not have access to electricity, and millions more get it only sporadically.

“India is going to use coal because that’s what it has,” said Chandra Bhushan, deputy director of the Delhi-based Center for Science and Environment, a prominent environmental group. “Its strategy is ‘all of the above,’ just like in the U.S.”

Each Indian consumes on average 7 percent of the energy used by an American, and Indian officials dismiss critics from wealthy countries.

“I don’t want to use the word ‘pontificate’ when talking about these people, but it would be reasonable to expect more fairness in the discussion and a recognition of India’s need to reach the development of the West,” Mr. Goyal said with a tight smile.

One reason for the widespread domestic support for India’s coal rush is the lack of awareness of just how bad the air has already become, scientists say. Smog levels that would lead to highway shutdowns and near-panic in Beijing go largely unnoticed in Delhi. Pediatric respiratory clinics are overrun, but parents largely shrug when asked about the cause of their children’s suffering. Face masks and air purifiers, ubiquitous among China’s elite, are rare here. And there are signs Indian air is rapidly worsening.

“People need to wake up to just how awful the air already is,” said Rajendra K. Pachauri, chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change, the world’s leading intergovernmental organization for the assessment of climate change.

India’s great hope to save both itself and the world from possible environmental dystopia can be found in the scrub grass outside the village of Neemuch, in India’s western state of Madhya Pradesh. Welspun Energy has constructed what for the moment is Asia’s largest solar plant, a $148 million silent farm of photovoltaic panels on 800 acres of barren soil.

Welspun harvests some of the most focused solar radiation in the world. Dust is so intense that workers must wash each panel every two weeks.

Under Mr. Modi, India is expected to soon underwrite a vast solar building program, and Welspun alone has plans to produce within two years more than 10 times the renewable energy it gets from its facility in Neemuch.

The benefits of solar and the environmental costs of coal are so profound that India has no other choice but to rely more on renewables, said Dr. Pachauri.

“India cannot go down China’s pathway, because the consequences for the public welfare are too horrendous,” he said.

São Pedro não tem ações da Sabesp (Medium)

19 Nov 2014

Reserva da Represa Jaguari/Jacarei no sistema Cantareira, em São Paulo. Foto: Mídia NINJA

No meio de uma crise sem precedentes no abastecimento de água de São Paulo, empresa deve chegar ao fim de 2014 com lucro perto de R$ 1,9 bilhão

por Arnaldo Pagano, especial para a Ponte

Diz a máxima que o capitalismo privatiza os lucros e socializa os prejuízos. No caso da Sabesp, a frase é ainda mais verdadeira: a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos ocorre simultaneamente.

No ano de 2014, marcado por uma crise sem precedentes no abastecimento de água no Estado de São Paulo, a Sabesp apresentou no segundo trimestre um lucro líquido de R$ 302,4 milhões e deve chegar ao fim do ano com um montante próximo do R$ 1,9 bilhão de lucro de 2013.

Isso mesmo! Enquanto parte da população da região metropolitana vê as torneiras secas há meses (como mostra o site colaborativo faltouagua.com), os acionistas da Sabesp têm um faturamento nada escasso. Diante desse quadro, o governo estadual tenta convencer a população de que a culpa é da falta de chuvas. Não é!

Culpar São Pedro pela crise hídrica em São Paulo é brigar com os fatos e desconhecer — ou querer esconder — a ineficiência da gestão da Sabesp, em grande parte provocada pela forma como a empresa é constituída economicamente e pelos interesses que tem de atender.

Dentre alguns pontos discordantes aqui e ali, pode-se tomar essa conclusão do debate realizado na USP na terça-feira (11/11) com acadêmicos especializados em urbanismo e gestão de recursos hídricos. No encontro promovido pelo CENEDIC (Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania), discutiram o tema Gabriel Kogan, arquiteto mestre em gerenciamento hídrico no IHE (Institute for Water Education), Antonio Carlos Zuffo, professor do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp, Luis Antonio Venturi, professor da USP na área de Geografia dos Recursos Naturais, e Nabil Bonduki, professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, vereador pelo PT e membro da CPI da Sabesp.

A questão político-econômica

Para entender a crise da água em 2014 é preciso voltar 20 anos no tempo. Em 1994, a Sabesp deixou de ser 100% estatal, tornando-se uma empresa de economia mista e capital aberto. Até 1997, ela era negociada no mercado de ações de balcão, com o governo dono de 95% da empresa.

Foto: Vagner Magalhães/Terra

Em 1997, as ações foram transferidas à Bovespa e, em 2002, passam a ser negociadas também na Bolsa de Valores de Nova York. Hoje, o Governo de São Paulo detém 50,3% das ações. O restante, 49,7%, é negociado nos mercados financeiros brasileiro e norte-americano.

Para Gabriel Kogan, essa configuração já é um problema. “Água é algo muito estratégico para ser gerido de maneira privada”, analisa. Para ele, o que ocorreu desde a abertura do capital foi uma maximização dos lucros dos acionistas ao mesmo tempo em que os investimentos que poderiam ter evitado a crise atual, como ampliação da rede de captação e saneamento, foram minimizados.

Agora, a crise é enfrentada com a externalização dos custos. O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) pediu ao Governo Federal uma verba de R$ 3,5 bilhões para combater a crise hídrica com projetos a longo e médio prazo. Gabriel Kogan lembra que a quantia equivale a dois anos de lucros dos acionistas.

Ou seja, a Sabesp terá mais dinheiro público, agora da União, sendo que seus acionistas têm esse dinheiro. Mas a externalização de custos pode ser ainda mais cruel. Nós estaremos financiando a Sabesp e seus acionistas, mas e o prejuízo do dono de restaurante da região periférica, que fecha as portas porque falta água quase diariamente porque a Sabesp não investiu no passado? Quem o indenizará?

Para Nabil Bonduki, esse tipo de gestão da Sabesp é totalmente incompatível com o uso sustentável da água. “A água virou objeto de lucro. A Sabesp vive de vender água. Quanto mais água usarmos, maior vai ser a lucratividade da empresa”, comentou.

Dona Rute, moradora do Capão Redondo, vive um racionamento não declarado que pode durar até 9 dias sem água na torneira. A redução do consumo não interessa à lucratividade da empresa. Foto: Sarah Pabst

Para o vereador, a conscientização sobre o uso racional deve ocorrer, inclusive na época de abundância da água, para que os reservatórios estejam sempre cheios, já que, uma vez que eles estejam vazios, a recuperação torna-se muito mais difícil, devido ao chamado “efeito esponja” (com as represas esvaziadas, parte do solo argiloso que antes ficava submersa fica exposta e seca. Quando a chuva acontece, o solo absorve a água como uma esponja, antes de ser capaz de armazenar o líquido precioso).

Diante da lógica da maximização dos lucros, a Sabesp não tomou as medidas necessárias para conter a crise já em 2013, quando o nível dos reservatórios estava baixando. Políticas de racionamento, com penalização de quem desperdiçasse água, e de informação não foram feitas.

Ao contrário, o governo decidiu dar um bônus a quem economizasse. Para Nabil, essa foi a única medida séria, mas totalmente ineficiente, já que gerou uma economia “pífia” de 5%. Muito mais poderia ser obtido se houvesse um investimento da Sabesp na redução de perdas com vazamentos.

Integrante da CPI da Sabesp na Câmara Municipal de São Paulo, Nabil Bonduki diz que é preciso investigar como a redução de perdas de 2009 a 2014 foi de 0,6% (de 20,4% para 19,8%) sendo que o contrato estabelecia um investimento nada modesto de R$ 1,1 bilhão — um investimento bilionário para um resultado insignificante.

Mas a Sabesp não teve apenas um ano para tomar medidas que evitassem o problema atual. O esgotamento do sistema Cantareira já era previsto no ano de 2001 por Aldo Rebouças, professor emérito do Instituto de Geociências da USP, falecido em 2011. À época, Aldo Rebouças disse que o problema era seriíssimo, porque o nível estava perto do limite do sistema.

A Sabesp poderia ter feito um planejamento para “salvar” o Cantareira, mas optou por outra medida, como mostra a reportagem “Sabesp maquia crise no sistema Cantareira”, de Mariana Viveiros, da “Folha de S.Paulo”, em 29 de março de 2001. A repórter obteve um documento interno produzido pela Superintendência de Comunicação da empresa. A orientação era esconder a crise.

Propaganda da Sabesp veiculada no site da Revista Veja na semana de 17 de Novembro de 2014.

E não é de hoje que a influência do capital prejudica o abastecimento sustentável da Grande São Paulo. Em uma entrevista à Agência Fapesp em 2012, a geógrafa Vanderli Custódio, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, disse que a vazão do Tietê quando atravessa a região metropolitana é de 82 metros cúbicos por segundo. A Sabesp, com todos os seus sistemas em capacidade máxima, produz aproximadamente 67 metros cúbicos de água por segundo.

O Tietê, portanto, abasteceria São Paulo inteira e ainda sobraria água, mas isso hoje é totalmente inviável dada a poluição do rio, que tem origem na concessão feita na década de 1920 pelo governo paulista à Light, quando se permitiu a inversão do curso do Rio Pinheiros visando à exploração dos recursos hídricos da Bacia do Alto Tietê para a geração de energia.

Tais problemas levam à questão central pela qual passam as possíveis soluções para a crise: a reestatização da Sabesp. Como uma empresa sem controle público e sob a lógica do capital poderia gerir um recurso essencial à vida? Para Gabriel Kogan, essa mudança será impossível “sem o povo nas ruas”.

Protesto contra a falta de água e má gestão hídrica em frente a sede da Sabesp, em São Paulo. Foto: Mídia NINJA

A questão natural

Só a água do Aquífero Alter do Chão, na Amazônia, abasteceria a humanidade inteira por três séculos. A água do Aquífero Guarani, mais 150 anos. O dado impressionante foi um dos exemplos utilizados pelo professor Luis Antônio Venturi para ilustrar o fato de que a água é, numa perspectiva geográfica dos recursos naturais em escala planetária, o recurso mais abundante do planeta. É praticamente inesgotável.

Tendo em vista que a fonte das águas continentais são os oceanos, enquanto eles existirem, enquanto o sol aquecê-los, enquanto a Terra girar para levar a umidade aos continentes e enquanto a lei da gravidade permitir as precipitações – o que deve acontecer “por um certo tempo”-, não é possível pensar na finitude da água.

Mas, e numa escala local? Segundo Venturi, o mapa hidrográfico de São Paulo é de dar inveja a qualquer região. Por que estamos nessa crise, então? Venturi estabelece sete motivos:

1- Os sistemas não são equilibrados em relação à oferta e demanda. O sistema Rio Grande estava com o dobro de água do Cantareira para atender uma população cinco vezes menor.

2- Os sistemas não estão eficientemente articulados em rede. Deste modo, toda a água que temos não está disponível para todos.

3- Problemas de perdas na rede de distribuição. A média mundial de perdas é de 11%, enquanto em São Paulo é de 19,8% (segundo os dados oficiais, embora especialistas acreditem que essa porcentagem seja maior; na Holanda é de 0%).

4- Algumas represas, como Atibainha, são em formato de pires, com grande superfície de evaporação e baixo armazenamento (o formato ideal seria de uma xícara, por exemplo).

5- Os sistemas só estão sendo equipados agora para usar o volume morto, necessário em planos emergenciais. Sem planejamento, estamos correndo atrás do prejuízo.

6- Você já reparou que a água que bebemos é a mesma água limpíssima que usamos para dar descarga? Sem a utilização da água de reúso, ocorre uma perda qualitativa da água. Metade da água usada em casa poderia ser não-potável.

7- Estiagem natural.

Governador Geraldo Alckmin. Foto: Autoria desconhecida

De acordo com Luis Antônio Venturi, o governo de São Paulo, ao falar com a população sobre a crise, inverte a ordem, colocando a estiagem natural como primeira causa, sem assumir as outras causas, que refletem erros da Sabesp. E mais: essa estiagem não é a maior, já que a falta de chuvas foi mais grave nos anos de 1963 e 1984. Além disso, a estiagem era previsível. São Paulo possui uma ampla base estatística que permite saber quando haverá períodos de mais ou menos chuva.

O professor Antônio Carlos Zuffo revelou alguns fatos que mostram que o atual período não é excepcionalmente seco em São Paulo. Vemos em 2014 seca em São Paulo e na Califórnia, e enchentes na Amazônia e na Europa (na Croácia é a pior da história).

No ano de 1953 o quadro foi rigorosamente o mesmo, com direito a grave estiagem em São Paulo e a maior enchente do Amazonas. Zuffo ainda recordou uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo de 27/11/1953, com o título “Mudanças Climáticas ameaçam a produção de café no Brasil”.

O curioso, segundo Zuffo, é que em 53 não havia nem Transamazônica. Para o professor, a ação humana (antrópica) é ínfima perto da influência dos ciclos solares no clima global. Esse assunto ainda gera mais discussão entre os especialistas, mas o fato mostra que a estiagem em São Paulo não é sem precedentes e que era previsível.

“Como São Paulo fica à mercê de chuva como as sociedades primitivas?”, questiona Luis Antônio Venturi. O professor ainda nota que o governo de São Paulo pode ficar em uma situação desconfortável em breve.

Morador da cidade de Itu, no interior de São Paulo, toma banho de chuva depois de meses de estiagem e racionamento de água. Foto: Itu Vai Parar

Quando começar a chover, o problema da água não será resolvido, dada a situação dramática do Cantareira. Haverá alagamentos, como já houve há algumas semanas. O governo certamente colocará a culpa das inundações na chuva, não no assoreamento ou impermeabilização do solo.

Surgirá, então, a incômoda questão: Como é possível faltar água pela escassez de chuvas e ao mesmo tempo haver enchente pelo excesso de chuvas?

São Pedro merece ser poupado dessa. Ele não está no mercado de ações.

Kelman: ‘A solução para a crise hídrica no país passa pela iniciativa privada’ (Brasil Econômico)

17/11/2014 | 08:40 – Atualizado em: 17/11/2014 | 08:43

Responsável pela implementação da Agência Nacional de Águas (ANA), o engenheiro Jerson Kelman, hoje na UFRJ, defende as Parcerias Público-Privadas para ampliar a segurança hídrica no país

Nicola Pamplona e Octávio Costa

Com passagens pelo comando da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o engenheiro Jerson Kelman defende o modelo de Parcerias Público-Privadas para ampliar a segurança hídrica no país. Segundo ele, investimentos em saneamento e novas fontes de captação de água serão mais eficientes se forem contratados como prestação de serviços, e não como obras públicas. “Esse conceito de contratação pelo resultado, e não pela obra, é um salto qualitativo”, afirma. Para Kelman, que também passou pela presidência da Light, o poder público está amarrado pelo “excessivo” sistema de controle, pelo lobby das empreiteiras e por circunstâncias políticas, responsáveis pela falta de transparência sobre a dimensão das crises de água e de energia no período pré-eleitoral.

“Faltou, em São Paulo, dizer claramente à população que a situação era grave. Mas isso vale também para o governo federal na energia”, comenta o especialista (hoje de volta à Coppe/UFRJ), que não acredita, porém, em um cenário de desabastecimento. “A minha visão é de que, mesmo a longuíssimo prazo, tem água para todos. Mas a questão é tratada com um componente emocional muito forte”, afirma, defendendo a posição de São Paulo na briga pela captação de água do Rio Paraíba do Sul. Responsável pelo relatório que identificou as causas do racionamento de 2001, que levou seu nome, Kelman diz que o diagnóstico da crise energética atual é o mesmo da época: falta de garantias físicas das hidrelétricas.

O que nos trouxe a esse cenário de crise hídrica?

A hidrologia este ano, de fato, ali na região do Piracicaba, que abastece o Sistema Cantareira, não é só a pior da história, é disparada a pior da história. Nenhum hidrólogo poderia imaginar que isso pudesse acontecer. Se a afluência média no verão é 100, o pior ano histórico até então era metade disso. E este ano é metade da metade. É metade do pior. No São Francisco é também a pior do histórico. Não é uma seca trivial, é barra pesada.

É uma situação que costumava acontecer apenas no Nordeste…

São Paulo, em condições normais, já tem baixa disponibilidade de recursos hídricos, porque fica na cabeceira dos rios. Se dividir a disponibilidade hídrica pela população, o Nordeste terá uma taxa maior, porque a população de São Paulo é brutal, 20 milhões de habitantes. Por isso, São Paulo já depende, há muito tempo, de água das bacias vizinhas. E este ano teve uma seca tão intensa, que toda a análise hidrológica anterior terá que ser refeita, ninguém imaginava a possibilidade de ter tão pouca chuva. Quer dizer, São Paulo sempre esteve mais inseguro do que imaginávamos, porque nós não sabíamos que poderia acontecer um ano tão seco.

E como ampliar a segurança hídrica?

São Paulo já tinha feito um plano de macro metrópole, procurando fontes de abastecimento de água, porque não tem outra fonte local. E não tem também porque a água é muito poluída. Se o esgoto estivesse sendo coletado e tratado, os rios Pinheiros e Tietê seriam fontes de abastecimento. Então, antes mesmo da crise, ficou pronto um plano sobre onde buscar água para São Paulo. Mas aquilo era para ser visto a longo ou médio prazo, hoje é urgente, porque São Paulo não pode mais viver sem reforço. E aí há três possíveis locais. Uma possibilidade é tirar água do Alto Paraíba do Sul, mais especificamente da Represa de Jaguari. O problema é que se tirar dali, a água deixa de correr para cidades paulistas como São José dos Campos, Taubaté, e depois para as cidades fluminenses até Campos. E para complicar mais, em 1950, foi feita a transposição do Paraíba do Sul para o Guandu.

Mas o Rio quer impedir a retirada, alegando que pode faltar água aos cariocas…

Hoje, em uma situação crítica, a Cedae está retirando 110 metros cúbicos por segundo do Paraíba do Sul. Mas só usa 50. Abaixo do Guandu, tem umas indústrias, que tiram outros 10, mais ou menos. O Alckmin quer tirar cinco e diz que só vai afetar produção de energia. E ele tem razão. Somando a Cedae e as indústrias, mais uma projeção de crescimento, a demanda máxima no futuro seriam uns 80 metros cúbicos por segundo. Se está passando hoje 110, no mínimo sobram uns 30. O que falta dizer é que, vergonhosamente, o Rio Guandu recebe dejetos de pequenos rios que cortam a Baixada Fluminense. Então, os 110 metros cúbicos por segundo são usados para diluir a carga de poluição. Nos anos 80, fizemos um projetinho simples de desviar essa água poluída para depois da captação. A obra nunca foi feita.

Qual o investimento?

É de R$ 75 milhões. Não é nada. E até a Cedae economizaria. Mas ainda tem outro problema. Se reduzir a vazão do Guandu, lá perto de Sepetiba, o mar invade um pouco mais e tem uma intrusão salina no local de captação dessas indústrias. Esse é um problema de facílima solução, é só mudar a tomada de água das indústrias e trazer por uma tubulação. Resumindo, a ideia de captar água do Paraíba do Sul é perfeitamente exequível. Não há porque ter guerra d’água, desde que se faça o dever de casa no Guandu e no Paraíba do Sul. No fundo, é investimento em saneamento. Se tratar da qualidade da água, sobra quantidade.

Cinco metros cúbicos por segundo resolvem o problema de São Paulo?

Melhora muito, porque, com cinco metros cúbicos por segundo, São Paulo volta a ter a confiabilidade que imaginávamos ter. E pode tirar até mais. São Paulo vai crescer e não pode ficar fazendo obrinha. Mas, enquanto isso for visto como uma obra pública, vamos cair nessas armadilhas relacionadas à origem do dinheiro, e se o Estado do Rio deixa ou não deixa. Uma alternativa seria fazer desse problema uma oportunidade para uma PPP (Parceria Público-Privada). Em vez de obra pública, com dinheiro do PAC, imagine fazer uma licitação para colocar água no Cantareira, vencendo quem oferecer o menor preço por metro cúbico. Essa empresa privada teria que fazer todas as obras necessárias para viabilizar a captação, não só a adutora: resolveria o problema da poluição no Guandu e faria a nova captação de água para as indústrias. Seria uma solução em que ninguém perde. Quem oferecer o melhor preço, leva um contrato para vender água por 30 anos.

A legislação tem instrumentos para permitir isso?

Tem, é uma PPP. Esse modelo se ajusta a quase todas as obras do PAC. Algumas já são assim, como o Minha Casa Minha Vida, por exemplo. O governo paga pelo resultado, não fica pagando por ferro, tijolo. Quando eu estava na ANA, fiz um projeto piloto disso, para a construção de estações de tratamento de esgoto. É normal, no saneamento, ter dinheiro público, porque o beneficiário é o cidadão, e não o consumidor — é a comunidade. No mundo inteiro tem subsídio para saneamento. Ou faz uma obra pública, que é o que se fez aqui sempre, mas não funciona, porque toda a ênfase está na obra; ou se cria um modelo de PPP. O que se fez na ANA foi garantir o recebível. Quer dizer, não quero saber da tecnologia, qual o seu projeto. Quero saber quanto esgoto chega na estação e quanto é tratado. Se trata no padrão combinado, recebe o valor por metro cúbico. Então, o cara não tem risco. E tudo que ele tem que fazer é demonstrar que é capaz de coletar e tratar o esgoto. Esse conceito de pagamento pelo resultado, e não pela obra, é um salto qualitativo.

E as outras alternativas?

Uma é tirar água ao Sul, do Rio Juquiá, que tem várias usinas hidrelétricas. É uma obra cara, porque é longe, e o Juquiá está mais baixo que São Paulo, teria que subir uns 300 metros. Nessa alternativa também pode ser uma PPP, mas como o bombeamento é muito grande, o esquema devia ser um backup: continua tirando água do Sistema Cantareira e, em uma situação parecida com 2014, bombeia a água para lá. Nesse caso, teria que desligar as hidrelétricas, que são da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio, do grupo Votorantim), e cuja concessão vence em 2016. Pode ser fazer uma nova licitação prevendo a parada das usinas nos anos críticos. E a terceira fonte é mais longínqua, é lá no Paranapanema, na divisa com o Paraná, na Represa Jurumirim, a 200 km da região metropolitana. Mas tem a vantagem de resolver uma série de problemas de abastecimento de cidades pelo caminho.

Qual a melhor alternativa?

Acho que o Paraíba do Sul, que custa uns R$ 500 milhões. Mas, pode ser que tirar da Votorantim seja melhor. O problema é que os projetistas sempre imaginaram obras públicas, com as restrições políticas que existem. Quer dizer, já foi uma ousadia imaginar tirar 5 m³ por segundo do Paraíba do Sul porque o Rio ia chiar. É um falso problema, que só existe porque não se resolveu o saneamento. Se resolver, o problema não existe. A minha visão é que, mesmo a longuíssimo prazo, tem água para todos. Mas a questão é tratada com um componente emocional muito forte.

São Paulo e Rio têm perdas enormes nas redes de água. Como resolver isso?

As duas empresas são estatais e a regulação e a fiscalização são muito mais tênues quando se trata de estatais. A Aneel, por exemplo, tem centenas de empresas para fiscalizar, o poder de fiscalização dela é bem maior. Em São Paulo, é uma agência para fiscalizar um monstro que é a Sabesp. E no Rio de Janeiro, a agência não tem nenhum peso, é para inglês ver. No médio prazo, precisamos fazer duas coisas diferentes. A primeira é investir em saneamento. Se compararmos os índices de saneamento básico brasileiro com países análogos, vemos que estamos atrasados. Enquanto 99,3% das casas têm energia elétrica, apenas 60% têm conexões e redes de tratamento de esgoto. E, em tratamento, é pior ainda. E temos que investir também em perdas. A Cedae trata 47 m³ por segundo, mas fatura muito menos do que isso. Deve faturar 60% disso. E essa diferença tem duas origens: uma é vazamento físico, outra são as perdas comerciais. É gato, água roubada, não medida… Tem que trabalhar nas duas frentes. Mas isso tudo são programas de décadas que não deveriam ser feitos com obras públicas, e sim no modelo PPP.

O fato de as empresas de saneamento serem estatais é um obstáculo?

Não. O problema é que o motor que move o saneamento é o lobby da construção civil; não é o lobby da operação do sistema. Quem está no Congresso fazendo emenda ao orçamento está preocupado em construir, em inaugurar obra. Aí, depois de dois anos, se a obra estiver funcionando ou não, não tem problema. Temos um sistema perverso, porque o lobby é para construção, para maximização do custo, para inauguração e para o não funcionamento. Quando ouço na campanha política o cara dizer “Gastei tanto, vou gastar tanto”, penso: e daí? Não interessa quanto gasta; interessa é quando ficará pronto, se funciona ou não. E o segredo disso é a PPP, botar a iniciativa privada na história.

No curto prazo, o Brasil corre risco de desabastecimento?

Nenhuma das obras sobre as quais falamos é para 2015. Olhando para trás, o governo fez a melhor política em relação à água? Claro que não. Porque era ano eleitoral. Não teve transparência, não teve a franqueza com a população que teve, por exemplo, o governo Fernando Henrique Cardoso em 2001. Lá, o governo disse que havia um problema grave. Fui coordenador de uma comissão em 2001 para explicar porque tinha havido o racionamento. Foi feito um relatório, que o setor elétrico chamou de relatório Kelman, que concluía que houve problema de governança. Eu fui entregar o relatório ao presidente e disse que, infelizmente, o governo não saía bem na fotografia. Mas o presidente determinou que comunicássemos à população que a situação era grave e que precisávamos adotar medidas. Uma coisa o governo de São Paulo fez: bônus para quem economizar. Mas não basta, quem usa mais água tem que levar uma pancada. Cerca de 50% da população de São Paulo diminuiu o consumo, cerca de um quarto ficou na mesma e um quarto aumentou. São os espertos. Esse pessoal tem comportamento antissocial e precisa ser penalizado. No racionamento em 2001, quem consumia mais do que a meta pagava uma multa. Em São Paulo, só teve a cenoura, não teve o tacape. Faltou também dizer claramente à população que a situação estava grave. Mas isso vale para o governo federal também na energia. Foi uma infelicidade que 2014 fosse um ano eleitoral, porque não se aplicou a mesma transparência, a mesma clareza de informações que tivemos em 2001. O Alckmin deve ter tido suas razões, porque em 2002 quem ganhou as eleições foi o Lula, e não o Serra. Esse deve ter sido o raciocínio dele. Mas sob o ponto de vista de governo, de interesse público, a atuação não foi a melhor, desperdiçou-se água e os reservatórios estão mais vazios do que deveriam.

Essa atitude ampliou o risco?

A população olha os últimos seis meses e, baseada na experiência de não ter chovido nada, entra em pânico achando que não vai chover nos próximos seis meses. É errado. As pessoas não se lembram que as chuvas são muito sazonais, elas caem no verão. Então, não tem dúvida de que vai chover no verão, e não tem dúvida de que os reservatórios vão se recuperar no verão. A dúvida é se vai chover o suficiente. Se chover a média, os reservatórios da Cantareira vão chegar em abril, no final da estação chuvosa, com 25%. O que está longe do estoque confortável, que é de 65%. Se chegarem a 65%, estamos com a vida ganha. Mas não vão chegar. O mais provável é que saiam do negativo, recuperem um pouquinho, mas de forma insuficiente para dar conforto em 2015. E tem, claro, um cenário péssimo, que não encha nada, e aí é uma tragédia, pode ter caos em São Paulo. Mas é pouco provável. Os dois extremos são improváveis. Então, 2015 será parecido com 2014. Não é o caos, mas as pessoas vão sofrer, como hoje.

Não seria melhor fazer um racionamento compulsório?

Em energia elétrica é possível fazer, já foi feito no Rio nos anos 50, porque pode programar e ter baterias nos hospitais, pode de alguma forma se organizar. Em água, é um pouco mais complicado. Porque as tubulações estão sempre sob pressão e vazando água para o terreno. Quando esvazia o tubo, o terreno está encharcado de água poluída que passa a entrar pelos buracos da tubulação. Então, tem um risco de saúde pública. Têm razão aqueles que dizem para ter cuidado com racionamento. Então o prognóstico para 2015 é preocupante. A obra que está aí na pauta, de uso de água do Paraíba do Sul, já deveria estar sendo feita em regime emergencial, o mais rápido possível. Mas o Brasil caiu em uma armadilha de excesso de controle. A cada novo escândalo, a tendência da população é clamar por mais controle. No setor público, o mecanismo de controle de corrupção, de mau gasto, não tem a medida de eficiência, de qual é o custo do controle versus o custo de eficiência. A não ser na Receita Federal, que é um exemplo positivo. Então, o que tem acontecido é cada vez mais controle, mais burocracia. Na tentativa de inibir o comportamento deletério dos desonestos ou incompetentes, cria-se um monte de regras que restringe a capacidade de operar do honesto e do capaz. Na realidade, todo o incentivo para a administração pública é para não fazer nada. Se não fizer nada, não corre o risco.

A crise energética é grave?

Não falta energia. O que acontece é que a energia está muito cara. Eu fiz uma conta grosseira: de acordo com o TCU, consumidores e contribuintes pagaram extraordinariamente, ou seja, a mais do que seria normal, R$ 60 bilhões nos últimos anos, por conta da hidrologia desfavorável. Para onde foi esse dinheiro externo ao setor elétrico brasileiro? Pagar combustível, porque nós tivemos que ligar as térmicas. Quanto se pagou? R$ 50 bilhões. Então, R$ 10 bilhões foi dinheiro que mudou de bolso dentro do setor elétrico. Geradora que estava com excesso de energia e ganhou bastante dinheiro, por exemplo. De fato, isso não é muito salutar. Em dois anos, um volume tão grande de dinheiro mudar de mãos é porque alguma coisa entre as regras está mal. Mas o fundamental é que R$ 50 bilhões de gasto com térmicas é demais.

Qual o diagnóstico?

A PSR (consultoria especializada), desde 2010, descobriu o que ela chama de fator de ficção. 2013 não foi um ano de hidrologia muito ruim. Pelo contrário, essa energia afluente no sistema, que neste ano está em 80%, foi de 98% em 2013. Foi um ano na média. No entanto, os reservatórios chegaram ao final do ano vazios. Em 2013, foram ligadas todas as térmicas, foi um ano de hidrologia normal e os reservatórios chegaram vazios. A que atribuir isso? A primeira coisa é atraso. O setor conta com a entrada de um monte de usinas e esse cronograma, sistematicamente, atrasa. E muito mais do que atribuir ao Ibama, à Funai, é atribuir às sentenças judiciais tomadas sem que o juiz tenha uma percepção das consequências — na economia, em nossa competitividade, no nível de emprego, no preço da energia.

Como resolver esse problema?

Com planejamento. No Brasil, estamos aprovando, ou desaprovando, empreendimentos individualmente. A análise dos empreendimentos é assim: “Devo construir a usina X, seja hidrelétrica termelétrica ou solar?”. Faz-se uma audiência pública. Quem vai à audiência são os que serão prejudicados localmente, um legítimo direito, e alguns que têm ideologia contrária. Agora, os beneficiários de uma resposta positiva somos todos nós espalhados pelo Brasil inteiro, que não vamos à audiência pública, nem sabemos que existe isso. Hoje, sou favorável a uma discussão política sobre a matriz elétrica que precisamos. O planejamento do país tem que sair de uma esfera puramente tecnocrata para uma esfera política, em que se faça um pacto sobre qual matriz precisamos. Isso foi feito, por exemplo, no trabalho Plataformas dos Cenários Energéticos, realizado por uma ONG, que chamou o Greenpeace, a Coppe, o pessoal de carvão e o ITA. O Greenpeace disse que queria tudo solar. É possível? É. Agora, vai precisar de bateria, porque de noite não tem sol. A energia vai custar tanto, e aí o Brasil não fica competitivo. É isso mesmo? Quem quer o Brasil competitivo ou não gosta de bateria vai se opor. Ou seja, muda de patamar a discussão, em vez de ser “não, não, não”.

Como se daria essa discussão no âmbito político?

Poderia ser no âmbito do Conselho Nacional de Política Energética. Uma discussão da matriz elétrica que passasse a ser mandatória para os órgãos. Em vez de Ibama, ICMBio, Funai examinarem item a item, você reúne o presidente desses órgãos com o ministro de Minas e Energia para chegar a um acordo sobre uma lista de empreendimentos que atenda às necessidades do país. Não será uma lista ótima do ponto de vista ambiental, econômico, energético ou social, mas será uma lista possível. Hoje, temos uma Torre de Babel.

Que nos trouxe a essa situação…

Além dos atrasos nas obras, há uma questão técnica. As decisões tomadas no setor elétrico seguem modelos matemáticos e de otimização muito sofisticados. Mas como qualquer modelo, os dados de entrada têm de estar corretos. Percebeu-se que temos garantia física de usinas que não condiz à realidade. A PSR percebeu uma divergência entre o mundo real e o que o modelo está vendo. No real, está se usando mais água para se produzir energia do que o modelo imaginava. E aí tem uma série de hipóteses que ninguém sabe ao certo o que é. A primeira é uma mudança do regime hidrológico. Outra hipótese é que a relação entre a quantidade de água que passa na turbina e a quantidade de energia produzida esteja errada. Além disso, os reservatórios são como se fossem bacias e, depois de 30 anos que aquilo foi alagado, já mudou completamente a topografia, com o acúmulo de sedimentos no fundo.

Temos um estoque de energia menor do que imaginamos?

Isso. É tão importante conhecer a real capacidade que eu até prefiro que se faça uma anistia: “Olha meus amigos, me contem a verdade, e eu não vou lhes punir”. Uma espécie de delação premiada. Permitiria fazer uma energia de reserva maior.

E as perspectivas para 2015?

Acho que a energia vai continuar cara. Vai ter um grande salto de custo de energia e o cenário mais provável é que continue acumulando isso, porque as térmicas continuarão ligadas.

Pode vir uma chuva e resolver?

Sim, eventualmente, pode chover. Mas eu prefiro esperar, porque é precoce falar de tragédia em novembro, início da estação chuvosa, seja em água, seja em energia. Mas, imaginando um verão que não chova nada, o que não é comum, nós vamos ter racionamento de energia e água em 2015. Porque vamos chegar a abril com estoque perto de zero.

No relatório Kelman, de 2001, o diagnóstico foi de governança…

(Interrompendo) Não, o problema principal é que havia energia garantida falsa na praça.

Ou seja, se houvesse um relatório Kelman agora, o diagnóstico seria o mesmo…

(Risos) É verdade, o problema é parecido.

Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia (Deutsche Welle/Carta Capital)

14/11/2014 – 12h24

por Fernando Caulyt, da Deutsche Welle

operacaopequiacapa 1 Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia

Floresta possui função importante de levar chuvas a outras regiões do continente. No entanto, cientistas são cautelosos com associação entre redução da mata e a pior estiagem em 80 anos no Sudeste

O Sudeste passa pela pior seca dos últimos 80 anos, com mais 130 municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais afetados. Um relatório recente, apoiado pela ONG WWF Brasil, apontou o desmatamento na Amazônia como uma possível causa para o fenômeno – e a conseguinte crise da água. Especialistas ouvidos pela DW, porém, dizem que os motivos vão além.

Ainda não há um estudo científico que comprove a relação direta entre desmatamento e seca. E estudiosos são céticos em fazer essa ligação, sobretudo porque a queda na precipitação em 2014 está fora da proporção na comparação com o aumento da área desmatada no último ano – em 2013 ela atingiu um total de 763 quilômetros quadrados.

Apesar de pesquisadores concordarem sobre a importância da Amazônia na regulação do clima para todo o país, a contribuição do desmatamento para a atual seca é controversa.

Devido à capacidade das árvores de absorver água do solo, a floresta amazônica possui um importante papel para a regulação do clima na América do Sul. Ela libera umidade para atmosfera, mantendo o ar em movimento e levando chuvas para o continente.

A umidade é exportada para regiões distantes pelos chamados “rios voadores” – sistemas aéreos de vapor – irrigando áreas no Sul, Sudeste, Centro-Oeste do Brasil, além de Bolívia, Paraguai e Argentina.

Esse papel já foi comprovado por diversos estudos. E foi reforçado por um relatório que reuniu artigos sobre o potencial climático da floresta divulgado no final de outubro pela Articulação Regional Amazônica (ARA), como o apoio da WWF Brasil.

O documento, porém, vai além. E aponta que o desmatamento na região pode ter um impacto significativo sobre o clima próximo e também distante da Amazônia, ao reduzir a transpiração da floresta e modificar a dinâmica de nuvens e chuvas no continente.

“Não posso colocar toda a culpa na Amazônia, mas há uma combinação de efeitos, e o desmatamento é em parte responsável. Há também uma oscilação natural e as mudanças climáticas provocadas pelos homens”, afirma Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da WWF.

Maretti diz que os efeitos do aquecimento global pioram com o desmatamento na região, que aumenta as emissões de CO2 na atmosfera.

Para Pedro Telles, coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, a destruição da floresta é um dos fatores que contribuiu para causar a atual seca, mas não é o principal. “O principal fator da crise da água em São Paulo é a má gestão. Há anos já se sabia que o Sistema Cantareira tinha limitações e possivelmente chegaria a uma situação de crise e esgotamento. Há problemas na distribuição da água, o desperdício nessa etapa ultrapassa 30%, além da pouca preservação da área de manancial. Mas esses fatores nunca foram tratados adequadamente”, afirma Telles.

O biólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também é ponderado ao relacionar a seca ao desmatamento. Ele afirma que pode haver uma relação entre os dois, devido ao papel climático da floresta, mas evita apontá-lo como a causa principal. “Não temos dados para explicar uma queda de precipitação tão drástica somente por esse efeito. A queda na precipitação no corrente ano está muito fora da proporção em relação ao aumento da área desmatada de 2013 para 2014″, completa Fearnside.

Entre a comunidade científica é quase unânime a importância da Amazônia para as chuvas no continente. No entanto, há divergências sobre sua relação com a estiagem.

“Não dá para dizer que o desmatamento da Amazônia é responsável pela estiagem no Sudeste, porque não existe nenhum estudo científico que comprove essa relação direta”, afirma o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O meteorologista da USP Tercio Ambrizzi é da mesma opinião. “É muito difícil associar a atual seca com o desmatamento. Ele causa impacto, mas numa variabilidade de mais longo prazo e contribui para as mudanças climáticas”, reforça.

Sampaio lembra que a seca foi causada pelo predomínio de uma intensa massa de ar seco sobre o estado de São Paulo durante o verão, que bloqueou as frentes frias vindas do sul trazendo as chuvas.

Além disso, as mudanças climáticas podem estar contribuindo para a situação atual. “A seca pode ser caracterizada com um desses extremos e pode ser já uma resposta às mudanças climáticas, mas não ocorre somente por isso”, completa Ambrizzi.

Com chuvas abaixo da média, o volume de água em importantes rios e represas do Sudeste, como o rio Paraíba do Sul, a nascente do São Francisco e o Sistema Cantareira, diminuiu drasticamente. O abastecimento hídrico em várias cidades está comprometido.

A estiagem também contribuiu para aumentar o número de incêndios florestais no Sudeste. Entre em janeiro e novembro deste ano, os focos de incêndios aumentaram 275% no Rio de Janeiro, 150% em São Paulo e 135% em Minas Gerais, em relação ao mesmo período de 2013.

* Publicado originalmente pela Deutsche Welle e retirado do site Carta Capital.

(Carta Capital)

Mundo deverá quadruplicar energias renováveis até 2050 para conter mudanças climáticas (O Globo)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

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Novo relatório do IPCC afirma também que combustíveis fósseis precisarão ser ‘extintos’ até 2100. Combustíveis fósseis deveriam ser ‘extintos’ até 2100, segundo o IPCC

Copenhague – No capítulo final de uma pesquisa iniciada 13 meses atrás, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) desfilou uma saraivada de números que refletem o caótico aquecimento global. Segundo o estudo, divulgado ontem em Copenhague, a temperatura média na superfície da Terra aumentou 0,85 grau Celsius entre 1880 e 2012. A concentração de gases-estufa na atmosfera é a maior dos últimos 800 mil anos. As ondas de calor vão se tornar cada vez mais intensas e comuns, especialmente no Hemisfério Norte.

Se o mundo quiser evitar que as mudanças climáticas se tornem irreversíveis, o uso de combustíveis fósseis — o principal motor da economia mundial — deve ser zerado em 2100. Para isso, os países precisam quadruplicar o uso de energias renováveis até 2050. Ignorar este ultimato provocará danos “graves, generalizados e irreversíveis”.

Atualmente, os governos gastam cerca de US$ 600 bilhões por ano no subsídio ao consumo de carvão. Ao mesmo tempo, menos de US$ 400 bilhões são investidos por ano no mundo em políticas de redução de emissões ou em outra forma de enfrentar as mudanças climáticas. Segundo o “New York Times”, esta quantia é menor do que a receita de apenas uma petrolífera americana.

De acordo com o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, os projetos de mitigação contra as mudanças climáticas custariam cerca de 0,06% do PIB mundial por ano até o fim do século. Estima-se que, no mesmo período, a economia internacional crescerá 300%.

— O custo da inércia será horrivelmente maior — assegura Rachauri. — Temos pouco tempo pela frente antes que passe a janela de oportunidade para o aumento de temperatura permanecer abaixo de 2 graus Celsius. Manter o atual modelo de crescimento não é uma opção para nós.

GOLPE NA ECONOMIA

Copresidente de um dos três grupos de trabalho do IPCC, Youba Sokona ressalta que há, no mínimo, 66% de chances de a temperatura global aumentar mais de 2 graus Celsius até 2100, caso a queima de combustíveis fósseis continue no ritmo atual.

— A transição para uma economia com baixo teor de carbono é tecnicamente viável — destaca. — Mas faltam políticas e instituições apropriadas. Quanto mais esperarmos para agir, maior será o custo para mitigação e adaptação.

A liberação de gases-estufa segue em escalada nas últimas décadas. Cerca de metade das emissões de CO2 da era industrial ocorreu nos últimos 40 anos. Com isso, o cenário mais provável é que a temperatura média global ultrapasse os 4 graus Celsius até 2100. Atingir esta marca significa “dificultar a redução da pobreza (…) e corroer a segurança alimentar”, diz o estudo.

Entre 1901 e 2010, o nível do mar aumentou 0,19 centímetro — um valor maior do que nos 2 mil anos anteriores. Se os termômetros continuarem crescendo, em 2050 o gelo do Oceano Ártico terá praticamente desaparecido nos meses de setembro. Até o fim do século, o nível do mar pode aumentar 82 centímetros. Há previsões de grandes enchentes e desaparecimento de países insulares e cidades costeiras.

A mudança do regime de chuvas, a absorção de gases-estufa pelo oceano e o derretimento de geleiras vão afetar a disponibilidade de alimentos para as espécies marinhas. Sua migração também prejudicará a indústria pesqueira.

O calor também afetará o rendimento de safras de trigo, arroz, milho e soja. Estes recursos são a base da economia de países em desenvolvimento. Suas populações, as mais atingidas por eventos extremos, devem migrar para outras regiões. A chegada dos refugiados climáticos aumentará a desigualdade social e a possibilidade de conflitos violentos.

Esta descrição foi atenuada na redação final do relatório. O documento original, editado durante a semana, afirmava que a migração em massa de populações provocaria conflitos violentos “na forma de guerra civil”.

Segundo o Banco Mundial, a comunidade internacional precisará investir entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão por ano para ajustar sua infraestrutura ao perigo representado pelas mudanças climáticas.

— O impacto das mudanças climáticas será muito diferente em cada país. Por isso é tão difícil estimá-lo — admite a economista Stéphane Hallegatte, coautora do relatório do IPCC. — Eles precisam de dinheiro para desenvolver a tecnologia ecológica, defesa costeira, planos de mitigação e adaptação e gestão de risco de desastres.

Pachauri lembra que as nações mais vulneráveis contribuem pouco para as emissões de gases-estufa. Por isso, atacar o problema torna-se responsabilidade de todos os governos:

— Enfrentar o aquecimento global não será possível se cada agente pensar apenas em seu plano. Precisamos de cooperação entre os países para alcançar nossos objetivos.

FALTA DE ACORDO GLOBAL

O relatório do IPCC, que está em sua quinta edição, deve servir como base para as discussões da Conferência do Clima de Lima, em dezembro deste ano. As esperanças, porém, estão concentradas na edição do ano que vem do encontro, em Paris. Espera-se que este fórum resulte em um acordo global contra as mudanças climáticas. Havia a mesma expectativa em Copenhague, em 2009, quando o debate foi pautado pelo quarto documento do IPCC.

— Tivemos uma conversa extensa há cinco anos, mas, olhando para trás, talvez os líderes mundiais não estivessem tão preparados para discutir o clima — admite o secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon. — Eles precisam agir. O tempo não está ao nosso lado.

Não é tão simples assim. O combate às mudanças climáticas é marcado por desentendimentos. Países em desenvolvimento se recusam a aceitar metas para reduzir emissões de CO2 — exigência imposta pelas nações desenvolvidas.

Em setembro, Ban ki-Moon organizou uma Cúpula do Clima na ONU, em uma tentativa de antecipar as discussões previstas para os fóruns ambientais. No encontro foi apresentada a Declaração de Nova York, um documento que propunha a redução pela metade do corte de florestas até 2020 e zerá-lo na década seguinte. Com esta medida, entre 4,5 bilhões e 8,8 bilhões de toneladas de CO2 deixariam de ser liberadas para a atmosfera — o equivalente à remoção de um bilhão de carros das ruas até 2030. Brasil, Índia e China, que estão entre os maiores desmatadores do mundo, recusaram-se a assinar o acordo.

A China, maior poluidora do planeta, comprometeu-se apenas a divulgar quando atingirá o pico de suas emissões — o que deve ocorrer antes de 2030. Os EUA limitam-se a cobrar projetos da potência asiática. A União Europeia e o Brasil estabeleceram metas voluntárias — ou seja, sem valor legal. A Índia, que será a nação mais populosa do mundo daqui a menos de 20 anos, luta para ser definida como país em desenvolvimento, um sinal de que não pretende assumir objetivos.

DISCUSSÕES MADRUGADA ADENTRO

Pachauri, porém, acredita que o novo relatório pode virar o jogo. De acordo com ele, o documento apresentado ontem é “o mais forte e robusto” já produzido pelo IPCC. Para especialistas, o maior objetivo foi cumprido: enfatizar como a ação humana interfere na temperatura do planeta, tese muito contestada poucos anos atrás.

Vice-presidente do IPCC, Suzana Kahn avalia que o relatório final foi mais “claro e objetivo” do que os documentos escritos nos últimos meses pelos grupos de trabalho. Suzana, porém, acredita que os números do IPCC não mudarão facilmente o posicionamento dos governos nas negociações internacionais.

— Os países permanecem com suas posições históricas já consolidadas — afirma Suzana, uma das responsáveis por resumir o relatório original, que tinha 175 páginas, no divulgado ontem, com 40 páginas. — Para fazer isso, foi uma dificuldade. Imagine, então, na negociação propriamente dita. Tanto que, em vez de encerrarmos as discussões na sexta-feira, às 18h, elas só foram fechadas no sábado, às 16h, e precisamos debater todas as madrugadas. Ou seja, tudo foi marcado por pouca disposição de cooperação.

Os climatologistas ressaltam que, mesmo se todas as medidas de mitigação e adaptação forem tomadas, os estragos provocados pelo homem no clima serão visíveis no próximo século, já que as alterações feitas em biomas, geleiras e o acúmulo de carbono nos oceanos não serão remediadas imediatamente. O meio ambiente tem seu próprio tempo. E, para assegurá-lo, o ser humano corre contra o relógio.

Fonte: GVces / O Globo.

Crise hídrica em São Paulo – 10 de novembro de 2014

Mais da metade das 54 nascentes de SP estão secas, revela pesquisa (Portal do Meio Ambiente)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

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Desrespeito do homem pela natureza é a principal causa. Pesquisa da Unesp foi feita no interior de São Paulo.

Uma pesquisa feita por biólogos da UNESP revela uma situação alarmante, no interior de São Paulo. Mais da metade das 54 nascentes de água que estão sendo monitoradas secaram na última década. A falta de chuva agravou o problema, mas a causa principal é o desrespeito do homem pela natureza.

Em 2003, os pesquisadores recolheram amostras de dezenas de córregos e nascentes do interior de São Paulo. Agora, eles voltaram a esses locais e constataram que a situação piorou muito. “Nesse período a gente conseguiu quantificar que 81% desses riachos anteriormente mostrados, perderam qualidade aquática de maneira geral e perderam volume de água”, fala a pesquisadora da UNESP Lilian Casatti.

Das 54 nascentes documentadas na pesquisa, 34 tem menos da metade de água que tinham há dez anos e 29 estão secas. É o caso da nascente do rio São José dos Dourados, um dos mais importantes da região noroeste de São Paulo. Até pouco tempo atrás, a área era coberta de água e agora a nascente simplesmente desapareceu e deu lugar a um caminho tomado de lixo.
Em outra nascente, a do Rio Preto, um dos mais importantes do interior paulista, quase não dá para ver água. Foto feita pelos pesquisadores há onze anos mostra uma área bem diferente. Dava para ver o curso da água bem definido. Agora ele quase não aparece. No lugar cresceu uma vegetação típica de terrenos assoreados.

“O que é o assoreamento, nada mais é que a entrada de terra dentro desses riachos. Essa vegetação só cresce em locais úmidos e locais que tem um substrato – uma terre para ela crescer porque ela é enraizada”, explica a pesquisadora da UNESP Jaquelini Zeni.
O que faltou na maior parte das nascentes que secaram são as chamadas matas ciliares. Elas impedem que terra, areia e outros sedimentos acabem bloqueando a saída da água nas nascentes.

Há dez anos, uma das nascentes quase não tinha água. Nesse período, a área foi toda reflorestada e hoje, apesar da seca recorde em São Paulo, a água está em quantidade bem razoável. “A gente tem que começar a plantar realmente árvores nesses riachos, do lado desses riachos pra gente poder daqui um tempo colher água, porque senão, a gente vai enfrentar situações extremas, como a gente está vendo”, completa Jaquelini.

Veja a matéria no site do Jornal Hoje

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10/11/2014 – 12h50

Falta d’água: não é uma crise ocasional (IHU On-Line)

por Patricia Fachin e Andriolli Costa, do IHU On-Line

Entre as razões que explicam a crise hídrica e de abastecimento no estado de São Paulo, “uma mudança climática intensa” é, “sem dúvida”, o elemento central para compreender a “maior crise de abastecimento e a maior crise hídrica nos últimos 100 anos”, diz o pesquisador José Galizia Tundisi à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone.

“As causas dessa crise estão relacionadas a uma seca muito intensa e à falta de precipitação. Para dar um exemplo, em outubro deste ano teríamos de ter tido 130 milímetros de chuva, como é o esperado, mas tivemos só 30”, exemplifica.

Na avaliação do especialista, a “magnitude da crise” foi uma surpresa, mas a resolução do problema não passa por “fazer mais do que já estava sendo feito”. Segundo ele, “o estado de São Paulo tem um sistema de controle de qualidade e quantidade de água bem estabelecido” e, portanto, “nem o Sistema Federal, nem o Sistema Estadual poderiam fazer muito mais, dada a magnitude da crise e a rapidez com que ela ocorreu”. Tundisi critica e alerta a politização que tem sido feita em relação ao tema. “Não poderia haver uma politização da crise, uma vez que isso não é benéfico para ninguém”, pontua.

De acordo com ele, o “Sistema da Cantareira está sofrendo uma enorme depressão de volume de água”, e se não chover nos próximos 30 dias “vamos ter de usar as últimas reservas de água do Cantareira e a partir daí tenho impressão de que deverão ser mobilizados outros tipos de transposição de águas, de outras represas, para que com isso se possa aportar mais água ao sistema e para que ele não entre em colapso”, esclarece.

Tundisi explica ainda que a crise hídrica pode ser estendida a outros estados brasileiros, pois há um “desequilíbrio hidrológico”. “Estamos passando por uma série de mudanças climáticas muito sérias, está havendo extremos hidrológicos. (…)Há um processo de desequilíbrio hidrológico em algumas áreas, por exemplo, em áreas muita secas, há excesso de chuva. Por outro lado, a seca no Nordeste esse ano foi a maior dos últimos cinquenta anos, e o excesso de chuva e de precipitações no Sul resultou que, nas Cataratas do Iguaçu, em julho deste ano, houve um excesso de 46 milhões de litros de água por segundo despejados, sendo que a média é um milhão e meio, ou seja, há desequilíbrios. Portanto, é com esses problemas regionais e continentais que o país terá de lidar”.

José Galizia Tundisi é graduado em História Natural, mestre em Oceanografia na University of Southampton e doutor em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor titular aposentado da USP e professor titular do curso de Qualidade Ambiental da Feevale. É presidente da Associação Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental – IIEGA e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia – IIE. Suas pesquisas são financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

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Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as razões da crise de abastecimento de água em São Paulo?

José Tundisi – A principal razão, sem dúvida nenhuma, é uma mudança climática muito intensa que está ocorrendo, e disso temos praticamente a maior crise de abastecimento e a maior crise hídrica nos últimos 100 anos. E, portanto, as causas dessa crise estão relacionadas a uma seca muito intensa e à falta de precipitação. Para dar um exemplo, em outubro deste ano deveríamos ter tido 130 milímetros de chuva, como é o esperado, mas tivemos só 30, portanto, essa é a causa principal.

IHU On-Line – Durante a disputa eleitoral deste ano, a crise de abastecimento de água foi usada como método de acusação de um partido contra o outro. Era possível em âmbito federal e estadual ter tomado medidas que evitassem essa crise?

José Tundisi – Acredito que não. O estado de São Paulo tem um sistema de controle de qualidade e quantidade de água bem estabelecido há muito tempo e não se trata de fazer mais do que já estava sendo feito. Na verdade houve, sob certo ponto de vista, uma surpresa até na magnitude da crise, porque se esperava uma crise, mas não dessa magnitude.

A crise vem se estabelecendo já há alguns anos, mas havia uma diminuição. De todo modo, acho que nem o Sistema Federal nem o Sistema Estadual poderiam ter feito muito mais, dada a magnitude da crise e a rapidez com que ela ocorreu, porque a crise foi muito rápida, de modo que em outra entrevista, dada ao jornal Folha de S. Paulo, eu já tinha alertado que não poderia haver uma politização da crise, uma vez que isso não é benéfico para ninguém.

Continuo achando isso e continuo dizendo que deve haver uma união de esforços no sentido de procurar soluções de longo prazo e que sejam mais adequadas. Na verdade, o que está se desenhando é que a crise será muito mais longa do que parece; ela não é uma crise ocasional, é uma crise quase que permanente pelo menos por alguns anos. E evidentemente é preciso encontrar soluções que enfrentem esse problema de uma forma por um lado emergencial e, de outra, com medidas estruturais e não estruturais de longo prazo.

IHU On-Line – É possível pensar que uma crise de abastecimento, tal qual ocorre em São Paulo, se alastre por outros estados brasileiros?

José Tundisi – É possível, sim. Nós estamos passando por uma série de mudanças climáticas muito sérias, estão ocorrendo extremos hidrológicos, porque quando se fala em crise de água, quer dizer que em alguns casos no Brasil há excessos hidrológicos, que é o próprio caso do Rio Grande do Sul. Portanto, há um processo de desequilíbrio hidrológico, em algumas áreas com muitas secas, e, em outras, com excesso de chuva. Por exemplo, a seca no Nordeste este ano foi a maior dos últimos cinquenta anos, enquanto o excesso de chuva e de precipitações no Sul resultou que, nas Cataratas do Iguaçu, em julho deste ano, houve um excesso de 46 milhões de litros de água por segundo despejados, sendo que a média é um milhão e meio. Portanto, é com esses problemas regionais e continentais que o país terá de lidar.

IHU On-Line – Quais são os reservatórios de água considerados críticos hoje no país?

José Tundisi – Se você olhar as hidrelétricas de Minas Gerais, por exemplo, elas têm problemas, Furnas também, todos os reservatórios do Rio Grande do sul, do Paranapanema, do próprio Tietê, têm problemas de seca. A hidrovia Tietê-Paraná parou de funcionar por causa da seca e, portanto, a crise atinge uma área grande do Brasil, atinge também uma parte do Rio de Janeiro e uma parte do Paraíba. Portanto, todo esse conjunto deve ser considerado como uma séria ameaça à economia e à saúde pública do país e a uma grande parte da população do país, que se concentra principalmente na região Sudeste.

O que é muito significativo é que se fala muito em “quantidade de água”, mas não existe uma preocupação com “qualidade de água” e esse é outro problema. Inclusive levantei essa questão na semana passada com o presidente da Academia Brasileira de Ciências, e sugeri que a Academia faça um alerta aos governos federal, estaduais e municipais para chamar a atenção para o problema da qualidade da água e da saúde pública associada à seca ou às enchentes, porque isso também tem problemas com as enchentes.

O pessoal quer água, muito bem, mas que tipo de água? O que essa água vai causar? Hoje, em certas regiões de São Paulo, se distribui água em caminhões-pipa. De onde vem essa água e qual a sua qualidade? Então isso precisa ser considerado.

IHU On-Line – Quem é o presidente atual da Academia Brasileira de Ciências e qual a posição que a academia demonstrou?

José Tundisi – O presidente atual é o professor Jacob Palis. A Academia Brasileira de Ciências vai fazer uma reunião dias 21 e 22 de novembro em São Paulo, juntamente com a Academia de Ciências do Estado de São Paulo, para discutir a crise de abastecimento e a seca no Sudeste do estado. Aí vai ser discutido e provavelmente vamos apresentar um comunicado ao país em função da discussão dos especialistas; seguramente deveremos produzir um documento que vai incluir também a questão da qualidade e um alerta às secretarias da saúde, por exemplo, com a finalidade de que se possa chamar a atenção para o problema e pedir que as autoridades tomem medidas preventivas de extremo cuidado com relação à qualidade da água.

IHU On-Line – Qual o papel de cientistas e especialistas para chamar a atenção dos poderes públicos para as medidas mais efetivas no combate e prevenção nesse tipo de crise?

José Tundisi – Nós temos de atuar de uma forma propositiva e ao mesmo tempo de alerta, propondo medidas seguras para que se possa enfrentar a crise. Vou dar um exemplo: uma represa que é frequentada por cerca de 10 mil pessoas nos finais de semana, que não tinha nenhum problema de qualidade de água, começou a apresentar problemas severos de qualidade de água na região de São Carlos, de Pirapina e de Brotas, e isso me obrigou a escrever um laudo aos prefeitos dessas cidades, aos secretários da saúde e à promotoria pública no sentido de impedir o contato direto da população com essa água, ou seja, impedir o banho, porque as condições de balneabilidade da represa, em 43 anos, superaram e muito as condições mínimas da Organização Mundial da Saúde para a balneabilidade. Então, o que nós temos de fazer é alertar os poderes públicos e os sistemas de controle de vigilância sanitária para impedir que a população possa, por exemplo, utilizar a água de má qualidade e sofrer efeitos de saúde. Nós não temos o poder de impedir isso, mas os setores públicos têm, e a nossa função é alertá-los para que eles possam tomar as medidas necessárias.

IHU On-Line – Qual é a atual situação do Sistema da Cantareira?

José Tundisi – O Sistema da Cantareira está sofrendo uma enorme depressão de volume de água, e com isso nós estamos esperando que se não chover dentro de mais ou menos 30 dias, vamos ter de usar as últimas reservas de água da Cantareira. A partir daí tenho a impressão de que deverão ser mobilizados outros tipos de transposição de águas, de outras represas, para que com isso se possa aportar mais água ao sistema e para que ele não entre em colapso.

No caso de São Paulo especificamente, o problema não é só para abastecimento público; a hidrovia fechou, mas a hidroeletricidade é fundamental, porque, por exemplo, São Paulo é o maior produtor de suco de laranja do mundo, São Carlos é um dos maiores produtores de etanol do mundo, e tudo isso depende de água e de abastecimento. Bom, esse é um problema que deve ser considerado dentro de um contexto mais amplo, não só de abastecimento público, de modo que a questão da Cantareira entra na questão do abastecimento público, mas há outros problemas subjacentes de saúde pública, de economia, geração de emprego e renda, por exemplo, de queda na produção, os quais devem ser considerados.

IHU On-Line – Especialistas dizem que o desmatamento em bacias hidrográficas contribui para diminuir a quantidade e a qualidade das águas. Quais são as bacias hidrográficas de São Paulo mais degradadas e por quais razões elas se encontram em tal estado?

José Tundisi – São várias razões. Apesar dos esforços que têm sido feitos para a recuperação de bacias hidrográficas, com reflorestamento, etc. — e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP tem tido um papel fundamental nesse projeto de recuperação da biodiversidade terrestre através do reflorestamento, porque ela teve um grande programa que mobilizou justamente no sentido de restaurar bacias hidrográficas —, nós temos algumas bacias, especialmente nas regiões metropolitanas, que sofreram esses processos de desmatamento. No interior do estado também, por causa da urbanização, há um impacto de desmatamento dos mananciais em muitas cidades; por outro lado, algumas cidades utilizam recursos hídricos subterrâneos, que também estão sob pressão. Então, entre essas causas todas, sem dúvida nenhuma, o desmatamento é um dos problemas mais sérios da escassez de água.

IHU On-Line – Qual o nome das bacias em estado crítico?

José Tundisi – Bacia do Baixo Cotia, na região metropolitana de São Paulo; no Rio Sorocaba tem um programa de reflorestamento muito bem sucedido, no Rio Jundiaí também, no Rio Jacaré Pepira também. Já outros rios afluentes do Tietê, por exemplo, na Bacia do Tietê Jacaré, sofreram desmatamento forte por causa da plantação de cana-de-açúcar. Então, não é algo contínuo, é espalhado no estado em função dos impactos da urbanização, da industrialização e da agricultura.

IHU On-Line – Como e em que sentido a degradação dos biomas brasileiros impacta nos recursos hídricos? Nesse sentido, qual é o papel do Cerrado para garantir o abastecimento de água no país?

José Tundisi – O Cerrado tem um papel importante porque tem um milhão e meio de metros quadrados, mas o bioma foi muito impactado com o movimento da agroindústria, especialmente de soja, e evidentemente a recomposição das áreas de mananciais no Cerrado é uma das grandes prioridades. Nessa próxima etapa de governo — e eu dizia isso antes da eleição, qualquer que fosse o governo —, o grande fator de mobilização pode ser um megaprojeto de reflorestamento no Brasil todo; isso gera empregos, protege o meio ambiente, os mananciais, a qualidade da água, porque, em regiões onde há proteção a partir do manancial, se gasta muito pouco para tratar a água. Em contrapartida, num manancial degradado, sem cobertura vegetal e sem proteção, o custo do tratamento pode ser até cem vezes maior. Portanto, há uma relação muito forte entre a questão da proteção da biota terrestre, especialmente a vegetação e a biodiversidade terrestre, e a qualidade e quantidade de água. Isso é fundamental para restaurar as reservas hídricas do país; isso em nível de Brasil, não é apenas em São Paulo.

IHU On-Line – Já é possível vislumbrar os impactos do Código Florestal nos recursos hídricos? Quais são os principais equívocos do Código Florestal aprovado há pouco mais de dois anos sobre os recursos hídricos?

José Tundisi – Por enquanto, ainda não, até porque esse Código Florestal já vem sendo “estuprado” há muito tempo, não é de agora que ele tem sido alterado. Eu fui muito contra o estabelecimento de metas físicas para proteger a vegetação ao longo dos rios, porque se falou muito em cinco metros, dez metros, trinta metros. Isso não existe; o que existe é o rio e a sua calha e a área de inundação do rio. A proteção deve ir até onde o rio pode inundar as suas margens, porque aí é que está a vegetação que tolera a inundação: podem ser cinco, dez ou cem metros. Essa questão é que precisaria ser discutida, mas não foi. É o rio e a sua calha, e não a metragem fixada pelo homem. Não é o homem quem tem que fixar a metragem até onde vai a vegetação; quem tem que fixar essa metragem é a capacidade de manter o ecossistema funcionando.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os outros equívocos que o Código Florestal traz?

José Tundisi – Faltou uma visão mais clara de incentivos em relação à proteção. Precisaria ser mais incisivo com relação aos incentivos que se pode dar para aqueles que protegem as áreas de vegetação e o próprio reflorestamento. A recomposição de serviços dos ecossistemas, por exemplo, e o pagamento de serviços ambientais, poderiam ter sido mais enfatizados nesse projeto.

IHU On-Line – Que medidas estão sendo desenvolvidas para resolver o problema de abastecimento em São Paulo?

José Tundisi – As medidas emergenciais são aquelas que o governo está tomando em função da transposição de água de alguns reservatórios para outros. São Paulo está fazendo também uma adutora grande que vai buscar água no Rio São Lourenço, na região sul do estado de São Paulo, e que traria mais água para o abastecimento, mas isso vai demorar mais um pouco. De todo modo, emergencialmente estão sendo efetuadas medidas de transposição de água de bacia, também estão sendo efetuados incentivos para que as pessoas utilizem menos água, ou prêmios com bônus para que as pessoas economizem água, o que também é importante nessa questão; e, também, em áreas críticas, a disponibilização de caminhões-pipa para abastecer as cidades onde há situações muito críticas. Ainda precisa mais, deve-se pensar em transposição de água de outras regiões, em dessalinização de água na Baixada Santista, o que pode ser um fator importante de produção de água doce em larga escala para a população da região metropolitana, de modo que essas medidas ainda não foram tomadas, mas seguramente nós vamos influenciar para que elas possam ser tomadas.

IHU On-Line – O que a crise hídrica de São Paulo revela sobre o sistema hídrico brasileiro?

José Tundisi – Falhas da governança, falhas na capacidade de mensuração, principalmente da qualidade da água e monitoramento integrado. Além disso, o tripé qualidade da água, quantidade de água e governança está desconectado. O principal problema é este, de todos os lados nós temos falhas. Temos uma excelente lei de recursos hídricos, mas cuja implementação é muito lenta e de difícil desenvolvimento, e, além disso, há um problema de governança: os nossos comitês e agências de bacias deveriam estar funcionando em todo território nacional, com recursos próprios gerados na bacia para recuperação dessas bacias. Então, lentidão nas execuções da lei de recursos hídricos, que eu repito, é uma das melhores do mundo, e integração muito pouco efetiva entre quantidade de água, qualidade de água e governança, e mais participação popular na economia de água.

IHU On-Line – Ainda que não possamos politicalizar a crise, não é importante cobrar dos nossos políticos que eles desenvolvam um pensamento mais sistêmico, que seja capaz de fazer ligações entre, por exemplo, o desmatamento e os incentivos a uma exploração desenfreada e a falta de água, é pensar não só as causas, mas o sistema que leva a isso?

José Tundisi – Claro, completamente de acordo. Isso precisa ser feito com urgência. O Congresso precisaria se mobilizar para poder colocar leis de incentivos mais efetivas e leis de estímulo à mobilização, e também pensar de uma forma mais ampla em todo o sistema de gestão de águas no Brasil com mais competências das agências, a capacidade de integração das agências federais com as agências estaduais e inclusive com o sistema municipal.

Na região do Sul, especialmente no Vale do Rio dos Sinos, que conheço bem — sou professor titular da Universidade Feevale —, temos trabalhado muito essa questão do Vale do Rio dos Sinos e a integração do comitê de bacias, do qual a Unisinos e a Feevale fazem parte, e outras universidades da região mais as prefeituras. Isso tem de ser integrado de uma forma mais efetiva, com o apoio do governo estadual e do governo federal, de tal forma que isso possa ser realmente um conjunto de ações efetivas.

O problema todo é que no Brasil tem bons projetos, bons planos e fraca execução. Esse é o eterno problema deste país: a execução é fraca, é falha e lenta. Esse é o problema do Brasil em todas as áreas, especialmente nos setores públicos federal, municipal e estadual. Tem bons planos, bons projetos, tem recursos, e na hora de executar existem grandes falhas, ou porque os executores não foram treinados, ou porque os executores não têm essa visão sistêmica ou então têm essa visão mais setorizada do processo, mas o principal é capacitação. Por isso nós estamos fazendo um grande esforço para capacitar gestores, para capacitar gerentes, para capacitar pesquisadores que se integrem ao sistema de gestão e com isso melhorar o processo de execução.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

(IHU On-Line)

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10/11/2014 – 10h59

Nível de água volta a cair no Cantareira e em cinco mananciais de SP (Agência Brasil)

por Marli Moreira, da Agência Brasil

Sistema Cantareira atinge volume zero em 2014 mes de junho20140515 0003 406x270 Nível de água volta a cair no Cantareira e em cinco mananciais de SP

O nível do Sistema Cantareira teve nova queda ao passar de 11,4%, ontem (9), para 11,3% hoje (10), incluindo a segunda cota da reserva técnica, segundo informa a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Esse manancial e os cinco restantes no estado devem continuar caindo até quarta-feira (12), quando o tempo permanecerá seco.

De acordo com o meteorologista Marcelo Schneider, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), de hoje até quarta-feira, predominará o clima com sol entre nuvens e temperatura agradável.

“Com a passagem de uma frente fria vinda do oceano poderemos ter o ar mais úmido e alguma chance de áreas de instabilidade já na noite de quarta-feira e pancadas de chuva na quinta-feira, mas serão de curta duração”, informou.

Schneider disse que as áreas de instabilidade deverão se deslocar rumo à região central do país passando pela zona da mata, em Minas Gerais, e no Espírito Santo.

Ontem (9), com apenas garoa em pontos isolados, também ocorreram baixas nos reservatórios dos demais sistemas de abastecimento: o Sistema Alto Tietê (de 8,3% para 8,2%); o Guarapiranga (de 36,6% para 36,4%); o Alto Cotia (de 30,4% para 30,3%); o Rio Grande (de 67,1% para 66,8%) e o Rio claro (de 39,2% para 38,5%).

Na semana passada, o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, defendeu a necessidade de se aumentar a produção de água em São Paulo para algo em torno de 60 metros cúbicos por segundo, até 2035. Na avaliação dele, além da construção de novos reservatórios, o ideal é minimizar as perdas na distribuição e buscar alternativas de reuso.

* Edição: Marcos Chagas.

** Publicado originalmente no site Agência Brasil.

(Agência Brasil)

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10/11/2014 – 10h08

Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira (SOS Mata Atlântica)

por Redação da SOS Mata Atlântica

restauracao centro mudas clickarvore 614x430 Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira

A Fundação SOS Mata Atlântica lançou edital para seleção de áreas prioritárias para a restauração florestal da Mata Atlântica, com propostas que colaborem para conservar e proteger os recursos hídricos do Sistema Cantareira.

Por meio do programa Clickarvore, que apoia iniciativas e projetos de restauração florestal, serão investidos até R$ 2 milhões em propostas enviadas até o dia 15 de janeiro por pessoas físicas ou jurídicas, associações, OSCIPs ou ONGs ambientalistas e por proprietários de terras.

A chamada pública, com recursos do Bradesco Cartões e Bradesco Seguros, prevê a doação de até 1 milhão de mudas de espécies florestais nativas da Mata Atlântica.

O objetivo é recuperar até 400 hectares de mata, promovendo assim a conservação de 4 milhões de litros de água por ano na área de abrangência do Sistema Cantareira. Em meio a uma crise hídrica, o conjunto de bacias há 30 anos convive com quase 80% de desmatamento de sua cobertura florestal nativa e hoje possui apenas 48,8 mil hectares de remanescentes, ou 21,5% de sua área de Mata Atlântica original.

As propostas, para áreas entre 15 e 30 hectares, deverão ter como foco principal as Áreas de Preservação Permanente da Bacia Hidrográfica e mananciais que compõem o Sistema Cantareira.

Acesse o edital aqui.

Os projetos do edital irão beneficiar até 12 municípios de São Paulo e Minas Gerais, com a respectiva porcentagem de vegetação nativa existente:

cantareira Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira

Todas as propostas devem ter prazo de conclusão até 11 de dezembro de 2015.

Para mais informações, acesse o documento completo em http://bit.ly/Click-2014.

* Publicado originalmente no site SOS Mata Atlântica.

(SOS Mata Atlântica)

Dilma tem encontro com Alckmin para buscar saída para crise hídrica (Vermelho.org)

10 de novembro de 2014 – 10h02

Reafirmando o compromisso de diálogo feito durante o discurso da vitória, após a confirmação dos resultados das eleições em 26 de outubro, a presidenta Dilma Rousseff reúne-se nesta segunda-feira (10) com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) para buscar uma saída para a crise hídrica em São Paulo.

Em 2011, a presidenta Dilma recebeu em audiência o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para discutir investimentos de infraestrutura e mobilidade

Em 2011, a presidenta Dilma recebeu em audiência o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para discutir investimentos de infraestrutura e mobilidade

A presidenta já determinou à sua equipe empenho total para ajudar o governador paulista. No encontro será discutida uma série de medidas estimadas em R$ 18,7 bilhões, a maioria para obras ainda não iniciadas e outra pequena parte para projetos em andamento.

A falta de água em São Paulo atingiu o seu ponto mais crítico nos últimos dois meses. O volume do Sistema Cantareira, principal represa do estado que abastece a capital paulista, atingiu 11,4%, o que representa o volume mais baixo desde que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) decidiu incluir, no fim de outubro, a segunda cota do volume morto. A segunda cota do volume morto foi utilizada porque o nível do Cantareira estava em apenas 3%, o mais baixo já registrado na história.

Bancos públicos

“Temos um conjunto de obras [em médio prazo] a serem feitas e a participação do governo federal é importante”, disse Alckmin. A ajuda federal ao governo de São Paulo será feita por meio dos bancos públicos, tão criticados pelo guru econômico dos tucanos, Armínio Fraga durante as eleições presidenciais. As obras em curso contarão com um empréstimo da Caixa de R$ 1,8 bilhão para a construção do sistema São Lourenço, adutora para reforçar o fornecimento em zonas críticas, além de obras como a interligação dos reservatórios de Jaguari e Atibainha, no Cantareira.

Entre as obras de longo prazo estão as chamadas de “super-estruturantes”, como a transposições do rio Juquiá e do reservatório Jurumirim, no rio Paranapanema, hoje destinados ao abastecimento de energia, todas estimadas em R$ 12,4 bilhões e que responderiam por metade da vazão que São Paulo precisa cumprir até 2030.

Além da questão hídrica, o encontro também deve discutir a liberação de recursos de convênios já firmados para a construção da linha 13 da CPTM, que liga São Paulo ao aeroporto de Guarulhos, e o prolongamento da linha 9-Esmeralda até Varginha, na zona sul.

Com informações de agências

Como falar sobre a crise hídrica na sala de aula (Porvir)

24/10/2014 – 12h57

por Marina Lopes, do Porvir

A falta de água pode servir de gancho para discutir sobre gestão de recursos hídricos e consumo consciente

Nos últimos meses, as discussões sobre a água e o consumo consciente ganharam espaço em razão do período de seca nas regiões sudeste e nordeste e com a crise no abastecimento que atinge o estado de São Paulo, maior metrópole do país. Atualmente, o Sistema Cantareira, principal responsável por abastecer a região, opera com apenas 3% do volume dos seus reservatórios. Diante desse cenário, como o professor pode discutir o tema em sala de aula? O Porvir conversou com alguns especialistas e reuniu uma lista com dicas de recursos digitais que podem auxiliar os educadores.

Segundo o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, da Universidade de São Paulo, a escola precisa mudar a forma como trata sobre os recursos hídricos nacionais. “A criança e o adolescente não podem ter o mito da abundância da água reforçado.” Para ele, o Brasil tem um nível bastante elevado, mas essa água está distribuída de maneira desigual. “Ela é abundante na escala nacional, mas é muito escassa em locais como a região metropolitana de São Paulo”, apontou Wagner.

Educacaocrisehidrica Como falar sobre a crise hídrica na sala de aula

O especialista acredita que a crise vivida na cidade representa um problema de gestão, já que nos últimos anos não foram adotadas medidas voltadas para a ampliar os sistemas de captação, diminuir perdas durante o armazenamento e estimular reuso da água. “Infelizmente, nada disso foi realizado. Em um período mais seco, não temos ações de contingência”, afirmou.

O momento de crise, onde parte da população fica sem água nas torneiras durante horas ou até dias, pode servir para despertar a discussão sobre o uso da água. “A ideia é que o consumo consciente seja um hábito trabalhado desde a infância”, defendeu Denise Conselheiro, coordenadora do Edukatu, rede de aprendizagem sobre consumo consciente. Segundo ela, isso garante que as próximas gerações tenham essas práticas muito mais incorporadas ao seu dia a dia.

De acordo com a representante do Edukatu, para falar sobre esse tema na escola, o professor deve recorrer ao uso de atividades lúdicas e a uma linguagem divertida. “A abordagem precisa ser diferente”. Além disso, é preciso trazer as questões sobre o uso da água para o cotidiano do aluno, como o risco de desperdício dentro da própria escola.

Uma sugestão de atividade, apresentada por Wagner Costa Ribeiro, da USP, é de pedir para os alunos levarem a conta de água para escola. Na sala de aula, o professor pode comparar o consumo de cada família com a média geral da turma. A partir daí, ele consegue discutir maneiras de promover o uso racional dos recursos hídricos. No ensino médio, ele também pode acrescentar o debate sobre o modelo de gestão hídrica adotado na cidade.

A partir de buscas em sites como a Escola Digital, o Portal do Professor (MEC) e o Edukatu, o Porvir reuniu algumas dicas de recursos digitais que podem auxiliar os professores a falarem sobre o tema. Confira a lista:

Água em números

Com a linguagem de um infográfico animado, o vídeo apresenta dados da distribuição de água no planeta, consumo e desperdício em situações do dia a dia. A animação mostra que um buraco de três milímetros no encanamento, por exemplo, pode desperdiçar 3.200 litros de água por dia.

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Como prevenir a seca

Produzido pela equipe do site Planeta Sustentável, o infográfico apresenta alternativas para o uso racional da água. A arte também divide o consumo de acordo com o segmento – agricultura, indústrias ou uso doméstico. Segundo os dados apresentados no infográfico, o setor agrícola é responsável por 70% do consumo global.

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Quadrinhos sobre a água

A história em quadrinhos fala sobre a importância da água e como ela está distribuída no planeta. A partir dos diálogos entre os personagens, o aluno pode perceber que a água existe em abundancia no globo, mas apenas uma pequena parte dela é própria para o consumo.

Etapa: ensino fundamental
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Atividades sobre o uso da água

Disponíveis para download, o conjunto de atividades reúne jogos e testes sobre o tema água. O material tenta conscientizar o aluno sobre a importância de promover o uso racional dos recursos hídricos.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Atividades sobre a importância da água

O recurso digital reúne materiais que falam sobre a importância da água no meio ambiente. Além disso, as atividades também tratam sobre a constituição hídrica do planeta e como ela é disponibilizada para o consumo humano.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Como a água chega até as nossas torneiras?

A imagem ilustra o caminho que a água percorre, desde quando é retirada da natureza, até o momento em que chega às torneiras de uma casa. Também é possível ver alguns processos de armazenamento de água nas estações de tratamento.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Percurso da Água no Edukatu

No Edukatu o professor conta um percurso de aprendizado inteiro dedicado ao tema água. O material está disponível em duas fases: na primeira, ele apresenta recursos digitais que ampliam o conhecimento sobre a temática de forma lúdica; na segunda parta, é apresentado para o educador a proposta de desenvolver um projeto de intervenção no ambiente escolar, podendo incluir ações de conscientização sobre o uso racional da água.

(obs: para ter acesso ao material, o professor deve realizar um cadastro no site)

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Edukatu

* Publicado originalmente no site Porvir.

(Porvir)