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Proposta de alteração do Código Florestal provoca corrida ao desmatamento em Mato Grosso (ICV)

03/05/2011 – Laurent Micol, Ricardo Abad e Sérgio Guimarães / ICV
Novos desmatamentos detectados no município de Nova Ubiratã, Mato Grosso, entre agosto/2010 e abril/2011 Fonte: ICV

Nas últimas semanas acumularam-se provas de que está ocorrendo uma forte retomada do desmatamento no estado de Mato Grosso. Dados do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), do Imazon, já indicavam uma tendência de alta de 22% do desmatamento e de 225% na degradação florestal entre agosto/2010 e março/2011, com relação ao mesmo período do ano anterior. No mês de abril, operações de fiscalização realizadas pelo Ibama e divulgadas na mídia local e nacional revelaram o reaparecimento de casos de megadesmatamentos (desmatamentos acima de 1.000 hectares), que haviam praticamente desaparecido em Mato Grosso nos últimos três anos. O ICV mapeou o desmatamento recente em três municípios do centro-norte do estado, confirmando a tendência.
Nos meses de agosto/2010 a abril/2011, identificamos 66 novos desmatamentos no município de Nova Ubiratã, totalizando cerca de 37 mil hectares (Figura 1).

Clique aqui para ver o mapa em alta resolução.

No mesmo período, no município de Santa Carmem foram 24 novos desmatamentos totalizando 9 mil hectares e, no município de Cláudia, 22 novos desmatamentos totalizando também 9 mil hectares. No período de agosto/2009 a julho/2010, o desmatamento nesses municípios havia sido de 2.300, 1.200 e 700 hectares, respectivamente. O aumento nesses três municípios, somente até o mês de abril, já foi de mais de 1.200%.
Até o momento, a maior parte dos grandes desmatamentos detectados foi na região centro-norte do estado, que é a primeira a ter abertura da cobertura de nuvens. Nessa região predomina o plantio de grãos em grande escala. No entanto, com o final da estação chuvosa, podem aparecer grandes desmatamentos também nas regiões norte e noroeste. Com base nessas informações, alertamos que a taxa de desmatamento no estado de Mato Grosso, que havia caído abaixo de 100 mil hectares em 2010, pode voltar nesse ano aos níveis do período de pico, de 2001 a 2005, quando a média foi de 900 mil hectares por ano (Figura 2).

Clique aqui para ver a tabela do desmatamento.

Segundo informações de campo, o que está acontecendo é uma corrida para desmatar grandes áreas o quanto antes, visando aproveitar-se da anistia do desmatamento ilegal prometida pela proposta de alteração do Código Florestal. Essas ações estão sendo realizadas à revelia da lei em vigor, com a expectativa de impunidade, mesmo sabendo que certamente haverá fiscalização do órgão ambiental. Como demonstrado por várias análises, nas autuações por desmatamento ilegal, apenas um percentual ínfimo das multas são pagas.

Essa retomada dos desmatamentos em Mato Grosso baseada na aposta da alteração do Código Florestal também ecoa a atuação do próprio governador do estado, Silval Barbosa, que, em 20 de abril do corrente ano, sancionou uma lei do zoneamento estadual que prevê a possibilidade de regularização ambiental para áreas desmatadas até a data de sua publicação e, ainda, pretende isentar de reserva legal propriedades abaixo de 400 hectares, em franca contradição com a legislação federal.

Essa situação pode gerar consequências dramáticas não somente em termos ambientais, mas também políticos e possivelmente econômicos para Mato Grosso e para o Brasil. Mato Grosso vinha sendo responsável por mais de 60% da redução do desmatamento na Amazônia desde 2005, fator primordial para o cumprimento das metas de redução das emissões de gases de efeito estufa contidas na Política Nacional de Mudanças Climáticas. Nesse contexto, a retomada do desmatamento constitui um retrocesso inaceitável e uma demonstração concreta de que a proposta de alteração do código florestal atualmente em tramitação no congresso nacional é extremamente nefasta, assim como foi a sanção da lei do zoneamento de Mato Grosso. É fundamental que o governo federal atue com a máxima urgência, tomando as atitudes necessárias, inclusive junto ao congresso nacional, para reverter essa situação e assim evitar maiores prejuízos à natureza e à sociedade brasileira.

Clique aqui para baixar pdf da análise.

Link original aqui.

OAB diz que vai à Justiça contra ofensas a nordestinos no Twitter (FSP)

12/05/2011 – 14h18

Folha de S.Paulo – 12/05/2011 – 14h18

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Ceará informou nesta quinta-feira que entrará, no fim da tarde, com notícia crime no Ministério Público Federal contra dois internautas suspeitos de injúria e discriminação. Na noite de ontem, no final da partida entre Flamengo e Ceará pelas quartas de final da Copa do Brasil, ambos postaram comentários ofensivos a nordestinos.

Por volta das 0h, uma torcedora que se identifica como Amanda Régis escreveu: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que tem moral, cambada de feios. Não é atoa que não gosto desse tipo de raça” [sic].

Outro usuário, que se identifica como Lucian Farah, também xingou nordestinos com palavrões, em três comentários. Um deles diz “Só vim no twitter falar o qnto os NORDESTINOS é a DESGRAÇA do brasil.. pqp! bando de gnt retardada qe acham que sabe de alguma coisa” [sic].

Em nota, o presidente da OAB-CE, Valdetário Andrade Monteiro, afirma que qualquer forma de preconceito deve ser combatida. “A Constituição Federal trata todos iguais, sem distinção de qualquer natureza. Não podemos permitir que a pessoa, com um certo grau de conhecimento, se utilize da internet para disseminar prática de racismo”.

Os tuítes provocaram uma onda de comentários desde a madrugada –a maior parte de reação contra os usuários. Com a repercussão, os comentários foram apagados pelos usuários.

Farah, nesta quinta, postou pedido de desculpas: “Como brasileiro, TORÇO sim! e quando torço, sou FANÁTICO! e qdo sou fanático, eu xingo msm! mas ontem me exaltei e fui alé disso! qdo me referi aos nordestinos, queria me referir inteiramente ao time do ceara. e tenho CERTEZA que nao fui o unico a xingar os nordestinos” [sic].

Amanda Régis também postou um pedido de desculpas: “meu deus gente, agi por impulso por causa do flamengo, não tenho nada contra nordestinos….desculpa ai galera.JAMAIS DEVERIA TER FEITO ISSO [sic]”.

A reportagem não conseguiu localizar os usuários para falar sobre os comentários.

12/05/2011 – 12h25

Comentários contra nordestinos causam revolta no Twitter

Atualizado às 13h32.

Comentários ofensivos a nordestinos provocaram uma onde de revolta entre usuários do serviço de microblogs Twitter nesta quinta-feira.

Por volta das 11h50, 3 dos 10 assuntos mais comentados na rede social no país eram relativos ao assunto. Dois dos assuntos também entraram na lista do “trending topics” mundial.

A revolta começou na noite de quarta-feira (11), no final da partida entre Flamengo e Ceará pelas quartas de final da Copa do Brasil, que acabou em um empate que eliminou o time carioca.

Por volta das 0h, uma torcedora que se identifica como Amanda Régis escreveu: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que tem moral, cambada de feios. Não é atoa que não gosto desse tipo de raça” [sic].

Reprodução
Comentário publicado por Lucian Farah em sua conta no Twitter
Comentário publicado por Amanda Régis em sua conta no Twitter

Outro usuário, que se identifica como Lucian Farah, também xingou nordestinos com palavrões, em três comentários. Um deles diz “Só vim no twitter falar o qnto os NORDESTINOS é a DESGRAÇA do brasil.. pqp! bando de gnt retardada qe acham que sabe de alguma coisa” [sic].

Reprodução
Comentário publicado por Lucian Farah em sua conta no Twitter
Comentário publicado por Lucian Farah em sua conta no Twitter

Imediatamente, os tuítes provocaram uma onda de comentários desde a madrugada –a maior parte de reação contra os usuários. As palavras-chave mais usadas, que estão entre os assuntos mais comentados, são: “Amanda Regis”, “#orgulhodesernordestino” e “Parabéns Ceará”.

Com a repercussão, os comentários foram apagados pelos usuários. Hoje, Farah postou pedido de desculpas: “Como brasileiro, TORÇO sim! e quando torço, sou FANÁTICO! e qdo sou fanático, eu xingo msm! mas ontem me exaltei e fui alé disso! qdo me referi aos nordestinos, queria me referir inteiramente ao time do ceara. e tenho CERTEZA que nao fui o unico a xingar os nordestinos” [sic].

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Ceará informou que vai entrar no fim da tarde com uma notícia crime no Ministério Público Federal contra os dois usuários por injúria qualificada e discriminação.

A reportagem não conseguiu localizar os usuários para falar sobre os comentários. Nesta quinta, ambos publicaram pedidos de desculpas no microblog.

ELEIÇÕES

Nas eleições do ano passado, após a confirmação de Dilma Rousseff como a nova presidente da República, a estudante de direito Mayara Petruso escreveu em seu twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!”

O comentário desencadeou uma onda de manifestações contrárias a nordestinos, que supostamente seriam os responsáveis pela vitória da petista.

Com a repercussão do caso, o escritório onde a estudante trabalhava divulgou comunicado em que lamentava a “infeliz opinião”.

A Polícia Civil de São Paulo abriu investigação contra a estudante e outras pessoas por suspeita de racismo.

A ONG SaferNet, que trata dos direitos humanos na internet, encaminhou mais de mil perfis de twitter que teriam feito comentários semelhantes ao Ministério Público Federal em São Paulo. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Pernambuco também pediu providências à Procuradoria.

Danzing sobre comunicação, inteligência e tortura

O debate é marcado por certa visão interna americana sobre o valor social do aparato de inteligência, mas há pontos interessantes sobre comunicação e política, relevantes para pesquisa na área.

Five Reasons Why Torture Did Not Help U.S. Forces Find Bin Laden

5-3-2011

By David Danzig – http://www.humanrightsfirst.org

The AP reported: “Current and former U.S. officials say that Khalid Sheikh Mohammed, the mastermind of the Sept. 11, 2001 terrorist attacks, provided the nom de guerre of one of bin Laden’s most trusted aides. The CIA got similar information from Mohammed’s successor, Abu Faraj al-Libi. Both were subjected to harsh interrogation tactics inside CIA prisons in Poland and Romania.”

Since Bin Laden’s death, Liz Cheney, the daughter of the former Vice President, and other proponents of “enhanced” interrogation techniques have taken to the air waves to trumpet this bit of news, but there is every reason to believe that torture actually hindered, rather than helped, U.S. efforts to find Bin Laden. Here are five of them.

1) It’s not so simple

Khalid Sheik Muhammed (KSM) did not talk, according to the AP, when he was tortured, but rather months later when he was questioned using humane interrogation techniques.

When asked on “Morning Joe” if KSM had provided information on the courier due to torture, John Brennan, the President’s Counter Terrorism advisor said, “not to my knowledge.” Brennan was later asked on FOX News if KSM and al-Libi had provided the initial information about the courier. “If only it were that simple,” he said.

2) KSM did not tell us everything he knew

KSM and al-Libi almost certainly concealed a great deal of information about the courier who ultimately led US forces to Bin Laden. Indeed, Bin Laden was killed in the town where Al Libi used to live. Al Libi’s role was to prepare safe houses for Al Qaeda leaders like Bin Laden, and the courier has been described repeatedly as “a confidant of Khalid Sheik Muhammed.” Yet all CIA interrogators were able to learn was a nickname for him. As compared to what they could have learned, this is not very impressive.

A senior US official told reporters that it was only four years later that US forces learned the courier’s real name and location.

3) Interrogators say that using torture does not make a detainee reveal the whole truth later

Some will argue that it was only thanks to the waterboarding that KSM and al-Libi were willing to talk at all. This notion is rejected by the more than 75 interrogators, questioners and debriefers with the military, the FBI and the CIA who I have spoken to in depth about this subject since the revelations of abuse at Abu Ghraib. I have yet to speak to a professional interrogator who believes that torture is an effective means of questioning suspected terrorists.

Jack Cloonan who served on the FBI’s Osama Bin Laden unit for 6 years told me that during an interrogation (or what the FBI calls an interview) the goal was to, “work towards the objective of getting this person to cross the threshold and become, in effect, a traitor to their own cause.”

According to Cloonan, “the Al Qaeda people that I dealt with were all very sophisticated in terms of their language skills and understanding of what was at stake.” Cloonan said that it essentially became a question of whether he could offer the detainee enough of what he wanted (protection for his family, more lenient sentencing/incarceration etc.) to convince him to talk. “They struggled,” he said, “with whether or not I was being truthful and I was going to honor everything I said.”

If you gave the detainee any reason not to trust you, there is no negotiation, Cloonan explained. The detainee won’t be willing to bargain with giving up his knowledge in exchange for something the interrogator can provide. He simply won’t trust you. Torture, Cloonan says, shatters any possibility for trust. “It changes the dynamic,” Cloonan said. “And once you have gone down that path, in my experience there is no going back.”

4) We simply do not know how much more helpful KSM and Al Libi might have been if they had been interrogated solely using humane methods that have been proven to be effective

In the war on terror, the most wanted men to date have been captured thanks to intelligence developed by interrogators who do not use abuse.

I once showed Joe Navarro a former FBI special agent who used to teach questioning techniques, a TV clip of the FOX show “24” featuring Jack Bauer torturing someone while yelling “where is the bomb?” and asked him why that sort of tactic would not work on high value detainees. “That’s ridiculous,” said Navarro. “I want to know everything that a detainee knows. I don’t simply want to know where the bomb is! I want to know who funds him and how? Where are their safehouses? Who else does he know? What does he know that I don’t even know to ask about?” The dynamics of a torture session make for good TV because the detainee delivers the info in a short sound bite. But in the real world, interrogators who use abuse put themselves in a position where detainees will, at best, provide them with only limited information.

Consider other high profile captures and kills in the war on terrorism. The former insurgent who fingered Saddam Hussein voluntarily drew his U.S. interrogator a map showing exactly what spider hole the former dictator was hiding in. And the Al Qaeda operative who pointed US forces to Al Zarqawi, the former head of Al Qaeda in Iraq, told his interrogators the name of Zarqawi’s spiritual advisor and what kind of car he drove. (Ultimately coalition forces followed the advisor’s car to Zarqawi.)

This level of cooperation is unthinkable if torture is used. And it leaves one wondering if we might have found Osama Bin Laden earlier if KSM and al-Libi had been interrogated by the FBI’s subject matter expert or another interrogator committed to using humane techniques from the start.

5) The optics of the US using torture do not help in the larger struggle

Consider the case of Nasir Abbas, a former high-level terrorist who worked with Jemaah Islamiya (JI), the Indonesian terrorist group responsible for the Bali bombings.

Abbas was captured by Detachment 88, an Indonesian police task force so committed to using humane techniques that its interrogators often begin interrogation sessions by praying together with detainees as “fellow muslims.” Abbas, as he explains, in a best selling book recently released in Indonesia decided, in part thanks to his treatment by police authorities, that the way that JI engaged in killing innocent civilians was wrong. He provided the Indonesian police with dozens of leads and it is thanks to his – and other former JI operatives’ conversion – that officials say they have been able to substantially reduce the threat from JI.

How many chances has the U.S. had to convert someone like Nasir Abbas to our side?

How potent a weapon might it be to have a former Al Qaeda operative announce publically that he thinks that what Al Qaeda does is wrong and that he was wrong about his captors? (And for that matter how helpful might it be to have found a well-placed Pakistani in the town where Bin Laden was holed up who was willing to rat him out simply because it was the right thing to do.)

I am sure that the Liz Cheney’s of the world would say that this outlook is naive and that these trained killers would never turn on their comrades. To them, I can only say that I am sure that the directors of Detachment 88, in Indonesia, and the interrogators who led us to Saddam Hussein and Al Zarqawi faced the same criticism.

David Danzig is a senior advisor to Human Rights First

Estatais inovam mais do que as companhias privadas, mostra pesquisa (Agência Brasil)

JC e-mail 4244, de 26 de Abril de 2011.

Entre 2006 e 2008, as empresas estatais federais promoveram mais inovações do que as companhias privadas.

Praticamente sete em cada 10 empresas públicas criaram algum produto ou processo nesse período, segundo a Pesquisa de Inovação nas Empresas Estatais Federais 2008, divulgada quarta-feira (20) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as empresas privadas, de acordo com a última Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, a relação cai para quatro em cada dezena.

O estudo sobre inovação nas estatais foi feito em parceria com os ministérios da Ciência e Tecnologia e do Planejamento e analisou, pela primeira vez, as empresas federais isoladamente. Ao todo, foram investigadas 72 companhias públicas, de um total de 118 acompanhadas pelo Departamento de Coordenação e Controle das Empresas Estatais (Dest).

De acordo com a gerente responsável pela pesquisa, Fernanda Vilhena, esse resultado reflete o padrão de inovação observado nas estatais federais, mais voltado para pesquisa e desenvolvimento (P&D), geralmente em parceria com universidades. “O grande diferencial é que as empresas, sobretudo as industriais, promovem a inovação muito baseada na compra de máquinas e equipamentos. Já nas estatais federais, o padrão de inovação é voltado para pesquisa e desenvolvimento dentro da própria empresa e, também, com arranjos cooperativos com universidades. Isso é muito interessante e acabou determinando o resultado positivo de inovação nessas companhias”, disse ele.

A pesquisa também revelou que, entre as estatais inovadoras, 27,8% lançaram algum produto novo no mercado nacional e 29,2% implementaram processo inédito, também direcionado ao mercado interno. Nas empresas privadas, esses percentuais são 4,4% e 2,4%, respectivamente.

Vilhena ressaltou que essa diferença pode ser explicada, além do volume maior de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, pelo monopólio que algumas estatais exercem em determinados setores, como o de energia. “Essas empresas são muito intensivas em pesquisa e desenvolvimento, o que gera muito processo inovador. No caso dos produtos, as estatais, muitas vezes, são as únicas ofertantes de um produto.
Então, ao lançar um produto novo, ele é automaticamente novo para o mercado”.

A pesquisa também destacou que o apoio do governo, por meio de bolsas de fundações de amparo à pesquisa e dos incentivos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), impulsionou as inovações nas empresas estatais. Já em relação aos entraves para implementar processos inovadores, o estudo revela que as dificuldades são mais evidentes nas companhias públicas. Mais da metade (57,1%) enfrentaram pelo menos um obstáculo de importância alta ou média para inovar, especialmente relacionado à burocracia da administração pública. A dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a rigidez organizacional foram citados por 64,2% delas. Já para o conjunto de empresas privadas ouvidas pela Pintec, os maiores obstáculos foram os elevados custos da inovação (57,1%), os riscos econômicos excessivos (65,6%) e a escassez de financiamento (51,4%).
(Agência Brasil)

Que democracia racial é essa? (Carta Capital)

Por Rodrigo Martins

20 de abril de 2011

Apesar da redução das disparidades propiciadas por programas de segurança alimentar, como o Bolsa Família, o abismo que separa brancos e negros no Brasil continua gigantesco. Essa é uma das conclusões do 2º Relatório Anual de Desigualdades Raciais, divulgado na terça-feira 19, pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os indicadores foram compilados a partir de diferentes bases de dados do IBGE, dos ministérios da Saúde e Educação, entre outras instituições públicas. O estudo revela que os afrodescendentes têm menor acesso ao sistema de saúde (uma taxa de não cobertura de 27%, frente aos 14% verificados entre a população branca), a exames ginecológicos preventivos, ao pré-natal e sofrem com uma taxa maior de mortalidade materna.

Por dia, morrem cerca de 2,6 mulheres pretas ou pardas por complicações na gestação, enquanto este mesmo problema acomete 1,5 mulheres brancas. Entre 1986 e 2008, a taxa de fecundidade das afrodescendentes caiu de forma mais acelerada (48,8%) que a das brancas (36,7%). No entanto, as mulheres pretas ou pardas se sujeitam com mais intensidade a procedimentos radicais de contracepção, como as laqueaduras. Quase 30% dessa população em idade fértil estavam esterilizada em 2006, frente a uma taxa de 21,7% das mulheres brancas.

“Ninguém é contra o planejamento familiar. A queda na taxa de natalidade representa uma melhora na qualidade de vida das pessoas. Mas as afrodescendentes poderiam ter acesso a formas menos agressivas de intervenção”, avalia o economista Marcelo Paixão, coordenador do relatório. “A esterilização é uma solução radical demais. É como arrancar um dente para não tratar uma cárie. Por isso, causa preocupação o fato de parte dessa redução da fecundidade estar associada às laqueaduras.”

Nos últimos 20 anos, a média do tempo de estudos dos afrodescendentes acima de 15 anos passou de 3,6 anos para 6,5. Mesmo assim, está muito aquém da população branca, hoje com uma média de 8,3 anos de estudo. Além disso, 45,4% das crianças pretas ou pardas entre 6 e 10 anos estudava na série inadequada em 2008, frente ao percentual do 40,4% dos brancos. Entre as crianças de 11 e 14 anos, o problema é ainda mais grave, pois 62,3% dos afrodescendentes não estudavam na série correta. Entre os jovens brancos, a inadequação atingia 45,7%.

Por outro lado, as famílias pretas ou pardas beneficiadas pelo Bolsa Família conseguiram aumentar a quantidade de alimentos consumidos em proporção superior (75,7%) a das famílias brancas (70,1%). A elevação no consumo de arroz entre os afrodescendentes foi de 68,5%. Brancos: 31,5%. No caso do feijão, o consumo dos pretos e pardos cresceu 68%. Brancos: 32%.

“Apesar de melhorar a segurança alimentar dos afrodescendentes, o que é importantíssimo, em todos os outros setores percebe que a discrepância entre brancos e negros prevalece”, comenta Paixão. “Devido às elevadas taxas de desemprego, rotatividade no mercado de trabalho e informalidade, os pretos e partos tem um acesso bem menor à cobertura da Previdência Social. A diferença chega a dez pontos percentuais na população masculina e 20% entre as mulheres”, completa.

Outro dado que chama a atenção é o baixo índice de condenação por crimes de racismo no Brasil. Entre 2007 e 2008, 66,9% dos casos julgados nos Tribunais de Justiça de todo o País foram vencidas pelos réus e apenas 29,7% das supostas vítimas saíram vitoriosas. Na primeira instância, as vítimas tiveram sua demanda judicial contemplada em 40,5% dos acórdãos.

“Talvez os magistrados ainda acreditem no mito da democracia racial brasileira e, por isso, sejam mais brandos nas condenações e na aplicação das penas”, especula o professor da UFRJ. “Pela lei, o racismo é um crime inafiançável e imprescritível, mas não tenho notícia de um único racista condenado à prisão no Brasil. Vejo apenas punições pecuniárias, sobretudo indenizações, e pedidos de desculpas formais.”

Climate, Communication and the ‘Nerd Loop’ (N.Y. Times, Dot Earth)

April 14, 2011, 9:46 AM – By ANDREW C. REVKIN

Randy Olson, the marine biologist turned filmmaker and author who’s about as far from the label “nerd” as can be, had his Howard Beale “mad as hell” moment over climate miscommunication last week on his blog, The Benshi.

The piece, “The Nerd Loop: Why I’m Losing Interest in Communicating Climate Change,” is a long disquisition on why there’s too much thumb sucking and circular analysis and not enough experimentation among institutions concerned about public indifference to risks posed by human-driven global warming. He particularly criticizes scientific groups, universities, environmental groups and foundations and other sources of funding. Randy summarized his points in a short “index card” presentation (in lieu of a Powerpoint) and followup interview on Skype (above). [Stephen McIntyre of Climateaudit has posted a response, entitled “The Smug Loop.“]

In our chat I admitted freely that I’ve stepped aboard the “nerd loop” on occasion on this blog, exploring humanity’s “blah, blah, blah, bang” habit when it comes to confronting certain kinds of risks. This goes for financial bubbles and tsunamis as well as long-term, long-lasting changes in the climate.

I agree with Olson, utterly, that there’s not enough experimentation, too much fear of failure and also far too much fear and misunderstanding at scientific institutions, from America’s universities to the Intergovernmental Panel on Climate Change, about the obligation and responsibility to engage the public in a sustained way. As I’ve put it here and elsewhere many times, it’s particularly important as traditional science journalism becomes a shrinking wedge of a growing pie of communication portals.

I encourage you to watch the video and/or read Olson’s provocative essay. You won’t agree with all of what he says. I don’t, and in fact I think that research revealing the human habit of embracing or ignoring information based on predispositions and emotion, not the information, is vitally important to convey (and needs to be conveyed more creatively, too!).

But I hope you’ll recognize the merits in Olson’s argument. Here’s the summary of the “Nerd Loop” essay:

Mass communication is not a science. How many times do I have to say this? The more you think it is — or even let yourself talk about the science side of it without allocating EQUAL energy to the art side of it, the more you are doomed to take it deeper into the hole of boredom and irrelevance. Such is the state of climate science communication by the large science and environmental organizations who have bought into the magic bullet of metrics and messaging.

AND FURTHERMORE … eh, hem (a colleague at NASA just pointed this out to me) … look at this quote: “Recent advances in behavioral and decision science also tell us that emotion is an integral part of our thinking, perceptions, and behavior, and can be essential for making well-judged decisions.”

“RECENT ADVANCES”??? Social scientists think this is some sort of recent breakthrough — that humans are not robots? The quote comes from a paper in the first volume of the new Nature Climate journal. As my colleague said, “What rock did these guys crawl out from under? Give me a break all you social scientists and quit living up to your stereotype.”

Honestly.

Here are some relevant posts and links. Beware, you’re about to enter “the nerd loop” (which I, personally, see as important, even as everyone loosens up and starts experimenting):

The Psychology of Climate Change Communication” (The Center for Research on Environmental Decisions, Columbia University)

Climate, Mind and Behavior” (a series of symposiums at the Garrison Institute)

Communicating Climate Change” (The Pew Center on Global Climate Change)

Knowledge of Climate Change Across Global Warming’s Six Americas” (Yale Project on Climate Change Communication)

[Original link: http://dotearth.blogs.nytimes.com/2011/04/14/climate-communication-and-the-nerd-loop/]

Bandeirantes da língua portuguesa (FAPESP)

14/4/2011

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – O Projeto de história do português paulista (Projeto Caipira), coordenado pelo professor Ataliba Teixeira de Castilho, mobiliza pesquisadores de diversas instituições com o objetivo de resgatar a história da língua trazida pelos portugueses que desembarcaram na Baía de São Vicente, em 1532.

Do litoral paulista, a língua se espalhou pelo país por diversas vertentes. O Temático, que reúne mais de 200 pesquisadores – 60 deles em São Paulo –, estuda, em uma espécie de “bandeirantismo”, os caminhos percorridos pelos falantes da língua portuguesa e sua transformação até chegar à língua falada hoje.

A 12ª edição do Seminário do Projeto de História do Português Paulista termina nesta sexta-feira (15/4) no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O encontro procura avaliar os resultados obtidos pelo projeto apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático, concluído no fim de 2010.

Castilho foi professor titular da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, aos 74 anos, é professor colaborador voluntário na Unicamp.

O pesquisador presidiu a Área de Letras e Linguística da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) (1987-1990), a Associação Brasileira de Linguística (1983-1985) e a Associação de Linguística e Filologia da América Latina (1999-2005).

Entre seus livros recentes estão Nova Gramática do Português Brasileiro (Contexto, 2010), Gramática do Português Culto Falado no Brasil (Editora da Unicamp, 2008), Descrição, História e Aquisição do Português Brasileiro (Pontes, 2007), Gramática do Português Culto Falado no Brasil (Editora da Unicamp, 2006).

Agência FAPESP – Professor Castilho, como surgiu o Projeto Caipira?
Ataliba Teixeira de Castilho – O projeto de pesquisa teve origem em 1998, durante o primeiro seminário que fizemos sobre o tema. Participaram professores brasileiros especializados em linguística histórica. Pensei em convidá-los para o projeto de modo que eles pudessem transformar aquele projeto estadual em nacional. E deu certo.

Agência FAPESP – E por que fazer esse projeto em São Paulo?
Castilho – Porque a língua portuguesa começou a ser implantada em 1532, em São Vicente, aqui no Estado de São Paulo. Foi o primeiro povoamento, quando os portugueses decidiram explorar de fato o território. Isso não ocorreu quando Pedro Álvares Cabral chegou à Bahia e partiu em seguida para as Índias. Durante 32 anos o território descoberto não foi colonizado ou ocupado. Foi em 1532, em São Vicente, que o Brasil realmente começou.

Agência FAPESP – Então, foi a partir do Estado de São Paulo que ocorreu a penetração da língua portuguesa pelo país?
Castilho – Sim, foi onde tudo começou. Depois de São Vicente vieram Santo André, São Paulo e Santana do Parnaíba. Foi por essas quatro cidades que começou a penetração do português no Brasil – com exceção do então Norte (Grão Pará e Estado do Maranhão), que era praticamente outro país e onde a colonização começou entre os séculos 17 e 18. Devido à proximidade do rio Tietê, o movimento do bandeirismo partiu de Santana do Parnaíba e começou a expansão da língua para o Mato Grosso. De Santana do Parnaíba, os bandeirantes também foram até o Peru, atrás das minas de prata, percorrendo um caminho construído pelos índios Peabirus. Como lá a colonização foi espanhola, o português não se implantou. De São Miguel Paulista, os bandeirantes levaram o português para Minas Gerais, subindo por Itaquaquecetuba e Taubaté, atrás do ouro.

Agência FAPESP – A partir do Estado de São Paulo ocorreu a penetração da língua portuguesa pelo país por esses caminhos?
Castilho – Sim, mas no fim do século 18 surgiu um terceiro caminho: o dos comerciantes que andavam com mulas. Esses tropeiros levaram o português até o Uruguai, que no tempo do império era uma província brasileira, a Cisplatina. Chegaram à Colônia do Sacramento, cidade uruguaia criada por tropeiros de Sorocaba. Tudo isso foi movimento dos paulistas. Quando São Paulo se desenvolveu mais do que todas as outras, tornou-se a maior capitania do Brasil, que inclui o que hoje são estados independentes. O termo capitania foi substituído por província e depois por estado. Então, pode-se ver que ao estudar que língua portuguesa chegou aqui e como ela se desenvolveu e mudou, conhecemos a própria história do português brasileiro.

Agência FAPESP – Uma dimensão que está espelhada no número de pesquisadores reunidos pelo projeto coordenado pelo senhor.
Castilho – Tem que ser assim, é preciso reunir muitos especialistas. Só no Estado de São Paulo somos em 60 pesquisadores, das três universidades públicas e também da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Esse grupo maior também fez uma espécie de bandeirismo (risos). Hoje, o Projeto de História do Português Brasileiro (PHPB) tem cerca de 200 pesquisadores integrados em 11 equipes regionais, cada uma trabalhando com questões locais.

Agência FAPESP – Em todo o Brasil?
Castilho – Não, pois ainda não temos ninguém no Norte. Mas queremos ter colaboradores nessa região.

Agência FAPESP – Poderia dar alguns exemplos de contribuições do projeto para o conhecimento da história do português brasileiro?
Castilho – Esse projeto trata do conhecimento de como o português se implantou e de como ele mudou. A grande pergunta, como diz um colega nosso, é: “Que língua foi aquela que saiu das caravelas?”. Sabemos hoje que foi o português médio, um momento da história do português europeu. E aqueles navegadores que saíram das caravelas quando crianças aprenderam a falar essa modalidade, o português arcaico médio, que vai de 1450 até 1530. Essa é justamente a base do nosso português. Temos um grupo em nosso projeto que estuda como foi esse português médio para poder descrevê-lo. Nesse grupo está minha mulher, Célia Maria Moraes de Castilho, que também é linguista e leu o que se publicou dos inventários e testamentos, do século 16 até 1920, que estão guardados no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Para entender como se deu o espalhamento desse português a partir de São Paulo, outro grupo, coordenado pelo professor Manoel Morivaldo Santiago Almeida, da USP, estudou como foi o deslocamento da língua pelo Tietê, levado pelos bandeirantes. Esse grupo verificou, por exemplo, que no Mato Grosso se guarda até hoje pronúncias do português médio arcaico. Em vez de dizer chão, eles dizem “tchon”. Palavras com “ch” são ditas com “tch”, e “x” é dito “xê”. Então temos “tchapéu” ou “tchuva”. Eles não têm o ditongo nasal “ão”, e sim a vogal nasal “on”, como era no português antigo. Estou falando de fonética, mas há também outras características gramaticais que se conservaram lá.

Agência FAPESP – E isso até na capital, Cuiabá?
Castilho – Sim. E é no meio familiar que você surpreende isso, essas pronúncias todas do português de antes.

Agência FAPESP – Como se desenvolveram aqui em São Paulo o português popular e o português culto?
Castilho – A professora Ângela Cecília Souza Rodrigues, da USP, é a responsável pelo projeto sobre o português não padrão, que é o dos analfabetos e de pessoas que aprendem em casa. O objetivo é documentar e achar nos documentos traços desse português popular.

Agência FAPESP – Ela já obteve resultados?
Castilho – Ela começou de trás para frente, descreveu primeiro o que tem hoje no português popular. Não é só paulista que fala o português popular, pois o estado atraiu gente de todos os lados. A professora Ângela encontrou nos primeiros documentos de traços linguísticos a questão da concordância. Ela observou que muito da concordância que hoje se considera padrão popular era usada pelos portugueses naquele tempo, como em “os menino chegou”, por exemplo. Isso não foi uma criação daqui não, estava lá. Outro grupo de pesquisa estuda a formação do padrão culto, a história do português ensinado nas escolas. As professoras Marilza de Oliveira (USP) e Maria Célia Lima-Hernandes (USP) estudam esse ponto, de como se formou o português culto em São Paulo.

Agência FAPESP – O que elas descobriram?
Castilho – O que se descobriu é que até algum tempo atrás o português culto era idêntico ao português europeu, mesmo aqui em São Paulo. Só se começou a falar o português culto bem tardiamente. No começo era um povão, indistinto, que falava o português popular. Foi preciso surgir escolas para que aparecesse essa outra variedade. Aqui em São Paulo foi muito importante a fundação da Faculdade de Direito, em 1827, que trouxe gente do Brasil inteiro. Na mesma época, começou a haver um interesse maior em ler jornais, escrever e ler poesias, romances. Era o Romantismo. Pois esse grupo de pesquisa analisa esses documentos e observa que reação as pessoas que vinham para cá tinham em relação à língua falada aqui, que era o caipira.

Agência FAPESP – E como se desenvolveu o português culto?
Castilho – Do início do século 19 até a instituição da USP, em 1934, foram criadas várias escolas isoladas, pois não havia a concepção de universidade como existe hoje. No século 19, o português culto era imitação exata do português culto europeu. Em 1922, com o movimento modernista e o crescimento da comunidade de São Paulo, não se considerava mais que o português culto era o português dos portugueses, nós nos descolamos disso. Ainda em 1920, 1930, tínhamos certa sensação de nação colonizada. Quando isso passou é que nos desgarramos do português escrito culto europeu. E aí os modernistas tiveram um papel muito importante, sobretudo Mário de Andrade. Ele criou biblioteca, departamento de cultura, fundou a revista do Arquivo Municipal. Houve uma grande agitação cultural e as pessoas foram assumindo com mais naturalidade a forma como elas escreviam.

Agência FAPESP – Hoje, a característica caipira é muitas vezes encarada de forma depreciativa. Naquela época ocorria a mesma coisa?
Castilho – Caipira não era uma palavra depreciativa, era a designação do português falado pelos paulistas. Depois, com o desenvolvimento da cidade de São Paulo como centro cultural, aí sim ficou muito assemelhado ao português popular, de pessoas sem escolaridade. E como a cidade cresceu demais, esse português foi empurrado para o interior do estado e ali ficou.

Agência FAPESP – Em uma entrevista, o senhor fala sobre o uso da internet pelas crianças e diz que elas passaram a escrever mais, o que seria positivo. Mas, ao mesmo tempo, a rede não incentiva a grafia errada?
Castilho – Sim, as crianças passaram a escrever mais e, sobretudo, não por que o professor manda. Para nós, linguistas, essa questão do escrever errado ocorre quando uma pessoa escreve e a outra não consegue entender. No mais, é uma variedade que você está jogando. O que é escrever errado? É o português não culto? A internet não atrapalha, ela ajuda e resolve um problema de ortografia, no caso de uso de abreviações, como é tudo abreviado. A ortografia é convenção, ela vai atrás da língua com o seu dinamismo. Eu vejo muito o lado positivo. Como linguistas nos perguntamos o tempo todo como é que a mente humana conseguiu criar essa variedade louca de expressões, essa enorme complexidade. Essa é a nossa grande questão.

 

Imprensa versus governo (Fapesp)


Imprensa versus governo
Rede da Democracia, formada por três grandes jornais, teve papel na queda de Jango
Carla Rodrigues
Edição Impressa 181 – Março 2011

© AGÊNCIA ESTADO
Tropas no comício da Central do Brasil

No jargão da imprensa escrita, “retranca” é a classificação do assunto contido em uma página, editoria ou em um conjunto de textos jornalísticos. Sob a retranca “Na Rede da Democracia”, entre outubro de 1963 e março de 1964, os três mais importantes jornais do país – O Jornal, dos Diários Associados, Jornal do Brasil, da família Nascimento Brito, e O Globo, da família Marinho – se uniram em torno de uma pauta em comum: a defesa do nacionalismo contra o comunismo, a crítica à ineficiência do Congresso, a falta de legitimidade do presidente João Goulart, o perigo de o governo ceder às pressões das manifestações de massa e dos movimentos populares. Diariamente publicada nos três diários e veiculada à noite nas suas respectivas emissoras de rádio, a Rede da Democracia ajudou a enfraquecer e derrubar o governo de Jango, deposto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Os acontecimentos políticos posteriores a esse momento da história brasileira têm sido muito registrados e debatidos. Mas sobre o consórcio formalizado pelos jornais sob a denominação de Rede da Democracia pouco se estudou. Foi nesse vazio que trabalhou o historiador Aloysio Castelo de Carvalho em sua pesquisa de pós-doutorado em história social na Universidade de São Paulo (USP), cujo resultado está sendo lançado no livro A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), coedição entre a NitPress e a Editora da UFF (Universidade Federal Fluminense), onde Carvalho também é professor.

“A Rede da Democracia está incluída num debate sobre a relação entre os jornais e o governo de João Goulart”, diz o pesquisador. Relação que evoluiu de maneira peculiar: em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou, os três jornais defenderam uma posição antigolpe, afirmando a legalidade da posse do vice João Goulart. Dois anos depois, a Rede da Democracia cerrava fileiras contra o presidente.

Em 1961 coube ao então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, montar a chamada Rede da Legalidade, que transmitia, a partir do porão do Palácio Piratini, discursos do aliado de Jango reproduzidos em ondas curtas por dezenas de emissoras do interior e de outros estados. O modelo de resistência brizolista inspiraria, anos depois, o empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. As rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil passaram a transmitir em conjunto, a partir de 1963, pronunciamentos que no dia seguinte eram publicados nos jornais com a mesma retranca. Alguns títulos ilustram o conteúdo editorial da Rede: “União Nacional dos Estudantes é um antro de delinquentes políticos”, “O dispositivo chamado sindical é na realidade dispositivo comunista”, “Dias graves se aproximam se não for repelida a invasão marxista”, “Ministério do Trabalho comanda as greves que agitam nosso país”, “Nosso país não está só ameaçado, mas comprometido com o comunismo” são exemplos da tomada de posição da imprensa diante do governo de Jango. Entre os signatários estavam parlamentares da oposição e  donos de jornais que, na visão de Carvalho, se arvoraram na pretensão de se tornarem atores políticos.

© AGÊNCIA ESTADO
Tanques do Exército no Rio no dia do golpe militar

Padrão – Foi em busca de compreender qual foi o papel da imprensa na queda de Jango e na emergência do governo militar que Carvalho acabou encontrando um padrão discursivo formado por quatro principais eixos: uma concepção valorativa da própria imprensa, que se atribui o papel de porta-voz da opinião pública; o temor de que o ingresso das massas no sistema político seria um risco para o país; a falta de confiança no presidente da República quando ele conta com apoio popular; a falta de confiança nas instituições políticas, inclusive no Congresso e no Senado, contribuindo para reforçar a percepção do papel da imprensa como fiscal dessas mesmas instituições e afirmando a importância da liberdade de imprensa.

No período Jango, os três jornais unificados sob a Rede da Democracia viam a sociedade brasileira como uma emergente sociedade de massas, mas resistiam ao ingresso dessa massa na participação política, que passou a se dar pela via dos movimentos sociais e das manifestações populares. “Os jornais reagiram de forma conservadora, afirmando que a única participação política legítima era pelas formas institucionais”, lembra Carvalho.
No entanto, essas formas institucionais estavam fechadas à massa de trabalhadores que, no processo de urbanização e industrialização, chegava à vida política. O voto não era permitido aos analfabetos, por exemplo, e em 1963 metade da população brasileira não sabia ler nem escrever. Daí a grande importância da Rede da Democracia em veicular suas ideias no rádio, a fim de ganhar adesões também entre as massas como parte de um processo que, para Carvalho, faz parte da competição da imprensa para representar a opinião pública. “É uma visão publicista de opinião pública, que desvaloriza a expressão pela via do voto ou das instituições”, explica o professor.

Embora reconheça que há períodos muito negativos, Eugênio Bucci, professor de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), considera que generalizações sobre a relação entre governo e imprensa enfrentam dois problemas: o primeiro, a dificuldade de caracterizar a imprensa como uma entidade de condutas unificadas. Há, lembra ele, pluralidade e diversidade. Que poderia ser maior, reconhece, mas que já avançou muito em relação aos anos 1960. No cenário atual, não apenas jornais, mas rádios, TVs, sites de internet formam um mosaico de veículos de comunicação com expressão de pontos de vista muito distintos entre si.

“Apesar do comportamento de certos veículos da chamada grande imprensa, há mais diversidade, mais pluralidade. Sobrevive entre nós uma mentalidade que tem repercussão na imprensa e rejeita tudo aquilo que emerge do povo iletrado, essa mistura de raça e cor considerada ruim”, argumenta Bucci. Para ele, é preciso ter muito cuidado para não cair num modelo linear, segundo o qual se pode classificar a imprensa de boa ou ruim.

Lua de mel – O que leva Bucci a discutir o segundo problema: como se tem visto no noticiário após a posse da presidente Dilma Rousseff, há períodos de verdadeira lua de mel entre jornais e governo. Foi assim, por exemplo, no início do primeiro mandato de Lula, lembra Bucci. Segundo ele, o tratamento que o governo Lula recebeu varia muito entre os períodos e entre os veículos. “A TV Record, por exemplo, compete com a TV Globo na cobertura crítica do governo”, exemplifica, lembrando que blogs e sites, como o IG, exercem papel importante em contrapontos ao discurso dos grandes jornais e também formam opinião.

© FOLHAPRESS
Goulart fala com multidão na Central do Brasil

O fato de a internet ainda não ser uma mídia de massa faz com que o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), discorde da capacidade desses novos meios de comunicação de democratizar a informação e se constituir numa via alternativa à grande imprensa. Para ele, o mecanismo fundamental que mantém a relação umbilical entre poder e imprensa é a lei das concessões de rádio e TV. Por isso, acredita que a única forma de alterar o que chama de “relação bilateral” entre Estado e meios de comunicação é uma revisão na lei das concessões. “É preciso assegurar que qualquer grupo social possa se expressar com autonomia”, defende Baía.

A autonomia da imprensa sempre esteve em debate em tempos de crise. Foi assim nos anos 1960, quando a Rede da Democracia pregava seu direito à liberdade de imprensa como forma de garantir a expressão de um determinado ponto de vista em relação ao governo Jango e compartilhado pelos três jornais que integravam o consórcio. O debate sobre liberdade de imprensa esteve novamente em pauta durante os dois mandatos do governo Lula, e com ele veio a discussão sobre mecanismos de controle social da informação. “A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”, alega Carvalho. “Lula é um produto da liberdade de imprensa”, contrapõe Bucci, lembrando que foi a abertura política e, com ela, o fim da censura à imprensa que permitiram o contato entre o Partido dos Trabalhadores e o eleitorado.

Carvalho conclui que, quando se sentem ameaçados, os jornais formam alianças formais, como a Rede da Democracia, para fazer ecoar o discurso liberal e conservador. “Vai chegar o momento em que a imprensa será objeto de crítica das outras instituições. E os jornais não poderão mais ser irresponsáveis e manipuladores”, aposta Carvalho.

 

 

Literatura da fome: projeto promove encontro inusitado (Faperj)

Danielle Kiffer

Para Ana Paula, Glauber Rocha tem estilo similar ao de Artaud, por vincular a escrita ao traço pictórico e reinventar a gramática.

Você tem fome de quê?”. A música Comida, da banda Titãs, já colocava há algum tempo o questionamento sobre as inúmeras fomes que sentimos, que vão desde o desejo de consumir arte à necessidade da própria comida. Porém, é a abordagem do sentido literal da palavra que dá forma a um encontro que parecia improvável: entre os escritores brasileiros Josué de Castro e Graciliano Ramos, o cineasta Glauber Rocha e o poeta, ator e diretor teatral francês Antonin Artaud. O projeto “O corpo extremo: da escrita limite ao limite da escrita”, desenvolvido pela professora Ana Paula Veiga Kiffer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), analisa a questão da fome e da loucura de Antonin Artaud, usando como referência a fundamentação crítica e teórica dos três autores brasileiros.

Para a professora, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, poucas semelhanças unem os quatro escritores, além do foco no tema que os reúne. “Todos retrataram a fome, mas de maneiras diversas. Em termos de estilo, acredito que Glauber Rocha é o que mais se aproxima de Artaud, pois ambos extrapolam a escrita e a vinculam ao traço pictórico, reinventando a gramática em suas obras, o que mostra a necessidade de criar um modo de dizer o que sentiam que ia além das palavras”, detalha. Dos quatro pensadores, por exemplo, o único que realmente vivenciou a fome foi o poeta francês, como explica Ana Paula: “Apesar de vir de uma família com boas condições financeiras, Artaud experimentou a pobreza e a fome em diferentes fases da vida. Ele viveu a decadência e a carência material do período entre a primeira e a segunda guerras mundiais na Europa e durante sua internação em instituições psiquiátricas, onde a alimentação era escassa. Durante a Segunda Guerra, época de sua internação, a fome foi utilizada como forma de extermínio nessas instituições.”

Com o romance Homens e Caranguejos, Josué de Castro foi inspiração para o
movimento conhecido como mangue beat.

Uma das primeiras teorias de Artaud que tem relação com a fome é o manifesto Teatro da Crueldade, de 1934. Nele, o autor clama por um teatro e uma cultura cujas forças vivas fossem idênticas às da fome. Ainda nos anos 1930, ele escreveu o poema intitulado A fome não espera, em que denuncia a decadência político-econômica da Europa da época. No poema, Artaud incita o leitor a transformar sua fome em seu próprio tesouro. Como destaca Ana Paula, há, no texto, uma grande semelhança com a Estétyka da Fome, de Glauber Rocha, na qual ele também nos desafia a fazer da nossa precariedade a nossa força. “Artaud é um autor radical como Glauber também é radical. O discurso de ambos não tem nada de vitimização, muito pelo contrário. É, sim, transformador, um estímulo à potência, à afirmação de uma diferença e às características que o povo brasileiro possui. Muitas vezes, de onde muito pouco se espera, há grandes movimentos de superação. Um exemplo que podemos citar, aqui mesmo no Rio de Janeiro, é o caso da Coopa-Roca, uma cooperativa de mulheres da favela da Rocinha, que fez do fuxico sua arte, sua forma de sobrevivência. E tudo com muito sucesso.”

Apesar de não ser mais um assunto discutido na intelectualidade, a literatura sobre a fome, no Brasil, gerou frutos que rendem até hoje. Um grande exemplo vem do escritor e médico Josué de Castro. Uma de suas principais obras e seu único romance, Homens e Caranguejos, publicado em 1967, influenciou, quase trinta anos mais tarde, a formulação do movimento musical mangue beat, liderado por Chico Science e Fred Zero Quatro, na década de 1990,  em Recife. Se Josué de Castro compara os homens, catadores de caranguejo, aos próprios crustáceos, ambos famintos e mergulhados na lama, Chico Science fala do mangue e sua sociedade marginal de homens-caranguejo, juntando na mesma panela musical, funk, hip hop e influências regionais.

Durante suas pesquisas em obras literárias, Ana Paula observou que a relação entre a loucura e a fome é estreita. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, por exemplo, os personagens centrais da trama que se passa no sertão nordestino brasileiro, sentem tanta fome que passam a delirar. “Pode-se dizer que a fome leva à loucura e a loucura pode levar a um tal estado de abandono e indigência, em que a fome certamente estará presente. Estas duas características estão muito próximas.”

Também a experiência do francês Artaud, durante o período em que ficou internado, tanto no asilo de Rodez quanto em Ivry-Sur-Seine, na França, foi registrada, de forma original e única, em cadernos escolares. “Nestes cadernos, podemos perceber a materialização da fome vivida, que transforma essa experiência em um discurso que traz um novo modo de dizer, que parece tratar a linguagem como algo concreto e material.” Para Ana Paula, a discussão sobre a fome deve ser retomada sob outro ângulo, encarando-a e a outros problemas da nossa sociedade, mas substituindo a vitimização pela superação.

Religion may become extinct in nine nations, study says (BBC)

2 March 2011 Last updated at 07:31 GMT

By Jason PalmerScience and technology reporter, BBC News, Dallas

A study using census data from nine countries shows that religion there is set for extinction, say researchers.

The study found a steady rise in those claiming no religious affiliation.

The team’s mathematical model attempts to account for the interplay between the number of religious respondents and the social motives behind being one.

The result, reported at the American Physical Society meeting in Dallas, US, indicates that religion will all but die out altogether in those countries.

The team took census data stretching back as far as a century from countries in which the census queried religious affiliation: Australia, Austria, Canada, the Czech Republic, Finland, Ireland, the Netherlands, New Zealand and Switzerland.

Their means of analysing the data invokes what is known as nonlinear dynamics – a mathematical approach that has been used to explain a wide range of physical phenomena in which a number of factors play a part.

One of the team, Daniel Abrams of Northwestern University, put forth a similar model in 2003 to put a numerical basis behind the decline of lesser-spoken world languages.

At its heart is the competition between speakers of different languages, and the “utility” of speaking one instead of another.

“The idea is pretty simple,” said Richard Wiener of the Research Corporation for Science Advancement, and the University of Arizona.

“It posits that social groups that have more members are going to be more attractive to join, and it posits that social groups have a social status or utility.

“For example in languages, there can be greater utility or status in speaking Spanish instead of [the dying language] Quechuan in Peru, and similarly there’s some kind of status or utility in being a member of a religion or not.”

Dr Wiener continued: “In a large number of modern secular democracies, there’s been a trend that folk are identifying themselves as non-affiliated with religion; in the Netherlands the number was 40%, and the highest we saw was in the Czech Republic, where the number was 60%.”

The team then applied their nonlinear dynamics model, adjusting parameters for the relative social and utilitarian merits of membership of the “non-religious” category.

They found, in a study published online, that those parameters were similar across all the countries studied, suggesting that similar behaviour drives the mathematics in all of them.

And in all the countries, the indications were that religion was headed toward extinction.

However, Dr Wiener told the conference that the team was working to update the model with a “network structure” more representative of the one at work in the world.

“Obviously we don’t really believe this is the network structure of a modern society, where each person is influenced equally by all the other people in society,” he said.

However, he told BBC News that he thought it was “a suggestive result”.

“It’s interesting that a fairly simple model captures the data, and if those simple ideas are correct, it suggests where this might be going.

“Obviously much more complicated things are going on with any one individual, but maybe a lot of that averages out.”

 

21 March 2011 Last updated at 03:59 GMT

Two-thirds of Britons not religious, suggests survey

By John McManusBBC News

Nearly two-thirds of people do not regard themselves as “religious”, a new survey carried out to coincide with the 2011 Census suggests.

The British Humanist Association (BHA), which commissioned the poll, said people often identified themselves as religious for cultural reasons.

The online poll asked 1,900 adults in England and Wales a question which is on this month’s census form.

The Office for National Statistics has defended the wording of the census.

While 61% of the poll’s respondents said they did belong to a religion, 65% of those surveyed answered “no” to the further question: “Are you religious?”

Two surveys were commissioned, one covering England and Wales, and the other for Scotland. The Scottish survey was commissioned by the Humanist Society of Scotland.

South of the border, 61% of respondents said they did have a religion.

But only 29% also said they were religious, while 65% said they were not.

This poll is further evidence… that the data produced by the census, used by local and national government as if it indicates religious belief and belonging, is in fact highly misleading”

Andrew CopsonBritish Humanist Association

Among respondents who identified themselves as Christian, fewer than half said they believed Jesus Christ was a real person who died, came back to life and was the son of God.

Another 27% said they did not believe that at all, while 25% were unsure.

In Scotland, 42% of respondents said they did not belong to a religion, yet in a further question “Are you religious?” 56% answered “no”.

The BHA has complained the wording of the optional census question about religion encourages people to wrongly identify themselves as believers.

In the last census in 2001, 72% of people were classed as Christians – a figure which is much higher than other surveys.

The BHA believes people might tick “yes” to the census question on religion for reasons of cultural identity.

The chief executive of the BHA, Andrew Copson, is running a national campaign encouraging non-religious people to state their unbelief clearly on their census forms.

He said: “This poll is further evidence for a key message of the Census Campaign – that the data produced by the census, used by local and national government as if it indicates religious belief and belonging, is in fact highly misleading.

Religious affiliation

The humanists say data which might indicate a greater amount of religious belief than actually exists, is being used to justify faith schools, and the continuing presence of Anglican bishops in the House of Lords.

The Office for National Statistics has defended the wording of the religion question.

A spokesman told the BBC: “The religion question measures the number of people who self-identify an affiliation with a religion, irrespective of the extent of their religious belief or practice.”

The think tank Theos, which undertakes research into religious matters, says attempting to measure cultural affiliation to religion – rather than actual, regular practice – is a good idea, as it shows the broad values society shares.

It also disputes the BHA’s assertion that the collected data is used for political purposes.

 

Singularidade brasileira (Fapesp)

Especiais

24/3/2011

Por Fábio de CastroAgência FAPESP – O português falado no Brasil tem certas propriedades sintáticas que não se encontram no português europeu, nem em outros idiomas. Durante mais de quatro anos, um grupo de pesquisadores se dedicou a analisar o conhecimento já reunido sobre essas propriedades, a fim de discuti-lo sob a perspectiva do mais novo paradigma da pesquisa linguística: o chamado Programa Minimalista.

Concluído no fim de fevereiro, o Projeto Temático Sintaxe gerativa do português brasileiro na entrada do século 21: Minimalismo e Interfaces, financiado pela FAPESP, foi coordenado por Jairo Nunes, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Nunes, o principal resultado do projeto foi o livro Minimalist Essays on Brazilian Portuguese Syntax (“Ensaios minimalistas sobre a sintaxe do português brasileiro”), lançado em 2009, que reúne dez artigos produzidos por seus participantes.

“O objetivo central do projeto consistiu em capitalizar o conhecimento já adquirido sobre as propriedades sintáticas distintivas do português brasileiro e discuti-lo à luz do Programa Minimalista, descobrindo em que medida essas propriedades podiam ser explicadas na sua interface com outros componentes da gramática”, disse à Agência FAPESP.

O Programa Minimalista foi estabelecido a partir de 1995 pelo linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, derivado da Teoria de Princípios e Parâmetros, formulada pelo mesmo autor na década de 1980 a partir de uma tradição linguística iniciada em meados do século 20.

A Teoria de Princípios e Parâmetros estabeleceu a ideia de que há um componente inato, biologicamente fundamentado, na predisposição humana a aprender uma língua, e que todas as produções linguísticas seguiriam uma “gramática universal”, comum a todos os seres humanos.

“Descobriu-se então que o conhecimento linguístico se organiza em termos de princípios – propriedades invariáveis de todas as línguas – e parâmetros, que são os padrões e opções que codificam feixes dessas propriedades. A tarefa de uma criança que aprende uma língua seria, portanto, estabelecer os valores desses parâmetros”, explicou Nunes.

O Programa Minimalista tem a proposta de não apenas investigar quais são as propriedades da faculdade da linguagem e seu papel na aquisição de uma língua natural, mas também tentar explicar por que a faculdade da linguagem tem exatamente essas e não outras propriedades.

Por estabelecer um fundo comum entre todos os idiomas, o novo paradigma da Teoria de Princípios e Parâmetros, de acordo com Nunes, possibilitou a comparação detalhada entre as línguas mais variadas, em diversos estágios de desenvolvimento.

“Isso desencadeou uma gigantesca explosão de conhecimento no domínio da linguística. Não é nenhum exagero dizer que, a partir da década de 1980, aprendemos mais sobre a língua humana que em todos os séculos anteriores”, afirmou.

De acordo com Nunes, desde então houve uma grande profusão de trabalhos sobre o português brasileiro, que mostraram que a língua falada no Brasil possui uma gramática muito especial em relação ao português europeu e às outras línguas românicas.

“A partir da década de 1980, a pergunta que orientava as pesquisas era: quais são e como se organizam as propriedades das línguas humanas? No Projeto Temático, procuramos redimensionar esse conhecimento acumulado à luz dos novos avanços conquistados pelo Programa Minimalista. A pergunta central passou então a ser: por que as propriedades se organizam da maneira que se observa?”, disse.

Sujeito nulo

Um dos tópicos centrais na discussão feita sobre o português brasileiro, segundo Nunes, é a questão do chamado “sujeito nulo”, conhecido na gramática tradicional como “sujeito oculto”.

“Quando comparado ao sujeito nulo do português europeu, ou das outras línguas românicas, o sujeito nulo do português brasileiro é muito singular. O uso que fazemos do sujeito nulo é mais parecido com as construções infinitivas do inglês, ou as formas subjuntivas das línguas balcânicas, por exemplo”, disse.

O impacto dessa característica singular é muito grande, já que o tipo de sujeito nulo encontrado no português brasileiro simplesmente não deveria existir.

“Na medida em que as nossas pesquisas demonstraram que essa possibilidade teórica existe, propusemos que boa parte do modelo de análise linguística deverá ser reformulada, a fim de incorporar esses dados relativos ao português brasileiro”, disse o professor da FFLCH-USP.

A proposta de reformulação foi reportada no livro Control as movement, publicado em 2010 pela Cambridge Press University, de autoria de Nunes, Cedric Boeckx, da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), e Norbert Hornstein, da Universidade de Maryland (Estados Unidos).

“Boa parte da discussão procura retomar os dados sobre o sujeito nulo. Mostramos como o modelo teórico terá que ser modificado em função das novas descobertas nesse campo”, afirmou.

Tanto o português brasileiro como o lusitano permitem o sujeito nulo, segundo Nunes. Mas, quando se observam os usos específicos, percebe-se que essa estrutura recebe um sentido bem diferente na língua falada no Brasil. “Uma das hipóteses que levantamos para explicar isso se relaciona com o enfraquecimento da concordância verbal e nominal no português brasileiro”, disse.

A previsão que se fazia antes das descobertas era de que não deveria haver línguas com o sujeito nulo em orações indicativas, com uma série de propriedades associadas com o que chamamos de movimento sintático.

“Imaginava-se que essa seria uma das propriedades universais: nenhuma língua teria esse tipo de sujeito. Mas mostramos que ele é encontrado no português brasileiro. Portanto, não é uma propriedade universal. O novo modelo terá que explicar não apenas a característica do nosso português, mas também precisará explicar por que essa ocorrência é tão rara”, afirmou.

A interpretação da frase “o João acha que a mãe do Pedro disse que vai viajar”, segundo Nunes, é clara para o brasileiro: a mãe é o sujeito de “vai viajar”, que está oculto. “Mas, para as outras línguas, se a frase for construída dessa forma, não fica claro se quem vai viajar é a mãe, o Pedro, ou o João. A interpretação nesse caso é muito difícil para quem não é brasileiro”, apontou.

Por outro lado, na frase “Maria disse que a médica acha que está grávida”, a interpretação para os brasileiros é que se torna difícil. “Soa muito estranho para nós. Dá a impressão de que a médica está grávida. Para o português europeu, não há nenhuma dúvida: quem está grávida é a Maria”, explicou.

Para uma sentença como “o João é difícil de elogiar”, o português brasileiro admite dois significados. Mas no português europeu, o significado está claro: “é difícil elogiar o João”. “Em alguns casos vamos ter mais possibilidades interpretativas no português brasileiro, em outros, no português europeu”, disse Nunes.

Outro tópico explorado no Projeto Temático no tema do sujeito nulo se refere a frases comuns no português brasileiro coloquial, como “eles parecem que vão viajar”.

“Isso é completamente impossível no português europeu. É algo que só se explica pelo que chamamos de ‘movimento’. Mas basta um deslocamento do pronome para que a frase se torne compreensível em Portugal: ‘parece que eles vão viajar’”, disse.

O movimento pode envolver expressões idiomáticas do português brasileiro, configurando um tipo de sentença que se tornaria ainda mais incompreensível em outras línguas.

“Podemos dizer ‘a vaca parece que foi para o brejo’. Isso é impossível em outra língua, ou no português europeu. O sujeito nulo só pode ser usado dessa forma no português brasileiro graças à ação de um feixe de propriedades diferentes”, disse Nunes.

 

Brasileiros são mais europeus do que se imaginava (O Globo, JC)

JC e-mail 4203, de 18 de Fevereiro de 2011.

As conclusões estão na pesquisa coordenada pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, e publicada na revista científica “PLoS”

Os brasileiros são bem mais europeus do que africanos. Esqueça todas as análises já feitas com base em conceitos como raça e cor da pele. O primeiro grande estudo a medir a ancestralidade da população do País a partir de sua genética revela uma participação europeia muito maior do que se imaginava preponderante em todo o território, inclusive nas regiões Norte e Nordeste. As conclusões estão na pesquisa coordenada pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, e publicada na revista científica “PLoS”.

O trabalho revelou que, em todas as regiões, a ancestralidade europeia é dominante, com percentuais que variam de 60,6% no Nordeste a 77,7% no Sul. Mesmo as pessoas que se denominam negras pelos critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentam, na verdade, uma alta ancestralidade branca. Para se ter uma ideia, na Bahia, os negros tem 53,9% de raízes europeias. Na análise dos especialistas envolvidos no trabalho, a “europeização” do Brasil se deu a partir do fim do século 19, com o fim do tráfico negreiro e da escravidão e o início do fluxo migratório de aproximadamente 6 milhões de trabalhadores europeus.

Para além do impacto histórico e antropológico que os resultados do novo estudo podem ter, Sérgio Pena ressalta ainda a sua importância do ponto de vista médico: os tratamentos podem ser mais homogêneos do que se imaginava.

Formada por três diferentes raízes ancestrais, indígena, europeia e africana, a população brasileira sempre se acreditou muito heterogênea. Mas o estudo conclui que, independentemente de eventuais classificações baseadas na cor da pele, os brasileiros são muito homogêneos do ponto de vista de sua ancestralidade.
(Roberta Jansen de O Globo)

[Para uma discussão mais sofisticada da questão, ver: Santos, Ricardo Ventura, Peter H. Fry, Simone Monteiro, Marcos Chor Maio, José Carlos Rodrigues, Luciana Bastos‐Rodrigues, and Sérgio D. J. Pena. Color, Race, and Genomic Ancestry in Brazil: Dialogues between Anthropology and Genetics. Current Anthropology Volume 50, Number 6, 2009, pp. 787‐819.]

Desafios para a democratização da informação ambiental no Brasil (REBIA)

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Informação ambiental para que, e por quê? Estas parecem ser as primeiras questões a serem respondidas por quem tem interesse no assunto da democratização da informação ambiental no Brasil. Numa sociedade que se diz e se espera democrática e sustentável, o acesso à informação ambiental é fundamental para assegurar o fortalecimento da democracia. Para fazer escolhas no rumo da sustentabilidade, a sociedade precisa de informações para a sustentabilidade, diferentes das atuais. Se a população não recebe informações ambientais em quantidade e qualidade adequadas, tenderá a reproduzir as mesmas escolhas que trouxeram a humanidade à beira de um colapso ambiental.

Então, surge uma segunda questão, afinal, existe ou não falta de democratização da informação ambiental no Brasil? A questão é relevante e a resposta fundamental para se definir o tipo de esforço necessário e a direção deste esforço. O problema da resposta é que ela não é única, mas diferente em função do observador.

Existe uma diferença entre a informação que se busca, proativamente, e a informação que se recebe, passivamente. Para quem busca a informação ambiental e dispõe dos meios necessários, encontrá-la pode ser relativamente fácil. Entretanto, mesmo para esta parcela de público, que é incluída digitalmente, lê jornais e revistas, e tem um mínimo de conhecimentos de direitos e deveres ambientais, nem sempre a informação que se encontra é a que se quer. Como qualquer outra informação, a ambiental também não está livre da meia verdade, da mentira, da manipulação tendenciosa, da especulação, do exagero, da falta de base científica, do emocionalismo, etc.

Por exemplo, existem leis que asseguram o acesso da sociedade a informações ambientais legais, entretanto, conseguir tais informações não é nada fácil. Só querer e ter as condições e o acesso à internet não bastam. Se a intenção for obter informações, por exemplo, sobre licenças ambientais, TACs (Termo de Ajuste de Conduta), compensação ambiental, a dificuldade será enorme, e se quiser ir mais além, e obter informações sobre as condicionantes – onde estão listados os projetos e obrigações -, então a informação ambiental pode se tornar quase inacessível, sem algum QI (quem indica) bem posicionado, coisa para poucos iniciados. Existem licenças que chegam a ter mais de 100 condicionantes, e se a imprensa e a sociedade não conseguem acesso a esta informação, muito menos tem como saber o que foi ou não cumprido, e daí não tem como divulgar ou cobrar responsabilidades. Para quem tiver alguma dúvida, faca um teste, escolha uma única empresa e tente obter estas informações ambientais, e então compreenderá o quanto a democratização da informação ambiental no Brasil ainda é uma promessa. E se conseguir, tente descobrir, do que foi comprometido, o que foi efetivamente realizado, e descobrirá que a falta da democratização da informação ambiental não se dá por um acaso.

Veja os fatos. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), entre janeiro de 2005 e outubro 2009, o IBAMA deixou de receber 99,4% do valor total das multas aplicadas contra crimes ambientais. Em quase cinco anos, foram R$ 14,6 bilhões não pagos por pessoas e empresas autuadas. Vivemos uma espécie de conto de fadas ambiental. O IBAMA finge que é capaz de exercer o Poder de Polícia, que tem estrutura e competência para isso, e todo mundo acredita. O que o TCU mostra é que, na prática, a verdade é outra. Falta estrutura e competência. Se acontece em relação a dinheiro vivo que o Governo Federal poderia estar recebendo, imagine o que acontece com as centenas de exigências condicionantes de licenças ambientais, ou dos Termos de Ajuste, ou de medidas compensatórias que deveriam se traduzir em projetos ambientais! Se acontece no nível federal, imagine o que acontece nos níveis estaduais e municipais!

Diante de um quadro como este, e preciso ter claro que a falta de falta de recursos ou prioridade para a democratização da informação ambiental não é fruto do acaso ou de alguma incompetência, mas trata-se de uma escolha deliberada pelo ´nada a declarar´ambiental. O desgaste que pode haver para infratores e órgãos ambientais ineptos na não informação é amplamente recompensado pelos benefícios da falta de transparência na informação ambiental, por que se a sociedade não sabe, então também não cobra. Já diz o ditado, o que os olhos não vêem o coração não sente! Manter a imprensa longe é uma maneira de se proteger e ganhar tempo. A falta de informação ambiental é o biombo onde algumas empresas e órgãos de governos se escondem da sociedade para fazer de conta que está tudo bem.

Outro exemplo está nos relatórios de sustentabilidade das empresas. Mesmo nos melhores casos, não existe empresa cem por cento correta, nem se espera isso de ninguém, pois a perfeição é utopia presente apenas nos sonhos, nos ideais, nas promessas. O problema é que os relatórios tenderão a divulgar o que acontece de bom e mascarar ou ocultar o que ainda não vai bem, e ainda tende a demonstrar como mérito próprio resultados ambientais que na verdade são obrigações em função de licenciamento ou termos de ajuste. A relação entre o que as empresas lucram retirando da natureza e o que devolvem na forma de projetos ambientais é absolutamente desproporcional. Alguém poderá dizer que isso é da natureza humana, e que mostrar o que vai mal é papel dos críticos. Entretanto, abre uma brecha enorme para a ficção literária, para palavras e promessas até bonitinhas, em papel reciclado, mas vazios de conteúdo e credibilidade. Quando uma empresa divulga, por exemplo, que reduziu em 30 por cento sua poluição, desperdício ou embalagens, na verdade confessa que repassa 70 por cento dos seus custos ambientais para a sociedade, enquanto segue capitalizando lucros. Informação depende de credibilidade, e isso se torna um problema para empresas responsáveis que fazem um trabalho sério, pois tenderão a ser niveladas com as demais, tornando seus relatórios no mínimo suspeitos. Não é à toa que as tiragens são limitadas, mais para o público interno e acionistas, e as empresas não convidem a mídia ambiental para seus lançamentos, muito menos a incluam em seus planos de mídia, para não correrem o risco de perguntinhas inoportunas e desagradáveis nessas horas quando tudo o que se espera é brilho e festa.

Quanto ao acesso da grande maioria da população brasileira à informação ambiental, este se limita ao interesse da mídia de massa pelo assunto que, importante que se diga, com o agravamento das mudanças climáticas, tem se dedicado bastante aos temas ambientais. Entretanto, existe uma tendência – sempre com as raras exceções -, de abordar o assunto mais pelo viés do paraíso perdido do qual fomos expulsos, ou da natureza exótica, violenta, e distante de nós, reforçando a idéia de como é bom estarmos separados da natureza, vivendo em cidades, pois assim também não temos de sentir culpa nem nos sentir ameaçados pelo que fizermos a ela. Ou então quando ocorre algum acidente ambiental. A prática demonstra que, assim que o problema deixa de ser visível, também tende a desaparecer das pautas. O mercado trata a comunicação como um negócio que só vale a pena se der lucro, então a informação ambiental estará presente na pauta enquanto der audiência ou vender jornais e revistas.

É preciso compreender a diferença entre a informação que o público quer – e que se dispõe a pagar por ela – da informação que ele precisa, e que nem sempre se dispõe a pagar para ter. A informação ambiental nem sempre é uma informação que o público se dispõe a pagar para ter. Uma rápida visita a qualquer banca mostrará a realidade. Existem publicações diversas sobre todos os assuntos, menos sobre meio ambiente, excetuando-se uma ou outra publicação sobre turismo e paisagismo. E, para o mercado, a solução é muito simples, se a sociedade não se dispõe a pagar pela informação ambiental, então ela não deve existir. Por outro lado, a falta de interesse do publico pela informação ambiental é compreensível, primeiro por que temos um leque de interesses muito mais amplo que só o ambiental, por que a vida é naturalmente complexa. Segundo, por que a informação ambiental nem sempre serve para entreter e mais incomoda que outra coisa, ao mostrar os abusos contra a natureza, denuncia a poluição e a agressão ambiental, questiona valores consumistas e desperdiçadores, e incomoda até mesmo quando mostra alternativas de tecnologias e atitudes, pois os que optaram por tecnologias e atitudes poluidoras e predatórias não poderão mais argumentar desconhecimento.

Para assegurar a existência e o acesso do público à informação ambiental, os governos deveriam assegurar políticas públicas e recursos, como, aliás, já fazem com a mídia de massa, através de mecanismos de repasse de verbas de publicidade. Mas os governos não são neutros e ainda estão muito mais comprometidos com um modelo de desenvolvimento comprometido com o gigantismo das escalas, com a exportação para gerar excedentes que equilibrem as contas, onde tradicionalmente a natureza teve e tem de ceder. A não ser no campo das idéias e das utopias, a sociedade brasileira ainda está longe de um modelo ambientalmente sustentável e socialmente justo de desenvolvimento, e naturalmente a informação ambiental reflete isso. Quanto mais crítica ela for, quanto mais apontar as contradições entre as práticas e as promessas, menos recursos e audiência terá de quem recebem as críticas. Entretanto, este é o seu papel, e por mais que não gostem de críticas, precisam delas para avançar e aumentar a velocidade das mudanças entre um modelo predatório e injusto de desenvolvimento e outro mais justo e sustentável.

Outra fonte de recursos deveria vir das empresas, entretanto, em vez de ajudar a financiar a informação ambiental, quando querem divulgar alguma coisa, preferem investir no envio de releases em massa na esperança de obter mídia ambiental espontânea. Mais ou menos como acreditar em almoço grátis ou em Papai Noel. Divulgação custa caro, é verdade, mais uma razão para não imaginar que uma mídia ambiental empobrecida vá dar de graça o que tem para vender! As empresas preferem editar folhetos ou publicações próprias, em ambiente controlado, onde não correm o risco de ser alvo de alguma crítica. E, para não se verem expostas a perguntinhas inoportunas sobre outros assuntos, contratam serviços de comunicação de terceiros e ocultam seus telefones e e-mails dos releases.

O tendão de Aquiles dos que negam recursos para a informação ambiental são os voluntários que conseguem manter a democratização da informação ambiental mesmo sem recurso algum, por que não se subordinam às regras do mercado, e teimam em oferecer a informação ambiental como uma espécie de apostolado ideológico, até mesmo para quem não quer pagar por ela. Claro que este trabalho voluntário tem limitações, sejam técnicas ou financeiras, mas ainda assim, presta um importante serviço de interesse público, onde o estado e a iniciativa privada estão falhando.

Como diz o ditado popular, sem povo não se cria nada de novo, por isso, o desafio pela democratização da informação ambiental continua mais desafiador do que nunca, tanto no sentido de falarmos uma linguagem que o povo entenda quanto encontrar os meios que assegurem que a informação ambiental possa ir além dos atuais nichos de publico especializado.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – http://www.escritorvilmarberna.com.br

Petrobras vira nome de dinossauro na Argentina (FSP, JC)


JC e-mail 4199, de 14 de Fevereiro de 2011

Titanossauro recém-descoberto no país se chamará “Petrobrasaurus”. Animais “patrocinados” estão ficando comuns, e mesmo pessoas podem pagar para colocar seu nome em espécies

Sinal dos tempos: hoje em dia até dinossauro tem “naming rights” – o termo que se usa quando uma empresa coloca o seu nome em um estádio de futebol ou em uma sala de cinema, por exemplo.

O caso de merchandising paleontológico mais recente é o de um titanossauro argentino herbívoro e quadrúpede com 85 milhões de anos de idade, 22 metros e até 35 toneladas que ganhou o nome da Petrobras, descoberto por pesquisadores de lá.

Casos parecidos aconteceram recentemente com outras empresas do ramo da Petrobras. O dino Futalognkosaurus dukei, de 2007, por exemplo, tem esse nome por causa da Duke Energy. O Panamericansaurus, de 2010, refere-se à Pan American Energy.

A homenagem dos hermanos não é, claro, só um gesto de camaradagem latino-americana: a Petrobras, que hoje tem vários poços pelo país, dá suporte logístico (como alojamento e alimentação) a paleontólogos do país que tentam encontrar fósseis perto das perfurações.

Segundo Leonardo Filippi, paleontólogo do Museo Municipal Argentino Urquiza e autor do artigo científico, não é bem, então, que a Petrobras tenha “comprado” o nome do bicho. Nas palavras dele, é um “reconhecimento da colaboração constante” da empresa brasileira.

Involuntariamente, os argentinos acabaram revivendo a crítica de que a Petrobras, supostamente gigante e lenta, seria um dinossauro. Ao menos não deram ao bicho o famigerado apelido de “Petrossauro”, mas sim o nome de Petrobrasaurus puestohernandezi – o segundo nome por causa de Puesto Hernández, na Patagônia, local onde o animal foi achado.

“De um tempo para cá, dar a empresas e instituições que financiam pesquisas os animais recém-descobertos tem se tornado muito comum. Nos EUA, é prática. A National Geographic, por exemplo, é bastante lembrada”, diz Mario Cozzuol, paleontólogo da Universidade Federal de Minas Gerais.

Espécies grandes e chamativas como dinossauros, claro, são consideradas mais valiosas. Quem não é uma gigante do setor petrolífero, porém, pode se contentar em nomear espécies de menor destaque – e há um vasto mercado de nomenclatura científica se consolidando.

Uma ONG europeia chamada Biopat se especializou em intermediar a venda de nomes de espécies recém-descobertas. Qualquer um pode colocar o nome que quiser em um bicho ou planta, basta pagar. É caro: eternizar o seu nome em um beija-flor, por exemplo, chega a custar mais de R$ 20 mil.

O problema é que empresas e pessoas só querem mesmo nomear espécies carismáticas como beija-flores ou orquídeas – mesmo que o pessoal da Biopat faça um bom desconto, ninguém se interessa por uma coitada de uma baratinha, digamos.

O fato de ninguém querer dar nome para insetos é tão sério que a empresa achou estranho quando um cliente alemão quis pagar para isso. Entrou em contato com ele e descobriu que o nome que ele queria colocar no bicho era… bom, era o da sua sogra.

O caso da sogra-inseto chegou a ser assunto nas páginas da normalmente sisuda revista acadêmica Science em março de 2005, em um texto que desejava justamente chamar a atenção para a grave desigualdade que a preferência por bichos e plantas fofas estava criando.

Tinha-se receio que os milhares de dólares estimulando a descoberta de espécies bonitas acabassem minando a busca por espécies na ala desprezada que natureza -vamos lá, não é porque os bichos são feios que não tem o seu valor científico.

No Brasil, esse capitalismo todo ainda não chegou à nomeação de espécies.

Homenagens são mais comuns. Foi assim que o jornalista José Hamilton Ribeiro, por votação na internet, passou a nomear um antúrio-mirim, planta ornamental de nome científico Aceae anthurium hamiltoni, encontrada em uma reserva da Vale no Espírito Santo. (Folha de São Paulo)

A RIO+20, o IV CBJA e a democratização da informação ambiental (REBIA)

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Durante a ECO 92, os países se comprometeram a encontrar alternativas para a democratização da informação ambiental sempre que existissem obstáculos como os que existem para a mídia ambiental no Brasil, e até assinaram o capitulo 40.18 da Agenda 21, com este compromisso. Entretanto, vinte anos depois, a promessa ainda esta no papel.

Em 2012, o Brasil estará sediando a RIO+20, de novo na Cidade do Rio de Janeiro, um novo encontro global para avaliar o que avançou das promessas feitas a 20 anos. Pode ser um momento oportuno para a união de forcas dos que estão conscientes sobre a importância estratégica da democratização da informação ambiental para que a sociedade possa fazer escolhas melhores no rumo da sustentabilidade.

Os jornalistas ambientais já saíram na frente e anteciparam seu congresso para outubro desde ano, entre os dias 12 e 15, na Cidade do Rio de Janeiro. O IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental estará sendo realizado em paralelo a outros três eventos, o encontro da RedCalc – Rede Latino-Americana de Periodismo Ambiental, o Iº Encontro Nacional da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental e o Iº Encontro da ECOMIDIAS – Associação Brasileira de Mídias Ambientais, uma tentativa ao mesmo tempo de economizar esforços e recursos, e também uma estratégia para facilitar a aglutinação de forcas entre movimentos e organizações com objetivos comuns.

A organização do IV CBJA estará, ainda, identificando e convidando parceiros estratégicos como a FBOMS – Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa, entre outros cuja missão inclua o compromisso com a democratização e a formação e fortalecimento da cidadania, para reforçar esta luta.

Detalhe: os eventos serão carbono negativo, ou seja, a OSCIP PRIMA estará plantando mais árvores que o necessário para a neutralização das emissões de carbono, além de adotar práticas ecoeficientes, pois os congressistas querem ser o exemplo que esperam ver na sociedade.

Entre os desafios a enfrentar, está o de formar uma Coalizão de organizações pela democratização da informação, com representação permanente em Brasília, capaz de ir além das promessas e reclamações, e pressionar de forma efetiva e constante por políticas publicas e financiamento público para a informação ambiental, por que existe uma diferença entre a informação que o público quer – e se dispõe a pagar por ela – e a informação que ele precisa.  O mercado consegue ser uma solução no primeiro caso, pois para ele a comunicação é vista como um negócio qualquer, precisa dar lucros, ou não terá razão para existir. Para o segundo caso, o país requer políticas públicas inclusive para o financiamento da informação ambiental que o público precisa.  No verão, por exemplo, o público dá audiência aos assuntos das catástrofes provocadas pelas chuvas, mas com o passar dos dias, o interesse vai diminuindo junto com as chuvas, até virar desinteresse e então o assunto some da mídia, como se o problema tivesse sido resolvido, para retornar com as catástrofes do verão seguinte. O mesmo acontece diante de algum acidente ambiental. Enquanto o problema permanecer visível ao interesse público estará na pauta da mídia de massa, mas assim que deixar de ser visível, desaparecerá também da mídia. Quem já acompanhou graves acidentes de vazamentos de petróleo ou de produtos químicos em rios e oceanos sabe bem disso. A informação ambiental precisa ir além apenas da dor. O quanto pior, melhor, é pior para todo mundo, ainda que assegure o interesse do público, e, portanto, da mídia em geral, por alguns breves momentos.

Uma rápida olhada nos títulos das revistas expostas nas bancas mostra a falta de oferta de informação ambiental, para este público, que freqüenta as bancas, em torno de 20% da população. Enquanto existem diversos títulos diferentes sobre a vida dos ricos e famosos, ou de mulheres nuas, ou sobre moda e beleza, automóveis, culinária, arquitetura, não existe nenhuma mídia específica sobre meio ambiente, educação e cidadania ambiental, consumo responsável, sustentabilidade, excetuando-se um ou outro título com viés mais para turismo ou paisagismo. O que não significa que a mídia ambiental não exista. Existe, só não consegue chegar ao Grande Publico, permanecendo como uma mídia marginal, mal conseguindo atender direito a uns poucos segmentos de interesse especializado.

O Governo Federal já dispõe de mecanismos para o repasse de dinheiro público para a iniciativa privada, através das verbas de publicidade, mas não existe uma política pública que priorize a informação que o público precisa, mas não se dispõe a pagar por ela. A maior parte desses recursos é destinada à mídia de massa – inclusive para os veículos de comunicação ligados à base aliada do Governo -, e acaba ajudando a financiar `realyts shows´e outras informações que o público quer. A mídia ambiental costuma ser contemplada com algumas poucas migalhas dessas verbas, mas o suficiente para não deixá-la morrer de inanição, e não o bastante para que chegue a incomodar nem ao próprio governo nem às empresas com suas críticas ao modelo predatório de desenvolvimento.

A mídia ambiental é uma mídia de resistência, e incomoda aos poderosos ao criticar o modelo predatório e injusto que avança sobre os limites e a capacidade de suporte da natureza. E incomoda até quando aponta soluções e caminhos que poderiam ajudar a nos tirar do rumo de um colapso ambiental cada vez mais visível, pois deixa claro que as escolhas pelas tecnologias sujas e predatórias não resultam do acaso ou da falta de opção. E incomoda e desagrada também ao próprio público em geral, ao criticar seus hábitos e atitudes consumistas e ambientalmente irresponsáveis. Então, não é de se estranhar que as pessoas não queiram a informação ambiental, embora precisem dela.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br ).  Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – www.escritorvilmarberna.com.br.

 

Aplicativo de iPhone para confissão não substitui padre, diz Vaticano (BBC)

RELIGIÃO

BBC Online – 9 de fevereiro, 2011 – 13:26 (Brasília) 15:26 GMT

Representantes da Igreja aprovaram o novo aplicativo

O Vaticano alertou que um novo aplicativo para o iPhone, que ajuda fiéis a confessarem nunca poderá substituir o diálogo pessoal com um padre.

O programa, chamado Confissão, foi colocado à venda semana passada pela loja virtual da Apple, iTunes, por US$ 1,99 (aproximadamente R$ 3,32).

O aplicativo foi aprovado por representantes da Igreja Católica nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Mas, em entrevista à BBC, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o programa Confissão não serve como substituto para a confissão dos pecados a um sacerdote, como há séculos é feito.

Segundo ele, no passado, era comum que os católicos se preparassem para a confissão escrevendo sobre seus pecados e seus pensamentos, e é natural que na era digital eles substituam a escrita em papel por recursos de informática, como o aplicativo.

O comentário de Lombardi vem em um momento em que a prática da confissão entre os católicos está em queda.

Exame de consciência

O aplicativo guia os usuários no sacramento da confissão e permite que o fiel mantenha um registro de seus pecados.

Ele também facilita que os usuários façam um exame de consciência com base em fatores como idade, sexo e estado civil – mas afirma que não tem como objetivo substituir a confissão inteiramente.

De acordo com o fabricante do programa, a Little iApps, em vez de substituir a confissão inteiramente, o aplicativo procura incentivar os usuários a compreender suas ações e então buscar um padre para obter absolvição.

“Nosso desejo é convidar católicos a se envolverem com sua fé por meio da tecnologia digital”, disse Patrick Leinen, criador do Confissão.

O lançamento foi feito logo após o papa Bento 16 ter exortado católicos a usarem a comunicação digital e mostrarem-se presentes online.

Os criadores do aplicativo disseram ter levado em conta as palavras do papa enquanto preparavam a ferramenta para consumo público.

 

Of course scientists can communicate (Nature)

Tim Radford takes aim at the popular myth that researchers are hopeless at explaining their work to a general audience.

Tim Radford

Published online 26 January 2011 | Nature 469, 445 (2011) | doi:10.1038/469445a

There are several canards about scientists, but one is more pernicious simply because so many scientists themselves repeat it: scientists are not good communicators.

Once again, the allegation is to be the subject of discussions, this time at next month’s annual meeting of the American Association for the Advancement of Science in Washington DC. It can be found onNature ‘s website, heard in research councils, it is even occasionally propagated by the public-engagement community, and sometimes endorsed by journalists. In response, I can only say bosh, balderdash and Bronowski, and follow with other intemperate expletives such as Haldane, Hawking and Huxley, Eddington and E. O. Wilson, not to mention, as if in a state of terminal exasperation, Dawkins!

Between 1980 and 2005, I commissioned working scientists to write for The Guardian newspaper — from astronomers royal to impoverished doctoral students — and almost all of them delivered high-standard, well-focused newspaper prose and many of them went on to live by the pen. I also encountered distinguished scientists who had already become literary stars.

One was the astronomer Carl Sagan, who told me that his literary hero was Thomas Henry Huxley. Another was the industrial chemist, poet and writer Primo Levi, who when I tried to ask him about the Two Cultures debate — the apparent divide between the humanities and sciences — gently reminded me that Dante Alighieri (himself the subject of at least one paper in Nature), was a member of the Florentine guild of physicians and apothecaries. And a third was the Czech poet and dissident Miroslav Holub, who wrote his occasionalGuardian column in English, and asked that at the end of each I describe him as the author of Immunology of Nude Mice (1989). All three were better writers than most writers: two will still be famous as writers a century from now.

“Enthusiasm is infectious, but to command an audience of readers, scientists should exploit their other natural gifts.”

 

They were, of course, exceptions. We all inherit the gift of words; the gift for words, however, is unevenly distributed. Even so, there are reasons why scientists, in particular, should be and often are good communicators. One is that most scientists start with the engaging quality of enthusiasm — to get through a degree course, the PhD and all the research-council hoops, you would need it — and enthusiasm is derived from a Greek term that means divinely intoxicated. Enthusiasm is infectious, but to command an audience of readers, scientists should exploit their other natural gifts. One of these is training in clarity. Another is training in observation. And a third is knowledge.

Those who can think clearly can usually write clearly: thoughts have value only when expressed, and the more clearly they are expressed, the greater their potential value. Those whose business is to observe are aware of subtle differences that must be described, or the observations would be meaningless. And those who write must have something new or useful to say: if not, why say anything? A novelist who does not publish is not a novelist. A scientist who does not publish remains a scientist — at least for the duration of the research-council grant — but the science performed is of no apparent value until somebody else hears about it.

The problems for the scientist as a public communicator start with academic publishing: the language, form and conventions of the published scientific paper could almost have been devised to conceal information. Even in conversation, scientists start with a communication problem — words that are perfectly ordinary within science are simply never heard on a football terrace or in a tavern or bus queue. So to be effective communicators, scientists have to learn to stand back from their own work and see it as strangers might do.

It is not a difficult trick: even journalists have learned it. What is the most significant thing about your research? Is it that, at cosmological distances, type Ia supernovae in high redshift galaxies seem insufficiently lustrous? Or is it that you have just realized that you cannot account for 71% of the Universe; make that 96% if you throw in dark matter alongside this newly discovered dark energy? Which is more likely to make people attend? Humphry Davy and Michael Faraday were stars of the lecture halls. Many distinguished scientists — Richard Feynman, J. B. S. Haldane and Peter Medawar among them — knew how to hold a popular audience, and they weren’t afraid to address their peers with the same vividness and economy. In fact, their fame became inseparable from their gift for words. So the case for scientists as inherently bad communicators is a canard.

And while we have our ducks in a row, let me invoke the canard that scientists occasionally propagate about the media: that it does not appreciate scientific uncertainty. That one is especially irritating. It seems to say “I, as a scientist, wish to have it both ways. I want the privilege of knowing better than you, and the indulgence of being wrong without guilt, because science, don’t you see, is really about uncertainty.” To which the foolish answer might be “In which case, why should we listen?” But alas, people in any case listen selectively, even to the best communicators, which might be why so many Americans think Darwin’s theory of evolution is “only a theory”. Scientists are not the only people to blame for a problem in communication.

Tim Radford was science editor of The Guardian until 2005. e-mail: tim.radford@guardian.co.uk

Astonishing Photos of One of Earth's Last Uncontacted Tribes (Fox News)

February 01, 2011 | FoxNews.com

 

Tribe members painted with red and black vegetable dye watch a Brazilian government plane overhead.

Gleison Miranda/FUNAI/Survival International

Tribe members painted with red and black vegetable dye watch a Brazilian government plane overhead.

Stunning new photos taken over a jungle in Brazil reveal new images of one of the last uncontacted tribal groups on the planet.

The photos reveal a thriving, healthy community living in Brazil near the Peruvian border, with baskets full of manioc and papaya fresh from their gardens, said Survival International, a rights organization working to preserve tribal communities and organizations worldwide.

Survival International created a stir in 2008, when it released similar images of the same tribal groups — images that sparked widespread allegations that the pictures were a hoax. Peru’s President Garcia has publicly suggested uncontacted tribes have been ‘invented’ by ‘environmentalists’ opposed to oil exploration in the Amazon, while another spokesperson compared them to the Loch Ness monster, the group explains on its site.

Survival International strongly disputes those allegations, however. A spokeswoman for the group told FoxNews.com that the Brazilian government has an entire division dedicated to helping out uncontacted tribes.

“In fact, there are more than one hundred uncontacted tribes around the world,” the group explains.

Peru has yet to make a statement about the newly released pictures, which were taken by Brazil’s Indian Affairs Department, the group said. Survival International is using them as part of its campaign to protect the tribe’s survival — they are in serious jeopardy, the organization argues, due to an influx of illegal loggers invading the Peru side of the border.

Brazilian authorities believe the influx of loggers is pushing isolated Indians from Peru into Brazil, and the two groups are likely to come into conflict. Marcos Apurina, coordinator of Brazil’s Amazon Indian organization COIAB said in a statement that releasing the images was necessary to prove the logging was going on — and to protect the native groups.

“It is necessary to reaffirm that these peoples exist, so we support the use of images that prove these facts. These peoples have had their most fundamental rights, particularly their right to life, ignored … it is therefore crucial that we protect them,” he said.

“The illegal loggers will destroy this tribe,” agreed Survival International’s director Stephen Corry. “It’s vital that the Peruvian government stop them before time runs out. The people in these photos are self-evidently healthy and thriving. What they need from us is their territory protected, so that they can make their own choices about their future.”

Read more: http://www.foxnews.com/scitech/2011/02/01/astonishing-photos-reveal-earths-uncontacted-tribes/#ixzz1DKZgWVgW

 

>Baixo retorno político (Fapesp)

>Especiais

2/2/2011

Por Fábio de Castro

Mais educação não se traduz automaticamente em mais democracia, segundo estudo realizado na USP. Entre 1989 e 2006, diminuiu a diferença entre a participação política dos mais e menos escolarizados (ABr)

Agência FAPESP – Na avaliação do senso comum, educação e politização andam de mãos dadas. Para a elite brasileira – de acordo com pesquisas de opinião –, o aumento da escolaridade da população tem o poder de gerar cidadãos que participam mais da vida política do país e que valorizam mais a democracia. Mas um novo estudo mostra que essa visão não corresponde à realidade.

A pesquisa de doutorado de Rogério Schlegel, defendida no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), utilizou análises estatísticas para interpretar os dados de pesquisas de opinião realizadas entre 1989 e 2006. O trabalho concluiu que a educação brasileira está trazendo ganhos decrescentes em termos políticos.

“O estudo mostrou que os cidadãos mais escolarizados já não se tornam tão participativos e democráticos como ocorria há duas décadas. O maior nível de escolaridade ainda diferencia os cidadãos, mas essa diferença encolheu muito em 20 anos – isto é, os retornos políticos da educação têm sido decrescentes no Brasil. Em alguns quesitos de participação e apoio à democracia, a diferença entre os mais e os menos escolarizados chega a ser inexistente”, disse Schlegel à Agência FAPESP.

A pesquisa de Schlegel foi orientada pelo professor José Álvaro Moisés, da FFLCH-USP, e integra o Projeto Temático “A Desconfiança do Cidadão nas Instituições Democráticas”, coordenado por Moisés e financiado pela FAPESP.

Segundo Schlegel, uma pesquisa de opinião coordenada em 2000 pela professora Elisa Reis, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já mostrava que, na avaliação da elite brasileira, a baixa escolaridade é o maior entrave para a democracia no país.

“Por trás dessa ideia há um pressuposto de que a educação só tem impacto no comportamento político por meio da capacitação cognitiva – isto é, basta fornecer mais educação e as pessoas terão mais recursos para acompanhar a política, discutindo, lendo jornais e fazendo exigências. Mas na realidade há caminhos alternativos para a entrada nessa vida política. Os resultados do estudo indicam que não há uma relação linear entre obter mais acesso à educação e obter mais instrumentos para participar da democracia”, afirmou.

Foram analisados vários mecanismos capazes de explicar os retornos políticos decrescentes da escolarização. A hipótese mais plausível é que o fenômeno tenha sido causado pela queda na qualidade da educação brasileira.

“Ao falhar na capacitação cognitiva do indivíduo e na transmissão de conhecimentos, o sistema educacional brasileiro estaria deixando de dar as ferramentas que ajudam o cidadão a atuar na esfera política. O resultado é que o aumento do acesso ao ensino ou do volume de escolarização – em tempo passado na escola ou anos de estudo completados – não é acompanhado pelos ganhos esperados em matéria de comportamento político”, disse.

O estudo teve fundamento em quatro pesquisas de opinião realizadas pelo grupo ligado ao Projeto Temático, a primeira realizada logo após a redemocratização, em 1989, e a mais recente – financiada pela FAPESP –, em 2006.

A partir desses dados, Schlegel utilizou análises estatísticas para controlar as diversas variáveis sociodemográficas disponíveis e observar, de forma isolada, o efeito da escolaridade no comportamento do cidadão ao longo do tempo.

“Na sociologia econômica é comum o uso, por exemplo, do conceito de ‘retorno econômico da educação’ para avaliar até que ponto uma maior escolaridade pode se refletir em maior renda, ou em maior arrecadação de impostos. A partir desse conceito, o estudo trabalha com a ideia de ‘retorno político da educação’”, explicou.

Indiferença política

O retorno político foi avaliado por meio de diferentes quesitos, como participação, apoio aos princípios democráticos e confiança nas instituições. Os resultados mostraram que a distância entre mais e menos escolarizados caiu marcadamente em relação à demonstração de interesse por política, consumo de notícias sobre o tema e hábito de conversar sobre ele.

“Em alguns quesitos, o nível de escolaridade é praticamente indiferente. No caso da participação em partidos, sindicatos e associações de bairro, por exemplo, o envolvimento é igualmente baixo entre os menos e mais escolarizados”, disse Schlegel.

A maior perda de retorno político, durante os 17 anos do período analisado, deu-se na faixa do ensino médio – faixa de escolarização que teve a maior expansão de alunos nas últimas duas décadas.

“Na média, hoje não se diferencia alguém que se formou no ensino médio de um cidadão com fundamental incompleto, em termos de preferir a democracia como forma de governo ou rejeitar a concentração de poder nas mãos de um líder centralizador”, afirmou.

Em 1993, de acordo com o estudo, a chance de um universitário ser muito interessado em política era 3,6 vezes maior que a de alguém com o ensino fundamental incompleto. Em 2006, as chances se reduziram para 1,6. “A diferença entre o universitário e alguém sem nenhum diploma escolar era enorme, em termos de interesse na política. Agora, a diferença ainda existe, mas é muito menor”, ressaltou Schegel.

Em 1989, uma pessoa com o segundo grau completo tinha 66% mais chance de preferir a democracia a qualquer outro regime, em comparação com alguém sem diploma do ensino fundamental. “Em 2006, já não havia mais diferença estatística entre os dois públicos. Nesse quesito, havia no passado uma distância que desapareceu entre os diferentes níveis de escolaridade em termos de comportamento político”, disse.

A confiança nas instituições tem uma relação especial com a escolaridade. Em 1993, quem tinha mais escolaridade confiava mais nos partidos que em 2006. Mas os dados não permitem concluir se houve de fato um aumento ou diminuição da confiança.

“Tratava-se de um momento em que os partidos estavam em reconstrução e havia uma noção generalizada de que eles eram o caminho para construir a democracia. Em 2006, essa noção já havia sido desfeita pelos partidos de aluguel e isso pode ter desencadeado a maior desconfiança dos mais escolarizados”, explicou.

Para Schlegel, os resultados do estudo, ao identificar que a escolarização vem trazendo ganhos decrescentes em termos políticos, desaconselham apostas na educação como panaceia capaz de promover uma cidadania superior e fazer superar os déficits democráticos no Brasil.

“A educação importa, mas sozinha não resolve. Os efeitos benéficos da escolarização para a convivência democrática precisam de ensino de qualidade para todos para se concretizarem plenamente”, disse.

Dr. Google e seus bilhões de pacientes (Ciência Hoje)

Uma análise mais cuidadosa da relação de doentes com a internet leva a crer que médicos e cientistas precisam aprender a lidar com a nova geração de enfermos.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 02/02/2011 | Atualizado em 03/02/2011

Dr. Google e seus bilhões de pacientes
Pintura do século 19 retrata visita de médico a casa do paciente. A profissão está longe, bem longe, de ser questionada. Mas muitas pessoas valem-se, atualmente, da pesquisa na internet para entender melhor algumas doenças. (Wikimedia Commons)

Regina Elizabeth Bisaglia, em mais uma consulta de rotina, indicava ao paciente a melhor maneira de cuidar da pressão. Ao mesmo tempo, observava a expressão introspectiva do homem a sua frente. A cardiologista não entendia ao certo a desconfiança em seu olhar, mas começava a presumir o motivo. Logo, entenderia o porquê.

Depois de uma explicação um pouco mais técnica, o senhor abriu um sorriso e o olhar tornou-se mais afável. A médica acabara de falar o que o paciente queria ouvir e, por isso, passava a ser merecedora de sua confiança.

“Entendi. O senhor andou consultando o doutor Google, certo?”, disse, de modo espirituoso, Bisaglia.

A médica atesta: muitas vezes os pacientes chegam ao consultório com o diagnóstico já pronto e buscam apenas uma confirmação. Ou mais: vão ao médico dispostos a testar e aprovar (ou não) o especialista.

“Não adianta os médicos reclamarem. Os pacientes vão à internet pesquisar e isso é um caminho sem volta. Informação errada existe em todos os meios, mas eu diria que muitas vezes é interessante que a pessoa procure se informar melhor”, diz a cardiologista, com mais de 30 anos de profissão.

“Há momentos em que o paciente não confia no que o médico diz ou se faz de desentendido. Nessas horas, é muito importante que ele perceba que existem mais pessoas falando a mesma coisa e passando pelo mesmo problema e que, portanto, é fundamental se cuidar. Nada melhor do que a conversa na rede para isso”, completa a médica.

Discussão antiga

Não é de hoje que a questão do ‘doutor Google’ e do ‘paciente expert‘ é debatida. Mas se antes a maioria dos argumentos pendia a favor dos médicos e contra a pesquisa dos leigos na área – sob o medo compreensível da automedicação ou dá má informação –, agora o viés da conversa caminha para um olhar mais relativista. Estudos sobre o assunto já propõem, inclusive, que os médicos tenham na sua formação uma espécie de aula especial para lidar com os pacientes internautas.

“Médicos e pesquisadores precisam estar cientes de que a informação está lá fora e que os pacientes estão tentando se educar da melhor forma possível”, diz, em conversa por e-mail, a neurocientista norte-americana Katie Moisse.

A cientista também é repórter da Scientific American e escreveu, na edição de fevereiro da revista, um artigo que fala justamente sobre a tríade médico-paciente-internet. No texto, Moisse conta a história do cirurgião vascular Paulo Zamboni, que no final de 2009 relatou um experimento que prometia ajudar os portadores de esclerose múltipla. A questão: Zamboni estava no início da pesquisa e não tinha, até o momento, feito testes rigorosos o suficiente para colocar sua técnica em prática.

Em outros tempos, diz Moisse, poucas pessoas teriam acesso ao estudo. Não foi, naturalmente, o que aconteceu com o cirurgião, que se viu pressionado por grupos de pacientes e seus familiares para disponibilizar, o quanto antes, o procedimento desenvolvido por ele.

Esse fenômeno também não é recente. O primeiro ‘motim’ de um grupo de doentes para que resultados de pesquisas fossem liberados e aplicados rapidamente é amplamente conhecido na literatura médica: na década de 1980, os infectados pelo vírus da Aids não se conformavam com a ideia de que, enquanto pacientes morriam aos milhares, poucos tinham acesso aos primeiros medicamentos (à altura, ainda em fase de teste).

Um verdadeiro grupo de ativistas, alguns com e outros sem a doença, formou-se e, se a relação entre médico e paciente mudou desde então, muito se deve a esses manifestantes.

Novo fenômeno

Hoje, a internet propicia a formação de grupos sobre não apenas uma, mas várias doenças: salas de discussão, fóruns e páginas sobre as mais diversas patologias. Um dos sites mais conhecidos é o Patients like me (Pacientes como eu, em português), uma rede social com quase 50 mil pessoas que reúne pacientes com os mais diversos problemas. O objetivo, como a maioria dos grupos, é o de trocar informação sobre doenças e, também, encontrar alento e apoio naqueles que partilham o mesmo sofrimento.

“A internet certamente faz do mundo um lugar menor. É uma oportunidade maravilhosa para as pessoas compartilharem ideias. Algumas redes de pacientes usam a internet para coletar dados e, até mesmo, publicá-los em periódicos revisados por pares”, conta Moisse.

Em alguns casos, os portais sobre doenças – sejam elas nada letais como a psoríase ou extremamente perigosas como a hepatite C – podem ajudar o paciente a se inteirar mais sobre a doença que, anteriormente, desconhecia.

“A informação disponível na internet pode trabalhar a favor da saúde, como o caso de uma pessoa que descobre que a sua timidez excessiva pode ser na verdade um quadro de transtorno de ansiedade, um transtorno psiquiátrico que tem tratamentos de eficácia comprovada”, diz o psiquiatra Rafael Freire.

É a mesma linha defendida pelo biólogo e neurocientista Daniel Cadilhe, responsável pela mediação entre o leitor-paciente e o portal do Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias.

“No Orkut há uma comunidade com quase 26 mil membros sobre o assunto [células-tronco]. Chegam perguntas diariamente sobre possibilidades de tratamentos utilizando o que estudamos.

Tentamos responder da forma mais clara, realista e responsável possível, sempre passando a informação verdadeira ou indicando quem poderá ajudar a tirar a dúvida”, explica Cadilhe, absolutamente ciente do reboliço que causam as palavras ‘células-tronco embrionárias’.

A grande maioria dos especialistas, como era de se esperar, dá o mesmo conselho para o paciente na hora de pesquisar e se juntar a grupos na internet: seja responsável, busque as melhores referências e procure saber quem está dando a informação. E ainda: lembre-se de que nem sempre o que se deseja ler/ouvir é o diagnóstico correto.

Como diz, com certo humor, a cardiologista Regina Elizabeth Bisaglia, a primeira busca na internet pode ser a mais simplória: “A pesquisa mais importante na rede é o nome de um bom médico para se consultar”.

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

Rio contra o crime: o jornalismo veste a camisa (Observatório de Imprensa)

Por Sylvia Moretzsohn em 30/11/2010

Quando recebeu, no início de novembro, um prêmio de telejornalismo pelas entrevistas com os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz sobre os bastidores da ditadura no Brasil, Geneton Moraes Neto escreveu uma “pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo jornalismo” em que afirmava: “Fazer jornalismo é produzir memória”. E concluía com a seguinte definição:

“Fazer jornalismo é desconfiar, sempre, sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem – seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro da música – pergunte sempre a si mesmo, intimamente: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?”

À parte a pequena derrapagem na tradução – seguramente, “bastardos” não seria uma palavra apropriada nesse contexto –, a definição é precisa. E, se assim é – ou deveria ser –, a cobertura da ocupação militar no Complexo do Alemão, sobretudo a cobertura televisiva, é tudo menos jornalismo. Seja porque desconhece a memória, seja porque adere desavergonhadamente à versão oficial.

Como apontou Alberto Dines em artigo neste Observatório da Imprensa (ver “Mídia teve medo de falar em intervenção“), o que houve no mais recente episódio no Alemão foi uma intervenção branca do governo federal, com a participação das Forças Armadas. Antes mesmo da invasão do morro, o Exército estava nas ruas, em resposta ao clima de terror espalhado pelos incêndios a carros em variados pontos da cidade. Não custava lembrar da Operação Rio, que em 1994 também resultou de uma intervenção branca – não fosse o Rio governado por Brizola, recém-licenciado para concorrer à presidência da República – e provocou as previsíveis cenas espetaculares de tanques circulando pelo asfalto, em direção às principais favelas da cidade, eternos “lugares do mal”, apontando seus canhões para as comunidades, soldados revistando moradores e avançando com seus uniformes camuflados e seus fuzis morro acima, ou patrulhando as ruas da Zona Sul.

Alemão, três anos antes

A lembrança seria importante, no mínimo, para negar o caráter inédito da ocupação de agora e, no máximo, para questionar o sucesso de intervenções militares em conflitos sociais de enorme gravidade como os que ocorrem no cotidiano das favelas. Na época, prometia-se a “asfixia” do tráfico. Não é preciso comentar o resultado.

Mais recentemente, entre maio e julho de 2007, uma aparatosa operação reuniu 1.350 homens das polícias militar e civil e soldados da Força Nacional de Segurança para nova asfixia, desta vez restrita ao Complexo do Alemão. O pretexto foi o assassinato de dois soldados do Batalhão de Rocha Miranda, mas é claro que se tratava de “limpar” pontos explosivos da cidade para os Jogos Pan-Americanos daquele ano. Na ocasião, a operação foi apresentada como “um ataque inovador”, um “marco no combate ao crime no Brasil” (revista Época, 28/6/2007), “um marco na luta contra a criminalidade”, apesar de sangrenta e de “todos os senões e suspeitas que deixou” (O Globo, editorial, 30/7/2007). O personagem-símbolo foi um policial que tem o hábito de fumar charuto após a missão cumprida: o inspetor Leonardo da Silva Torres, conhecido como “Trovão”, com cursos na Swat americana e no Centro de Inteligência da Marinha (antigo Cenimar, de trágica lembrança dos tempos da ditadura), cujo sonho – segundo declarou aos jornais – era atuar na Faixa de Gaza ou no Iraque.

Costuma-se falar em 19 mortos durante aquela ocupação. Não é verdade: este seria o número produzido no dia mais sangrento, 27 de junho. Pela sua magnitude, acabou associado ao total de mortes, que, entretanto, foram bem mais expressivas: segundo o relatório da Comissão de Direitos Humanos da OAB, teriam sido 44 mortos e 84 feridos, muitos deles sem armas nem antecedentes criminais.

Então, como hoje, as forças policiais-militares cantavam vitória sobre o tráfico. Se fosse verdade, não teria sido necessário retornar agora.

Inexplicável reviravolta

Em fins de 2009, o governo estadual inaugurava uma nova estratégia de ação policial: as Unidades de Polícia Pacificadora, começando no Dona Marta, uma pequena favela em Botafogo que em várias ocasiões frequentou os jornais com notícias sobre guerra entre traficantes. Ali, como em quase todas as demais comunidades eleitas para receber esse aparato, a polícia entrou sem disparar um tiro.

Este detalhe surpreendente foi ressaltado – melhor diria, exaltado – no espaço noticioso de jornais que, três anos antes, afirmavam não haver alternativa para o combate ao crime a não ser o enfrentamento: “Há bandidos […] que têm de ser tratados pela mão pesada do Estado. Não há assistencialismo e ação social que os recuperem” (O Globo, 26/10/2007).

O que teria provocado a mudança de discurso é algo que apenas os editores poderiam explicar. Sobretudo porque o governo é o mesmo e o secretário de Segurança, também. Se há até dois anos antes não havia alternativas, como é que de repente se descobriu uma via tão eficaz, a ponto de o megaempresário Eike Batista – este que, aos poucos, vai abocanhando os pedaços mais lucrativos da cidade – declarar que, se soubesse que era tão fácil “acabar” com a violência, já teria investido nisso há mais tempo?

Uma socióloga sempre consultada nessa matéria argumentou que “os traficantes varejistas entenderam que há um projeto de política pública de segurança e não adianta mais resistir”. Simples assim.

A causa da “vitória definitiva”

De repente, começam os atentados: um carro incendiado aqui, outro ali, junto com arrastões (ou assaltos, assim relatados pela imprensa) em determinadas ruas de áreas nobres da cidade. Então, em fins de novembro, detona-se a operação no Alemão, mais uma vez apontado como o local de concentração dos responsáveis pela desordem. Uma operação espetacular, com blindados da polícia e da Marinha, destinada a acabar de vez – mais uma vez – com o tráfico na região.

A série de incêndios a carros e vans seria uma reação do tráfico ao sucesso das UPPs, diz o governo. Entretanto, os jornais não indagam: a quem interessa esses atentados? Traficantes tão bem armados, esses que em dezembro de 2006 metralharam cabines policiais, delegacias e atacaram ônibus interestaduais, matando pelo menos 18 pessoas, fariam agora pequenas ações na base de coquetéis molotov? Sabendo que atrairiam a atenção e o ódio da polícia? Por quê?

Às vésperas da invasão americana ao Iraque, numa reunião na ONU, o secretário de Estado Colin Powell tentou convencer os presentes da existência de armas de destruição em massa produzidas naquele país, apenas mostrando, ampliadas num telão, imagens dos galpões fechados em que, com absoluta certeza – simplesmente porque ele afirmava –, as tais armas eram fabricadas. As contestações feitas à época, os movimentos de repúdio à guerra, os esforços diplomáticos, nada foi capaz de deter a ofensiva. Hoje se sabe, como alguns sempre souberam, que o Iraque não tinha as tais armas. Mas alguns dos principais jornais americanos, notadamente o New York Times, amparou a versão oficial, empenhado que estava, como tantos outros, no esforço patriótico de resposta contundente aos atentados de 11 de setembro de 2001.

Da mesma forma, nesta operação no Alemão – como em outras vezes –, a nossa imprensa assumiu a causa da “retomada de território” e da “vitória definitiva”.

“Vencemos. Devolvemos a paz para a comunidade”, declarou o comandante do Bope. Ao mesmo tempo, outra autoridade policial afirma que a operação continuará durante o tempo que for necessário. Que vitória, então?

A “casa de luxo” do chefe do tráfico

O recurso à memória é importante como antídoto ao triunfalismo que costuma prevalecer nesse momento. “É um dia histórico para o Rio de Janeiro”, diz o apresentador da TV. “Os policiais estão vibrando”, afirma o comandante do Bope antes do início da invasão. Um correspondente estrangeiro quis saber, com seu portunhol claudicante, se aquilo era um guerra ou um operação policial. O comandante não teve dúvidas: “Em alguns locais, o combate a traficantes com armamento de guerra se assemelha a uma guerra de baixa intensidade. Mas não estou preocupado com rótulos, isso é coisa para quem vai estudar depois. Estou preocupado com a ação”.

Nada surpreende: homens de ação são adestrados para agir, pensar é coisa de intelectuais… ou de quem define as estratégias de ação. E, para isso, definir se vivemos ou não uma guerra é fundamental.

Mas questionar, quem há de? Pelo contrário, os jornalistas se congratulam com os policiais, desejam-lhes sorte, dão-lhes os parabéns. Excitam-se com a exibição de traficantes e suspeitos presos, demonstram indignação ao mostrar a “casa de luxo” onde vivia um dos chefes do tráfico no local, com banheira redonda de hidromassagem e uma cama-box (?!) na suíte, mais um pequeno terraço com piscina, piso imitando o desenho ondulado das pedras portuguesas de Copacabana (disponível em qualquer loja de material de construção) e ampla vista da… favela.

A diferença da “guerra” na área nobre

Um dos símbolos de “retomada do território”, cena destacada na cobertura ao vivo dos telejornais, foi o hasteamento da bandeira brasileira ao lado da bandeira do estado do Rio de Janeiro no alto do teleférico. Na Globonews, a apresentadora comemorou: a região “voltou a ser território do povo brasileiro”.

Esqueceu de lembrar que o hasteamento de bandeiras também foi feito na Operação Rio, imitando o gesto dos pracinhas na tomada de Monte Castelo, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Esqueceu, principalmente, de lembrar que o teleférico, prestes a ser inaugurado, é obra do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, iniciado em fins de 2008 no Alemão. Seria o PAC obra de traficantes? Como, então, falar em retomada de território, se nesse mesmo território se realizava um projeto do governo federal?

“O Alemão era o coração do mal”, diz o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, quem sabe a sugerir uma ilação com o “coração das trevas” do clássico da literatura de Joseph Conrad. Talvez não, não importa. Importa é o verbo no passado e a perspectiva de futuro: afinal, se traficantes podem ter fugido, ainda por cima armados, a Rocinha que se cuide. “Se chegamos no Alemão, vamos chegar na Rocinha e no Vidigal.”

Chegar à Rocinha pode ser um problema. Há exatamente três anos, quando a polícia desencadeou uma operação sangrenta na favela da Coreia, em Senador Camará (Zona Oeste do Rio), deixando 12 mortos, o mesmo secretário comentou que “um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coreia é outra”. Algum jornalista lembrará disto? Ou estarão todos imbuídos do espírito patriótico que substitui perguntas incômodas ou “inadequadas” pela pura e simples propaganda?

Sylvia Moretzsohn: Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico(Editora Revan, 2007).

FDA Wants Cigarette Packs to Include Images of Corpses, Diseased Lungs (ABC News)

Graphic Warnings on U.S. Cigarette Packs May Curb Smoking, Advocates Say

By LARA SALAHI, ABC News Medical Unit

Nov. 10, 2010

The modest one-liners of the dangers of smoking, now featured on cigarette packs, may soon turn into gory images and messages that will cover nearly half the pack.

The U.S. Food and Drug Administration unveiled 36 jarring labels Wednesday aimed at escalating efforts to warn smokers of the fatal consequences of cigarette smoking. These labels represent the agency’s exercise of its new authority over tobacco products and the most significant change in cigarette warnings since companies were forced to add the mandatory Surgeon General’s warning in 1965.

Some of the proposed images include a man smoking from a tracheotomy hole, a cadaver labeled to show it died from lung disease, and a pained infant exposed to smoke.

For decades federal regulators and health experts have warned that cigarettes are deadly. But Matthew L. Myers, president of the Campaign for Tobacco-Free Kids, called the ramped-up measures “a timely and much-needed shot in the arm.”

“The current warnings are more than 25 years old, go unnoticed on the side of cigarette packs and fail to effectively communicate the serious health risks of smoking,” said Myers.

Although smoking rates have declined overall since the 1960s, health officials noted that rates have leveled off in the last decade. About 21 percent of U.S. adults, and nearly 20 percent of high school students smoke cigarettes, according to the Centers for Disease Control and Prevention.

The agency’s goal is to reduce the 443,000 deaths associated with tobacco use each year.

Previous studies suggest that graphic health warnings displayed in other countries worked better than text warnings to motivate smokers to quit, and nonsmokers not to start.

Images used on cigarette packs in countries like Canada are so disturbing that some smokers buy covers for their cigarette packs to block out the images.

“Having a coordinated policy, having these warnings, making them so visible, making them real is, in my opinion and in the opinion of the American Cancer Society, going to be a very positive step forward,” said Dr. Len Lichtenfeld, deputy chief medical officer for the American Cancer Society.

Experts Say Fear Messages May Not Work for Long

But some experts wonder how long the proposed fear messages will work.

“The point of putting these pictures is the shock value, and research tells us shock value on its own rarely works,” said Timothy Edgar, associate professor and graduate program director of health communication at Emerson College in Boston, Mass.

Most Americans already know that smoking is dangerous — the message that the FDA is trying to convey, said Edgar. And while the campaign may dissuade some smokers at the start of the campaign, the communication tactic may not spur many to kick the habit for good, if at all.

“I think people are still going to have a hard time saying, yes that’s me on that label,” said Edgar. “There’s a physical addiction involved in this as well. It’s not an absolute choice for many who smoke.”

According to Joy Schmitz, professor of psychiatry and behavioral sciences at the University of Texas medical school in Houston, the intended message will more likely reach younger adults, or those who may have just picked up the habit.

“It might give them pause for concern or contemplation as to their choice of smoking when they see the pretty dramatic scene on the packages,” said Schmitz.

But evidence suggests effective messages not only communicate the danger but also offer ways to help change behavior, said Edgar.

“There’s none of that here,” said Edgar, who suggested the campaign should also offer direct actions for people to take to quit smoking.

“Simply showing someone that there is a severe outcome or they’re personally responsible is not enough. They need to know there’s something they can do about it,” he said.

Schmitz agreed.

“It needs to be combined with the anti-smoking policies, restricting smoking in the environment, as well as promoting effective evidence-based smoking cessation treatments that are available,” she said.

The FDA will accept public comment on the proposed labels through January 2011, and will select nine to use by June 2011. The agency will then require all manufacturers to use the labels on all U.S. sold cigarettes by October 22, 2012.



Study of Facebook Users Connects Narcissism and Low Self-Esteem (Scientific American)

If your status update was “I’m so glamorous,” you might not really think much of yourself

By John H. Tucker November 2, 2010

Image: Dan Saelinger Getty Images

Are you a narcissist? Check your recent Facebook activity.

Social-networking sites offer users easy ways to present idealized images of themselves, even if those ideals don’t always square with their real-world personalities. Psychology researcher Soraya Mehdizadeh has discovered a way to poke through the offline-online curtain: she has used Facebook to predict a person’s level of narcissism and self-esteem.

Mehdizadeh, who conducted the study as an undergraduate at Toronto’s York University, gained access to the Facebook accounts of 100 college students and measured activities like photo sharing, wall postings and status updates; she also studied how frequently users logged on and how often they remained online during each session. Her findings were published recently in Cyberpsychology, Behavior and Social Networking.

After measuring each subject using the Narcissism Personality Inventory and Rosenberg Self-Esteem Scale, Meh­dizadeh, who graduated from York this past spring, discovered narcissists and people with lower self-esteem were more likely to spend more than an hour a day on Facebook and were more prone to post self-promotional photos (striking a pose or using Photoshop, for example). Narcissists were also more likely to showcase themselves through status updates (using phrases like “I’m so glamorous I bleed glitter”) and wall activity (posting self-serving links like “My Celebrity Look-alikes”).

Self-esteem and narcissism are often interrelated but don’t always go hand in hand. Some psychologists believe that narcissists—those who have a pervasive pattern of grandiosity, a need for admiration, as well as a lack of empathy—unconsciously inflate their sense of self-importance as a defense against feeling inadequate. Not enough empirical research has been produced to confirm that link, although Mehdizadeh’s study seems to support it. Because narcissists have less capacity to sustain intimate or long-term relationships, Mehdizadeh thinks that they would be more drawn to the online world of virtual friends and emotionally detached communication.

Although it seems that Facebook can be used by narcissists to fuel their inflated egos, Mehdizadeh stops short of proclaiming that excessive time spent on Facebook can turn regular users into narcissists. She also notes that social-networking sites might ultimately be found to have positive effects when used by people with low self-esteem or depression.

“If individuals with lower self-esteem are more prone to using Facebook,” she says, “the question becomes, ‘Can Facebook help raise self-esteem by allowing patients to talk to each other and help each other in a socially interactive environment?’ I don’t think it’s necessarily a bad thing that people with low self-esteem use Facebook.”

Editor’s note: This article was published in the print issue with the title, “Status Update: ‘I’m So Glamorous’.”

Luxo místico e riqueza marcam a estética do cangaço (Fapesp)

Humanidades
A cor que invadiu o sertão

Edição Impressa 176 – Outobro 2010

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Corisco, um dos cangaceiros mais vaidosos

“Olê, mulher rendeira/ olê, mulher rendá/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”, diz a canção-símbolo do cangaço. Sobre moda, Lampião e seus homens tinham pouco a aprender e muito a ensinar. Vestiam-se de forma colorida, cobertos por adornos de ouro e, como bons sertanejos, sabiam confeccionar toda a sorte de objetos e vestimentas sem que por isso se questionasse sua virilidade: o “rei do cangaço” costurava suas roupas e a de seus afilhados e bordava à máquina com perfeição, orgulhando-se da sua habilidade. “O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor do livro Estrela de couro: a estética do cangaço (Escrituras, 258 páginas, R$ 150), com 300 fotos históricas e 160 reproduções de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, muitos pertencentes ao próprio autor. Tamanho apuro visual, pleno de detalhes nas coisas mais cotidianas (cães com coleiras trabalhadas em prata!), servia como proteção ao mau-olhado, instrumento de hierarquia interna, tinha funcionalidade militar e era um poderoso instrumento de propaganda junto às populações pobres, que se admiravam diante de todo aquele luxo, cor e brilho. Era também uma forma de arte que o cangaceiro carregava no seu corpo.

“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, explica. “Morando num meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza, satisfazendo seu anseio de arte e conforto místico. Era como se os mais esquivos habitantes do cinzento se levantassem contra o despotismo da ausência de cor na caa­tinga e proclamassem a folia de tons e de contrastes.” Em vez de procurar camuflagem, os cangaceiros desenvolveram uma estética brilhante e ostensiva com roupas adornadas de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores que, paradoxalmente, os tornavam alvo fácil até no escuro. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, escreveu o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929. “Ainda que o fascínio pelo cangaço tenha existido sempre, fomentado pela literatura de cordel, Lampião soube jogar com todos os registros do visual para ‘magnificar’ a sua vida e transmitir a imagem de um bandido rico e poderoso. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua estética, usando modos de comunicação modernos que não faziam parte da sua cultura original, como a imprensa e a fotografia”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: senhor do sertão (Edusp).

Após terem seu visual cantado pelo cordel, a fotografia, ao chegar ao sertão na primeira década do século passado, fez a delícia do cangaço. “Essa existência criminal parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanho o cuidado do cangaceiro com o visual, com a imponência e a riqueza do traje guerreiro”, avalia Pernambucano. “As vestimentas dos bandidos foram sendo incrementadas até se tornarem quase fantasias. Esse era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, observa o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 320 páginas, R$ 54). O homem do cangaço era um orgulhoso que se esmerava no traje, até o final, como se pode ver na célebre foto das cabeças de Lampião e seus homens ao lado de seus chapéus: “Dentre os treze, não há dois iguais, tão ricos em tema e valor material quanto o do chefe, prova da imponência da estética, cuja afetação exagerada adjetivou o cangaço em sua etapa final, quando se chegou a incrustar alianças de ouro na boca das armas”, nota Pernambucano. “Havia uma estética rica que conferia uma ‘blindagem mística’ ao cangaceiro, satisfeito com a sua beleza e ainda seguro em meio a uma suposta inviolabilidade.” A ponto de contaminar as roupas dos policiais, que copiaram suas vestimentas, e mudar o foco da guerra. “O contágio inelutável dá a força dessa estética e evidencia a existência de outra luta, travada em paralelo, no plano da representação simbólica. A vingança estética do cangaço contra a eliminação militar se dá quando o ícone principal de sua simbologia se transforma na marca do Nordeste: a meia-lua com estrela do chapéu de Lampião.”

Bandidos – Estimulando essa “gana de ostentação” estava a própria essência política do cangaço. “Os cangaceiros não admitiam ser comparados ou confundidos com bandidos comuns, uma ofensa imperdoável. Viam-se como atores sociais distintos, na mesma estatura dos ‘coronéis’”, explica Pericás. O que lhes permitia usar e abusar dos figurinos: orgulhosos de si mesmos, tinham ainda um gosto pelas patentes militares, promovendo “cabras” a postos de hierarquia militar e considerando membros de seus efetivos como “soldados”. “Observe que todo grupo militar preza os símbolos, as insígnias, as representações de poder. Lembra-se do Brejnev com medalhas que não cabiam no peito no tempo da Rússia soviética? Sujeito inteligentíssimo, Lampião fez da costura e do bordado um critério a mais de promoção e status no seio do bando e ele mesmo costurava as vestimentas de seu bando. Saber prepará-los e conferi-los a seus homens era uma grande vantagem”, salienta Pernambucano. “Não se chama o boi batendo na perneira”, dizia o “rei”, consciente da necessidade de uma política de afagos interna para amenizar a disciplina de que não abria mão. “A estética era uma ferramenta para infundir o orgulho do irredentismo cangaceiro nos recrutas de modo quase instantâneo. Antes desse recurso estético, imagino que essa inoculação devesse ser lenta.”

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Cantil decorado e, ao lado, bornal florido

Patrões – “Os bandos de cangaceiros eram estruturas hierarquizadas com claras distinções entre as lideranças e a ‘arraia-miúda’, sem voz de comando em posição claramente subordinada aos chefes. Muitos consideravam os líderes do cangaço como ‘patrões’. E esses comandantes se viam assim, quase como os coronéis, com os quais mantinham boas relações, colocando-se em posição igualitária aos potentados rurais”, afirma Pericás. Na contramão do senso comum, os comandantes cangaceiros eram de famílias tradicionais e relativas posses. Lampião, por exemplo, pertencia à classe dos proprietários de terra e ele próprio foi um criador de gado. Por isso o cangaço não foi, diz o pesquisador, uma luta para reconstruir ou modificar a ordem social sertaneja tradicional, como preconizado por boa parte da literatura sobre o fenômeno. “Eles não lutavam para manter ou mudar nenhuma ordem política, mas para defender seus próprios interesses mediante o uso da violência, indistinta e indiscriminada. Os bandidos procuravam, sim, manter vínculos com os protetores poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o seu próprio povo”, diz Pericás. Nesse sentido, a famosa justificativa da adesão ao cangaço por motivos de disputas sociais ou vinganças familiares deve ser vista com desconfiança. “Os cangaceiros diziam-se vítimas, obrigados a entrar na luta por honra, mas isso era, na maior parte dos casos, um ‘escudo ético’, um argumento para convencer as populações pobres de que eram movidos por questões elevadas, se diferenciando dos bandidos comuns, o que não era real.” Lampião nunca viu como prioridade ajudar os necessitados. “Em geral, guardavam o dinheiro grande e davam alguns tostões aos pobres e às igrejas. E sempre faziam questão de que isso fosse divulgado para criar uma imagem positiva junto ao povo.”

Na prática, o comportamento dos cangaceiros era parecido com o dos coronéis, que agiam de forma paternalista com aqueles que eram considerados “seus” pobres. “Eles não eram bandidos sociais e se pode mesmo dizer que sua presença foi um obstáculo a um protesto social mais significativo. Apesar disso, como um executor independente da raiva silenciosa da pobreza rural, o cangaceiro tinha o apelo popular de um agente superior. A sua violência era um gesto admirado de afirmação psíquica na ausência de justiça e mudança positiva”, acredita a historiadora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, autora de The oligarchical limitations of social banditry in Brazil. Câmara Cascudo já notara que “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. “O cangaço pode ser visto como uma continuidade do ambiente violento do sertão, onde era comum que paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida em questões morais, de honra e prestígio”, diz Pericás. Os cangaceiros construíram a imagem de indivíduos injustiçados que haviam ingressado na criminalidade por bons motivos. Mas, se eram violentos, o mesmo pode ser dito dos soldados que os perseguiam. “A população que sofria violências das volantes se voltava para os bandoleiros como uma resposta ou por vê-los em contraposição aos ‘agentes da lei’”, analisa Pericás.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

“Com seus trajes inconfundíveis e nada tendentes à ocultação, se sentiam investidos de um mandato mais antigo, havido por mais legítimo que a própria lei, esta, a seus olhos, uma intrusão litorânea sobre os domínios rurais”, completa Pernambucano. Os cangaceiros supriram a falta de poder institucionalizado no sertão. “Eles seriam os fiéis da balança em muitos casos, sendo um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que tinha apelo para as massas rurais”, diz Pericás. Com o tempo, porém, o cangaço se revelou um negócio, o “Cangaço S/A”, como o descreve Pernambucano. “Era uma ‘profissão’, um ‘meio de vida’. Os bandidos estavam equidistantes do ‘povo’ e dos mandões, ainda que com maior proximidade das elites rurais”, concorda Pericás. Como eram “independentes”, tinham sua imagem dissociada diretamente dos coronéis. “Não sendo empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das camadas mais ricas e dos governos o monopólio da violência. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, da exploração, da falta de emprego e das secas, não ingressou no cangaço.” Segundo o pesquisador, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição à ordem instituída. “Os policiais representavam o governo, mas usavam a farda para transgredir. Assim, parte dessa sociedade se voltou para os cangaceiros e viu neles o oposto, ou seja, aqueles que lutavam contra a ordem.” Suas atividades crimi­nosas, então, eram justificadas no quadro maior da luta entre os dois “partidos”: cangaço e polícia.

Politicamente “reabilitados” e bem vistos, permitiam-se o luxo da ostentação, que se iniciava pelos chapéus, cujas abas levantadas podiam chegar aos 20 cm de raio anular, uma hipérbole em relação ao modelo original dos vaqueiros, de abas viradas, mas curtas. “Experimentei o chapéu de Lampião no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: o pescoço bambeou. Tanto peso ornamental não teria nada a ver com funcionalidade militar, mas com valores bem mais sutis”, conta Pernambucano. O objeto tem cerca de 70 peças de ouro, entre moedas, medalhas e outros adereços, o que levou um repórter da época a defini-lo como “verdadeira exposição numismática”. O chapéu era o ponto de concentração dos adendos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro.

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Chapéu de couro do rei do cangaço (à esq.) e conjunto de bornais

Amuletos – Coisas comuns eram transformadas em amuletos que, além de reforçar a hierarquia, viravam símbolos de uma crença mística. “A blindagem mística se traduziu nos muitos signos (estrela de davi, flor de lis, signo de salomão e outros) e na profusão do seu uso em todos os ângulos das vestimentas, o que dividia a atenção com o puro anseio estético, a se mesclar a este, conferindo utilitarismo à fusão, pela força de dar vida à crença tradicional numa suposta inviolabilidade em meio a riscos extremos.” Mas não se iluda o espectador ao pensar que os bandos eram “escolas móveis de superstição”. “O grosso da cabroeira, muito jovem, entre os 16 e os 23 anos, pautava-se pela lei da imitação, sem consciência daquilo de que se servia. O chefe usava? Basta.” As mulheres seguiam as modas de perto, mas de forma distinta. “Com alguns traços de valquíria e quase nenhum da amazona, a matuta que se engajou no cangaço jamais adotou o chapéu de couro, coisa de homem. A elas ficou reservado uma cobertura de feltro, de aba média, e a colocação, sobre a cabeça, de toalha ou lenço”, conta Pernambucano. O mesmo se dava com os punhais que podiam chegar a 80 cm para os homens (o tamanho limite era o do punhal de Lampião, que não poderia ser superado), mas não passavam dos 37 cm no caso das mulheres.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Facão com cabo de gavião, de Lampião

As armas brancas, aliás, são paradigmas na vestimenta do cangaceiro. Com função militar quase morta após o advento da espingarda de repetição, os punhais serviam no ritual letal do sangramento nordestino ou como símbolo de status. “Era usado orgulhosamente sobre o abdome, à vista de todos, aço da melhor qualidade europeia com cabo decorado de prata. Desfrutável ao primeiro olhar. Ou à primeira fotografia.” O punhal de Zé Baiano, presente de Lampião, foi avaliado em mais de 1 conto de réis, preço de uma casa. Outros símbolos de prestígio eram a bandoleira, correia para segurar a espingarda no ombro, e a cartucheira trespassada, essa uma necessidade nascida de se prover um adicional de munição: 150 cartuchos de fuzil Mauser presos com enfeites de ouro. Era comum, porém, que as volantes, cientes do prestígio de seu uso, mirassem em quem portasse uma dessas. A seu lado, iam os cantis, decorados com esmero, um espaço surpreendente de arte de projeção. Como as luvas a que, nota Pernambucano, o cangaceiro, no fausto dos anos 1930, juntou um bordado colorido. O lugar privilegiado das cores, porém, eram os bornais, cuja policromia levou um jornalista a descrever os cangaceiros como “ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval”. Visíveis por todos os ângulos, os bornais eram responsáveis por mais de dois terços desse “porre de cores”, o resto ficando por conta do lenço de pescoço, a jabiraca, com que também se coava o líquido extraído de plantas da caatinga. “Nela, nada de nós, mas puxadas as duas pontas para a frente, em paralelo, o cangaceiro ia colecionando alianças de ouro, tomando-se como rico quando formava o cartucho. Houve quem tivesse mais de 30 alianças no pescoço”, conta. Viajando por Sergipe, em 1929, Lampião teve os “apetrechos” pesados numa balança de armazém: 29 quilos sem as armas. No total, o peso carregado no calor tórrido da caatinga podia chegar a quase 40 quilos.

Místico – Com menos aprumo, a vestimenta contagiou os policiais. “A sedução da indumentária dos cangaceiros arrebatava pelo funcional, pelo estético e pelo místico. A volante se mimetizou a tal ponto que dela não restou imagem própria”, diz Pernambucano. Para desespero das autoridades, que se sentiam derrotadas também no simbólico. “Cumpre que se adote a proibição de fardamentos exóticos, de berloques, estrelas, punhais alongados e outros exageros notoriamente conhecidos, porque a impressão se faz no cérebro rude e, à primeira oportunidade, o chapéu de couro cobre a testa e o rifle pende a tiracolo”, alertava um relatório oficial. Curiosamente, nota o pesquisador, pintores como Portinari ou Vicente do Rego Monteiro não souberam captar o luxo e o colorido dessa estética em suas reproduções do cangaço, optando, ideologicamente, por uma visão monocromática opaca, para ressaltar o aspecto social do fenômeno, à custa da fidelidade ao real. “Não é exagero dizer que ainda está por surgir, na pintura ou no cinema, quem consiga combinar o ethos e o ethnos dessas comunidades para retratá-las”, avalia Pernambucano. “O cangaço foi o último movimento a viver ‘sem lei nem rei’ em nossos dias, após varar cinco séculos de história. E o último a fazê-lo com tanto orgulho, com tanta cor, com tanta festa e com uma herança visual tão significativa.” Como, aliás, já diziam os versos de Mulher rendeira: “O fuzil de Lampião/ tem cinco laços de fita/ No lugar em que ele habita/ não falta moça bonita”.