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Racism remains ‘institutionalized’ in Brazil: UN panel (CTV News)

Brazil racism

Nubia de Lima, 29, poses for a photo in her Rio de Janeiro apartment in Brazil on Feb. 25, 2013. (AP / Felipe Dana)

The Associated Press
Published Friday, December 13, 2013 2:32PM EST

RIO DE JANEIRO, Brazil — Institutionalized racism persists in Brazil despite government efforts to tackle the issue, members of a United Nations panel examining conditions among black Brazilians said Friday.

Two members of the U.N.’s working group on Afro-descendants said their 10-day fact-finding mission to five Brazilian cities underscored that the government has finally acknowledged the problem and has “shown its willingness to combat racism.”

But the panel said Brazilian blacks “still suffer from structural, institutional and interpersonal racism.”

“Historical injustices continue profoundly affecting the lives of millions of Afro-Brazilians and are present throughout all levels of Brazilian society,” panel member Mireille Fanon-Mendes-France told journalists at a news conference in Rio de Janeiro.

Brazil received more African slaves than any other country in the Americas and was the last major nation to abolish slavery, and people of colour here still tend to languish at the bottom of the social pyramid.

“To overcome the legacy of colonialism and slavery, the challenges Brazil faces are enormous,” Fanon said. “Afro-Brazilians represent more than half of the Brazilian population, however they’re sub-represented and invisible in most positions of power, in the media and the private sector.”

She added that blacks continued to face hurdles in accessing quality education, the courts, health care, basic sanitation and other state services.

“Although Brazil has progressed in reducing poverty, we note that there’s still a great contrast between the situation of black Brazilians and the country’s rapid economic growth,” Fanon said, reading from a report with the group’s initial conclusions.

She praised a series of recent government measures aimed at stamping out the lasting legacy of slavery, including affirmative action in universities.

Still, Fanon added that “advances in dismantling of racial discrimination remains slow.”

The group will report its findings to the Brazilian government next year, with a series of non-binding recommendations.

Read more: http://www.ctvnews.ca/world/racism-remains-institutionalized-in-brazil-un-panel-1.1591369#ixzz2negBg4Bn

Guaranis desmentem livros e revelam nova história (A Nova Democracia)

Ano VI, nº 40, fevereiro de 2008

Rosana Bond

Os guaranis, que por muito tempo observaram o passado de seu povo ser escrito e deturpado pela ideologia das classes dominantes, decidiram dar um basta e tomar nas mãos a tarefa de desmentir os livros e contar sua própria História.

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— Chegou a hora de a sociedade não-indígena do Brasil conhecer a verdade, ninguém pode continuar pensando que perdemos a memória — afirma Werá Tupã (Leonardo), da aldeia do Morro dos Cavalos, SC, tido como um dos mais destacados intelectuais indígenas do sul do país.Ele faz parte de um grupo de guaranis que vem pesquisando fatos históricos e episódios lendários com o objetivo de reapresentá-los ao povo brasileiro de um modo diferente daquele com que foi narrado pelo pensamento reacionário. Um dos temas, cujo estudo demorou anos e ainda não está totalmente concluído, é a verdadeira história de Sepé Tiarajú.

Sepé foi um dos maiores guerreiros indígenas do sul do país, líder da resistência dos Sete Povos das Missões (RS) contra tropas espanholas e portuguesas, na chamada Guerra Guaranítica, de 1753 a 1756. Essa guerra foi abordada (de maneira fantasiosa e truncada) no filme A Missão, com Robert de Niro e Jeremy Irons, em 1986. Tal rebelião foi consequência do Tratado de Madri, pelo qual Portugal e Espanha trocaram entre si os Sete Povos das Missões, sob domínio espanhol, pela Colônia do Sacramento, sob domínio lusitano. O acordo obrigava os 30 mil guaranis e os jesuítas das sete reduções a abandonarem o Rio Grande do Sul e passarem ao território castelhano, no outro lado do rio Uruguai.

A Companhia de Jesus, chefia jesuíta na Europa, ordenou a mudança, mas os guaranis não aceitaram. Sepé liderou a resistência e em carta à Coroa de Espanha deu o famoso aviso: “Esta terra tem dono!”.

ARMAS DE CANA BRAVA

Sepé articulou uma espécie de Confederação Guaranítica, criando inovadoras táticas militares para a época, nas quais priorizava a guerrilha e evitava grandes batalhas. Chegou a idealizar e construir quatro peças de artilharia, confeccionadas com cana brava. Foi assassinado numa emboscada, por soldados espanhóis e portugueses, nos campos de Caiboaté, às margens da Sanga da Bica, em 7 de fevereiro de 1756.

O bravo e exemplar Sepé Tiarajú transformou-se num símbolo para os gaúchos. Há um rio e um município com seu nome e, em Santo Ângelo, uma estátua no centro da cidade. Os guaranis não vêem problema nisso, mas há uma questão de fundo que parece lhes desgostar e incomodar há muito tempo. Que é a “desindianização” de Sepé.
A História escrita pela cartilha das classes exploradoras e da igreja católica apossou-se da figura heróica, metamorfoseando-a quase num branco que era índio por acaso.

Os livros falam que ele “abraçou a doutrina cristã” e foi “o mais ardoroso defensor da obra dos jesuítas”; que “seus mestres foram os padres”; que ele lutou “sugestionado pelos religiosos”; que “era índio missioneiro, provavelmente já cristão de terceira geração”; que alguns padres foram “os principais estrategistas da resistência”; que, órfão de pai e mãe, “foi criado pelos jesuítas”; Werá Tupã discorda de tudo isso. Os livros erram até numa informação básica, sobre sua origem. Numa revelação inédita e surpreendente, Werá diz que Sepé não era guarani. E sim pertencia a “um outro povo indígena que não conseguimos identificar. Ele foi adotado pelos guaranis e criado como um dos nossos”.

A pesquisa a respeito de Sepé baseou-se na história oral, preservada na memória de índios centenários que viveram no Rio Grande do Sul, entre eles a velha xamã Tatãty Yva Rete (Maria Candelária Garay), apontada por antropólogos da Universidade Federal de Santa Catarina (UF SC) e PUC de São Paulo como uma das lideranças femininas mais importantes e respeitadas da tribo. Nascida aproximadamente em 1874, Tatãty foi avó adotiva de Werá Tupã.

A verdadeira história de Sepé Tiarajú

[ele] não era um cristão mesmo, como dizem, porque na verdade ele respeitava mais a religião do avô, a religião do nosso povo. Karaí Djekupé foi e continua sendo um grande herói dos guaranis

O AND foi escolhido pelos guaranis para ser o primeiro órgão de comunicação dos djuruá (não-índios) a tomar conhecimento do conteúdo do estudo, que poderá se transformar em breve num livro. Eis um resumo, contado por Werá Tupã:

“Ao contrário do que se diz, Sepé não era guarani. Ele nasceu em outro povo indígena, que não conseguimos identificar. Quando ele tinha dois anos de idade, sua aldeia, que ficava no Rio Grande do Sul, foi atacada por portugueses ou espanhóis. Os guaranis correram para ajudar, mas o lugar já tinha sido invadido e quase todos tinham sido massacrados.

Os guaranis salvaram o menino e o levaram para uma aldeia nossa, perto da missão de São Miguel. Um casal adotou ele. O avô da família era um pajé muito poderoso e o menino adorava ele. Uma coisa que quase ninguém sabe é que o nome certo dele não era Sepé Tiarajú. Esse era o jeito que os padres das missões entenderam e escreveram.

Seu nome era Djekupé A Djú, que significava “Guardião de Cabelo Amarelo”. “Guardião” porque era um guerreiro e “cabelo amarelo” porque não tinha o cabelo bem preto como os guaranis, era meio castanho. Mas era índio mesmo, não mestiço.

Quando o menino começou a crescer, pensaram que ia ser um pajé, um religioso, e ele começou a ser preparado para isso. Mas seu outro lado, de guerreiro, foi mais forte e aí mudou o seu destino. Recebeu nome de guerreiro, Djekupé A Djú. E também era chamado pelos guaranis de Karaí Djekupé, “Senhor Guardião”.

O destino de guerreiro foi porque ele era revoltado com os brancos e tinha gratidão pelos guaranis. Queria lutar pelos guaranis. É que, na aldeia, nunca esconderam dele a sua história, tudo que tinha acontecido no ataque.

Os jesuítas não criaram ele, mas ia sempre nas missões porque os padres davam apoio na defesa e ele ficava uns tempos lá. Foi assim que aprendeu a língua espanhola.

Os padres não treinaram ele, foi preparado sim pelo grande exército guarani, os “kereymba” [pronuncia-se “krimbá”]. Era um ótimo guerreiro.

Além do mais, tinha facilidade para conversar com os homens brancos, uma coisa que os outros guerreiros não tinham aptidão para fazer. Djekupé A Djú lutava, fazia de tudo para que as aldeias guaranis não fossem perturbadas. Principalmente porque ele pensava no seu avô, não queria que nada atrapalhasse a preparação espiritual do seu avô [Werá não entrou em detalhes, mas é possível supor que, de acordo com a tradição, o velho pajé se preparava espiritualmente para “viajar” à Terra Sem Mal, a Yvy Mara Ey, uma espécie de paraíso, que segundo o mito pode ser alcançado em vida ou após a morte].

Por aí se vê que Djekupé A Djú podia se relacionar com os jesuítas, mas não era um cristão mesmo, como dizem, porque na verdade ele respeitava mais a religião do avô, a religião do nosso povo. Karaí Djekupé foi e continua sendo um grande herói dos guaranis e esta é a sua verdadeira história”.

Estudos históricos e antropológicos vêm indicando, cada vez mais, que a falada conversão dos guaranis ao cristianismo, nas reduções jesuíticas, foi talvez mais aparente que real. Esses indígenas não se recusavam ao batismo e às missas, muitas vezes por apreciarem a estética dos rituais e para não desgostarem os padres.

Um sinal disso pode ser a não permanência da religião. O número de guaranis católicos, hoje, é ínfimo. Tem havido “ataques” de seitas protestantes às aldeias e muitos frequentam os cultos. Mas ainda não se pode avaliar a verdadeira dimensão do prejuízo cultural, pois os guaranis parecem possuir uma auto-defesa eficiente, baseada no ato de “desviar-se”, com extrema diplomacia, que ilude inteligentemente os desavisados.

Sua flecha é a palavra (Boletim da UFMG)

Nº 1845 – Ano 40
18.11.2013

Bárbara Pansardi

“Pra quem não me conhece, sou Davi Kopenawa, filho da Amazônia, que vive no meio da floresta.” As palavras simples e fortes do líder indígena são certeiras como uma flecha que acerta direto no coração – é o que ele mesmo diz. O xamã yanomami acredita que sua arma é a palavra, com a qual protege a floresta amazônica e os povos autóctones.

“Nós, Yanomami, somos guerreiros para defender nossos direitos, nosso povo, nossas crianças, nossa terra própria. Nossos antepassados não sabiam se defender, não sabiam brigar por não compreender a língua portuguesa”, explica o xamã e intérprete da Funai, que utiliza o idioma como instrumento político. “Eu não posso viver isolado. Meu povo yanomami já foi isolado. Hoje não, nós conversamos com políticos sobre o problema da nossa terra, da saúde”, afirma.

Sua mensagem é firme, mesmo quando sua expressão parece hesitar, revelando a cadência de quem não tem o português como língua materna. “Minha fala é diferente; não é fala de cidade, não. Eu falo sobre natureza, sobre meio ambiente, terra, sobre o que é bom pra nós todos”, justifica Kopenawa.

A convite do Programa Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), Davi veio à UFMG ensinar o que os napë [homem branco, não índio] parecem não saber. “Será que o homem não tem pensamento, não pensa em seu futuro, nas gerações que vão sofrer? Consciência dos napë é diferente da consciência indígena. Terra é nossa vida, sustenta a barriga, é nossa alegria”, alega, tecendo dura crítica às atividades econômicas que se valem da exploração das riquezas naturais.

Para Kopenawa, o problema gerado pelo homem branco com a extração dos recursos é incontornável, não há reflorestamento que o resolva. “Reflorestar não vai trazer ar limpo, não vai chamar a chuva; só miséria, fome, sofrimento”, afirma, fazendo uma analogia com as cicatrizes que se formam quando ferimos a pele, sobre as quais não voltam a nascer pelos. “Na terra, depois que corta, não cresce de novo, não nasce urihi [cobertura florestal], porque não tem força, não tem água lá embaixo. Derrama sangue da terra e ela fica seca, a água vai embora.”

Davi explica o que em sua filosofia indígena designa por “coração da terra”. De acordo com ele, trata-se de um processo cíclico segundo o qual a água é conduzida por caminhos subterrâneos que a elevam para que em seguida se precipite novamente, em movimento continuamente circular, como na corrente sanguínea. “Nós estamos circulando juntos”, acrescenta, esclarecendo que o coração humano pulsa sob mesmo ritmo. Homem e natureza, portanto, estão ligados. Então, “destruímos a nós mesmos ao devastar a terra; nosso coração bate junto com a hutukara, terra-mãe”.

Diferentes, porém complementares

O xamã acredita na capacidade de mobilizar os outros como multiplicadores de uma consciência ambiental renovada, e se alegra porque vê seu conhecimento reconhecido na esfera acadêmica. “Sou analfabeto, mas tenho saber tradicional. Eles estão me escutando e achando bom. Estão interessados, gostando muito. Eu também estou gostando. Venho para me aproximar do homem branco que nunca conheceu de mim e para conhecê-lo como amigo. Não índio também está reconhecendo minha imagem, minha fala, a experiência que eu tenho e aprendi desde pequeno.”

Entre os xamãs yanomami, boa parte dos saberes advêm do campo onírico. Os sonhos – muitas vezes associados ao transe induzido pelo sopro do pó de yãkoana [alucinógeno] – funcionam como revelações esclarecedoras. Os xapiri [espíritos] são os responsáveis por alumbrar as ideias e desvelar a sapiência do líder. Davi conta que ele próprio “sonha terra, floresta, chuva, trovão, tudo o que tem no universo”. Por isso, irrita-se com os antropólogos que, “como formigas, andam procurando sabedoria” e valem-se do conhecimento alheio. “Eu não quero antropólogo falso, que só quer trair o meu povo, que só quer aprender, tirar e copiar conhecimento yanomami”, revolta-se, em alusão à experiência com o americano Napoleon Chagnon, que trata os yanomami como ferozes e violentos.

No livro La chute du ciel, escrito em conjunto com o antropólogo francês Bruce Albert, Kopenawa conta que pediu ao xori [amigo] que o ajudasse. Como discordava dos pesquisadores que frequentavam sua aldeia e imputavam juízos sobre o modo de vida indígena, resolveu manifestar-se. “Quem vai falar sobre meu povo yanomami sou eu. Eu não sou antropólogo, mas Bruce me ajudou a escrever como no meu sonho, um sonho conhecimento. Eu queria escrever para os antropólogos da cidade, para mostrar como o Yanomami pensou. Esse livro é um mensageiro para entrar na capital. Antropólogo que não conhece índio, não conhece aldeia, não conhece mato vai ler. Esse livro foi escrito para fazer antropólogo respeitar. Foi muito bom pra mostrar minha capacitação, a capacidade que eu tenho de quem conhece rio, terra, mato”, relata.

Quanto à sua participação nas palestras ao longo da semana, o xamã mostrou-se alegre e satisfeito por cumprir a tarefa que lhe foi confiada pelos anciões. “Estou com orgulho de mim. Sou um yanomami em paz. Estou dizendo boas coisas pra eles [homens brancos] entenderem, pensarem e depois fazer respeitar. Nós somos povo indígena, guardião da terra; estamos aqui para proteger”, assevera.

É um erro escolarizar o conhecimento tradicional, avalia pesquisadora da USP (Notícias da UFMG)

Foca Lisboa/UFMG
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Manuela Carneiro propôs projeto de valorização do conhecimento tradicional

Quinta-feira, 21 de novembro de 2013, às 5h50

As possibilidades de cooperação entre os cientistas acadêmicos e os chamados “conhecedores tradicionais” – em especial os indígenas – foram abordadas em conferência na UFMG da professora Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo (USP), no início deste mês. O evento integrou a programação doColóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami.

Para a professora, é um contrassenso tentar escolarizar o conhecimento tradicional. “Ele não é só conteúdo; são também formas de existência e de transmissão desse conteúdo. Assim, em vez de se pensar em escolarização, devemos propor programas de pesquisa de conhecimentos tradicionais estabelecendo pontes entre o conhecimento prático e o que se aprende na escola”, defendeu.

Na ocasião, Maria Manuela detalhou a proposta que submeteu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a criação de programa focado na valorização do conhecimento tradicional e na criação de uma economia na Amazônia que seja compatível com o conceito de “floresta em pé”

“Fizemos a proposta ao Ministério, que parece ter gostado do projeto, e o incluiu no seu programa para o período de 2010-2014. A ideia é que o projeto resulte em editais anuais, e que fomente a distribuição equitativa de poder e de recursos”, explicou.

O Portal UFMG resumiu aspectos da conferência de Maria Manuela Carneiro da Cunha. Confira a seguir.

O contexto político
Formamos um conselho consultivo e propusemos ao MCTI um programa focado na importância da valorização dos conhecimentos tradicionais para o Brasil. O Ministério demonstrou interesse e pôs o programa na sua agenda para o período 2010-2014. Mas quiseram começar de uma forma mais prudente do que se poderia esperar. Encomendaram um estudo de três anos para avaliar a viabilidade e o formato de um programa permanente. É o que estamos fazendo atualmente. Mas sabemos que, quando mudam governo e secretário, mudam as políticas. E em 2014 teremos novas eleições. Portanto, não temos nenhuma segurança de que o programa vai se reverter em algo permanente. Mas estamos trabalhando para isso. Já foi um importante avanço tratar a questão no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em vez do Ministério da Educação (MEC).

Floresta em pé
O programa se chama Bases para um programa de pesquisas interculturais e fortalecimento do conhecimento tradicional e tem dois pilares principais. Um trata de fomentar a criação de um tipo de economia na Amazônia que seja compatível com a ideia de “floresta em pé”. Essa parte foi mais facilmente aceita. O segundo diz respeito à valorização dos conhecimentos tradicionais. Ou seja, de se reconhecê-lo e buscar o auxílio das populações tradicionais, que têm o know-how nesse tipo de manejo da floresta, para fomentar seu uso sustentável. Essa é uma ação que enfrenta mais resistência. Temos implantado projetos pilotos. São tentativas de demonstrar que é possível criar uma agricultura da “floresta em pé”, de que essa mudança de paradigma é interessante para todas as partes – populações tradicionais, cientistas das universidades e para a sociedade como um todo.

Contribuição do saber tradicional
Tenho trabalhado junto a especialistas solicitando levantamentos sobre as contribuições econômicas que os conhecimentos tradicionais podem oferecer. Mas temos de ter em mente que o mais importante não é mensurável. Não se pode medir o conhecimento tradicional pelo seu valor econômico; existem questões mais importantes. Um grande problema hoje é que, se o aspecto econômico não é mensurado, a contribuição oferecida pelo conhecimento tradicional não é apreciada, não é levada em conta, apesar de ser imprescindível para o trabalho. Pesquisadores fazem “descobertas” e não reconhecem o conhecimento tradicional embutido em seus trabalhos. Dizem: “não devo nada aos conhecimentos tradicionais”, quando, na verdade, devem muito.

Repartição equitativa
Até hoje não temos uma medida precisa para fazer essa avaliação. Mas estamos chegando a algum tipo de consenso de como deve ser feita a regulamentação desse reconhecimento. O Congresso Nacional está recebendo um projeto de lei que vai substituir medida provisória sobre o assunto. A ideia é estipular o pagamento equitativo, a recompensa, a “repartição equitativa de benefícios”; esse é o termo, porque essa recompensa pode até mesmo ser não monetária. Uma frente de trabalho tem sido a de colaborar para o estabelecimento de qual deve ser, do ponto de vista econômico, o aporte a ser feito em remuneração ao conhecimento tradicional embutido nos processos científicos. No entanto, cabe repetir: não se pode exigir uma justificativa estritamente econômica para preservar a diversidade de línguas, práticas e cantos. Reduzir tudo isso à questão do capital seria um absurdo.

Conhecimento em construção
Quando os cientistas apreciam o conhecimento tradicional, eles pensam o seguinte: “vamos fazer um levantamento e então guardar o recurso para futuras pesquisas”. O problema é que essa postura desconsidera que o conhecimento tradicional é fruto de um processo vivo, que está sempre em transformação. Ele depende da população que o gerou, depende dela para continuar se transformando, se aprimorando. Se você armazena cientificamente uma informação, ela não terá a mesma validade quando for retomada. Venho insistindo com o MCTI que não se deve pensar o conhecimento tradicional como algo pronto e consolidado, mas sim como conhecimento em constante construção, tal qual o conhecimento científico. Por incrível que pareça, isso é muito difícil de entrar na cabeça de biólogos, de cientistas acadêmicos.

O valor dos mateiros
Quando os cientistas vão adentrar a floresta, eles sempre precisam da orientação dos mateiros, oriundos da população local: são eles que conhecem a mata, os territórios, e que estão sempre descobrindo coisas novas, novos caminhos. Ainda assim eles são sempre depreciados nos institutos de pesquisa. Sempre são colocados como assistentes, sendo muito pouco valorizados no contexto da construção do conhecimento – e muito mal pagos. E a verdade é que os mateiros são os primeiros pesquisadores. Eles aprenderam no local e estão transmitindo esses conhecimentos para os pesquisadores científicos.

Desvalorização histórica
A história tradicional faz tudo para solapar o conhecimento tradicional. Por exemplo: a nossa escola, ao ser levada para essas comunidades, considera que o que a criança aprende em casa é algo sem valor. Faz com que esse conhecimento seja visto como de uma instância inferior. A escola atrapalha de várias maneiras: sua forma de elaborar seu calendário, seus horários… Por isso, as pessoas mais velhas dessas sociedades acabam se sentindo desvalorizadas quando em contato com a nossa. Em muitas dessas comunidades, eles são os responsáveis por passar certos conhecimentos de pai para filho. E a nossa escola canônica não entende ou aceita isso muito bem. A reação são as “escolas diferenciadas”, criadas pelas próprias comunidades indígenas – e que naturalmente vêm sofrendo muita resistência. São escolas que pensam seu calendário para que ele seja compatível com as atividades tradicionais da comunidade, que pensam a importância da língua, do conhecimento local, das tradições, das festas, da participação social. Aí está um aspecto muito importante a ser solucionado. É preciso que a escola se adapte à realidade dessas comunidades, no sentido de uma política de fortalecimento do conhecimento tradicional. Saber como fazer uma canoa, por exemplo, importa muito mais do que certos “conhecimentos” que as escolas acham importante disseminar.

Os riscos da ‘revolução verde’
Uma retomada histórica explica o desafio que se vive hoje na agricultura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma “revolução verde”: uma ambiciosa tentativa de aumentar a produção agrícola no mundo inteiro e resolver o problema da fome. Foi algo muito importante. Entre as mais de sete mil espécies de plantas alimentícias existentes no mundo, as trinta mais produtivas foram selecionadas para formarem a base da alimentação da maioria. Mas as demais espécies dessa enorme variedade foram de certa forma esquecidas. Apesar de sua importância na época, foi uma medida política muito arriscada. Quando a base de alimentação mundial é tão pequena, crescem os riscos de escassez caso algo aconteça com alguma dessas espécies. É uma medida em que não se considera que as variedades são adaptadas a cada lugar, ao tipo de solo, à quantidade de sol e chuva, às pragas. Então resolveram o problema da não adaptação das espécies às pragas e às demais dificuldades dos novos ambientes com o uso maciço de fertilizantes e de defensivos agrícolas. E hoje o Brasil é um “campeão” no uso dos dois. Resolveu-se o problema. Mas a que custo? Tornamo-nos reféns dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Ao custo do sacrifício das variedades locais. E o risco disso é enorme.

Cultivo on farm
Em algum momento, percebemos que o que se estava fazendo era uma política agrícola extremamente perigosa. Na Irlanda, por exemplo, aconteceu um desastre em função disso. Assim como na Bélgica, França, Alemanha, a base da alimentação no país era a batata, que havia sido domesticada pelos índios da América e levada para a Europa pelos espanhóis após a colonização. Os espanhóis levaram poucas espécies, as mais produtivas. Os irlandeses, em dado momento, estavam se alimentando só de duas espécies. Foi quando aconteceu uma praga que durou quatro anos e acabou com tudo. Um milhão de pessoas morreu de fome. Outro milhão migrou. É um exemplo de como é necessário guardar as variedades. Mas não basta fazer bancos de sementes como os da Embrapa, em que as sementes ficam em uma geladeira, mas não continuam se adaptando às mudanças do meio ambiente. O clima muda, o solo muda. Então, é preciso que as espécies continuem sendo cultivadas na roça, sendo cultivadas on farm, pois só se adaptam aquelas que continuam sendo cultivadas em campo. Isso é fundamental para a nossa segurança alimentar. E aí entra a questão dos conhecimentos tradicionais, dos índios, que tem o hábito de cultivar variedades.

Experiência no Rio Negro
Um desses projetos-pilotos de que falei está sendo desenvolvido às margens do Rio Negro, na Amazônia. Lá, a despeito das políticas governamentais que buscam consolidar a plantação apenas das poucas espécies mais produtivas, os índios estão plantando em seus roçados mais de cem variedades de mandioca, colaborando com a diversidade tão importante para a segurança de nosso sistema agrário. Hoje, 500 milhões de pessoas comem mandioca no mundo. É um alimento que tem enorme consumo na África, por exemplo. Se houvesse uma praga como a das batatas, teríamos hoje um problema enorme, a exemplo do que aconteceu na Irlanda. Esse caso da mandioca é um exemplo de como o conhecimento tradicional tem uma importância fundamental. Porque é o conhecimento tradicional dos índios que possibilita que lá, no Rio Negro, haja tanta variedade da espécie. Normalmente, a mandioca é plantada como “clone”; come-se a raiz e planta-se o caule. Mas a mandioca sabe dar flor, que tem semente. E, quando dá flor, é porque houve reprodução sexuada, de forma que essa semente não é um clone. A formiga gosta dessa semente, que é docinha. Então ela leva a semente para debaixo da terra. Essa é uma semente que só brota se houver fogo; só nasce na capoeira. Nesse sentido, ela tem brotado no Rio Negro em função do trabalho dos índios mais antigos, que gostam de cultivar as variedades e trabalham para que haja essa capoeira. As variedades também são fruto do trabalho das mulheres indígenas, que cultivam experimentalmente as sementes. Elas plantam em uma margem da roça algo que só vai dar a partir do segundo ou do terceiro ano. É um trabalho de colecionador. Essas mulheres de fato pesquisam para avaliar cada nova variedade e depois para cultivá-la. Há ainda a cultura de troca de sementes entre famílias e tribos, nas festas. Há um gosto pela coleção.

Virada política
Mesmo assim, ainda há hoje uma política do governo querendo disseminar o cultivo das espécies de mandioca entre as comunidades tradicionais, algo como “ensinar padre a rezar missa”. Insistem em focar nas espécies mais produtivas, ainda na lógica da revolução verde. E isso em um contexto em que o Brasil é signatário de um tratado que obriga o país a fomentar o cultivo de variedades na roça, de fomentar esse cultivo on farm, e não em bancos de sementes. O Brasil não está cumprindo esse tratado. Nesse sentido, nosso projeto-piloto visa transformar essas práticas tradicionais do Rio Negro em um sistema reconhecido como forma de conservação on farm valiosa e estratégica para o Brasil e para o mundo. É isso que a gente está construindo.

Leia também o perfil do líder yanomami David Kopenawa, publicado na edição 1845 do Boletim UFMG.

(Ewerton Martins Ribeiro)

Crops, Towns, Government (London Review of Books)

Vol. 35 No. 22 · 21 November 2013
pages 13-15 | 3981 words

James C. Scott

The World until Yesterday: What Can We Learn from Traditional Societies? by Jared DiamondPenguin, 498 pp, £8.99, September, ISBN 978 0 14 102448 6

 

It’s a good bet a culture is in trouble when its best-known intellectuals start ransacking the cultural inventory of its ancestors and its contemporary inferiors for tips on how to live. The malaise is all the more remarkable when the culture in question is the modern American variant of Enlightenment rationalism and progress, a creed not known for self-doubt or failures of nerve. The deeper the trouble, the more we are seen to have lost our way, the further we must go spatially and temporally to find the cultural models that will help us. In the stronger versions of this quest, there is either a place – a Shangri-la – or a time, a Golden Age, that promises to reset our compass to true north. Anthropology and history implicitly promise to provide such models. Anthropology can show us radically different and satisfying forms of human affiliation and co-operation that do not depend on the nuclear family or inherited wealth. History can show that the social and political arrangements we take for granted are the contingent result of a unique historical conjuncture.

Jared Diamond, ornithologist, evolutionary biologist and geographer, is best known as the author of Guns, Germs and Steel: A Short History of Everybody for the Last 13,000 Years, one of the most influential accounts of how most of us came to live in places with huge concentrations of people, grain and domesticated animals, and how this helped create the world of massive inequalities and disparate life chances with which we now live. Diamond’s was not a simple, self-congratulatory ‘rise of the West’ story, telling how some peoples and cultures showed themselves to be essentially cleverer, braver or more rational than others. Instead, he demonstrated the importance of impersonal environmental forces: plants and herd animals amenable to domestication, pathogens, a favourable climate and geography that aided the rise of early states in the Fertile Crescent and the Mediterranean. These initial advantages were compounded by interstate competition in metallurgy for armaments and navigational devices. His argument was much praised for its bold and original synthesis, and much criticised by historians and anthropologists for reducing the arc of human history to a handful of environmental conditions. There was no denying, however, that Diamond’s simple quasi-Darwinian view of human selection was ‘good to think with’.

The subtitle of his new foray into deep history, ‘What Can We Learn from Traditional Societies?’, suggests, without a trace of irony, that it might be more at home in the self-help section of the bookstore. By ‘traditional societies’, he by and large means hunting and gathering and small horticultural societies that have survived into the modern world in the marginal and stingy environments into which states have pushed them. They span the globe, but Diamond draws his principal examples from New Guinea and Australia, where his bird-watching interests lie, and from the findings of studies of hunter-gatherer societies (the Hadza and !Kung of Africa, the Piraha, Siriono and Yanomamo of Latin America) that fit best with his argument.

What could these historical relics possibly teach the wired, hyper-modernist residents of Diamond’s home village of Los Angeles? The question is not so preposterous. As he explains, Homo sapiens has been around for roughly 200,000 years and left Africa not much earlier than 50,000 years ago. The first fragmentary evidence for domesticated crops occurs roughly 11,000 years ago and the first grain statelets around 5000 years ago, though they were initially insignificant in a global population of perhaps eight million. More than 97 per cent of human experience, in other words, lies outside the grain-based nation-states in which virtually all of us now live. ‘Until yesterday’, our diet had not been narrowed to the three major grains that today constitute 50 to 60 per cent of the world’s caloric intake: rice, wheat and maize. The circumstances we take for granted are, in fact, of even more recent vintage than Diamond supposes. Before, say, 1500, most populations had a sporting chance of remaining out of the clutches of states and empires, which were still relatively weak and, given low rates of urbanisation and forest clearance, still had access to foraged foods. On this account, our world of grains and states is a mere blink of the eye (0.25 per cent), in the historical adventure of our species.

Why, Diamond asks, should we not plumb this vast historical record of human experience for what it might teach our WEIRD – ‘Western, educated, industrialised, rich and democratic’ – societies? Though they are the most thoroughly studied of societies, they are totally unrepresentative. If we wish to generalise about human nature, not to mention the history of human experience, we must, he argues, cast our net more widely.

Traditional societies in effect represent thousands of natural experiments in how to construct a human society. They have come up with thousands of solutions to human problems, solutions different from those adopted by our own WEIRD modern societies. We shall see that some of these solutions – for instance, some of the ways in which traditional societies raise their children, treat their elderly, remain healthy, talk, spend their leisure time and settle disputes – may strike you, as they do me, as superior to normal practices in the First World.

The lens through which Diamond, an unrelenting environmental biologist, sees the world affords striking insights but there are still massive blind spots. His discussion of languages, for example, is both passionate and convincing, as one might expect from a scholar whose New Guinea field site is home to roughly a thousand of Earth’s seven thousand languages. Aside from the ‘nine giants’ (Mandarin, Spanish, English, Arabic, Hindi, Bengali, Portuguese, Russian and Japanese), each with more than a hundred million speakers, the rest have on average only a few thousand speakers and a great many have far fewer. The ‘giants’ create vast heartland zones of monolingual citizens within which minor languages are exterminated. Inasmuch as language ‘speciation’ depends largely on dispersal and isolation, the contemporary processes of concentration and cultural homogenisation militate against the development of new languages and the survival of those already endangered. Half of the roughly 250 Australian languages are extinct, one third of the hundreds of Native American languages spoken in 1492 have disappeared and another third are unlikely to survive another generation. Each heartland of a ‘giant’ language is the graveyard of the languages it has overwhelmed.

The commonest contemporary cause of death is cultural and economic engulfment: the majority language so dominates the public sphere, media, schools and government that mastering it is the sole route to employment, social status and cultural citizenship. Diamond pauses to consider the argument that the consolidation of languages might be a fine thing. After all, eliminating language barriers makes for better mutual understanding. Why would one prefer a world in which hill peoples navigate through a linguistic thicket in which they must operate in five or more languages, as his informants do in the New Guinea Highlands?

Here, Diamond, as evolutionary biologist, has two choices. He could claim that the extinction of languages is the process of natural selection at work, just as the scientific racists of the late 19th century claimed that the extermination of backward tribal peoples like the Herero was a tragic but inevitable result of the expansion of superior races. But instead, he takes up a position not unlike that held by E.O. Wilson on the disappearance of species. He argues that just as natural diversity is a treasury of variation and resilience, so linguistic diversity represents a cultural treasury of expression, thought-ways and cosmology that, once lost, is gone for ever.

Literature, culture and much knowledge are encoded in languages: lose the language and you lose much of the literature, culture and knowledge … Traditional peoples have local-language names for hundreds of animal and plant species around them; those encyclopedias of ethnobiological information vanish when their languages vanish … Tribal peoples also have their own oral literatures, and losses of those literatures also represent losses to humanity.

It is undeniable that we are in danger of irrecoverably losing a large part of mankind’s cultural, linguistic and aesthetic heritage from the effects of ‘steamroller’ languages and states. But what a disappointment it is, after nearly five hundred pages of anecdotes, assertions, snippets of scientific studies, observations, detours into the evolution of religion, reports of near-death experiences – Diamond can be a gripping storyteller – to hear the lessons he has distilled for us. We should learn more languages; we should practise more intimate and permissive child-rearing; we should spend more time socialising and talking face to face; we should utilise the wisdom and knowledge of our elders; we should learn to assess the dangers in our environment more realistically. And, when it comes to daily health tips, you have to imagine Diamond putting on his white coat and stethoscope as he recommends ‘not smoking; exercising regularly; limiting our intake of total calories, alcohol, salt and salty foods, sugar and sugared soft drinks, saturated and trans fats, processed foods, butter, cream and red meat; and increasing our intake of fibre, fruits and vegetables, calcium and complex carbohydrates. Another simple change is to eat more slowly.’ Perhaps wary of resistance to a fully fledged hunter-gatherer diet, he recommends the Mediterranean diet. Those who have trekked all this way with him, through the history of the species and the New Guinea Highlands, must have expected something more substantial awaiting them at the end of the trail.

*

What were our ancestors like before the domestication of plants and animals, before sedentary village life, before the earliest towns and states? That is the question Diamond sets himself to answer. In doing so, he faces nearly insurmountable obstacles. Until quite recently, archaeology recorded our history as a species in relation to the concentration of debris (middens, building rubble, traces of irrigation canals, walls, fossilised faeces etc) we left behind. Hunter-gatherers were typically mobile and spread their largely biodegradable debris widely; we don’t often find their temporary habitats, which were often in caves or beside rivers or the sea, and the vast majority of such sites have been lost to history. When we do find them, they can tell us something about their inhabitants’ diet, cooking methods, bodily adornment, trade goods, weapons, diseases, local climate and occasionally even causes of death, but not much else. How to infer from this scant evidence our ancestors’ family structure and social organisation, their patterns of co-operation and conflict, let alone their ethics and cosmology?

It is here that Diamond makes his fundamental mistake. He imagines he can triangulate his way to the deep past by assuming that contemporary hunter-gatherer societies are ‘our living ancestors’, that they show what we were like before we discovered crops, towns and government. This assumption rests on the indefensible premise that contemporary hunter-gatherer societies are survivals, museum exhibits of the way life was lived for the entirety of human history ‘until yesterday’ – preserved in amber for our examination.

In the unique case of Highland New Guinea, which was apparently isolated from coastal trade and the outside world until World War Two, Diamond might be forgiven for making this inference, though the people of New Guinea have had exactly the same amount of time to adapt and evolve as homo americanus and they managed somehow to get hold of the sweet potato, which originated in South America. The inference of pristine isolation, however, is completely unwarranted for virtually all of the other 35 societies he canvasses. Those societies have, for the last five thousand years, been deeply involved in a world of trade, states and empires and are often now found in undesirable marginal areas to which they have been pushed by more powerful societies. The anthropologist Pierre Clastres argued that the Yanomamo and Siriono, two of Diamond’s prime examples, were originally sedentary cultivators who turned to foraging in order to escape the forced labour and disease associated with Spanish settlements. Like almost all the groups Diamond considers, they have been trading with outside kingdoms and states (and raiding them) for much of the past three thousand years; their beliefs and practices have been shaped by contact, trade goods, travel and intermarriage. So thoroughly have they come to live in a world of powerful kingdoms and states that one might call these societies themselves a ‘state effect’. That is, their location in the landscape is designed to help them evade or trade with larger societies. They forage forest and marine products desired by urban societies; many groups are ‘twinned’ with neighbouring societies, through which they manage their trade and relationship to the larger world.

Contemporary foraging societies, far from being untouched examples of our deep past, are up to their necks in the ‘civilised world’. Those available for Diamond’s inspection are, one might argue, precisely the most successful examples, showing how some hunter-gatherer societies have avoided extinction and assimilation by creatively adapting to the changing world. Taken together, they might make for an interesting study of adaptation, but they are useless as a metric to tell us what our remote ancestors were like. Even their designations – Yanomamo, !Kung, Ainu – convey a false sense of genealogical and genetic continuity, vastly understating the fluidity of these groups’ ethnic boundaries.

Diamond is convinced that violent revenge is the besetting plague of hunter-gatherer societies and, by extension, of our pre-state ancestors. Having chosen some rather bellicose societies (the Dani, the Yanomamo) as illustrations, and larded his account with anecdotal evidence from informants, he reaches the same conclusion as Steven Pinker in The Better Angels of Our Nature: we know, on the basis of certain contemporary hunter-gatherers, that our ancestors were violent and homicidal and that they have only recently (very recently in Pinker’s account) been pacified and civilised by the state. Life without the state is nasty, brutish and short. Though Hobbes is not directly invoked, his gloomy view of savage life without a sovereign infuses Diamond’s narrative. ‘First and foremost, a fundamental problem of virtually all small-scale societies is that, because they lack a central political authority exerting a monopoly of retaliatory force, they are unable to prevent recalcitrant members from injuring other members, and also unable to prevent aggrieved members from taking matters into their own hands and seeking to achieve their goals by violence. But violence invites counter-violence.’

*

In a passage that recapitulates the fable of the social contract, Diamond implies that it was explicitly to end this violence that subjects agreed to found a sovereign power that would guarantee peace and order by restraining their habits of violence and revenge.

Maintenance of peace within a society is one of the most important services that a state can provide. That service goes a long way towards explaining the apparent paradox that, since the rise of the first state governments in the Fertile Crescent about 5400 years ago, people have more or less willingly (not just under duress) surrendered some of their individual freedoms, accepted the authority of state governments, paid taxes and supported a comfortable individual lifestyle for the state’s leaders and officials.

Two fatal objections come immediately to mind. First, it does not follow that the state, by curtailing ‘private’ violence, reduces the total amount of violence. As Norbert Elias pointed out more than half a century ago in The Civilising Process, what the state does is to centralise and monopolise violence in its own hands, a fact that Diamond, coming as he does from a nation that has initiated several wars in recent decades and a state (California) that has a prison population of roughly 120,000 – most of them non-violent offenders – should appreciate.

Second, Hobbes’s fable at least has nominally equal contractants agreeing to establish a sovereign for their mutual safety. That is hard to reconcile with the fact that all ancient states without exception were slave states. The proportion of slaves seldom dropped below 30 per cent of the population in early states, reaching 50 per cent in early South-East Asia (and in Athens and Sparta as much as 70 and 86 per cent). War captives, conquered peoples, slaves purchased from slave raiders and traders, debt bondsmen, criminals and captive artisans – all these people were held under duress, as the frequency of state collapse, revolt and flight attests. As either a theory or a historical account of state-formation, Diamond’s story makes no sense.

The straw man in his argument is that contemporary hunter-gatherer societies are oases of peace, co-operation and order. Of course they are not. The question, rather, is how violent they are compared to state-societies and what are the causes of the violence that does exist. There is, contra Diamond, a strong case that might be made for the relative non-violence and physical well-being of contemporary hunters and gatherers when compared with the early agrarian states. Non-state peoples have many techniques for avoiding bloodshed and revenge killings: the payment of compensation or Weregild, arranged truces (‘burying the hatchet’), marriage alliances, flight to the open frontier, outcasting or handing over a culprit who started the trouble. Diamond does not seem to appreciate the strong social forces mobilised by kinsmen to restrain anyone contemplating a hasty and violent act that will expose all of them to danger. These practices are examined by many of the ethnographers who have carried out intensive fieldwork in the New Guinea Highlands (for example by Edward L. Schieffelin in The Sorrow of the Lonely and the Burning of the Dancers, Marilyn Strathern inWomen in Between, and Andrew Strathern and Pamela Stewart’s work on compensation), but they make no dent in Diamond’s one-dimensional view of the desire for revenge.

On the other side of the ledger, when it comes to violence in early agrarian states, one must weigh rebellion, war and systematic violence against slaves and women (as a rule of thumb, agrarian states everywhere created patriarchal property regimes which reduced the status and freedom of women) against ‘tribal conflicts’. We also know, and Diamond notes, that hunter-gatherers even today have healthier diets and far fewer communicable diseases. Believing, against the evidence, that hunters and gatherers live in daily fear of starvation, he fails to note that they also work far less hard and thus have far more leisure. Marshall Sahlins called hunter-gatherers, even when relegated to the most undesirable environments, ‘the original affluent society’. It’s hard to imagine Diamond’s primitives giving up their physical freedom, their varied diet, their egalitarian social structure, their relative freedom from famine, large-scale state wars, taxes and systematic subordination in exchange for what Diamond imagines to be ‘the king’s peace’. Reading his account one can get the impression that the choice facing hunters and gatherers was one between their world and, say, the modern Danish welfare state. In practice, their option was to trade what they had for subjecthood in the early agrarian state.

No matter how one defines violence and warfare in existing hunter-gatherer societies, the greater part of it by far can be shown to be an effect of the perils and opportunities represented by a world of states. A great deal of the warfare among the Yanomamo was, in this sense, initiated to monopolise key commodities on the trade routes to commercial outlets (see, for example, R. Brian Ferguson’s Yanomami Warfare: A Political History, a strong antidote to the pseudo-scientific account of Napoleon Chagnon on which Diamond relies heavily). Much of the conflict among Celtic and Germanic peoples on the fringes of Imperial Rome was essentially commercial war as groups jockeyed for access to Roman markets. The unprecedented riches conjured by the ivory trade in the late 19th century set off hundreds of wars among Africans for whom tusks were the currency that purchased muskets, power and trade goods. Borneo/Kalimantan was originally settled more than a millennium ago, it is now believed, by Austronesians who regarded it as an ideal foraging ground for the Chinese luxury market in feathers, camphor wood, tortoiseshell, bezoar stones, hornbill and rhinoceros ivory, and edible birds’ nests. They were there for trade, and that meant conflict over the most profitable sites for foraging and exchange. It would be impossible to understand intertribal warfare in colonial North America without considering the competition for fur trade profits that allowed the winners to buy firearms and allies, and to dominate their rivals.

In the world of states, hunter-gatherers and nomads, one commodity alone dominated all others: people, aka slaves. What agrarian states needed above all else was manpower to cultivate their fields, build their monuments, man their armies and bear and raise their children. With few exceptions, the epidemiological conditions in cities until very recently were so devastating that they could grow only by adding new populations from their hinterlands. They did this in two ways. They took captives in wars: most South-East Asian early state chronicles gauge the success of a war by the number of captives marched back to the capital and resettled there. The Athenians and Spartans might kill the men of a defeated city and burn its crops, but they virtually always brought back the women and children as slaves. And they bought slaves: a slave merchant caravan trailed every Roman war scooping up the slaves it inevitably produced.

The fact is that slaving was at the very centre of state-making. It is impossible to exaggerate the massive effects of this human commodity on stateless societies. Wars between states became a kind of booty capitalism, where the major prize was human traffic. The slave trade then completely transformed the non-state ‘tribal zone’. Some groups specialised in slave-raiding, mounting expeditions against weaker and more isolated groups and then selling them to intermediaries or directly at slave markets. The oldest members of highland groups in Laos, Thailand, Malaysia and Burma can recall their parents’ and grandparents’ memories of slave raids. The fortified, hilltop villages, with thorny, twisting and hidden approaches that early colonists found in parts of South-East Asia and Africa were largely a response to the slave trade.

There is plenty of violence in the world of hunter-gatherers, though it is hardly illuminated by resorting to statistical comparisons between the mortality rates of a tiny tribal war in Kalimantan and the Battle of the Somme or the Holocaust. This violence, however, is almost entirely a state-effect. It simply cannot be understood historically from 4000 BC forward apart from the appetite of states for trade goods, slaves and precious ores, any more than the contemporary threat to remote indigenous groups can be understood apart from the appetite of capitalism and the modern state for rare minerals, hydroelectric sites, plantation crops and timber on the lands of these peoples. Papua New Guinea is today the scene of a particularly violent race for minerals, aided by states and their militias and, as Stuart Kirsch’s Mining Capitalismshows, its indigenous politics can be understood only in this context. Contemporary hunter-gatherer life can tell us a great deal about the world of states and empires but it can tell us nothing at all about our prehistory. We have virtually no credible evidence about the world until yesterday and, until we do, the only defensible intellectual position is to shut up.

The shaman’s-eye view: A Yanomami verdict on us (New Scientist)

18 November 2013 by Daniel L. Everett

Magazine issue 2943S

Book information
The Falling Sky: Words of a Yanomami shaman by Davi Kopenawa and Bruce Albert (translated by Nicholas Elliott and Alison Dundy)
Published by: Harvard University Press
Price: $39.95

Davi Kopenawa hopes to overturn prejudices towards his people (Image: Vincent Rosenblatt/Camera Press)

In The Falling Sky: Words of a Yanomami shaman, Davi Kopenawa looks from the other side of the anthropological lens – and the result is a literary treasure

STORIES are quilts. They are patches of brightness sewn together by narratives. And as with a quilt, each patch is chosen, not random. No two people will make the same quilt or tell the same story, even if they choose the same material.

So it is with The Falling Sky: Words of a Yanomami shaman, one of the first and best autobiographical narratives by an indigenous lowland Amazonian. It is the result of a collaboration between French anthropologist Bruce Albert, who worked among the Yanomami for 38 years, and Davi Kopenawa, a shaman who became spokesman for all Amazonians through his work with indigenous-rights organisation Survival International. Albert wrote the introduction and the conclusion; the rest is Kopenawa, translated.

Each offers his perspective, but the central story is Kopenawa’s, his personal history, the philosophy and spirituality of the Yanomami, and his view of the outsiders who have both attacked and celebrated his people, in Brazil, the US and Europe: the “white people”.

One interpretation of the book is that it is little more than 600-plus pages praising superstition, interspersed with lengthy, mistaken condemnation of modern societies. But this misses the main point: all descriptions of other peoples will be affected by how the writer’s perspective was formed within their own society, simultaneously full of truth and rife with misunderstanding, wrong focus, or attempts – conscious or unconscious – to impose the author’s beliefs.

Kopenawa labels whites as “fierce people” with deliberate irony, playing on the label applied to the Yanomami by some anthropologists, the best known of whom is Napoleon Chagnon. His book about the Yanomami, The Fierce People, is perhaps the bestselling anthropological book of all time. His work has been attacked by Survival International for promoting the idea that the Yanomami are more violent than whites, a view that has informed the work of other academics.

Kopenawa makes it clear that the Yanomami revenge fights are nothing compared with whites’ mastery of destruction, which dwarfs anything the world has seen. So he rejects the label “war” as a description of his people’s violence, saying that they fight over “funerary urns” – the desire to avenge loved ones killed by the sorcery and violence of others.

You may not like the way he portrays whites because, surely, we are not like that? Yet Kopenawa bases his interpretation on personal experience, training and observations – no different from any anthropologist. And the story that emerges of our people is unpleasant. Even when he gets us wrong, The Falling Skyteaches us that it hurts to read partial truths about one’s society from the pen of a largely unsympathetic observer. Just as it hurts the Yanomami. Anthropologists and travel writers, take note.

Yet ironically, the fame of the Yanomami and the interest this book is generating are partly due to anthropologists like Chagnon and their views. Kopenawa condemns the whites who “…continue to lie about us by saying: ‘The Yanomami are fierce. All they think about is warring and stealing women. They are dangerous!’ Such words are our enemies and we detest them.”

The effect whites had on him as a child is more complex, though. “If the white people hadn’t appeared… I would probably also have become a warrior and would have arrowed other Yanomami in anger when I wanted revenge. I have thought to do it. I always contained my evil thoughts… and stayed quiet by thinking of the white people. I would tell myself: ‘If I arrow one of us, those who covet our forest will say I am evil and devoid of wisdom… they are the ones who kill us with their diseases and shotguns. And it is against them… I must direct my anger today!”

Fierceness is indeed a trait of the Yanomami, one that comes from the ancestor spirit Arowë, Kopenawa tells us. But so too are gentleness, hard work, love of family, deep philosophical thought, fun, and more. Your quilt will look different depending on which patch – the one for fierceness, understanding of nature, or love of family – you sew in the centre. None of the quilts is false: each shows the variety of human perceptions and why no quilt, story or book should be taken as “the truth”. The true contribution of this book is to show us the richness of the Yanomami spirit and culture through the eyes of a respected leader of the community.

The author’s name, too, speaks volumes. “Davi” is the name the whites gave him. Kopenawa is his Yanomami name, referring to the vicious kopena wasps found in the area, while the “omamo” part of Yanomamo – as it is sometimes transliterated – means “sons of God”. The book’s title, The Falling Sky, is also significant. It refers both to the periodic destruction of the world in Yanomami lore, and to the threat of final destruction if the “white man” does not adopt more of the Yanomami values.

The book is a mix of autobiography, history, personal philosophy, and cultural criticism of whites for their destruction of the world, worship of the material, and lack of spirituality and vitality. It extols the virtues of Yanomami life and culture and their deity, Omama, placing him at the foundation not only of their culture but of white culture, too. Tellingly, Kopenawa’s first impression of Stonehenge, which served a society that some would label truly fierce, was that it was most likely built by and dwelt in by Omama.

Kopenawa’s life began when he “fell on the ground from the vagina of a Yanomami woman”. Pride in the lack of euphemism and in his origins is evident in this phrase. He has no desire to pretend he is like a white man, though he enjoys being among them. And the book is not only finely detailed and full of challenging philosophical points, it also contains much humour. Take Kopenawa’s reaction on seeing the large populations of Brazilian cities: “White people must never stop copulating.”

More darkly, he reminds us what it is like to be on “the other side” – to be missionised, anthropologised, and regulated by government. These are not pleasant experiences. His story is particularly pointed when he describes the ham-fistedness of Brazilian state employees. He singles out the officious attitudes of the FUNAI, the body that makes and carries out policy relating to indigenous peoples.

The book is also in part the story of anthropologist Bruce Albert. His narrative is clear and compelling as the story of an anthropologist working among a particular people in the Amazon. But the presence of a second narrative dilutes Kopenawa’s story, and overall the book would have been stronger without it – though it would, no doubt, make an excellent stand-alone book.

Ultimately, it is Kopenawa’s voice that tells us who he is, who his people are, and who we are to them. It is complex and nuanced; I’d go so far as to callThe Falling Skya literary treasure: invaluable as academic reading, but also a must for anyone who wants to understand more of the diverse beauty and wonder of existence.

This article appeared in print under the headline “Those fierce white people”

Daniel L. Everett is dean of arts and sciences at Bentley University, Massachusetts. His latest book is Language: The cultural tool (Profile). He has translated for Davi Kopenawa, and lived with the Amazonian Pirahã people and studied their language

Antropólogos x ruralistas

JC e-mail 4826, de 03 de Outubro de 2013.

A Constituição em perigo

Ruralistas tentam tornar legais as transgressões da lei. Primeiro foi o Código Florestal. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas

Artigo de Manuela Carneiro da Cunha* publicado na Folha. Há 25 anos, em 1988, uma nova Constituição afirmou que o país queria novos rumos

O capítulo dos direitos dos índios na Constituição de 1988 foi emblemático dessa postura. Não tanto pelo reconhecimento do direito dos índios à terra, que já figurava em todas as Constituições do século 20. Mais significativo foi o abandono da ideia –esta do século 19– de que a missão da chamada civilização consistia em fazer os índios deixarem de ser índios. Em vez disso, pela primeira vez, celebrou-se a diversidade como um valor a ser preservado.

Em 1988, as expectativas de mineração e construção de hidrelétricas em áreas indígenas já eram contrárias à afirmação dos direitos dos índios. No entanto, a Confederação Nacional dos Geólogos se opôs aos interesses das mineradoras e entendeu que as terras indígenas constituíam uma reserva mineral. Ou seja, elas deveriam ser as últimas a serem consideradas para mineração, quando o minério fosse de interesse estratégico indiscutível e não houvesse alternativa no território nacional.

Na Constituinte, chegou-se finalmente a um acordo: exceções às garantias de usufruto exclusivo dos índios sobre suas terras, somente em caso de relevante interesse da União. Foi o parágrafo 6º do artigo 231 da CF. O entendimento era de que cada caso seria debatido e sua excepcionalidade comprovada.

Agora, 25 anos mais tarde, as exceções pretendem se tornar a regra. Como? Definindo –a pretexto de regulamentar o tal parágrafo– o “relevante interesse da União” de uma forma tão genérica e tão ampla que tudo caiba nela. Pasme: passa a ser de “relevante interesse nacional” qualquer mineração e hidrelétrica, é claro, além de estradas, oleodutos, gasodutos, aeroportos, portos fluviais e até assentamentos agrários. E no final, a pérola que trai a origem da manobra: podem ser “de relevante interesse da União” até terras indígenas intrusadas, com títulos contestáveis.

Esse é o teor de um projeto de lei complementar na Câmara, de origem ruralista, o PLP 227/2012. Outro projeto, de redação mais sutil, mas com efeitos até piores, foi apresentado recentemente pelo senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, e, sem sequer ainda ter número, deve ter rápida tramitação. Deve-se reconhecer a esperteza da manobra, que pretende acabar de uma vez com todas as restrições.

O que está acontecendo? A bancada ruralista, aliada à bancada da mineração, está tomando conta do nosso Congresso. Por outro lado, desde 1988, as terras públicas remanescentes foram sendo destinadas para se garantir o que interessa ao Brasil como um todo, por exemplo a conservação ambiental.

A investida dos ruralistas, agora em posição de força no Congresso –e, portanto, no governo também– é no sentido de tornar legais todas as transgressões da lei que já eram praticadas. Primeiro foi o Código Florestal, desfigurado há dois anos, que anistiou os desmatamentos irregulares. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas.

Na tentativa de influenciar a opinião pública, os ruralistas usam como fachada os pequenos agricultores. A situação hoje é a seguinte: a definição de áreas de conservação ambiental e a demarcação de terras indígenas e de quilombolas estão paradas. Multiplicaram-se os projetos de lei e de emendas constitucionais que lhes são hostis.

Um exemplo gritante é a proposta de emenda constitucional (PEC) 215, que quer tirar do Executivo e passar para o Congresso a demarcação das terras indígenas, o que, na prática, significa o fim das demarcações.

Por toda esta semana, índios e não índios protestam contra o desmantelamento do capítulo “Dos Índios” na Constituição Federal. Mas esse não é só um ataque aos índios. É todo o nosso projeto de futuro que está em jogo.

*Manuela Carneiro da Cunha é antropóloga, é membro da Academia Brasileira de Ciências e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo e da Universidade de Chicago

(Folha de S.Paulo)

 

É hora de defender o Brasil

Artigo de Luis Carlos Heinze* publicado na Folha. Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais e sem isenção e laudos tendenciosos prevalecem na farsa indigenista

O princípio da legalidade no Brasil é o de que a administração nada pode fazer senão o que a lei determina –e essa é justamente uma das principais garantias do cidadão.

Esse preceito, porém, não é observado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que, de forma arbitrária e ideológica, desrespeita até a Constituição. Impedir que seus atos sejam analisados por outros órgãos, como faz com o apoio do Ministério Público, é ainda uma afronta ao sistema democrático.

Com insistência, a Funai identifica pretensas terras indígenas por meio de procedimentos administrativos de natureza inquisitória. O resultado é a insegurança jurídica.

O direito ao contraditório e à defesa foram extintos. A perda da propriedade é a pena imposta a legítimos detentores de terras de forma afrontosa à cláusula pétrea do dispositivo constitucional.

Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais, sem a necessária isenção, e laudos tendenciosos e fraudulentos prevalecem na farsa indigenista. A evidência é tanta que a Procuradoria-Geral da República firmou acordo com a Associação Brasileira de Antropólogos, e a Funai contrata apenas os profissionais sugeridos para desenvolver seus estudos, que são, claro, favoráveis aos indígenas.

Apoiada por interesses de ONGs, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e por setores do Ministério Público, a Funai se porta como um poder judiciário paralelo –ela mesma denuncia, julga e condena.

Com tantas irregularidades, apropriação de poderes e interpretações equivocadas, defendemos a aprovação da PEC 215 para esclarecer o que a Carta Magna estipula: é o Congresso Nacional que disciplina os bens da União. E o que são terras indígenas? Bens da União. Resta óbvio que os limites desses territórios são de competência do Legislativo. A PEC só faz reafirmar esse poder.

Também discutimos a regulamentação do artigo 231 da lei suprema para impor um marco temporal às demarcações, por meio do projeto de lei complementar (PLP) 227/12. Que mais uma vez é redundante: a Carta de 88 é claríssima ao expor que “a União concluirá as demarcações das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Constitucionalmente, esse é o prazo legal para as delimitações e deve ser respeitado rigorosamente. Hoje, 25 anos após a promulgação, existem mais de 500 processos em andamento e, a cada dia, surge um novo.

Segundo a Funai, no Brasil, há 110 milhões de hectares reconhecidos como terras indígenas –13% do território brasileiro– para atender uma população que não ultrapassa 900 mil índios –0,4% da população. Não bastasse, a Funai ainda quer mais 40 milhões de hectares –e não haverá limites, se não barrarmos o abuso.

Mais estranho ainda é o apoio do Ministério Público à Funai, ao desmerecer seu papel institucional de guardião da Constituição. É chegada a hora de defendermos o Brasil. Nós, deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, vamos impor esse respeito, para o bem do país e de seus cidadãos.

LUIS CARLOS HEINZE* é engenheiro agrônomo, deputado federal (PP-RS) e líder da Frente Parlamentar da Agropecuária

(Folha de S.Paulo)

Todo o universo indígena está a perigo (Carta Capital)

Sociedade
02/10/2013 – 01h15

por Felipe Milanez*

indigenascapa 300x225 Todo o universo indígena está a perigo

Foto: Reprodução/ Internet

“A situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave”, afirma Sydney Possuelo, presidente da Funai durante o governo Collor.

Presidente da Funai durante o governo Collor, Sydney Possuelo foi o responsável pela demarcação da terra indígena Yanomami. É tido como criador do departamento de índios isolados da Funai (atual Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato), responsável por institucionalizar a postura de não-contato com os povos indígenas em isolamento voluntário.

O tema é complexo, e hoje, a situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave. Em várias situações, como entre os awa-guaja no Maranhão, ou os Piripkura no norte do Mato Grosso, ou grupos isolados Yanomami, a situação é de risco grave de genocídio.

A qualquer momento, um desastre pode acontecer, com um ataque feito por madeireiros ou garimpeiros, nesses casos citados, podendo ocasionar o extermínio massivo de uma população. Ou seja: o crime de genocídio. E muitas obras do governo atingem diretamente essas áreas ocupadas por povos isolados, desde prospecção de petróleo no Vale do Javari a Usina Belo Monte. Para Possuelo, “Todo o universo indígena está a perigo, inclusive os isolados”.

CartaCapital: O que está acontecendo hoje, como explicar esse ataque aos direitos indígenas?

Sydney Possuelo: De um modo geral, a sociedade nacional nunca gostou de índio. Hoje, se soma a essa postura histórica de nunca gostar e não respeitar, a ação governamental que se alia aos tradicionais inimigos dos povos indígenas. O agronegócio, no Brasil, esta aliado ao governo. O governo está mais desmatando do que tudo. As grandes obras nacionais, hidrelétricas, que também se aliam ao governo porque é o governo que esta fazendo. Há um monte de ONG que dependem do governo, e elas não tem mais voz. Dentro da Funai não se encontra mais nenhum defensor dos índios. Aquela Funai antiga, que vários companheiros faziam da Funai um órgão de luta de defesa dos povos indígenas, hoje não existe mais.

Há ha uma convergência de fatores, vários fatores tradicionalmente anti-indígena, e todos convergem junto do governo por interesses. Uma situação que faz recrudescer a tradicional indiferença nacional com os povos indígenas. E, contra os índios, o agronegócio, o grande desenvolvimento a qualquer preço, as obras. Essas convergências se misturam com ausência de pessoas e fatores, e a própria imprensa, que antigamente era mais atuante a favor dos povos indígenas. Na imprensa, de um modo geral, os artigos são contra os povos indígenas. Não se tem vozes nacionais que se levantem na defesa. Todos calados, alimentando esse processo do governo com suas obras, a ideia do “Brasil grande” que precisa se desenvolver.

CC: Qual a ameaça dessas mudanças legislativas (PEC 215, PLP 227) para o futuro?

SP: Os índios estão mais ameaçados. Antigamente, a esperança era maior. Porque tínhamos muita atividade indigenista, demarcávamos terra, bastante vozes se levantavam na imprensa, grupos, entidades, falavam sobre os povos indígenas. Existia mais esperança. Hoje, é o contrario. A esperança diminui e aumenta as dificuldades para os povos indígenas. O resultado é que desde 1500 até hoje, com pequenos momentos mais leves na nossa historia politica, todo o processo ameaça os povos indígenas. A sociedade até entende, mas a ganancia e a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer negócios predominam. Fatores que atuavam isoladamente, hoje estão todos juntos. Todo mundo em volta do governo, que é o elemento que converge esses interesses, que subordina a todos. Eu vejo esse governo como um dos mais nefastos com relação aos povos indígenas, desde a entrada do lula até hoje. A postura é: vamos desenvolver. O índio permanece sendo o entrave.

CC: Como esse processo de força contrário aos índios se tornou tão poderoso e influente?

SP: O polarizador foi o governo, com bilhões de reais, ele faz a estrada, e quem faz a estrada esta a favor do governo, é a empreiteira, o governo deixa desmatar, “autoriza”. E o governo alimenta essa situação porque o que eles querem é a produção de mais carne, de mais soja para mais gente criar boi na Europa e na China. Os interesses do governo convergem com parte da sociedade nacional, os construtores de estrada, os chamados desbravadores.

CC: O que pode ser feito? Ou o que deveria ser feito no Brasil?

SP: Não é simples, e não basta simplesmente mudar o governo. Historicamente, os governos de centro ou esquerda ou direita, seja qual for a tendência, sempre foram contrários aos índios. Uns mais, outros menos. Não acredito que venha um governo de centro, ou de direita, que vai transformar. É uma coisa incorporada a nossa sociedade, por vários motivos histórico. Como vamos ter um órgão a favor dos índios se o governo não se porta a favor dos índios. E não falo só do federal, mas o estadual e municipal: todos são contrários aos índios. Na época das demarcações que fizemos nos meus dois anos de presidência da Funai, tivemos uma ação demarcatória muito positiva, no governo Collor. Em um ano duplicamos a superfície de terras indígenas no brasil. Houve momento em que essa situação estava melhor, como voltar a uma atividade mais respeitosa. Como respeitar os povos indígenas se a gente não se respeita? Somos uma sociedade que tem que caminhar muito.

CC: E como está a situação dos povos indígenas isolados, tema com o qual o senhor trabalhou durante muitos anos?

SP: A situação dos índios isolados está igual a dos outros povos: de mal a pior. tudo aquilo que fizemos com a criação do departamento de índios isolados, com seis ou sete equipes funcionando, mantendo a terra, dando um pouco de sossego para os índios, tudo aquilo se perdeu. Perdeu-se a motivação porque não tem mais aquelas pessoas, que foram anuladas e mandadas embora, e a começar por mim mesmo, mas, todos os que contribuíram de alguma forma. Antes da criação desse departamento e toda a filosofia que eu implantei, cada um fazia aquilo que queria. Fizemos uma filosofia de não contato, porque são sociedades vulneráveis, e somos tão grande, porque não sermos um pouco generosos e deixá-los nas sua áreas? As frentes estão abandonadas, não tem pessoas motivadas trabalhando nelas. Os índios isolados estão tão a perigo quanto os que estão contatados. Todo o universo indígena esta a perigo, inclusive os isolados.

Eu não consigo ver lados positivos em qualquer desenvolvimento que não respeite as populações diretamente afetadas, que não considere elas, que não faça obras de atenuação dos impactos. Impactos sempre vão ocorrer, mas convém atenuar. Senão não é desenvolvimento nem sustentável nem ético.

* Felipe Milanez é pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Felipe Milanez escreve sobre meio ambiente, conflitos sociais e questões indígenas. É também pesquisador visitante na Universidade de Manchester e integra o European Network of Political Ecology (Entitle). Twitter: @felipedjeguaka

** Publicado originalmente no site Carta Capital.

Abandoned in Indian Country (NY Times)

July 23, 2013

By THE EDITORIAL BOARD

It’s an old American story: malign policies hatched in Washington leading to pain and death in Indian country. It was true in the 19th century. It is true now, at a time when Congress, heedless of its solemn treaty obligations to Indian tribes, is allowing the across-the-board budget cuts known as the sequester to threaten the health, safety and education of Indians across the nation.

Many Republicans have lately taken to dismissing the sequester as a mild headache for a country that needs to tighten its belt. They are willfully averting their eyes from Indian reservations, where the cuts are real, specific, broad and brutal. The victims are among the poorest, sickest and most isolated Americans.

The sequester in a nutshell? “More people sick; fewer people educated; fewer people getting general assistance; more domestic violence; more alcoholism,” Richard Zephier, executive director of the Oglala Sioux Tribe, recently told Annie Lowrey of The Times.

The damage is being done to agencies and programs whose budgets rely nearly entirely on federal sources, now being slashed. In signing treaties with Indian nations in return for land, the federal government promised a wide array of life-sustaining services. One of the most important is the Indian Health Service, which serves about two million people on reservations and is grossly underfinanced even in good times. It routinely runs out of money halfway through the year. Though Medicare, Medicaid and veterans’ health were exempted from sequestration cuts, the Indian Health Service was not. It stands to lose about $228 million in 2013 from automatic sequester cuts alone, out of a $4 billion budget. That will mean 3,000 fewer inpatient admissions and 800,000 fewer outpatient visits every year.

On the Pine Ridge Indian Reservation in South Dakota, the tribal police force, facing cumulative budget cuts of 14 percent, or more than $1 million, has let 14 officers go. Its nine patrol cars are already pitifully inadequate for policing a 2.8-million-acre reservation plagued by poverty, joblessness, youth gangs, suicide, alcoholism and methamphetamine addiction. The tribe is cutting a program that serves meals to the housebound elderly. Its schools and Head Start program are cutting back. On a reservation with a chronic and worsening shortage of homes, where families double up in flimsy trailers without running water or electricity, a housing-improvement program with a 1,500-family waiting list was shut down. There were 100 suicide attempts in 110 days on Pine Ridge, officials there said, but the reservation is losing two mental-health providers because of the sequester.

The warnings about the cuts have come from many sources, all ignored. A report in May from the Center for Native American Youth described the looming damage to housing and juvenile-justice programs, child-welfare and mental-health services, and education. It predicted that sequester cuts to the Department of Education would lead to staff reductions, canceled programs and shortened school years affecting nearly 115,000 Indian youths at 710 schools.

In the Navajo Nation, in Arizona, the Window Rock Unified School District is cutting about $7 million from a $24 million budget; it let 14 employees go and shrunk to four buildings from seven. The United States attorney for North Dakota, Timothy Purdon, has warned tribes that sequester cuts could jeopardize public safety. Furloughs at the Justice Department, he said, could reverse the recent gains in the number of federal prosecutions of crimes in Indian country.

Byron Dorgan, the retired United States senator from North Dakota who founded the Center for Native American Youth, demanded in an Op-Ed article in The Times that Congress hold hearings to examine its broken treaty promises and develop a plan for restitution. He said it should exempt Indian country from sequestration. He is right. Where the deficit zealots see virtue, we see moral failure.

The next time any Republicans get pious about their party’s respect for life and the rule of law, someone should ask: What about Pine Ridge?

Dilma cede à pressão dos ruralistas e rifa os direitos indígenas, diz antropóloga da USP (Folha de S.Paulo)

14/07/2013 – 00h45

RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das mais influentes estudiosas da questão indígena no país, acusa a gestão Dilma Rousseff de promover um desenvolvimentismo de “caráter selvagem”, sem “barreiras que atendam a imperativos de justiça, direitos humanos e conservação”.

Para ela, Dilma “parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos”.

Após citar “uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios”, ela chama a atenção para um projeto de lei –alçado ao status de urgência “com o beneplácito do líder do governo”– que permitiria o uso de terras indígenas para diversas finalidades, da construção de hidrelétricas à reforma agrária. “Se passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas”, diz.

Outro alerta é para a proposta que tenta tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações, passando atribuições ao Congresso. Isso, diz, fará com que a demarcação “deixe de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico e passe a ser exclusivamente político”.

Professora titular aposentada da USP e emérita da Universidade de Chicago, Cunha também tem críticas ao Judiciário. Ela fala numa “tendência crescente e preocupante” de paralisar processos de demarcação em seu início. E estima que, hoje, 90% das terras em fase de demarcação estão judicializadas.

Marcelo Justo-12.jul.13/Folhapress
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo

Folha – O que distingue o governo Dilma dos anteriores na questão indígena?

Manuela Carneiro da Cunha – Já disse em outra ocasião que neste governo a mão direita e a mão esquerda parecem se ignorar. A esquerda promove uma maior justiça social; a direita promove um chamado desenvolvimento sem qualquer limite.

O problema não é o desenvolvimentismo em si, mas seu caráter selvagem: a ausência de barreiras que atendam a imperativos de justiça, de direitos humanos, de conservação. Custos humanos e ambientais não estão sendo considerados.

Assiste-se agora a uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios. São vários projetos que destroem garantias que a Constituição de 1988 assegurou. E a União, que é a tutora, portanto a protetora dos direitos indígenas, não se ergue contra isso.

A própria AGU (Advocacia-Geral da União), que se pautava por uma tradição de defesa dos direitos indígenas, se aliou à bancada ruralista quando editou a infeliz portaria 303 (norma que estende para todas as demarcações as 19 condicionantes criadas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, de Roraima).

Como interpretar as recentes ações do governo?

Adotando uma interpretação caridosa, eu diria que o governo cede a pressões dos ruralistas, e rifa os direitos indígenas em troca de apoio.

Assim, na última quarta deu-se uma manobra escandalosa na Câmara: aprovou-se colocar em votação por acordo de líderes, e com o beneplácito do líder do governo, o regime de urgência para o Projeto de Lei Complementar 227/2012, que regulamentaria o parágrafo 6 do artigo 231 da Constituição, aquele que trata das terras indígenas.

O que significa?

Esse parágrafo abre uma exceção nos direitos de posse e usufruto exclusivo dos índios quando se tratar de relevante interesse da União.

O projeto, de autoria do vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura, pretende definir o que seria relevante interesse público da União. É assombrosa essa definição: praticamente tudo nela cabe. Permitiria que em terras indígenas passassem estradas, oleodutos, linhas de transmissão, hidrelétricas, ferrovias.

Permitiria que se concedessem áreas a terceiros em faixas de fronteira, que se mantivessem posseiros, agrupamentos urbanos, assentamentos de reforma agrária e até novos assentamentos. Permitiria que se mantivessem todas as terras sob domínio privado quando da promulgação da Constituição de 1988.

Permitiria tudo?

Esta cláusula seria o equivalente da anistia que os ruralistas conseguiram no Código Florestal. Mas dessa vez não se trataria de escapar de multas e de ter de recompor paisagens degradadas. Seria legalizar e perpetuar o esbulho. Se uma lei como essa passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas.

As condicionantes do STF e a portaria da AGU que a senhora citou foram muito criticadas por indígenas e antropólogos. Quais são os problemas?

Várias dessas condicionantes surgiram como uma forma de permitir um consenso entre os ministros do STF em relação ao caso Raposa Serra do Sol. Quando a Advocacia-Geral da União quis estender a outros casos essas condicionantes, que ainda dependem de uma análise mais aprofundada do próprio Supremo, e que foram estabelecidas para aquele caso concreto, ela tentou consolidar abusivamente uma interpretação desfavorável aos índios.

Cite um exemplo

Um exemplo é a alegada proibição de ampliação de terras indígenas. Essa condicionante se referia ao caso da Raposa, cuja demarcação havia sido validada pelo tribunal: não caberia ampliação de uma área recém demarcada. Quando se aplica essa mesma condição às terras guaranis, demarcadas em outro contexto, décadas atrás, fica evidente o absurdo. Nesse sentido, a portaria 303 é muito grave, pois denota uma intenção evidente de prejudicar os direitos indígenas em favor de interesses econômicos, contrariando toda a história da própria AGU, que sempre se destacou na defesa desses direitos.

O governo quer envolver a Embrapa, entre outros órgãos, nos processos de demarcação. Para alguns, há uma tentativa de enfraquecer a Funai. Qual a opinião da senhora?

A presidenta parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos. Esse bloco se opõe ferozmente à demarcação e à desintrusão (retirada de invasores) das áreas indígenas.

Marta Azevedo (presidente da Funai que deixou o cargo em junho) anunciou desde sua posse que daria prioridade à situação nas regiões onde se concentram os interesses dos fazendeiros. Foi um feito no ano passado conseguir a desintrusão, após 20 anos, da área Xavante Marãiwatsede. Com isso, cutucou-se a onça com vara curta.

Há vários modos da mão direita do governo enfraquecer a causa dos índios. Uma é retirando atribuições da Funai. Outra é deixando-a sem dinheiro. E outra ainda é colocando como presidente alguém a serviço de outras agendas.
Corre o boato de que o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que firmou sua carreira política como presidente da Funai e cuja atuação foi muito criticada, gostaria de colocar no posto uma pessoa sua.

Ganha força no Congresso a ideia de tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações. Que tal?

Se a PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição) for aprovada, acabarão os processos de demarcação de terras indígenas, pois os direitos dessas minorias serão submetidos aos jogos de poder de todos os grupos de interesse representados no Congresso Nacional, sobretudo à poderosa bancada ruralista.

Seria colocar a raposa para cuidar do galinheiro. A demarcação deixa de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico, como é hoje, e passa ser exclusivamente política.

Mas o Projeto de Lei Complementar 227/2012 (que define bens de interesse da União para fins de demarcação) é muito mais grave. É um rolo compressor esmagando a Constituição Federal.

Em que medida o Poder Judiciário é corresponsável pela demora nas demarcações e pelos conflitos?

Estima-se que que pelo menos 90% das terras em processo de demarcação estão judicializadas. As demoras são às vezes absurdas. No sul da Bahia, o caso Pataxó levou quase 100 anos para ser julgado pelo STF. No Mato Grosso do Sul existem casos que estão há mais de 30 anos em processos judiciais.

Há uma tendência crescente e preocupante do Judiciário de paralisar processos de demarcação administrativa logo em seu início, com base na simples apresentação de títulos de propriedade dos fazendeiros. Teses que há alguns anos atrás não vingavam, por não serem condizentes com a Constituição, começam a ganhar espaço no Judiciário.

Isso tem atrasado muitos processos demarcatórios, em todas as regiões do país, e contribuído para aumentar o grau de conflito em muitos casos. É o que vem ocorrendo no Mato Grosso do Sul.

Justiça que tarda não é justiça. No caso dos guaranis e caiovás do Mato Grosso do Sul, há gerações inteiras que nunca puderam viver sua cultura. A organização social tradicional não tinha como ser mantida, costumes e rituais ligados à cultura do milho não puderam ser realizados. Isso não seria etnocídio?

Há relação entre a morte de um terena no Mato Grosso do Sul por forças policiais numa reintegração de posse de uma área já declarada indígena e os protestos de mundurucus em Belo Monte, no Pará?

Nos dois casos, a Polícia Federal atuou contra os índios, e isso é inédito. Mas a relação é mais profunda.

No Mato Grosso do Sul consumou-se um esbulho de terras que vitimou em particular os terenas e os caiovás. Estes, aliás, em situação muito pior do que a dos terenas. Esse mesmo processo, que já estava em vigor no chamado arco do desmatamento, no norte de Mato Grosso e sudeste do Pará, está agora atingindo o sudoeste do Pará e do Amazonas, ou seja, o Tapajós, onde vivem os mundurucus.

Em suma: os mundurucus podem bem ser os caiovás e terenas de amanhã. E os caiovás têm uma média de 0,5 hectare por família (índice considerado abaixo do mínimo necessário para a própria subsistência).

O governo anunciou que vai indenizar fazendeiros em Sidrolândia (MS) que estão em área já declarada de terenas. Antes, as autoridades diziam que não havia respaldo legal para esse tipo de solução. O que mudou?

Não se trata de comprar terras, mas de indenizar os detentores de títulos de propriedade que, décadas atrás, foram irregularmente emitidos pela União.

Os títulos eram irregulares na medida em que incidiam sobre terras indígenas. Portanto, não se aplica a todas as áreas onde exista conflito com particulares, mas só naquelas onde a União está na origem do conflito, repassando terras indígenas a terceiros.

Para isso não é necessário mudar uma vírgula da legislação vigente. Depende apenas da consolidação de um entendimento jurídico pela AGU e de vontade política de desembolsar os recursos.

O que o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) anunciou é a possibilidade de usar recursos do Tesouro para compensar por títulos de boa fé que alguns fazendeiros possuem em terras que estão judicializadas no Mato Grosso do Sul.

Os Estados também emitiram títulos sobre terras indígenas, e muito. No Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade a criação de um fundo para compensar em dinheiro títulos de boa fé em terras indígenas. É uma solução semelhante à que o governo federal está propondo. Mas o fundo do Mato Grosso do Sul não tem um tostão. No caso da União, já há uma emenda parlamentar aprovada que destina R$ 50 milhões para acordos.

O importante agora é priorizar os casos mais dramáticos que envolvem os caiovás. E impedir o favorecimento de grandes fazendeiros e a abertura de uma nova indústria de indenizações, que já sangrou o Tesouro na década de 80.

Gilberto Carvalho também disse que o Brasil está prestes a deixar a lista dos países acusados de desrespeitar a Convenção 169 da OIT, documento que prevê consulta prévia aos indígenas antes de decisões que possam afetar seus direitos, como a construção de hidrelétricas. Há motivo para comemorar?

A Secretaria Geral da Presidência vem fazendo um trabalho admirável dentro do governo, tentando promover a regulamentação da consulta prévia aos povos indígenas, como determina a Convenção 169. Mas falta combinar com o restante do governo, que age em sentido contrário.

Veja o caso da implantação de hidrelétricas goela abaixo dos povos indígenas no Tapajós: o governo diz que quer consultá-los sobre o complexo de hidrelétricas, mas ao mesmo tempo já marca data para o leilão e inclusive para a emissão da licença ambiental das que ele considera principais. Que consulta é essa?

Uma verdadeira consulta se dá nas comunidades -e não só com as lideranças ou organizações indígenas-, no tempo delas e em língua que elas entendam e possam se expressar. E não pode ser uma atividade pontual, e sim um processo que acompanhe todas as fases do projeto.

Se está tudo decidido de antemão, vai-se consultar os índios sobre o que? Se querem bolsa-pescado ou tanques de piscicultura depois que os peixes do rio sumirem? A cor da parede da barragem?

Houve um aumento significativo da população indígena entre 1991 e 2000, conforme os Censos desses anos. Mas de 2000 a 2010, o crescimento foi proporcionalmente menor do que na população em geral. Alguma hipótese para essa “volatilidade demográfica”?

Os demógrafos explicam esse fenômeno. A categoria “indígena” surgiu no Censo de 1991. Até então a maioria dos índios se declaravam pardos, e muitas vezes também negros ou brancos. Em 1991 e em 2000, houve uma grande migração: muitos que se declaravam anteriormente pardos passaram a se declarar indígenas.

Isso provavelmente incluía o que (o antropólogo) Darcy Ribeiro chamou de “índios genéricos”, aqueles que, sendo descendentes de índios, não viviam em aldeias nem conheciam os povos a que pertenciam seus pais ou avós. É o que explicaria 60 mil pessoas que se declararam indígenas em São Paulo no Censo de 2000.

Já no Censo de 2010, é possível que o fato de se perguntar também a etnia e a língua indígena que se falava tenha inibido a auto-declaração desses descendentes de índios. Uma parte da variação resultou, portanto, do próprio Censo.
Mas, desde 1991, observa-se um crescimento demográfico maior da população indígena do que aquele da população não indígena.

O crescimento entre 1991 e 2000 foi da ordem de 3,5% ao ano em média, e o ocorrido entre 2000 e 2010 foi também dessa mesma ordem. Mas mantem-se um diferencial na mortalidade infantil: os indígenas ainda possuem uma taxa de mortalidade infantil muito maior do que aquela verificada entre os negros e brancos e amarelos.

A ideia, como princípio, de que o índio tem direito à terra nunca foi muito questionada no Brasil, conforme a senhora mesmo já disse. A Constituição não só consolidou esse entendimento como estabeleceu prazo de cinco anos para todas as demarcações. Por que isso não foi resolvido até hoje?

A legislação colonial e todas as constituições do Brasil sempre reconheceram os direitos dos índios a suas terras. Mas uma coisa é o princípio, outra sua aplicação. Na fábula clássica, o lobo encontra justificações sucessivas para devorar o carneiro. É que, como diz La Fontaine (escritor francês do século 17), “a razão do mais forte é sempre a melhor”.

Estamos assistindo a um remake do Brasil passado, como se o século 20 nunca houvesse existido. Voltamos a ser exportadores de commodities, voltamos a explorar riquezas sem consideração pelos custos humanos e ambientais. E voltamos também ao expediente dos séculos 16 e 17: afirma-se o princípio, mas abrem-se exceções que o tornam inócuo.

É o que tenta fazer o Projeto de Lei 227/2012: define o relevante interesse da União com tal latitude que as garantias constitucionais dos índios se tornam letra morta.

A explosão do ódio (Carta Capital)

Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano

Por Márcio Sampaio de Castro — publicado 06/07/2013 06:47, última modificação 06/07/2013 06:54
NeonazistaNeonazista em manifestação na Alemanha. Wikimedia Commons.

Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.

A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.

Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.

Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?

Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.

CC: Quais as alternativas para isso?

AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.

CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?

AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.

CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?

Adriana Dias: A partir de uma disciplina que cursei na Unicamp, em 2002, na graduação, onde se discutia a negação do holocausto, tive a ideia de fazer um trabalho para conhecer um pouco os grupos neonazistas brasileiros. Como sou programadora, criei uma aranha de busca e percebi que estava entrando em um mundo muito grande. No início, eram apenas 7500 sites, em 2009 já eram mais de 20 mil. Existem também os blogs, que cresceram 450% nesse período, e as redes sociais.

CC: Quais as características desses sites?

AD: São compostos por páginas profundas, com diretórios dentro de diretórios. Nos diretórios mais profundos encontramos incentivos ao genocídio e assassinatos. Muitos deles são de origem norte-americana. Fazem apologia ao número 88, já que o H é a oitava letra do alfabeto e duplicado faz referência ao Heil Hitler. Uma frase muito comum de ser encontrada é o “nós devemos assegurar um futuro para as crianças brancas”, o slogan de 14 palavras inspirado em uma passagem do Mein Kampf, livro escrito por Hitler. Da combinação desses dois números, temos o 14/88, que é uma saudação. Muitos membros nos fóruns de internet se utilizam desses números como nicknames associados a nomes nórdicos. Coisas como Odin88 ou Thor 14/88.

CC: Por que esta forte influência dos sites norte-americanos?

AD: Eu fiz a minha pesquisa em inglês, espanhol e português. Os grandes pensadores do movimento estão nos EUA e um dos principais deles foi o David Lane, que morreu na prisão em 2007. O movimento surge muito forte lá por que a questão racial é muito dura entre eles. Esse lado mais duro permite a expansão desses pensamentos, ao lado do conceito de liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, esses sites são legais. É um discurso público e consequentemente é mais fácil de reproduzi-lo. Só que para mim, a liberdade de expressão se interrompe quando chega à dignidade humana. Representar outro ser humano como animal ou como um demônio está muito além da liberdade de expressão.

CC: A ligação com movimentos estrangeiros tem crescido?

AD: Já houve casos de grupos brasileiros serem rejeitados por serem sul-americanos, mas nos últimos tempos esta visão tem mudado e o ideário da raça branca tem aproximado esses grupos ao redor do mundo.

CC: O jornalista espanhol Antonio Salas, autor de O Diário de Um Skinhead, se infiltrou em grupos neonazistas. A senhora chegou perto de ter alguma experiência deste tipo?

AD: Antonio Salas produziu um trabalho heroico, se fazendo passar por um neonazista para conhecer estes grupos a fundo. Atualmente, ele tem que se manter oculto, pois é ameaçado de morte em 16 países. Eu pesquiso os sites e fóruns. Conheço perto de 500 desses fóruns e muitos funcionam como páginas de relacionamentos, mas os mais representativos chegam a um número de 12. Eles se dividem por temáticas, como o Fórum Verde, sobre ecologia, o Solar General, sobre religiosidade e o Movimento Cristão Identitário, que é protestante radical de direita e que tem a plataforma de criar um estado branco dentro dos EUA.

CC: Em sua pesquisa, o que mais chamou a atenção?

AD: A quantidade de ódio, a idolatria ao ódio. A ideia de achar que ele estrutura a personalidade. Eu, que tenho uma formação humanista, posso dizer que fiquei chocada com isso. Outro aspecto é a crença na noção de sangue que ultrapassaria a substancialidade. Ou seja, o sangue não seria material, estaria na alma. Isto explica por que entre eles a nação, tal qual nós a concebemos, não existe. O que existe é a nação racial. Por isto, é preciso destruir os movimentos populares, que estão associados a outra concepção de nação. Por fim, me chamou a atenção a facilidade para encontrar inimigos. Eu, como antropóloga, não acredito em raças, somente na raça humana, mas para eles, o casamento chamado de inter-racial, por exemplo, é considerado um genocídio.

CC: E no Brasil?

AD: No Brasil, existe o discurso separatista, que traz elementos complicadores.

CC: Como assim?

AD: Cada um quer uma coisa. Veja o caso do (Ricardo) Barollo, que mandou matar o (Bernardo) Dayrell, em 2009, no Paraná. Eles estavam lutando pela liderança do movimento no país, mas o que cada grupo defende a seu modo é a separação de São Paulo ou dos estados do sul do restante do Brasil. Nessas explosões de ódio, que mencionei há pouco, é exigido que eles ataquem os inimigos. Aliás, um dos critérios para aceitar um novo membro é que ele cometa uma violência contra um inimigo. Os grupos neonazistas têm matado e agredido gays em São Paulo, na região da rua Augusta, e ninguém fala nada. A polícia não faz nada. Já conversei com policiais que não consideram crime um indivíduo portar uma suástica bordada na blusa.

CC: Somente os gays?

AD: Não. Atacam bolivianos, negros, gays, nordestinos, judeus e depois relatam nos fóruns. Eles são organizados. Possuem inclusive estratégias de defesa. Muitos, quando são pegos, alegam loucura. São estratégias previamente montadas e as autoridades, por sua vez, não dão importância.

CC: Isto seria em função da cultura brasileira de deixar as coisas acontecerem para depois tomar uma atitude?

AD: Não, não acho. Acontece que no Brasil as minorias não têm importância e é por isso que ninguém faz nada.

Outono Indigena. Entrevista especial com Jorge Eremites de Oliveira (Envolverde)

17/6/2013 – 07h29

por Redação do IHU On-Line

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Foto: racismoambiental.net.br

“O governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do desenvolvimento econômico a qualquer custo e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras”, diz o historiador.

“A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Ao citar o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, o historiador Jorge Eremites de Oliveira lembra que “este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses”.

Ao comentar os conflitos entre indígenas e ruralistas e as frequentes manifestações em todo o país, ele assegura que “na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da OIT”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, aponta ainda que a “política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes”. E dispara: “A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais”.

Jorge Eremites de Oliveira é professor de Antropologia Social e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. É licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, mestre e doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Foi pesquisador colaborador junto ao Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos e trabalhou como professor universitário em Mato Grosso do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nos últimos anos, indígenas de várias regiões do país manifestam sua indignação com a política indigenista e com o modelo desenvolvimentista do governo federal. Trata-se de uma crise específica, conjuntural, ou não? Como descreve tais manifestações?

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Foto: http://www.diarioliberdade.org

Jorge Eremites de Oliveira – O atual modelo desenvolvimentista adotado pelo governo brasileiro é baseado no paradigma do crescimento econômico a qualquer custo e isso, obviamente, tem reflexos negativos na política indigenista oficial. Trata-se de um modelo que sistematicamente viola os direitos elementares dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de classes sociais em situação de vulnerabilidade. O resultado disso é a existência de crises estruturais, com particularidades em cada região do país, dependendo da conjuntura local. Daí compreender a grande insatisfação e indignação dos povos indígenas para com o governo central e seus aliados, seja por conta da construção de hidrelétricas, seja por conta da não regularização de terras de ocupação tradicional ou outro motivo.

Conflitos no MS

O que estamos observando em Mato Grosso do Sul, onde há a segunda maior população indígena no país, assim como em outros estados, é uma espécie de Outono Indígena, em alusão à Primavera Árabe iniciada em fins de 2010. Refiro-me a um levante dos povos originários em defesa de seus direitos, sobretudo do direito às terras de ocupação tradicional. Assim o fazem como último recurso para garantir sua existência física e cultural, haja vista que não abandonaram seus territórios por livre e espontânea vontade, pelo contrário. Foram e têm sido vítimas de violentos processos de esbulho, não raramente com o uso da força e o assassinato de muitas de suas lideranças.

Na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, adotada em Genebra em 1989, da qual o Brasil é signatário e a ratificou internamente.

Demarcação de terras

Eis o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Lei Maior: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses. As consequências disso têm sido nefastas para muitos povos originários e afronta os artigos 231 e 232 da Carta Constitucional. Não é por menos que a bancada ruralista e seus aliados no Congresso Nacional querem mudar o texto constitucional com a PEC 215/2000, motivo de recentes protestos feitos naquela casa pelo movimento indígena. Se isso vier a acontecer, será um grande retrocesso.

No caso dos Terena de Buriti, e de tantas outras comunidades indígenas, quero explicar que eles tinham a posse da terra, mas não tinham o título de propriedade. A titulação da terra a favor de terceiros ocorreu em períodos mais recentes de nossa história, nos quais apenas as elites políticas e econômicas tinham seus direitos assegurados pelo Estado. Mas eram exatamente elas, claro, que controlavam a máquina estatal, inclusive, por exemplo, o departamento de terras do governo de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. De lá saíram muitos títulos de propriedade sobre terras indígenas não regularizadas, tidas como terras devolutas, localizadas no antigo sul do estado, atual Mato Grosso do Sul.

A expulsão das comunidades indígenas não se deu unicamente pela ação de fazendeiros e seus comandados. Esbulhos também foram perpetrados com a conivência e o apoio de agentes do próprio Estado, inclusive da agência indigenista oficial, conforme comprovado em muitos documentos disponíveis em seus arquivos. Na maioria das vezes, autoridades governamentais tomaram ciência do ocorrido e nada fizeram para intervir nos conflitos. Este é o caso do que ocorreu com os Kaiowá de Panambizinho, no município sul-mato-grossense de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), quando houve a Marcha para Oeste e a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados.

Situação semelhante também aconteceu com os Kaiowá de Ñande Ru Marangatu, no município de Antônio João, no mesmo estado, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Eles também foram expulsos de grande parte de seu território entre fins da década de 1940 e começo da de 1950, sendo que o órgão indigenista oficial recebeu denúncia formal sobre o ocorrido e nada vez para apurar os fatos e reverter a situação.

Por razões dessa natureza é que o Estado brasileiro culmina por ser coautor de muitos crimes cometidos no passado e no presente contra os povos originários. E não me refiro, bem entendido, aos tempos de Cabral ou dos portugueses que o sucederam no período colonial. Definitivamente não é isso. Refiro-me, principalmente, a processos de esbulho ocorridos a partir da primeira metade século XX, mas que ainda hoje são praticados no país. Esta questão precisa ficar cristalina porque o direito não foi feito para atender a demandas de povos abstratos e relegados a temporalidades coloniais ou pré-coloniais. Existe para atender a necessidades das sociedades contemporâneas, de seres humanos reais, de carne e osso, dentre os quais estão aqueles cujos antepassados chegaram a essas terras há pelo menos 12 mil anos.

Terra indígena de Buriti

Esta situação é muitíssimo bem conhecida para Mato Grosso do Sul e outros estados. Foi ali, precisamente no município de Sidrolândia, no dia 30-05- 2013, que o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi assassinado. Ele portava um pequeno arco e algumas flechas, e isso era mais um sinal diacrítico de sua indianidade e disposição de lutar pela terra do que uma arma. Por outro lado, policiais federais portavam armas de fogo com munição letal e as usaram contra os Terena. Os agentes estavam ali para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse, referente a uma propriedade existente dentro da Terra Indígena Buriti, já identificada, delimitada e periciada como tal.

A tragédia ocorreu porque os Terena resolveram fazer o que o próprio Estado não fez desde a década de 1920: regularizar aquela terra e garantir que seja de usufruto exclusivo e permanente da comunidade, segundo seus usos, costumes e tradições. Ocorre que no começo da década de 1930 uma comissão terena foi ao Rio de Janeiro, então a capital federal, denunciar o processo de esbulho que sofriam e solicitar providências para a garantia de seus direitos territoriais. De lá para cá já se passaram quase um século e nada foi feito de efetivo. Não é de se estranhar, portanto, que tenham decidido, como último recurso, retomar parte de suas terras devido à situação de vulnerabilidade dos cerca de 2.500 indígenas que ali vivem confinados em 2.090 hectares.

Até agora foram mais de duas centenas de lideranças indígenas mortas apenas em Mato Grosso do Sul. Muitos crimes não foram devidamente investigados, tampouco houve o julgamento e a condenação dos assassinos e seus mandantes. O que aconteceu em Sidrolândia com Oziel Gabriel foi, portanto, o mesmo que aconteceu no estado com Marçal de Souza, Guarani morto em 1983 na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, e com Marcos Verón, Kaiowá assassinado em 2003 na Terra Indígena Takuara. Naquela parte do Brasil, e em tantas outras, os índios são vistos e tratados pela maioria da população regional como estrangeiros não humanos e, por extensão, como um estorvo e um obstáculo ao progresso. A lei que ali impera ainda é, como aprendemos a dizer desde criança, a do 44, chamada “Justiça de Mato Grosso” (do Sul e do Norte). Não se trata de lei alguma, senão do calibre da arma de fogo com que se fazia justiça desde muito tempo na região, segundo é conhecido na historiografia regional. A violência é, com efeito, uma marca fortíssima na história de Mato Grosso do Sul.

Desenvolvimentismo

No que se refere ainda ao modelo desenvolvimentista atual, cumpre explicar que ele (re) surgiu após o fim da ditadura militar (1964-1985) e a promulgação da Constituição Federal de 1988. Saíamos de um regime de exceção, também marcado pelo fracasso do “milagre econômico brasileiro”, e testemunhávamos o reordenamento do papel do Estado nacional e as tentativas de retomada do crescimento do país. Isso ocorreu e tem ocorrido dentro de um contexto maior, ligado à mundialização do capital. Nesse cenário ocorrem concomitantemente o deslocamento de investimentos e atividades produtivas e a polarização da riqueza, conforme apontado pelo economista francês François Chesnais.

Por isso a maior parte da riqueza fica para países localizados no hemisfério Norte, onde o consumismo é enorme e precisa ser atendido, ao passo que para países do hemisfério Sul há a transferência dos impactos negativos desses investimentos e atividades produtivas. Nesta parte meridional do planeta, onde vivemos, estão países com jovens democracias, economias em crescimento e uma história marcada por ditaduras e políticas colonialistas, como é o caso do Brasil. É exatamente aqui onde existem classes sociais e minorias étnicas em situação de maior vulnerabilidade as que mais sofrem com tudo isso.

Esta situação é percebida no caso da construção de usinas hidrelétricas como a de Belo Monte, cuja existência é justificada pelo sofisma do desenvolvimento sustentável. Nesse caso específico, o que se viu até agora foi um conjunto de procedimentos irregulares ligados ao licenciamento ambiental de uma grande usina hidrelétrica. Exemplo disso é o fato de as comunidades indígenas afetadas direta e indiretamente pelo empreendimento não terem sido prévia e devidamente consultadas sobre o projeto. Essa é uma exigência legal, conforme determina a Convenção n. 169 da OIT. O paradoxal disso tudo é saber que este projeto foi concebido durante a ditadura militar e tem sido executado de maneira arbitrária e violadora de direitos humanos nos dias atuais.

Existem até projetos para construção de hidrelétricas no Pantanal, onde empreendimentos desse tipo causarão enormes e irreversíveis prejuízos socioambientais, tanto à bio quanto à sociodiversidade da região.

Para finalizar esta não muito curta explicação inicial, diria que para barrar o Outono Indígena será preciso cometer mais violência contra os indígenas. Mas representantes do movimento ruralista têm demonstrado disposição e ousadia para isso, inclusive com a possibilidade de contrabando de armas de fogo do Paraguai, conforme um fazendeiro de Paranhos, Mato Grosso do Sul, disse à imprensa em 2012. E foi no mesmo município que mais recentemente, no dia 12-05-2013, pistoleiros teriam feito emboscada e assassinado Celso Rodrigues, 42 anos, Kaiowá morador da Terra Indígena Paraguaçu, segundo noticiado pela imprensa.

Resolver esta situação conflituosa, assegurando aos povos indígenas seus direitos territoriais e outros garantidos em lei, é um dever do Estado e da sociedade nacional. Isso é necessário para corrigir erros do passado e consolidar um outro projeto de nação, onde também haja o devido respeito às diferenças étnico-raciais, religiosas, de gênero, orientação sexual etc. Ademais, o custo financeiro disso tudo será muitíssimo menor se comparado com a estimativa de 50,8 a 84,5 bilhões de reais correspondentes ao preço anual da corrupção no país. Isso sem falar no alto custo do legislativo brasileiro, um dos mais caros e menos eficientes do mundo.

IHU On-Line – Como a política indigenista foi construída e alterada ao longo da história brasileira?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, desde o período imperial até a promulgação da Constituição Federal de 1988, a política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes.

A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais. Parece não existir qualquer possibilidade de convivência com os Outros, os originários, senão acabando com eles ou deportando-os para algum lugar longínquo, lá no meio da Amazônia, distante da civilização e dos nossos olhares. É o que podemos concluir a partir das palavras de Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de direito e procurador do estado do Paraná: “O Estado e seu Direito não conseguem aceitar as diferenças sociais e as injustiças que elas engendram e, na maior parte das vezes, as omitem ou mascaram, ajudando sua perpetuação”. [1]

Entretanto, o fato é que a Constituição Federal de 1988 é um divisor de águas no reordenamento do papel do Estado em relação aos povos indígenas e a outros assuntos. Com o Capítulo VII (Dos Índios), Artigos 231 e 232, por exemplo, pôs-se fim ao paradigma integracionista que vigorava até então, embora ainda se faça presente em sentenças proferidas na Justiça Federal. Por esse motivo, julgo ser necessário citar o que diz o texto constitucional:

CAPÍTULO VII – “DOS ÍNDIOS”

Artigo 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

1. São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
2. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios, dos lagos nelas existentes.
3. O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivadas com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados das lavras, na forma de lei.
4. As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas são imprescritíveis.
5. É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso, garantindo em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
6. São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção do direito à indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
7. Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, 3 e 4.
8. Artigo 232 – Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo. [Destaques meus]

Embora a chamada Constituição Cidadã seja clara no que diz respeito a reconhecer as diferenças socioculturais e as terras das comunidades indígenas, torna-se contraditório qualquer ação unilateral do governo federal em querer integrá-las às economias regionais.

Por razões dessa natureza é que a Fundação Nacional do Índio – Funai é um dos piores e menos eficientes órgãos governamentais, pois sucessivos governos não deram a ela a devida atenção, exceto para ali colocar seus “afilhados” em cargos de confiança, desprestigiando funcionários de carreira. Isso explica o porquê da “questão indígena” nunca ter sido tratada como prioridades dentre as ações do Estado. Basta saber qual é o orçamento anual da Funai e entenderemos melhor o assunto.

IHU On-Line – Os dados acerca do território brasileiro destinado à ocupação indígena são controversos. É possível estimar que percentual das terras brasileiras é ocupado pelos indígenas e que percentual, por sua vez, deveria ser ocupado por eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Seria leviano de minha parte querer apresentar um percentual sobre o tamanho das terras indígenas no país, mas o fato é que a maior parte delas está na região amazônica. Conforme recentemente explicou o antropólogo João Pacheco de Oliveira, em entrevista concedida ao Estadão, naquela região há terras da União que não são destinadas apenas aos indígenas, mas também servem como áreas de preservação ambiental, algo que por si só é importante.

No caso de Mato Grosso do Sul, e de muitos outros estados, o que se vê é uma situação exatamente diferente. Ali há milhares de indígenas confinados em pequeníssimas reservas, como se fossem “ilhas” cercadas por fazendas e cidades, conforme avaliou o historiador Antonio Jacó Brand, falecido recentemente. Na Terra Indígena Dourados, por exemplo, onde há duas aldeias, Jaguapiru e Bororó, vivem por volta de 13.500 pessoas em pouco mais de 3.400 hectares.

Situações assim possibilitam entender melhor os conflitos pela posse da terra em certas regiões do país. Além disso, faz-se necessário deixar claro que não se podem ceifar direitos das comunidades indígenas que vivem em Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por exemplo, sob o pretexto de que “há muita terra para pouco índio” na Amazônia.

IHU On-Line – Há uma crítica recorrente de parte da sociedade de que os indígenas não precisam de tantas terras para viver. Qual a importância da terra para eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Mas aonde, afinal de contas, estariam tantas terras assim? Com certeza, faço questão de registrar amiúde que não seria em Mato Grosso do Sul. Diria mais: se não precisam de “tantas terras”, então o que muitos de nós desejariam é vê-los mortos? Aí, sim, talvez tivessem alguma terra, ao menos para serem enterrados. Talvez seja esta dedução a que podemos chegar diante de tanta contrainformação, preconceito e violência cometida contra os povos indígenas.

Portanto, não é de se estranhar que setores da imprensa sejam financiados com dinheiro dos cofres públicos e do agronegócio em certos estados brasileiros, especialmente onde os conflitos pela posse da terra são grandes e envolvem indígenas e ruralistas.

Para os povos indígenas a terra não é uma mera mercadoria e, por isso, não pode ser percebida pela lógica do agronegócio. Mesmo assim, não é verdade que nelas não se produz alimento algum. Na Terra Indígena Buriti, por exemplo, os Terena produzem alimentos em suas roças e quintais, criam diversos animais e fazem manejo agroflorestal, entre outras atividades produtivas.

Uma terra indígena pertence à União, e para os índios ela é de fundamental importância para sua reprodução física e cultural. Para sociedades como a dos Guarani e Kaiowá, a terra possui, ao mesmo tempo, um grande valor econômico e religioso, chegando a ser quase como um parente, conforme tem sido explicado pelo antropólogo kaiowá Tonico Benites. Sem ela não há como viver bem, segundo uma cosmologia particular, e para eles a luta pela terra também é a luta em defesa da família extensa, da qual a terra faz parte.

IHU On-Line – Como avalia a postura do Estado brasileiro em relação aos indígenas? Percebe uma tentativa de diálogo ou o governo cede a interesses econômicos?

Jorge Eremites de Oliveira – Em complementação ao que disse anteriormente, avalio que o governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do “desenvolvimento econômico a qualquer custo” e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras.

Nesta linha de raciocínio, diria que há poucas e tímidas tentativas de diálogo com o movimento indígena, haja vista que o governo tende a ceder a interesses econômicos pragmáticos e não a um planejamento estratégico de longo prazo, no qual os povos indígenas tenham seus direitos assegurados.

IHU On-Line – Quais foram os resultados da política de demarcações de terras indígenas e quais os desafios ainda presentes?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, temos avanços registrados após a promulgação da Constituição Federal de 1988, mas muito ainda precisa ser feito, especialmente em regiões onde o agronegócio é muito forte e o valor das terras, elevado. Este é o caso de Mato Grosso do Sul.

Ali um dos desafios colocados na pauta do dia diz respeito à indenização não apenas da benfeitoria, mas também da terra nua de propriedades que o Estado titulou a favor de terceiros. Isso garantirá a regularização mais rápida das terras indígenas, conforme tem sido apontado por lideranças do movimento ruralista e por indígenas. Como fazer sem mudar o Art. 231 da Lei Maior é que constituiu um desafio a ser enfrentando.

Após a regularização das terras indígenas, será necessário, aí sim, um conjunto de políticas públicas, concebidas para atender às particularidades de cada comunidade indígena visando, com isso, a construção de sua autonomia.

IHU On-Line – Entre as mudanças sugeridas recentemente pelo governo está a proposta, da ministra Gleisi Hoffmann, de que as demarcações das terras indígenas recebam pareceres da Embrapa. Como valia essa medida?

Jorge Eremites de Oliveira – Com o devido respeito, a referida ministra pouco ou nada conhece sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. Ela aderiu ao discurso e às propostas do movimento ruralista e isso sugere que tem a ver com suas pretensões de ganhar o governo do Paraná nas próximas eleições. Chega a ser um desserviço ao país e uma violência só conhecida nos tempos da ditadura militar. A Embrapa não tem competência formal para tratar do assunto, tampouco possui recursos humanos especializados para assim o fazer.

Salvo engano, a estratégia do governo federal, via Casa Civil, tem sido a de sistematicamente promover a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas, como se não houvesse clareza nesse processo. Neste último aspecto, vale registrar que, de um ponto de vista legal, a identificação e delimitação de terras indígenas tem que ser feito em observação ao Decreto n. 1.775 e à Portaria MJ n. 14, ambos de 1996. O primeiro “dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências”, e a segunda estabelece “regras sobre a elaboração do Relatório circunstanciado de identificação e delimitação de terras indígenas”.

Regularização de terras indígenas

Resumidamente, diria que no Brasil a regularização de terras indígenas passa por três processos, segundo alguns colegas já apontaram e escrevi em recente artigo: o político, o administrativo e o judicial.

O processo administrativo diz respeito à ação da Funai em constituir um Grupo Técnico (GT), sob a coordenação de um antropólogo, cujo estudo deve ser realizado em conformidade com o que determinam as leis citadas anteriormente. O resultado do estudo de identificação, quando aprovado técnica e politicamente pelo órgão, tem seu resumo circunstanciado publicado no Diário Oficial da União, o que garante a publicização dos atos.

O processo jurídico, por seu turno, está diretamente relacionado com o princípio do amplo direito de defesa, o qual assegura que as partes envolvidas no litígio (comunidades indígenas, fazendeiros, prefeituras etc.) apresentem, em caso de se sentirem prejudicadas, um contraditório ao estudo produzido pela agência indigenista oficial. Isso primeiramente deveria ser feito em um prazo de 90 dias e diretamente àquele órgão. No entanto, amiúde é feito em juízo e a partir daí é iniciado um processo judicial, no qual comumente os fazendeiros são autores e a União e Funai, rés. O mesmo princípio do contraditório, elementar para a garantia do Estado Democrático de Direito, garante a solicitação de outro estudo, independente do feito para a Funai. Trata-se de uma perícia judicial, solicitada pela Justiça Federal em atendimento às exigências do juízo ou ao pedido das partes. Durante a realização das perícias, as partes podem ter seus próprios experts, chamados de “assistentes técnicos”, os quais comumente atuam na elaboração de estudos (contralaudos) em defesa de quem os contratou.

O início e a conclusão do processo administrativo e, sobretudo, do processo judicial podem levar anos, às vezes décadas, sem que as comunidades consigam manter o usufruto exclusivo e a posse permanente das áreas reivindicadas, de onde normalmente foram expulsas em algum momento da história.

Por último, o processo político, em minha opinião o mais importante de todos, refere-se também às ações e estratégias políticas dos movimentos indígenas e seus eventuais aliados (ONGs indigenistas, Ministério Público Federal, pesquisadores, parlamentares etc.) para a completa regularização das terras de ocupação tradicional, inclusive nas instâncias do Judiciário.

Mas, enfim, o discurso oficial da Casa Civil é idêntico ao feito no regime militar para extinguir o antigo Serviço de Proteção ao Índio – SPI, em 1967, como se todo esse processo fosse algo desconhecido. E como disse o filósofo alemão Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. E é exatamente de uma farsa que estou falando.

IHU On-Line – Como avalia a declaração do secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, de, no futuro, a partir de uma mudança na legislação brasileira, ser possível a instalação de usinas hidrelétricas em terras indígenas, tendo como sócios do empreendimento os próprios índios, a exemplo do que já ocorre no Canadá?

Jorge Eremites de Oliveira – Esta é mais uma declaração que gera preocupação e insegurança jurídica aos povos indígenas, pois uma mudança na legislação brasileira, seguramente na Constituição Federal, será mais um retrocesso e uma forma de ceifar direitos conquistados recentemente.

IHU On-Line – Qual a melhor maneira de resolver os conflitos entre indígenas e não indígenas?

Jorge Eremites de Oliveira – Inexiste uma fórmula mágica para isso. Penso que tratar a “questão indígena” como uma das prioridades de Estado seria o primeiro passo. Se não for assim, os conflitos continuarão e, seguramente, mais vidas humanas serão ceifadas, em sua esmagadora maioria de indígenas. Quanto a isso não tenho dúvida alguma.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Jorge Eremites de Oliveira – Com a devida licença, registro aqui uma moção de apoio aos Terena e a outros povos indígenas no Brasil, aprovada pelo colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPel, onde trabalho.

MOÇÃO DE APOIO AOS TERENA DE BURITI E A TODOS OS POVOS INDÍGENAS QUE LUTAM POR SEUS DIREITOS TERRITORIAIS NO BRASIL

O colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, reunido no dia 7 de maio de 2012, considerando:

– que o Estado Brasileiro não cumpriu com o que determina o Art. 67 da Constituição Federal de 1988 [ADCT]: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Esta situação é conhecida para todo o território nacional e também explica o prolongamento e o acirramento de muitos conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses;

– que a política indigenista oficial tem sistematicamente violado os direitos dos povos indígenas, inclusive por meio do descumprimento de leis internacionais das quais o país é signatário. Este é o caso da Convenção nº 169 da OIT, de 1989, sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais, aprovada pelo Congresso Nacional em 2002 e promulgada pela Presidência da República em 2004. Exemplo disso é o que ocorreu durante o licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, quando os povos indígenas afetados pelo empreendimento não foram prévia e devidamente consultados sobre o projeto;

– que o Governo Federal, por meio da Casa Civil, tem sistematicamente promovido a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas. Esta postura é típica de regimes de exceção, gera insegurança jurídica aos povos indígenas e denota uma postura colonialista norteada pelos paradigmas da assimilação e do desenvolvimento econômico a qualquer custo, subordinando poderes constituídos na República a interesses do movimento ruralista e seus aliados;

– Que os estudos para a ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, localizada nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul, foram devidamente concluídos e publicados em 2001, constituindo-se em um ato administrativo perfeito. Além disso, respeitando o direito ao contraditório, a área foi objeto de perícia judicial que concluiu se tratar de terra de ocupação tradicional indígena, conforme estabelece o Art. 231 da Carta Constitucional;

– e que no dia 30 de maio de 2013 o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi morto por policiais enviados para a área de conflito para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse dentro da própria Terra Indígena Buriti. Naquele mesmo dia outros indígenas também foram feridos por policiais a servido do Estado Brasileiro. Posteriormente, no dia 04 de junho de 2013, o indígena Josiel Gabriel Alves, 34 anos, primo de Oziel Gabriel, foi baleado nas costas por pessoas identificadas pelos Terena como “pistoleiros” a serviço de fazendeiros da região, correndo o risco de ficar com sequelas neurológicas, vem a público manifestar seu apoio e solidariedade aos Terena da Terra Indígena Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil.

Nosso posicionamento se dá em defesa da vida humana, pela regularização das terras indígenas existentes no território nacional e em repúdio a qualquer tipo de violência cometida contra os povos e comunidades tradicionais no Brasil. Por este motivo, esperamos que a justiça haja com rigor na apuração dos crimes cometidos contra os Terena e defendemos o cumprimento dos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, bem como da Convenção 169 da OIT, sem os quais não é possível existir no país o Estado Democrático de Direito.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios (FSP)

09/06/2013 – 02h26

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE

Roseli Ruiz tem diploma de antropóloga e faz perícias em terras em litígio. Sua filha, Luana, dirige a ONG Recovê -“conviver”, em guarani. Mas ambas estão entre os mais ferrenhos defensores dos proprietários rurais de Mato Grosso do Sul na disputa de terras com indígenas.

“Fui invadida em 1998 e, no ano seguinte, fui fazer direito para entender esse desmando. No decorrer do curso detectei que o que estava fundamentando não era a legislação, e sim um relatório antropológico”, explica Roseli, que fez uma pós-graduação na Universidade Sagrado Coração, em Bauru (SP).

A propriedade fica em Antônio João (a 280 km ao sul de Campo Grande), na fronteira com o Paraguai, e tem 10 mil hectares. Uma parte minoritária está tomada por famílias guaranis-caiovás.

Com o tempo, conta Roseli, ela passou a fazer relatórios antropológicos em vários Estados, como Mato Grosso e Paraná. Seu próximo trabalho será na área da Raposa Serra do Sol, em Roraima.

A fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtoresA fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtores. Marlene Bergamo – 7.jun.2013/Folhapress.

Ela afirma que, em todos os estudos, não encontrou nenhuma terra indígena. Ela admite que algumas áreas indígenas precisam ser ampliadas, mas via indenização justa, “e não confisco”.

“Não é assunto para demarcação quando os índios foram retirados para colonização. Não se pode fundamentar em 1500. Senão, o prédio da Folha tem de ser desapropriado e entregue pra índio”, afirmou.

A antropóloga-fazendeira afirma que tem um bom relacionamento com os índios. “Na minha fazenda, do lado do Paraguai, temos uma aldeia. E, desde que nós mudamos, há 32 anos, quem socorre os índios sou eu. Quando ocorria uma picada de cobra, eles vinham na fazenda solicitar que fossemos buscar.”

Ao seu lado, a advogada Luana disse que a criação da ONG foi a solução encontrada para “nos legitimar e participar das reuniões e descobrir o que está acontecendo”.

A entrevista ocorreu durante uma carreata realizada pelos produtores rurais anteontem. Em certo momento, uma amiga cumprimentou Roseli brincando: “Não vai virar a casaca, hein?”.

*   *   *

12/06/2013 – 04h00

Presidente de associação contesta reportagem sobre índios

CARMEN RIAL
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA
DE FLORIANÓPOLIS (SC)

Esclarecemos que a mulher [Roseli Ruiz] objeto da reportagem “Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios” não é filiada à ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e que, conforme seu currículo Lattes, teria feito um curso “lato sensu” em antropologia, o que não equivale a um “diploma de antropóloga”.

Importa esclarecer que relatórios e laudos antropológicos são peças técnicas distintas, elaboradas por profissionais com formação acadêmica reconhecida e conhecimento etnográfico sobre o grupo ou a circunstância enfocados, impossíveis de serem elaborados em tempo exíguo e por profissionais sem a formação necessária. Sua atuação é incompatível com o nosso Código de Ética.

Survival condemns Steven Pinker’s ‘Brutal Savage’ myth (Survival International)

12 June 2013

Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon.Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon. © Fiona Watson/Survival

Survival International has launched a vigorous rebuttal of Harvard ‘evolutionary psychologist’ Steven Pinker’s claim that tribal people are more violent than state societies.

In articles published this week in US journal Truthout, and the UK-based OpenDemocracy, Survival International’s Director Stephen Corry accuses Pinker – once named by Time magazine as one of the world’s 100 most influential people – of ‘claiming scientific support for what is mere opinion by falsely charging contemporary tribal peoples with more or less unremitting villainy.’

Corry writes, ‘Pinker’s baldly stated facts shake and buckle under cross-examination’. He accuses Pinker of: omitting facts which don’t fit his argument; getting many of his facts wrong; citing only those experts who agree with him; and ignoring the many others who don’t.

Starting with the first example in Pinker’s recent book ‘The Better Angels of Our Nature’ – the 5,200-year-old ‘Iceman’ named Ötzi – Corry reveals how Pinker’s suggestion that he was killed in a clash with another tribe is implausible. Corry goes on to expose countless other errors in Pinker’s supposedly ‘scientific’ argument, which has close parallels with the recent book ‘The World Until Yesterday’ by Jared Diamond.

Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia's armed forces.Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia’s armed forces. © Survival

‘The data presented by these authors [Steven Pinker and Jared Diamond] is at least contentious, where it’s not plain wrong. They go out of their way to portray tribes as ‘Brutal Savages’ … [For example], twenty percent of the data Pinker uses to categorize the violence of the entire planet’s tribal peoples (excluding ‘hunter-gatherers’) is derived from a single anthropologist, Napoleon Chagnon – whose data has been severely criticized for decades.’

Of Pinker’s principal declaration – that our ancestors (and today’s tribal peoples) were more violent than ‘civilized’ Western society – Corry concludes, ‘Pinker [believes] we are brutal savages until tamed by a nation state bringing peaceful civilization. As far as contemporary tribal peoples are concerned, it couldn’t be further from the truth: the arrival of the state unleashes a savagery second to none in its brutality.’

Read more about the myth of the ‘Brutal Savage’ and how some writers are pushing the view that tribal people are particularly violent.

Estudo mostra que cotas não são o melhor instrumento para facilitar o acesso ao ensino superior (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4741, de 06 de Junho de 2013.

Trabalho demonstra ainda que ações afirmativas podem encorajar a evasão e levar à redução da qualidade dos cursos mais competitivos

As cotas sociais ou raciais nas universidades não são o melhor instrumento para facilitar o acesso ao ensino superior, não garantem que os alunos cotistas tenham o desempenho esperado, além de encorajar a evasão e levar à redução da qualidade dos cursos mais competitivos. As conclusões são do estudo “Ações Afirmativas nas Universidades Brasileiras”, feito sob encomenda pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) e preparado por quatro especialistas na área de educação, os professores José Goldemberg, Eunice Durham, Maria Helena de Castro Guimarães e Simon Schwartzman.

O estudo foi apresentado hoje por José Eduardo Krieger e Regina Pekelmann Markus, presidente e diretora da Aciesp, respectivamente, e José Goldemberg, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação, em coletiva de imprensa no Centro Universitário Maria Antônia. Segundo Krieger, o estudo foi pedido porque há diversos aspectos que permeiam a questão do acesso dos alunos nas universidades públicas.

Uma das preocupações que o trabalho levantou é a formação educacional do cidadão até a entrada na universidade, que depende de diversas influências, como o ambiente familiar e a sociedade, além do Ensino Básico e Fundamental. Segundo o estudo, a educação no país requer uma reestruturação competente, que exigirá tempo e investimentos vultosos para que ela seja qualidade. “Este trabalho é importante porque nos traz dados que serão importantes para ampliar as discussões e tomadas de decisão”, afirmou Regina.

Para os autores do estudo, as cotas nas universidades introduzem um novo tipo de discriminação, como exemplo dos quais são a discriminação contra o branco pobre (em relação ao negro pobre) e contra o pobre (branco ou negro), cuja família economizou para mandar o filho à escola privada, para prepará-lo melhor para os vestibulares. “O critério ideal para a implantação de ações afirmativas deveria basear-se na renda per capita”, sugerem.

Eles reconhecem que a discriminação social ou racial no Brasil é real, mas não apenas no acesso às universidades públicas, e deve ser eliminada. “O problema é decidir como fazê-lo, sem prejudicar o desempenho das universidades públicas, cuja excelência é indispensável para o desenvolvimento do país”, escrevem nas suas conclusões. “A melhor solução a nosso ver é por meio de cursos preparatórios gratuitos para ingresso nas universidades, que utilizariam preferencialmente os alunos de pós-graduação como professores, e criando um sistema de bolsas de estudo para apoiar estudantes carentes.”

Para Krieger, enquanto isso não ocorre é preciso encontrar outras soluções para o problema, mesmo que paliativas para sanar as lacunas, sem prejudicar o que já está bom. “Em 30, 40 anos, sucateamos um sistema (de educação) que funcionava”, disse. “A educação de São Paulo já foi boa. Toda a minha formação foi feita em escola pública. E em tão pouco tempo tudo mudou. Hoje, eu não colocaria seu filho para estudar numa delas. A única coisa que não mudou foi a qualidade da USP.”

A professora Regina, salientou que é preciso que o governo faça investimentos, porque a universidade deve ser para todos. “Mas em que condições?”, indagou. “Por isso, é preciso dar condições para que todos tenham o mesmo acesso”. O ponto fundamental é a qualidade das universidades. “As decisões a serem implementadas não devem prejudicar o desempenho das universidades públicas, cuja excelência é indispensável para o desenvolvimento do país”, finalizou Goldemberg.

(Vivian Costa)

Fight Clubs: On Napoleon Chagnon (The Nation)

One anthropologist’s place in his field’s ongoing battle over questions of power, means and ends.

Peter C. Baker

May 15, 2013   |    This article appeared in the June 3, 2013 edition of The Nation.

In December 1919, Franz Boas, the German-born academic widely recognized as the father of American anthropology, published a letter in this magazine accusing four of his American colleagues—whom he did not identify—of having used their research positions as cover for engaging in espionage in Central America during the recently concluded war. Ten days later, the governing council of the American Anthropological Association voted 20 to 10 to censure Boas, claiming that his highly public letter was unjustified and in no way represented the AAA’s position. Boas was a founding member and former president of the association, so the censure was doubly humiliating; it essentially forced him to resign from both the AAA’s governing body and the National Research Council.

Noble Savages
My Life Among Two Dangerous Tribes—The Yanomamö and the Anthropologists.
By Napoleon A. Chagnon.

The Boas incident was the prelude to a century in which anthropology has been haunted by questions of means and ends. What sorts of alliances with power are worth it? What responsibilities (if any) do anthropologists have to the populations they study? Above all, to what extent has Western anthropology been fatally compromised by its associations—direct and indirect, public and covert—with a violent and imperial foreign policy? In several books, the anthropologist David Price has cataloged the substantial sums of money funneled from the military and intelligence community to academic anthropology over the years, as well as the contribution of American anthropologists to every significant war effort in modern US history. Most recently, ethnographers have joined the Army’s Human Terrain System program, designed to aid military operations in Iraq and Afghanistan by decoding the nuances of local culture. Price notes that although the revelation of these collaborations has often sparked heated short-term controversy, the disputes have passed without prompting broad, discipline-wide reform—or even conversation. After all, what anthropologist wants to spend time discrediting anthropology, a discipline that relies on trust, most importantly the trust of foreign governments and the subject populations that are the source of the discipline’s prized product of local knowledge? At what point are the ethical costs of doing anthropology too high, for ethnographers as well as the people they study?

That last question applies equally to anthropologists who may not work directly for the military or do fieldwork in areas explicitly labeled war zones. There is no better example than the career of Napoleon Chagnon, author of the bestselling anthropological text of the twentieth century, a slim volume called Yanomamö. Published in 1968, when Chagnon was 30, the book describes his fieldwork among the eponymous group of about 20,000 people who lived (and still live) in rainforest villages on both sides of the Venezuela-Brazil border. (Chagnon called them the Yanomamö, but most people who study the group call them the Yanomami.) Chagnon claimed—and now claims again in his recently published memoir, Noble Savages—that he arrived at his first Yanomami village in 1964 expecting to meet egalitarian natives living in harmony with nature and each other. This, he says, was what his University of Michigan anthropology professors had prepared him for. Instead, he found a way of life more reminiscent of Thomas Hobbes’s notion of the “state of nature”: an aggressive people mired in a cycle of inter-village combat, revenge begetting revenge and deception begetting deception. Death by murder was strikingly common, as was brutality toward women.

For Chagnon, the shock was immediate. No sooner had he and his guide arrived than they found themselves surrounded by “a dozen burly, naked, filthy, hideous men staring at us down the shafts of their drawn arrows! Immense wads of green tobacco were stuck between their lower teeth and lips making them look even more hideous, and strands of dark-green slime dripped or hung from their noses.” Whatever else might be said about this type of writing, with its blend of the lurid and the exotic, it appealed to American undergrads—or at least their professors assumed it did, and they kept assigning Yanomamö in Anthro 101. Before long, the book was in its second edition, then its third; a sixth came out last year. Chagnon has claimed, not unreasonably, that it has been read by as many as 4 million people, and it has certainly sold over 1 million copies. Unlike most other academic anthropologists, especially those writing in the 1960s, Chagnon brought lucidity and flair to his descriptions of fieldwork’s trials: the impossibility of staying clean and avoiding insects, the Sisyphean ordeal of trying to make a cup of oatmeal, the deep frustration of miscommunication, the loneliness. But it is obvious from reading Yanomamö that he also found the fieldwork to be a thrilling adventure. Trekking through the rainforest, a shotgun in one hand and a machete in the other; shooting tapir to roast over an open fire; building dugout canoes; forging friendships; tagging along for raids—Chagnon made cultural anthropology look more exciting than any textbook or tweedy professor’s lecture on kinship rituals. The book’s popularity has also benefited from the stylish films about the Yanomami that Chagnon made with the renowned visual ethnographer Timothy Asch.

In both the book and the films, there is a lot of fighting: chest-pounding matches, club fights, ax fights, raids, counter-raids, ambushes. Chagnon decided that Yanomami warfare was in large part about women, and specifically the question of who got to have sex with them. Women were regularly abducted from other villages during raids, and success in combat boosted a man’s social status, increasing his odds of securing wives for himself and his relatives. In order to reach this conclusion, Chagnon first constructed elaborate genealogies, tracing family trees across generations and far-flung villages to observe the relationship between blood ties and war patterns. This required not just learning the Yanomami language, but also overcoming his hosts’ frequent reluctance to supply the information he wanted. The most significant obstacle was a system of name taboos, including a prohibition against speaking a person’s name in that person’s presence and another against uttering the names of the dead.

The book was controversial from the start. Chagnon presented the Yanomami as a people living in the “state of nature,” untouched by the influence of modern civilization and nation-states, and so providing something of an undiluted example of humankind’s evolutionary ancestry. The possibility that these “primitive,” “Stone Age” people were killing each other not in competition over strategic resources, but specifically to improve their “reproductive fitness”—their odds of passing on their genes, either by reproducing themselves or by boosting the reproductive prospects of their relatives—was irresistible to proponents of the emerging field of sociobiology, which looks to natural selection to explain human social behaviors like altruism, the emergence of nation-states and war. The discipline’s recognition skyrocketed after the publication of E.O. Wilson’s influentialSociobiology: The New Synthesis in 1975; in subsequent editions of Yanomamö, Chagnon placed more emphasis on the role of biology in explanations of human behavior. For sociobiologists and their descendants, especially so-called evolutionary psychologists, such thinking was nothing short of a scientific revolution; for their detractors, among them cultural anthropologists, it was reductionist mumbo-jumbo at best, and politically dangerous at worst—the squeezing of the Yanomami and similar groups into categories crafted from Western assumptions to serve Western interests. The battles were heated and inseparable from competition over funding. The Yanomami became something of a prize token: for Chagnon’s defenders and critics, the fighting that occurred among this small group of people in the Amazon simply could not be what the other camp claimed it was, nor mean what the other side said it meant. Allegations of bad faith, often tinged with personal hostility, were as thick in the air as insects in the Amazon rainforest.

* * *

Even if the Yanomami are, or were, our “contemporary ancestors,” they live on land that is claimed by modern nation-states and happens to be rich in precious minerals. When the miners arrive, the Yanomami die, mostly from disease or poisonous chemical runoff, but sometimes also from shotgun blasts. During the 1980s and ’90s, anthropologists and indigenous rights groups became concerned about the possible effect that Chagnon’s theories might have outside the academy. This concern escalated after 1988, when Chagnon published an article in Science claiming that, among the Yanomami, men who killed other men also had the most wives and children. In 1989, the Brazilian Anthropological Association wrote to the AAA’s newsletter, arguing that Chagnon’s characterization of the Yanomami as a fundamentally “fierce people” (the subtitle of his book’s first three editions) was exaggerated to the point of falsehood, and less than helpful at a time when the Yanomami were under attack by miners and their allies in the Brazilian government, who were citing this supposedly endemic Yanomami violence as one of the reasons they should be segregated on twenty-one separate micro-reservations. As similar accusations circulated, it became increasingly difficult for Chagnon to obtain the permits required to do his work. In 1999, citing this obstacle, he announced his early retirement from the University of California, Santa Barbara, and returned to his home state of Michigan.

Around a year later, controversy about Chagnon’s Yanomami work reached a new level of scrutiny and public visibility, prompted by the publication of Patrick Tierney’s Darkness in El Dorado: How Scientists and Journalists Devastated the Amazon. Where previous Yanomami debates had rarely strayed beyond specialized academic venues, Tierney’s attack on Chagnon was published by W.W. Norton, a respected trade house, and garnered the attention of reviewers around the world. Tierney was at the time a journalist and indigenous rights activist; in Darkness in El Dorado, he took all the old complaints against Chagnon and wove them into a dramatic narrative of white men and the ruin they’d brought to the rainforest. His rogues’ gallery includes the French anthropologist Jacques Lizot, who for years used his store of foreign goods to pay Yanomami men and boys for sex. There was also the public television documentary crew that paid the Yanomami to dress and act differently (more “primitively”) than they otherwise would have—and then sat by, cameras rolling, while a young woman and her child died, despite having a motorboat that could have taken them to a hospital. There are miners and soldiers and corrupt politicians—and there’s Chagnon himself, whom Tierney portrays as the monomaniacal, violence-obsessed Colonel Kurtz of sociobiology, so entranced by the possibility of making a vital contribution to a beautiful, voguish theory that he lost all sight of Yanomami reality, research ethics and human decency.

In addition to rehashing—and, more than once, overcooking—the old accusations about Chagnon’s flawed assumptions, suspect methodology, dubious interpretations and their effects on the Yanomami, Tierney raised a new charge, one that seemed to dwarf the others in terms of its horror. The allegation related to a central aspect of Chagnon’s research program, one that had hardly been mentioned in his writings to date. The funding for Chagnon’s first few trips to South America came from the National Institute of Mental Health; but by 1967, Chagnon was collaborating with James Neel, a titan of modern genetics. Neel worked for the Atomic Energy Commission, the post–World War II agency created to study nuclear technology and its effects (including the infamous experiments in which Americans were exposed to large doses of radiation without their consent). As a geneticist, Neel saw the Yanomami as the closest link to our “evolutionary ancestors” he would ever get a chance to sample, an isolated population unaffected by industrialization or global conflict. Neel and Chagnon were both then based at the University of Michigan, and it was on Neel’s recommendation that Chagnon went to live with the Yanomami in the first place. Chagnon got AEC money; in return, whenever one of Neel’s teams wanted to collect blood and tissue samples, he served as their guide and translator.

* * *

Though Neel had little concern for the specifics of Yanomami life and (according to Chagnon) a disdain for anthropology in general, he sometimes went on the sample-gathering trips. On one, in 1968, a measles outbreak was erupting just as his team arrived. In the account presented in Darkness in El Dorado, Neel and his team—despite delivering a thousand vaccines—made the epidemic worse, causing many more Yanomami to fall ill and die than would have otherwise. This was not, Tierney insinuated in the pre-publication proofs of the book sent to reviewers, a matter of neglect; instead, Neel had knowingly made the epidemic worse because it gave him the perfect chance to observe the immune systems of a virgin-soil population in action. In this account, a founding figure of modern genetics comes across as little different from a Nazi scientist, with America’s bestselling anthropologist as his willing handmaiden.

After Norton sent out the proofs of Tierney’s book, his tale of killer anthropologists started circulating at great speed on academic listservs. It was a “nightmarish story,” wrote two of Chagnon’s longtime critics in August 2000, “a real anthropological heart of darkness beyond the imagining of even a Josef [sic] Conrad (though not, perhaps a Josef Mengele).” Chagnon’s partisans set in motion efforts to discredit Tierney’s book page by page, hoping to stem the inevitable tide of bad press. Allies like Richard Dawkins, Edward Wilson, Steven Pinker, Daniel Dennett and Marc Hauser e-mailed people covering the book, urging them to denounce it. In late 2000, an excerpt appeared in The New Yorker, and the book—though still not released—was nominated for a National Book Award. Meanwhile, Tierney and Norton continued editing it, softening some of its more incendiary claims about the measles epidemic; when released, it still claimed that Neel had made the epidemic worse, but allowed that it had not been intentional.

Sensing the possibility of a public relations disaster for the entire discipline, the AAA’s leadership convened a task force to evaluate Tierney’s charges. This was highly unusual: unlike a state medical or legal board, for example, the AAA is not a licensing body; you need not be a member of the association to practice anthropology. (Chagnon canceled his membership in the late 1980s.) It has little in the way of meaningful investigative authority, and its ethics guidelines are notoriously muddled and difficult to apply. The task force’s preliminary report, released in 2001 soon after the book’s publication, concluded that Tierney’s argument was shot through with flaws: the accusation that Neel had worsened the measles epidemic, as one example, was found to be baseless and not even possible. But many of Tierney’s less sensational, more complex charges against Chagnon were substantiated, and the task force declared that the book was of definite value to the field. This satisfied no one, not least because of an obvious procedural failing: two of the task force’s members admitted to not having read the whole report.

The final report, released a few months later, was considerably more critical of Chagnon. But for his detractors, it was at best an imperfect attempt to grapple with fundamental questions, and at worst a PR move designed to hurry the discipline past an ugly episode. For Chagnon’s supporters, it was a disgraceful hatchet job, one more sign of cultural anthropology’s resentment over the encroachment of “hard” science onto its turf. Three years later, a referendum was put forth to rescind the report, on the grounds that the original task force had been illegitimate, biased and sloppy. Roughly 10 percent of the AAA’s members voted: 846 for, 338 against. The report was removed from the organization’s website, and the question of which, if any, of its conclusions had been true was left for die-hards to debate in academic journals and on their personal websites. There is little agreement even about what the controversy is exactly, and most often the people involved—tenured professors—do little more than talk past each other, bemoan the quality of debate, and then continue talking past each other. Davi Kopenawa, a prominent Yanomami activist, put it well: “I want to know how much they are making each month. How much does an anthropologist earn?… This is a lot of money. They may be fighting but they are happy. They fight and this makes them happy. They make money and fight.”

There were two other referendums on the ballot when the AAA voted to rescind the El Dorado report. One expressed a strong preference for holding the annual meetings at facilities staffed by unions; it passed by a vote of 695 to 624. The other was a repudiation of the 1919 censure of Franz Boas, whose accusations about anthropologist-spies had since been confirmed by researchers—including the fact that some of the men who voted to censure him were the spies he had declined to name out of respect for their safety. The language of the 2005 repudiation implied that the original censure had been a regrettable error from another era, the sort of mistake anthropology didn’t make anymore and hadn’t made for a long time. It passed by an overwhelming margin: 1,245 to 73.

* * *

Chagnon’s retirement was not what he’d hoped for. In 2000, overcome by the stress of working to clear his name, but nonetheless seeing his alleged complicity with genocide become headline news around the world, he collapsed and was hospitalized. In subsequent years, he found it impossible to put the affair behind him:

I did not travel much, did not fish much, did not hunt grouse and pheasants over my German short-haired pointers, did not go to many concerts, did not read much fiction for pleasure, and did not spend more time with members of my family.

Instead, he set to work on a memoir. But he repeatedly scrapped what he’d written “because of the anger that kept creeping into my writing, giving it a very depressive tone.”

In Secrets of the Tribe, a recent documentary about anthropologists and the Yanomami, Chagnon responds to his critics mostly by repeating simplified versions of their charges in a sanctimonious tone. Despite his attempts to expunge the anger from his memoir, much of Noble Savages has a similar quality. As Chagnon sees it, his critics are a coalition of anthropological “ayatollahs” scrambling to protect their own authority from scientific rigor, “Marxist”-style “Thought Police” guarding the “politically correct” conventional wisdom, “postmodernists” unqualified to make claims about his conduct because they can’t even decide if the world exists, Catholic missionaries who wanted the Yanomami for themselves, and “barefoot” “activist” types less interested in studying the people of the world than in leading a witch hunt for the bad guy in the “office down the hall.” (The long history of overlap between American anthropology and the American military-intelligence sector is not mentioned.) These are the sorts of people, we are given to understand, who don’t care about what is true or not—the sort willing to smear a man to keep an ideology alive.

But Chagnon is in a bind: he’s written a memoir to refute the charges against him, but he finds the charges so baseless, and their existence so revolting, that he can barely be bothered to address them, or even to characterize them accurately. (In this sense, Noble Savages mirrors Darkness in El Dorado, which might have been more rigorous if Tierney hadn’t been so furious.) A telling example is Chagnon’s response to criticism from his fellow anthropologist Brian Ferguson. In 1995, Ferguson published Yanomami Warfare: A Political History, a book centrally concerned with countering Chagnon’s analysis of Yanomami life and violence. He disputed Chagnon’s interpretations of his own data (convincingly, I think), but also advanced a more fundamental objection: that the Yanomami had been in contact, direct and otherwise, with the “outside” world at several points long before Chagnon’s arrival, and that these moments of contact had influenced everything from where their villages were established to how they related to each other. Warfare was not the Yanomami historical norm, Ferguson said, and when war did break out, it had at least as much to do with the effects of encroaching nation-states and empires as it did with women and revenge. One crucial result of these moments of contact was the Yanomami’s acquistion of steel. Steel tools are many times more efficient than stone ones; when some villages came to possess more than others, it tilted the scales toward conflict, especially in times of hardship and deprivation, such as those caused by disease outbreaks (which even by Chagnon’s calculations were a more common cause of Yanomami death than violence).

Whatever the soundness and validity of Ferguson’s complex argument, it deserves more of a response than the single sentence that Chagnon has buried in an endnote: “Ferguson also claimed that I caused animosity, jealousy, and conflicts by the way I gave metal tools to the Yanomamö.” You can almost hear Chagnon snorting in disbelief. Because the endnotes lack corresponding numbers in the main text, the path the reader must take to them is unmarked. No reader will learn from Chagnon what Ferguson actually thinks. It is true that, in Yanomamö, Chagnon admitted to intentionally exploiting local animosities and conflicts to gain information, especially in his efforts to work past the Yanomami’s pesky name taboos. It is also true that Ferguson discusses Chagnon and other anthropologists’ habit of handing out steels tools in exchange for information, labor and blood samples. But to make this the centerpiece of his critique is absurd. It is also a measure of Chagnon’s narcissism that he reduces an argument about hundreds of years of history, empires and culture to an argument about himself. (Tierney is guilty of a similar fixation: when he cites Ferguson’s arguments in Darkness in El Dorado, he is also seemingly obsessed with the possibility that Chagnon himself had caused Yanomami warfare.)

The irony is that in Noble Savages, a story of an allegedly Stone Age people, steel and its influence are ubiquitous. One village Chagnon visited exists where it does, a missionary tells him, because its residents wanted to be near the missionaries and the steel tools they brought with them. His hosts lie to him about other villages—how far away they are, the dangers he can expect en route—so that he won’t leave and share his steel gifts with others. When he’s not watching, they break into his supplies and make off with knives and fishhooks. “The very word madohe [trade goods] stirs people,” Chagnon says. If machetes or axes are present, he observes, club fights can escalate to machete fights, increasing the likelihood of their participants being crippled or killed. Even after pointing all this out, Chagnon takes a position worthy of the National Rifle Association: machetes don’t kill Yanomami, Yanomami do.

Elsewhere in his memoir, though, he insists that the introduction of new technology can alter—and has altered—the way people relate to each other, even by encouraging them to kill each other. Missionaries from the Salesians of Don Bosco, a Catholic charity, gave shotguns to the Yanomami, something Chagnon refused to do “as a matter of principle.” The results, he says, were disastrous. “Although the shotguns did not make the Yanomamö warlike, I believe that they probably caused an increase in mortality rates…. Shotguns may have even made the Yanomamö more willing to attack their enemies because the shotguns were more efficient killing weapons than their bows and arrows.” And: “The introduction of shotguns at Salesian missions would most likely change traditional Yanomamö warfare patterns.”

The Salesians might be the only people Chagnon dislikes more than cultural anthropologists. From his perspective, they were determined to make the rainforest into a theocracy, controlling who came and went (including anthropologists) and luring the heathen Yanomami to their settlements so as to render them dependent on the goods they supplied. It was the Salesians, Chagnon theorizes, who pulled strings to get Tierney the permits he needed to do his research in the Amazon for Darkness in El Dorado. In 2010, he even speculated that they paid Tierney to write his book. As with the postmodern barefoot ayatollahs of anthropology, the Salesians are presented to us as ruthless Machiavellians. Chagnon all but accuses them of turning a blind eye to the inevitable result of their largesse: if the guns were being used for raids, or even making the raids more common, so be it—this would make the guns more valuable, and the missionaries with the guns more powerful still. So shotguns, it seems, can influence warfare patterns, but never machetes—and anyway, Chagnon writes, the Yanomami (a supposedly untouched people) had “possessed steel tools many years prior to my first trip.

Now and then, Chagnon will recognize that, yes, war is complicated, a cumulative result of many intertwined factors. He even draws attention to the difference between motive, on the one hand, and human statements about motive, on the other. If a Yanomami was bitten by a snake and died, Chagnon recalls, his fellow villagers might decide that the snake had been sent by a rival village—therefore providing a pretext for revenge, which might involve seizing control of some strategic resources. Such behavior should sound familiar: quite recently, the leader of the most powerful nation on earth organized the invasion of another, oil-rich nation, claiming that he was acting on God’s personal instructions. The leader of the invaders also pointed out that, in addition to possessing terrible new weapons, the oil-rich country’s leader had once tried to kill his father. Oil was never mentioned: the history of war is a history of obfuscation about its motives. But whenever the Yanomami tell Chagnon that they’re fighting over women, he takes it as a direct expression of fact—one that, conveniently enough, supports the theory that for the Yanomami, as for all our ancestors, warfare was essentially about reproduction and its kissing cousin, revenge.

* * *

For all his claims to be working in opposition to the archetype of the noble savage, Chagnon is implicitly committed to the idea that the Yanomami he met were in some sense completely different from us—that they lived, to borrow a phrase from the pop science writer Jared Diamond, in a premodern sliver of the “world until yesterday” preserved in our midst. The Yanomami are, at different points in Chagnon’s book, “wild,” “primitive” and “Stone Age”—never mind all their steel, or the fact that they rely on farming, not hunting or gathering, for 70 percent of their diet. Never mind that none of their primary crops—bananas and plantains—are indigenous to the Amazon or even South America. No, the Yanomami are “pristine,” “pure,” “special,” even noble: “I have chosen to call this book Noble Savages,” Chagnon writes, “in part because the Yanomamö I lived among had a certain kind of nobility that most anthropologists rarely see in acculturated and depopulated tribes that have been defeated by and incorporated into the political states in whose jurisdiction they reside.”

When it comes to describing the definitively unpristine Yanomami—those who, even by his standard, have had extended contact with “civilization”—Chagnon vacillates between pity, disdain and (most often) disinterest. Readers of Noble Savages will learn almost nothing of contemporary Yanomami or their politics. They will certainly not learn about the assemblies at which representatives from different villages discuss the ongoing threats to their existence posed by mining interests, and the future of their relationships with Venezuela and Brazil. Yanomami have even traveled to the United States—not just to speak about the Chagnon controversy, but also to request the return of the blood samples gathered by research teams, including those led by James Neel. The Yanomami argue that they never consented to the indefinite storage of bodily materials in far-away freezers, a practice that violates their burial customs. (In 2010, several research facilities agreed to return the blood.) Chagnon says not one word about any of this; he’s too busy calling Yanomami leaders the puppets of Salesian missionaries, who are using them to advance their anti-Chagnon, anti-science agenda.

Chagnon’s fixation on those Yanomami he judged “pristine,” and his disinterest in any he’d determined to be “acculturated,” took its most explicit turn in 1990, when he was contacted by Cecilia Matos, the mistress of Venezuela’s then-president, Carlos Andrés Pérez. As Chagnon tells it, Pérez’s political career was winding down, and Matos wanted him to beef up his legacy by doing something to benefit people like the Yanomami. Though Chagnon had started a Yanomami Survival Fund in 1988, there is no evidence that he ever delivered any money to the people it was named for. The one time he was asked for advice about safeguarding the Yanomami’s living conditions, Chagnon recommended a rainforest biosphere project that would protect their land—but not all of it, just those parts whose inhabitants Chagnon deemed sufficiently untouched. About four-fifths of Yanomami lands in Venezuela would be unprotected, and so more open to mining concerns.

This aspect of the proposal goes unmentioned in Noble Savages; all Chagnon says, in his three-page account of the incident, is that before the project could be implemented, the usual network of detractors went to work spreading lies, which prompted hysterical protests, and so the project died. He doesn’t say that a similar project that included almost all Yanomami land was launched the following year. More damningly, he doesn’t tell his readers that in 1993 Pérez was impeached, removed from office and jailed after getting caught siphoning millions of dollars’ worth of public funds to private accounts he shared with his mistress. Matos was to be arrested too, but she fled the country; on her arrest order, she was accused of, among other things, misappropriating state resources to get a noble-sounding biosphere project running as a front for more profitable activities. Almost every commentator on the Chagnon saga, even among his army of vociferous allies, has agreed that his participation in this project, however tangential, was at the very least bad judgment. In a recent New York Times Magazine profile, Chagnon swatted away such accusations. In exchange for his help, Pérez had restored his research permit. “I got a year’s worth of data,” he said. “It was worth it for that reason.”

At the end of the Secrets of the Tribe documentary, Patrick Tierney says, “I don’t think that there’s any way [Chagnon’s defenders] can salvage [him] in the long run.” Time will tell, but I’d wager that Tierney is wrong: he is too enamored of the idea that scandal might lead to change, and too optimistic about facts trumping ideology (which is, of course, what Chagnon claims to hope for, too). Chagnon’s basic conclusions about the Yanomami were cited uncritically in Jared Diamond’s bestseller The World Until Yesterday, published in December [see Stephen Wertheim, “Hunter-Blatherer,” April 22]. Early reviews of Noble Savages were almost all positive. In a triumphant blurb, the anthropologist Robin Fox calls it the “final knockout punch in a fight [Chagnon] didn’t pick but has most assuredly won.” Chagnon was recently asked by the University of Michigan, his alma mater, to organize his life’s work into a digital archive for use by academics around the world. And last year, he was voted into the National Academy of Sciences.

In response, his old University of Michigan professor Marshall Sahlins resigned from the academy, citing not only Chagnon’s election but also the recruitment of NAS anthropologists by the US military. “The two are connected,” he told me recently. “Chagnon’s research and the imperial venture are both based on the same assumption, that pursuit of material self-interest is the natural human condition—the obvious, natural, best thing for the individual and the nation.”

Online, Chagnon’s fans have been selling T-shirts that caricature his critics’ positions as: Napoleon Chagnon kicked my dog! Word is the man himself thinks they’re hilarious and has ordered a bunch for friends and family. This semester, at age 74, Chagnon joined the anthropology department at the University of Missouri. “I feel like a battleship,” he told the campus newspaper, “shaking off the mothballs and taking to the high seas again.” Let’s christen it the USS Machete.

In “Library Man” (Feb. 7, 2011), Thomas Meaney reviewed Patrick Wilcken’s biography of Claude Lévi-Strauss, “a poet in the laboratory of anthropology.”

Read more: http://www.thenation.com/article/174369/fight-clubs-napoleon-chagnon#ixzz2VSi1oT30

“O governo está preparando uma tragédia”, afirmam indígenas (Xingú Vivo)

29/5/2013

A situação é grave na Usina Hidrelétrica Belo Monte. Os indígenas que ocupam pelo terceiro dia e pela segunda vez no mês o principal canteiro da barragem temem que uma tragédia de grandes proporções aconteça, com a autorização judicial da entrada da polícia para efetuar o despejo. Para eles, o governo está ameaçando repetir o confronto ocorrido na aldeia Teles Pires em novembro do ano passado, onde a Polícia Federal assassinou um indígena Munduruku e deixou dezenas de outros feridos.

Em coletiva à imprensa, Candido Waro declarou que os indígenas ocupados não irão cumprir a reintegração de posse. “Nós não vamos sair. Nós vamos morrer aqui, o governo vai matar todo mundo”, afirmou a liderança munduruku em coletiva à imprensa. O indígena reafirmou que o governo não tem cumprido com as exigências constitucionais no processo de consulta.

“O governo está preparando uma tragédia”, afirma Paygomuyatpu Munduruku. “Nós não vamos sair daqui. O governo tem nos ignorado, ofendido, humilhado, assassinado”. Para ele, está claro que o governo está tentando sufocar o movimento. “Ele já matou uma vez e vai matar de novo. Eles mataram porque nós somos contra as barragens”, explica. Os indígenas se mostraram “ofendidos” com a declaração do ministro Gilberto Carvalho à rede Globo de que ele não teria sido “comunicado oficialmente” sobre a vontade dos Munduruku de se reunirem com o governo federal.

VIOLÊNCIA POLICIAL

Além da pressão do governo federal, os indígenas têm sofrido diariamente ameaças e intimidações dos policiais que residem no canteiro de obras, e daqueles que estão cercando o empreendimento. O vídeo abaixo, registrado por um indígena dentro da ocupação, mostra um policial intimidando e ameaçando os manifestantes, ao apontar armas e dizer que vai “quebrar” um indígena.

Para o grupo que ocupa o canteiro, a única saída é que o governo federal, na figura do ministro Gilberto Carvalho ou da presidente Dilma Rousseff, vão ao canteiro e se comprometam a cumprir a pauta dos indígenas. Eles exigem a suspensão de todos os estudos e obras de barragens que afetem seus territórios até que sejam consultados como previsto por lei.

Confira a entrevista do antropólogo Renzo Taddei sobre o processo de licitação do Maracanã (Yahoo! Esporte Interativo)

Autor de estudo sobre torcidas organizadas, Renzo comentou tentativa infundada dos dirigentes do futebol brasileiro em erradicar as torcidas organizadas

Por Amanda Duarte, Gabriel Mansour e Pedro Muxfeldt | Yahoo! Esporte Interativo – ter, 28 de mai de 2013 02:22 BRT

Autor de diversas pesquisas sobre o fenômeno das torcidas organizadas no Brasil e na Argentina, o antropólogo Renzo Taddei falou com exclusividade ao Yahoo! Esporte Interativo sobre a proposta de elitização do público do Maracanã contida no estudo de viabilidade econômica realizado pela IMX Venues.

Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renzo também falou sobre a proposta de transformação do estádio em centro de entretenimento e, estudioso do assunto, enxergou conexão entre a política de aumento do valor dos ingressos com a tentativa de exclusão das organizadas dos estádios de futebol, algo que, para o acadêmico, não acontecerá da maneira prevista devido às ligações próximas entre as diretorias de clubes e suas torcidas e uma falha na visão que os comandantes do futebol e a mídia têm dos grupos de torcedores organizados. Confira a entrevista na íntegra:

Yahoo! Esporte Interativo: O estudo de viabilidade econômica do complexo do Maracanã prevê, textualmente, a “mudança do perfil do público e consequente aumento do valor médio dos ingressos”. Qual sua visão sobre esse processo de elitização do público dos estádios que já vem ocorrendo?

Renzo Taddei: Não está claro ao que exatamente o estudo se refere: se ao aumento da renda das classes populares, o que significa que o público se mantém o mesmo, ainda que seu “perfil” de consumo mude, ou à substituição das classes populares por classes médias e ricas, via encarecimento dos ingressos. Essas alternativas não são excludentes; em termos financeiros, podem até levar aos mesmos resultados. Em termos sociais e políticos, no entanto, são coisas muito diferentes.

Existe uma distinção importante a ser feita: uma coisa é um investimento privado ser economicamente viável, outra é uma política pública ser democrática e eficaz. Infelizmente o governo do Rio de Janeiro parece confundir as coisas: permitir que a iniciativa privada elabore políticas públicas é mais do que um erro político, é um tiro no próprio pé. No Brasil, como em diversos lugares do mundo, o futebol é muito mais do que um negócio, tem um papel importante na vida de muitas coletividades; o que o governo tem dificuldade de enxergar é que reduzir o futebol a um mero bom negócio pode ter consequências sociais funestas.

O futebol poderia ser um instrumento poderosíssimo na construção de uma sociedade melhor, dada a penetração que tem em diversos públicos e setores da sociedade. Para isso, deveria ser usado em conjunção com políticas públicas sérias e inteligentes. Se os gestores públicos soubessem usar o futebol com inteligência, seria possível até argumentar que ele deveria ser subsidiado. Mas, infelizmente, já há muitas décadas o futebol é controlado por interesses financeiros pouco comprometidos com objetivos e metas sociais maiores; a forma como o dinheiro que vem da transmissão televisiva define os rumos do esporte mostra como este é refém do mercado.

Ao usar critérios mercadológicos para julgar o valor de uma boa ideia, o governo permite que o apartheid social brasileiro se estenda às políticas sociais nas áreas de lazer e cultura.

Y!EI: Em outros pontos do estudo, fala-se na necessidade de transformar o complexo esportivo do Maracanã em “centro de entretenimento”. Que efeitos sociais a transformação de um símbolo cultural do Rio de Janeiro como o Maracanã em abrigo de shoppings e hotéis, como está previsto no estudo, podem causar?

RT: Colocando de forma direta, trata-se da transformação do mais importante espaço de comunhão que temos no Brasil em mais um espaço de segregação. A atratividade financeira do projeto faz com que nossos governantes se façam cegos ao papel simbólico do futebol, através do qual se dá um bocado da vida social das pessoas desse país, em todas as suas regiões e de todas as classes sociais. O futebol une gente que em outras ocasiões encontra-se separada em credos e partidos políticos distintos – credos e partidos que, via de regra, não funcionam com base em regras claras e conhecidas por todos, e num contexto em que os jogos sempre começam do zero a zero e o fair play é valorizado.

Ainda que não intencionalmente – ou, quem sabe, intencionalmente -, shoppings centers e hotéis são espaços de segregação, onde descamisados e gente de chinelo não entra. Aqui estou falando das dimensões simbólicas do futebol; vai da solução arquitetônica mesclar isso tudo e ver até onde o espírito do futebol vai ser descaracterizado.

De qualquer forma, para que um hotel exista num estádio haverá que se instalar barreiras e restrições à mobilidade das massas que hoje não existem. Não vejo como o resultado possa ser bom, em qualquer dimensão que não seja estritamente financeira, e apenas para quem vai investir no projeto. Em minha opinião, essa é apenas mais uma etapa do processo, apoiado pela Fifa, pela CBF e pelas federações estaduais, que transforma o futebol em refém do capital financeiro. Só não vê que parte do comportamento das torcidas é uma reação negativa a isso tudo quem não quer – e há um bocado de gente em postos importantes que efetivamente não tem qualquer interesse em enxergar isso.

Basta seguir os perfis das torcidas em redes sociais e ver a forma como elas se manifestam contra o que chamam de “futebol moderno”, que é nada mais do que o futebol refém do capital financeiro – das verbas de patrocínio que definem regras e formas de funcionamento do esporte, dos contratos que induzem os jogadores a estabelecerem relações muito superficiais com os times em que atuam, dentre muitas outras coisas.

Y!EI: Já nos dias de hoje, jogos às vezes de pouco apelo dos campeonatos estaduais, por exemplo o Carioca, têm ingressos com preços que chegam a R$ 80. Neste cenário, são nas torcidas organizadas onde mais se concentram integrantes das classes mais pobres da sociedade. O processo de “demonização” das organizadas pode ser entendido como um outro passo para a retirada da população pobre – especialmente jovem e negra – dos estádios?

RT: Sem dúvida. Mas isso só se dá porque há uma compreensão muito ruim, por parte do poder público e da mídia, de como funcionam as torcidas organizadas. Elas nunca deixarão de estar nos estádios, porque na maioria das vezes suas lideranças não pagam os ingressos. Há uma relação entre os clubes e as torcidas que não está considerada nessa abordagem econômica, porque esse é uma questão da política interna do futebol.

Os próprios dirigentes facilitam a entrada das organizadas, porque elas são parte fundamental do fenômeno e do espetáculo que é o futebol, e os jogadores e dirigentes reconhecem isso. É mais fácil ver isso quando se joga de visitante: muitas vezes quem vai ao jogo é apenas a torcida organizada, que viajou mil, dois mil quilômetros, em veículos mal conservados e lentos, apenas para assistir o jogo e voltar para casa.

Num estádio hostil, uma torcida atuante, que canta e demonstra apoio ao time pode afetar positivamente o estado psicológico dos jogadores do seu time – não há jogador ou técnico que não reconheça isso.

Por outro lado, é equivocado achar que os torcedores mais pobres estão nas torcidas organizadas. Algumas torcidas têm um faturamento alto, de atividades legais. O que se está confundindo aqui é a forma como as elites pensam o mundo, com seus maniqueísmos e preconceitos, e a forma como o mundo do futebol efetivamente existe; as duas coisas não são equivalentes, obviamente. O futebol não se resume à divisão de classes sociais, exatamente porque em grande parte do tempo funciona como elemento de comunhão social, e não de divisão. Transformar o futebol de acordo com a visão que as elites têm da divisão de classes sociais é assassinar o espírito do esporte, o que pra mim deveria ser crime inafiançável.

Veja também:

– Especial Maracanã PARTE 1: Empresa de Eike prevê mudança no perfil do público
– Especial Maracanã PARTE 2: Sociólogo analisa processo de elitização
– CBF não vai liberar Neymar para jogo de despedida na Vila Belmiro

‘Beautiful Game’ becomes ‘Pricey Game’ with World Cup, Confed Cup changing Brazilian soccer (Washington Post/AP)

By Associated Press, Published: May 28

RIO DE JANEIRO — It’s an image as Brazilian as Carnival or Rio’s Christ the Redeemer statue.

Drummers pound out a Samba rhythm. Swaying to the beat, fans sing and saunter up and down the aisles waving flags the size of bedsheets, seeming oblivious to the match below.

Little by little this picturesque mayhem in Brazilian soccer stadiums is disappearing, and ticket prices are soaring despite the toned-down version being sold.

The “Beautiful Game” has become the “Pricey Game.”

This year’s Confederations Cup and next year’s World Cup, the first in this South American country in 64 years, are speeding the changes. The national game is getting a different look with the use of numbered seating, a transformation that’s been going on for several years.

This might seem like a small thing, but it’s big in Brazil.

For decades, Brazilians simply raced into the stadiums and grabbed the best spots — some sitting, others standing in a crush amid thousands of others. At the Confederations Cup and World Cup, the seats will be assigned, and they won’t come cheaply. As an example, the least expensive seats for Sunday’s exhibition game between Brazil and England — the first major test event at Rio de Janeiro’s renovated Maracana Stadium — will be 90 reals ($45).

That’s 30 times more than the cheapest seat eight years ago at the historic stadium.

The Brazil-England match comes only days before the opening of the Confederations Cup, the eight-team warmup for the World Cup that starts on June 15. Maracana is the venue for the title game June 30 — and the World Cup final.

“The giant price change means there is a shift concerning the kind of people that are going to the new stadiums,” said Erick Omena de Melo, a native of Rio de Janeiro who is working on a doctorate in city planning at Oxford University in England. “It was previously a much more diverse place in the stadiums. But as the economy in Brazil changes, they are converting these stadiums to a much more middle-class, upper-middle class or even upper-class place that is much less for the lower-middle class and poor.”

Traditional general admission is being eliminated with luxury boxes and modern seating taking over at the six stadiums being used for the Confederations Cup, and the additional six that are to be ready for the World Cup. This change has already filtered down to the country’s heavily indebted club teams and is sure to take some of the spontaneity out of what Brazilians call “futebol” (pronounced foo-chee-BOHL).

Brazilian fans used to play a major role in the drama. These days they’re staying away. Average attendance for matches in Major League Soccer in the United States is higher than attendance for first-division matches in Brazil, which likes to call itself the “Home of Football.”

“What’s being done so far is transferring a European model to Brazil,” said Omena de Melo, who is working on a book about the social history of Maracana. “But Brazil is really different. It’s a totally different atmosphere at a football game. The changes are seen by many as a huge aggression against the traditional fans, the traditional crowds at football matches.”

Officials counter that ticket prices in Brazil are still below European levels, and that new and refurbished stadiums will improve safety that is needed in a country where soccer-related crime and violence is common. In addition, Brazil would never have been awarded the World Cup — and the 2016 Olympics in Rio de Janeiro — without a pledge to upgrade crumbling stadiums and tighten security.

The South American country is spending an estimated $3.5 billion on new stadiums and refurbishments, though most of the project has run behind schedule. The need to work 24-7 to finish the venues will run up the costs by millions more. FIFA has complained openly about the delays, acknowledging the Confederations Cup will be a maze of unfinished work.

FIFA Secretary General Jerome Valcke has admitted that “not all operational arrangements will be 100 percent,” then warned “this will be impossible to repeat for the FIFA World Cup.”

The new national stadium in Brasilia opened at a cost of more than $590 million, the most expensive of the 12 World Cup venues. But it has no local team to call it home, and many say it’s a “white elephant.”

It will host the opening of the Confederations Cup on June 15 with Brazil facing Japan.

Another stadium is going up in Manaus in the northern state of Amazonas — again with no local team. It’s the same in the southwestern city of Cuiaba, also without a team in Brazil’s top league.

Brazilian Sports Minister Aldo Rebelo — a Brazilian Communist Party member — defends the stadiums as “centers for sports and nonsports events,” and suggested they would be good places for businesses to hold conventions, shows and fairs.

Omena de Melo countered that the “gentrification” eliminates the diversity.

“Football in Brazil has been a kind of antenna that captures all the different values in Brazilian culture and correlates them into one,” Omena de Melo said. “This sort of informality has existed for a century in these stadiums.”

He used the example of Maracana to show how prices have soared.

The stadium has been closed twice for refurbishment since in the last decade. When it was closed in 2005 to be redone for the 2007 Pan American Games, Omena de Melo’s research showed the cheapest ticket was about $1.50.

In 2010, when it was closed again to be refurbished for next year’s World Cup, the cheapest ticket was about $20.

The Maracana was opened again a few weeks ago. Its capacity has been reduced to just under 79,000 — it held more than 170,000 for the final match of the 1950 World Cup — and plans call for it to be eventually shared by Brazilian clubs Flamengo and Fluminense.

In a country where the official minimum monthly salary is $339, the cheapest ticket for the Brazil-England match will be about $45 — 30 times the price of the cheapest ticket only eight years ago and out of reach for most Cariocas, the term for residents of Rio.

Rio de Janeiro sports journalist Telmo Zanini defended the rising prices and said adjusting to the seating changes will be easy in Rio and Sao Paulo in the prosperous southeast, but more difficult in provincial cities.

He cited a recent case in the city of Belo Horizonte “where people took seats and didn’t want to give them up when the ticketholders arrived. So police or stewards had to be called in.”

He said ticket prices had been rising for a long time, and declined to blame the World Cup. Rio de Janeiro and Sao Paulo are two of the world’s most expensive cities. A kilogram (2.2 pounds) of tomatoes recently sold for $6.50 at some Rio de Janeiro supermarkets, where a standard can of shaving cream costs $12. Shaving gel goes for $15.

“Poor people also can’t buy tickets in England or the United States,” Zanini said. “It’s a question of the market. You don’t see poor people buying tickets for Los Angeles Lakers games. The World Cup is not the only reason. Ticket prices have been going up for a long time. But with the World Cup stadiums we will have better quality stadiums. Some people have not gone to games previously because they did not feel safe.”

Marcello Campos, a 29-year-old fan of Rio club Flamengo who goes to at least one match a week, called the changes “a little difficult.”

“It’s going to be a challenge for the people who are used to the low prices; people who don’t have money to buy a ticket for 80 reals ($40) or 100 reals ($50). It’s expensive now.”

He said getting people to stay in numbered seats would be even tougher.

“It’s impossible for me to watch a football game sitting,” Campos said. “I’m too nervous to be sitting. I’ll need to fix that in my mind, to concentrate on sitting.”

He said the changes would be beneficial, imposing organization on chaos.

“We need to change the culture. It kind of gives everyone equal rights, not just those who show up first.”

Benefiting from many of the changes is a multinational consortium that won a contract in May from the state of Rio de Janeiro to run Maracana for 35 years. The consortium is made up of Brazilian construction conglomerate Odebrecht, Los Angeles-based Sports and entertainment company AEG, and the sport and entertainment company IMX, which is owned by Brazilian billionaire Eike Batista.

Critics say the deal gives the Rio de Janeiro state government less money than it invested in the venue and will lead to the demolition of an indigenous museum, a public school and some athletics facilities in the area. A public prosecutor estimated that $615 million in public money has been spent on Maracana since 2005, raising questions why a private consortium should reap most of the profits from taxpayer money.

The Brazilian soccer great Pele has come out against the privatization, saying the famous stadium “must be of the people, for the Brazilian people.” Others have also questioned selling off what has been traditionally a public space to private interests.

Omena de Melo cautioned that the new stadiums will not eliminate soccer-related violence.

“Violence tied to football could still be there, even after the gentrification,” he said. “If people can’t get inside the stadiums, they are going to get violent outside. You can’t isolate the stadium from the society where it exists. Brazilian society has a lot of problems caused by inequality, and violence is one of them.”

Luta contra o racismo no Brasil passa por salão de beleza (Agence France-Presse/Yahoo News)

Por Por Laura BONILLA CAL | AFP – 23/05/2013

A rede se dedica aos cabelos no estilo afro

A rede se dedica aos cabelos no estilo afro

A presidente da empresa, Leila Velez

A presidente da empresa, Leila Velez

Nada como um bom penteado para combater o racismo arraigado na sociedade brasileira, usando como armas principais tesouras e hidratantes para o cabelo.

Na periferia do Rio de Janeiro, uma rede de salões de beleza que se dedica a atender a negras e mulatas majoritariamente da classe C faz um grande sucesso.

Qual é a fórmula do êxito desta empresa que transforma o “afro” em cachos suaves, e que nega categoricamente a crença popular de que o cabelo crespo é ruim? O crescimento econômico do Brasil, que na última década permitiu que 40 milhões de brasileiros integrassem a classe média por meio de programas sociais do governo.

Dos 194 milhões de brasileiros, 50,7% são negros ou mulatos, e os donos do Beleza Natural, esta peculiar rede de salões de beleza, estimam que 70% das mulheres brasileiras têm cabelo crespo.

“Você é linda porque é negra”

“Este salão é para a consumidora esquecida, invisível, para levantar a autoestima da cliente de baixa renda. Uma mulher acostumada a servir, que merece ser servida, e bem servida”, explica à AFP a presidente da empresa, Leila Velez, uma mulata de 38 anos que aos 16 era gerente de um McDonald’s no Rio.

Velez criou com dificuldades o Beleza Natural há 20 anos junto com familiares. Hoje dirige as 13 filiais da empresa e uma fábrica de produtos para os cabelos, que conta com 1.700 funcionários.

A fábrica produz 250 toneladas de produtos de uso capilar por mês, incluindo o “super relaxante” de cachos criado por sua cunhada Zica Assis, uma ex-empregada doméstica que fez experimentos durante dez anos com frutas, como o açaí, até chegar à fórmula do produto na varanda de sua casa, em uma favela.

Os lucros da rede, que tem salões localizados da periferia a áreas nobres da cidade, cresceram 30% anualmente nos últimos oito anos, segundo Velez, que não revela os resultados da empresa.

Seu sucesso é tamanho que caravanas com centenas de mulheres vindas de outros estados chegam a cada fim de semana para que as viajantes sejam atendidas nos salões.

“Acredito que 100% de seu sucesso esteja ligado à questão da raça. Existem no Brasil, devido a uma carga cultural, muitas mulheres negras que não aceitam seu cabelo porque não é liso, que é o ideal de beleza mais conhecido”, explicou à AFP Victor Cunha da Almeida, professor da escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coautor de uma tese sobre o “Beleza” e sua aposta na “base da pirâmide” social, a classe C, que chega a 54% da população.

“Aí está a diferença do Beleza Natural, que não quer alisar o seu cabelo, quer domá-lo, suavizar os cachos. Diz a mulher: ‘você é linda porque é negra, é linda porque tem os cabelos assim'”.

Bruna Mara, uma cliente, confirma. “Sempre usava o cabelo liso; aqui me convenceram de que meus cachos poderiam ficar bonitos, e é mais natural”, confessa esta secretaria de 24 anos.

Princesas

“Não havia locais onde uma mulher negra com cabelo crespo fosse tratada como princesa”, ressalta o professor Cunha.

Quando alguém entra no mundo do Beleza Natural, decorado em vermelho e rosa, cheio de espelhos e focos luminosos, com flores frescas e café, sente-se em qualquer bairro rico do mundo, ou em um cenário de novela.

“Temos espelhos de corpo inteiro, porque muitas clientes não têm isso em suas casas”, explica Velez.

José Jorge de Carvalho, antropólogo especialista em questões raciais da Universidade de Brasília, ressalta que, apesar de ser visto no exterior como um exemplo de diversidade, o Brasil “é um país muito racista”.

“Estes salões de beleza fazem parte de um esforço de combate ao racismo, para melhorar a auto-estima das mulheres negras de classes popular”, afirma Carvalho, que lamenta o elevado uso no Brasil de pranchas para alisar o cabelo, algumas delas esquentadas diretamente no fogo e que “fritam o cabelo”.

Uma nova classe média

Atualmente, a rede de salões atende 90.000 mulheres por mês.

“Esta é a nova classe média, produzindo para a nova classe média”, comemora Marcelo Neri, ministro interino de Assuntos Estratégicos, em declarações à AFP.

As rendas das populações negra e parda brasileira foram as que mais cresceram

entre 2001 e 2009, 43% e 48% respectivamente, contra 21% para os brancos, segundo Neri, especialista na classe média brasileira.

No entanto, as desigualdades ainda são enormes: 125 anos depois da abolição da escravatura, os brancos no Brasil recebem em média quase o dobro do que os negros.

Ser atendido no “Beleza” é acessível, mas não barato. Custa em média 80 reais (10% do salário mínimo), e para mantê-lo em casa são necessários produtos que custam 50 reais mensais.

Apesar disso, a maioria paga em dinheiro, outro sinal do aumento real de poder aquisitivo da nova classe média brasileira.

‘Não existem índios no Brasil’, diz escritor em abertura de congresso (G1)

22/05/2013 14h24 – Atualizado em 22/05/2013 14h40

Para ele, a palavra ‘índio’ surgiu de maneira equivocada e reduz os povos.

Autor de 43 livros, Daniel Munduruku abriu o evento em Poços de Caldas. 

Jéssica BalbinoDo G1 Sul de Minas

Daniel Munduruku é autor de 43 livros e falou durante abertura de Congresso (Foto: Jéssica Balbino/ G1)Daniel Munduruku é autor de 43 livros e falou durante abertura de Congresso (Foto: Jéssica Balbino/ G1)

Autor de 43 livros, o indígena Daniel Munduruku foi o palestrante convidado para a abertura do 10º Congresso do Meio Ambiente em Poços de Caldas (MG) nesta quarta-feira (22). O índio, que é doutor em educação e cursa pós-doutorado em literatura na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), falou sobre a ‘Mãe Terra e a Questão Indígena’  durante um bate-papo com os congressistas.

Em uma saudação na língua do povo ao qual pertence, abriu a fala e brincando, pediu licença a quem estava no ambiente. “Bom dia a todos os amigos aqui presentes, espero que este encontro seja tão bom para vocês como vai ser para mim”, saudou, em uma referência aos ancestrais. “Nossos avós diziam que quando vamos encontrar alguém, temos que ir com o coração aberto e alegre para que o encontro seja bom, desejando que as pessoas que estão no lugar se sintam da mesma forma”, pontuou, ao lembrar que estar conectado com o meio ambiente é estar conectado com a poesia do universo.

“A luta pelo meio ambiente é a luta de todo povo brasileiro” – Daniel Munduruku, escritor e doutor

“Vou falar de outras tantas coisas que não são meio ambiente, mas também são. Quero olhar nos olhos e conversar. Para começar, vou destacar que não sou índio e que não existem índios no Brasil. O que existem são povos. Eu sou Munduruku e pertencer a um povo é ter participação dentro de uma tradição ancestral brasileira. Quando eu digo que não existem índios, quero dizer que existe uma diversidade muito grande de ancestralidade. São pelo menos 250 povos indígenas e são faladas pelo menos 180 línguas no Brasil”, disse.

Para ele, a palavra ‘índio’ surgiu de maneira equivocada e reduz os povos. “Está ligada a uma série de conceitos e pré-conceitos. Normalmente ela está vinculada a coisas negativas, embora haja muito romantismo na história, a maioria do pensamento quer dizer que o  índio é um ser fora de moda, atrasado no tempo e selvagem. Alguém que está atrapalhando o progresso e continuamos reproduzindo um estereótipo que foi sendo passado ao longo da nossa história”, criticou.”

Público vindo de várias partes do Brasil debateu durante palestra (Foto: Jéssica Balbino/ G1)Público vindo de várias partes do Brasil debateu
durante palestra (Foto: Jéssica Balbino/ G1)

O bate-papo foi permeado por lembranças do indígena, que contou histórias sobre a própria vida, a fase de transição entre infância e adolescência e a perda do avô, que segundo ele, na tradição Munduruku, é quem transmite os ensinamentos dentro de uma família ou tribo. Com isso, ele chegou à dúvida dos presentes que era: como começou a escrever e se tornou acadêmico. “Quando meu avô morreu, me fez entender o que era ser Munduruku e eu sempre quis lembrar dele assim. Queria ser como ele, um contador de histórias. Demorei para saber como seria meu caminho, se seria na tribo ou na cidade, mas optei pela cidade e pela vida acadêmica e hoje estou aqui,  transmitindo estas histórias que são tão cheias de sabedoria de vida e de meio ambiente”, pontuou.

Em relação ao meio ambiente e aos questionamentos feitos pelo público, o indígena destacou a questão da evolução humana e no Brasil a construção de barragens. “O povo Munduruku está sofrendo com a construção das barragens, seja em Belomonte, seja em Rondônia, enfim, eles estão lutando para viver. A natureza e o ambiente que os índios vivem fazem parte da humanidade deles. Eles lutam para se manterem e lutam por um Brasil inteiro que não tem a consciência de perceber isso. A luta pelo meio ambiente é a luta de todo povo brasileiro”, finalizou.

Mainstream green is still too white (Color Lines)

By Brentin Mock; Cross-posted from ColorLines

We missing anything here?Last year was the hottest on record for the continental United States, and it wasn’t an outlier. The last 12 years have been the warmest years since 1880, the year the National Oceanic and Atmospheric Administration began tracking this information. And climate scientists predict that the devastating blizzards, droughts, hurricanes, and wildfires we’ve been experiencing lately will worsen due to climate change.

In many ways these punishing weather events feel like Mother Nature seeking revenge for our failure to reduce greenhouse gas emissions, the primary cause of global warming. Despite abundant evidence, the U.S. government has yet to pass a law that would force a reduction in these emissions.

During his first term, President Obama did make climate change a priority, both in his campaign and in office. The American Clean Energy and Security Act that Congress produced passed through the House in June 2009 by a narrow margin. Yet the bill never reached a vote in the Senate, and it died quietly.

Environmentalists have been flummoxed ever since. One prominent cause-of-death theory says that large mainstream (and predominantly white) environmental groups failed to mobilize grassroots support and ignored those who bear a disproportionate burden of climate change, namely poor people of color.

With Obama in for a second term and reaffirmed in his environmental commitments, climate legislation has another chance at life. Now, observers are wondering if mainstream environmentalists learned the right lessons from the first climate bill failure and how they’ll work with people of color this time around.

Anatomy of a conflict

To hear some environmental leaders tell it, their defeat wasn’t due to a lack of investment in black and brown people living in poor and working class communities, but to an over-investment in Obama. For example, Dan Lashof, climate and clean air director for Natural Resources Defense Council (NRDC), has blamed the president for having the audacity to push healthcare reform and he’s pointed the finger at green groups for being too patient with Obama.

Asked what environmental advocates who led the first climate bill effort could have done differently in 2009, Bill McKibben, founder of the online grassroots organizing campaign 350.org, says their game plan was too insular. “There was no chance last time because all the action was in the closed rooms, not in the streets,” he tells Colorlines.com.

Yet that “action” took place behind closed doors for a reason: Major mainstream green groups including the Environmental Defense Fund and The Nature Conservancy teamed up with oil companies and some of the biggest polluters and emitters in the nation to form the United States Climate Action Partnership (USCAP). This ad hoc alliance was the driving force behind the failed 2009 bill and there were no environmental justice, civil rights, or people-of-color groups at the USCAP table.

Obama can’t be blamed for the blind spots of major groups. As recent Washington Post and Politico articles have pointed out, their leadership and membership simply don’t reflect the race or socieconomic class of people most vulnerable to climate change’s wrath.

Sarah Hansen, former executive director of the Environmental Grantmakers Association, argued recently that the mainstream has been stingy with funding and resources and inept at engaging environmental justice communities. In a National Committee for Responsive Philanthropy (NCRP) study, “Cultivating the Grassroots: A Winning Approach for Environmental and Climate Funders,” Hansen reported that philanthropies awarded most of their environmental dollars to large, predominantly white groups but received little return in terms of law and policy. Meanwhile, wrote Hansen, too few dollars have been invested in community- and environmental justice-based organizations.

According to the NCRP report, environmental organizations with $5 million-plus budgets made up only 2 percent of green groups in general but in 2009 received half of all grants in the field. The NCRP also found that 15 percent of all green dollars benefited marginalized populations between 2007 and 2009. Only 11 percent went to social justice causes.

In January, Harvard professor Theda Skocpol released a study of the first climate bill campaign’s failure and faulted green groups involved for choosing direct congressional lobbying over grassroots organizing. Some of the major organizations did spend money on field organizers, wrote Skocpol, but only to push public messaging like billboards and advertisements.

“The messaging campaigns would not make it their business to actually shape legislation — or even talk about details with ordinary citizens or grassroots groups,” Skocpol wrote in the report. The public “is seen as a kind of background chorus that, hopefully, will sing on key.”

Take one for the team?

That the environmental movement thought billboards and ads could replace educating and organizing actual people was their biggest flaw, a position shared by Hansen and Skocpol. In comparison, health reform advocates took a lobbying and grassroots approach while the climate-change bill made the rounds and got a law passed.

“If you want to gain the trust of the emerging non-white majority, it’s not just a messaging thing,” explains Ryan Young, legal counsel for the California-based Greenlining Institute, a policy research nonprofit focused on economic, environmental, and racial justice. “It’s a values thing. You must understand the values of these communities and craft policy around that.”

Why does this matter?

Consider how the website of the National Wildlife Federation (NWF) recently featured an article on city bird sanctuaries from the group’s print magazine titled “Urban Renewal.”

Having people of color on staff might have helped NWF understand that for some, “urban renewal” signifies a historical legacy of black and Latino neighborhoods being effectively erased by development projects such as sports stadiums. Cultural snafus like this have led to white environmental groups being clowned in influential outlets including The Daily Show.

In an interview about the unintended message of “Urban Renewal,” Jim Lyon, NWF’s vice president for conservation policy, told Colorlines.com that the group doesn’t “always get everything right” and that “he’d take it back to his staff.” (Ironically, one of the harshest critiques of urban renewal came from Jane Jacobs, a white conservationist.) On the topic of staff diversity, Lyon said the organization isn’t where they want it to be, but that they’ve made “good progress.” He would not release staff demographics, but said NWF achieves diversity through partnerships with other groups and programs like Eco-Schools USA, which he says “engages more than 1 million children of color” daily.

Beverly Wright, who heads the New Orleans-based Deep South Center for Environmental Justice, says racial oversights of traditionally white groups are the main reason black and Latino environmentalists have formed their own organizations. The culturally divided camps sometimes use the same words, but they’re often speaking different languages.

Take “cap-and-trade,” a scheme that would commodify greenhouse gas emissions for market-trading as a way to reduce those emissions. The first climate bill centered on cap-and-trade because most major environmental groups supported it. But cap-and-trade was anathema to environmental justice because it did nothing to curb local co-pollutants such as smog and soot, direct threats to communities of color. That’s not to mention that cap-and-trade was the brainchild of C. Boyden Gray, a conservative member of the Federalist Society and leader of FreedomWorks, today a major Tea Party funder.

Wright says major green groups tried to coax environmental justice organizations into supporting cap-and-trade by claiming it was for the “greater good.”

“But that meant white people get all the greater goods and we get the rest,” says Wright. “Until they want to have real discussions around racism, they won’t have our support. That’s what happened last time with the climate bill. It did not move, because they did not have diversity in their voices.”

“Diversity” doesn’t just mean hiring more people of color. As the 30-year-old Center for Health, Environment and Justice stated in March, the diversity conversation “really needs to be about resources and assistance to the front line communities rather than head counting.”

What’s next?

So in the new round of climate bill talks, will large environmental groups meaningfully engage community-based environmental justice groups?

The prognosis is mixed. Look at MomentUs, a mammoth collaborative started in January to ramp up support for new climate legislation. While MomentUs claims to be a game-changer, the strategy behind it seems very similar to that of USCAP’s — the one that failed to deliver a climate-change law the first time around. On its website, MomentUs describes its board of directors as “cultural, environmental, business, and marketing leaders who offer the diversity of viewpoints and keen insight vital to advancing MomentUs’s mission.” At press time, all of the directors are white. So is the staff, except for one office administrator.

Looking at MomentUs partners, it appears that the same traditionally white environmental organizations who teamed up for USCAP are now working with corporations including ALEC funder Duke Energy, predatory subprime mortgage king Wells Fargo, perennial labor union target Sodexho, and Disney. At press time there are no environmental justice or civil rights groups involved.

On the other side of the spectrum, The Sierra Club — one of the nation’s largest and whitest green groups — has had an expansive role in environmental justice and advocacy, particularly in the Gulf Coast. In January it joined the NAACP and labor unions in launching the Democracy Initiative, which will tackle voting rights, environmental justice, and other civil rights concerns.

To be sure, it’s way too early to make a conclusion about MomentUs or the Democracy Initiative, but the latter appears to be a step in the right direction in terms of highlighting the intersection between poor environmental outcomes and racism.

McKibben, the 350.org founder, has helped cultivate a multicultural fight against the Keystone XL pipeline project, but he admits that the overall environmental movement has “tons of work to do” on racial equity and inclusion.

“The sooner [mainstream environmentalists] absorb the message and are led by members of the environmental justice movement, the better,” he says.

In that case, the question is a matter of timing and power, of who decides when and which environmental justice activists get to lead.

Stay tuned.

Brentin Mock is a New Orleans-based journalist who serves as ColorLines’s reporting fellow on voting rights.     

Índios isolados, trabalhadores em fuga: um encontro amazônico (Yahoo Notícias)

Por Ana Aranha | Reportagem 3 por 4 – 18.abr.2013

Os seis trabalhadores da construção civil estavam perdidos em meio à floresta amazônica, no norte de Rondônia. Algumas horas antes, eles tinham corrido mato a dentro para fugir do caos que tomara o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, onde a Polícia Militar reprimia o movimento grevista, em 2011. Depois de andar cerca de seis quilômetros, o grupo tentava encontrar o caminho de volta à obra, ou a estrada, ou qualquer sinal de urbanidade. Sem sucesso.

Ao invés disso, foram encontrados.

Sem perceber que estavam sendo cercados, os trabalhadores uniformizados se viram rodeados por oito índios nus. Eles tinham o rosto e corpo pintados, flechas em punho e “murmuravam” palavras em uma língua que os trabalhadores não conheciam. Mas logo interpretaram o sentido: estavam rendidos.

Índios isolados no Acre, fotografados pela Funai em 2008

Hoje, excepcionalmente, esse espaço não será dedicado a um retrato, mas a um encontro. Encontro que pode servir de pista para compor o retrato dos povos indígenas que habitam o nosso país e os quais temos tanta dificuldade de entender.

Assustados, os trabalhadores da usina se comportaram como prisioneiros dos índios. Seguiram seus passos e pararam quando eles sinalizaram. O coração disparava a cada vez que os índios se reuniam em círculo. Observaram a construção de uma espécie de churrasqueira com gravetos, onde um porco do mato foi assado. Disfarçando o mal estar, comeram cada pedaço de carne que lhes foi oferecido. À noite, um dos trabalhadores foi repreendido pelos colegas por espiar os seios da índia mais nova, a regra era olhar para o chão.

A madrugada avançou, alguns índios deitaram e adormeceram. Os trabalhadores ficaram alertas. Pela manhã, caminharam até chegar a um local onde se ouvia um barulho familiar. Os índios sinalizaram em direção ao som, disseram algumas frases que ninguém entendeu e foram embora. Os trabalhadores correram na direção indicada até que, exaustos, chegaram à rodovia federal BR 364.

Esse relato foi registrado pela historiadora Ivaneide Bandeira Cardozo, da ONG indigenista Kanindé, que entrevistou um dos trabalhadores na presença de um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio). Ela acredita que os homens e mulheres descritos sejam parte de um grupo que a entidade e a Funai tentam rastrear há anos. “Pela descrição, parecem ser Kawahiba isolados”.

“Isolados” são os índios que não têm contato com a nossa sociedade, ou porque nunca cruzaram com um não-índio (casos cada vez mais raros) ou porque recusam o contato.

Na região que foi alagada pela usina de Jirau, havia rastros de um grupo isolado e nômade. A empresa repassou dinheiro para que a Funai mapeasse esses rastros. Depois de identificados, eles deveriam ganhar uma área de proteção. Mas o investimento não foi suficiente para encontrar ou proteger os índios.

Ao contrário, foram eles que encontraram e salvaram os funcionários da usina. “É difícil entender o que passou na cabeça dos índios quando viram os trabalhadores perdidos”, reflete Ivaneide. “Por que decidiram ajudar? Nunca vamos saber”.

O encontro ocorrido em 2011 é o reflexo oposto do desencontro que se deu na Câmara dos Deputados essa semana. Na terça dia 16, em uma cena inédita, os deputados federais correram pelo plenário como uma manada assustada. Fugiam de homens seminus, pintados de urucum e que balançavam seus chocalhos para protestar contra a mudança da lei que define como as terras indígenas são demarcadas.

Se o comportamento dos índios isolados e dos deputados deixa alguma pista, é que continuamos longe de entender os povos que habitam a nossa terra.

Quando retornaram à usina, os trabalhadores contaram sobre o encontro, mas o supervisor deu risada, chamando-os de mentirosos. Como se fosse impossível haver índios nas proximidades da obra, cravada no meio da floresta amazônica.

Para Ivaneide, a precisão dos detalhes é a maior evidência da veracidade da história. “Os trabalhadores eram de outros estados, uma pessoa sem convivência com indígenas não poderia saber tanto. Ele descreveu a pintura no peito, os traços no rosto dos homens, diferente das mulheres, a pena do gavião real, como tratavam a ponta das flechas. Até os detalhes de como montaram o moquém, que é onde assam a carne”. Segundo ela, o relato bate com hábitos comuns a etnias que vivem ou viveram na região, algumas consideradas extintas.

Existem 82 pistas de grupos indígenas isolados no Brasil, é a maior concentração de povos isolados do mundo. Em março desse ano, os funcionários da Funai fizeram uma carta aberta com um “pedido de socorro”. Nela, escrevem que não há equipe para proteger esses grupos, cujos territórios estão sendo invadidos pelas grandes obras, madeireiros e traficantes.

Como lidar com índios isolados é um dos temas mais complexos dentro da política indigenista. Talvez a pequena mensagem deixada pelo grupo que resgatou os trabalhadores e pelos que invadiram o congresso seja justamente sobre os nossos limites. Os índios tem um modo diferente de ser, nem sempre seremos capazes de entende-los. Talvez esses encontros sejam os momentos para refletir sobre os impactos das nossas escolhas. E fazer um esforço para, a partir dessa nova realidade, respeitar as escolhas deles.

O novo velho Mano Brown (Revista Fórum)

10/04/2013 2:44 pm

Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez

“A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso”

“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.

A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”

O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”

Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”

Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?

Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.

O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.

Fórum – Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?

Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.

Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.

Fórum – E quem está matando nas periferias?

Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.

Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…

Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.

Fórum – Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?

Brown – Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.

A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.

“Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra”

Fórum – Um cenário de guerra, mesmo.

Brown – É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.

Fórum – Você entende isso como uma reação da elite?

Brown – Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…

Fórum – E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…

Brown – Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?

Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.

Fórum – Será que o povo leu isso desse jeito?

Brown – Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.

“O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir”

Fórum – Qual a sua opinião sobre o PCC?

Brown – O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.

Fórum – Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?

Brown – Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.

Fórum – Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.

Brown – Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.

Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.

Fórum – Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia. 

Brown – É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.

Fórum – Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse? 

Brown – O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.

Fórum – “Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?

Brown – Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas faltam um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.

Fórum – Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?

Brown – Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.

“Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica”

Fórum – Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?

Brown – O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.

Fórum – Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.

Brown – Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.

“Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê?”

Fórum – Você nunca pensou em se envolver com política?

Brown – Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.

Fórum – No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?

Brown – Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.

Fórum – Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?

Brown – Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.

Fórum – E o Marighella, como você chegou a ele?

Brown – Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.

Fórum – Você se surpreendeu com a história dele? 

Brown – Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.

Fórum – E religião, você tem proximidade com alguma delas?

Brown – Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?

O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.

Fórum – As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…

Brown – Já foram mais.

Fórum – Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo? 

Brown – O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.

Fórum – E o que mudou?

Brown – O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?

Fórum – Eles nunca tentaram chegar em você?

Brown – Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.

“Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom”

Fórum – Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?

Brown – Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.

Fórum – O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?

Brown – Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.

Fórum – Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?

Brown – O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.

Fórum – Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?

Brown – Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.

Fórum – A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…

Brown – Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.

Fórum – Sua relação com o Lula sempre foi forte.

Brown – É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.

Fórum – E você ainda tem simpatia pelo PT?

Brown – Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.

Fórum – Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?

Brown – Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.

Fórum – Quantos discos o Racionais vendeu?

Brown – Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.

Fórum – O que você pensa da pirataria?

Brown – Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.

Fórum – Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?

Brown – Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.

Fórum – E essas novas ideias…

Brown – Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.

Fórum – Você gosta de polêmicas, Brown?

Brown – O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.

Fórum – Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia. 

Brown – A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.

Fórum – Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?

Brown – Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.

Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?

“Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir”

Fórum – Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?

Brown – O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.

Fórum – O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?

Brown – Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.

Fórum – Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?

Brown – Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.

Fórum – Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?

Brown – A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.

Fórum – E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.

Brown – Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.

Fórum – E o Neymar?

Brown – O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano. F

Agradecemos à Produtora Boogie Naipe pela colaboração