Itália condena sete cientistas por não prever terremoto (Folha de São Paulo)

JC e-mail 4609, de 23 de Outubro de 2012.

Em 2009, o abalo sísmico em L’Aquila matou mais de 300 pessoas e deixou cerca de 65 mil desabrigadas. Justiça alega que os especialistas foram negligentes.

Um tribunal da Itália condenou ontem (22) sete cientistas a cumprir seis anos de prisão por não terem previsto o terremoto que atingiu o país em 2009, na cidade de L’Aquila, região de Abruzzo. Mais de 300 pessoas morreram.

Todos os cientistas, que vão recorrer em liberdade, eram membros da Comissão Nacional para Previsão e Prevenção de Riscos. Foram acusados de negligência, por não terem analisado corretamente as possibilidades do terremoto acontecer e, assim, alertar as autoridades.

Entre os sete condenados estão grandes nomes da ciência italiana, como o professor Enzo Boschi, que presidiu o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, e o vice-diretor da Defesa Civil, Bernardo de Bernardinis.

Cientistas de diversas partes do mundo protestaram contra a decisão do tribunal em condená-los por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Em protesto, uma carta com mais de 5.000 assinaturas de cientistas foi entregue ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, alegando que a ciência não possui meios para prever terremotos, e que o processo pode impedir que futuramente especialistas aconselhem governos a respeito de riscos sísmicos.

Imprevisível – Segundo a técnica de sismologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) Célia Fernandes, é muito difícil identificar o momento exato em que irá acontecer um abalo sísmico. “Todos os profissionais de sismologia trabalham com o objetivo de prever terremotos, mas não existe regra na natureza. Mesmo a recorrência de sismos não é garantia de que um terremoto de grande magnitude está prestes a acontecer”, afirma.

Os cientistas se reuniram na cidade de L’Aquila em 31 de março de 2009, seis dias antes do terremoto, e não comunicaram sobre a chance de um abalo sísmico. Para o tribunal, eles falharam por terem subestimado os riscos, limitando a ação das autoridades públicas, que não tiveram tempo suficiente para tomar medidas necessárias para proteger a população.

Segundo os promotores, uma série de tremores de baixo nível atingiu a região nos meses que antecederam o terremoto e isso deveria ter sido interpretado pelos especialistas como um sinal do que estava para acontecer.

O terremoto de magnitude 6,3 graus atingiu L’Aquila em abril de 2009. Além das mortes, também feriu outras 1.500 pessoas. Estima-se que 65 mil tenham ficado desabrigadas. A condenação dos cientistas ainda não é definitiva. Eles devem entrar com um recurso.

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Artigos:

David Alexander. An evaluation of medium-term recovery processes after the 6 April 2009 earthquake in L’Aquila, Central Italy. Environmental Hazards, iFirst.

Abstract

This article uses the earthquake of 6 April 2009 at L’Aquila, central Italy (magnitude 6.3) as a case history of processes of recovery from disaster. These are evaluated according to criteria linked to both vulnerability analysis and disaster risk-reduction processes. The short- and medium-term responses to the disaster are evaluated, and 11 criticisms are made of the Italian Government’s policy on transitional shelter, which has led to isolation, social fragmentation and deprivation of services. Government policy on disaster risk is further evaluated in the light of the UNISDR Hyogo Framework for Action. Lack of governance and democratic participation is evident in the response to disasters. It is concluded that without an adequately planned strategy for managing the long-term recovery process, events such as the L’Aquila earthquake open up Pandora’s box of unwelcome consequences, including economic stagnation, stalled reconstruction, alienation of the local population, fiscal deprivation and corruption. Such phenomena tend to perpetuate rather than reduce vulnerability to disasters.

“[…] science and scientists were not on trial. The hypothesis of culpability being tested in the courts referred to the failure to adopt a precautionary approach in the face of clear indications of impending seismic impact, not failure to predict an earthquake, and this is amply documented in official records”.

David E. Alexander. The L’Aquila Earthquake of 6 April 2009 and Italian Government Policy on Disaster Response. Journal of Natural Resources Policy Research, Vol. 2, Iss. 4, 2010

Abstract

This paper describes the impact of the earthquake that struck the central Italian city of L’Aquila on 6 April 2009, killing 308 people and leaving 67 500 homeless. The pre-impact, emergency, and early recovery phases are discussed in terms of the nature and effectiveness of government policy. Disaster risk reduction (DRR) in Italy is evaluated in relation to the structure of civil protection and changes wrought by both the L’Aquila disaster and public scandals connected with the misappropriation of funds. Six of the most important lessons are derived from this analysis and related to DRR needs both in Italy and elsewhere in the world.

“As articulated at the meeting of the Commission on Major Risks on 31 March 2009, the Italian Government’s position was unequivocal: there was no cause for alarm. This attitude permeated its way down the ranks of the civil protection system. Then, at 00:30 hrs on Monday 6 April 2010, a tremor that was larger than usual shook L’Aquila. Residents rushed out of their houses in alarm. The strategy adopted by civil protection authorities was to tour the streets with loudspeakers advising people to calm down and return home. In the town of Pagánica, less than 10 km northeast of L’Aquila, residents did exactly that: in the ensuing main shock three hours later, eight of them died and 40 were seriously injured. In L’Aquila city I investigated one case in which a young lady had decided to remain out of doors after the foreshock, while her parents returned home. Their bodies were recovered by firemen from a space barely 15 cm wide into which the building had compressed as it collapsed”.

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