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Torcida organizada do Fluminense faz festa de aniversário dentro da sede do clube, em Laranjeiras (ESPN)

Por Thales Machado, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.COM.BR

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Fluminense Torcida Young Flu Festa Sede do Clube Laranjeiras

Torcida organizada do Fluminense, a “Young Flu” fez sua festa de aniversário na sede do clube, em Laranjeiras

O elenco do Fluminense faz a pré-temporada na cidade de Mangaratiba, 85km distante do Rio de Janeiro. A sede social tricolor, no entanto, ficou agitada no último domingo. Em uma época na qual as relações entre agremiações e torcidas organizadas estão em pauta, a sede do clube tricolor, em Laranjeiras, recebeu uma grande festa de comemoração dos 43 anos da “Young Flu”, maior torcida organizada do time.

Se a torcida organizada pode frequentar o mesmo local onde os jogadores treinam, dirigentes administram e sócios frequentam o clube, o mesmo não se pode dizer dos estádios. A torcida “Young Flu” está, desde o fim de outubro do ano passado, suspensa dos estádios onde o Fluminense jogar, por um prazo de seis meses.

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Fluminense Torcida Young Flu Festa Sede do Clube Laranjeiras Torcedores Portão da Sede
Torcedores da “Young Flu” posam para foto em frente à sede do clube, onde a organizada fez sua festa
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Fluminense Torcedor Posta Foto Campo Laranjeiras Festa Young Flu

Torcedores postaram foto pisando no campo de treino

A decisão foi do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e ocorreu após ação violenta de um grupo de 30 integrantes da mesma depois da partida entre o Fluminense e o Vitória, pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã. A assessoria de imprensa do TJ confirma que a suspensão continua em 2014.

Com entradas cobradas a R$ 30 para homens e R$ 10 para mulheres, a festa ocupou uma das quadras da sede social, que foi decorada com bandeiras da facção. Na Rua Pinheiro Machado, em frente ao clube, ônibus de diversas cidades do Rio e de fora do estado desembarcavam membros da torcida. A entrada era controlada por seguranças do Fluminense Football Club.

“O espaço foi cedido para sócios do Fluminense, que fazem parte da torcida em questão. Os mesmos solicitaram espaço no clube para a realização de uma festa na qualidade de sócios. Todos os associados do clube possuem esse direito. Os convites para o evento não foram vendidos no Fluminense e qualquer pessoa que venha realizar uma festa no clube tem direito de cobrar a entrada, o mesmo valeria para a realização de uma festa de aniversário, onde o aniversariante pede a contribuição de seus convidados, por exemplo”, esclareceu em nota a assessoria de imprensa do Fluminense.

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Fluminense Torcedora Posta Foto Campo Laranjeiras Festa Young Flu

Fluminense diz que torcedores foram ‘repreendidos’ pelas fotos

No cartaz da foto, no entanto, é possível observar que a festa é claramente da organizada, não aparecendo nome de nenhum sócio. Para adentrar a festa, era obrigatório o uso de uma camisa especial da Young Flu, confeccionada para a festa.

Algumas fotos mostram que a festa se estendeu em outras partes do clube, incluindo o campo de treinamento, alvo de constantes reclamações de atletas e treinadores. No sábado, o clube divulgou imagens do tratamento que o campo vem recebendo, parecido com o do Maracanã. No dia seguinte, imagens de alguns torcedores que foram na festa posando no gramado podiam ser encontradas publicamente em redes sociais. Informado pela reportagem, o clube diz que os torcedores foram repreendidos pela administração logo que tiraram as fotos à beira do campo.

Prática não é comum em outros clubes do Rio

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Fluminense Torcida Young Flu Cartaz Festa Sede do Clube Laranjeiras

Cartaz da festa da “Young Flu”, feita na sede do Flu

As conturbadas relações entre clubes e torcidas fazem parte da história recente do futebol no Rio de Janeiro. O próprio Fluminense já se envolveu em polêmicas com ingressos sendo distribuídos a facções. Os rivais, Vasco, Fluminense e Botafogo, já tiveram problemas diversos, envolvendo até violência e ameaça a jogadores.

Tradicionais entre as torcidas, as festas de aniversário não costumam acontecer nas dependências dos clubes, como no caso da agremiação tricolor agora. A Força Jovem Vascaína, por exemplo, maior torcida do Vasco, comemorou seus 42 anos na quadra da Unidos da Tijuca, escola de samba importante da cidade. A Fúria Jovem do Botafogo costumava comemorar seu aniversário na Kabanna Catonho, uma casa de shows. O local foi interditado por falta de segurança, e ano passado a torcida mudou a festa para outro local na Penha, Zona Norte do Rio. A exceção é a torcida “Botachopp”, do Botafogo, que comemorou 11 anos de existência em uma festa no ano passado, no interditado Engenhão.

“Isso só ocorre com a Botachopp porque é uma torcida bem mais família. São senhoras, senhores, gente de paz, tem até a ´BotaSuco´, que é para confraternizar as crianças. A torcida nunca se envolveu em briga, ou foi suspensa, nem teve ninguém preso. Duvido muito que a diretoria liberaria o Engenhão ou General Severiano se fosse a Fúria ou a TJB, que são mais perigosas”, afirmou Rafael Oliveira, integrante da torcida desde 2006.

Duas maiores organizadas do Flamengo, “Jovem Fla” e “Raça Rubro Negra” também não usam a Gávea ou qualquer outra dependência do clube para qualquer evento festivo, usando, em maioria, casas de shows para isso.

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Torcida Fúria Jovem Botafogo

Comunicado da “Fúria Jovem”, do Botafogo, sobre mudança do local de sua festa 

PT responde movimento #nãovaitercopa e cria o #vaitercopa (OESP)

13.janeiro.2014 17:48:50

Desde domingo, 12, sigla vem utilizando redes sociais para promover o evento que vem sendo alvo de críticas de movimentos sociais

Carla Araújo

São Paulo – Após a presidente Dilma Rousseff publicar no Diário Oficial da União, no último dia 10, decreto que destinou dois novos funcionários para Secretaria-Geral da Presidência para promover “diálogo com os movimentos e segmentos sociais por ocasião da Copa do Mundo FIFA 2014″, o Partido dos Trabalhadores (PT) usou a página da presidente e do partido no Facebook para estimular uma campanha defendendo a realização da Copa no País.

Com a marca #VaiTerCopa, no domingo, 12, o PT publicou a mensagem: “Tá combinado. Uma boa semana para todos que torcem pelo Brasil. #VaiTerCopa”. Já na página oficial da presidente, que é administrada pelo partido, a mensagem afirmava: “LÍQUIDO E CERTO. Uma boa semana para todos que torcem pelo Brasil. #VaiTerCopa.”

Apesar de a expressão ser evidentemente uma resposta ao protesto que tem sido marcado para o próximo dia 25 em todo o País, com a mensagem “Não vai ter Copa”, o responsável por gerenciar as redes sociais do PT, o vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, afirmou que a ideia “Não teve um objetivo concreto. É porque as pessoas ficam cobrando que a gente fale alguma coisa.”

Segundo Cantalice, a ideia não foi para fazer contraposição ao provável protesto. “Não foi uma coisa para fazer resistência à movimentação popular, até porque a população é amplamente favorável à Copa”, afirmou. Ele disse ainda que a ideia de colocar mensagem na página do PT e da presidente foi uma forma de “testar, para ver se a mensagem ia pegar”. “Não foi nada articulado, só colocamos ali para ver como ia ser e foi extremamente positivo”, avaliou.

Até a tarde desta segunda-feira, a mensagem postada pelo PT havia sido compartilhada por 595 pessoas e curtida por 1.059 pessoas. A página petista tem pouco mais de 75 mil seguidores. No caso da página da presidente, o texto foi replicado por 1.796 e curtido por mais de 5 mil pessoas. A página de Dilma possui 185 mil fãs.

Confira a mensagem postada pelo PT no Facebook

Foto: Reprodução

Além da página administrada pelo PT, Dilma se comunica com os internautas por meio da página do blog Dilma Rousseff, onde as mensagens costumam ser mais institucionais. Apesar de não ter postado até o momento a mensagem #vaitercopa, a página postou nesta segunda-feira, 13, um texto destacando a situação do estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, que já está com 97% das obras concluídas.

Protesto. Após os protestos de 2012, internautas tentam se mobilizar para realizar a primeira grande manifestação do ano utilizando o apelo da Copa no Brasil. O movimento, que ganhou o nome de Não Vai Ter Copa, está se organizando nas redes sociais para o próximo dia 25 um ato de repúdio ao evento esportivo. A comunidade oficial do ato no Facebook, no entanto, ainda não atingiu um grande número de pessoas comparado aos eventos de 2013. Criada no dia 15 de julho do ano passado, a comunidade possui apenas 4.764 seguidores até o momento.

Em São Paulo, o protesto está marcado para as 17h, no vão livre do Masp. Até o momento, a página criada para estimular o evento tem 1.653 participações confirmadas. O texto com a assinatura “We are Anonymous” (nós somos anônimos) critica os gastos do governo com a Copa e cobra ações da presidente Dilma prometidas durante as manifestações. “Junho passou. Cadê a reforma política prometida pela presidenta Dilma? Via plebiscito ou não, desapareceu. Não houve nenhuma mudança real no parâmetro político ou social desde o começo dos levantes”, diz o texto.

Os ativistas dizem ainda que durante a Copa das Confederações no ano passado “todas as cidades lutaram pelo fim dos jogos”. “O Brasil precisa mudar, e não é no futebol. O clamor popular de Janeiro em diante terá apenas uma voz: NÃO VAI TER COPA”. No Rio de Janeiro, o grupo que criou a comunidade oficial do movimento também está organizando os protestos para as 17 horas do dia 25. A princípio, conforme informação publicada no Facebook, o local da manifestação será em frente ao Copacabana Palace.

Europe to Suffer from More Severe and Persistent Droughts (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — As Europe is battered by storms, new research reminds us of the other side of the coin. By the end of this century, droughts in Europe are expected to be more frequent and intense due to climate change and increased water use.

Dry river bed in a peat upland in Northern England. (Credit: Catherine Moody, distributed via imaggeo.egu.eu)

These results, by researchers from the European Commission’s Joint Research Centre (JRC) and the University of Kassel in Germany, are published today in Hydrology and Earth System Sciences, an open access journal of the European Geosciences Union (EGU).

“Our research shows that many river basins, especially in southern parts of Europe, are likely to become more prone to periods of reduced water supply due to climate change,” says Giovanni Forzieri, a researcher in climate risk management at the JRC and lead author of the study. “An increasing demand for water, following a growing population and intensive use of water for irrigation and industry, will result in even stronger reductions in river flow levels.”

Drought is a major natural disaster that can have considerable impacts on society, the environment and the economy. In Europe alone, the cost of drought over the past three decades has amounted to over 100 billion euros. In this study, the researchers wanted to find out if and where in Europe increasing temperatures and intensive water consumption could make future droughts more severe and long-lasting.

To do this, they analysed climate and hydrological models under different scenarios. “Scenarios are narratives of possible evolutions — up to 2100 in this study — of our society that we use to quantify future greenhouse gas emissions and water consumption by different sectors,” explains Luc Feyen, a hydrologist at JRC and co-author of the paper. “Climate and water-use models then translate the greenhouse gas concentrations and water requirement into future climate and water consumption projections.”

The scientists then used these projected conditions to drive a hydrological model that mimics the distribution and flow of water on Earth. By running this model until 2100 for all river basins in Europe, they could evaluate how drought conditions may change in magnitude and severity over the 21st century.

The research shows that southern parts of Europe will be the most affected. Stream and river minimum flow levels may be lowered by up to 40% and periods of water deficiency may increase up to 80% due to climate change alone in the Iberian Peninsula, south of France, Italy and the Balkans.

Higher temperatures not only result in more water being evaporated from soils, trees and bodies of water, but will also lead to more frequent and prolonged dry spells, reducing water supply and worsening droughts. The emission scenario used in the study predicts that average global temperature will increase by up to 3.4°C by 2100, relative to the period 1961-1990. But the authors warn that the warming projected for Europe, particularly its southern regions, is even stronger. “Over the Iberian Peninsula, for example, summer mean temperature is projected to increase by up to 5°C by the end of this century,” says Feyen.

In addition to climate warming, intensive water use will further aggravate drought conditions by 10-30% in southern Europe, as well as in the west and centre of the continent, and in some parts of the UK.

“The results of this study emphasise the urgency of sustainable water resource management that is able to adapt to these potential changes in the hydrological system to minimise the negative socio-economic and environmental impacts,” Forzieri concludes.

Journal Reference:

  1. G. Forzieri, L. Feyen, R. Rojas, M. Flörke, F. Wimmer, A. Bianchi. Ensemble projections of future streamflow droughts in EuropeHydrology and Earth System Sciences, 2014; 18 (1): 85 DOI: 10.5194/hess-18-85-2014

Climate Engineering: What Do the Public Think? (Science Daily)

Jan. 12, 2014 — Members of the public have a negative view of climate engineering, the deliberate large-scale manipulation of the environment to counteract climate change, according to a new study.

The results are from researchers from the University of Southampton and Massey University (New Zealand) who have undertaken the first systematic large-scale evaluation of the public reaction to climate engineering.

The work is published in Nature Climate Change this week (12 January 2014).

Some scientists think that climate engineering approaches will be required to combat the inexorable rise in atmospheric CO2 due to the burning of fossil fuels. Climate engineering could involve techniques that reduce the amount of CO2 in the atmosphere or approaches that slow temperature rise by reducing the amount of sunlight reaching the Earth’s surface.

Co-author Professor Damon Teagle of the University of Southampton said: “Because even the concept of climate engineering is highly controversial, there is pressing need to consult the public and understand their concerns before policy decisions are made.”

Lead author, Professor Malcolm Wright of Massey University, said: “Previous attempts to engage the public with climate engineering have been exploratory and small scale. In our study, we have drawn on commercial methods used to evaluate brands and new product concepts to develop a comparative approach for evaluating the public reaction to a variety of climate engineering concepts.”

The results show that the public has strong negative views towards climate engineering. Where there are positive reactions, they favour approaches that reduce carbon dioxide over those that reflected sunlight.

“It was a striking result and a very clear pattern,” said Professor Wright. “Interventions such as putting mirrors in space or fine particles into the stratosphere are not well received. More natural processes of cloud brightening or enhanced weathering are less likely to raise objections, but the public react best to creating biochar (making charcoal from vegetation to lock in CO2) or capturing carbon directly from the air.”

Nonetheless, even the most well regarded techniques still has a net negative perception.

The work consulted large representative samples in both Australia and New Zealand. Co-author Pam Feetham said: “The responses are remarkably consistent from both countries, with surprisingly few variations except for a slight tendency for older respondents to view climate engineering more favourably.”

Professor Wright noted that giving the public a voice so early in technological development was unusual, but increasingly necessary. “If these techniques are developed the public must be consulted. Our methods can be employed to evaluate the responses in other countries and reapplied in the future to measure how public opinion changes as these potential new technologies are discussed and developed,” he said.

Journal Reference:

  1. Malcolm J. Wright, Damon A. H. Teagle, Pamela M. Feetham. A quantitative evaluation of the public response to climate engineeringNature Climate Change, 2014; DOI: 10.1038/nclimate2087

Rolezinhos: O que estes jovens estão “roubando” da classe média brasileira – por Eliane Brum (Época)

Publicado em Quarta, 25 Dezembro 2013

Os novos “vândalos” do Brasil

O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, “roubando” da classe média brasileira?

eliane brum

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram “convidados” a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum “tumulto”, mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás.

Se não há crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo está sendo criminalizada?

Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou “nova classe média”, parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca.

Antes, em 7 de dezembro, cerca de 6 mil jovens haviam ocupado o estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, e também foram reprimidos. Vários rolezinhos foram marcados pelas redes sociais em diferentes shoppings da região metropolitana de São Paulo até o final de janeiro, mas, com medo da repressão, muitos têm sido cancelados. Seus organizadores, jovens que trabalham em serviços como o de office-boy e ajudante geral, temem perder o emprego ao serem detidos pela polícia por estarem onde supostamente não deveriam estar – numa lei não escrita, mas sempre cumprida no Brasil. Seguranças dos shoppings foram orientados a monitorar qualquer jovem “suspeito” que esteja diante de uma vitrine, mesmo que sozinho, desejando óculos da Oakley ou tênis Mizuno, dois dos ícones dos funkeiros da ostentação. Às vésperas do Natal, o Brasil mostra a face deformada do seu racismo. E precisa encará-la, porque racismo, sim, é crime.

“Eita porra, que cheiro de maconha” foi o refrão cantado pelos jovens ao entrarem no Shopping Internacional de Guarulhos. O funk é de MC Daleste, que afirma no nome artístico a região onde nasceu e se criou, a zona leste, a mais pobre de São Paulo, aquela que todo o verão naufraga com as chuvas, por obras que os sucessivos governos sempre adiam, esmagando sonhos, soterrando casas, matando adultos e crianças. Daleste morreu assassinado em julho com um tiro no peito durante um show em Campinas – e assassinato é a primeira causa de morte dos jovens negros e pobres no Brasil, como os que ocuparam o Shopping Internacional de Guarulhos.

A polícia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu. Uma das frequentadores do shopping disse a frase-símbolo à repórter Laura Capriglione, na Folha de S. Paulo: “Tem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este”. Nos dias que se seguiram, em diferentes sites de imprensa, leitores assim definiram os “rolezeiros” (veja entrevista abaixo): “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Negros emerge aqui como palavra de ofensa.

As novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de riqueza. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem neste mundo.”

O funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá. Em seus clipes, os MCs aparecem com correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, em carros caros, cercado por mulheres com muita bunda e pouca roupa. (Para conhecer o funk da ostentação, assista ao documentárioaqui). Diferentemente do núcleo duro do hip hop paulista dos ano 80 e 90, que negava o sistema, e também do movimento de literatura periférica e marginal que, no início dos anos 2000, defendia que, se é para consumir, que se compre as marcas produzidas pela periferia, para a periferia, o funk da ostentação coloca os jovens, ainda que para a maioria só pelo imaginário, em cenários até então reservados para a juventude branca das classes média e alta. Esta, talvez, seja a sua transgressão. Em seus clipes, os MCs têm vida de rico, com todos os signos dos ricos. Graças ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.

Esta exaltação do luxo e do consumo, interpretada como adesão ao sistema, tornou o funk da ostentação desconfortável para uma parcela dos intelectuais brasileiros e mesmo para parte das lideranças culturais das periferias de São Paulo. Agora, os rolezinhos – e a repressão que se seguiu a eles – deram a esta vertente do funk uma marca de insurgência, celebrada nos últimos dias por vozes da esquerda. Ao ocupar os shoppings, a juventude pobre e negra das periferias não estava apenas se apropriando dos valores simbólicos, como já fazia pelas letras do funk da ostentação, mas também dos espaços físicos, o que marca uma diferença. E, para alguns setores da sociedade, adiciona um conteúdo perigoso àquele que já foi chamado de “funk do bem”.

A resposta violenta da administração dos shoppings, das autoridades públicas, da clientela e de parte da mídia demonstra que esses atores decodificaram a entrada da juventude das periferias nos shoppings como uma violência. Mas a violência era justamente o fato de não estarem lá para roubar, o único lugar em que se acostumaram a enxergar jovens negros e pobres. Então, como encaixá-los, em que lugar colocá-los? Preferiram concluir que havia a intenção de furtar e destruir, o que era mais fácil de aceitar do que admitir que apenas queriam se divertir nos mesmos lugares da classe média, desejando os mesmo objetos de consumo que ela. Levaram uma parte dos rolezeiros para a delegacia. Ainda que tivessem de soltá-los logo depois, porque nada de fato havia para mantê-los ali, o ato já estigmatizou-os e assinalará suas vidas, como historicamente se fez com os negros e pobres no Brasil.

Jefferson Luís, 20 anos, organizador do rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos, foi detido, é alvo de inquérito policial, sua mãe chorou e ele acabou cancelando outro rolezinho já marcado por medo de ser ainda mais massacrado. Ajudante geral de uma empresa, economizou um mês de salário para comprar a corrente dourada que ostenta no pescoço. Jefferson disse ao jornal O Globo: “Não seria um protesto, seria uma resposta à opressão. Não dá para ficar em casa trancado”.

Por esta subversão, ele não será perdoado. Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir – e nos shoppings? Mais uma frase de Jefferson Luiz: “Se eu tivesse um quarto só pra mim hoje já seria uma ostentação”. Ele divide um cômodo na periferia de Guarulhos com oito pessoas.

Neste Natal, os funkeiros da ostentação parecem ter virado os novos “vândalos”, como são chamados todos os manifestantes que, nos protestos, não se comportam dentro da etiqueta estabelecida pelas autoridades instituídas e por parte da mídia. Nas primeiras notícias da imprensa, o rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos foi tachado de “arrastão”. Mas não havia arrastão nenhum. O antropólogo Alexandre Barbosa Pereira faz uma provocação precisa: “Se fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe média, como aconteceu várias vezes, seria interpretado como um flash mob?”.

A ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.”

Por que os administradores dos shoppings, polícia, parte da mídia e clientela só conseguem enquadrar um grupo de jovens negros e pobres dentro de um shopping como “arrastão”? Há várias respostas possíveis. Pereira propõe uma bastante aguda: “Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem?”. Seria este o “roubo” imperdoável, que colocou as forças de repressão na porta dos shoppings, para impedir a entrada de garotos desarmados que queriam zoar, dar uns beijos e cobiçar seus objetos de desejo nas vitrines?

Para nos ajudar a pensar sobre os significados do rolezinho e do funk da ostentação, entrevisto Alexandre Barbosa Pereira nesta coluna. Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele dedica-se a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas. Em seu mestrado, percorreu o mundo da pichação. No doutorado, mergulhou nas escolas públicas para compreender o que é “zoar”. Desde 2012, pesquisa o funk da ostentação. Mesmo que os rolezinhos, pela força da repressão, se encerrem neste Natal, há muito que precisamos compreender sobre o que dizem seus protagonistas – e sobre o que a reação violenta contra eles diz da sociedade brasileira

– O rolezinho aparece ligado ao funk da ostentação. Em que medida há, de fato, essa ligação?

Alexandre Barbosa Pereira – O funk ostentação é uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Região Metropolitana de São Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte temática: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. Não se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente começaram a produzir videoclipes inspirados na estética dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento é a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, até então, era principalmente a criminalidade para o consumo. As músicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao invés de cantarem: “Rouba moto, rouba carro, bandido não anda à pé” (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostentação cantam: “Vida é ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, vários investimentos. Ah como é bom ser o top do momento” (MC Danado). Deste modo, os MCs começaram a ter mais espaços para cantar em casas noturnas e passaram a produzir videoclipes cada vez mais elaborados, com mais de 20 milhões de acessos no YouTube, o que levou a um sucesso às margens da mídia tradicional. Alguns MCs chegaram a alcançar grande repercussão entre um segmento do público jovem, sem nunca ter aparecido na televisão. Vi meninas chorando por MCs em bailes, mesmo antes de o funk ostentação alcançar o destaque que conseguiu na grande mídia. Surgiram empresas especializadas na produção de clipes no estilo ostentação, como a Kondzilla e a Funk TV, claramente inspirados no gangsta rap, em que os jovens aparecem em carrões e motos, exibindo-se com roupas, dinheiro e mulheres. Uma reflexão interessante a se fazer é como a mídia tradicional, que antes execrava o chamado funk proibidão, que falava de crime, drogas e sexo abertamente, agora começa a elogiar o funk ostentação, denominando-o até como “funk do bem” e ressaltando a trajetória econômica e social ascendente dos MCs.

Pergunta. Fazendo um parêntese aqui, antes de chegar ao rolezinho, qual é o caminho para um jovem pobre ter acesso ao consumo de luxo, segundo o olhar do funk da ostentação? Esta virada que você mencionou…

Resposta. Primeiro que esse bem de luxo não é tão de luxo assim, afinal uma garrafa de uísque a 60 ou 80 Reais não é nenhum absurdo. É sempre possível comprar uma réplica daqueles óculos escuros que custam mais de mil reais. Nas casas noturnas de funk que observei, este era o preço. Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. Não sai tão caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim estão fora do alcance da maioria desses jovens. Mas aí há uma explicação interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem como um mundo de “riqueza” ou de “luxo”, com carros, mansões, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prestígio, daí a grande identificação. O crime pode ser um caminho para acessar esse mundo de luxo ou o que esses jovens entendem por um mundo de luxo, mas não é único. Esta é a lição que muitos MCs de funk têm tentando passar em suas falas na grande mídia. Eles de certa forma mostram um outro caminho, que, aliás, sempre esteve presente para esses jovens da periferia: tornar-se famoso pela música ou pelo futebol. Aliás, esses são caminhos que aparecem como os mais possíveis para os jovens negros e pobres das periferias do país imaginarem um futuro de sucesso. Num mundo em que há uma forte divisão entre trabalho intelectual e manual, com a extrema valorização do primeiro, o uso do corpo em formas lúdicas como meio de ganhar dinheiro mostra-se como opção para uma transformação da vida. “Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso aí”, esse é o Negro Drama cantado pelos Racionais MC’s. Os MCs de funk ostentação estão tentando dizer que é possível construir uma vida de sucesso pela música. E o que era ficção, os videoclipes com carros importados emprestados ou alugados, com dinheiro cenográfico jogado para o ar, começa a tornar-se realidade. Muitos deles começam a ganhar uma quantidade razoável de dinheiro com os shows. Acho que a ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.

Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”

Por outro lado, é preciso destacar que masculinidades pautadas pelo desejo de possuir um automóvel ou uma motocicleta não foram construídas pelo funk ostentação. Já existia há um tempo. Para os meninos da periferia, possuir um bom carro, bonito e potente, é uma das metas principais de vida. A posse do carro é, no imaginário desses jovens, mas também da população em geral, um indicativo de sucesso econômico e social, garantindo, consequentemente, sucesso com as mulheres.

Neste caldo cultural, o consumo é cada vez mais exaltado como espaço de afirmação e de reconhecimento para os jovens. É, inclusive, bastante complexa a forma como se dá a relação entre criminalidade e consumo no funk. Na virada que produziram, parece que há o recado de que essas duas ações sociais podem constituir dois lados de uma mesma moeda. Eles não deixam de falar do crime. Acabam citando-o indiretamente, como nas músicas do MC Rodofilho, nas quais ele celebra: “Ai meu deus, como é bom ser vida loka!”. O importante é entender como o crime e o consumo são pautas constantes nas relações de sociabilidade dos jovens da periferia. Os mais pobres também querem que ipads, iphones e automóveis potentes façam parte de seu mundo social. Ainda preciso observar e refletir mais sobre isso, mas acho que tanto no caso do crime, como no do consumo temos que atentar mais para o modo como se dão as relações entre pessoas e coisas. Fico pensando que a busca de realização apenas pelo consumo envolve sentimentos e posturas extremas de um egoísmo hedonista e de um profundo desprezo pelos outros humanos. As mercadorias, ou as coisas almejadas, de certa forma têm conformado as subjetividades contemporâneas. E nessas novas subjetividades, pautadas pelo instantâneo e o instável, parece não haver muito espaço para a solidariedade. Há uma nova tendência na discussão antropológica afirmando que não podemos entender as coisas apenas como representação ou resultado do social. Precisamos pensar também em como as coisas fazem as pessoas e mesmo o social, como as coisas, ou as mercadorias mais desejadas hoje, motivam tanto um consumismo desenfreado, irracional e egoísta, quanto o ingresso de jovens na criminalidade. Sempre fico espantado quando vejo as imagens, em outros países, das pessoas correndo desesperadas para comprar um novo lançamento de smartphone, videogame ou tablet… Mas não só isso, tais coisas também motivam e determinam formas de estar, pensar, relacionar-se e sentir no mundo contemporâneo.

Penso muito nisso quando parte da classe média critica o consumo desses jovens, dizendo que apenas eles – da classe média que, supostamente, pagaria os impostos – têm direito a consumir, ou se relacionar com certos produtos. Será que, desse modo, a classe média entende que os jovens estão roubando o direito exclusivo de eles consumirem ou de se relacionarem com esses objetos de prestígio? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo?

Essa crítica pode vir inclusive de certa classe média mais intelectualizada e mesmo com ideias políticas progressistas, mas que acha que sabe o que é melhor para os pobres. Aí fazem a crítica, a partir dos seus ipads e iphones, ao que entendem como um consumo irracional dos mais pobres, que deveriam poupar ao invés de gastar com produtos que não seriam para o nível econômico deles. Enfim, tem aí um jogo de perde e ganha e também de busca de satisfações individuais que envolve o roubo do direito de alguns ao consumo, que é preciso aprofundar para entendermos melhor essas dinâmicas contemporâneas. Todos têm o direito a consumir o que quiserem hoje? E seria viável, hoje, todos consumirem em um alto padrão? Que implicações ambientais teríamos? E se não é sustentável ou viável que todos consumam em tamanha intensidade, por que incentivamos tal consumismo? Com isso, o que quero dizer é que não se pode pensar a relação entre crime e consumo apenas entre os pobres, mas creio que precisamos também olhar para as classes médias e altas e para os crimes que, historicamente, têm sido cometidos contra os mais pobres e o meio ambiente para proteger o consumo dos ricos.

P. É neste ponto que os rolezinhos aparecem e criam uma tensão das mais reveladoras neste Natal?

R. Os rolezinhos nos shoppings estão ligados diretamente a esse contexto. Não sei dizer como surgiram efetivamente, mas me parece que despontaram por essas novas associações que as redes sociais permitem fazer, de forma que uma brincadeira possa virar algo sério. De repente, uma convocatória feita na internet pode levar centenas de jovens a se encontrarem num shopping, local onde podem ter acesso a esses bens cantados nas músicas, ainda que apenas por acesso visual. Agora, o que é importante ressaltar é que não foram os rolezinhos nem o funk ostentação que criaram essa relação de fascinação com consumo. Esta já existia há muito tempo. Os Racionais, há mais de dez anos, já cantavam sobre isso, com afirmações como: “Você disse que era bom e a favela ouviu, lá também tem uísque, red bull, tênis nike e fuzil” ou “Fartura alegra o sofredor”

É importante perceber que os shoppings onde os rolezinhos ocorreram estão em regiões mais periféricas. Eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade.”

P. Algumas análises relacionam os rolezinhos a uma ação afirmativa da juventude negra e pobre, a uma denúncia da opressão e a uma reivindicação de participação, neste caso no mundo do consumo. Como você analisaria este fenômeno tão novo?

R. Não me arriscaria a dizer que há um movimento político muito claro. Pode indiretamente constituir-se como uma ação afirmativa da juventude negra e pobre. Talvez a tensão que se criou com a criminalização desses jovens, durante os rolezinhos, possa levar a algum tipo de reflexão e ação política maior, mas é difícil prever. Em um livro intitulado Cidadania Insurgente, (o antropólogo americano) James Holston analisa o surgimento das periferias urbanas no Brasil, particularmente em São Paulo, apontando a discriminação contra certas espécies de cidadãos no Brasil. Esse autor mostra como, historicamente, as formulações de cidadania elaboradas pelos mais pobres se deram a partir de sua ocupação dos bairros nas periferias das grandes cidades. Noções e práticas próprias de cidadania que se produziram, ao mesmo tempo, por meio das experiências de tornar-se proprietário, de participar de movimentos sociais por melhorias dos bairros e de ingressar no mercado consumidor. Primeiro se ocupou os bairros, mesmo sem estrutura mínima. Depois, ocorreram as reivindicações pela legalização dos terrenos ocupados. E, enfim, vieram as lutas pela chegada da energia elétrica, saneamento básico e asfalto. Acho sempre muito interessante, em conversas com lideranças antigas dos bairros periféricos de São Paulo, observar que elas indicam a chegada do asfalto como o grande marco de transformação do bairro e a integração deste ao espaço urbano.

Encaro, portanto, ações como estas, dos rolezinhos, do ponto de vista dessa “cidadania insurgente”, referindo-se a associações de cidadãos que reivindicam um espaço para si e, assim, se contrapõem ao grande discurso hegemônico ou, se não se dissociam do discurso hegemônico, ao menos provocam ruídos nele. Trata-se de uma reivindicação por cidadania, participação política e direitos que, historicamente, foi feita na marra, pelos mais pobres, muitas vezes nas costuras entre o legal e o ilegal, e que começou com a própria ocupação dos bairros na periferia da cidade de São Paulo, como forma de habitar e sobreviver no mundo urbano. Essa cidadania não necessariamente se apresenta como resistência, mas pode também querer, em muitos casos, associar-se ao hegemônico, produzindo dissonâncias.

O que são o funk ostentação e os rolezinhos se não essa reivindicação dos jovens mais pobres por maior participação na vida social mais ampla pelo consumo? Estas ações culturais parecem situar-se nessa lógica, que não necessariamente se contrapõe ao hegemônico, na medida em que tenta se afirmar pelo consumo, mas provoca um desconforto, um ruído extremamente irritante para aqueles que se pautam por um discurso e uma prática de segregação dos que consideram como seus “outros”.

P. Como definir este desconforto? O que são os “outros” neste contexto? E que papel estes “outros” desempenham?

R. O desconforto em ver pobres ocupando um lugar em que não deveriam estar, como o de consumidores de certos produtos que deveriam ser mais exclusivos. É um tipo de espanto, que indaga: “Como eles, que não têm dinheiro, querem consumir produtos que não são para a posição social e econômica deles?”. Estes “outros” são os considerados “subalternos”. Podem ser funkeiros, pobres e pardos da periferia, mas podem ser também as empregadas domésticas, os motoboys, os pichadores, entre outros “outros”, que muitas vezes são utilizados como bode expiatório das frustrações de uma parcela considerável da classe média.

Há uma tendência de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas: a do bandido, a da vítima e a do herói.”

Os rolezinhos não são protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirmações de: “Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo”. Entretanto, por serem jovens pobres de bairros periféricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um gênero musical considerado marginal, eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na própria concepção do shopping, não está prevista a presença desse público, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe média alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercussão seria a mesma, se a criminalização seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um flash mob. Há uma tendência, por parcela considerável da classe média, da mídia e do poder público de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas, quase sempre exclusivistas: a do bandido, a da vítima e a do herói.

P. Como funcionam estas três perspectivas – bandido, vítima e herói?

R.  São muito mais formas de enquadrar esses jovens por aqueles que querem tutelá-los do que categorias assumidas pelos próprios jovens. Por isso, são contextuais. Dependendo da situação e dos atores sociais com quem dialogam, o jovem pode ser entendido a partir de uma dessas categorias. O pichador, por exemplo, é um agente que pode mobilizar todas essas classificações, dependendo do contexto e dos interlocutores: a polícia, a secretaria de cultura, os pesquisadores acadêmicos ou a ONG que quer salvar os jovens da periferia da violência. No caso do funk, por exemplo, já há comentários e mesmo textos de pessoas mais politizadas vendo os rolezinhos como uma ação afirmativa ou extremamente contestatória. Para estes, os protagonistas dos rolezinhos são vítimas que se tornaram heróis. Outros, como a polícia, a administração dos shoppings e a clientela, mas também seus vizinhos, que moram lá nos bairros pobres da periferia, enxergam neles principalmente vilões e mesmo bandidos.

Jovens como estes que estão nos rolezinhos não necessariamente aceitam se encaixar nesses rótulos, mas, em alguns casos, podem também se encaixar em todos eles ao mesmo tempo. Não se pode simplificar um fenômeno como este. Porém, se pensarmos esse movimento que surge principalmente com o hip hop, de valorizar a periferia como espaço político e de afirmação positiva, é possível ver, sim, ainda que em menor intensidade, uma certa ação política. De dizer: “Somos da quebrada e temos orgulho disso”. Um movimento de reversão do estigma em marca positiva.

P. Mas há, de fato, uma ação consciente, organizada, com um sentido político prévio? Ou o sentido está sendo construído a partir dos acontecimentos, o que é igualmente legítimo?

R. Olha, sinceramente, é difícil dizer se há um sentido político, direto, consciente e/ou explícito. Talvez por parte de alguns, mas pelo que vi nas redes sociais, não da maioria. Se o movimento persistir ou tomar outras formas, pode ser que tal sentido político fique mais forte. Por enquanto é difícil analisar esse ponto. O antropólogo (indiano) Arjun Appadurai analisa há algum tempo as mudanças que se processam no mundo por causa do avanço das tecnologias de comunicação e de transporte. Segundo este autor, as pessoas cada vez mais se deslocam no mundo atual, e não apenas fisicamente, mas também e talvez principalmente pela imaginação, por causa de meios de comunicação como a televisão e, mais recentemente, pela internet. Hoje é possível imaginar-se nos mais diferentes lugares do mundo, mas também em diferentes classes sociais. O que são os videoclipes de funk da ostentação que não imagens/imaginações que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social ou possuir melhores condições econômicas para o consumo?

O que são os videoclipes de funk ostentação que não imagens que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social?”

Essa imaginação, segundo esse autor, pode constituir-se como um projeto político compartilhado, mas pode também ser apenas uma fantasia, como algo individualista e egoísta, sem grandes potenciais políticos. Parece-me que o funk da ostentação em São Paulo e movimentos como o dos rolezinhos nos shoppings têm intensamente essas duas potências. Difícil saber se alguma delas irá prevalecer ou tornar-se hegemônica.

P. A escolha da música do MC Daleste, assassinado num show em Campinas, para o rolezinho promovido no Shopping Internacional de Guarulhos, pode ter um significado a mais?

R. A escolha da música do MC Daleste na entrada dos jovens no shopping de Guarulhos me pareceu bastante significativa, por vários motivos. Principalmente, porque a morte dele no palco, cantando funk, de certa forma construiu um marco para esse funk da ostentação. O seu assassinato acabou por dar ainda mais visibilidade a esta vertente do funk paulista. MC Daleste cantava proibidão antes e, assim, essa relação confusa entre crime e consumo manifesta-se de modo bastante forte no que o MC Daleste representa. Há no seu próprio nome artístico essa afirmação de um certo orgulho do lugar de onde vem e de ser da periferia, que tanto o funk quanto o hip hop expressam. Não é por acaso que ele é “Da Leste”. Lembremos que Guarulhos também está à leste da Região Metropolitana de São Paulo.

P. Hoje, uma parte significativa da geração que se criou nas periferias com movimentos contestatórios como o hip hop e a literatura periférica ou marginal tem, pelo funk da ostentação, assumido os valores de consumo das classes médias e alta. Como você analisa este fenômeno e o insere no contexto histórico atual do Brasil?

R. O que um evento como esse parece evidenciar é, por um lado, esse anseio por consumir e por afirmar-se pelo consumo que esses jovens vêm demonstrando já há algum tempo, pelas letras dos funks, mas que também já é visto no hip hop. Apesar das críticas de certos segmentos do hip hop, não sei se o funk ostentação rompe com o hip hop mais politizado dos anos 1980 e 1990 ou se oferece uma das muitas possíveis continuidades a esse movimento cultural. Parece-me que o funk ostentação é uma releitura paulista, muito influenciada pelo hip hop, do funk carioca. Muitos MCs de funk eram MCs de hip hop, muitos deles, além dos funks, cantam também raps, e músicas dos Racionais são ouvidas nos shows. Trechos de letras de músicas dos Racionais podem ser encontrados facilmente nas letras do funk. Agora, o fato é que o funk não é tão marcado pela questão política como o hip hop. O Montanha, de Cidade Tiradentes, disse-me algo interessante, certa vez, de que, na verdade, o hip hop ofereceria um espaço de expressão política que faltava aos jovens, já o funk é um espaço de lazer e de sociabilidade. Parece-me uma reflexão interessante. Não que o hip hop não possa conter lazer e sociabilidade também, nem o funk, protesto político, mas que as duas vertentes tendem para um dos polos. O funk, aliás, ganhou esse grande espaço junto aos jovens das periferias de São Paulo porque, nessa articulação de um espaço de lazer, configurou-se um espaço para as mulheres que, no hip hop, era mais difícil. As mulheres são presença fundamental nos bailes funks. O protagonismo da dança sempre foi delas. Ainda que os meninos também dancem e as meninas participem cada vez mais como MCs. O hip hop sempre foi muito mais masculino, da dança ao estilo de se vestir.

P. Mas qual é a diferença, na sua opinião, entre a forma como, por exemplo, os Racionais falam em consumo e os MCs da ostentação falam de consumo?

Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade que se pautam cada vez mais pela busca do reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens.”

R. Há aí duas perspectivas. Quando digo que os Racionais já cantavam isso, quero dizer que eles já identificavam essa necessidade de consumir da juventude. E de consumir o que eles achavam que era bom, nada de consumo consciente. Por isso digo que os Racionais já faziam, há mais de dez anos, uma leitura desse anseio por consumir dos jovens pobres. Por outro lado, há essa dimensão de movimentos como o dos escritores da periferia, promovendo produtos da periferia, pela periferia. O funk ostentação começa sem se preocupar com essa questão diretamente. Ele não tem dor na consciência por cantar o consumo em suas músicas e aderir ao sistema, por exemplo. Porém, indiretamente, se acaba chegando a um outro ponto, na medida em que uma parcela considerável de jovens da periferia passa a possuir algum tipo de renda com a produção do funk. Sejam os meninos que gravam os videoclipes, os próprios MCs, mas também empresários, produtores, técnicos e mesmo alguns MCs tornando-se empreendedores e criando seus próprios negócios. Como o MC Nego Blue, que observando de perto o sucesso das roupas de grife entre os jovens, criou a Black Blue, uma loja de roupas cujo símbolo é uma carpa colorida. Hoje, além de possuir lojas próprias, já vende suas roupas em lojas multimarcas, ao lado de camisas da Lacoste ou de outras marcas famosas que os meninos procuram, e por um preço muito parecido. Uma das empresas que agencia shows de funk em Cidade Tiradentes chama-se justamente “Nóis por nóis”.

Os rolezinhos parecem dizer: não apenas queremos consumir, mas queremos ocupar em massa e se divertir aí nos seus shoppings, nos seus ou nos nossos. É importante perceber também que os shoppings onde os eventos ocorreram estão em regiões mais periféricas, provavelmente próximos ao próprio bairro de moradia dos jovens. Por enquanto, eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade, na região dos Jardins, Faria Lima, Marginal Pinheiros etc. Pode haver aí também um componente de um termo que surgiu muito forte para mim na pesquisa que fiz em escolas de ensino médio, no meu doutorado, que é a ideia do “zoar”. Eles querem zoar, que é chamar a atenção para si e se divertir, namorar, brincar e, se for preciso, brigar.

P. Por que, neste momento, o lazer se impõe como uma reivindicação desta geração, acima de questões como saúde, educação e transporte de qualidade?

R. Acho que não há uma reivindicação política bem formuladinha como acontecia com o hip hop: queremos mais saúde, educação e lazer. Eles simplesmente querem estar nos shoppings para zoar e vão. Não há essa reflexão mais elaborada que o hip hop produz, é mais espontâneo. Esse talvez possa ser um ponto de distinção. E o próprio funk é, por si só, lazer e diversão, um dispositivo poderosíssimo para dançar e motivar paqueras. O zoar pode ser lido como um ato político, mas não me parece intencional. Acho que cria uma tensão que é política, que é de disputa de poder pelos espaços da cidade, mas não há um manifesto pela zoeira ou pelos rolezinhos, como houve, por exemplo, no caso do manifesto da arte periférica dos escritores.

P. Há também um movimento maior para sair dos guetos e ocupar os guetos da classe média? Em massa e não mais individualmente, como quando um grupo de rap aparecia numa TV, mesmo sendo a MTV, ou um escritor do movimento literário marginal ou periférico publicava numa grande editora? Esta é uma novidade importante?

R. Acho que abre, sim, para fora do gueto, do bairro onde se vive, mas não para muito longe, pois, afinal, os shoppings para os quais eles vão estão do lado de suas casas. Neste sentido, acho que o hip hop, apesar de falar mais do gueto, abre-se muito mais para fora do gueto, na medida em que conquista um espaço importante nas políticas públicas de cultura, por exemplo.

É como se a sociedade dissesse: ‘Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo’.”

Claro que esse espaço de lazer é problemático e conflitivo mesmo dentro dos bairros das periferias onde moram esses jovens. Se entrevistarmos os seus vizinhos, certamente a maioria vai se posicionar totalmente favorável à proibição das festas de rua que eles organizam, com som alto que muitas vezes toma a madrugada toda. Por isso, acho importante não tomar o funk nem como um movimento libertador, nem como o grande vilão ou o grande movimento de corrupção da juventude contemporânea, como setores mais moralistas, à esquerda e à direita, tendem a fazer.

A questão do consumo também me parece problemática. O desejo pelo consumo sempre existiu. Bem antes do governo Lula, o processo de urbanização induz a esse apego maior ao consumo. Porém, não dá para se negar que houve, nos últimos anos, também uma melhora econômica para segmentos que antes estavam bastante afastados do mercado. Porém, acho que reduzir o sucesso do funk da ostentação a isso é simplificar demais o movimento e esquecer que ocorreram e ocorrem movimentos juvenis parecidos em outras partes do mundo, como o próprio gangsta rap, nos Estados Unidos, no qual os videoclipes se inspiram.

Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade. É preciso conceder aos jovens, e não apenas aos pobres, mas aos de classe média e alta também, outros espaços de reconhecimento e de estabelecimento de relações sociais que não sejam pautados pela afirmação por meio da posse e do consumo de bens. Porque, afinal, como dizem os Racionais, mais uma vez: “Quem não quer brilhar, quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. De repente, para alguns, ter um tênis caro, um smartphone de última geração ou ir ao shopping para zoar, pode ser uma forma encontrada para tentar brilhar.

P. Ao ocupar os shoppings, os adeptos do funk da ostentação estariam promovendo sua primeira atitude de insurgência contra o sistema, no sentido de: “Vou ocupar o espaço que me é negado ou onde não me querem”. É isso? Ou as próprias letras das músicas, interpretadas, em geral, como adesão ao sistema, já seriam, de fato, uma insurgência, na medida que se apropriam, simbolicamente, dos valores da elite e da classe média e, agora, com os rolezinhos, também de seus espaços físicos?

R. Sim, acho que essa é a maior irritação da classe média com esses movimentos. Basta ver os comentários aos videoclipes no YouTube, irritados com os meninos ostentando e exibindo-se com produtos mais caros, que não deveriam estar com aqueles meninos, pobre e negros, em sua maioria. Esta é a principal insurgência que eles provocam. A classe média, de uma maneira geral, a mais pobre ou a mais rica, a mais ou menos intelectualizada, irrita-se bastante quando os subalternos compram bens caros, mesmo antes deles. Já ouvi comentários indignados, do tipo: “Minha empregada comprou uma televisão de última geração, melhor do que a minha”. Isso tem antecedentes históricos que parecem refletir até hoje. James Holston, ainda no livro sobre cidadania insurgente, que citei anteriormente, traz como exemplo a legislação colonial portuguesa, que proibia aos negros o uso de joias e artigos considerados finos…

P. Parece que os “rolezeiros” dos shoppings estão ocupando o mesmo lugar simbólico dos “vândalos” nas manifestações, na narrativa feita por parte da grande mídia e pelas autoridades instituídas. Como você interpreta essa reação?

Os comentários em sites e redes sociais revelam esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população brasileira.”

R. O que me assustou de verdade nessa história toda foram as reações, de mídia e de polícia, condenando e mandando prender, mesmo em casos em que disseram que não houve arrastões, mas correrias. Fico questionando quem provocou a correria: os jovens ou a ação dos seguranças e da polícia? Eventos como estes revelam também uma faceta complicada e extremamente preconceituosa da classe média brasileira. Dei uma entrevista curta para o site de um grande grupo de comunicação e fiquei assustado ao ler os comentários dos leitores, de um ódio terrível contras os meninos e meninas que foram aos shoppings, contra os pobres, contra mim, que tive uma fala dissonante na entrevista, ressaltando a forma preconceituosa com que tal tema vinha sendo tratado. Ao falarem do evento, algumas palavras utilizadas como categorias de acusação contra os jovens e as jovens foram bastante reveladoras do preconceito, e mesmo do racismo, deste segmento social: “favelados”, “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Nesse último caso, inclusive, fica evidente o racismo que aparece em muitos comentários dessa notícia, mas também nas comunidades dos rolezinhos que os jovens criaram nas redes sociais. Um dos comentários pede para que os jovens voltem para a África. Isso é muito grave. Revela esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população. Como se tal sociedade dissesse, por meio dos representantes dos shoppings, da mídia e da polícia, brincando um pouco com a questão das manifestações de junho: “Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo”.

P. A classe média é racista?

R. O que chamamos de classe média não é um todo homogêneo. É possível segmentá-la em diferentes níveis e a partir de diferentes contextos, é possível pensar em uma classe média intelectualizada ou não intelectualizada. Contudo, parece-me que a divisão mais importante para se pensar a classe média em São Paulo é a que se dá por critérios socioeconômicos e espaciais. Há a classe média que está concentrada principalmente no entorno do eixo central, que vai do Centro a Pinheiros, passando pela Avenida Paulista e bairros próximos. Esta, em sua maioria, vive numa bolha e tem poucos contatos com outras classes sociais, com exceção dos trabalhadores subalternos: porteiros, empregadas domésticas etc. Para esta, em grande medida, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.

Porém, há também certa classe média baixa que vive na periferia. Citando novamente o Holston, ele fala de uma diferenciação que se produziu nas periferias de São Paulo entre aqueles que compraram seus terrenos, ainda que por meio de contratos obscuros, e aqueles que ocuparam os espaços da cidade, formando as favelas. Essa pequena diferença não cria um grande abismo econômico, mas produz uma profunda diferenciação, por meio do qual um grupo estigmatiza o outro. Já vi um indivíduo desta classe média da periferia questionando programas como o bolsa família, porque tinha visto potes vazios de iogurte no lixo da favela. Este indivíduo afirmava que nem ele consumia iogurte com tanta frequência, como eles se davam ao direito de consumir tal produto, que era um luxo, raro, mas sobre o qual ele detinha certa exclusividade?

A questão do auxílio aos mais pobres, principalmente o bolsa família, é um forte fator de estigmatização por parte desses diferentes segmentos da classe média, mas principalmente por parte dessa classe média da periferia. Estive, recentemente, em uma escola pública próxima a uma grande favela de São Paulo. Segundo os professores, um dos problemas daquela escola era o fato de que 90% dos alunos vinham da favela vizinha. E que, hoje, esses alunos estavam muito acomodados, pois viviam de bolsas e na favela tinham tudo muito fácil, com a grande quantidade de projetos presentes por lá. Inclusive, projetos de música, ressaltou um professor. É muito importante refletir sobre isso, porque esses professores, se não moram na favela, são vizinhos dela. Mas, ainda assim, permitem-se diferenciar-se dos jovens por questões muito pequenas. E são estes professores os responsáveis por formar esses jovens. Será que, com este olhar, são capazes de lutar para que a escola se torne um espaço de convivência, afirmação e reconhecimento para os jovens?

P. Como você, que tem acompanhado o cotidiano de escolas públicas, em São Paulo, percebe a educação?

Para uma parcela da classe média de São Paulo, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.”

R. É necessário pensarmos em uma educação para as diferenças, para que não caiamos mais na armadilha da intolerância e das análises apressadas e preconceituosas de setores das elites e das camadas médias, ao se referirem aos “subalternos”. Lembro-me de um documentário português, que vale a pena ser assistido, sobre a história de um arrastão que não existiu. Chama-se: “Era uma vez um arrastão” (assista aqui). Nele, conta-se do dia em que jovens caboverdianos ou descendentes de caboverdianos resolveram frequentar a nobre praia de Carcavelos, em Portugal. A polícia, ao ver a concentração de jovens de origem africana, assustou-se e resolveu intervir, provocando uma grande correria, que foi noticiada como arrastão. Mas, de fato, os jovens fugiam da repressão policial gratuita. Isso talvez nos ensine algo sobre os arrastões que estamos a criar todo dia, criminalizando jovens pobres cotidianamente.

Quando estive pesquisando em escolas públicas da periferia de São Paulo, era comum ouvir dos professores que, naquela escola, os alunos eram todos bandidos ou marginais. O discurso da criminalização é efetivo e poderoso e condena muita gente ao fracasso escolar e mesmo ao crime. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, num livro sobre educação e juventude, ressalta a necessidade cada vez mais premente, na contemporaneidade, de desenvolvermos a arte de conviver com os estranhos e a diferença. Em especial num mundo no qual as migrações tendem a aumentar cada vez mais. No nosso caso, não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros. Mas brasileiros que moram muito, muito distante, ainda que vizinhos. Moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…

P. Em que medida, na sua opinião, os rolezinhos se ligam às manifestações de junho?

R. Acho que não há uma ligação direta. Mas, indiretamente, é possível perceber a reivindicação comum do uso do espaço público e de quebra das marcas da segregação. Lembro-me que, antes das manifestações de junho, para a imprensa conservadora era um tabu ocupar a Avenida Paulista. Os movimentos sociais mostraram que não apenas não era um tabu, como era um direito, o direito de ir às ruas e ocupá-las para protestar. Os rolezinhos não parecem ter uma pauta tão clara, mas também estão, ainda que indiretamente, dizendo: “Vocês não disseram que era bom consumir? Pois bem, nós também queremos!”

P. Essa ocupação de espaços que supostamente pertenceriam a “outros”, tanto no caso das manifestações como no caso dos rolezinhos, parece marcar uma novidade importante. O que está acontecendo?

R.  Acho que a novidade está aí, mas é difícil dizer o que está acontecendo ou o que acontecerá. Pode ser apenas um surto – algo parecido com o que foi a revolta da vacina como reação às propostas políticas opressoras de reforma sanitária do Rio de Janeiro, por exemplo – ou pode ser uma nova forma de pensar os espaços públicos e privados nas cidades brasileiras. Porém, é difícil prever. Os rolezinhos podem ter acabado nesta semana, por exemplo. E movimentos como os de junho não se repetiram com tanta intensidade e repercussão. Contudo, o que movimentos como estes garantem é a possibilidade de se tensionar essa ocupação dos espaços urbanos, amplamente negada até então.

Aqui não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros que moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…”

P. Por que este nome, rolezinho? E que significados ele contém?

R. Rolezinho é um termo que está diretamente ligado à ideia de lazer. De sair para se divertir e usufruir da cidade. Os pichadores, com os quais realizei pesquisa no mestrado, também usam a ideia de rolê, para se referirem às suas pichações. Com isso estão dizendo que pichar é dar voltas para conhecer e se apropriar da cidade. Parece que, por este termo, indiretamente, podemos entender uma reivindicação pelo direito de se divertir na cidade.

P. Divertir-se na cidade não seria um ato de insubordinação para jovens pobres e negros? Talvez até o maior ato de insubordinação?

R. Sim, principalmente numa sociedade em que pobres e negros têm que trabalhar – e apenas trabalhar – sem reclamar. Lembremos de que a ROTA, no final do regime militar, atuava nas periferias abordando os moradores e cobrando-lhes a carteira profissional como prova de que eram trabalhadores e não vagabundos. Devotados, portanto, ao trabalho e não à diversão. Agora, claro que esses jovens não estão pensando exatamente nisso. Querem muito mais é se divertir.

P. Como entender este fenômeno, que é, ao mesmo tempo, uma insubordinação e uma adesão ao sistema?

R.  Acho que a melhor palavra é paradoxo. O funk da ostentação em São Paulo é paradoxal: não dá para situá-lo num polo ou noutro, dentro do modo tradicional de pensar a política. Conservador ou revolucionário? Nenhum dos dois, mas com possibilidade para os dois ao mesmo tempo.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas.

Notícias sobre o fim do mundo (Ponto de Vista)

12 de janeiro de 2014

Por Amneris Amaroni

Eduardo Viveiros de Castro

Acabei de assistir a duas palestras recentes – em vídeos – do prof. Eduardo Viveiros de Castro e quero recomendá-las aos meus leitores. O primeiro vídeo- palestra tem como título: Filosofia, Antropologia e o Fim do Mundo (http://vimeo.com/78892524); a segunda palestra tem como título: III Conferência Curt Nimuendajú (http://vimeo.com/81488754). Recomendo vivamente ambas.

Nesta postagem farei um breve chamamento para as duas palestras e, desde já, assumo que sou absolutamente fiel às ideias de Viveiros de Castro, praticamente recuperando as suas palavras; exercito, porém, uma certa edição das palestras e então dou ênfase – porque recupero longamente a fala de Viveiros – em relação a algumas questões em detrimento de outras – e, por isso, o melhor para os leitores que desejarem acompanhar o pensamento do antropólogo na íntegra será assistir os vídeos.  Farei também uma reflexão sobre o diálogo – ou a inexistência do diálogo – entre psicanálise e a nova antropologia tendo presente a dramática situação que estamos atravessando do ponto de vista civilizacional. Particularmente quero chamar a atenção dos leitores para o novo campo de luta, uma guerra de fato, que a antropologia – via Bruno Latour e Viveiros de Castro – vislumbra entre os Terranos e os Humanos: quem são os participantes dessa luta, e como as ¨alianças¨ vêm se estabelecendo. E o que é fundamental: como as psicanálises se posicionam frente a esse novo campo de luta, frente a essa – nas palavras de Bruno Latour – guerra que  já estamos vivendo.

Antes de iniciar quero dar um depoimento pessoal da experiência que tive ao assistir a esses vídeos. Penso que a principal virtude dos antropólogos em tela é acoragem. Fiquei completamente mobilizada pela coragem lucidez de Eduardo Viveiros de Castro, e sinto que, através das palestras, mobilizou-se em mim também coragem e lucidez. Penso que só neste início do século XXI começamos a perceber a importância do Anti Édipo e dos Mil Platôs de G. Deleuze e F. Guattari. Há uma nova sensibilidade em curso que a antropologia de Viveiros de Castro capta e transforma em projeto político[1].

I) Filosofia, Antropologia e Fim do Mundo

Davi Kopenawa

O antropólogo parte de duas observações: qual a nossa condição, qual o nosso momento, na tradição cultural ocidental; e como essa tradição é compreendida pelos habitantes da América indígena.

Comecemos pela primeira questão: houve mortes sucessivas das grandes transcendências nos últimos séculos. E. Kant partiu de Deus/ do Homem e do Mundo. Essas três instâncias foram morrendo sucessivamente e isso define a presente condição: 1) Deus morreu; 2) o Homem moderno morreu e agora 3) temos que enfrentar a morte do Mundo, o fim do mundo. Sem Deus, sem Homem e sem Mundo. Três séculos, três mortes.

Hoje há uma inquietação imensa; as mortes suscitam crises. Podíamos viver sem Deus, podíamos viver sem o Homem; podemos viver sem Mundo? Como o pensamento antropológico e filosófico se reorganiza em torno dessas mortes?

Davi Kopenawa, líder dos Yanomamis, tem um escrito publicado em francês e em inglês chamado A queda do céu – esse livro conta com a participação do antropólogo Bruce Albert[2] Nele Davi Kopenawa diz que ¨os brancos dormem muito, mas só conseguem sonhar com eles mesmos¨. Essa frase para Viveiros de Castro contém uma imagem do pensamento, contém uma teoria e uma crítica da filosofia ocidental: uma crítica do nosso projeto civilizatório.

A frase nos alerta para a ideia que os Yanomamis ¨não sonham só com eles mesmos¨. É preciso, todavia, frisar que nós os vemos de outro jeito, já que dizemos que os índios são animistas, narcisistas, primitivos e só sabem ler a si mesmos no mundo inteiro! Davi pensa exatamente o contrário e diz que ¨são os ocidentais que não veem nada, ficam só cabeceando de sono e não veem nada¨.

O pensar é essencialmente sonhar para os Yanomamis: sonhar com o que não é humano, ter a capacidade de sonhar e de sair da humanidade. Davi Kopenawa nega a nós, os brancos, essa capacidade porque para nós, brancos, o pensamento está concentrado no ¨mundo da mercadoria¨, porque só vemos a nós mesmos. Como os brancos só pensam nas mercadorias, só sonham consigo mesmos – não saem de si mesmos, não saem da humanidade. Não sonhar consigo mesmo significa para Davi, sonhar com os seres das florestas, os seres invisíveis, as almas, os animais.

O pensamento ocidental tem uma trajetória e nela o pensar foi se introjetando e se tornando uma contemplação narcísica de si mesmo: o pensador ocidental investiga a cognição, a imaginação, o entendimento do próprio homem. Os brancos só sonham então consigo mesmos.

Davi está denunciando o que Freud diz: tudo que o homem sonha é projeção: plantas, animais, etc. É sempre conosco mesmos que sonhamos. É possível pensar outra coisa e então sair de si mesmo? Os brancos já não podem fazer isso.

Davi Kopenawa pertence a uma cultura xamânica, e nela o acesso à realidade se dá através do sonho, com o uso de drogas e alucinógenos e isso é muito diferente do aprendizado da leitura e da escrita dos brancos. Por isso os brancos ficam quando sonham como um ¨machado no chão¨, dormindo como um ¨machado no chão¨ – como se fossem objetos ou como se estivessem mortos:  sonhando consigo mesmos. Ao contrário disso, para uma cultura xamânica, o sonho é a condição de encontrar uma exterioridade, um fora-exterior, e os brancos tem uma incapacidade de atingir o fora, um exterior pelo pensamento. Acrescente-se a isso que os brancos estão apodrecendo a Terra para tirar petróleo, minério, e com isso o céu vai cair e a humanidade vai entrar embaixo da terra e virar fantasma! Quem mantém tudo isso ainda em pé – a Terra e o Céu – são os xamãs. A queda do céu já aconteceu várias vezes e sempre o motivo foi o mesmo: o que nós, brancos, chamamos de crise ecológica.

As cosmologias indígenas falam em ciclos sucessivos de destruição e criação: desabamentos sucessivos da Terra. Hoje, os brancos promovem sem freios a extração de minérios, o desmatamento e então o mundo vai acabar. Duas questões propostas por Davi Kopenawa: 1) só sabem, os brancos, pensar em si mesmos; 2) o mundo vai acabar. Esta acusação de Davi ¨que nós só sonhamos conosco mesmos¨ exige uma resposta. Como responder a isso? Como responder à imanência? À exterioridade? No ocidente isto está reservado à arte – e não à ciência e à técnica.

Para os indígenas fazemos objetos e máquinas prodigiosos, mas sociologicamente somos imbecis, agressivos, escandalosos, primitivos, toscos nas interações. Eles ficam seduzidos pelo prodígio técnico do ocidente e tem a tentação de separar a técnica da sociedade. É possível separar as duas coisas? Para os Yanomamis não tem jeito; eles recusam a cultura do branco in totum.Estamos – diz Viveiros de Castro – prensados contra nós mesmos e contra os outros povos, já que os três pilares da nossa civilização – Deus, Homem e Mundo – estão em crise. Nosso narcisismo é incurável! Os outros povos não podem nos ajudar e nós estamos ameaçando levar todos para o abismo.

Que resposta vamos dar aos outros povos que nos ¨acusam de só sonhar conosco mesmos¨? Que fazer diante disso?Os brancos ¨só sonham consigo mesmos¨: os brancos não incluem os não-humanos no seu universo político!

O fim do mundo é um tema riquíssimo do ponto de vista filosófico e político – afirma Viveiros de Castro. Aliás, esse tema são os  índios  quem sabem pensar, pois os brancos acabaram  com o mundo deles, acabaram com o mundo deles repetidas vezes.

A perspectiva de uma crise ambiental em escala mundial nos coloca em uma situação parecida com a dos índios. Nós corremos o risco de sermos dizimados por nós mesmos! Como será viver após o fim do mundo? É preciso retomar a questão do fim do mundo no pensamento. O que está acabando é o mundo que começou em 1500. O fim da era moderna chegou.

2) III Conferência Curt Nimuendajú

Bruno Latour

Essa conferência, proferida no final de 2013 por Viveiros de Castro, é bastante longa e aconteceu no Centro de Estudos Ameríndios (CESTA/USP) em homengem a Curt Nimuendajú, que fez o primeiro trabalho moderno de etnologia, há exatamente 100 anos – em 1914 – em torno das lendas de criação e destruição e principalmente da destruição do mundo, como fundamento da religião dos xamãs Apopukuvas – Guarani. A palestra então também homenageia os guaranis que hoje são o símbolo concreto da ofensiva final contra os povos indígenas.

Nimuendajú teve seguidores na antropologia, por exemplo, os trabalhos de Pierre Clastres e de Helena Clastres e vários outros etnólogos; hoje, sua perspectiva é retomada em teses e dissertações de mestrado. Para Niemandajú como para esses trabalhos recentes, os Guaranis tinham e tem um pensamento pleno, um pensamento especulativo,  escatológico  e cosmológico pleno de direitos.

Ora, nós também, ocidentais brancos, estamos especulando e dando voltas em torno da questão do fim do mundo. As lendas científicas e outras do ocidente especulam cada vez mais esse tema e então tal especulação tornou-se um problema de todos.

Muitas questões foram discutidas nessa longa palestra e eu vou me ater a duas delas: a) a catástrofe que nos espreita e b) a proposta política em curso trazida por Bruno Latour e Viveiros de Castro.

a) É um equívoco chamarmos o perigo que nos espreita de ¨crise ambiental¨ e isso ficará claro a seguir quando o antropólogo demonstra quão mais sério é a nossa questão. Para ele, o mais importante problema que atravessamos é a entrada do planeta no antropoceno – a terceira época geológica do período quaternário e que, prevê-se, durará muito mais tempo do que a espécie que o batizou! Vale dizer, os efeitos da ação humana sob o sistema Terra durará mais que a própria espécie. O antropoceno – a era do homem – refere-se a um novo regime termodinâmico: e este é um mundo novo e não temos ideia do que vai acontecer. Temos claro uma série de projeções, de especulações – próxima, aliás, como vimos, dos Guaranis – de como o mundo vai acabar. Nosso cenário é tão inquietante hoje quanto o dos Guaranis.

Mudança climática é na verdade um dos parâmetros para compreendermos a atual crise. Há muitos outros parâmetros – que delineiam muitas outras mudanças – para medir essa crise.

Antropoceno, apesar de ter o nosso nome, não nos elogia! O que se quer dizer com ele é que a humanidade tornou-se uma força geofísica. Alguns argumentam que não é a humanidade inteira que se tornou uma força geofísica, mas o capitalismo, as classes dominantes, as sociedades privilegiadas e, principalmente, os países que consomem combustíveis fósseis e energia em geral, mas isso tem efeitos sobre a população de todo o planeta. O problema é que a população inteira do planeta tende a adotar os padrões de consumo energéticos modelados nos padrões de consumo dos países que conduzem as ¨locomotivas antropocênicas¨, os países que conduzem as mudanças climáticas.

Então, há uma espécie de inversão de figura-fundo que caracteriza relação entre humanidade e ambiente! Retomemos a argumentação: antropoceno designa o fato de que a humanidade se tornou uma força geofísica.O nome Gaia vem também junto à noção de antropoceno, só que no sentido inverso. A Terra tornou-se um personagem, um interlocutor político, ao mesmo tempo que o homem tornou-se uma força geo-política. É como se tivéssemos nós, os homens, passado para o fundo e a Terra tivesse passado para a frente. Uma inversão súbita entre figura e fundo que só pode dar errado! É uma inversão fantasmagórica e aterrorizante e nela desaparece a noção de escalas: uma escala de tempo geológica e uma escala de tempo antropológica – essas escalas eram de ordem e magnitudes completamente diferentes. O que se vê hoje é o colapso dessas escalas a tal ponto que há mudanças na estrutura da atmosfera, na circulação dos ventos que se modificam em um tempo mais rápido que os sistemas sociais! E isso é, no mínimo, irônico e, no máximo, aterrorizante.

Essas considerações levam a outra implicação: à ideia do fim da natureza como um pano de fundo imóvel ou muito lento contra o qual nós evoluímos, contra o qual podíamos medir e calibrar nossas ações. O que estamos vivendo hoje é ainversão das escalas, colapso das escalas.

Dito de outra maneira trata-se da ideia mesmo de destruição do ambiente; num certo plano a noção de ambiente desapareceu visto que houve uma interiorização – introspecção – do homem, e as plantas e animais passaram a ser lidos como internos ao ambiente humano e não mais o homem como parte do ambiente!

Isabella Stengers, filósofa belga, recusa a ideia de crise ambiental, recusa a ideia mesmo de crise – a ideia de crise supõe que se vá sair dela e nós não vamos sair do que está acontecendo, porque já aconteceu, nós estamos vivendo os efeitos da ação humana que há muito aconteceu. Isabelle Stengers prefere o termocatástrofe ambiental e muitos insistem que essa é uma visão catastrofista, melancólica, pessimista – dessa mesma visão partilhavam, segundo Nimuendajú, os Guaranis na figura dos xamãs Apokokuvas-guarani entre 1905 e 1912, período de sua pesquisa. Esse pessimismo, dizia o etnólogo no início do século XX, era próprio de uma raça, próprio de um povo cansado de lutar, cansado de ser perseguido. Para os Guaranis, a própria terra estava cansada. Mas como veremosos Guaranis não são apenas pessimistas, pois imaginam também uma renovação do mundo. Tudo isso, e principalmente o pessimismo e a melancolia, ecoa a nossa situação atual.

b) Bruno Latour entende hoje que estamos em um estado de guerra; ele diz também que há uma diferença fundamental entre estado de guerra e estado de polícia, pois na guerra não há árbitros, não há um terceiro termo. A guerra se decide entre duas partes, sem árbitro. E nessa guerra estão de um lado osHumanos e ele diz isso com evidente ironia. Os Humanos, para Latour, somos nós, os modernos que pretendem conquistar todo o planeta para o padrão de consumo americano. Aos Humanos Latour opõe os Terranos – os habitantes da Terra. E é preciso decidir de que lado estamos nessa guerra. Latour diz também que essa de-cisão não será tomada tendo como base argumentos científicos e isso porque o consenso científico é maciço no sentido de que  existe uma grande crise ambiental e que essa crise é de origem antrópicaantropocênica e, todavia, esse consenso não impede que haja contestação! Não é bem assim dizem uns; não é antropocênica dizem outros. Assim, a ciência pode apresentar dados irrefutáveis e isso não impedirá e não impede a controvérsia e a continuidade da ordem existente. E isto porque a controvérsia não é entre ciência e não-ciência, mas é uma controvérsia política; é uma controvérsia em torno do tipo de Mundo, do tipo de Terra que queremos viver. Trata-se então de uma disputa de valores. Os índios são uma espécie de resposta viva: eles estão a nos apontar que existe outra forma de viver, outros Mundos além daquele dos brancos!

Lembro também que – para Viveiros de Castro – os climatocéticos sãonegacionistas, por analogia, com os  historiadores que diziam e dizem que não houve extermínio em massa dos judeus, não existiu a shoah e isso tudo não passa de conspiração do Estado de Israel! São os negacionistas. Os que estão preocupados com a catástrofe ecológica também chamam os que põe em dúvida a crise atual de negacionistas negam o óbvio  e através da negação afirmam  em que Mundo querem afinal viver!

No final de sua última conferência, em fevereiro de 2013, em Edimburgo a respeito da Gaia e do Antropoceno, Bruno Latour diz que há uma guerra entre os Terranose os Humanos. E então ele nomeia os Humanos: são os modernos. Ou seja, osHumanos não é para ele o Homo Sapiens. Os Humanos são todos os entes que fazem parte da modernidade, do projeto moderno e então inclui entre os Humanosos computadores, os animais domésticos, as armas químicas, os cachorros policiais. Todos esses entes fazem parte do exército dos Humanos. Os Terranosnão se sabe, todavia, bem quem são. Quem seriam os Terranos se pergunta Latour? Ali estariam todas as espécies em extinção (sementes/ animais/água/ar/humanos/polo norte/terra), inimigos naturais dos Humanos, ameaçados  ontologicamente. Mas entre os Terranos, claro, está estão também humanos. São o ¨povo de Gaia¨, numa ficção positiva do termo. O ¨povo de Gaia¨ está em oposição ao ¨povo da Natureza¨ que são os modernos, que acreditam em uma natureza transcendente, com leis únicas, absolutamente racional, dominável e controlável – uma ficção negativa do termo.

Latour se pergunta: é possível aceitar como ¨povo de Gaia¨, a pachamama, a deusa natureza, de que falam os ameríndios e outros povos não modernos? Para Latour, esses povos têm se adaptado à retórica ambientalista ocidental para, compatibilizando suas cosmologias e seus projetos existenciais, serem ouvidos pelas sociedades dominantes do hemisfério norte. Latour não acredita que esses povos possam fazer parte do ¨exército dos Terranos¨. Parece que há nesses povos respeito pela Terra, mas só parece, pois são impotentes na medida que sua tecnologia é fraca e sua população ínfima. Esses povos, de acordo com Latour,  chamados de tradicionais sem tecnologia, em pequenos número,  não tem um modo de vida que os qualifique para o ¨exército dos Terranos¨.

Para Viveiros de Castro, é exatamente isso que Latour lê como impotência que pode ser um recurso crucial para um futuro pós-catastrófico que, diga-se de passagem, Latour acredita que vai acontecer. Para o antropólogo brasileiro somos nós os brancos industrializados, em rede, estabilizados farmacologicamente que terão que ¨descer¨ – ¨perder as proporções gigantescas de vida¨ – e isso em todos os sentidos.

Pergunta-se ainda Viveiros de Castro: será que são de fato minorias e o pequeno número demográfico deve ser levado em conta como propõe Latour? A ONU estima oficialmente em 370 milhões de pessoas o número de minorias indígenas no planeta – estariam encapsuladas nos Estados Nação, mas não coincidiriam com os Estados Nação Ou seja, enfatiza Viveiros:a minoria não é tão minoria assim. É pois um ¨exército de Terranos¨ considerável!…

III) E a Psicanálise com isso?

Tenho alguns palpites a respeito disso, e desde já insisto que as idéias que seguem é de minha inteira responsabilidade, e nem Bruno Latour nem Eduardo Viveiros de Castro têm qualquer participação nelas, nas ideias. Também enuncio desde já que se trata de uma brincadeira séria, muito séria, e que foi escrita com total liberdade criadora e com muito bom humor. Engraçada e pessimista sob alguns aspectos; séria e esperançosa sob outros.

Por exemplo, se Bruno Latour e Viveiros de Castro se submetessem a uma psicanálise clássica e oferecessem logo no primeiro dia para um zeloso psicanalista as duas ideias discutidas acima – notícias sobre o fim do mundo e a nova aliança política proposta entre Terranos x Humanos – e insistissem, como fazem acima, que há uma guerra planetária em curso; se isso acontecesse, temo que seriam considerados psicóticos, delirantes, com estranhas e perigosas fantasias. E, se o eminente psicanalista fosse uma pessoa medrosa, creio também que, além de diagnósticá-los, convocaria discretamente uma ambulância, e eles seriam gentilmente retirados do consultório do analista em camisa de força e imediata e fortemente medicados!

É engraçado e trágico pensar isso, mas lastimo dizer, a probabilidade de isso acontecer seria grande! Como posso supor – o leitor tem todo direito de me perguntar – que isso aconteceria? Como a  ¨ciência da escuta¨ não levaria em conta a lucidez do prof. Viveiros de Castro? Por que consideraria suas agudas percepções como fantasias psicóticas delirantes? Antes de responder, prossigo por um momento no meu argumento: as percepções dos antropólogos que, diga-se de passagem, supõem dados oferecidos pela própria ciência climática, têm também por base uma gigantesca desconstrução da subjetividade moderna. Não é possível chegar a tais percepções pela via do intelecto. Ambas as questões envolvem infinitos des-locamentos emocionais, infinitas outras desconstruções. O que está em curso nos antropólogos citados – e numa grande massa de indivíduos – é então uma gigantesca des-construção da subjetividade moderna. Ora, a psicanálise também desconstrói a subjetividade moderna, já que enuncia um sujeito duplo – consciente e inconsciente – e é nisso que reside seu potencial crítico. A desconstrução subjetiva e emocional, todavia, do ¨povo de Gaia¨ foi muito além e desconstruiu e desconstrói a própria subjetividade psicanalítica! O ¨povo de Gaia¨ está deixando de ser antropocêntrico e quebrou as fronteiras entre-mundos, incluindo no seu universo político, na Terra que querem viver, outros seres: as plantas, os animais, os seres invisíveis, o ar, o clima, as sementes, Gaia.

As duas questões discutidas nessa palestra pelo antropólogo Viveiros de Castro só poderão então ser escutadas por aqueles que se desconstruíram emocional e cognitivamente na direção do ¨povo de Gaia¨.

Os antropocêntricos não podem então escutar compreender as propostas acima. Dou exemplos: Eduardo Viveiros de Castro fez, em 2010, uma palestra na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP – intitulada ¨O Anti-Narciso: lugar e função da antropologia no mundo contemporâneo¨. A palestra do antropólogo foi publicada no volume 44 da Revista Brasileira de Psicanálise[3].Junto com a palestra dois comentadores escolhidos a dedo entre os analistas da Instituição foram convidados a comentar a fala de Viveiros de Castro. Para meu espanto eles não compreenderam nada da palestra do antropólogo! Dediquei a isso a postagem de agosto/2012 e até agora me sinto traumatizada com esse debate, já que é óbvio que os psicanalistas poderiam dialogar e discordar de forma radical das ideias expostas sobre o pensamento ameríndio e a nova antropologia. Mas, não poderiam – como foi o caso – nada compreender daquilo que foi exposto! Nem as piadas eles compreenderam! Isso que aconteceu foi traumático, mas também revelador para mim de que as novas sensibilidades não são passíveis de serem aprendidas pela psicanálise clássica. E por psicanálise clássica estou entendendo todos aqueles que vivem sob o espírito de O mal estar da civilização, sob a égide de Totem e Tabu e com a bíblia embaixo do braço, refiro-me ao livro O Futuro de uma Ilusão de S. Freud. Assim como o espírito da política é Maquiável – e o PT está aí para demonstrar quão verdadeiro é a presença desse Pai-fundador na política atual -, a psicanálise que eu chamo clássica vive sob a égide de O Mal estada Civilização e não abre mão da civilização de ¨mão única¨  proposta por Freud, e nela a ideia que a repressão instintual  é  inquestionável ainda que o preço sejam as guerras – mundiais diga-se de passagem. Lembremo-nos quanto Hebert Marcuse em Eros e Civilização tentou dar um basta à civilização de mão única! O problema é que o mundo mudou e o preço hoje deixou de ser tão somente (o que já era bastante!) as guerras mundiais, o problema hoje é o fim do mundo! Mas entre a realidade e o pai-fundador nessas premissas fechadas – porque excetuando-as  abraço eu também o pai-fundador – os psicanalistas clássicos dão as mãos para o pai-fundador e não para a realidade sob seus olhos!

Centenário de Totem e Tabu, escrito por S. Freud e publicado em 1913, o livro mereceu uma re-edição e também debates no Brasil. Freud visava, como se sabe, formular uma nova ¨cosmologia¨, um novo pensamento sobre a condição humana e o mundo. Nela, narra a origem da hominização a partir de um passo fundante que jogou o homem dentro da sociedade, regida doravante por regras (tabus) e não mais pela força do patriarca despótico – figura cuja a força se manifesta nos totens[4]. No centro de nossa cultura temos agora, a partir de Totem e Tabu, um assassinato e um repasto antropofágico. Eis que tornamo-nos humanos após uma insurreição dos filhos, membros da horda primeva, que revoltados contra o despotismo do pai, tomam-lhe o poder, matam-no e devoraram-no. Diz ainda o articulista: ¨esta história estaria esquecida, enterrada na origem da humanidade¨[5], mas seria atualizada nos indivíduos através do complexo de Édipo:  o drama social assim se atualizaria desde sempre e sempre! E conclui o articulista: essa narrativa sintetizava todo um saber antropológico, etnológico, filosófico, histórico, social e psicanalítico. Tem alguma importância para o ¨saber psicanalítico¨ que Freud, ao tratar dos povos ditos ¨primitivos¨, não conseguira se livrar da visão linear, evolucionista e eurocêntrica[6]Sinto dizer, mas para a psicanálise isso não tem nenhuma importância, pois como dizem seus adeptos ¨suas conclusões são totalmente sustentáveis ainda hoje[7]¨. O que fazer frente a uma surdez desse porte?!

Concordo com V. Safatle quando ele diz, de maneira muito inteligente e sem desgostar ninguém, que o único universal que persiste é o mal estar[8]– Unbehagen – o indivíduo na modernidade é arrancado da tradição e lançado ao desabrigo, sem lugar e sem clareira. Penso que qualquer outro universal, Édipo, por exemplo,  tornou-se repressivo – e então me compreenda o leitor não tenho nada, muito ao contrário, contra Édipo, a castração e o princípio de realidade, que esses dispositivos da subjetividade ensejam, são bem-vindos em qualquer clínica, desde que não se pretendam universais!

Dou um exemplo a partir da minha experiência pessoal: frequento os psicanalistas clássicos – debates não faltam em São Paulo, também supervisões clínicas  –  não tenho com eles uma conversa em torno do assunto dessa palestra, raramente, falo do ¨povo de Gaia¨  ou do ¨exército dos Terranos¨ e, todavia, vivo combatendo o universalismo, vivo combatendo a ideia de que Édipo e a castração ensejam o único princípio de realidade possível, e, para meu espanto, eles não compreendem o que eu falo! No início pensava que se tratasse de má vontade, agora sei que não é, é mais grave, pois se trata de uma construção emocional e mental que não lhes permite  por em dúvida o mundo que habitam,  o  mundo  moderno (quando, seja bem dito, este mundo, moderno, está em acelerada desconstrução). E isso não deixa de ser engraçado porque ninguém mais se preocupou com a realidade, com o princípio de realidade, com a aceitação da realidade do que a psicanálise clássica. O problema, inesperado e imprevisível problema, para eles, é que a realidade está mudando! Dito mais precisamente a desconstrução da subjetividade, desconstrução emocional e psíquica – tendo como base o homem moderno e o homem edipiano – nos permite entreabrir umanova percepção da realidade que, doravante, temos chance de compartilhar. O século XX com suas matanças sem fim, com muitos genocídios, com o totalitarismo sempre à nossa espreita, trouxe-nos essa preciosa abertura, a compreensão que a realidade é múltipla e depende dos nossos olhos, da nossa matrix emocional/psíquica/espiritual. Um milagre, como experiência,  se pôs para nossa contemplação e então para nosso pensamento. Por essa realmente ninguém esperava!

De novo é surpreendente que seja assim, mas é assim! A psicanálise clássica é a mais antropocêntrica das disciplinas humanas[9] e valendo-me da fala também lúcida de Davi, dos Yanomamis, põe os homens para ¨sonhar consigo mesmos¨. Principal aliada dos Humanos – modernos e achando imensa graça na era doantropoceno – a psicanálise clássica não vê e não verá com bons olhos osTerranos e não se deixará tocar pelo ¨povo de Gaia¨. E então lá – na Sociedade Brasileira de Psicanálise –  a fala perspicaz do prof. Viveiros de Castro não pode ser escutada e compreendida. A construção emocional e cognitiva – tendo Édipo como centro – impede-os de fazer essa  escuta porque o princípio de realidade a que tem acesso é edipiano e, com ele, fronteiras rígidas entre-mundos. Édipo reina soberano com os Humanos – modernos e seus infindáveis dispositivos mortíferos. E isso para mim revela que o problema não é somente o negacionismoaludido por Viveiros de Castro mas, mais sério ainda, o que está em jogo é uma determinada construção emocional e cognitiva: moderna e edipiana. A guerra então não é de persuasão, de convencimento; a guerra está se dando entre modos de ser modos de ver.

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E as outras correntes da psicanálise seriam possíveis ¨aliados¨ dos Terranos,acolheriam ou pertenceriam ao  ¨povo de Gaia¨?

Os junguianos por exemplo? Seriam sim, poderiam participar da aliança com o ¨povo de Gaia¨ se abandonassem seus sonhos conservadores, passadistas e prestassem atenção no imenso perigo que vem pela frente! E, tenho claro e afianço para os meus leitores que tirar os olhos do passado e pô-los no presente é um desafio gigantesco para um junguiano. Desde sempre o movimento junguianotem aversão-afetiva pelo ¨povo da Natureza¨ e pelos Humanos – modernos e como forma de resistência lançaram seu olhar para o passado esperando seguramente dias melhores. E lá ficaram com os olhos voltados para o passado durante todo o século XX! Agora, os dias melhores para eles chegaram, e se ousarem olhar para o presente, os termos da aliança com  o ¨exército dosTerranos¨  poderia se dar via  sensibilidade romântica da escola junguiana e o amor que eles tem por Dionísio, afinal o corpo dionisíaco é, enquanto tal, abertura cósmica. Não foi isso que aprendemos com F. Nietzsche?  Acrescente-se a isso que Jung um romântico inveterado e tardio buscava os arquétipos nos homens e também nos animais e isso seria a base comum da aliança entre homens a seres vivos em geral. E, saliente-se, Jung não negligenciava o mundo inorgânico, pois em uma bela passagem de Memórias, Sonhos e Reflexões tem  sérias dúvidas se ele é uma pedra ou se a pedra é ele! Os Humanos psicanalíticos, aliados ao ¨povo da Natureza¨, costumam ver de forma bem  crítica essa passagem já vendo nela a psicose latente de Jung! E, todavia, essa dúvida angustiante que Jung empreendia com o mundo inorgânico é parte da sensibilidade romântica e alquímica do unus mundus. De qualquer maneira há nas ideias de Jung uma possibilidade de unir e sentir mundos diversos e de sonhar objetivamentepara foracom o exteriorcomo propõe Davi Kopenawa, líder dos Yanomami. Jung e seus pacientes sonharam seguidamente e anos antes com a Primeira Guerra Mundial!

Além disso, o mundo junguiano é um mundo encantado graças à ideia de sincronicidade que correponde às afinidades eletivas[10] de Goethe, e com elas a retomada de uma única substância – pensamento e matéria – de B. Espinosa. A experiência da sincronicidade é, enquanto tal, diálogo entre-mundos: o ser humano – e não só ele por suposto – com as plantas, florestas, pedras, gnomos, fadas, seres invisíveis em geral.

Poder-se-ia objetar que são os seres humanos que, através do que chamam sincronicidade, estabelecem o sentido e a significação para  os outros seres, orgânicos e inorgânicos. E, então, eu diria não é bem assim se, de fato, levarmos em conta as afinidades eletivas de Goethe, um dos pilares de Jung para tecer o conceito-experiência de sincronicidade – e só se compreende isso, como disse acima, se levarmos em conta Espinosa e os Românticos que liam o mundo a partir de uma única substância. Em uma sincronicidade vivida como experiência profunda é a pedra, por exemplo, o animal ou uma semente que detém o segredo do significado para o humano e, não raro, encontramos alguém que tem a sensibilidade junguiana fazendo uma circuambulação em torno da pedra, do animal, de uma semente, por anos, às vezes por décadas, abrindo-se para a pedra e/ou a semente detentoras do segredo da significação! A narrativa de um junguiano, de uma pessoa que tem essa sensibilidade, é a do ¨povo de Gaia¨ com certeza.

Em relação a essa escola de psicologia a aliança com os Terranos e com o ¨povo de Gaia¨ se resolveria mais facilmente, já que não são antropocêntricos e o fechamento não é de ordem cognitiva-emocional. São, sim, possíveis aliados.

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E os lacanianos veriam com bons olhos os  Terranos? Seriam simpáticos ao ¨povo de Gaia¨?

Pouco posso dizer sobre os lacanianos, não os conheço bem. Dois lacanianos, porém, chamam minha atenção, e talvez com eles, refiro-me a W. Safatle e C. Dunker, os Terranos encontrariam algum acolhimento. Ao que parece são parceiros intelectuais e propõem a travessia do Imaginário para o Simbólico e então o Real. Vale dizer, levam sim o Real – do último Lacan – em conta – ao contrário de outros lacanianos que só pensam a clínica até o simbólico. Safatle, em particular, concorda com Deleuze quando critica aqueles que acreditam que fora do Eu, fora do indivíduo moderno, só pode haver caos.  Safatle pensa que essa é a pior de todas as falhas morais, já que nos prende na defesa do sempre idêntico[11].

São as premissas de Lacan que nos ajudam a compreender por que, para Safatle, ¨há uma humanidade por vir e não temos o direito de temê-la¨[12]. Uma dessas premissas é que para Lacan, ¨toda a socialização é alienação¨. Ou só há sujeito fixo graças a repressão, e então a verdadeira fonte de sofrimento é resultante do caráter repressivo da identidade: ¨dessa identidade que devemos internalizar quando passamos por processos de individuação e de constituição social do Eu. Daí porque Lacan será tão sensível às temáticas vanguardistas de dissolução do Eu e de desarticulação de seus princípios de síntese enquanto condição para o advento de uma experiência capaz de realizar exigências de autenticidade. Isso a ponto de ele afirmar ser a análise uma ¨experiência no limite da despersonalização¨[13].

Outra premissa é que a psicanálise nasce no momento de crise profunda da modernidade ocidental. Mais enfaticamente, a psicanálise, ela mesma, é osintoma maior dessa crise que nos levou a colocar em questão nossos ideais normativos sobre auto-identidade, sexualidade, modos de socialização, justiça e, sobretudo, nossas ideias sobre o que estamos dispostos a contar como racional[14]. Sintoma dessa crise, a modernidade oferta para o pensamento – eu diria para o pensamento psicanalítico, mas não só ele – uma outra concepção do humano:…¨uma concepção que insiste na importância de experiências deconfrontação com o inumano, com o despersonalizado, com oindeterminado, para a formação de uma práxis emancipada. Pensar como a verdadeira práxis virá da capacidade que sujeitos devem desenvolver em se confrontar com o que não tem a figura de ¨humanidade¨ do homem: eis uma tarefa que Lacan nos deixou¨[15]. Confrontar-se com o que aparece como ¨Inumano¨ no interior do desejo, desprovido de imagem identitária do homem: uma potência de indeterminação e despersonalização que habita todo o sujeito. Daí o impacto político da ênfase no Inumano, pois através dessa  noção redimensiona-se a teoria do reconhecimento: como reconhecer aqueles que não se configuram completamente como indivíduos no sentido que nós entendemos[16]?

É exatamente daí que parte C. Dunker, feroz observador das transformações da subjetividade na alta modernidade, justapondo e aproximando o ¨perspectivismo ameríndio¨ e os ¨tipos clínicos¨ recém  configurados por ele: zumbis[17], mortos-vivos, frankensteins[18] e psicoses! Os nomes propostos por Dunker não são nada simpáticos e à primeira vista parece estranho aproximá-los do ¨perspectivismo ameríndio¨  de Viveiros de Castro. Em um primeiro momento essa justaposição pareceu-me grosseira e injustificável, mas aos poucos foi ganhando algum sentido para mim e, de repente, foquei minha atenção nas proposições do psicanalista e as novas sensibilidades em curso – ainda que descritas por ele como ¨experiências de sofrimento¨. Zumbis e Frankensteins sofrem com a falta de experiências produtivas de indeterminação pois para eles os processos de racionalização aparecem como vazio indiferente ou como experiência caótica de si e do mundo. Vale dizer, o Real aparece como impossível. É nesse momento que Dunker conclui, confesso que para o meu espanto: …¨os Zumbis e Frankensteins estão mais próximos daquilo que o antropólogo brasileiro Viveiros de Castro chamou de perspectivismo ameríndio (ou seja, uma cultura na qual a identidade não é tratada como um fato de origem e onde a experiência de reconhecimento está sujeita a elevados níveis de indeterminação)¨[19].      O perspectivismo ameríndio estaria então  mais próximo da experiência do inumano, já que a vivência do laço social não se baseia na perspectiva de identidade. É disso que se trata?

Classificar e pensar não fazem boa parceria!  Essa sede classificatória e diagnóstica de Dunker  é amiga fácil de estereótipos e inimiga do pensamento. Osmodos de ser existenciais tendem a ser duramente ofuscados por classificações e diagnósticos. Quando C. Dunker classifica e aproxima as formas de sofrimento atuais – que ele com muita sensibilidade e perspicácia recupera – do perspectivismo ameríndio, por suposto não nos ajuda a pensar! Acrescente-se a isto que C. Dunker não precisa da nova antropologia nem do perspectivismo ameríndio para construir a sua argumentação. Para quê então ele faz isso? E me vejo obrigada a fazer uma pergunta incomôda: Bruno Latour, Viveiros de Castro, Davi Kopenawa como seriam classificados? Seriam eles também Frankensteins, Zumbis, Mortos Vivos, Psicóticos  – ainda  uma vez?

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Outro tanto poderia ser dito em relação à esquizoanálise, paraíso dos Terranos, e do ¨povo de Gaia¨, e isto porque eles – os humanos que participam desses grupos –  existem e subsistem a partir de duas qualidades  pelo menos nesse momento: uma de-cisão a partir de valores, quero dizer, de-cidiram-se por esses grupos respondendo à pergunta ¨qual a Terra que queremos viver¨? Uma Terra onde a vida não acabe. Decidiram-se então pela Vida e a outra qualidade de ambos os grupos é que seus ¨adeptos¨ provém de entre-mundos: vegetais, animais, humanos, sementes, pedras, ar, terra, água: todos os ameaçados de extinção! Ora, a esquizoanálise de F. Guattari e G. Deleuze é propiciadora do valor Vida, aliás, vida vibrátil, vida pulsante em sua potencialidade máxima! E, também, vamos sugerir em seguida, pode ser patrocinadora dessa aliança entre-mundos .

A esquizoanálise é compreendida como uma ética-estética de valorização da vida, e quem participa dessa experiência se lê a partir de uma perspectiva – não tem em mãos – muito longe disso –  uma metodologia e/ou uma teoria universal. Como uma perspectiva convive com todas as outras abordagens  sejam dialéticas, estruturalistas ou qualquer outra. Como perspectiva, a esquizoanálise é muito mais do que uma prática clínica, sua intenção, aliás, foi e é de romper com os saberes instituídos em troca de um saber subterrâneo ao qual Deleuze e Guattari chamaram de rizoma, termo extraído da botânica. O ¨povo de Gaia¨ precisa romper com os saberes instituídos, a esquizoanálise lhes convém pois. Convém-lhes também porque a esquizoanálise não tem modelos para a vida; não há modelos existenciais bons e maus, mas infinitas possibilidades existenciais. A melhor atitude, a melhor possibilidade existencial, é aquela que produz uma vida mais vibrátil e pulsante. A vida só pode ser julgada pela própria Vida! E, todavia, há sempre duas lógicas em jogo: a lógica maquínica – que corresponde à subjetividade instituída e produzida socialmente através do ¨inconsciente maquínico¨ e/ou ¨inconsciente capitalísta¨[20] – e nesta lógica os corpos perdem a sua potência de expressão e há a construção de sujeitos narcísicos; mas, também há a lógica pulsátil presente nos corpos vibráteis que não repelem a sensorialidade, visto que procuram uma existência plena e para isso desejam afetar e ser afetados.

A esquizoanálise trabalha também com a ideia de agenciamentos e esse conceito-experiência supõe disparidade – agenciamentos díspares –  e precisa ser ordenada desde o ponto de vista da imanência, a partir do qual a existência se mostra indissociável de agenciamentos variáveis e remanejáveis que não cessam de produzi-la. Há agenciamentos ¨molares¨ e  os agenciamentos ¨moleculares¨  – e  todo agenciamento remete em última instância ao campo do desejo sobre o qual se constitui . Então a maneira como cada indivíduo investe e participa da reprodução de agenciamentos sociais depende de agenciamentos locais, ¨moleculares¨ e, através desses últimos, cada indivíduo, introduz suas pequenas irregularidades. Cada um de nós combina concretamente os dois tipos de agenciamentos em graus variáveis, o limite é a esquizofrenia como processo – deterritorialização absoluta. Cito Mil Platôs: ¨Se a instituição é um agenciamento molar que repousa em agenciamentos moleculares (daí a importância do ponto de vista molecular em política: a soma dos gestos, atitudes, procedimentos, regras,disposições espaciais e temporais que fazem a consistência concreta ou a duração – no sentido bergsoniano – da instituição, burocracia estatal ou partido), o indivíduo por sua vez não é uma forma originária evoluindo no mundo como em um cenário exterior ou um conjunto de dados aos quais ele se contentaria em reagir;ele só se constitui ao se agenciar, ele só existe tomado de imediato em agenciamentos¨[21].  E concluo apostando que a esquizoanálise é uma prática micropolítica que só  ganhará  sentido com referência a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares que proliferam a partir de uma multidão de mudanças mutantes: tornar-se mulher, tornar-se criança, tornar-se velho, tornar-se animal, planta, cosmos, tornar-se invisível…[22].

A noção acima, o ¨indivíduo só se constitui ao se agenciar¨, libera o poder de afecção dos indivíduos, para o entre-mundos – uma individuação por hecceidades e não por meio de características identificantes. E com isso, a esquizoanálise é aberta a novas formas subjetivas, novas formas de compor a vida, novas alternativas de reapropriação existencial que, porventura, novas coletividades humanas e de indivíduos venham a ¨agenciar¨: vidas vivas, vibrantes e então muito diferentes das formas de vida pobres que a subjetividade maquínica nos impõe.

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Muitas outras escolas da área-psi teriam como contribuir com o ¨exército dosTerranos¨ e com o ¨povo de Gaia¨. E, todavia, paro por aqui.

Uma palavra em torno do meu consultório. Sabe-se que um analista neurótico atrai muitos pacientes neuróticos, um analista com um certo traço mais esquizoide atrai muitos pacientes esquizoides, um analista ferido narcísico atrai muitos pacientes também feridos primais. Tudo isso se dá por afinidades eletivas! Claro que nem todos os analistas tem essa percepção à mão, refiro-me à sincronicidade, e então, não raro, acreditam que no mundo só tem neuróticos e  esquizóides, por exemplo, e continuam então ¨sonhando só consigo mesmos¨ – como denuncia Davi Kopenawa.

No meu consultório aparecem muitos Terranos, a maioria dos meus pacientes sãoTerranos – cá e lá um Humano do ¨povo da Natureza¨ acolhido também com muito amor . Mas estes últimos não são numerosos. Quero com isto dizer que há sim uma nova sensibilidade cuja ¨experiência de sofrimento¨ é a de não adaptar-se ao mundo dos Humanos – modernos do ¨povo da Natureza¨. Essa não adaptação, claro, traz muito sofrimento, mas começa-se a dizer não para o princípio de realidade instaurado pelo Humanos modernos e edipianos. A guerra está ganhando corpo.

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[1] Frente ao impacto que tive ao escutar e compreender as palavras do Prof. Viveiros de Castro em ambos os vídeos não resisti e fiz o mapa natal do antropólogo e seus trânsitos nos próximos anos. Eduardo é do signo de Áries e nasceu a 19 de Abril de 1951, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se então de um ariano e qualquer astrólogo escutando-o pode apreender isso facilmente. Não sei o horário que o antropólogo nasceu e então não sei qual é o ascendente. E, todavia, só com os dados que tenho posso ter muitas informações sobre ele. Seu sol está a 28 graus e 43 minutos e a imagem Sabeu ( símbolo tradicional da astrologia) do sol é: a large audience confronts the performer who disappointed its expectations (¨Uma grande plateia confronta o artista que frustrou as expectativas do público¨) . Como interpreto esta imagem? O ariano inicia novos mundos, esse é o seu fazer, pois é um iniciador. Ao iniciar um novo mundo, claro, sempre frustra a expectativa de muitos!É inevitável.

A Vênus do Eduardo está a 5 graus de gêmeos e o símbolo sabeu que lhe corresponde é: a revolutionary magazine asking for action (¨Uma revista revolucionária pedindo ação¨) . Desde 2011 Netuno em peixes, um dos grandes deuses da mudança, está fazendo uma quadratura com a Vênus do antropólogo e isto significa que ele se abriu para a ¨unidade da vida¨. Dito de outra maneira sua forma de amar e de criar mundos desde há alguns anos transformou-se pois cairam as fronteiras entre-mundos.Netuno dissolve as fronteiras entre-mundos e abre para todos nós, quando passa pela Vênus ou pelo sol, a ¨unidade da vida¨.Em 2013, 2014 e 2015 Netuno fez e estará fazendo quadratura exata a 5 graus de gêmeos e – prosseguirá em conjunção ainda por alguns anos –e então Viveiros está e estará no auge dessa apropriação: criação de mundos a partir da ¨unidade da vida¨. E isso nos permite ler poéticamente então o símbolo Sabeu que corresponde a Vênus: escritos revolucionários que pedem ação!

Este trânsito de Netuno quadrando Vênus é então quem dará uma tonalidade especial aos dois grandes trânsitos sobre o Sol do antropólogo. Urano em Áries, o imprevisível, e Plutão em Capricórnio, o transformador,farão respectivamente conjunção e quadratura com o Sol do antropólogo. Urano a partir de 2015 já estará fazendo conjunção com o Sol  e fará conjunção exata em 2017 e 2018 – prosseguindo ainda em conjunção por alguns anos.Plutão estará fazendo quadratura com o Sol de Eduardo a partir de 2018 e quadratura exata em 2022 – e por alguns anos ainda a partir dessa data. O que significa isso? Significa que esses dois planetas transpessoais trarão à tona as sementes genuínas da individualidade do antropólogo e com isso ele dará inícios – já que é o que melhor sabe fazer! – a mundos a partir de sua singularidade máxima. Quem viver, verá!

[2] A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami¨ é um relato único da história de vida de Davi Kopenawa. Relata a sua iniciação como xamã e os primeiros encontros com os forasteiros brancos. Descreve também a rica cultura, história e modos de vida dos habitantes da floresta e não se furta a descrever suas impressoões da cultura ocidental. O livro foi publicado em francês e em inglês e será publicado em português em 2014.

[3] Volume 44, número 4, 15-26, 2010, cujo tema é Alteridade.

[4] Freud e uma nova origem da espécie. Márcio Seligmann-Silva, Folha de São Paulo, 29/12/2013.

[5] Idem, ibidem.

[6] Idem. Ibidem.

[7] Idem. Ibidem.

[8] Cito-o: ¨Sim, há algo universal. É o desconforto das pessoas com suas limitações identitárias. Essa experiência é partilhada em qualquer tempo e lugar; define a condição humana. Dizer isso é o desdobramento de uma ideia freudiana: o mal estar é quem define o homem. Se quisermos podemos dizer que o mal estar é uma categoria ontológica[…] Então, acho que é possível construir experiências políticas, estéticas e reflexões clínicas, fazendo apelo a essa dimensão profundamente essencial que é a experiência do desconforto¨. Cult 186, ano 16/ dezembro de 2013. Entrevista com W. Safatle, ¨A Filosofia nua e crua¨.

[9] Talvez os bionianos ( W. R. Bion) possam abrir-se para essa escuta e isso em função da noção de inconsciente como potencialidade infinita. A mente primordial, realidade primeira do mental, para Bion, poderia bem ser pensada como transpessoal e mesmo transespecista – e é sim possível pensá-la para além da espécie homo sapiens.Da  mente primordial de Bion faz parte a  história mesmo do cosmos e o futuro do cosmos: é o Ó,  inominável, infinito, informe e é em direção ao Ó que se dá a expansão da mente. Bion discípulo e analisando de Melanie Klein parte, com certeza, da personalidade edipiana, mas tende para ummais além, para o infinito, para Ó.

[10] Afinidades Eletivas  é um romance de Goethe, que eu também recomendo;  sofreu publicações em vários selos editoriais.

[11][11] Cult, número 186, já citada, p. 11.

[12] Idem.

[13] Confrontar-se com o Inumano, Revista Cult, número 125, grifos meus.

[14] Confrontar-se com o Inumano. Op.cit.

[15] Idem, grifos meus.

[16] Cult, número 186, p. 11.

[17] C. Dunker é um psicanalista atento aos sofrimentos que se constelam como invenção e resposta às transformações no horizonte da nossa época. Uma dessas formas de sofrimento que o autor generaliza tomando como parâmetro as observações de W. Benjamim sobre os soldados que voltavam da Primeira Guerra Mundial refere-se à impossibilidade de narrar, de nomear, de dizer o sofrimento. Esse sofrimento hoje generalizado, expressa a brutalidade do choque, o inominável da experiência que silencia e, doravante, os que dele participam estão tais como os combatentes de guerra ¨narrativamente lesados¨, na medida em que não conseguem inscrever seu sofrimento em um discurso . Cito Dunker: ¨Seu paradigma literário são os zumbis ou mortos-vivos, seres funcionais que repetem automaticamente uma ação, incapazes de reconstruir a história da tragédia que sobre eles se abateu. Parecem seres que perderam a alma e cujo sofrimento aparece em meio a mutismos seletivos, fenômenos psicossomáticos e alexetimias ( dificuldade de perceber sentimentos e nomeá-los)¨. Revista Cult 174 – 19/11/2012. O artigo de C. Dunker chama-se ¨O real e a verdade do sofrimento¨.

[18] Na direção inversa, Dunker recorrerá à ¨antropologia do inumano¨ proposta por W. Safatle; estes experimentam uma forma de vida que é sentida como monstruosa, animal e coisificada e fracassam sistematicamente em dar nome à causa de seu sofrimento. E já que não nomeiam a causa, buscam encontrar a razão de seu mal estar no mundo, explorando para isso a força da inadequação,  do estranhamento e da fragmentação. Fora do tempo, fora de lugar, fora do corpo: ninguém melhor que as sexualidades estudadas por Judith Butler para dizê-los. Errantes da linguagem, inadaptados do trabalho, depressivos do desejo, seu sofrimento pode ser tematizado como exílio e isolamento e clinicamente é o que encontramos no trabalho de luto. Ressentimento e tédio rondam a vida desses seres errantes. Cito Dunker: ¨É o drama daqueles que são habitados por experiências de radical anomia e indeterminação, cujo maior exemplo literário é Frankenstein. Esta desregulação sistêmica do mundo, teorizada por Lacan como separação entre real, simbólico e imaginário, exprime-se como sentimento permanente de perda de unidade¨ ( CULT, número 174, p. 26).

[19] Cult,  número 174, p. 27 – grifos meus.

[20][20] O ¨inconsciente capitalístico¨ e ou o ¨inconsciente maquínico¨ corresponderiam à subjetividade capitalística produzida pela mídia e pelos equipamentos coletivos e impõe  modos de se compor com a vida que visam atender às exigências globais do sistema.

[21] DELEUZE, G.GUATTARI. F. Mil Platôs,  S. P. Editora Trinta e Quatro, 2003. p. 318 grifos meus.

[22] GUATTARI. Féliz. ¨Os oito ¨princípios¨ da esquizoanálise¨, escrito por Bernardo Rieux, 12/10/2005.

Tradicionais e libertários (Carta Capital)

“Muito das catástrofes da esquerda nas últimas décadas” deve ser atribuído “à perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada”

por Vladimir Safatle — publicado 13/01/2014 06:19

Eduardo Viveiros de Castro é, atualmente, um dos intelectuais mais originais e rigorosos de nosso país. Responsável por concepções antropológicas inovadoras, como o “perspectivismo ameríndio”, o antropólogo carioca forneceu subsídios teóricos importantes para a problematização de um campo, nem sempre totalmente explícito, no interior do qual se desenvolve o comércio entre filosofia e antropologia.

Muitas vezes de maneira silenciosa, conceitos filosóficos ligados à noção de progresso, identidade, diferença e racionalidade fornecem o fundamento implícito para teorias que querem ser vistas como a mera descrição neutra de realidades sociais múltiplas. Explicitar e problematizar tal fundamento implícito é apenas uma das virtudes do pensamento de Viveiros de Castro. Com isso, ele não apenas forneceu uma visão mais rica e complexa daquilo que a antropologia tradicional chamara anteriormente de “animismo”, com suas pretensas ligações a um “pensamento pré-lógico” que coloca os sistemas indígenas de representação no interior de um bizarro cortejo de regressões no qual encontramos, um ao lado do outro, o selvagem, a criança e o psicótico. Ao insistir que o estudo antropológico das realidades indígenas poderia revelar o potencial perdido de uma racionalidade mimética ignorada por nossos sistemas de pensamento, ao mostrar como conceitos de natureza marcados por um perspectivismo interno era uma maneira forte de nos ensinar a sair das vias da racionalidade resvalada à estratégia de dominação instrumental, Viveiros de Castro não teria como deixar de se voltar contra certo positivismo latente que habita mais de uma versão das teorias marxistas da história.

Nesse sentido, a entrevista por ele fornecida à revista Piauí de janeiro é reveladora. Nela, Viveiros de Castro expõe claramente suas críticas àquilo que aparece no texto como “a esquerda tradicional”, com sua incapacidade de escapar de uma visão produtivista da relação entre homem e natureza, de sua fascinação não dita pela força disciplinar do Estado, pela organização política sob a forma do partido e pela sua crença na história como realização progressiva que marca com o selo do arcaísmo aquilo que sempre esteve fora do processo de modernização capitalista. Contra isso, apareceria uma “esquerda libertária”, à sua maneira tributária dos ideais antitotalitários de maio de 1968, ciosa da afirmação das diferenças e desconfiada dos arranjos institucionais que a esquerda tradicional procuraria preservar.

De fato, essa foi a divisão política que marcou a história política da esquerda nos últimos 40 anos. Talvez a boa questão seja se precisamos realmente de ainda conservá-la. Muito das catástrofes políticas da esquerda nas últimas décadas deve ser debitado na conta da perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada. É verdade que tal divisão é ainda tão forte que nem sempre conseguimos nos fazer ouvir para além de certos estereótipos. Mas é de sua superação que depende o futuro de uma esquerda renovada e tal superação passa, certamente, pela revisão de certos pressupostos antropológicos que acabam por implicitamente guiar a ação política.

Por exemplo, podemos nos perguntar em quanto a tendência de alguns em estigmatizar ações como as impetradas pelos Black Blocs não seria dependente da crença em uma política organizada a partir de um “institucionalismo forte” que imediatamente compreende a recusa à institucionalidade como convite direto ao irracionalismo. Há de se perguntar o quanto isso não seria dependente de certa noção de progresso histórico como fortalecimento institucional.

No entanto, há de se lembrar dos problemas que o outro lado tem dificuldade em responder. Por exemplo, ao desconfiar do pretenso potencial disciplinar que estaria presente nas exigências de igualitarismo próprias à “esquerda tradicional” a dita “esquerda libertária” acabou, nas últimas décadas, por esquecer quão fundamental é organizar a luta política a partir do combate à desigualdade. Lembrem, o Partido Verde alemão, talvez um dos mais clássicos representantes dessa “esquerda libertária”, foi o mesmo que apoiou as leis de desregulamentação liberal do trabalho (Hartz IV) na Alemanha. A afirmação da diferença não pode nos cegar para a centralidade do combate sem trégua à desigualdade. Mas é simplesmente impossível lutar contra a desigualdade em larga escala sem um aparato institucional como o Estado, com sua força legal, tributária e universalizadora.

Linking Social Science, Ecology to Solve the World’s Environmental Problems (Science Daily)

Dec. 16, 2013 — Researchers from the ARC Centre of Excellence for Coral Reef Studies (CoECRS) at James Cook University are engaging social science to help solve some of the world’s biggest environmental problems.

Dr Christina Hicks, an interdisciplinary social science fellow at the ARC CoECRS, holds a joint position with the Center for Ocean Solutions at Stanford University in the USA.

Dr Hicks says more powerful economic interests, such as tourism, currently drive coral reef management. Little thought is given to community needs such as food or wellbeing. This results in conflict.

Dr Hicks explains to improve long-term coral reef management, “human values need to be considered in decision-making.”

Dr Nick Graham, a senior research fellow at the ARC CoECRS, adds that humans play an essential role in ecology, but different people have different priorities. He says these priorities need to be considered when managing natural environments.

For example, in a recent co-authored paper for the journal Global Environmental Change, Dr Hicks and Dr Graham, along with Dr Joshua Cinner, measured and compared how managers, scientists and fishers prioritized specific benefits from coral reef ecosystems. This in effect highlighted key areas of agreement and conflict between the three different stakeholder groups.

Dr Graham says the lack of ‘ownership’ of reef resources for fishers, who depend on fish for their food and livelihoods, underlies a main area of conflict. But the paper also indicated that managers might be well placed to play a brokering role in disagreements.

“Communities that are engaged and recognized are more likely to trust and support their management agencies,” adds Dr Hicks. She explains that governments who consult local communities in order to develop co-management plans generally reduce conflict and see increased livelihood as well as ecological benefits (such as a rise in fish stocks) in their area.

Examples of successful co-management arrangements exist in coral-reef nations such as Papua New Guinea and Kenya.

Journal Reference:

  1. Christina C. Hicks, Nicholas A.J. Graham, Joshua E. Cinner.Synergies and tradeoffs in how managers, scientists, and fishers value coral reef ecosystem servicesGlobal Environmental Change, 2013; 23 (6): 1444 DOI:10.1016/j.gloenvcha.2013.07.028

Age-Old ‘Man v. Wolf’ Battles Are Back In Europe (Worldcrunch)

Julie Farrar (2014-01-11) 

Article illustrative image

Iberian wolf in Lugo, Spain

“Wolves are not killed because they are grey, but because they eat sheep.”  (Russian proverb)

Who’s afraid of the Big, Bad Wolf? Well, as it turns out, more than just the shepherds whose flocks get devoured. In European culture, there is a deep-rooted negative image of the wolf, based on fear of attacks on humans — thanks to well-known children’s stories — combined with the loss of livestock, and therefore livelihood, to wolf depredation.

And over the past decade, as the number of members of the species has increased, humans are the ones on the attack.

In the central Italian city of Terni, a she-wolf was shot dead. This comes as in the coastal forest of Tuscany, eight wolves have been killed since November — three in the last week alone. In these most recent kills, two of which were wolf-dog hybrids, the animals had been tied up on a city street where they were beaten, shot and left abandoned as acts of “demonstrative warning,” according to La Stampa.

Giacomo Bottinelli of the Italian animal rights group LAV blamed sheep farmers and lax hunting regulations that he says “guarantee the impunity of dangerous criminals.”

Meanwhile, in Tamins, Switzerland, a wolf was found dead this week, and it was determined that it had been shot two weeks earlier and left to succumb to a slow and painful death, reports 24 Heures. “This situation surprised us completely, even if we knew the local population was concerned by the presence of the wolf pack in the area,” said State Councilor Mario Cavigelli. “Completely informing the population is our top priority. Wolves are not dangerous as long as we don’t feed them.”

Experts note that there are solutions to keep the animals at bay, e.g. the use of rubber bullets, flashing lights and even the presence of sheepdogs. It’s true that as predation grows, an open debate must take place — but funds are lacking and the shepherds need help.

Pets in the middle

In Germany, as elsewhere, it was believed that the species had been hunted to extinction more than a century ago. But over the past decade, wolves have returned, migrating back from Eastern Europe and reigniting ancient fears. German weekly Der Spiegel reports that researchers at the Senckenberg Society for Natural Research proved that livestock accounts for less than 1% of wolves’ diets.

The resurgence of the animals has caused anger amongst farmers, who declare that the wolves are not just eating their sheep and other livestock, but household pets as well.

“We’re not against wolves, but we want them to stay on government-owned lands. When they leave these territories, we want to be able to shoot them,” said Lutz-Uwe Kahn, of the Brandenburg Farmers Alliance, quoted in Der Tagesspiegel.

There is the fear that the wolves will attack humans but, as Werner Freund proved to VICE magazine, it is entirely possible to co-habitate with them. Freund, a former marine, has been living with wild wolves in Merzig, a small town near the French border, for the past 30 years. He firmly believes that wolves only attack when cornered, and that fairy tales have brought up to believe they are to be feared. “If we say that wolves shouldn’t live here,” he continues, “then we have no right to complain about the killing of elephants in Africa for ivory.”

While Freund’s view is certainly atypical, as very few people in the world have had similar experiences with the species as he has, Germany is not the only country that is experiencing a comeback from the creatures: After an absence of 70 years, they’re back in Spain’s Guadarrama mountains, just 65 kilometers from Madrid.

Over the past two months, writes The Guardian, around 100 sheep and cattle have been killed near Buitrago, in the northern foothills of the Guadarrama mountains, says Juan Carlos Blanco, a wolf specialist and adviser to the Spanish environment ministry.

“Guadarrama can support two, even three, packs. We think there are now six packs within 100 kilometers of Madrid. When they arrive in a new area the shepherds don’t know what to do. Then they find ways to protect their flocks with dogs or fences. It’s a natural event, and the wolf will not go away now,” he says.

Blanco notes that even if hunters exterminate one pack, others will take its place. “Wolves, he said, “are very adaptable and resilient.”

Our singularity future: should we hack the climate? (Singularity Hub)

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Posted: 01/8/14 8:31 AM

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Even the most adamant techno-optimists among us must admit that new technologies can introduce hidden dangers: Fire, as the adage goes, can cook the dinner, but it can also burn the village down.

The most powerful example of unforeseen disadvantages stemming from technology is climate change. Should we attempt to fix a problem caused by technology, using more novel technology to hack the climate? The question has spurred heated debate.

Those in favor point to failed efforts to curb carbon dioxide emissions and insist we need other options. What if a poorly understood climatic tipping point tips and the weather becomes dangerous overnight; how will slowing emissions help us then?

“If you look at the projections for how much the Earth’s air temperature is supposed to warm over the next century, it is frightening. We should at least know the options,” said Rob Wood, a University of Washington climatologist who edited a recent special issue of the journal Climatic Change devoted to geoengineering.

Wood’s view is gaining support, as the predictions about the effects of climate change continue to grow more dire, and the weather plays its part to a tee.

But big, important questions need answers before geoengineering projects take off. Critics point to science’s flimsy understanding of the complex systems that drive the weather. And even supporters lament the lack of any experimental framework to contain disparate experiments on how to affect it.

“Proposed projects have been protested or canceled, and calls for a governance framework abound,” Lisa Dilling and Rachel Hauser wrote in a paper that appears in the special issue. “Some have argued, even, that it is difficult if not impossible to answer some research questions in geoengineering at the necessary scale without actually implementing geoengineering itself.”

Most proposed methods of geoengineering derive from pretty basic science, but questions surround how to deploy them at a planetary scale and how to measure desired and undesired effects on complex weather and ocean cycles. Research projects that would shed light on those questions would be big enough themselves potentially to affect neighboring populations, raising ethical questions as well.

stratoshieldEarlier efforts to test fertilizing the ocean with iron to feed algae that would suck carbon dioxide from the air and to spray the pollutant sulfur dioxide, which reflects solar radiation, into the atmosphere were mired in controversy. A reputable UK project abandoned its plans to test its findings in the field.

But refinements on those earlier approaches are percolating. They include efforts both to remove previously emitted carbon dioxide from the atmosphere and to reduce the portion of the sun’s radiation that enters the atmosphere.

One method of carbon dioxide removal (or CDR) would expose large quantities of carbon-reactive minerals to the air and then store the resulting compounds underground; another would use large C02 vacuums to suck the greenhouse gas directly from the air into underground storage.

Solar radiation management (or SRM) methods include everything from painting roofs white to seeding the clouds with salt crystals to make them more reflective and mimicking the climate-cooling effects of volcanic eruptions by spraying  sulfur compounds into the atmosphere.

The inevitable impact of geoengineering research on the wider population has led many scientists to compare geoengineering to genetic research. The comparison to genetic research also hints at the huge benefits geoengineering could have if it successfully wards off the most savage effects of climate change.

As with genetic research, principles have been developed to shape the ethics of the research. Still, the principles remain vague, according to a 2012 Nature editorial, and flawed, according to a philosophy-of-science take in the recent journal issue. Neither the U.S. government nor international treaties have addressed geoengineering per se, though many treaties would influence its testing implementation.

The hottest research now explores how long climate-hacks would take to work, lining up their timelines with the slow easing of global warming that would result from dramatically lowered carbon dioxide emissions, and how to weigh the costs of geoengineering projects and accommodate public debate.

Proceeding with caution won’t get fast answers, but it seems a wise way to address an issue as thorny as readjusting the global thermostat.

Facebook Data Scientists Prove Memes Mutate And Adapt Like DNA (TechCrunch)

Posted Jan 8, 2014 by  (@joshconstine)

Richard Dawkins likened memes to genes, but a new study by Facebook shows just how accurate that analogy is. Memes adapt to their surroundings in order to survive, just like organisms. Post a liberal meme saying no one should die for lack of healthcare, and conservatives will mutate it to say no one should die because Obamacare rations their healthcare. And nerds will make it about Star Wars.

Facebook’s data scientists used anonymized data to determine that “Just as certain genetic mutations can be advantageous in specific environments, meme mutations can be propagated differentially if the variant matches the subpopulation’s beliefs or culture.”

Take this meme:

“No one should die because they cannot afford health care, and no one should go broke because they get sick. If you agree, post this as your status for the rest of the day”.

In September 2009, 470,000 Facebook users posted this exact phrase as a status update. But a total of 1.14 million status updates containing 121,605 variants of the meme were spawned, such as “No one should be frozen in carbonite because they can’t pay Jabba The Hut”. Why? Because humans help bend memes to better fit their audience.

In the chart below you can see how people of different political leanings adapted the meme to fit their own views, and likely the views of people they’re friends with. As Facebook’s data scientists explain, “the original variant in support of Affordable Care Act (aka Obamacare) was propagated primarily by liberals, while those mentioning government and taxes slanted conservative. Sci-fi variants were slightly liberal, alcohol-related ones slightly conservative”. That matches theories by Dawkins and Malcom Gladwell.

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Average political bias (-2 being very liberal, +2 being very conservative) of users reposting different variants of the “no one should” meme.

As I wrote in my Stanford Cybersociology Master’s program research paper, memes are more shareable if they’re easy to remix. When a meme has a clear template with substitutable variables, people recognize how to put their own spin on it. They’re then more likely to share their own modified creations, which drives awareness of the original. When I recognized this back in 2009, I based my research on Lolcats and Soulja Boy, but more recently The Harlem Shake meme proved me right.

Facebook’s findings and my own have signficant implications for marketers or anyone looking to make a message go viral. Once you know memes are naturally inclined to mutate, and that these mutations increase sharing, you can try to purposefully structure your message in a remixable way. By creating and seeding a few variants of your own, you can crystallize how the template works and encourage your audience to make their own remixes.

As you can see in this graph from my research paper, usage of the word “haz” as in the Lolcat phrase “I can haz cheezburger” grew increasingly popular for several years. Meanwhile, less remixable memes often only create a spike in mentions for a few days. I posit that high remixability — or adaptability — keeps memes popular for a much longer period of time.

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Rise in mentions of the word “haz” in Facebook wall posts, indicating sustained popularity of the highly remixable Lolcats memes – as shown on the now defunct Facebook Lexicon tool

For social networks like Facebook, understanding how memes evolve could make sure we continue to see fresh content. Rather than showing us the exact copies of a meme over and over again in the News Feed, Facebook’s algorithms could purposefully search for and promote mutated variations.

That way instead of hearing about healthcare over and over, you might see that “No one should twerk just because they can’t avoid hearing Miley Cyrus on the radio. If you agree, sit perfectly still with your tongue safely inside your mouth for the rest of the day.”

Samba soccer. The transformation of Brazil’s most storied team (The New Yorker)

BEN MCGRATHJANUARY 13, 2014

The last time Brazil hosted the World Cup, in 1950, two hundred thousand people—a tenth of the population of Rio de Janeiro—streamed into the newly completed Maracanã Stadium to watch their beloved national team, the Seleção, compete for the title against Uruguay. A monumental concrete bowl, intended to rival the Christ statue atop Corcovado, the Maracanã resembled a spaceship and was meant to embody, as the British journalist Alex Bellos writes in “Futebol: The Brazilian Way of Life,” not only Brazil’s athletic ambition but also “the country’s place in the modern world.” Its capacity was greater by several magnitudes than any other Brazilian stadium. Some ten thousand men had contributed to its construction, practicing goal celebrations while they worked. They’d even, somehow, finished ahead of schedule. (…)

Ler o artigo integral aqui: The New Yorker _ Jan 13, 2014

Sem Título-2

Otimismo do brasileiro cai pela primeira vez desde 2009 (OESP)

Por José Roberto de Toledo | Estadão Conteúdo – 12.jan.2014

No ano em que a presidente Dilma Rousseff tentará se reeleger, o otimismo do brasileiro está 17 pontos menor do que quando a petista assumiu a Presidência da República. Segundo pesquisa do Ibope, 57% esperam que 2014 seja melhor do que 2013. Apesar de elevada, a taxa caiu pela primeira vez em anos. Na pesquisa anterior, os otimistas eram 72% – mesmo patamar de 2011 (74%), 2010 (73%) e 2009 (74%), pela margem de erro.

O pessimismo praticamente dobrou nos últimos 12 meses. Agora, 14% acham que 2014 será pior do que 2013. Um ano antes, só 8% achavam que 2013 seria pior do que 2012. Os restantes 24% apostam que este ano será igual ao anterior (eram 17%).

Há diferenças regionais importantes no otimismo dos brasileiros. Ele é muito maior no Norte/Centro-Oeste (69%) e Nordeste (67%) do que no Sudeste (47%). Destaca-se nas capitais (61%) e murcha nas cidades das periferias das metrópoles (52%). É a marca dos jovens com menos de 25 anos (64%) e dos mais ricos (72%).

A pesquisa do Ibope faz parte de um levantamento global de opinião pública realizado em 65 países pela rede WIN, que reúne alguns dos maiores institutos de pesquisa do mundo. Apesar da diminuição das expectativas de melhora, o Brasil ainda aparece em 7º lugar no ranking das nações mais otimistas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

SHY Hypothesis Explains That Sleep Is the Price We Pay for Learning (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — Why do animals ranging from fruit flies to humans all need to sleep? After all, sleep disconnects them from their environment, puts them at risk and keeps them from seeking food or mates for large parts of the day.

Sleeping puppy. Is sleep the price the brain must pay for learning and memory? (Credit: © paul prescott / Fotolia)

Two leading sleep scientists from the University of Wisconsin School of Medicine and Public Health say that their synaptic homeostasis hypothesis of sleep or “SHY” challenges the theory that sleep strengthens brain connections. The SHY hypothesis, which takes into account years of evidence from human and animal studies, says that sleep is important because it weakens the connections among brain cells to save energy, avoid cellular stress, and maintain the ability of neurons to respond selectively to stimuli.

“Sleep is the price the brain must pay for learning and memory,” says Dr. Giulio Tononi, of the UW Center for Sleep and Consciousness. “During wake, learning strengthens the synaptic connections throughout the brain, increasing the need for energy and saturating the brain with new information. Sleep allows the brain to reset, helping integrate, newly learned material with consolidated memories, so the brain can begin anew the next day. ”

Tononi and his co-author Dr. Chiara Cirelli, both professors of psychiatry, explain their hypothesis in a review article in today’s issue of the journal Neuron. Their laboratory studies sleep and consciousness in animals ranging from fruit flies to humans; SHY takes into account evidence from molecular, electrophysiological and behavioral studies, as well as from computer simulations. “Synaptic homeostasis” refers to the brain’s ability to maintain a balance in the strength of connections within its nerve cells.

Why would the brain need to reset? Suppose someone spent the waking hours learning a new skill, such as riding a bike. The circuits involved in learning would be greatly strengthened, but the next day the brain will need to pay attention to learning a new task. Thus, those bike-riding circuits would need to be damped down so they don’t interfere with the new day’s learning.

“Sleep helps the brain renormalize synaptic strength based on a comprehensive sampling of its overall knowledge of the environment,” Tononi says, “rather than being biased by the particular inputs of a particular waking day.”

The reason we don’t also forget how to ride a bike after a night’s sleep is because those active circuits are damped down less than those that weren’t actively involved in learning. Indeed, there is evidence that sleep enhances important features of memory, including acquisition, consolidation, gist extraction, integration and “smart forgetting,” which allows the brain to rid itself of the inevitable accumulation of unimportant details. However, one common belief is that sleep helps memory by further strengthening the neural circuits during learning while awake. But Tononi and Cirelli believe that consolidation and integration of memories, as well as the restoration of the ability to learn, all come from the ability of sleep to decrease synaptic strength and enhance signal-to-noise ratios.

While the review finds testable evidence for the SHY hypothesis, it also points to open issues. One question is whether the brain could achieve synaptic homeostasis during wake, by having only some circuits engaged, and the rest off-line and thus resetting themselves. Other areas for future research include the specific function of REM sleep (when most dreaming occurs) and the possibly crucial role of sleep during development, a time of intense learning and massive remodeling of brain.

This work was supported by NIMH (1R01MH091326 and 1R01MH099231 to GT and CC)

Journal Reference:

  1. Giulio Tononi, Chiara Cirelli. Sleep and the Price of Plasticity: From Synaptic and Cellular Homeostasis to Memory Consolidation and IntegrationNeuron, 2014; 81 (1): 12 DOI: 10.1016/j.neuron.2013.12.025

Funding Problems Threaten U. S. Disaster Preparedness (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — The Sept. 11, 2001 attacks in New York City prompted large increases in government funding to help communities respond and recover after human-made and natural disasters. But, this funding has fallen considerably since the economic crisis in 2008. Furthermore, disaster funding distribution is deeply inefficient: huge cash infusions are disbursed right after a disaster, only to fall abruptly after interest wanes. These issues have exposed significant problems with our nation’s preparedness for public health emergencies.

In a report published by the Institute of Medicine, authors Jesse Pines, M.D., director of the Office of Clinical Practice Innovation at the George Washington University (GW) School of Medicine and Health Sciences (SMHS); Seth Seabury, Ph.D., associate professor of emergency medicine at the Keck School of Medicine of the University of Southern California (USC); and William Pilkington, DPA, of the Cabarrus Health Alliance, make seven recommendations to provide a road map to enhance the sustainability of preparedness efforts in the United States.

“With more limited government funding in the foreseeable future, the government needs to be smarter about how it spends its money on emergency preparedness in this country,” said Seabury, who is also with the Leonard D. Schaeffer Center for Health Policy & Economics at USC. “We need to know which communities are prepared and which aren’t, when money is spent, and whether it’s really making these communities better off in handling a disaster.”

The authors make the following recommendations:

1. The federal government should develop and assess measures of emergency preparedness both at the community-level and across communities in the U.S.

2. Measures developed by the federal government should be used to conduct a nation-wide gap analysis of community preparedness.

3. Alternative ways of distributing funding should be considered to ensure all communities have the ability to build and sustain local coalitions to support sufficient infrastructure.

4. When monies are released for projects, there should be clear metrics of grant effectiveness.

5. There should be better coordination at the federal level, including funding and grant guidance.

6. Local communities should build coalitions or use existing coalitions to build public-private partnerships with local hospitals and other businesses with a stake in preparedness.

7. Communities should be encouraged to engage in ways to finance local preparedness efforts.

“A lot of communities out there have found creative ways to get local businesses to invest in preparedness. The more locals buying into the importance of preparedness, the more resilient a community is,” said Pines, who is also a professor of emergency medicine at GW SMHS and professor of health policy at the GW School of Public Health and Health Services. “How Boston responded and recovered so effectively after the marathon bombings is a great example of a prepared community.”

The study, titled “Value-Based Models for Sustaining Emergency Preparedness Capacity and Capability in the United States,” was published by The Institute of Medicine Preparedness Forum.

Climate change rattles mental health of Inuit in Labrador (CBC)

‘Grief, mourning, anger, frustration’ over environmental changes

CBC News Posted: Jan 10, 2014 5:22 PM ET Last Updated: Jan 10, 2014 5:58 PM ET

This photo supplied by researcher Ashlee Cunsolo Willox shows cabins in Double Mer just outside of Rigolet in Nunatsiavut, Labrador. Climate change has caused ice to break up or not form at all, making it difficult for Inuit populations to access the cabins they use as a base for hunting and trapping.This photo supplied by researcher Ashlee Cunsolo Willox shows cabins in Double Mer just outside of Rigolet in Nunatsiavut, Labrador. Climate change has caused ice to break up or not form at all, making it difficult for Inuit populations to access the cabins they use as a base for hunting and trapping. (Couresty My Word: Storytelling & Digital Media Lab)

Researchers studying the mental health and well-being of Inuit populations in coastal Labrador say rising temperatures are having damaging psychological effects on people in traditional communities.

‘Many people said they also felt very depressed about not being able to get out there on the land’– Ashlee Cunsolo Willox, researcher for Inuit Mental Health Adaptation to Climate Change project

In an interview airing on CBC Radio’s Quirks & Quarks on Saturday, Dr. Ashlee Cunsolo Willox, who has been working in partnership with Inuit communities in Nunatsiavut since 2009, describes intense feelings of isolation among people there following temperature changes that have caused disruptions in how the ice and snow are interacting.

“The North Labrador Coast is one of the fastest-changing and fastest-warming areas anywhere in the world,” she told host Bob McDonald. “In particular, rising temperatures have led to a real decrease in sea ice.”

There were strong emotional reactions to that loss among all 120 people interviewed by researchers behind the community-based Inuit Mental Health Adaptation to Climate Change project.

The feelings included a sense of grief, mourning, anger, frustration, sadness, and many people said they also felt very depressed about not being able to get out there on the land,” Cunsolo Willox said.

Traditional routes no longer safe

Wildlife and vegetation have changed, with caribou and moose moving further north, and traditional berries have been failing to grow when they have in the past.

“In some cases, they’re getting less snow than before, which makes it very difficult to travel inland by Ski-Doo or by dog team,” added Cunsolo Willox, who holds the Canada Research Chair in Determinants of Healthy Communities at Cape Breton University.

She and her colleagues interviewed people in the communities of Nain, Hopedale, Postville, Makkovik and Rigolet, and their work is run in partnership with the Rigolet Inuit Community Government. The majority of those interviewed are Inuit.

“People describe themselves as land people, as people of the snow and the ice, and would say that going out on the land and hunting and trapping and fishing [is] just as much part of their life as breathing,” Cunsolo Willox said.

The full interview will be broadcast on Saturday’s program at noon.

Kids Have Skewed View of Gender Segregation (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — Children believe the world is far more segregated by gender than it actually is, implies a new study led by a Michigan State University scholar.

Jennifer Watling Neal and colleagues examined classroom friendships in five U.S. elementary schools. Their findings, published in the journal Child Development, found boys and girls had no problems being friends together but for some reason had a perception that only boys played with boys and girls played with girls.

“Kids believe gender plays a larger role in friendship that it actually does,” said Neal, assistant professor of psychology.

Children who have more accurate perceptions of the social relationships around them may be better able to avoid conflict and have more positive interactions with their peers, Neal said.

The findings also have implications when the students grow up.

“In adulthood,” Neal said, “we know that people who have accurate perceptions of workplace relationships tend to be perceived as more powerful and have better reputations than their colleagues.”

The study of 426 second- through fourth-graders found gender is still important in the formation of friendships; children were nine times more likely to be friends if they were the same gender.

However, when asked about their friends’ friends, a child was 50 times more likely to believe two classmates were friends when they were the same gender.

“Thus, while gender does matter a great deal in the formation of children’s friendships, children think it is nearly the only relevant factor,” Neal said.

Journal Reference:

  1. Jennifer Watling Neal, Zachary P. Neal, Elise Cappella. I Know Who My Friends Are, but Do You? Predictors of Self-Reported and Peer-Inferred RelationshipsChild Development, 2013; DOI: 10.1111/cdev.12194

Peak Oil Is Dead. Long Live Peak Oil! (The Nation)

The eulogies for peak oil came too soon. 

Michael T. Klare

January 9, 2014

Oil rig

A drilling rig near Kennedy, Texas. (AP Photo/Eric Gay)

Among the big energy stories of 2013, “peak oil”—the once-popular notion that worldwide oil production would soon reach a maximum level and begin an irreversible decline—was thoroughly discredited. The explosive development of shale oil and other unconventional fuels in the United States helped put it in its grave.

As the year went on, the eulogies came in fast and furious. “Today, it is probably safe to say we have slayed ‘peak oil’ once and for all, thanks to the combination of new shale oil and gas production techniques,” declared Rob Wile, an energy and economics reporter for Business Insider. Similar comments from energy experts were commonplace, prompting an R.I.P. headline at Time.com announcing, “Peak Oil is Dead.”

Not so fast, though. The present round of eulogies brings to mind the Mark Twain’s famous line: “The reports of my death have been greatly exaggerated.” Before obits for peak oil theory pile up too high, let’s take a careful look at these assertions. Fortunately, the International Energy Agency (IEA), the Paris-based research arm of the major industrialized powers, recently did just that—and the results were unexpected. While not exactly reinstalling peak oil on its throne, it did make clear that much of the talk of a perpetual gusher of American shale oil is greatly exaggerated. The exploitation of those shale reserves may delay the onset of peak oil for a year or so, the agency’s experts noted, but the long-term picture “has not changed much with the arrival of [shale oil].”

The IEA’s take on this subject is especially noteworthy because its assertion only a year earlier that the US would overtake Saudi Arabia as the world’s number one oil producer sparked the “peak oil is dead” deluge in the first place. Writing in the 2012 edition of its World Energy Outlook, the agency claimed not only that “the United States is projected to become the largest global oil producer” by around 2020, but also that with US shale production and Canadian tar sands coming online, “North America becomes a net oil exporter around 2030.”

That November 2012 report highlighted the use of advanced production technologies—notably horizontal drilling and hydraulic fracturing (“fracking”)—to extract oil and natural gas from once inaccessible rock, especially shale. It also covered the accelerating exploitation of Canada’s bitumen (tar sands or oil sands), another resource previously considered too forbidding to be economical to develop. With the output of these and other “unconventional” fuels set to explode in the years ahead, the report then suggested, the long awaited peak of world oil production could be pushed far into the future.

The release of the 2012 edition of World Energy Outlook triggered a global frenzy of speculative reporting, much of it announcing a new era of American energy abundance. “Saudi America” was the headline over one such hosanna in the Wall Street Journal. Citing the new IEA study, that paper heralded a coming “US energy boom” driven by “technological innovation and risk-taking funded by private capital.” From then on, American energy analysts spoke rapturously of the capabilities of a set of new extractive technologies, especially fracking, to unlock oil and natural gas from hitherto inaccessible shale formations. “This is a real energy revolution,” the Journalcrowed.

But that was then. The most recent edition of World Energy Outlook, published this past November, was a lot more circumspect. Yes, shale oil, tar sands, and other unconventional fuels will add to global supplies in the years ahead, and, yes, technology will help prolong the life of petroleum. Nonetheless, it’s easy to forget that we are also witnessing the wholesale depletion of the world’s existing oil fields and so all these increases in shale output must be balanced against declines in conventional production. Under ideal circumstances—high levels of investment, continuing technological progress, adequate demand and prices—it might be possible to avert an imminent peak in worldwide production, but as the latest IEA report makes clear, there is no guarantee whatsoever that this will occur.

Inching Toward the Peak

Before plunging deeper into the IEA’s assessment, let’s take a quick look at peak oil theory itself.

As developed in the 1950s by petroleum geologist M. King Hubbert, peak oil theory holds that any individual oil field (or oil-producing country) will experience a high rate of production growth during initial development, when drills are first inserted into a oil-bearing reservoir. Later, growth will slow, as the most readily accessible resources have been drained and a greater reliance has to be placed on less productive deposits. At this point—usually when about half the resources in the reservoir (or country) have been extracted—daily output reaches a maximum, or “peak,” level and then begins to subside. Of course, the field or fields will continue to produce even after peaking, but ever more effort and expense will be required to extract what remains. Eventually, the cost of production will exceed the proceeds from sales, and extraction will be terminated.

For Hubbert and his followers, the rise and decline of oil fields is an inevitable consequence of natural forces: oil exists in pressurized underground reservoirs and so will be forced up to the surface when a drill is inserted into the ground. However, once a significant share of the resources in that reservoir has been extracted, the field’s pressure will drop and artificial means—water, gas, or chemical insertion—will be needed to restore pressure and sustain production. Sooner or later, such means become prohibitively expensive.

Peak oil theory also holds that what is true of an individual field or set of fields is true of the world as a whole. Until about 2005, it did indeed appear that the globe was edging ever closer to a peak in daily oil output, as Hubbert’s followers had long predicted. (He died in 1989.) Several recent developments have, however, raised questions about the accuracy of the theory. In particular, major private oil companies have taken to employing advanced technologies to increase the output of the reservoirs under their control, extending the lifetime of existing fields through the use of what’s called “enhanced oil recovery,” or EOR. They’ve also used new methods to exploit fields once considered inaccessible in places like the Arctic and deep oceanic waters, thereby opening up the possibility of a most un-Hubbertian future.

In developing these new technologies, the privately owned “international oil companies” (IOCs) were seeking to overcome their principal handicap: most of the world’s “easy oil”—the stuff Hubbert focused on that comes gushing out of the ground whenever a drill is inserted—has already been consumed or is controlled by state-owned “national oil companies” (NOCs), including Saudi Aramco, the National Iranian Oil Company, and the Kuwait National Petroleum Company, among others. According to the IEA, such state companies control about 80 percent of the world’s known petroleum reserves, leaving relatively little for the IOCs to exploit.

To increase output from the limited reserves still under their control—mostly located in North America, the Arctic, and adjacent waters—the private firms have been working hard to develop techniques to exploit “tough oil.” In this, they have largely succeeded: they are now bringing new petroleum streams into the marketplace and, in doing so, have shaken the foundations of peak oil theory.

Those who say that “peak oil is dead” cite just this combination of factors. By extending the lifetime of existing fields through EOR and adding entire new sources of oil, the global supply can be expanded indefinitely. As a result, they claim, the world possesses a “relatively boundless supply” of oil (and natural gas). This, for instance, was the way Barry Smitherman of the Texas Railroad Commission (which regulates that state’s oil industry) described the global situation at a recent meeting of the Society of Exploration Geophysicists.

Peak Technology

In place of peak oil, then, we have a new theory that as yet has no name but might be called techno-dynamism. There is, this theory holds, no physical limit to the global supply of oil so long as the energy industry is prepared to, and allowed to, apply its technological wizardry to the task of finding and producing more of it. Daniel Yergin, author of the industry classics, The Prize andThe Quest, is a key proponent of this theory. He recently summed up the situation this way: “Advances in technology take resources that were not physically accessible and turn them into recoverable reserves.” As a result, he added, “estimates of the total global stock of oil keep growing.”

From this perspective, the world supply of petroleum is essentially boundless. In addition to “conventional” oil—the sort that comes gushing out of the ground—the IEA identifies six other potential streams of petroleum liquids: natural gas liquids; tar sands and extra-heavy oil; kerogen oil (petroleum solids derived from shale that must be melted to become usable); shale oil; coal-to-liquids (CTL); and gas-to-liquids (GTL). Together, these “unconventional” streams could theoretically add several trillion barrels of potentially recoverable petroleum to the global supply, conceivably extending the Oil Age hundreds of years into the future (and in the process, via climate change, turning the planet into an uninhabitable desert).

But just as peak oil had serious limitations, so, too, does techno-dynamism. At its core is a belief that rising world oil demand will continue to drive the increasingly costly investments in new technologies required to exploit the remaining hard-to-get petroleum resources. As suggested in the 2013 edition of the IEA’s World Energy Outlook, however, this belief should be treated with considerable skepticism.

Among the principal challenges to the theory are these:

1. Increasing Technology Costs: While the costs of developing a resource normally decline over time as industry gains experience with the technologies involved, Hubbert’s law of depletion doesn’t go away. In other words, oil firms invariably develop the easiest “tough oil” resources first, leaving the toughest (and most costly) for later. For example, the exploitation of Canada’s tar sands began with the strip-mining of deposits close to the surface. Because those are becoming exhausted, however, energy firms are now going after deep-underground reserves using far costlier technologies. Likewise, many of the most abundant shale oil deposits in North Dakota have now been depleted, requiring an increasing pace of drilling to maintain production levels. As a result, the IEA reports, the cost of developing new petroleum resources will continually increase: up to $80 per barrel for oil obtained using advanced EOR techniques, $90 per barrel for tar sands and extra-heavy oil, $100 or more for kerogen and Arctic oil, and $110 for CTL and GTL. The market may not, however, be able to sustain levels this high, putting such investments in doubt.

2. Growing Political and Environmental Risk: By definition, tough oil reserves are located in problematic areas. For example, an estimated 13 percent of the world’s undiscovered oil lies in the Arctic, along with 30 percent of its untapped natural gas. The environmental risks associated with their exploitation under the worst of weather conditions imaginable will quickly become more evident—and so, faced with the rising potential for catastrophic spills in a melting Arctic, expect a commensurate increase in political opposition to such drilling. In fact, a recent increase has sparked protests in both Alaska and Russia, including the much-publicized September 2013 attempt by activists from Greenpeace to scale a Russian offshore oil platform—an action that led to their seizure and arrest by Russian commandos. Similarly, expanded fracking operations have provoked a steady increase in anti-fracking activism. In response to such protests and other factors, oil firms are being forced to adopt increasingly stringent environmental protections, pumping up the cost of production further.

3. Climate-Related Demand Reduction: The techno-optimist outlook assumes that oil demand will keep rising, prompting investors to provide the added funds needed to develop the technologies required. However, as the effects of rampant climate change accelerate, more and more polities are likely to try to impose curbs of one sort or another on oil consumption, suppressing demand—and so discouraging investment. This is already happening in the United States, where mandated increases in vehicle fuel-efficiency standards are expected to significantly reduce oil consumption. Future “demand destruction” of this sort is bound to impose a downward pressure on oil prices, diminishing the inclination of investors to finance costly new development projects.

Combine these three factors, and it is possible to conceive of a “technology peak” not unlike the peak in oil output originally envisioned by M. King Hubbert. Such a techno-peak is likely to occur when the “easy” sources of “tough” oil have been depleted, opponents of fracking and other objectionable forms of production have imposed strict (and costly) environmental regulations on drilling operations, and global demand has dropped below a level sufficient to justify investment in costly extractive operations. At that point, global oil production will decline even if supplies are “boundless” and technology is still capable of unlocking more oil every year.

Peak Oil Reconsidered

Peak oil theory, as originally conceived by Hubbert and his followers, was largely governed by natural forces. As we have seen, however, these can be overpowered by the application of increasingly sophisticated technology. Reservoirs of energy once considered inaccessible can be brought into production, and others once deemed exhausted can be returned to production; rather than being finite, the world’s petroleum base now appears virtually inexhaustible.

Does this mean that global oil output will continue rising, year after year, without ever reaching a peak? That appears unlikely. What seems far more probable is that we will see a slow tapering of output over the next decade or two as costs of production rise and climate change—along with opposition to the path chosen by the energy giants—gains momentum. Eventually, the forces tending to reduce supply will overpower those favoring higher output, and a peak in production will indeed result, even if not due to natural forces alone.

Such an outcome is, in fact, envisioned in one of three possible energy scenarios the IEA’s mainstream experts lay out in the latest edition of World Energy Outlook. The first assumes no change in government policies over the next 25 years and sees world oil supply rising from 87 to 110 million barrels per day by 2035; the second assumes some effort to curb carbon emissions and so projects output reaching “only” 101 million barrels per day by the end of the survey period.

It’s the third trajectory, the “450 Scenario,” that should raise eyebrows. It assumes that momentum develops for a global drive to keep greenhouse gas emissions below 450 parts per million—the maximum level at which it might be possible to prevent global average temperatures from rising above two degrees Celsius (and so cause catastrophic climate effects). As a result, it foresees a peak in global oil output occurring around 2020 at about 91 million barrels per day, with a decline to 78 million barrels by 2035.

It would be premature to suggest that the “450 Scenario” will be the immediate roadmap for humanity, since it’s clear enough that, for the moment, we are on a highway to hell that combines the IEA’s first two scenarios. Bear in mind, moreover, that many scientists believe a global temperature increase of even two degrees Celsius would be enough to produce catastrophic climate effects. But as the effects of climate change become more pronounced in our lives, count on one thing: the clamor for government action will grow more intense, and so eventually we’re likely to see some variation of the 450 Scenario take shape. In the process, the world’s demand for oil will be sharply constricted, eliminating the incentive to invest in costly new production schemes.

The bottom line: global peak oil remains in our future, even if not purely for the reasons given by Hubbert and his followers. With the gradual disappearance of “easy” oil, the major private firms are being forced to exploit increasingly tough, hard-to-reach reserves, thereby driving up the cost of production and potentially discouraging new investment at a time when climate change and environmental activism are on the rise.

Peak oil is dead! Long live peak oil!

Exposição relembra shows étnicos com humanos ‘exóticos’ na Europa (BBC)

Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil

Atualizado em  2 de dezembro, 2011 – 09:46 (Brasília) 11:46 GMT

Uma exposição no museu do Quai Branly, em Paris, mostra como seres humanos considerados “exóticos, selvagens ou monstros” foram exibidos durante séculos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente.A exposição Exibições – A Invenção do Selvagem indica, segundo os organizadores, que esses “espetáculos” com índios, africanos e asiáticos, além de pessoas portadoras de deficiência, que tinham o objetivo de entreter os espectadores, influenciaram o desenvolvimento de ideias racistas que perduram até hoje.”A descoberta dos zoológicos humanos me permitiu entender melhor por que certos pensamentos racistas ainda existem na nossa sociedade”, diz o ex-jogador da seleção francesa de futebol Lilian Thuram, um dos curadores da mostra.Thuram, campeão da Copa do Mundo de 1998 pela França, criou uma fundação que luta contra o racismo. Ele narra os textos ouvidos no guia de áudio da exposição.”É difícil acreditar, mas o bisavô de Christian Karembeu (também ex-jogador da seleção francesa) foi exibido em uma jaula como canibal em 1931, em Paris”, diz Thuram.A exposição é fruto das pesquisas realizadas para o livro Zoológicos Humanos, do historiador francês Pascal Blanchard e também curador da mostra.

Medição de crânios

A exposição reúne cerca de 600 obras, entre fotos e filmes de arquivo, além de pôsteres de “espetáculos” e objetos usados por cientistas no século 19, como instrumentos para medir os crânios.Nesse período, se desenvolveram noções sobre a raça e o conceito de hierarquia racial, com teses de que os africanos seriam o elo que faltava entre o macaco e os homens brancos ocidentais, ou o “homem normal”, como consideravam os cientistas.A exposição começa com as primeiras chegadas de povos “exóticos” à Europa, trazidos pelos exploradores, como os índios tupinambá, do Brasil, que desfilaram, em 1550, para o rei Henrique 2º em Rouen, na França.Pessoas com deformações físicas e mentais também serviam de atração para as cortes europeias na época.No início do século 19, a exibição de “selvagens” deixou de ser reservada às elites, com o surgimento de “shows étnicos”, que ganharam força com o desenvolvimento da antropologia e a conquista colonial.Londres, que apresentou uma exposição de índios brasileiros Botocudos em 1817, tornou-se a “capital dos espetáculos étnicos”, seguida pela França, Alemanha e Estados Unidos.A exibição em Londres, em 1810, e em Paris, em 1815, da sul-africana Saartje Baartman, conhecida como “Vênus Hotentote” (nome pelo qual sua tribo era conhecida à época), que tinha nádegas proeminentes, marcou uma reviravolta nesse tipo de apresentação.

Indústria de espetáculos

Esses “shows” se profissionalizaram com interesse cada vez maior do público, tornando-se uma indústria de espetáculos de massa, com turnês internacionais.Em Paris, um “vilarejo” africano foi montado próximo à Torre Eiffel em 1895, com apresentações sensacionalistas de mulheres quase nuas e homens tidos como canibais.”É em um contexto expansionista das grandes potências ocidentais e de pesquisa desenfreada dos cientistas que essas exibições vão ganhar legitimidade necessária para existir”, afirmam os organizadores da mostra.Eles dizem que os espetáculos de “diversão” serviam também como instrumento de propaganda para legitimar a colonização.O apogeu dessas exibições ocorreu entre 1890 e os anos 1930.Depois disso, os “shows étnicos” deixaram de existir por razões diversas: falta de interesse do público, surgimento do cinema e desejo das potências de excluir o “selvagem” da propaganda de colonização.A última apresentação desse tipo foi realizada em Bruxelas, em 1958. O “vilarejo congolês” teve de ser fechado devido às críticas na época.Segundo os organizadores da mostra, mais de 1 bilhão de pessoas assistiram aos espetáculos exóticos realizados entre 1800 e 1958.A exposição fica em cartaz no museu do Quai Branly até 3 de junho de 2012.

Scientists: Americans are becoming weather wimps (AP)

By SETH BORENSTEIN

— Jan. 9, 2014 5:33 PM EST

Deep Freeze Weather Wimps

FILE – In this Sunday, Jan. 5, 2014, file photo, a person struggles to cross a street in blowing and falling snow as the Gateway Arch appears in the distance, in St. Louis. The deep freeze that gripped much of the nation this week wasn’t unprecedented, but with global warming we’re getting far fewer bitter cold spells, and many of us have forgotten how frigid winter used to be. (AP Photo/Jeff Roberson, File)

WASHINGTON (AP) — We’ve become weather wimps.

As the world warms, the United States is getting fewer bitter cold spells like the one that gripped much of the nation this week. So when a deep freeze strikes, scientists say, it seems more unprecedented than it really is. An Associated Press analysis of the daily national winter temperature shows that cold extremes have happened about once every four years since 1900.

Until recently.

When computer models estimated that the national average daily temperature for the Lower 48 states dropped to 17.9 degrees on Monday, it was the first deep freeze of that magnitude in 17 years, according to Greg Carbin, warning meteorologist for the National Oceanic and Atmospheric Administration.

That stretch — from Jan. 13, 1997 to Monday — is by far the longest the U.S. has gone without the national average plunging below 18 degrees, according to a database of daytime winter temperatures starting in January 1900.

In the past 115 years, there have been 58 days when the national average temperature dropped below 18. Carbin said those occurrences often happen in periods that last several days so it makes more sense to talk about cold outbreaks instead of cold days. There have been 27 distinct cold snaps.

Between 1970 and 1989, a dozen such events occurred, but there were only two in the 1990s and then none until Monday.

“These types of events have actually become more infrequent than they were in the past,” said Carbin, who works at the Storm Prediction Center in Norman, Okla. “This is why there was such a big buzz because people have such short memories.”

Said Jeff Masters, meteorology director of the private firm Weather Underground: “It’s become a lot harder to get these extreme (cold) outbreaks in a planet that’s warming.”

And Monday’s breathtaking chill? It was merely the 55th coldest day — averaged for the continental United States — since 1900.

The coldest day for the Lower 48 since 1900 — as calculated by the computer models — was 12 degrees on Christmas Eve 1983, nearly 6 degrees chillier than Monday.

The average daytime winter temperature is about 33 degrees, according to Carbin’s database.

There have been far more unusually warm winter days in the U.S. than unusually cold ones.

Since Jan. 1, 2000, only two days have ranked in the top 100 coldest: Monday and Tuesday. But there have been 13 in the top 100 warmest winter days, including the warmest since 1900: Dec. 3, 2012. And that pattern is exactly what climate scientists have been saying for years, that the world will get more warm extremes and fewer cold extremes.

Nine of 11 outside climate scientists and meteorologists who reviewed the data for the AP said it showed that as the world warms from heat-trapping gas spewed by the burning of fossil fuels, winters are becoming milder. The world is getting more warm extremes and fewer cold extremes, they said.

“We expect to see a lengthening of time between cold air outbreaks due to a warming climate, but 17 years between outbreaks is probably partially due to an unusual amount of natural variability,” or luck, Masters said in an email. “I expect we’ll go far fewer than 17 years before seeing the next cold air outbreak of this intensity.

And the scientists dismiss global warming skeptics who claim one or two cold days somehow disproves climate change.

“When your hands are freezing off trying to scrape the ice off your car, it can be all too tempting to say, ‘Where’s global warming now? I could use a little of that!’ But you know what? It’s not as cold as it used to be anymore,” Texas Tech University climate scientist Katharine Hayhoe said in an email.

The recent cold spell, which was triggered by a frigid air mass known as the polar vortex that wandered way south of normal, could also be related to a relatively new theory that may prove a weather wild card, said Rutgers University climate scientist Jennifer Francis. Her theory, which has divided mainstream climate scientists, says that melting Arctic sea ice is changing polar weather, moving the jet stream and causing “more weirdness.”

Ryan Maue, a meteorologist with the private firm Weather Bell Analytics who is skeptical about blaming global warming for weather extremes, dismisses Francis’ theory and said he has concerns about the accuracy of Carbin’s database. Maue has his own daily U.S. average temperature showing that Monday was colder than Carbin’s calculations.

Still, he acknowledged that cold nationwide temperatures “occurred with more regularity in the past.”

Many climate scientists say Americans are weather weenies who forgot what a truly cold winter is like.

“I think that people’s memory about climate is really terrible,” Texas A&M University climate scientist Andrew Dessler wrote in an email. “So I think this cold event feels more extreme than it actually is because we’re just not used to really cold winters anymore.”

Antarctic Emperor Penguins May Be Adapting to Warmer Temperatures (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — A new study of four Antarctic emperor penguin colonies suggest that unexpected breeding behaviour may be a sign that the birds are adapting to environmental change.

Emperor penguin colony viewed from the air. (Credit: Ian Potten)

Analysis of satellite observations reveals that penguin colonies moved from their traditional breeding grounds during years when the thin layer of ice (sea ice) formed later than usual to the much thicker floating ice shelves that surround the continent.

Reporting this week in the online journal,PLOS ONE, a team of scientists from British Antarctic Survey (BAS), the Australian Antarctic Division and the Scripps Institution of Oceanography at UC San Diego in California, describe this extraordinary change in behaviour.

Lead author, Peter Fretwell of BAS said, “These charismatic birds tend to breed on the sea ice because it gives them relatively easy access to waters where they hunt for food. Satellite observations captured of one colony in 2008, 2009 and 2010 show that the concentration of annual sea ice was dense enough to sustain a colony. But this was not the case in 2011 and 2012 when the sea ice did not form until a month after the breeding season began. During those years the birds moved up onto the neighbouring floating ice shelf to raise their young.

“What’s particularly surprising is that climbing up the sides of a floating ice shelf — which at this site can be up to 30 metres high — is a very difficult manoeuvre for emperor penguins. Whilst they are very agile swimmers they have often been thought of as clumsy out of the water.”

The emperor penguins’ reliance on sea ice as a breeding platform coupled with recent concern about changing patterns of sea ice has led to the species being designated as ‘near threatened’ by the IUCN red list. The discovery suggests the species may be capable of adapting their behaviour.

In recent years satellite technology has significantly enhanced the scientists’ ability to locate and monitor emperor penguin populations.

Barbara Wienecke of the Australian Antarctic Division said, “These new findings are an important step forward in helping us understand what the future may hold for these animals, however, we cannot assume that this behaviour is widespread in other penguin populations. The ability of these four colonies to relocate to a different environment — from sea ice to ice shelf — in order to cope with local circumstances, was totally unexpected. We have yet to discover whether or not other species may also be adapting to changing environmental conditions.”

Gerald Kooyman, of the Scripps Institution added: “Without satellite imagery these moves onto shelf ice would not have been detected. It is likely that there are other nuances of the emperor penguin environment that will be detected sooner through their behaviour than by more conventional means of measuring environmental changes.”

Whereas sea-ice is frozen salt water, ice shelves are made up of glacial ice that has flowed from the land onto the sea. At the outer edge of an ice shelf ice cliffs can form and these can be anything up to 60 metres high.

Journal Reference:

  1. Peter T. Fretwell, Phil N. Trathan, Barbara Wienecke, Gerald L. Kooyman. Emperor Penguins Breeding on Iceshelves.PLoS ONE, 2014; 9 (1): e85285 DOI:10.1371/journal.pone.0085285

Bíblia do jornalismo dos EUA vê Itaquerão como ‘monumento à gentrificação’ (UOL)

Do UOL, em São Paulo06/01/201418h52

Itaquerão – dezembro. Governo federal divulgou imagens da obra do Itaquerão, estádio de São Paulo para a Copa Divulgação/Portal da Copa/Ministério do Esporte

A nova edição da revista New Yorker, considerada a Bíblia do jornalismo norte-americano, apresenta um texto de 14 páginas sobre o futebol brasileiro, a preparação do país para a Copa do Mundo e o Corinthians.

Escrita para o público dos Estados Unidos, a reportagem cita o Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo, em São Paulo, como um “monumento à gentrificação”, compara Andrés Sanchez ao magnata Donald Trump, Ronaldo a um astro do beisebol, Romário ao boxeador Muhammad Ali e define a CBF como uma entidade “desonrosa”.

Gentrificação é o nome que se dá ao fenômeno social que afeta a população de baixa renda de determinado lugar por meio da valorização imobiliária provocada por um novo empreendimento, como um shopping center ou um estádio de futebol, por exemplo.

Após a construção desse novo equipamento, o preço dos imóveis da vizinhança aumenta, obrigando a população pobre a se mudar – em geral para um bairro mais distante. Os serviços, por consequência, também ficam mais caros, excluindo também pequenos comerciantes.

“O estádio, um monumento à gentrificação, terá o maior telão digital da Terra e uma iluminação duas vezes mais forte do que a utilizada na Allianz Arena, em Munique. Segundo dizem, será visível, em uma noite clara, a 80 km de distância”, diz o texto.

O jornalista Ben McGrath, autor da matéria, compara o luxo do estádio com o que viu em sua visita à Itaquera escrevendo que “o caminho deixou arranha-céus para trás e nos levou direto para a arruinada zona leste, onde grafites e lixo predominam.” Em volta do estádio, “homens trabalhavam para transformar encostas barrentas de uma colina em um cinturão verde”.

O texto, então, faz uma crítica aos estádios construídos para o mundial. McGrath afirma que o Itaquerão, pelo menos, receberá jogos de um grande time quando a Copa do Mundo acabar. “Mas o que será do recentemente reformado Estádio Nacional, com 70 mil lugares, de Brasília, uma cidade cujos maiores times jogam em divisões menores, para plateias que geralmente não passam de algumas centenas?”

A Arena da Amazônia, segundo sugere o autor, também poderá se transformar num elefante branco para Manaus, “uma cidade cercada por 8 mil km² de floresta amazônica”. “Nenhum time do Amazonas competiu em alto nível nos últimos 30 anos”, diz.

REVISTA FALA DE FUTEBOL, CORINTHIANS E COPA DO MUNDO

Comparações com TV e beisebol

Talvez para situar seu público, McGrath opta para comparar figuras do futebol brasileiro com possíveis similares norte-americanos. Para ele, o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, que atualmente é responsável por supervisionar a construção da nova arena corintiana, soa como o empresário Donald Trump, dono de uma vasta rede de hotéis e cassinos e criador do reality show “O Aprendiz”.

“Cada metro quadrado foi projetado [do estádio] em um esquema para dar dinheiro”, escreve McGrath. A impressão do autor foi corroborada pelo próprio Andrés, que disse que declarou a ele que “a ideia era fazer o melhor e maior shopping center do mundo com um campo de futebol no meio.”

Ainda no campo das comparações, a reportagem diz que o ex-jogador Romário é hoje uma das maiores vozes da oposição à Copa do Mundo. “Antes conhecido como um playboy, ele é agora um congressista socialista – um Derek Jeter que se remodelou como Muhammad Ali para aproveitar o momento político”.

Jogador de beisebol, Jeter é o capitão do New York Yankees e já participou 13 vezes do Jogo das Estrelas. O atleta é famoso por seus relacionamentos amorosos com atrizes e modelos. Ronaldo também foi comparado a um jogador de beisebol: David Ortiz, o Big Papi. Com 104 quilos, o rebatedor é ídolo em Boston por suas atuações em momentos decisivos.

Corrupção, violência e Bom Senso

A CBF foi citada como desonrosa e caça-níquel por McGrath. “O problema não é só que poucos atletas da Seleção jogam no Brasil, mas o time nacional fica anos sem jogar em solo brasileiro. Em vez disso, faz turnês pelo mundo, como os Harlem Globetrotters, para levantar dinheiro para a desonrosa CBF.”

A entidade, ainda segundo o autor, serve como um vilão muito conveniente para os jovens que estão protestando contra a corrupção. McGrath lembra, então, que Ricardo Teixeira se envolveu em escândalos de corrupção e José Maria Marín foi flagrado pegando uma medalha na premiação da Copa São Paulo em 2012.

Ao longo da matéria, o autor cita casos recentes de violências nos estádios provocados por torcidas organizadas e aponta que muitas delas recebem dinheiro dos clubes para ir aos jogos.

Boa parte do texto é dedicada à história do Corinthians e à sua principal torcida, a Gaviões da Fiel. O jornalista fala sobre o jejum de 23 anos, a democracia corintiana e entrevista o capitão Paulo André, aproveitando para citar a criação do movimento para pedir mudanças no calendário do futebol Bom Senso F.C. O nome do grupo, segundo McGrath, foi uma criação do publicitário Washington Olivetto.

Uma outra leitura do não vai ter Copa e a disputa histórica das Jornadas de Junho (Fórum)

08/01/2014 | Publicado por Renato Rovai em Política 

As Jornadas de Junho ainda têm sido tratadas de forma maniqueísta por muitos dos que tentam interpretá-la e disputar seu legado. De um lado, há os que buscam transformá-la num movimento de coxinhas e fascistas. Do outro, gente que sonha com novos levantes de rebeldia que sejam controláveis e possam levar o governo federal a ter prejuízos eleitorais. E há ainda um terceiro grupo que quer oportunizar uma ação que é horizontal a partir de um discurso dirigente com contornos de esquerda.

Os primeiros, erram no fundamental. As milhões de pessoas que foram as ruas em centenas de cidades do país querem, na essência, um Brasil melhor. E deixaram claro que cansaram da política de gabinete baseada no toma lá da cá de uma governabilidade que precisa de um novo arranjo. Ao mesmo tempo exigem um serviço público melhor do que o atual e querem um Estado forte.

Essas demandas nunca foram fascistas e sempre foram de esquerda. E não podem deixar de ser apenas porque hoje quem está no governo é um partido mais identificado com bandeiras populares.

Transformar todos aqueles que defendem essas teses em coxinhas e fascistas e exigir adesão total a um governo que muitas vezes fala grosso com o movimento social e fino com o capital, não é exatamente um postura progressista. Ao contrário, é algo que se aproxima muito da prática fascista que esses setores criticam. O fascismo, entre outras coisas, oprime o contraditório porque sabe que ele é parte fundamental do processo democrático.

Já quando os colunistas da direita desejam como presente de ano novo mais gente na rua para mudar o Brasil, o que de fato querem é o povo tomando o Planalto Central, mas não para que esse mesmo povo assuma as rédeas do país.

Querem que esse povo patrocine o caos para que a solução seja um novo governo forte. Ou seja, pretendem um golpe civil por saberem que quarteladas caíram em desuso e tem alto custo do ponto de vista político internacional.

Já certos setores que se consideram de esquerda radical sonham com o que sempre sonharam. Acham que a correlação de forças pode se alterar como num passe de mágica num levante popular. E que o povo pode assumir o poder e tudo virar lindo e maravilhoso da noite para o dia.

As Jornadas de Junho, porém, não tem nada a ver com o desejo de uns e a análise de outros. Foram um momento muito mais impactante na vida nacional. Um grito democrático com diferentes táticas e estratégias de luta. Um grito de um país que provou ter uma democracia mais madura. Que suporta milhões nas ruas e em movimento. Mas que não aceita colocar todas as suas conquistas em risco para produzir qualquer resultado.

Havia muito mais responsabilidade nas ruas do que nas análise de gabinete. E por isso o movimento produziu tantos resultados e obteve vitórias.

Além da diminuição objetiva no preço das passagens de ônibus e metro, entre as suas inúmeras conquistas de junho, por exemplo, pode-se destacar a virada na agenda do transporte público nas grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, o prefeito Haddad disse em entrevista recente que fez em um ano o que pretendia fazer em quatro no setor.

O Mais Médicos também foi antecipado naquele contexto. Era um programa que vinha sendo maturado, mas que poderia ter sido realizado com muito menos força e mais pra frente.

As Jornadas de Junho também trouxeram para o debate político uma geração inteira. Gente que estava vendo a banda passar e que agora quer tomar o Brasil nas mãos. Uma garotada que está fazendo rap, participando de coletivos de cultura, que trabalha em co-workings, que toca projetos sociais ou que labuta de sol a sol e estuda à noite sonhando com uma vida melhor.

Esse jovem não é fascista, não é coxinha e também não é babaca.

Ele não é marionete da Globo e não está disposto a ser papagaio de tucano. E quer fazer valer uma nova agenda. Onde o meio ambiente seja mais respeitado, onde os indígenas sejam protegidos dos grileiros, onde haja mais recursos para moradia, saúde e educação.

Querem também menos corrupção e mais transparência no uso dos recursos públicos. Querem direitos humanos para os pobres, principalmente jovens e negros. E uma polícia que não seja um instrumento de tortura dos setores populares na mão do Estado.

Essa agenda pode levar muitos deles a participarem de um movimento como o “Não vai ter Copa”. Até porque até o momento a Copa que está sendo vendida é a dos outros. Da elite daqui e dos ricos de fora. Não é um Copa produzida para ser a afirmação de um povo e de uma história de lutas de um país que tem oferecido ao mundo avanços democráticos e projetos como o Bolsa Família.

É uma Copa da Fifa. E da exclusão.

Por isso, cabe perguntar: quem está errado, os jovens que entendem que esse pode ser um momento de afirmação de suas ideias ou quem não está disposto a conversar com eles? Quem está errado, os oportunistas que querem aproveitar essa energia para desgastar o governo ou certos governistas que estão achincalhando esse povo que quer discutir seu país?

É preciso ir além desse maniqueísmo de lado bom e lado ruim. A Copa pode ser um excelente momento para discutir o Brasil e ao mesmo tempo assistir futebol e se congregar com as milhares de pessoas de todas as partes do mundo que aqui estarão.

A Copa pode ser um tempo de uma nova agenda na democracia brasileira. Uma Copa com povo e política. Com manifestações de rua fortalecendo as lutas populares e comemorações de rua de torcidas de cada uma das seleções.

Poucos países do mundo podem oferecer um espetáculo desses. E o Brasil é um deles.

Um país multicultural onde há grande respeito à multiplicidade. Um país que deu um enorme salto social nos últimos anos, incluindo milhões de pessoas. Um país que tem desafios imensos ainda pela frente, mas que, a despeito das disputas políticas, tem uma institucionalidade forte. Um país com um movimento social que tem atores coletivos respeitados em todo o planeta, como, por exemplo, o MST e as organizações sindicais.

Poucas nações podem fazer de fato uma Copa das Copas, onde os projetos do outro mundo possível estejam presentes na agenda de um torneio de seleções.

A sociedade civil brasileira tem o dever de assumir esse processo como seu. O slogan “não vai ter Copa” é muito bom e forte para ter apenas uma leitura. E uma das leituras possíveis é que a Copa não vai ser mais a mesma depois de sua passagem pelo Brasil.

De agora em diante, onde a Copa for, o movimento social irá. E colocará suas demandas, fazendo seus fóruns ao lado do evento. E internacionalizando causas de todo o povo do país sede e de outras partes do mundo.

Se isso vier a acontecer o jogo será apenas um detalhe desse imenso espetáculo. E as nossas causas disputarão espaço entre os resultados das partidas. Que ao final terão apenas um campeão. Diferentemente da Copa das Copas, que é a de todos que lutam por um mundo melhor. E onde muitos podem ganhar juntos.

Quem tem que ter medo das ruas é a elite. E não os que se dizem de esquerda. Ou algo está muito, mas muito errado.

Ecossistemas costeiros ganham destaque na mitigação climática (CarbonoBrasil)

07/1/2014 – 11h55

por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil

manguezal1 300x196 Ecossistemas costeiros ganham destaque na mitigação climática

Pesquisador ressalta que acessar o potencial de absorção do carbono por manguezais e outros habitats marinho-costeiros poderia ajudar o Brasil conservar e gerir estes ambientes.

A cada ano que passa, a ciência traz novos dados indicando que os ecossistemas marinhos são elementares na captura e armazenamento do dióxido de carbono (CO2) atmosférico – tendo absorvido até um terço dessas emissões provenientes das atividades humanas.

O chamado ‘carbono azul’ é estocado em ambientes tão diversos como manguezais, marismas, gramas marinhas, recifes de coral e outros ecossistemas, intensamente pressionados pelas atividades antrópicas.

Além disso, esses ambientes costeiros são alguns dos mais produtivos no planeta, e fornecem serviços ecossistêmicos essenciais, como proteção costeira contra tempestades e refúgio para o nascimento de grande parte da vida marinha.

Segundo dados da Iniciativa para o Carbono Azul, 83% do ciclo do carbono global passa pelo oceano, e, mesmo com os habitats costeiros cobrindo menos de 2% da sua área, eles equivalem a cerca da metade do carbono sequestrado no oceano.

Entretanto, todo esse potencial está sendo perdido a taxas alarmantes. Um estudo publicado em 2012 no periódico PLOS One alerta que a contínua destruição desses ambientes é responsável pela liberação anual de quase um bilhão de toneladas de dióxido de carbono.

“A perturbação do carbono estocado na biomassa e no metro superior do sedimento em um hectare de manguezal típico pode contribuir com tantas emissões quanto três a cinco hectares de florestas tropicais. Mesmo um hectare de grama marinha, com a sua pequena biomassa viva, pode conter tanto carbono próximo à superfície quanto um hectare de floresta tropical”, ressaltou o estudo.

O potencial de mitigação das mudanças climáticas do ‘carbono azul’ está chamando a atenção de várias instituições internacionais, que, interessadas na preservação dos ecossistemas marinhos, vêm estudando as oportunidades que o cenário internacional de desenvolvimento de baixo carbono pode apresentar.

“Esta conexão com as mudanças climáticas despertou o interesse da comunidade conservacionista, curiosa sobre se atividades de mitigação e financiamento poderiam avançar práticas de manejo sustentável e adaptação nas zonas costeiras”, comentou Stephen Crooks, pesquisador da Universidade East Anglia, que teve seu trabalho com ‘carbono azul’ utilizado durante painéis da Conferência das Partes nº 16 da UNFCCC.

Para trazer informações sobre o assunto, o Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (PNUMA) lançou recentemente uma página na internet chamada “The Blue Carbon Portal”, com um fórum de discussões e uma plataforma para networking, além de mostrar iniciativas, notícias e eventos. O portal oferece um mapa com as iniciativas que estão sendo conduzidas em nível nacional, como na Costa Rica, Austrália, Indonésia, entre outros.

Em uma frente mais propositiva, a Conservação Internacional, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Comissão Intergovernamental Oceanográfica da UNESCO lançaram a Iniciativa para o Carbono Azul (Blue Carbon Initiative), um programa global para mitigação das mudanças climáticas através da restauração e do uso sustentável dos ecossistemas marinhos costeiros.

Crooks, que faz parte da Iniciativa para o Carbono Azul, relata que as atividades em torno do reconhecimento do ‘carbono azul’ evoluíram muito nos últimos meses.

No mercado voluntário de carbono, o renomado Verified Carbon Standard (VCS) reconheceu a ‘Restauração e Conservação de Áreas Úmidas’ como uma atividade elegível para criação de créditos de carbono. Ou seja, projetos voltados para a redução das emissões por desmatamento e degradação (REDD) já podem ser desenvolvidos nestas áreas.

Além disso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) recentemente adotou diretrizes para a contabilização das emissões e remoções de gases do efeito estufa (GEEs) associadas ao manejo de áreas úmidas (manguezais, marismas, gramas marinhas).

Porém, os países ainda não são obrigados a calcular suas emissões de áreas úmidas, estando convidados pelo IPCC a testarem a metodologia até 2017.

O documento inclui diretrizes para a contabilização de emissões associadas à drenagem ou reposição de água em áreas úmidas e também para o desmatamento, extração de solo, aquicultura, drenagem e restauração de manguezais.

“A coordenação científica no Brasil poderia apoiar enormemente o desenvolvimento de políticas para o manejo das reservas costeiras de carbono e ajudaria na aplicação da contabilização nacional das emissões e remoções de GEEs de atividades humanas em áreas úmidas”, comentou Crooks.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.