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O papel da confiança na decisão social (FAPESP)

08/12/2011

Por Mônica Pileggi

Estudo realizado no Mackenzie e publicado no The Journal of Neuroscience indica que cérebro não percebe injustiça de amigos em situações de decisão econômica (Wikimedia)

Agência FAPESP – Durante situações de decisão econômica, a amizade é uma das variáveis que modulam nosso cérebro, tornando o ser humano incapaz de se sentir injustiçado. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e publicada no The Journal of Neuroscience.

O trabalho, liderado pelo professor Paulo Sérgio Boggio, coordenador de pesquisa do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da UPM, foi realizado durante o mestrado “Estudo preliminar sobre potenciais cognitivos em tarefa de tomada de decisão social”, da psicóloga Camila Campanhã, que atualmente faz o doutorado na UPM, ambos com bolsas da FAPESP.

Segundo Campanhã, o estudo teve como objetivo estudar o papel da confiança na tomada de decisão social e suas bases neurobiológicas. Para isso, ela se baseou na teoria dos jogos, ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas nas quais jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno.

Inicialmente desenvolvida como ferramenta para compreender comportamento econômico e depois usada até mesmo para definir estratégias nucleares, a teoria dos jogos é hoje aplicada em diversos campos acadêmicos. Tornou-se um ramo proeminente da matemática especialmente após a publicação, em 1944, de The Theory of Games and Economic Behavior de John von Neumann e Oskar Morgenstern.

Campanhã – cujo estudo foi realizado em colaboração com os pesquisadores Ludovico Minati, do Istituto Neurologico “Carlo Besta” (Itália), e Felipe Fregni, da Universidade Harvard (Estados Unidos) – conta que para a realização do experimento foi utilizado o Ultimatum Game, jogo utilizado na neuroeconomia e por estudiosos do comportamento social.

Composto por participantes da faixa etária de 18 a 25 anos, o jogo foi dividido em dois blocos. No primeiro, o computador enviou propostas econômicas justas e injustas de amigos (que se encontravam em ambientes diferentes). No segundo, as propostas foram feitas por integrantes do laboratório, desconhecidos dos participantes.

Os valores das propostas foram classificadas como justas (50:50), mais ou menos justas (70:30) e muito injustas (80:20 e 90:10). “Os participantes receberam a mesma quantidade de propostas justas e injustas, tanto do amigo como do desconhecido, enviadas pelo computador. Registramos toda a atividade eletroencefalográfica desses participantes durante o experimento”, disse Campanhã à Agência FAPESP.

Nesse tipo de experimento, caso a pessoa aceite a proposta, ambos recebem o valor combinado. Se ela recusar, os dois não recebem nada. “Do ponto de vista comportamental, observamos que as pessoas rejeitaram muito mais as propostas injustas do desconhecido do que as oferecidas pelo amigo – nas quais o amigo sairia ganhando mais. Além disso, essas pessoas pontuaram os amigos como mais justos do que os desconhecidos”, destacou.

O estudo apontou uma inversão positiva na atividade neuroelétrica para as propostas de amigos. “A expectativa era que os dados seriam negativos conforme se recebessem propostas injustas do amigo. No entanto, os participantes não perceberam essa injustiça”, disse Campanhã.

Segundo ela, a inversão de polaridade positiva está relacionada à satisfação de receber algo bom e justo, cuja recompensa está acima do esperado. Nesse caso, a dopamina é liberada. No sinal negativo há quebra de expectativa e a substância é inibida, gerando raiva.

“Ao realizarmos a análise para identificar a área do cérebro ativada naquele momento, observamos que o sinal elétrico apareceu no córtex pré-frontal medial anterior. Essa é uma área relacionada à habilidade de imaginar e tentar entender o que o outro está pensando e sentindo”, disse.

“Não significa que as pessoas não processam a injustiça, mas esse processo é diferente quando se confia em alguém. É como se não precisasse tentar entender o que se passa com a outra pessoa ou o que ela está sentindo”, disse.

O artigo Responding to Unfair Offers Made by a Friend: Neuroelectrical Activity Changes in the Anterior Medial Prefrontal Cortex (doi:10.1523/JNEUROSCI.1253-11.2011), de Camila Campanhã e outros, pode ser lido por assinantes da The Journal of Neuroscience emwww.jneurosci.org/content/31/43/15569.full.pdf+html?sid=94d0a3e8-79b9-47a8-89d8-24dcf41750e7. 

UK trees’ fruit ripening ’18 days earlier’ (BBC)

15 November 2011 Last updated at03:14 GMT

By Mark KinverEnvironment reporter, BBC News

Rowan berries (Image: WTPL/Richard Becker)The exact cause for why the fruiting season has advanced so much remains unknown

Britain’s native trees are producing ripe fruit, on average, 18 days earlier than a decade ago, probably as a result of climatic shifts, a study reveals.

It shows that acorns are ripening 13 days earlier, while rowan berries are ready to eat nearly a month earlier.

Experts warn that one consequence could be that animals’ food reserves would become depleted earlier in the winter.

The findings were published byNature’s Calendar, a data collection network co-ordinated by the Woodland Trust.

“Some of the changes are really quite big and quite surprising,” explained Tim Sparks, the trust’s nature adviser.

“This caused me to go back and look at the data again to make sure it was valid because even I did not believe it initially.”

Prof Sparks said Nature’s Calendar, formerly known as the UK Phenology Network, was established in 1998 to collect spring-time information.

“But the gap in data was in the autumn So, since about 2000, the scheme has also been collecting data on things such as fruit ripening dates, leaf colour change and fall dates, and the last birds seen,” he told BBC News.

“We now have 10 years worth of data that can look at and identify changes.

“In terms of looking at the fruit-ripening dates and the thing that came out was that they all seem to have steadily advanced over the past decade.”

Disruption concerns

Prof Sparks, from Coventry University, observed: “Rowan was the big one as it seemed to have advanced by nearly a month over the course of a decade.”

He added that it was still uncertain what the ecological consequences of the advances would mean.

“Anything that changes out of synchronicity is likely to cause disruption,” he said.

“What the actual consequences will be is slightly harder to work out. In this particular case, if all of this fruit is ripe earlier, and if all the mammals and birds are eating it earlier, what are they going to be feeding on during the rest of the winter?

“In terms of feeding birds, you have big flocks of thrushes coming down from Scandinavia and feeding on berry crops in Britain, and they tend to do that after they have exhausted the supply of berries in Scandinavia.

“You get these periods when hedges are being stripped bare, but the birds are going to have to do that earlier because that is when the fruit is ripe.”

Although phenological records have shown that the arrival of spring is also advancing, Prof Sparks said it was “still a bit of a mystery” why the ripe-fruit dates had advanced over the past decade.

He suggested: “There is a very strong correlation between these ripening dates and April temperatures, and that might be a result of flowering dates – it might just be that warmer springs result in earlier flowering dates, and subsequently result in earlier ripening.

“But it might be a result of more sunshine; longer, warmer summers and therefore earlier ripening.

“So the exact mechanisms really are still a bit of a mystery. We know it is happening, but we are uncertain why.”

Nature’s Calendar is a web-based observations network and is a partnership between the Woodland Trust and the Centre for Ecology and Hydrology.

To date, it has more than 60,000 registered recorders across the UK that observe signs of seasonal changes in the natural environment.

The trust is calling on the public to plant a million native trees in gardens as part of its “Jubilee Woods” project.

A spokesman said that the scheme would increase the abundance of food sources for birds and animals in future years.

Saber dos xamãs jaguares do Yuruparí é nomeado patrimônio imaterial (Folha de S.Paulo)

27/11/2011 – 06h19

DA EFE

O saber tradicional dos xamãs jaguares do Yuruparí, na Amazônia colombiana, entrou neste domingo para a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

O comitê de analistas da Unesco aprovou sua inclusão durante reunião em Bali, na Indonésia, ao considerar que este modo de vida, herança milenar dos ancestrais, é um sistema integral de conhecimento com características físicas e espirituais.

“Esta notícia é um enorme esperança para a comunidade que tem plena certeza de que esta decisão é um instrumento de salvaguarda desta sabedoria”, disse o diretor de Patrimônio da Colômbia, Juan Luis Isaza, em seu discurso de agradecimento.

Os xamãs do Yuruparí transmitem “uma cosmovisão associada a um território sagrado para eles, um conhecimento graças ao qual acham que o mundo pode estar em equilíbrio”, explicou Isaza.

Os jaguares de Yuruparí, que habitam nas cercanias do rio Pirá Paraná, transmitem por via masculina e desde o nascimento o Hee Yaia Keti Oka, uma sabedoria que foi entregue a eles desde suas origens pelos Ayowa (criadores) para cuidar do território e da vida.

O diretor de Patrimônio da Colômbia detalhou que esta cultura está ameaçada pela perda de interesse dos mais jovens e a interação com a “arrasadora cultura ocidental”.

A designação também ajudará, segundo Isaza, a combater os perigos que espreitam este povo que viveu sempre isolado do “contato com colonos, madeireiros, mineiros e políticos que, segundo os xamãs, vulneram o território e o equilíbrio”.

“O reconhecimento da Unesco serve para proteger e resgatar não só seu pensamento, também seu território, porque estão profundamente relacionados”, assegurou Isaza.

Ritual de tribo brasileira é indicado a patrimônio da Unesco (BBC)

Atualizado em  22 de novembro, 2011 – 12:39 (Brasília) 14:39 GMT

Ritual Yaokwa. Foto: acervo IphanLista de indicados inclui cerimônia do povo enawenê-nawê (Foto: acervo Iphan)

Um ritual de um povo indígena brasileiro, voltado para “manter a ordem social e cósmica”, foi indicado para integrar uma lista de patrimônios culturais imateriais “em necessidade urgente de proteção” elaborada pela Unesco, a agência da ONU para a educação e a cultura.

O yaokwa é a principal cerimônia do calendário ritual dos enawenê-nawê, povo indígena cujo território tradicional fica no noroeste do Mato Grosso.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou o ritual Yaokwa como bem cultural em 2010. Segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o povo enawenê-nawê – que fala a língua aruak – é formado por cerca de 560 integrantes.O ritual, que marca o início do calendário enawenê, dura sete meses e é realizado com a saída dos homens para realizar uma pesca coletiva com o uso de uma barragem e de armadilhas construídas com cascas de árvore e cipós.

A partir desta quarta-feira, a comissão intergovernamental da Unesco pela salvaguarda do patrimônio cultural imaterial se reúne em Bali, na Indonésia, para avaliar os rituais e tradições indicados para ser protegidos. A reunião se encerra no próximo dia 29.

O Brasil país conta com 18 bens inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

Entre o patrimônio imaterial, dedicado a tradições orais, cultura e a arte populares, línguas indígenas e manifestações tradicionais, estão as Expressões Orais e Gráficas dos Wajãpis do Amapá e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano.

Se entrar na lista, o ritual dos enawenê-nawê passará a contar com apoio da entidade na sua preservação.

Muitas atividades da Unesco estão prejudicadas desde que os Estados Unidos retiraram o seu financiamento da agência, depois que ela aceitou a Palestina como Estado-membro pleno.

Seres subterrâneos

Com o ritual Yaokwa, os enawenê-nawê acreditam entrar em contato com seres temidos que vivem no subterrâneo, os yakairiti, cuja fome deve ser saciada com sal vegetal, peixes e outros alimentos derivados do milho e da mandioca, a fim de manter a ordem social e cósmica.

Para a realização do ritual, os indígenas se dividem em dois grupos: um que fica na aldeia junto às mulheres, preparando o sal vegetal, acendendo o fogo e oferecendo alimentos, e outro que sai para a pesca, com o objetivo de retornar para a aldeia com grandes quantidades de peixe defumado, que é oferecido aos yakairiti.

Construção de barragem. Foto: acervo IphanIndígenas constroem barragem para pesca; alimentos servem de oferenda (Foto: acervo Iphan)

Os indígenas realizam a pesca em rios de médio porte da região. Com os peixes e os demais alimentos, os enawenê-nawê realizam banquetes festivos ao longo de meses, acompanhados de cantos com flautas e danças.

Encantamento de camelos

Além do yaokwa, outro ritual indicado para proteção urgente na América do Sul é o eshuva, composto pelas orações cantadas do povo huachipaire, do Peru.

A lista de proteção urgente também inclui como indicados a dança saman, da província indonésia de Aceh, as tradições de relatos de histórias no nordeste da China e o “encantamento de camelos” da Mongólia, no qual as pessoas cantam para as fêmeas, a fim de persuadi-las a aceitar os filhotes de camelo órfãos.

Já para a lista representativa de patrimônio cultural imaterial da humanidade (sem indicativo de necessidade urgente de proteção), são indicados, pela América do Sul, o conhecimento tradicional dos xamãs jaguares de Yurupari (Colômbia) e a peregrinação ao santuário do senhor de Qoyllurit’i (Peru).

Outras tradições indicadas pela Unesco são as marionetes de sombras chinesas, o kung-fu dos monges Shaolin (China), a porcelana de Limoges (França), a música dos mariachis mexicanos e o fado (música tradicional portuguesa).

Are We Getting Nicer? (N.Y. Times)

By NICHOLAS D. KRISTOF
Published: November 23, 2011

It’s pretty easy to conclude that the world is spinning down the toilet.

So let me be contrary and offer a reason to be grateful this Thanksgiving. Despite the gloomy mood, the historical backdrop is stunning progress in human decency over recent centuries.

War is declining, and humanity is becoming less violent, less racist and less sexist — and this moral progress has accelerated in recent decades. To put it bluntly, we humans seem to be getting nicer.

That’s the central theme of an astonishingly good book just published by Steven Pinker, a psychology professor at Harvard. It’s called “The Better Angels of Our Nature,” and it’s my bet to win the next Pulitzer Prize for nonfiction.

“Today we may be living in the most peaceable era in our species’ existence,” Pinker writes, and he describes this decline in violence as possibly “the most important thing that has ever happened in human history.”

He acknowledges: “In a century that began with 9/11, Iraq, and Darfur, the claim that we are living in an unusually peaceful time may strike you as somewhere between hallucinatory and obscene.”

Still, even in a 20th century notorious for world war and genocide, only around 3 percent of humans died from such man-made catastrophes. In contrast, a study of Native-American skeletons from hunter-gather societies found that some 13 percent had died of trauma. And in the 17th century, the Thirty Years’ War reduced Germany’s population by as much as one-third.

Wars make headlines, but there are fewer conflicts today, and they typically don’t kill as many people. Many scholars have made that point, most notably Joshua S. Goldstein in his recent book “Winning the War on War: The Decline of Armed Conflict Worldwide.” Goldstein also argues that it’s a myth that civilians are more likely to die in modern wars.

Look also at homicide rates, which are now far lower than in previous centuries. The murder rate in Britain seems to have fallen by more than 90 percent since the 14th century.

Then there are the myriad forms of violence that were once the banal backdrop of daily life. One game in feudal Europe involved men competing to head-butt to death a cat that had been nailed alive to a post. One reason this was considered so entertaining: the possibility that it would claw out a competitor’s eye.

Think of fairy tales and nursery rhymes. One academic study found that modern children’s television programs have 4.8 violent scenes per hour, compared with nursery rhymes with 52.2.

The decline in brutality is true of other cultures as well. When I learned Chinese, I was startled to encounter ideographs like the one of a knife next to a nose: pronounced “yi,” it means “cutting off a nose as punishment.” That’s one Chinese character that students no longer study.

Pinker’s book rang true to me partly because I often report on genocide and human rights abuses. I was aghast that Darfur didn’t prompt more of an international response from Western governments, but I was awed by the way American university students protested on behalf of a people who lived half a world away.

That reflects a larger truth: There is global consensus today that slaughtering civilians is an outrage. Governments may still engage in mass atrocities, but now they hire lobbyists and public relations firms to sanitize the mess.

In contrast, until modern times, genocide was simply a way of waging war. The Bible repeatedly describes God as masterminding genocide (“thou shalt save alive nothing that breatheth” — Deuteronomy 20:16), and European-Americans saw nothing offensive about exterminating Native Americans. One of my heroes, Theodore Roosevelt, later a winner of the Nobel Peace Prize, was unapologetic: “I don’t go so far as to think that the only good Indians are the dead Indians, but I believe nine out of ten are, and I shouldn’t like to inquire too closely in the case of the tenth.”

The pace of moral progress has accelerated in the last few decades. Pinker notes that on issues such as civil rights, the role of women, equality for gays, beating of children and treatment of animals, “the attitudes of conservatives have followed the trajectory of liberals, with the result that today’s conservatives are more liberal than yesterday’s liberals.”

The reasons for these advances are complex but may have to do with the rise of education, the decline of chauvinism and a growing willingness to put ourselves in the shoes (increasingly, even hooves) of others.

Granted, the world still faces brutality and cruelty. That’s what I write about the rest of the year! But let’s pause for a moment to acknowledge remarkable progress and give thanks for the human capacity for compassion and moral growth.

Aumento da expectativa de vida faz surgir novos problemas nas pessoas com deficiência mental (FAPESP)

Pesquisa FAPESP
Edição 189 – Novembro 2011

Ciência > Envelhecimento
O preço da longevidade

Carlos Fioravanti

As pessoas com deficiência intelectual, que há 40 anos morriam na adolescência, hoje podem viver mais de 60 anos. Como estão vivendo mais, outros problemas orgânicos estão surgindo. Reunidos durante dois dias em agosto na Associação de Paes e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São Paulo, médicos e pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de São Paulo (USP), psicólogos, terapeutas, advogados, assistentes sociais e outros profissionais da saúde reconheceram um dos graves problemas emergentes, a possibilidade de envelhecimento precoce.

Em um levantamento preliminar feito em 2009 em seis instituições da cidade de São Paulo, de um grupo de 373 pessoas com deficiência intelectual (ou DI; a expressão deficiência mental não é mais recomendada) e mais de 30 anos de idade, 192 apresentavam pelo menos três sinais de provável envelhecimento precoce, de acordo com um questionário que avaliava eventuais perdas de memória, de autonomia nas tarefas do dia a dia, de interesse por atividades ou de visão e audição. Para dimensionar esse problema, está sendo preparado um levantamento mais abrangente e detalhado, com cerca de 500 pessoas com DI e idade entre 30 e 59 anos da Grande São Paulo.

Os estudos em andamento são essenciais para “vermos o que pode ser feito, em termos de atendimento médico e de políticas públicas”, diz Regina Leondarides, coordenadora do grupo de estudo de envelhecimento precoce das pessoas com deficiência intelectual, que reúne 10 instituições de atendimento. “Temos muitas políticas de saúde voltadas para a criança, mas as políticas para o envelhecimento estão começando a ser construídas”, comenta Esper Cavalheiro, professor da Unifesp e presidente do conselho científico do Instituto Apae de São Paulo. “Estamos atrasados, em vista do envelhecimento acelerado da população brasileira.”

Um estudo da Espanha publicado em 2008 indicou que as pessoas com DI envelhecem prematuramente – as com síndrome de Down, de modo mais intenso. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores acompanharam a saúde de 238 pessoas com DI e mais de 40 anos de idade durante cinco anos. Não se trata, aparentemente, de um fenômeno inevitável. O envelhecimento precoce das pessoas com DI leve e moderada resulta da falta de programas de promoção de saúde e do acesso reduzido a serviços médicos e sociais. As pessoas com DI se mostraram com maior tendência à obesidade (apenas 25% tinham peso considerado normal), à hipertensão arterial (25% do total) e a distúrbios metabólicos, como diabetes e hipotireoidismo (10% do total).

“O envelhecimento precoce, se confirmado, pode ter causas genéticas ou ambientais, independentemente da deficiência intelectual”, comenta Dalci Santos, gerente do Instituto Apae de São Paulo. Matemática de formação, com doutorado em andamento na Unifesp, ela acrescenta: “Não conseguiremos avançar muito até esclarecermos melhor a origem das deficiências intelectuais”. As causas podem ser genéticas, como na síndrome de Down, ou ambientais (causas não genéticas), incluindo infecções, baixa oxigenação do cérebro do feto, alcoolismo, radiação, intoxicação por chumbo durante a gravidez ou prematuridade – muitas vezes, vários fatores em conjunto.

Causas ambientais ou genéticas
Em um artigo no primeiro número da Revista de Deficiência Intelectual DI, publicação do Instituto Apae lançada em outubro, João Monteiro de Pina-Neto, médico geneticista da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, apresenta os resultados de um estudo sobre as causas da deficiência intelectual em 200 pessoas atendidas nas Apaes de Altinópolis e Serrana, dois municípios da região de Ribeirão Preto. Esse estudo faz parte de um levantamento maior, com cerca de mil pessoas com DI atendidas em quatro Apaes, que Pina-Neto e sua equipe pretendem concluir em meados de 2012. Os resultados obtidos até agora indicam o predomínio de causas ambientais (42,5% do total), seguidas pelas genéticas (29%) e indeterminadas (20%).

Um estudo similar feito com 10 mil pessoas na Carolina do Sul, Estados Unidos, apresentou o mesmo percentual de causas genéticas, mas apenas 18% de causas ambientais e 56% de causas desconhecidas. Alguns contrastes chamam a atenção. Enquanto a deficiência intelectual causada por falta de oxigenação cerebral responde por 5% do total das causas de DI nos Estados Unidos, em São Paulo é 16,5%; a prematuridade, de 5% nos Estados Unidos, foi de 14,5% no estudo paulista; o efeito das infecções, de 5%, é quase o dobro aqui, 9%.

A conclusão que emerge dessa comparação é que o número de nascimentos de bebês com DI poderia ser reduzido por meio de algumas medidas preventivas. “Melhorar o atendimento pré-natal e a qualidade do parto são uma prioridade”, ressalta Pina-Neto. “Ainda temos casos de deficiência causada por sífilis, rubéola ou toxoplasmose contraída durante a gestação e meningites pós-natais”, lamenta. Segundo ele, outro problema que pode ser controlado é o alcoolismo. “De 20% a 30% das mulheres da região de Ribeirão Preto consomem bebida alcoólica em excesso e, como resultado, de cada 100 gravidezes, nasce uma criança com DI causada por síndrome alcoólica fetal”, diz ele. “Não fazemos ainda a adequada prevenção das causas da deficiência intelectual.”

As causas genéticas podem ser controladas, já que o risco de uma criança nascer com síndrome de Down aumenta muito com a idade dos pais. “As mulheres estão tendo filhos após os 35 anos de idade, portanto mais propen­sas a terem filhos com Down, e os homens estão se casando várias vezes, tendo filhos em cada ca­samento”, diz Pina-Neto. Segundo ele, homens estéreis que procuram as clínicas de reprodução deveriam ser mais informados sobre a possibilidade de terem alterações genéticas que podem ser transmitidas aos filhos caso se tornem férteis.

As pessoas com DI apresentam capacidade de raciocínio bastante abaixo da média e limitações para aprender, se cuidar ou se comunicar com outras, mas atualmente são muito mais integradas socialmente, autônomas e produtivas, com mais oportunidades para expressar a criatividade do que há algumas décadas. Frequentam escolas regulares, com outras crianças e adultos, participam de competições esportivas e conquistam mais postos de mercado de trabalho. Crianças e adultos com DI não vão mais à Apae de São Paulo para aprender todo dia, mas aparecem algumas vezes por semana para atendimento educacional especializado ou para consultas médicas. O serviço de apoio ao envelhecimento atende 132 pessoas com idade entre 30 e 67 anos.

Ainda há muitas dúvidas sobre como lidar com os novos problemas. Crianças e adultos com de­­­­ficiência precisam de hábitos e horários para se sentir calmos e confortáveis. Ao mesmo tempo, hábitos imutáveis podem favorecer o surgimento da doença de Alzheimer, doença neurológi­ca que se agrava com o envelhecimento. Vem daí um impasse: manter a rotina inalterada poderia alimentar a propensão ao Alzheimer, mas quebrar a rotina pode ser perturbador.

Propensão ao alzheimer
O cérebro das pessoas com Down pode exibir um dos sinais típicos do Alzheimer: o acúmulo de placas amiloides, que dificultam o funcionamento adequado dos neurônios. Uma equipe da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Estados Unidos, encontrou placas amiloides em quantidade mais elevada no cérebro de pessoas com Down do que em pessoas com Alzheimer já diagnosticado e em pessoas normais.

“Os sinais biológicos de Alzheimer podem surgir antes dos sinais clínicos”, observa Orestes Forlenza, professor da Faculdade de Medicina da USP. “Ter amiloide não significa ter demência futura. Qual a melhor intervenção futura? Não sabemos. Talvez via nutrição ou atividade física seja mais seguro do que por medicamentos.” Ira Lott e sua equipe da Universidade da Califórnia em Irvine fizeram um estudo duplo-cego durante dois anos com 53 pessoas com síndrome de Down para ver se a complementação da dieta com compostos antioxidantes poderia melhorar o funcionamento mental ou estabilizar a perda da capacidade cognitiva. Os resultados, publicados em agosto na American Journal of Medical Genetics, indicaram que não.

Esper Cavalheiro apresentou três perguntas ainda sem resposta. De que modo as alterações próprias do envelhecimento, como as doenças cardiovasculares, diabetes e câncer, se apresentam nas pessoas com DI? Como alterações frequentes nessas pessoas, a exemplo de demências e osteoporose, se comportam no envelhecimento? Os medicamentos usados para tratar hipertensão, diabetes e outras doenças típicas do envelhecimento funcionam nas pessoas com DI do mesmo modo que em outros indivíduos?

Outra dúvida: as estratégias de controle dos fatores de risco de doenças cardiovasculares recomendadas para pessoas normais, como o estímulo a atividades físicas, têm o mesmo impacto sobre a saúde das pessoas com e sem deficiência intelectual? “Supomos que sim, mas não sabemos ao certo”, diz Ricardo Nitrini, da USP.

Segundo Cavalheiro, as pessoas com DI com 65 anos ou mais correspondiam a 4% da população total no Censo de 2000; hoje respondem por 5,5% da população total. “Não podemos nos contentar apenas com estatísticas e diagnósticos”, alerta. “Temos de enfrentar esse problema com rapidez. Quanto mais gente dialogando e pensando nesses problemas, melhor.”

Desafios do “tsunami de dados” (FAPESP)

Lançado pelo Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em TI, o livro O Quarto Paradigma debate os desafios da eScience, nova área dedicada a lidar com o imenso volume de informações que caracteriza a ciência atual

07/11/2011

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Se há alguns anos a falta de dados limitava os avanços da ciência, hoje o problema se inverteu. O desenvolvimento de novas tecnologias de captação de dados, nas mais variadas áreas e escalas, tem gerado um volume tão imenso de informações que o excesso se tornou um gargalo para o avanço científico.

Nesse contexto, cientistas da computação têm se unido a especialistas de diferentes áreas para desenvolver novos conceitos e teorias capazes de lidar com a enxurrada de dados da ciência contemporânea. O resultado é chamado de eScience.

Esse é o tema debatido no livro O Quarto Paradigma – Descobertas científicas na era da eScience, lançado no dia 3 de novembro pelo Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em TI.

Organizado por Tony Hey, Stewart Tansley, Kristin Tolle – todos da Microsoft Research –, a publicação foi lançada na sede da FAPESP, em evento que contou com a presença do diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Durante o lançamento, Roberto Marcondes Cesar Jr., do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP), apresentou a palestra “eScience no Brasil”. “O Quarto Paradigma: computação intensiva de dados avançando a descoberta científica” foi o tema da palestra de Daniel Fay, diretor de Terra, Energia e Meio Ambiente da MSR.

Brito Cruz destacou o interesse da FAPESP em estimular o desenvolvimento da eScience no Brasil. “A FAPESP está muito conectada a essa ideia, porque muitos dos nossos projetos e programas apresentam essa necessidade de mais capacidade de gerenciar grandes conjuntos de dados. O nosso grande desafio está na ciência por trás dessa capacidade de lidar com grandes volumes de dados”, disse.

Iniciativas como o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), o BIOTA-FAPESP e o Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) são exemplos de programas que têm grande necessidade de integrar e processar imensos volumes de dados.

“Sabemos que a ciência avança quando novos instrumentos são disponibilizados. Por outro lado, os cientistas normalmente não percebem o computador como um novo grande instrumento que revoluciona a ciência. A FAPESP está interessada em ações para que a comunidade científica tome consciência de que há grandes desafios na área de eScience”, disse Brito Cruz.

O livro é uma coleção de 26 ensaios técnicos divididos em quatro seções: “Terra e meio ambiente”, “Saúde e bem-estar”, “Infraestrutura científica” e “Comunicação acadêmica”.

“O livro fala da emergência de um novo paradigma para as descobertas científicas. Há milhares de anos, o paradigma vigente era o da ciência experimental, fundamentada na descrição de fenômenos naturais. Há algumas centenas de anos, surgiu o paradigma da ciência teórica, simbolizado pelas leis de Newton. Há algumas décadas, surgiu a ciência computacional, simulando fenômenos complexos. Agora, chegamos ao quarto paradigma, que é o da ciência orientada por dados”, disse Fay.

Com o advento do novo paradigma, segundo ele, houve uma mudança completa na natureza da descoberta científica. Entraram em cena modelos complexos, com amplas escalas espaciais e temporais, que exigem cada vez mais interações multidisciplinares.

“Os dados, em quantidade incrível, são provenientes de diferentes fontes e precisam também de abordagem multidisciplinar e, muitas vezes, de tratamento em tempo real. As comunidades científicas também estão mais distribuídas. Tudo isso transformou a maneira como se fazem descobertas”, disse Fay.

A ecologia, uma das áreas altamente afetadas pelos grandes volumes de dados, é um exemplo de como o avanço da ciência, cada vez mais, dependerá da colaboração entre pesquisadores acadêmicos e especialistas em computação.

“Vivemos em uma tempestade de sensoriamento remoto, sensores terrestres baratos e acesso a dados na internet. Mas extrair as variáveis que a ciência requer dessa massa de dados heterogêneos continua sendo um problema. É preciso ter conhecimento especializado sobre algoritmos, formatos de arquivos e limpeza de dados, por exemplo, que nem sempre é acessível para o pessoal da área de ecologia”, explicou.

O mesmo ocorre em áreas como medicina e biologia – que se beneficiam de novas tecnologias, por exemplo, em registros de atividade cerebral, ou de sequenciamento de DNA – ou a astronomia e física, à medida que os modernos telescópios capturam terabytes de informação diariamente e o Grande Colisor de Hádrons (LHC) gera petabytes de dados a cada ano.

Instituto Virtual

Segundo Cesar Jr., a comunidade envolvida com eScience no Brasil está crescendo. O país tem 2.167 cursos de sistemas de informação ou engenharia e ciências da computação. Em 2009, houve 45 mil formados nessas áreas e a pós-graduação, entre 2007 e 2009, tinha 32 cursos, mil orientadores, 2.705 mestrandos e 410 doutorandos.

“A ciência mudou do paradigma da aquisição de dados para o da análise de dados. Temos diferentes tecnologias que produzem terabytes em diversos campos do conhecimento e, hoje, podemos dizer que essas áreas têm foco na análise de um dilúvio de dados”, disse o membro da Coordenação da Área de Ciência e Engenharia da Computação da FAPESP.

Em 2006, a Sociedade Brasileira de Computação (SBC) organizou um encontro a fim de identificar os problemas-chave e os principais desafios para a área. Isso levou a diferentes propostas para que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) criasse um programa específico para esse tipo de problema.

“Em 2009, realizamos uma série de workshops na FAPESP, reunindo, para discutir essa questão, cientistas de áreas como agricultura, mudanças climáticas, medicina, transcriptômica, games, governo eletrônico e redes sociais. A iniciativa resultou em excelentes colaborações entre grupos de cientistas com problemas semelhantes e originou diversas iniciativas”, disse César Jr.

As chamadas do Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em TI, segundo ele, têm sido parte importante do conjunto de iniciativas para promover a eScience, assim como a organização da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Processamento e Visualização de Imagens Computacionais. Além disso, a FAPESP tem apoiado diversos projetos de pesquisa ligados ao tema.

“A comunidade de eScience em São Paulo tem trabalhado com profissionais de diversas áreas e publicado em revistas de várias delas. Isso é indicação de qualidade adquirida pela comunidade para encarar o grande desafio que teremos nos próximos anos”, disse César Jr., que assina o prefácio da edição brasileira do livro.

  • O Quarto Paradigma
    Organizadores: Tony Hey, Stewart Tansley e Kristin Tolle
    Lançamento: 2011
    Preço: R$ 60
    Páginas: 263
    Mais informações: www.ofitexto.com.br

The Mental Time Travel Of Animals (NPR)

11:39 am

November 3, 2011

by BARBARA J KING

Don't underestimate the crow.

Arif Ali/AFP/Getty Images. Don’t underestimate the crow.

Without a trace of agitation, the male chimpanzee piles up stones in small caches within his enclosure. He does this in the morning, before zoo visitors arrive. Hours later, in an aroused state, the ape hurls the stones at people gathering to watch him.

detailed report by Mathias Osvath concluded that the ape had planned ahead strategically for the future. It is exactly this feat of mental time travel that psychologist Michael C. Corballis, in his book The Recursive Mind: The Origins of Human Language, Thought, and Civilization, claims is beyond the reach of nonhuman animals. Last week, my review of Corballis’s book appeared in the Times Literary Supplement.

Corballis suggests that mental time travel is one of two human ways of thinking that propelled our species into a unique cognitive status. (The other, theory of mind, I won’t deal with here.)

During mental time travel, we insert into our present consciousness an experience that we’ve had in the past or that we imagine for ourselves in the future. Corballis calls this ability mental recursion, and he’s right that we humans do it effortlessly. When we daydream at work about last weekend’s happy times with family and friends, or anticipate tonight’s quiet evening with a book, we engage in mental time travel.

Our highly elaborated ability to insert the past or future recursively into our thinking may play a role in the evolution of human civilization, as Corballis claims. But Corballis’s argument is weakened because he dismisses other animals’ mental capacities far too readily.

It’s not only one chimpanzee in a Swedish zoo who makes me think so.

When our pets grieve, as I wrote about in this space recently, they hold in their mind some memory of the past that causes them to miss a companion.

New research on the pattern of food storage by Eurasian jays indicates that these birds think ahead about what specific foods they will want in the future.

When apes (chimpanzees) and corvids (crows and ravens) make tools to obtain food, they too think ahead to a goal, even as they fashion a tool to solve the problem before them.

In the NATURE documentary film A Murder of Crows, a New Caledonian crow solves a three-part tool-using problem totally new to him (or to any other crow). As one researcher put it, the bird thinks “three chess moves into the future” as he finds one tool that allows him to get another tool that he uses finally to procure food.

Have a look at this crow’s stunning problem-solving here. The experimental footage begins at 16:30, but starting at 13:00 offers good context. And the entire film is a delight.

Forgetting Is Part of Remembering (Science Daily)

ScienceDaily (Oct. 18, 2011) — It’s time for forgetting to get some respect, says Ben Storm, author of a new article on memory in Current Directions in Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science. “We need to rethink how we’re talking about forgetting and realize that under some conditions it actually does play an important role in the function of memory,” says Storm, who is a professor at the University of Illinois at Chicago.

“Memory is difficult. Thinking is difficult,” Storm says. Memories and associations accumulate rapidly. “These things could completely overrun our life and make it impossible to learn and retrieve new things if they were left alone, and could just overpower the rest of memory,” he says.

But, fortunately, that isn’t what happens. “We’re able to get around these strong competing inappropriate memories to remember the ones we want to recall.” Storm and other psychological scientists are trying to understand how our minds select the right things to recall — if someone’s talking about beaches near Omaha, Nebraska, for example, you will naturally suppress any knowledge you’ve collected about Omaha Beach in Normandy.

In one kind of experiment, participants are given a list of words that have some sort of relation to each other. They might be asked to memorize a list of birds, for example. In the next part of the test, they have to do a task that requires remembering half the birds. “That’s going to make you forget the other half of the birds in that list,” Storm says. That might seem bad — it’s forgetting. “But what the research shows is that this forgetting is actually a good thing.”

People who are good at forgetting information they don’t need are also good at problem solving and at remembering something when they’re being distracted with other information. This shows that forgetting plays an important role in problem solving and memory, Storm says.

There are plenty of times when forgetting makes sense in daily life. “Say you get a new cell phone and you have to get a new phone number, do you really want to remember your old phone number every time someone asks what your number is?” Storm asks. Or where you parked your car this morning — it’s important information today, but you’d better forget it when it comes time to go get your car for tomorrow afternoon’s commute. “We need to be able to update our memory so we can remember and think about the things that are currently relevant.”

Expedição no Amazonas vai divulgar astronomia indígena na Semana Nacional de C&T (Jornal A Crítica, de Manaus)

JC e-mail 4365, de 17 de Outubro de 2011.

Calendário indígena do povo dessana associa constelações às mudanças do clima e ao ecossistema amazônico.

Surucucu não é apenas a mais perigosa serpente da Amazônia. Para os povos indígenas da etnia dessana, também é uma das inúmeras constelações que os ajudam a identificar o ciclo dos rios, o período da piracema, a formação de chuvas e sugere o momento ideal para a realização de rituais.

Na astronomia indígena, outubro é o mês do desaparecimento da constelação surucucu (añá em língua dessana) no horizonte oeste – o equivalente a escorpião na astronomia ocidental. O desaparecimento da figura da cobra está associado ao fim do período da vazante. Os dessana têm outras 13 constelações, sempre associadas às alterações climáticas.

Para divulgar a respeito da pouco conhecida astronomia indígena, um grupo de estudiosos promoverá no próximo dia 19 uma expedição de dois dias a uma aldeia da etnia dessana localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Tupé, em Manaus.

Expedição – A comunidade é composta por famílias dessana que se deslocaram da região do alto Rio Negro, no Norte do Amazonas, e ressignificaram suas tradições, cosmologias e rituais na comunidade onde se estabeleceram na zona rural de Manaus. O astrônomo Germano Afonso, do Museu da Amazônia (Musa), que desenvolve há 20 anos estudo sobre constelações indígenas no país, coordenará a expedição. Com os dessana, o trabalho de Germano Afonso é desenvolvimento há dois anos.

Ele descreve a programação como um “diálogo” entre a astronomia indígena e o conhecimento científico. “Será um diálogo entre os dois conhecimentos. Vamos escutar os indígenas e ao mesmo tempo levar uma pequena estação meteorológica que mede temperatura e velocidade. A ciência observa com equipamentos, o indígena vê isso empiricamente”, explicou.

Uma embarcação da Secretaria Municipal de Educação (Semed) levará as pessoas interessadas em participar da experiência. “Vamos fazer atividades de astronomia, meteorologia e química com os indígenas. Será uma atividade integrada à Semana de Ciência e Tecnologia”, explica Afonso.

O traço identificado como surucuru pelos indígenas é mais visível por volta de 19h, pelo lado oeste. Depois da surucuru, é a vez do tatu – outra espécie comum na fauna amazônica.

Desastres – Germano Afonso conta que os povos indígenas observam o céu, a lua, as constelações e sabem exatamente qual a época ideal para fazer o roçado, para se prevenir de uma cheia ou de uma seca. Também sabem qual o momento ideal para realizar um ritual.

A diferença em relação ao conhecimento científico, ocidental, é que não utilizam equipamentos e tecnologia para prever alterações do tempo e mudanças do clima. Mas há uma diferença mais significativa: os indígenas não caem vítimas de desmoronamentos, de grandes cheias ou de uma vazante extraordinária.

“Quem tem mais cuidado com o meio ambiente e evitar os desastres ambientais? Os índios sabem exatamente quando vai cair uma chuva forte e teremos uma grande enchente. Mas eles não morrem por causa disso”, destaca Afonso, que tem ascendência indígena guarani.

Will the information superhighway turn into a cul-de-sac because of automated filters? (The Wall Street Journal)

BOOKSHELFMAY 20, 2011
Your Results May Vary

By PAUL BOUTIN

Last year Eli Pariser, president of the board of the liberal-activist site MoveOn.org, had a shocking realization. A heavy Facebook user, he had become friends—at least on Facebook—with an assortment of conservative thinkers and pundits. As a serious thinker, he wanted to have his opinions on current events challenged by those with opposing political ideologies.

But it struck Mr. Pariser one day that he hadn’t seen a single status update from any of the loyal opposition in a while. Had his sources of conservative thought stopped posting? Had they unfriended him? No, Facebook had quietly stopped inserting their updates into his news feed on the site. Had the social-networking giant figured out that he was a liberal?

It turned out that Facebook had changed the algorithm for its news feeds, in response to its users’ complaints that they were being overwhelmed by updates from “friends” whom they hardly knew. The 600-million-member social network now filters status updates so that, by default, users see only those from Facebook friends with whom they’ve recently interacted—say, by sending a message or commenting on a friend’s post.

For Mr. Pariser, the algorithm change meant that his news feed was filtered to let him know about only the mostly left-leaning people with whom he bantered, leaving out conservative voices that he simply monitored. Facebook’s algorithm has no political parameters, but for Mr. Pariser it effectively muffled the people he most disagreed with but wanted to hear.

This sifting-out of seemingly dead connections—which might strike many people as a wonderful service—spurred Mr. Pariser to undertake a months-long exploration of the growing trend of personalized content on websites. In “The Filter Bubble,” he recounts what he found. “I was struck by the degree to which personalization is already upon us. Not only on Facebook and Google, but on almost every major site on the Web.”

It’s no secret that Amazon, for example, customizes its pages to suggest products that are most likely to be of interest, based on shoppers’ past purchases. But most Google users don’t realize that, since 2009, their search results have been gradually personalized based on the user’s location, search history and other parameters. By tracking individual Web browsers with cookies, Google has been able to personalize results even for users who don’t create a personal Google account or are not logged into one. Mr. Pariser asked two friends to search for “BP” shortly after the Deepwater Horizon oil spill last year. The two were shown strikingly different pages—one full of news about the disaster, the other mostly investor information about the energy company.

Personalization is meant to make Internet users happy: It shows them information that mathematical calculations indicate is more likely than generalized content to be of interest. Google’s personalized search results track dozens of variables to deliver the links that a user is predicted to be most likely to click on. As a result, Google users click on more of the results that they get. That’s good for Google, good for its advertisers, good for other websites and presumably good for the user.

But Mr. Pariser worries that there’s a dark downside to giving people their own custom version of the Internet. “Personalization isn’t just shaping what we buy,” he writes. “Thirty-six percent of Americans under thirty get their news through social networking sites.” As we become increasingly dependent on the Internet for our view of the world, and as the Internet becomes more and more fine-tuned to show us only what we like, the would-be information superhighway risks becoming a land of cul-de-sacs, with each of its users living in an individualized bubble created by automated filters—of which the user is barely aware.

To Mr. Pariser, these well-intended filters pose a serious threat to democracy by undermining political debate. If partisans on either side of the issues seem uninterested in the opposition’s thinking nowadays, wait until Google’s helpful sorters really step up their game.

Through interviews with influential Internet experts including Google News chief Krishna Bharat, Search Engine Land editor Danny Sullivan and Microsoft researcher Danah Boyd, Mr. Pariser exposes the problem with personalization: It’s hard enough for an army of researchers to create algorithms that can match each of us with things we like. It’s nearly impossible, by contrast, to craft a formula that will show us something we wouldn’t seek out but really ought to read—and will be glad we did. Beyond throwing random links onto a screen, it’s hard to model serendipity on a computer.

And there’s another problem with filters: People like them. The Internet long ago became overwhelming. Filters help make it manageable without our having to do the work of sorting through its content entirely by ourselves.

What to do? Mr. Pariser’s opening argument in “The Filter Bubble” is a powerful indictment of the current system. But his closing chapters fumble around in search of a solution—from individuals, from companies like Google or from government oversight. How do you tell the Internet to back it off a bit on the custom content?

For now, the best Mr. Pariser can hope for is to educate readers who don’t want to live in a solipsistic subset of the Internet, especially regarding political matters. Just knowing that Google and Facebook personalize what you see, and that you can turn it off if you want—on Facebook, click Most Recent instead of Top News atop your feed; for Google, get instructions by searching “deleting Web history”—is a good start. “The Filter Bubble” is well-timed: The threat is real but not yet pandemic. Major news sites are toying with personalization but haven’t rolled it out en masse. And in a test I conducted myself, I enlisted a handful of heavy Google users across America to search for “Bin Laden raid” soon after the event. The search results that came back were all nearly identical. To tell the truth, we were kind of disappointed.

Mr. Boutin writes about Internet technology and culture for MIT Technology Review, Wired and the New York Times.

The Filter Bubble
By Eli Pariser
The Penguin Press, 294 pages, $25.95

Mental illness rise linked to climate (Sydney Morning Herald)

Erik Jensen Health

August 29, 2011
Climate change“Emotional injury, stress and despair” … the impact of climate change on health. Photo: Reuter

RATES of mental illnesses including depression and post-traumatic stress will increase as a result of climate change, a report to be released today says.

The paper, prepared for the Climate Institute, says loss of social cohesion in the wake of severe weather events related to climate change could be linked to increased rates of anxiety, depression, post-traumatic stress and substance abuse.

As many as one in five people reported ”emotional injury, stress and despair” in the wake of these events.

The report, A Climate of Suffering: The Real Cost of Living with Inaction on Climate Change, called the past 15 years a ”preview of life under unrestrained global warming”.

”While cyclones, drought, bushfires and floods are all a normal part of Australian life, there is no doubt our climate is changing,” the report says.

”For instance, the intensity and frequency of bushfires is greater. This is a ‘new normal’, for which the past provides little guidance …

”Moreover, recent conditions are entirely consistent with the best scientific predictions: as the world warms so the weather becomes wilder, with big consequences for people’s health and well-being.”

The paper suggests a possible link between Australia’s recent decade-long drought and climate change. It points to a breakdown of social cohesion caused by loss of work and associated stability, adding that the suicide rate in rural communities rose by 8 per cent.

The report also looks at mental health in the aftermath of major weather events possibly linked to climate change.

It shows that one in 10 primary school children reported symptoms of post-traumatic stress disorder in the wake of cyclone Larry in 2006. More than one in 10 reported symptoms more than three months after the cyclone.

”There’s really clear evidence around severe weather events,” the executive director of the Brain and Mind Research Institute, Professor Ian Hickie, said.

”We’re now more sophisticated in understanding the mental health effects and these effects are one of the major factors.

”What we have seriously underestimated is the effects on social cohesion. That is very hard to rebuild and they are critical to the mental health of an individual.”

Professor Hickie, who is launching the report today, said climate change and particularly severe weather events were likely to be a major factor influencing mental health in the future.

”When we talk about the next 50 years and what are going to be the big drivers at the community level of mental health costs, one we need to factor in are severe weather events, catastrophic weather events,” he said.

Read more: http://www.smh.com.au/environment/mental-illness-rise-linked-to-climate-20110828-1jger.html#ixzz1WeAsre00

Some People’s Climate Beliefs Shift With Weather (Columbia University)

Study Shows Daily Malleability on a Long-Term Question

2011-04-06
ThermometerPhoto by domediart, Flickr

Social scientists are struggling with a perplexing earth-science question: as the power of evidence showing manmade global warming is rising, why do opinion polls suggest public belief in the findings is wavering? Part of the answer may be that some people are too easily swayed by the easiest, most irrational piece of evidence at hand: their own estimation of the day’s temperature.

In three separate studies, researchers affiliated with Columbia University’s Center for Research on Environmental Decisions (CRED) surveyed about 1,200 people in the United States and Australia, and found that those who thought the current day was warmer than usual were more likely to believe in and feel concern about global warming than those who thought the day was unusually cold. A new paper describing the studies appears in the current issue of the journal Psychological Science.

“Global warming is so complex, it appears some people are ready to be persuaded by whether their own day is warmer or cooler than usual, rather than think about whether the entire world is becoming warmer or cooler,” said lead author Ye Li, a postdoctoral researcher at the Columbia Business School’s Center for Decision Sciences, which is aligned with CRED. “It is striking that society has spent so much money, time and effort educating people about this issue, yet people are still so easily influenced.”  The study says that “these results join a growing body of work show that irrelevant environmental information, such as the current weather, can affect judgments. … By way of analogy, when asked about the state of the national economy, someone might look at the amount of money in his or her wallet, a factor with only trivial relevance.”

Ongoing studies by other researchers have already provided strong evidence that opinions on climate and other issues can hinge on factors unrelated to scientific observations. Most pointedly, repeated polls have shown that voters identifying themselves as political liberals or Democrats are far more likely to believe in human-influenced climate change than those who identify themselves as conservatives or Republicans. Women believe more than men, and younger people more than older ones. Other, yet-to-be published studies at four other universities have looked at the effects of actual temperature—either the natural one outside, or within a room manipulated by researchers—and show that real-time thermometer readings can affect people’s beliefs as well. These other studies involve researchers at New York University, Temple University, the University of Chicago and the University of California, Berkeley.

In the current paper, respondents were fairly good at knowing if it was unusually hot or cold–perceptions correlated with reality three quarters of the time—and that the perception exerted a powerful control on their attitude. As expected, politics, gender and age all had the predicted influences: for instance, on the researchers’ 1-to-4 scale of belief in global warming, Democrats were 1.5 points higher than Republicans. On the whole though, after controlling for the other factors, the researchers found that perceived temperatures still had nearly two-thirds the power as political belief, and six times the power as gender, to push someone one way or the other a notch along the scale. (The coming NYU/Temple study suggests that those with no strong political beliefs and lower education are the most easily swayed.)

In one of the studies described in the paper, the researchers tried to test the earnestness of the responses by seeing how many of those getting paid $8 for the survey were willing to donate to a real-life charity, Clean Air-Cool Planet. The correlation was strong; those who said it was warmer donated an average of about $2; those who felt it was cooler gave an average of 48 cents.

The researchers say the study not only points to how individuals’ beliefs can change literally with the wind. Li says it is possible that weather may have influenced recent large-scale public opinion polls showing declining faith in climate science. Administered at different times, future ones might turn out differently, he said. These polls, he pointed out, include the national elections, which always take place in November, when things are getting chilly and thus may be empowering conservative forces at a time when climate has become a far more contentious issue than in the past. (Some politicians subsequently played up the heavy snows and cold of winter 2009-2010 as showing global warming was a hoax—even though scientists pointed out that such weather was probably controlled by short-term atmospheric mechanisms, and consistent with long-term warming.) “I’m not sure I’d say that people are manipulated by the weather. But for some percentage of people, it’s certainly pushing them around.” said Li.

The other authors are Eric J. Johnson, co-director of the Center for Decision Sciences; and Lisa Zaval, a Columbia graduate student in psychology.

Original link: http://www.earth.columbia.edu/articles/view/2794

I am, therefore I’m right (Christian Science Monitor)

By Jim Sollisch / July 29, 2011

If you’ve ever been on a jury, you might have noticed that a funny thing happens the minute you get behind closed doors. Everybody starts talking about themselves. They say what they would have done if they had been the plaintiff or the defendant. They bring up anecdote after anecdote. It can take hours to get back to the points of law that the judge has instructed you to consider.

Being on a jury (I recently served on my fourth) reminds me why I can’t stomach talk radio. We Americans seem to have lost the ability to talk about anything but our own experiences. We can’t seem to generalize without stereotyping or to consider evidence that goes against our own experience.

I heard a doctor on a radio show the other day talking about a study that found that exercise reduces the incidence of Alzheimer’s. And caller after caller couldn’t wait to make essentially the opposite point: “Well, my grandmother never exercised and she lived to 95, sharp as a tack.” We are in an age summed up by the aphorism: “I experience, therefore I’m right.”

This isn’t a new phenomenon, except by degree. Historically, the hallmarks of an uneducated person were the lack of ability to think critically, to use deductive reasoning, to distinguish the personal from the universal. Now that seems an apt description of many Americans. The culture of “I” is everywhere you look, from the iPod/iPhone/iPad to the fact that memoir is the fastest growing literary genre.

How’d we get here? The same way we seem to get everywhere today: the Internet. The Internet has allowed us to segregate ourselves based on our interests. All cat lovers over here. All people who believe President Obama wasn’t born in the United States over there. For many of us, what we believe has become the most important organizing element in our lives. Once we all had common media experiences: Walter Cronkite, Ed Sullivan, a large daily newspaper. Now each of us can create a personal media network – call it the iNetwork – fed by the RSS feeds of our choosing.

But the Internet doesn’t just cordon us off in our own little pods. It also makes us dumber, as Nicholas Carr points out in his excellent book, “The Shallows: What the Internet is Doing to our Brains.” He argues that the way we consume media changes our brains, not just our behaviors. The Internet rewards shallow thinking: One search leads to thousands of results that skim over the surface of a subject.

Of course, we could dive deeply into any one of the listings, but we don’t. Studies show that people skim on line, they don’t read. The experience has been designed to reward speed and variety, not depth. And there is tangible evidence, based on studies of brain scans, that the medium is changing our physical brains, strengthening the synapses and areas used for referential thinking while weakening the areas used for critical thinking.

And when we diminish our ability to think critically, we, in essence, become less educated. Less capable of reflection and meaningful conversation. Our experience, reinforced by a web of other gut instincts and experiences that match our own, becomes evidence. Case in point: the polarization of our politics. Exhibit A: the debt ceiling impasse.

Ironically, the same medium that helped mobilize people in the Arab world this spring is helping create a more rigid, dysfunctional democracy here: one that’s increasingly polarized, where each side is isolated and capable only of sound bites that skim the surface, a culture where deep reasoning and critical thinking aren’t rewarded.

The challenge for most of us isn’t to go backwards: We can’t disconnect from the Internet. Nor would we want to. But we can work harder to make “search” the metaphor it once was: to discover, not just to skim. The Internet lets us find facts in an instant. But it doesn’t stop us from finding insight, if we’re willing to really search.

Jim Sollisch is creative director at Marcus Thomas Advertising.

“O socialismo é uma doutrina triunfante” (Brasil de Fato)

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

12/07/2011

Joana Tavares

da Redação

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.

Material cartográfico revela imaginário colonial português (FAPESP)

HUMANIDADES
| BIBLIOTECA DIGITAL
A mina dos mapas
Márcio Ferrari
Edição Impressa 183 – Maio de 2011

Visão do Brasil que revela a exploração. © DIVULGAÇÃO

Um precioso material cartográfico vem ganhando visibilidade irrestrita graças ao trabalho do grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) responsável pela construção da Biblioteca Digital de Cartografia Histórica. O acesso on-line é livre. Fruto de um conceito desenvolvido pelo Laboratório de Estudos de Cartografia Histórica (Lech), o site não só oferece a apreciação de um acervo de mapas raros impressos entre os séculos XVI e XIX, mas também torna possível uma série de referências cruzadas, comparações e chaves interpretativas com a pluralidade e a rapidez da internet. Afinal, “um mapa sozinho não faz verão”, como diz uma das coordenadoras do projeto, Iris Kantor, professora do Departamento de História da USP. O conjunto revela muito mais do que informações geográficas. Permite também perceber a elaboração de um imaginário ao longo do tempo, revelado por visões do Brasil concebidas fora do país. O trabalho se inseriu num grande projeto temático, denominadoDimensões do Império português e coordenado pela professora Laura de Mello e Souza, que teve apoio da Fapesp.

Até agora o acervo teve duas fontes principais. A primeira foi o conjunto de anotações realizadas ao longo de 60 anos pelo almirante Max Justo Lopes, um dos principais especialistas em cartografia do Brasil. A segunda foi a coleção particular do Banco Santos, recolhida à guarda do Estado durante o processo de intervenção no patrimônio do banqueiro Edemar Cid Ferreira, em 2005. Uma decisão judicial transferiu a custódia dos mapas ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – iniciativa louvável, uma vez que esse acervo, segundo Iris Kantor, “estava guardado em condições muito precárias num galpão, sem nenhuma preocupação de acondicionamento adequado”. Foram recolhidos cerca de 300 mapas. Sabe-se que o número total da coleção original era muito maior, mas ignora-se onde se encontram os demais.

O primeiro passo foi recuperar e restaurar os itens recolhidos. Eles chegaram à USP “totalmente nus”, sendo necessário todo o trabalho de identificação, datação, atribuição de autoria etc. Durante os anos de 2007 e 2008, o Laboratório de Reprodução Digital do IEB pesquisou, adquiriu e utilizou a tecnologia adequada para reproduzir em alta resolução o acervo de mapas. Foram necessárias várias tentativas até se atingir a precisão de traços e cores desejada. Em seguida, o Centro de Informática do campus da USP em São Carlos (Cisc/USP) desenvolveu um software específico, tornando possível construir uma base de dados capaz de interagir com o catálogo geral da biblioteca da USP (Dedalus), assim como colher e transferir dados de outras bases disponíveis na internet. Uma das fontes inspiradoras dos pesquisadores foi o site do colecionador e artista gráfico inglês David Rumsey, que abriga 17 mil mapas. Outra foi a pioneira Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica, da Biblioteca Nacional, que reúne 22 mil documentos digitalizados. Futuramente, o acervo cartográfico da USP deverá integrar a Biblioteca Digital de Cartografia Histórica. Foi dada prioridade aos mapas do Banco Santos porque eles não pertencem à universidade, podendo a qualquer momento ser requisitados judicialmente para quitar dívidas.

Hoje estão disponíveis na Biblioteca Digital “informações cartobibliográficas, biográficas, dados de natureza técnica e editorial, assim como verbetes explicativos que procuram contextualizar o processo de produção, circulação e apropriação das imagens cartográficas”. “Não existe mapa ingênuo”, diz Iris Kantor, indicando a necessidade dessa reunião de informações para o entendimento do que está oculto sob a superfície dos contornos geográficos e da toponímia. “O pressuposto do historiador é que todos os mapas mentem; a manipulação é um dado importante a qualquer peça cartográfica.”

Fizeram parte dessa manipulação os interesses geopolíticos e comerciais da época determinada e daqueles que produziram ou encomendaram o mapa. O historiador Paulo Miceli, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que no início da década passada havia sido chamado pelo Banco Santos para dar consultoria sobre a organização do acervo, lembra que o primeiro registro cartográfico daquilo que hoje se chama Brasil foi um mapa do navegador espanhol Juan de la Cosa (1460-1510), datado de 1506, que mostra “a linha demarcatória do Tratado de Tordesilhas, a África muito bem desenhada e, à sua esquerda, um triângulo bem pequeno para indicar a América do Sul”. “O Brasil foi surgindo de uma espécie de nevoeiro de documentos, condicionado, entre outras coisas, pelo rigor da coroa portuguesa sobre o trabalho dos cartógrafos, que estavam sujeitos até a pena de morte.” Essa “aparição” gradual do Brasil no esquema geopolítico imperial é o tema da tese de livre-docência de Miceli, intitulada, apropriadamente, de O desenho do Brasil no mapa do mundo, que sairá em livro ainda este ano pela editora da Unicamp. O título se refere aoTheatrum orbis terrarum (Teatro do mundo), do geógrafo flamengo Abraham Ortelius (1527-1598), considerado o primeiro atlas moderno.

Navegadores – Ao contrário do que se pode imaginar, os mapas antigos não tinham a função principal, e prática, de orientar exploradores e navegadores. Estes, até o século XIX, se valiam de roteiros escritos, as “cartas de marear”, registrados em “pergaminhos sem beleza nem ambiguidade, perfurados por compassos e outros instrumentos, e que viraram invólucros de pastas de documentos em acervos cartográficos”, segundo Miceli. “Os mapas eram objetos de ostentação e prestígio, com valor de fruição e ornamentação, para nobres e eruditos”, diz Iris Kantor. “Um dos tesouros do Vaticano era sua coleção cartográfica.” Já os roteiros de navegação eram apenas manuscritos e não impressos, processo que dava aos mapas status de documentos privilegiados. As chapas originais de metal, com as alterações ao longo do tempo, duravam até 200 anos, sempre nas mãos de “famílias” de cartógrafos, editores e livreiros. Às vezes essas famílias eram mesmo grupos consanguíneos com funções hereditárias, outras vezes eram ateliês altamente especializados. Os artistas, com experiência acumulada ao longo de décadas, não viajavam e recolhiam suas informações de “navegadores muitas vezes analfabetos”, segundo Miceli. Para dar uma ideia do prestígio atribuído à cartografia, ele lembra que o Atlas maior, do holandês Willem Blaue (1571-1638), pintado com tinta de ouro, foi considerado o livro mais caro do Renascimento.

Um dos critérios de busca da Biblioteca Digital de Cartografia Histórica é justamente por “escolas” de cartógrafos, entre elas a flamenga, a francesa e a veneziana – sempre lembrando que o saber fundamental veio dos navegadores e cosmógrafos portugueses. Iris Kantor considera que elas se interpenetram e planeja, futuramente, substituir a palavra “escola” por “estilo”. Também está nos planos da equipe reconstituir a genealogia da produção de mapas ao longo do período coberto. No estudo desses documentos se inclui a identificação daqueles que contêm erros voluntários como parte de um esforço de contrainformação, chamado por Miceli de “adulteração patriótica”. Como os mapas que falsificam a localização de recursos naturais, como rios, para favorecer portugueses ou espanhóis na divisão do Tratado de Tordesilhas.

Uma evidência da função quase propagandística da cartografia está no mapa Brasil, de 1565, produzido pela escola veneziana, que ilustra a abertura desta reportagem. Nele não se destaca exatamente a precisão geográfica. “A toponímia não é muito intensa, embora toda a costa já estivesse nomeada nessa época”, diz Iris Kantor. “É uma obra voltada para o público leigo, talvez mais para os comerciantes, como indicam os barquinhos com os brasões das coroas da França e de Portugal. Vemos o comércio do pau-brasil, ainda sem identificação da soberania política. Parece uma região de franco acesso. A representação dos indígenas e seu contato com o estrangeiro transmite cordialidade e reciprocidade.”

“No fundo, os mapas servem como representação de nós mesmos”, prossegue a professora da USP. “Pelo estudo da cartografia brasileira pós-independência, por exemplo, chama a atenção nossa visão de identidade nacional baseada numa cultura geográfica romântica, liberal e naturalista, que representa o país como um contínuo geográfico entre a Amazônia e o Prata. No mesmo período, a ideia do povo não era tão homogênea. Não é por acaso que os homens que fizeram a independência e constituíram o arcabouço legal do país fossem ligados às ciências naturais, à cartografia etc. A questão geográfica foi imperativa na criação da identidade nacional.”

Um exemplo bem diferente de utilização de recursos digitais na pesquisa com mapas está em andamento na Unicamp, derivado do projeto Trabalhadores no Brasil: identidades, direitos e política, coordenado pela professora Silvia Hunold Lara e apoiado pela Fapesp. Trata-se do estudo Mapas temáticos de Santana e Bexiga, sobre o cotidiano dos trabalhadores urbanos entre 1870 e 1930. Segundo a professora, pode-se reconstituir o cotidiano dos moradores dos bairros, “não  dissociados de seu modo de trabalho e de suas reivindicações por direitos”.

Luxo místico e riqueza marcam a estética do cangaço (Fapesp)

Humanidades
A cor que invadiu o sertão

Edição Impressa 176 – Outobro 2010

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Corisco, um dos cangaceiros mais vaidosos

“Olê, mulher rendeira/ olê, mulher rendá/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”, diz a canção-símbolo do cangaço. Sobre moda, Lampião e seus homens tinham pouco a aprender e muito a ensinar. Vestiam-se de forma colorida, cobertos por adornos de ouro e, como bons sertanejos, sabiam confeccionar toda a sorte de objetos e vestimentas sem que por isso se questionasse sua virilidade: o “rei do cangaço” costurava suas roupas e a de seus afilhados e bordava à máquina com perfeição, orgulhando-se da sua habilidade. “O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor do livro Estrela de couro: a estética do cangaço (Escrituras, 258 páginas, R$ 150), com 300 fotos históricas e 160 reproduções de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, muitos pertencentes ao próprio autor. Tamanho apuro visual, pleno de detalhes nas coisas mais cotidianas (cães com coleiras trabalhadas em prata!), servia como proteção ao mau-olhado, instrumento de hierarquia interna, tinha funcionalidade militar e era um poderoso instrumento de propaganda junto às populações pobres, que se admiravam diante de todo aquele luxo, cor e brilho. Era também uma forma de arte que o cangaceiro carregava no seu corpo.

“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, explica. “Morando num meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza, satisfazendo seu anseio de arte e conforto místico. Era como se os mais esquivos habitantes do cinzento se levantassem contra o despotismo da ausência de cor na caa­tinga e proclamassem a folia de tons e de contrastes.” Em vez de procurar camuflagem, os cangaceiros desenvolveram uma estética brilhante e ostensiva com roupas adornadas de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores que, paradoxalmente, os tornavam alvo fácil até no escuro. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, escreveu o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929. “Ainda que o fascínio pelo cangaço tenha existido sempre, fomentado pela literatura de cordel, Lampião soube jogar com todos os registros do visual para ‘magnificar’ a sua vida e transmitir a imagem de um bandido rico e poderoso. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua estética, usando modos de comunicação modernos que não faziam parte da sua cultura original, como a imprensa e a fotografia”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: senhor do sertão (Edusp).

Após terem seu visual cantado pelo cordel, a fotografia, ao chegar ao sertão na primeira década do século passado, fez a delícia do cangaço. “Essa existência criminal parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanho o cuidado do cangaceiro com o visual, com a imponência e a riqueza do traje guerreiro”, avalia Pernambucano. “As vestimentas dos bandidos foram sendo incrementadas até se tornarem quase fantasias. Esse era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, observa o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 320 páginas, R$ 54). O homem do cangaço era um orgulhoso que se esmerava no traje, até o final, como se pode ver na célebre foto das cabeças de Lampião e seus homens ao lado de seus chapéus: “Dentre os treze, não há dois iguais, tão ricos em tema e valor material quanto o do chefe, prova da imponência da estética, cuja afetação exagerada adjetivou o cangaço em sua etapa final, quando se chegou a incrustar alianças de ouro na boca das armas”, nota Pernambucano. “Havia uma estética rica que conferia uma ‘blindagem mística’ ao cangaceiro, satisfeito com a sua beleza e ainda seguro em meio a uma suposta inviolabilidade.” A ponto de contaminar as roupas dos policiais, que copiaram suas vestimentas, e mudar o foco da guerra. “O contágio inelutável dá a força dessa estética e evidencia a existência de outra luta, travada em paralelo, no plano da representação simbólica. A vingança estética do cangaço contra a eliminação militar se dá quando o ícone principal de sua simbologia se transforma na marca do Nordeste: a meia-lua com estrela do chapéu de Lampião.”

Bandidos – Estimulando essa “gana de ostentação” estava a própria essência política do cangaço. “Os cangaceiros não admitiam ser comparados ou confundidos com bandidos comuns, uma ofensa imperdoável. Viam-se como atores sociais distintos, na mesma estatura dos ‘coronéis’”, explica Pericás. O que lhes permitia usar e abusar dos figurinos: orgulhosos de si mesmos, tinham ainda um gosto pelas patentes militares, promovendo “cabras” a postos de hierarquia militar e considerando membros de seus efetivos como “soldados”. “Observe que todo grupo militar preza os símbolos, as insígnias, as representações de poder. Lembra-se do Brejnev com medalhas que não cabiam no peito no tempo da Rússia soviética? Sujeito inteligentíssimo, Lampião fez da costura e do bordado um critério a mais de promoção e status no seio do bando e ele mesmo costurava as vestimentas de seu bando. Saber prepará-los e conferi-los a seus homens era uma grande vantagem”, salienta Pernambucano. “Não se chama o boi batendo na perneira”, dizia o “rei”, consciente da necessidade de uma política de afagos interna para amenizar a disciplina de que não abria mão. “A estética era uma ferramenta para infundir o orgulho do irredentismo cangaceiro nos recrutas de modo quase instantâneo. Antes desse recurso estético, imagino que essa inoculação devesse ser lenta.”

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Cantil decorado e, ao lado, bornal florido

Patrões – “Os bandos de cangaceiros eram estruturas hierarquizadas com claras distinções entre as lideranças e a ‘arraia-miúda’, sem voz de comando em posição claramente subordinada aos chefes. Muitos consideravam os líderes do cangaço como ‘patrões’. E esses comandantes se viam assim, quase como os coronéis, com os quais mantinham boas relações, colocando-se em posição igualitária aos potentados rurais”, afirma Pericás. Na contramão do senso comum, os comandantes cangaceiros eram de famílias tradicionais e relativas posses. Lampião, por exemplo, pertencia à classe dos proprietários de terra e ele próprio foi um criador de gado. Por isso o cangaço não foi, diz o pesquisador, uma luta para reconstruir ou modificar a ordem social sertaneja tradicional, como preconizado por boa parte da literatura sobre o fenômeno. “Eles não lutavam para manter ou mudar nenhuma ordem política, mas para defender seus próprios interesses mediante o uso da violência, indistinta e indiscriminada. Os bandidos procuravam, sim, manter vínculos com os protetores poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o seu próprio povo”, diz Pericás. Nesse sentido, a famosa justificativa da adesão ao cangaço por motivos de disputas sociais ou vinganças familiares deve ser vista com desconfiança. “Os cangaceiros diziam-se vítimas, obrigados a entrar na luta por honra, mas isso era, na maior parte dos casos, um ‘escudo ético’, um argumento para convencer as populações pobres de que eram movidos por questões elevadas, se diferenciando dos bandidos comuns, o que não era real.” Lampião nunca viu como prioridade ajudar os necessitados. “Em geral, guardavam o dinheiro grande e davam alguns tostões aos pobres e às igrejas. E sempre faziam questão de que isso fosse divulgado para criar uma imagem positiva junto ao povo.”

Na prática, o comportamento dos cangaceiros era parecido com o dos coronéis, que agiam de forma paternalista com aqueles que eram considerados “seus” pobres. “Eles não eram bandidos sociais e se pode mesmo dizer que sua presença foi um obstáculo a um protesto social mais significativo. Apesar disso, como um executor independente da raiva silenciosa da pobreza rural, o cangaceiro tinha o apelo popular de um agente superior. A sua violência era um gesto admirado de afirmação psíquica na ausência de justiça e mudança positiva”, acredita a historiadora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, autora de The oligarchical limitations of social banditry in Brazil. Câmara Cascudo já notara que “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. “O cangaço pode ser visto como uma continuidade do ambiente violento do sertão, onde era comum que paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida em questões morais, de honra e prestígio”, diz Pericás. Os cangaceiros construíram a imagem de indivíduos injustiçados que haviam ingressado na criminalidade por bons motivos. Mas, se eram violentos, o mesmo pode ser dito dos soldados que os perseguiam. “A população que sofria violências das volantes se voltava para os bandoleiros como uma resposta ou por vê-los em contraposição aos ‘agentes da lei’”, analisa Pericás.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

“Com seus trajes inconfundíveis e nada tendentes à ocultação, se sentiam investidos de um mandato mais antigo, havido por mais legítimo que a própria lei, esta, a seus olhos, uma intrusão litorânea sobre os domínios rurais”, completa Pernambucano. Os cangaceiros supriram a falta de poder institucionalizado no sertão. “Eles seriam os fiéis da balança em muitos casos, sendo um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que tinha apelo para as massas rurais”, diz Pericás. Com o tempo, porém, o cangaço se revelou um negócio, o “Cangaço S/A”, como o descreve Pernambucano. “Era uma ‘profissão’, um ‘meio de vida’. Os bandidos estavam equidistantes do ‘povo’ e dos mandões, ainda que com maior proximidade das elites rurais”, concorda Pericás. Como eram “independentes”, tinham sua imagem dissociada diretamente dos coronéis. “Não sendo empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das camadas mais ricas e dos governos o monopólio da violência. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, da exploração, da falta de emprego e das secas, não ingressou no cangaço.” Segundo o pesquisador, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição à ordem instituída. “Os policiais representavam o governo, mas usavam a farda para transgredir. Assim, parte dessa sociedade se voltou para os cangaceiros e viu neles o oposto, ou seja, aqueles que lutavam contra a ordem.” Suas atividades crimi­nosas, então, eram justificadas no quadro maior da luta entre os dois “partidos”: cangaço e polícia.

Politicamente “reabilitados” e bem vistos, permitiam-se o luxo da ostentação, que se iniciava pelos chapéus, cujas abas levantadas podiam chegar aos 20 cm de raio anular, uma hipérbole em relação ao modelo original dos vaqueiros, de abas viradas, mas curtas. “Experimentei o chapéu de Lampião no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: o pescoço bambeou. Tanto peso ornamental não teria nada a ver com funcionalidade militar, mas com valores bem mais sutis”, conta Pernambucano. O objeto tem cerca de 70 peças de ouro, entre moedas, medalhas e outros adereços, o que levou um repórter da época a defini-lo como “verdadeira exposição numismática”. O chapéu era o ponto de concentração dos adendos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro.

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Chapéu de couro do rei do cangaço (à esq.) e conjunto de bornais

Amuletos – Coisas comuns eram transformadas em amuletos que, além de reforçar a hierarquia, viravam símbolos de uma crença mística. “A blindagem mística se traduziu nos muitos signos (estrela de davi, flor de lis, signo de salomão e outros) e na profusão do seu uso em todos os ângulos das vestimentas, o que dividia a atenção com o puro anseio estético, a se mesclar a este, conferindo utilitarismo à fusão, pela força de dar vida à crença tradicional numa suposta inviolabilidade em meio a riscos extremos.” Mas não se iluda o espectador ao pensar que os bandos eram “escolas móveis de superstição”. “O grosso da cabroeira, muito jovem, entre os 16 e os 23 anos, pautava-se pela lei da imitação, sem consciência daquilo de que se servia. O chefe usava? Basta.” As mulheres seguiam as modas de perto, mas de forma distinta. “Com alguns traços de valquíria e quase nenhum da amazona, a matuta que se engajou no cangaço jamais adotou o chapéu de couro, coisa de homem. A elas ficou reservado uma cobertura de feltro, de aba média, e a colocação, sobre a cabeça, de toalha ou lenço”, conta Pernambucano. O mesmo se dava com os punhais que podiam chegar a 80 cm para os homens (o tamanho limite era o do punhal de Lampião, que não poderia ser superado), mas não passavam dos 37 cm no caso das mulheres.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Facão com cabo de gavião, de Lampião

As armas brancas, aliás, são paradigmas na vestimenta do cangaceiro. Com função militar quase morta após o advento da espingarda de repetição, os punhais serviam no ritual letal do sangramento nordestino ou como símbolo de status. “Era usado orgulhosamente sobre o abdome, à vista de todos, aço da melhor qualidade europeia com cabo decorado de prata. Desfrutável ao primeiro olhar. Ou à primeira fotografia.” O punhal de Zé Baiano, presente de Lampião, foi avaliado em mais de 1 conto de réis, preço de uma casa. Outros símbolos de prestígio eram a bandoleira, correia para segurar a espingarda no ombro, e a cartucheira trespassada, essa uma necessidade nascida de se prover um adicional de munição: 150 cartuchos de fuzil Mauser presos com enfeites de ouro. Era comum, porém, que as volantes, cientes do prestígio de seu uso, mirassem em quem portasse uma dessas. A seu lado, iam os cantis, decorados com esmero, um espaço surpreendente de arte de projeção. Como as luvas a que, nota Pernambucano, o cangaceiro, no fausto dos anos 1930, juntou um bordado colorido. O lugar privilegiado das cores, porém, eram os bornais, cuja policromia levou um jornalista a descrever os cangaceiros como “ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval”. Visíveis por todos os ângulos, os bornais eram responsáveis por mais de dois terços desse “porre de cores”, o resto ficando por conta do lenço de pescoço, a jabiraca, com que também se coava o líquido extraído de plantas da caatinga. “Nela, nada de nós, mas puxadas as duas pontas para a frente, em paralelo, o cangaceiro ia colecionando alianças de ouro, tomando-se como rico quando formava o cartucho. Houve quem tivesse mais de 30 alianças no pescoço”, conta. Viajando por Sergipe, em 1929, Lampião teve os “apetrechos” pesados numa balança de armazém: 29 quilos sem as armas. No total, o peso carregado no calor tórrido da caatinga podia chegar a quase 40 quilos.

Místico – Com menos aprumo, a vestimenta contagiou os policiais. “A sedução da indumentária dos cangaceiros arrebatava pelo funcional, pelo estético e pelo místico. A volante se mimetizou a tal ponto que dela não restou imagem própria”, diz Pernambucano. Para desespero das autoridades, que se sentiam derrotadas também no simbólico. “Cumpre que se adote a proibição de fardamentos exóticos, de berloques, estrelas, punhais alongados e outros exageros notoriamente conhecidos, porque a impressão se faz no cérebro rude e, à primeira oportunidade, o chapéu de couro cobre a testa e o rifle pende a tiracolo”, alertava um relatório oficial. Curiosamente, nota o pesquisador, pintores como Portinari ou Vicente do Rego Monteiro não souberam captar o luxo e o colorido dessa estética em suas reproduções do cangaço, optando, ideologicamente, por uma visão monocromática opaca, para ressaltar o aspecto social do fenômeno, à custa da fidelidade ao real. “Não é exagero dizer que ainda está por surgir, na pintura ou no cinema, quem consiga combinar o ethos e o ethnos dessas comunidades para retratá-las”, avalia Pernambucano. “O cangaço foi o último movimento a viver ‘sem lei nem rei’ em nossos dias, após varar cinco séculos de história. E o último a fazê-lo com tanto orgulho, com tanta cor, com tanta festa e com uma herança visual tão significativa.” Como, aliás, já diziam os versos de Mulher rendeira: “O fuzil de Lampião/ tem cinco laços de fita/ No lugar em que ele habita/ não falta moça bonita”.

"Selvagens" no museu (Pesquisa FAPESP)

Memória
“Selvagens” no museu
Há 128 anos, grupos de índios eram expostos na Exposição antropológica brasileira
Neldson Marcolin

Edição Impressa 175 – Setembro 2010

O dia 29 de julho de 1882 prometia ser diferente na cidade do Rio de Janeiro. O feriado e os fogos de artifício anunciavam o aniversário de 36 anos da princesa Isabel e convidavam para um evento raro na cidade. Naquele dia o Museu Nacional abriu a Exposição antropológica brasileira com a presença das principais personalidades da sociedade carioca e de toda a Corte. Além da princesa, o imperador dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina visitaram a exposição, amplamente coberta pela imprensa. Também participaram da cerimônia de inauguração alguns índios Botocudo – de Goiás e do Espírito Santo – e Xerente – de Minas Gerais. A diferença é que os indígenas foram trazidos para serem expostos, e não para visitá-la.

© museu nacional

Capa da revista com desenho de índia Botocudo

O evento de 1882 foi um dos acontecimentos científicos mais importantes do final do século XIX no Brasil. Mostras semelhantes às do Rio estavam em voga em outros países da América Latina, Europa e nos Estados Unidos. O desejo de popularizar a ciência, as polêmicas sobre a teoria da evolução proposta por Charles Darwin, o anseio de conhecer o passado do Brasil e o fascínio provocado pelos índios motivaram o diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto, a organizar a exposição. As coleções foram dispostas em oito salas que ganharam nomes em homenagem a figuras da história e da ciência: Vaz de Caminha, Léry, Rodrigues Ferreira, Hartt, Lund, Martius, Gabriel Soares e Anchieta. Todos escreveram relatos que ajudavam a tornar conhecido o Brasil de períodos anteriores, desde a descoberta da nova terra no século XVI. As oito salas mostravam peças arqueológicas descobertas no país, como restos humanos fossilizados, conchas de sambaquis e objetos indígenas de etnias diferentes. Também foi editada a Revista da Exposição Anthropologica Brazileira, com artigos que tentavam dar um significado científico ao conjunto apresentado no museu.

© museu nacional

Objetos de rituais usados pelos índios Mahué

Os “selvagens”, como eram chamados, faziam parte da exposição em grupos vivos, compondo um cenário que simulava seu cotidiano. Os artigos da revista, dirigida por Mello Moraes Filho e escritos por especialistas brasileiros, sempre se referiam aos indígenas como representantes dos mais primitivos estágios da evolução humana em contraposição aos evoluídos homens brancos caucasianos. O evento era uma oportunidade para observá-los como se fossem fósseis vivos, na argumentação tão científica quanto possível para aquele período. As medidas dos índios, sua forma muscular, o formato do crânio, os hábitos sociais e morais foram analisados e comparados com mestiços e brancos. “Era uma antropologia física, completamente diferente da antropologia do século XX”, diz o biólogo Charbel Niño El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia, que estudou o tema. “Havia um olhar sobre os indígenas diferente do que viria a ter Claude Lévi-Strauss várias décadas depois.”

© museu nacional

Ilustração de índio Tembé

A ideia do índio como fóssil vivo era considerada útil para estudar o passado do homem no Brasil e não causava a mesma repulsa provocada hoje, avalia a historiadora Márcia Ferraz, do Centro Simão Mathias de Estudos de História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Cesima/PUC-SP).“Aquela era a forma como se fazia ciência em todo o mundo, não só no Brasil”, explica Márcia. Os critérios científicos utilizados eram os da história natural, e não aqueles que as ciências sociais viriam a usar mais tarde.

A exposição ficou em cartaz durante três meses e foi considerada bem-sucedida por ter atraído mais de mil visitantes e causado alguma repercussão internacional. “Quem a visitou, no entanto, foi apenas a pequena elite do Rio daquele tempo, que era alfabetizada e interessada pelas novidades científicas”, conclui El-Hani.