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Ensaio investiga formação da identidade narrativa sertaneja (Jornal da Unicamp)

Campinas, 04 de março de 2016 a 11 de março de 2016 – ANO 2016 – Nº 648

Pesquisador analisa mapas, obras literárias e até cordéis para fundamentar tese desenvolvida no IEL

Por Luiz Sugimoto

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“Sertão: palavra de enorme riqueza no imaginário, na história e cultura(s) do Brasil. Lugar desértico, paisagem árida e desoladora, onde vive uma população em constante processo migratório, lugar de uma rica cultura popular e também um espaço de barbárie, misticismo e miséria? O sertão se apresenta sob diversos aspectos, despertando sensações e sentimentos, evocando imagens e apresentando-se como resultado de uma longa experiência sócio-histórica e ficcional. Este trabalho investiga a formação da identidade narrativa sertaneja, percorrendo assim uma trajetória que tem como característica central a multiplicidade de autores, gêneros e discursos que formam as veredas de um processo em contínua transformação.”

É assim que Jorge Henrique da Silva Romero resume sua tese de doutorado “Sertão, sertões e outras ficções: ensaio sobre a identidade narrativa sertaneja”, orientada pela professora Suzi Frankl Sperber e defendida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Um diferencial nesta pesquisa é a sua apresentação em formato de ensaio. “É um formato muito pouco usual, que vai contra a corrente acadêmica, mas considerei uma boa estratégia para focalizar este espaço tão fugidio, que escapa a cada momento de uma classificação. A ousadia valeu a pena. Como o objetivo era trabalhar com o imaginário, ganhei inúmeras possibilidades em termos ficcionais”, justifica o autor.

Na opinião de Jorge Romero, existe um transbordamento do imaginário sobre o sertão, hoje geograficamente demarcado pelo Polígono das Secas, que compreende os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e norte de Minas Gerais. “O tema está presente em nossa história desde a vinda dos colonizadores portugueses. Raimundo Faoro, em “Os donos do poder”, afirma que o sertão era então ‘outro mar ignoto’, outro espaço a se conhecer. Sérgio Buarque de Holanda destaca as estratégias distintas da colonização espanhola e da lusitana: a espanhola entrou terra adentro, devastando e povoando o interior; a portuguesa fortaleceu os domínios no litoral e conservou intacto o sertão, até as entradas dos bandeirantes atrás de metais e pedras preciosas.”

O autor da tese lembra que o primeiro dicionário brasileiro, “Vocabulario portuguez e latino” (publicado entre 1712 e 1721), do padre Raphael Bluteau, já trazia a palavra sertão, ainda que grafada de diferentes formas: “certão”, “sertam”, “sertaão”. “A palavra existia mesmo antes da colonização, tanto que Caminha expressou assim seu assombro com a vastidão daquelas terras: ‘pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender os olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa’. A palavra também aparece relacionada a territórios africanos, conservando esta propriedade do desconhecido.”

Jorge Romero contou com a participação na banca examinadora do professor Berthold Zilly, que traduziu para o alemão “Os sertões”, de Euclydes da Cunha, e agora está traduzindo “Grandes sertões: veredas”, de Guimarães Rosa. “O fascínio pelo sertão fez com que o professor Zilly viajasse para o Brasil a fim de conhecer as terras de suas leituras. Ao chegar às comunidades perguntando onde ficava o sertão, a resposta era sempre: ‘é mais pra lá, é mais pra lá’. O que temos é um espaço de indeterminação, em que o sertão passa a ser o espaço do outro (de alteridade) e, via de regra, opondo civilização e barbárie – esta é a tônica quando se fala de litoral e sertão.”

Nascido em Fortaleza, mas de família do sertão, o pesquisador afirma que seu objetivo na tese foi justamente problematizar esta vastidão da região no imaginário e também no presente, percorrendo a historiografia e a literatura brasileira desde a “Carta de Caminha”. “Analisei mapas, imagens e cordéis. E, para viabilizar a ideia de um ensaio, recorri a autores fundamentais como Jean Starobinski, que diz: ‘O ensaio nunca deve deixar de estar atento à resposta precisa que as obras ou os eventos interrogados devolvem às nossas questões. Em nenhum momento ele deve romper seu compromisso com a clareza e a beleza da linguagem’. A clareza e a beleza foram preocupações presentes o tempo todo na redação do texto.”

Mitos civilizatórios 

Na primeira parte da tese, Romero procura explorar aspectos do sertão presentes na história do Brasil, como o “mito da conquista” pelos primeiros exploradores, os bandeirantes. “Utilizo uma epígrafe de Walter Benjamin que resume bem essa questão: ‘Nunca houve um monumento da cultura que também não fosse um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura’. Transitando entre história e literatura, procuro mostrar que civilização e barbárie estão presentes neste movimento dos bandeirantes.”

O pesquisador atenta que a questão dos mitos civilizatórios é bastante perceptível nos mapas dos séculos 16 e 17, dando o exemplo do conhecido mapa de Reinel (1519), confeccionado a mão. “Nele, o litoral descrito é em detalhes, enquanto o interior traz figuras de dragão, animais exóticos e indígenas – elementos míticos com os quais cartógrafos representavam o desconhecido e o perigoso. Há gravuras em que o mar também é preenchido com essas figuras.”

No mapa “Brasilia Barbarorum” (Brasil Bárbaro), acrescenta Jorge Romero, elaborado pelo cartógrafo alemão Georg Seutter em 1740, o litoral é igualmente descrito em detalhes, enquanto um vazio representa o sertão, indicando vastas extensões e ausência de civilização. “Ao ser inserido no interior das fronteiras portuguesas, o sertão adquiria um sentimento de pertença e um status de território à espera da integração pelo colonizador. É um espaço que Euclides da Cunha vai preencher com a narrativa de uma guerra entre a civilização e este Brasil bárbaro; para isso, vai ter que descrever esse outro tipo humano, completamente diferente do homem do litoral.”

Hércules-Quasímodo

“Dualidade Hércules-Quasímodo” é o título da segunda parte da tese, em que o autor introduz o elemento da “identidade narrativa”, conceito do filósofo Paulo Ricoeur que o ajudou a lidar com a imensa quantidade de obras e interpretações sobre o sertão. “Por exemplo, em ‘Os sertões’, Euclides da Cunha utiliza uma metáfora belíssima sobre dois sentimentos em relação ao sertanejo: primeiro, ele descreve o homem da caatinga, Hércules-Quasímodo, montado em seu cavalo como se formasse a imagem de um centauro, um corpo metade homem e metade cavalo, desgracioso e fatigado na sua imobilidade; de repente, um novilho escapa e o sertanejo se transforma em figura titânica, acossando o boi fugitivo. Esta metáfora oferece duas dimensões: uma de rebaixamento, do corpo torto e desengonçado, e outra da idealização, presente em folhetos de cordel com a imagem de Lampião como herói.”

Romero considera que Euclides da Cunha consegue oferecer uma síntese de toda a literatura sobre este espaço exótico, unindo a sua própria experiência no sertão. “Alguns escritores voltaram-se para esses lugares recônditos para mostrar a seus concidadãos, da república das letras, que existia um outro Brasil. Desde José de Alencar com ‘O Sertanejo’, passando por Taunay com ‘Inocência’, até as obras regionalistas tratando da fome e da seca, como ‘A fome’ de Rodolfo Teófilo e ‘Os retirantes’ de José do Patrocínio; e mesmo a literatura de viagem, que vai ser tema do livro ‘O Brasil não é longe daqui’, de Flora Süssekind, pensando a importância desse estilo de narrativa para a constituição do sistema literário brasileiro.”

Microfísica poiética

Na última parte da tese, o autor apresenta a sua noção de “microfísica poiética”, tomando como referência a “microfísica do poder” de Foucault, sobre a horizontalização do poder – que não está localizado em um lugar, visto que existe uma teia de relações de poder. “‘Poiesis’, aqui, é o conceito fundamental que se refere à cri(ação), sugerindo a atividade sempre reveladora, onde narrativas diversas encontram espaço privilegiado para aflorar. A ‘microfísica poiética’ pressupõe um movimento sempre aberto à incorporação de novas produções artísticas.”

Por esta noção, esclarece Jorge Romero, o sertão deixa de ser território do letrado, como no século 19, e sim um território primordialmente da obra de arte. “Antes, conhecíamos o sertão apenas através dos seus representantes, como Alencar, Taunay, Patrocínio e Euclides. Com a ‘microfísica poiética’ introduzi outros elementos a partir de Guimarães Rosa e Patativa do Assaré [Antônio Gonçalves da Silva], que tratam de sertões diferentes: ‘Grande sertão: veredas’ é um sertão do norte de Minas, de jagunços, em que temos um sertanejo como narrador, explorando muito bem as contradições metafísicas e sociais ali presentes; e a obra de Patativa do Assaré é o sertão cearense, das contradições políticas por conta do seu esquecimento, mas não na perspectiva centralizada do letrado da cidade e sim do próprio sertanejo.”

Publicação

Tese: “Sertão, sertões e outras ficções: ensaio sobre a identidade narrativa sertaneja”
Autor: Jorge Henrique da Silva Romero
Orientadora: Suzi Frankl Sperber
Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

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‘Na África, indaguei rei da minha etnia por que nos venderam como escravos’ (BBC Brasil)

14 janeiro 2016

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Image captionA convite de produtora, arquiteto fez exame genético e foi até Camarões para conhecer seus ancestrais

“Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem”, queixa-se o arquiteto baiano Zulu Araújo, de 63 anos, em referência à população negra descendente dos 4,8 milhões de africanos escravizados recebidos pelo país entre os séculos 16 e 19.

Araújo foi um dos 150 brasileiros convidados pela produtora Cine Group para fazer um exame de DNA e identificar suas origens africanas.

Ele descobriu ser descendente do povo tikar, de Camarões, e, como parte da série televisiva Brasil: DNA África, visitou o local para conhecer a terra de seus antepassados.

“A viagem me completou enquanto cidadão”, diz Araújo. Leia, abaixo, seu depoimento à BBC Brasil:

“Sempre tive a consciência de que um dos maiores crimes contra a população negra não foi nem a tortura, nem a violência: foi retirar a possibilidade de que conhecêssemos nossas origens. Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem.

Meu sobrenome, Mendes de Araújo, é português. Carrego o nome da família que escravizou meus ancestrais, pois o ‘de’ indica posse. Também carrego o nome de um povo africano, Zulu.

 

Momento em que o Zulu confronta o rei tikar sobre a venda de seus antepassados

Ganhei o apelido porque meus amigos me acharam parecido com um rei zulu retratado num documentário. Virou meu nome.

Nasci no Solar do Unhão, uma colônia de pescadores no centro de Salvador, local de desembarque e leilão de escravos até o final do século 19. Comecei a trabalhar clandestinamente aos 9 anos numa gráfica da Igreja Católica. Trabalhava de forma profana para produzir livros sagrados.

Bom aluno, consegui passar no vestibular para arquitetura. Éramos dois negros numa turma de 600 estudantes – isso numa cidade onde 85% da população tem origem africana. Salvador é uma das cidades mais racistas que eu conheço no mundo.

Ao participar do projeto Brasil: DNA África e descobrir que era do grupo étnico tikar, fiquei surpreso. Na Bahia, todos nós especulamos que temos ou origem angolana ou iorubá. Eu imaginava que era iorubano. Mas os exames de DNA mostram que vieram ao Brasil muito mais etnias do que sabemos.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo”, diz Zulu sobre chegada a Camarões

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Pergunta sobre escravidão a rei camaronense foi tratada como “assunto delicado” e foi respondida apenas no dia seguinte

Quando cheguei ao centro do reino tikar, a eletricidade tinha caído, e o pessoal usava candeeiros e faróis dos carros para a iluminação. Mais de 2 mil pessoas me aguardavam. O que senti naquele momento não dá para descrever, de tão chocante e singular.

As pessoas gritavam. Eu não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia tudo. Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo.

O povão me encarava como uma novidade: eu era o primeiro brasileiro de origem tikar a pisar ali. Mas também fiquei chocado com a pobreza. As pessoas me faziam inúmeros pedidos nas ruas, de camisetas de futebol a ajuda para gravar um disco. Não por acaso, ali perto o grupo fundamentalista Boko Haram (originário da vizinha Nigéria) tem uma de suas bases e conta com grande apoio popular.

De manhã, fui me encontrar com o rei, um homem alto e forte de 56 anos, casado com 20 mulheres e pai de mais de 40 filhos. Ele se vestia como um muçulmano do deserto, com uma túnica com estamparias e tecidos belíssimos.

Depois do café da manhã, tive uma audiência com ele numa das salas do palácio. Ele estava emocionado e curioso, pois sabia que muitos do povo Tikar haviam ido para as Américas, mas não para o Brasil.

Fiz uma pergunta que me angustiava: perguntei por que eles tinham permitido ou participado da venda dos meus ancestrais para o Brasil. O tradutor conferiu duas vezes se eu queria mesmo fazer aquela pergunta e disse que o assunto era muito sensível. Eu insisti.

Ficou um silêncio total na sala. Então o rei cochichou no ouvido de um conselheiro, que me disse que ele pedia desculpas, mas que o assunto era muito delicado e só poderia me responder no dia seguinte. O tema da escravidão é um tabu no continente africano, porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente.

No dia seguinte, o rei finalmente me respondeu. Ele pediu desculpas e disse que foi melhor terem nos vendido, caso contrário todos teríamos sido mortos. E disse que, por termos sobrevivido, nós, da diáspora, agora poderíamos ajudá-los. Disse ainda que me adotaria como seu primeiro filho, o que me daria o direito a regalias e o acesso a bens materiais.

Foi uma resposta política, mas acho que foi sincera. Sei que eles não imaginavam que a escravidão ganharia a dimensão que ganhou, nem que a Europa a transformaria no maior negócio de todos os tempos. Houve um momento em que os africanos perderam o controle.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.”

Um intelectual senegalês me disse que, enquanto não superarmos a escravidão, não teremos paz – nem os escravizados, nem os escravizadores. É a pura verdade. Não dá para tratar uma questão de 500 anos com um sentimento de ódio ou vingança.

A viagem me completou enquanto cidadão. Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.

Acho que os exames de DNA deveriam ser reconhecidos pelo governo, pelas instituições acadêmicas brasileiras como um caminho para que possamos refazer e recontar a história dos 52% dos brasileiros que têm raízes africanas. Só conhecendo nossas origens poderemos entender quem somos de verdade.”

Tatunca Nara: alemão vive na Amazônia e tem até RG que diz que ele é índio (Der Spiegel)

Alexander Smoltczyk

20/07/201406h00

Hansi Richard Günther Hauck, nascido em Grub am Forst, na Bavária, mora em Manaus e acredita ser Tatunca Nara, chefe da tribo Ugha Mongulala. Acima, Tatunca Nara em imagem sem data divulgada pelo escritor Karl Brugger

Hansi Richard Günther Hauck, nascido em Grub am Forst, na Bavária, mora em Manaus e acredita ser Tatunca Nara, chefe da tribo Ugha Mongulala. Acima, Tatunca Nara em imagem sem data divulgada pelo escritor Karl Brugger

No final dos anos 60, um homem apareceu no Estado do Acre, no meio da região amazônica. Ele usava um pano amarrado sobre os genitais e uma pena, carregava um arco e dizia que era Tatunca Nara, chefe de Ugha Monulala. Ninguém nunca tinha ouvido falar de uma tribo indígena com aquele nome. Além disso, o homem não se parecia em nada com um índio. Ele era branco e falava com um forte sotaque francês.

Ele dizia que tinha herdado o sotaque de sua mãe, explicando que ela era uma freira alemã que havia sido levada pelos índios. Seu povo, segundo ele, vivia em uma cidade subterrânea chamada Akakor, e o alemão era a única língua falada lá – resultado da prole de 2.000 soldados nazistas que viajaram pela Amazônia em submarinos.

Sua história teria deixado as pessoas surpresas em qualquer outro lugar. Mas histórias bizarras não são incomuns na região amazônica, então ninguém deu muita atenção a Tatunca Nara.

Por outro lado, ele era simpático e sua aparição não teria resultado em muita coisa se não tivesse chamado a atenção de Karl Brugger, um correspondente da rede de televisão alemã ARD na época. Ele visitou Tatunca Nara em Manaus e gravou a história em 12 fitas de áudio.

Segundo Brugger: “foi a história mais estranha que já ouvi”. Era uma história de visitantes extraterrestres, ritos secretos de “anciãos” e incursões de “bárbaros brancos”, todas descritas exaustivamente e em grande detalhe, e sem interrupções “desde o ano zero até o presente”.

Mais surpreendente ainda foi o fato de que o livro de Brugger, “The Chronicle of Akakor” [“A Crônica de Akakor”], tenha desfrutado de certo sucesso. Nos círculos Nova Era, as histórias de Tatunca foram estudadas como se fossem Manuscritos do Mar Morto. Elas incluíam trechos como: “cinco dias vazios no final do ano são dedicados à adoração de nossos deuses.”

O oceanógrafo Jacques Cousteau contratou Tatunca como guia quando explorou a região com seu barco, o Calypso, em 1983. O filme de aventura “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de 2008, é sobre uma cidade submersa na Amazônia chamada Akator e uma tribo indígena chamada Ugha Mogulala. O personagem do filme se veste com um pano na cintura e uma pena.

O original existe? Tatunca está vivo? Este repórter viajou recentemente para o Brasil em uma tentativa de encontrar o homem lendário.

Em busca de Tatunca e boatos sinistros
O barco Almirante Azevedo II sobe e desce o Rio Negro há mais de 30 anos. A viagem de Manaus até Barcelos leva 35 horas, uma jornada através de águas negras que se tornam ácidas por causa da vegetação em decomposição. Estamos na temporada de chuvas e a floresta está inundada, transformando o Rio Negro em uma vasta rede de afluentes e brejos fétidos.

Raimundo Azevedo, o capitão, está agachado perto de uma pilha de pneus no deck inferior, recebendo uma massagem nas costas de um fisioterapeuta que entrou no barco em algum momento. Quando questionado sobre Tatunca, ele diz: “o índio da Alemanha? É claro que eu o conheço. Todo mundo no rio o conhece. É claro que ele ainda está vivo – a não ser que alguém tenha atirado nele na semana passada.”

O Almirante Azevedo II viajou pela noite negra como tinta, em meio a uma bolha de sons de água passando e do ruído explosivo e entorpecente do motor de diesel, ruídos que ecoavam em uma parede de vegetação exuberante e enredada ao longo das margens do rio. O capitão Azevedo coloca uma camisa e sobe as escadas até o deck superior para jogar cartas.

Os passageiros, que não somam mais do que poucas dúzias, estão deitados em suas redes, embrulhados como salsichas penduradas para defumar. Um cristão pentecostal faz o sinal da cruz e reza, enquanto o rapaz ao seu lado está entretido com fotos de vaginas em seu telefone celular. Parece que cada um tem um jeito diferente de começar o dia. O capitão, que ouviu falar sobre a fortaleza de Tatunca na floresta, diz: “ninguém ousa ir até lá, porque ele instalou armadilhas com explosivos e prendeu armas nas árvores. Ninguém sabe o que ele esconde lá.” De vez enquanto, um guincho agudo é ouvido à medida que o barco passa desliza próximo às margens.

“Teve um alemão que escreveu um livro sobre Tatunca”, disse o capitão. “Ele até tatuou uma tartaruga no coração, assim como Tatunca. Eles o mataram no Rio.”

“A bala passou direto pela tartaruga”, acrescentou Lucio, um motorista de táxi gordo com uma pedaço do cotovelo saindo como uma protuberância pelo pulso, resultado de um acidente de moto.

“Mas aquele não era Tatunca.”

“Talvez não.”

O barco sobe lentamente o rio, abrindo caminho entre matéria orgânica pré-histórica, e quanto mais ele se esquiva de troncos de árvores à deriva e ilhas flutuantes, mais o grupo discute os rumores sobre o alemão que vive rio acima – e mais sinistros eles se tornam.

Alguns ossos foram encontrados há sete anos, diz Lucio. “Ossos longos. Não eram de nenhum morador da Amazônia. Talvez um alemão.” Tatunca o matou, diz Lucio, para ficar com seu dinheiro e sua mulher. “É o que as pessoas dizem. Mas Tatunca diz que não foi ele.”

“Talvez não. Eles dizem que ele está fugindo da polícia de seu país”, diz o capitão. Agora, Tatunca deve ter bem os seus 70 anos. E ainda assim, observa o capitão, ainda está forte e em boa condição física. “Ele odeia os gringos”, diz outro homem. Ele faz uma pausa, olha para os outros, e diz: “vocês são gringos”.

O barco desliza entre as margens, vazias e ainda assim promissoras. Uma sombra ocasionalmente surge na superfície da água, um dos botos cor-de-rosa nativos do Rio Negro, que, segundo dizem, vão para a terra à noite e engravidam as mulheres.

O aventureiro alemão Rüdiger Nehberg também encontrou este índio branco, Tatunca Nara, durante uma expedição entre os índios Yanomami. Os dois homens se odiaram à primeira vista e acusaram um ao outro de mentiras e assassinato. Sua animosidade mútua aparentemente persiste até hoje. “Tatunca quer me afogar no Rio Negro”, escreveu Nehberg em um e-mail em maio.

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Tribo isolada da Amazônia é filmada pela primeira vez

13.ago.2013 – Nove índios da etnia kawahiva andavam nus pela mata em Colniza, no Mato Grosso, quando foram filmados por uma equipe da Funai (Fundação Nacional do Índio). Esta é a primeira vez que a tribo, que evita contato com o homem branco, é registrada. Os homens levavam arcos e flechas, indicando que são os guerreiros do grupo, enquanto as mulheres carregavam alguns objetos e as crianças (acima) Leia mais Reprodução/TV Globo

Assassinatos e desaparecimentos
A animosidade vem do fato de que Nehberg publicou um livro em 1991 intitulado “The Self-Made Chief” [algo como “O Homem Que Se Fez Cacique”].

Nele, ele revelou que o verdadeiro nome de Tatunca Nara é Hansi Richard Günther Hauck, e que ele nasceu em Grub am Forst, uma cidade perto de Coburgo, na Baviera, e não no Rio Negro, em 1941.

De acordo com Nehberg, Hauck, que leu muitos livros ao estilo de “Tarzan” quando era menino, abandonou sua mulher e filhos em 1966, aceitou um emprego a bordo do navio cargueiro Dorthe Odendorff, e eventualmente desapareceu no Brasil. Amigos antigos dizem que, quando era criança, Hauck uma vez disse ter testemunhado a aterrissagem de seres extraterrestres.

Isso tudo seria inofensivo se não tivesse havido três mortes que continuam sem explicação até hoje, mortes que ocorreram às margens do Rio Negro. Todas as três vítimas tinham sido atraídas para a região depois de ler “A Crônica de Akakor” e pediram a um certo Tatunca Nara para guiá-las até a cidade submersa. E, de acordo com testemunhas, ele fez a mesma promessa para todas as três: “vou mostrar-lhe Akakor”.
O Departamento de Polícia Criminal Federal da Alemanha lançou uma investigação sobre o suspeito assassinato e desaparecimento de três indivíduos “contra o cidadão alemão Günther Hauck, que vive no Brasil com uma identidade falsa”. Mas a investigação não chegou a lugar nenhum.

Depois de 35 horas de viagem insuportavelmente lenta, Barcelos aparece na margem esquerda como uma profecia, a cerca de 500 quilômetros rio acima a partir de Manaus. Há 30 igrejas evangélicas nesta cidade de 15 mil moradores, alguns dos quais dirigem pela região proclamando a salvação pelos alto-falantes de suas picapes em meio ao ar parado e empoeirado: “Deus não nega nenhum milagre!” É a religião dos abastados, daqueles que preferem acreditar no futuro e não na vida depois da morte.

O fascínio da Amazônia
O rio Amazonas e seus afluentes sempre exerceram um certo fascínio sobre as pessoas cansadas do ordinário, caçadores de fortunas e garimpeiros – entre eles o ator alemão Klaus Kinski, o geógrafo do século 19 Alexandre von Humboldt, um explorador nazista chamado Otto Schulz-Kampfhenkel e inúmeros defensores da floresta. A encarnação mais recente do aventureiro amazônico é um texano esquelético com olhos molhados, chamado pelos amigos de “o fabuloso Faltermann”, que empurrava sua bicicleta na frente do Café Regional.

Aos 20 anos, Patrick Faltermann deixou a casa dos pais no Cinturão da Bíblia nos EUA, profundamente conservador, embarcou em um navio cargueiro para Belém, uma cidade na Amazônia, e trocou seu laptop por um caiaque. Ele se pôs a remar no rio. Fez isso à moda antiga, como ele diz, sem GPS, contra a correnteza e com pouco mais do que o livro “Through the Brazilian Wilderness” de Teddy Roosevelt, na mochila. Foi uma jornada de noites negras e solitárias, capim cortante, aranhas venenosas e de se perder durante dias. Agora, quatro anos depois, Faltermann viajou 4.500 quilômetros e diz: “encontrei Tatunca há quatro semanas. Ele deve ter seus 70 e poucos anos, mas é mais forte que eu. As pessoas parecem ter medo dele, não é?”

Tatunca colocou armadilhas com dinamite em volta de sua cabana no meio da floresta, diz Faltermann. “Ele tem amigos militares. Isso ajuda, porque muitas pessoas gostariam de matá-lo a tiros. Ele aparentemente disse a uma menina que era pai dela e que ela tinha de ir com ele, em seu barco. O homem é incrível.”

Uma brisa fresca vem de vez em quando do rio no meio do dia quente. Faltermann abre outra lata de cerveja Skol, espera até que um caminhão passe e diz: “as histórias dele parecem um monte de mentiras. E o português dele é pior do que o meu. É como se fosse uma grande ‘ego trip’. Mas ele conhece a área melhor do que ninguém. E ele tem algum interesse na área indígena, subindo o rio Araçá.”

Algum interesse? “El Dorado. Em tese fica lá em cima perto dos dois picos, acima da cachoeira. Tatunca é o único que foi lá até agora.” Para as pessoas de Barcelos, “El Dorado” parece ser um lugar como qualquer outro.

Até recentemente, Barcelos era a capital mundial do comércio de peixes ornamentais, tão conhecida no mundo dos aquaristas quanto Cognac é entre os entusiastas da bebida. Em 1831, o pesquisador austríaco Johann Natterer descobriu o acará de Symphysodon, ou o acará-disco, nas águas salobras em torno de Barcelos. A espécie, apelidada de “rei dos peixes de aquário”, habita milhões de salas de estar hoje, normalmente junto com o tetra neon, o peixe ornamental mais popular de todos e também nativo do Rio Negro.

Em Barcelos, os orelhões têm formado de peixes ornamentais, e durante o Carnaval as pessoas se dividem em dois grupos, os Neons e os Discos, e atacam umas às outras usando fantasias de peixe feitas em casa.

Mas agora que o peixe ornamental está sendo criado em larga escala na Ásia, o comércio caiu 70%.

Há algum tempo, dois alemães fanáticos por aquários foram presos por biopirataria. Eles acreditaram nas garantias de seu guia, um nativo que, para sua surpresa, falava alemão fluentemente e chamava a si mesmo de Tatunca Nara.

Na prefeitura, um prédio embolorado perto do rio, somos informados de que a “Crônica de Akakor” gerou toda uma indústria de turismo. Além dos aquaristas, vários amigos da floresta e dos índios começaram a visitar a área – mas isso parou depois das notícias sobre as três mortes.
A primeira pessoa a desaparecer foi John Reed, um jovem norte-americano. Isso foi no final dos anos 80.

O especialista em florestas suíço Herbert Wanner desapareceu em 1984. Seus tênis, alguns ossos e um crânio com um buraco de bala foram encontrados um ano depois. Foi sobre esses ossos que os homens do rio haviam falado.

Reed tratava a “Crônica” como um guia para sua própria vida. Em sua última comunicação, uma carta para seus pais, ele escreveu: “acredito na honestidade de Tatunca mais do que nunca.”

A terceira pessoa a desaparecer foi Christine Heuser, uma instrutora de ioga de Kehl am Rhein, uma cidade no sudoeste da Alemanha. Ela também devorou a “Crônica de Akakor”, e estava convencida de que tinha sido mulher de Tatunca Nara em uma vida passada. Ela o visitou no verão de 1986. Há uma foto que a mostra dependurada em um cipó, com o torso nu. Não foram encontrados os restos de Heuser.

Águas escuras
Desde que o comércio de peixes ornamentais praticamente parou, os donos de barcos no alto do Rio Negro começaram a procurar outros trabalhos. Muitos servem como guias para pescadores norte-americanos que vão para a região em busca do peixe Oscar. Outros sobem o Rio Negro e entram em afluentes ao longo da fronteira com a Colômbia, onde usam seus barcos para traficar pacotes de cocaína.

“Perguntei a Tatunca se ele tinha matado aqueles três. Ele diz que não.” Para Mamá, a palavra de Tatunca é o bastante. Mamá, um homem rústico com uma tatuagem de cavalo-marinho e uma bandana na cabeça, é chamado de “Pirata” em Barcelos. Ele usa uma bandeira pirata em seu barco e está em casa nas águas escuras do rio. “Só não transporto drogas”, observa Mamá, sem que a pergunta tenha sido feita. Quando ele sorri, um dente de cerâmica vermelho aparece no canto direito de sua boca.

Mamá diz que é o único amigo de Tatunca. “Eu disse para ele que não estava interessado em suas histórias. Só quero um pouco do ouro.” De acordo com Mamá, os dois homens subiram o rio Araçá juntos em novembro.

“Até o ponto perto da cachoeira. Lá há duas entradas de caverna. Talvez fossem túneis construídos pelos nazistas. Tentamos, sem sucesso, descer de rapel. Tatunca começou dizendo que havia algumas coisas muito estranhas.” O que poderia parecer estranho para um pirata chamado Mamá? “Ele disse: o rei Salomão está prestes a vir cavalgando.” E então? “Ele queria que eu o matasse.” Mas o rei não se materializou. Talvez fosse a entrada errada da caverna. “Tatunca está provavelmente está na cabana agora. Posso levá-lo até lá.”

Depois das chuvas torrenciais da noite, a estrada de terra para Ajuricaba é impiedosa. Uma cobra apareceu no meio do caminho no quilômetro 8, e depois de mais dois quilômetros a estrada acabava em lama vermelha na altura dos joelhos. Se Tatunca Nara está de fato em sua cabana na floresta, não há como chegar até ele. “Talvez seja melhor para você”, diz Mamá, o pirata.

“Tatunca? Não, ele não está aqui”

Mas então aparece a sogra de Tatunca, Elfriede Katz, 88.

Sua casa ribeirinha fica na Estrada de Nazaré, na periferia da cidade. Como em todas as casas judias, há um mezuzá contendo versos hebraicos da Torá pendurado sobre a moldura da porta. Katz está de bom humor, sentada em uma cadeira de balanço na varanda. “Tatunca? Não, ele não está aqui”, diz com um sotaque de Bremen. Seus pais, explica, imigraram para o Brasil logo depois que ela nasceu. Mais tarde, Katz se casou com um fabricante de pianos cuja família havia fugido do Holocausto.

Katz se tornou uma soprano e cantou na ópera “La Traviata” em teatros em São Paulo e Porto Alegre. Ela jamais imaginaria que passaria sua velhice na capital mundial do comércio de peixes ornamentais, com um genro índio-alemão, que disse a ela que se chamava Grande Cobra D’Água.

“Minha filha me falou que tinha conhecido um índio-alemão. Tatunca mandava cartas de amor pelo correio militar para ela. Elas vinham com um carimbo de “confidencial”. Então os dois se mudaram para o Rio Negro e viveram entre os ianomami por anos, até que seus dois filhos tiveram que ir para a escola.” Katz parece não ter dúvidas sobre a as origens de seu genro. Ela e seu marido seguiram a filha até Barcelos, onde abriram um pequeno hotel. A maioria dos filhos de Tatunca foi parar em Barcelos, inclusive os três que não deveriam voltar para a floresta.
Katz observa mais tarde que Tatunca não está na região no momento, mas que desceu o rio até Manaus com sua mulher Anita. Ela não sabe quando ele volta, diz ela, e cantarola um trecho de Violetta com sua voz aguda: “È strano…”

Deve ser terrivelmente difícil manter as histórias. É preciso muito esforço para manter uma rede de mentiras, não importa o quão bem construída ela possa ser. Revisões constantes, acréscimos e renovações são necessárias. Algumas mentiras caem por terra enquanto novas são acrescentadas. Tudo isso requer uma atenção constante, especialmente quando novos visitantes chegam, pessoas que querem conhecer os arredores e fazem perguntas. É preciso cautela antes que os visitantes sejam guiados a uma história nova e possivelmente ainda mais fantasiosa. Contar histórias pode ser mais difícil do que a própria vida.

E a vida tem uma forma de escolher seu próprio caminho. Ela encena o encontro com Tatunca Nara de acordo com suas leis improváveis.

Encontro com Tatunca
Finalmente o encontramos no Amazonas, um shopping center em Manaus, entre a lanchonete Bob’s e uma loja C&A (veja fotos). Ele carrega uma sacola de compras. Mas é ele, com seu rosto de ator, as mãos e a pele enrugada e a cabeça com cabelos fartos. Falando com um sotaque da região Franconia da Baviera, ele diz: “Bom dia, eu sou o Tatunca.”

Depois de todas as histórias, rumores e tentativas de demonizar o homem, a sensação é de que estamos diante de algum cacique indígena ficcional – ou talvez de Jack, o estripador. Esta é a história de nosso encontro: o fotógrafo Johannes Arlt precisava de uma camisa nova e Tatunca tinha acompanhado sua mulher Anita para Manaus para uma operação nos olhos. Os dois acontecimentos acabaram coincidindo. Esta foi a primeira vez que ele foi para Manaus em seis anos, diz ele. É o tipo de coincidência que soa como uma das histórias sobre Tatunca.
“Vamos sentar”, diz ele. “Não gosto de estar na cidade. Prefiro estar na floresta, com meus índios.”

Ele não parece ligar para quem está sentado à sua frente. Ele não está interessado em ouvir as histórias dos outros, apenas à sua própria. Ele fala sobre seu tempo entre os índios Yanomami, quando ele e Anita administravam uma enfermaria e uma escola.

Os índios ensinaram-lhe a sobreviver na floresta, diz. E então, depois de medir o ouvinte para descobrir qual a probabilidade de este acreditar em sua história, fez um desvio para um labirinto de fantasias: “eu entreguei o posto de cacique em novembro. O pajé tinha dois desses servos de Deus de três metros de altura com ele. Ele disse que os anciãos estavam retornando, e que eles tinham aberto o túnel”. Ele fala sobre paredes em forma de tartaruga, e de uma caverna com a estrela de Davi acima.

Sempre que ele faz essas afirmações, sua mulher, Anita, coloca uma mão sobre o joelho dele e diz “querido”, e ele fica em silêncio.
Talvez tivesse sido melhor simplesmente deixar o homem falar, da forma como ele está falando agora, em um fluxo de memórias e fantasias, invenções, mentiras ultrajantes e descrições detalhadas. A maior parte da “Crônica de Akakor” foi inventada, diz ele. “Brugger queria escrever um novo ‘Papalagi’.”

“O Papalagi” era uma leitura obrigatória na Alemanha durante a época dos hippies. Nele, um chefe samoano fictício faz discursos essenciais sobre a civilização a seu povo. Neste ponto, Tatunca poderia dizer que toda a “Crônica” era pura fantasia. Mas ele não faz isso. É claro, ele não pode colocar as premissas básicas em questão porque, como diz ele, elas são verdadeiras: “há alemães entre meu povo. É claro, eles não chegaram de submarino. A água aqui é muito rasa para isso. Eles tiveram que trocar de barco primeiro.”

Encontramos Tatunca de novo na manhã seguinte, desta vez sem Anita, no mercado de peixe de Manaus, perto das águas escuras do Rio Negro. “Vocês querem ir para El Dorado?”, ele pergunta. “Não é uma lenda. Encontrei muros como estes em Machu Picchu. Posso levá-los lá.” Sem hesitação, ele pega uma caneta e um bloco de papel e começa a desenhar o caminho para El Dorado. Fica em algum lugar sobre um platô entre o rio Araçá e o rio Demini.

Suas histórias são intermináveis e enroladas e não demora muito para que surja uma suspeita: a cidade perdida de Tatunca Nara não fica na floresta, em hipótese alguma. Fica ao longo do Füllbach, um rio na Francônia, em Grub am Forst, um lugar de onde Günter Hauck fugiu um dia. Ele foi o mais longe possível, para os afluentes mais remotos da Amazônia, e para uma nova existência que não podia ter nada em comum com sua vida anterior.

De acordo com os arquivos de investigações feitas no Brasil, houve um alemão aparentemente confuso chamado Günther Hauck que nunca retornou ao seu navio cargueiro depois de uma folga em terra. Um psiquiatra o diagnosticou como esquizofrênic, e a embaixada alemã o enviou de volta à Alemanha.

Tatunca conhece esse tal de Günther Hauck? Não pessoalmente, diz. Ele viajou para a Alemanha uma vez, acrescenta, e as pessoa se referiram a ele como Günther Hauck quando esteve por lá. Também havia uma mulher, e para evitar problemas ele foi para a cama com ela. Mas tudo isso estava totalmente errado, diz ele. “Eu sou Tatunca. Ponto final.”

“Günther Hauck” é simplesmente uma pele que foi trocada há muito tempo. Para provar seu ponto, Tatunca tira sua carteira de identidade brasileira, que o identifica como “índio” e contém um carimbo da agência brasileira encarregada de assuntos indígenas. Ele deve ter sido muito convincente como índio.

Se simplesmente tivessem deixado o homem falando sozinho, provavelmente nada disso teria acontecido. Mas suas histórias o alcançaram. Elas atraíram pessoas para a região, pessoas que queriam mais do que ouvir suas histórias. Elas queriam ser guiadas rio acima, ver a cidade subterrânea com seus próprios olhos e entrar nela.

Os mundos que ele tinha conseguido manter distantes haviam repentinamente se juntado. Talvez ele tenha se sentido encurralado por todos os admiradores e caçadores de tesouros, e pelos curiosos. Rüdiger Nehberg foi o pior de todos. Ele chegou com arquivos e velhas fotos nas mãos, e queria saber exatamente quem era Tatunca. “Ele é esquizofrênico, aquele Nehberg. Um mentiroso.”

E então teve a professora de ioga que dizia ser sua verdadeira esposa.

“Eu não matei aqueles três”
Talvez, quando todas as suas desculpas, ameaças e feitiços não funcionaram mais, ele decidiu deixá-los sozinhos com suas expectativas, e simplesmente os deixou caminhar em meio à mata cheia de veneno e espinhos. Sem experiência, uma pessoa não consegue sobreviver por muito tempo na floresta, nem mesmo com a “Crônica de Akakor” em sua bagagem.

Quando questionado sobre os desaparecidos, Tatunca diz: “eu vivo com minha consciência. Eu matei muitas pessoas, mas eu era soldado e elas carregavam armas. Eu sou inocente. Mas não matei aqueles três, como me acusam de ter feito.”

A história do que aconteceu a John Reed e outros provavelmente continuará sendo um mistério. O processo alemão contra Günter Hauck, mais conhecido como Tatunca Nara, foi retirado, por causa da ausência do acusado. Isso não deixa nada além de suspeitas.

Mas então ele disse alguma coisa enquanto passava pelo mercado de peixe de Manaus, enquanto tilápias eram desossadas nas barracas de peixe próximas. “Meu nome, Tatunca, significa Grande Cobra D’água. Ela tem o hábito de só atacar suas vítimas quando não há nada em torno para atrapalhar suas atividades.”

Então o que resta a não ser a suspeita de que o homem é um sonhador, um impostor e um mentiroso de talento, uma pessoa que vê a existência de sua certidão de nascimento como nada mais do que uma mera possibilidade?

Numa manhã em Barcelos, um barco listrado azul e branco estava ancorado no pier perto da fábrica de gelo. Ele carregava fardos de piaçava, uma fibra de palmeira para fazer vassouras. Alguns índios estavam dormindo no barco, até serem acordados por um homem enrome e queimado de sol que começou a erguer os fardos para a margem.

O dono do barco é Seder Heldio, 36, filho de Tatunca, que não fala mais alemão. A cidade de Grub am Forst não significa nada para ele. Mas ele se lembra de crescer entre os índios. “Meu pai deve ter lhe contado muitas histórias, mas ele é meu pai. Nenhuma das acusações de assassinato foi comprovada. Tudo o que aconteceu foi que sua empresa de turismo foi à falência.”

E isso, diz Heldio, é injusto. “Eu vi o filme Indiana Jones”, diz Heldio, filho de Tatunca. “Soa muito como a história de meu pai sobre Akakor. Ele nunca recebeu um centavo por isso. Talvez ele tenha inventado algumas das histórias. Mas ele pagou por isso com sua vida.”

Heldio também tem histórias para contar sobre os índios. As dele são sobre a Fundação Nacional do Índio, a Funai, que busca proteger os povos indígenas impedindo-os de trabalhar por salários e, em vez disso, fornece ajuda. Heldio diz que sua empresa na verdade é ilegal, porque ele não oferece a seus empregados os benefícios trabalhistas obrigatórios exigidas pelos sindicato, incluindo moradia e horas de trabalho fixas. O problema, explica Heldio, é que os índios não gostam de dormir em contêineres e só vão trabalhar quando não têm nada para caçar. “Eles querem manter os Yanomami como se estivessem em um zoológico. Eu lhes dou dinheiro para que possam comprar coisas.”

O filho do sonhador de Francônia, que queria ser um índio em vez de Günther Hauck, não se tornou cacique. Em vez disso, ele trabalha como capataz, alguém que está distanciando os indígenas de seu estado natural e inserindo-os na economia monetária. E como seus métodos são justos, os Yanomami o respeitam e talvez até o adorem. E, neste caso, sem o envolvimento de seres extraterrestres, anciãos ou El Dorado.

Jens Glüsing contribuiu com a reportagem.

Tradutor: Eloise De Vylder