Arquivo mensal: janeiro 2014

Tradicionais e libertários (Carta Capital)

“Muito das catástrofes da esquerda nas últimas décadas” deve ser atribuído “à perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada”

por Vladimir Safatle — publicado 13/01/2014 06:19

Eduardo Viveiros de Castro é, atualmente, um dos intelectuais mais originais e rigorosos de nosso país. Responsável por concepções antropológicas inovadoras, como o “perspectivismo ameríndio”, o antropólogo carioca forneceu subsídios teóricos importantes para a problematização de um campo, nem sempre totalmente explícito, no interior do qual se desenvolve o comércio entre filosofia e antropologia.

Muitas vezes de maneira silenciosa, conceitos filosóficos ligados à noção de progresso, identidade, diferença e racionalidade fornecem o fundamento implícito para teorias que querem ser vistas como a mera descrição neutra de realidades sociais múltiplas. Explicitar e problematizar tal fundamento implícito é apenas uma das virtudes do pensamento de Viveiros de Castro. Com isso, ele não apenas forneceu uma visão mais rica e complexa daquilo que a antropologia tradicional chamara anteriormente de “animismo”, com suas pretensas ligações a um “pensamento pré-lógico” que coloca os sistemas indígenas de representação no interior de um bizarro cortejo de regressões no qual encontramos, um ao lado do outro, o selvagem, a criança e o psicótico. Ao insistir que o estudo antropológico das realidades indígenas poderia revelar o potencial perdido de uma racionalidade mimética ignorada por nossos sistemas de pensamento, ao mostrar como conceitos de natureza marcados por um perspectivismo interno era uma maneira forte de nos ensinar a sair das vias da racionalidade resvalada à estratégia de dominação instrumental, Viveiros de Castro não teria como deixar de se voltar contra certo positivismo latente que habita mais de uma versão das teorias marxistas da história.

Nesse sentido, a entrevista por ele fornecida à revista Piauí de janeiro é reveladora. Nela, Viveiros de Castro expõe claramente suas críticas àquilo que aparece no texto como “a esquerda tradicional”, com sua incapacidade de escapar de uma visão produtivista da relação entre homem e natureza, de sua fascinação não dita pela força disciplinar do Estado, pela organização política sob a forma do partido e pela sua crença na história como realização progressiva que marca com o selo do arcaísmo aquilo que sempre esteve fora do processo de modernização capitalista. Contra isso, apareceria uma “esquerda libertária”, à sua maneira tributária dos ideais antitotalitários de maio de 1968, ciosa da afirmação das diferenças e desconfiada dos arranjos institucionais que a esquerda tradicional procuraria preservar.

De fato, essa foi a divisão política que marcou a história política da esquerda nos últimos 40 anos. Talvez a boa questão seja se precisamos realmente de ainda conservá-la. Muito das catástrofes políticas da esquerda nas últimas décadas deve ser debitado na conta da perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada. É verdade que tal divisão é ainda tão forte que nem sempre conseguimos nos fazer ouvir para além de certos estereótipos. Mas é de sua superação que depende o futuro de uma esquerda renovada e tal superação passa, certamente, pela revisão de certos pressupostos antropológicos que acabam por implicitamente guiar a ação política.

Por exemplo, podemos nos perguntar em quanto a tendência de alguns em estigmatizar ações como as impetradas pelos Black Blocs não seria dependente da crença em uma política organizada a partir de um “institucionalismo forte” que imediatamente compreende a recusa à institucionalidade como convite direto ao irracionalismo. Há de se perguntar o quanto isso não seria dependente de certa noção de progresso histórico como fortalecimento institucional.

No entanto, há de se lembrar dos problemas que o outro lado tem dificuldade em responder. Por exemplo, ao desconfiar do pretenso potencial disciplinar que estaria presente nas exigências de igualitarismo próprias à “esquerda tradicional” a dita “esquerda libertária” acabou, nas últimas décadas, por esquecer quão fundamental é organizar a luta política a partir do combate à desigualdade. Lembrem, o Partido Verde alemão, talvez um dos mais clássicos representantes dessa “esquerda libertária”, foi o mesmo que apoiou as leis de desregulamentação liberal do trabalho (Hartz IV) na Alemanha. A afirmação da diferença não pode nos cegar para a centralidade do combate sem trégua à desigualdade. Mas é simplesmente impossível lutar contra a desigualdade em larga escala sem um aparato institucional como o Estado, com sua força legal, tributária e universalizadora.

Linking Social Science, Ecology to Solve the World’s Environmental Problems (Science Daily)

Dec. 16, 2013 — Researchers from the ARC Centre of Excellence for Coral Reef Studies (CoECRS) at James Cook University are engaging social science to help solve some of the world’s biggest environmental problems.

Dr Christina Hicks, an interdisciplinary social science fellow at the ARC CoECRS, holds a joint position with the Center for Ocean Solutions at Stanford University in the USA.

Dr Hicks says more powerful economic interests, such as tourism, currently drive coral reef management. Little thought is given to community needs such as food or wellbeing. This results in conflict.

Dr Hicks explains to improve long-term coral reef management, “human values need to be considered in decision-making.”

Dr Nick Graham, a senior research fellow at the ARC CoECRS, adds that humans play an essential role in ecology, but different people have different priorities. He says these priorities need to be considered when managing natural environments.

For example, in a recent co-authored paper for the journal Global Environmental Change, Dr Hicks and Dr Graham, along with Dr Joshua Cinner, measured and compared how managers, scientists and fishers prioritized specific benefits from coral reef ecosystems. This in effect highlighted key areas of agreement and conflict between the three different stakeholder groups.

Dr Graham says the lack of ‘ownership’ of reef resources for fishers, who depend on fish for their food and livelihoods, underlies a main area of conflict. But the paper also indicated that managers might be well placed to play a brokering role in disagreements.

“Communities that are engaged and recognized are more likely to trust and support their management agencies,” adds Dr Hicks. She explains that governments who consult local communities in order to develop co-management plans generally reduce conflict and see increased livelihood as well as ecological benefits (such as a rise in fish stocks) in their area.

Examples of successful co-management arrangements exist in coral-reef nations such as Papua New Guinea and Kenya.

Journal Reference:

  1. Christina C. Hicks, Nicholas A.J. Graham, Joshua E. Cinner.Synergies and tradeoffs in how managers, scientists, and fishers value coral reef ecosystem servicesGlobal Environmental Change, 2013; 23 (6): 1444 DOI:10.1016/j.gloenvcha.2013.07.028

Age-Old ‘Man v. Wolf’ Battles Are Back In Europe (Worldcrunch)

Julie Farrar (2014-01-11) 

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Iberian wolf in Lugo, Spain

“Wolves are not killed because they are grey, but because they eat sheep.”  (Russian proverb)

Who’s afraid of the Big, Bad Wolf? Well, as it turns out, more than just the shepherds whose flocks get devoured. In European culture, there is a deep-rooted negative image of the wolf, based on fear of attacks on humans — thanks to well-known children’s stories — combined with the loss of livestock, and therefore livelihood, to wolf depredation.

And over the past decade, as the number of members of the species has increased, humans are the ones on the attack.

In the central Italian city of Terni, a she-wolf was shot dead. This comes as in the coastal forest of Tuscany, eight wolves have been killed since November — three in the last week alone. In these most recent kills, two of which were wolf-dog hybrids, the animals had been tied up on a city street where they were beaten, shot and left abandoned as acts of “demonstrative warning,” according to La Stampa.

Giacomo Bottinelli of the Italian animal rights group LAV blamed sheep farmers and lax hunting regulations that he says “guarantee the impunity of dangerous criminals.”

Meanwhile, in Tamins, Switzerland, a wolf was found dead this week, and it was determined that it had been shot two weeks earlier and left to succumb to a slow and painful death, reports 24 Heures. “This situation surprised us completely, even if we knew the local population was concerned by the presence of the wolf pack in the area,” said State Councilor Mario Cavigelli. “Completely informing the population is our top priority. Wolves are not dangerous as long as we don’t feed them.”

Experts note that there are solutions to keep the animals at bay, e.g. the use of rubber bullets, flashing lights and even the presence of sheepdogs. It’s true that as predation grows, an open debate must take place — but funds are lacking and the shepherds need help.

Pets in the middle

In Germany, as elsewhere, it was believed that the species had been hunted to extinction more than a century ago. But over the past decade, wolves have returned, migrating back from Eastern Europe and reigniting ancient fears. German weekly Der Spiegel reports that researchers at the Senckenberg Society for Natural Research proved that livestock accounts for less than 1% of wolves’ diets.

The resurgence of the animals has caused anger amongst farmers, who declare that the wolves are not just eating their sheep and other livestock, but household pets as well.

“We’re not against wolves, but we want them to stay on government-owned lands. When they leave these territories, we want to be able to shoot them,” said Lutz-Uwe Kahn, of the Brandenburg Farmers Alliance, quoted in Der Tagesspiegel.

There is the fear that the wolves will attack humans but, as Werner Freund proved to VICE magazine, it is entirely possible to co-habitate with them. Freund, a former marine, has been living with wild wolves in Merzig, a small town near the French border, for the past 30 years. He firmly believes that wolves only attack when cornered, and that fairy tales have brought up to believe they are to be feared. “If we say that wolves shouldn’t live here,” he continues, “then we have no right to complain about the killing of elephants in Africa for ivory.”

While Freund’s view is certainly atypical, as very few people in the world have had similar experiences with the species as he has, Germany is not the only country that is experiencing a comeback from the creatures: After an absence of 70 years, they’re back in Spain’s Guadarrama mountains, just 65 kilometers from Madrid.

Over the past two months, writes The Guardian, around 100 sheep and cattle have been killed near Buitrago, in the northern foothills of the Guadarrama mountains, says Juan Carlos Blanco, a wolf specialist and adviser to the Spanish environment ministry.

“Guadarrama can support two, even three, packs. We think there are now six packs within 100 kilometers of Madrid. When they arrive in a new area the shepherds don’t know what to do. Then they find ways to protect their flocks with dogs or fences. It’s a natural event, and the wolf will not go away now,” he says.

Blanco notes that even if hunters exterminate one pack, others will take its place. “Wolves, he said, “are very adaptable and resilient.”

Our singularity future: should we hack the climate? (Singularity Hub)

Written By: 

Posted: 01/8/14 8:31 AM

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Even the most adamant techno-optimists among us must admit that new technologies can introduce hidden dangers: Fire, as the adage goes, can cook the dinner, but it can also burn the village down.

The most powerful example of unforeseen disadvantages stemming from technology is climate change. Should we attempt to fix a problem caused by technology, using more novel technology to hack the climate? The question has spurred heated debate.

Those in favor point to failed efforts to curb carbon dioxide emissions and insist we need other options. What if a poorly understood climatic tipping point tips and the weather becomes dangerous overnight; how will slowing emissions help us then?

“If you look at the projections for how much the Earth’s air temperature is supposed to warm over the next century, it is frightening. We should at least know the options,” said Rob Wood, a University of Washington climatologist who edited a recent special issue of the journal Climatic Change devoted to geoengineering.

Wood’s view is gaining support, as the predictions about the effects of climate change continue to grow more dire, and the weather plays its part to a tee.

But big, important questions need answers before geoengineering projects take off. Critics point to science’s flimsy understanding of the complex systems that drive the weather. And even supporters lament the lack of any experimental framework to contain disparate experiments on how to affect it.

“Proposed projects have been protested or canceled, and calls for a governance framework abound,” Lisa Dilling and Rachel Hauser wrote in a paper that appears in the special issue. “Some have argued, even, that it is difficult if not impossible to answer some research questions in geoengineering at the necessary scale without actually implementing geoengineering itself.”

Most proposed methods of geoengineering derive from pretty basic science, but questions surround how to deploy them at a planetary scale and how to measure desired and undesired effects on complex weather and ocean cycles. Research projects that would shed light on those questions would be big enough themselves potentially to affect neighboring populations, raising ethical questions as well.

stratoshieldEarlier efforts to test fertilizing the ocean with iron to feed algae that would suck carbon dioxide from the air and to spray the pollutant sulfur dioxide, which reflects solar radiation, into the atmosphere were mired in controversy. A reputable UK project abandoned its plans to test its findings in the field.

But refinements on those earlier approaches are percolating. They include efforts both to remove previously emitted carbon dioxide from the atmosphere and to reduce the portion of the sun’s radiation that enters the atmosphere.

One method of carbon dioxide removal (or CDR) would expose large quantities of carbon-reactive minerals to the air and then store the resulting compounds underground; another would use large C02 vacuums to suck the greenhouse gas directly from the air into underground storage.

Solar radiation management (or SRM) methods include everything from painting roofs white to seeding the clouds with salt crystals to make them more reflective and mimicking the climate-cooling effects of volcanic eruptions by spraying  sulfur compounds into the atmosphere.

The inevitable impact of geoengineering research on the wider population has led many scientists to compare geoengineering to genetic research. The comparison to genetic research also hints at the huge benefits geoengineering could have if it successfully wards off the most savage effects of climate change.

As with genetic research, principles have been developed to shape the ethics of the research. Still, the principles remain vague, according to a 2012 Nature editorial, and flawed, according to a philosophy-of-science take in the recent journal issue. Neither the U.S. government nor international treaties have addressed geoengineering per se, though many treaties would influence its testing implementation.

The hottest research now explores how long climate-hacks would take to work, lining up their timelines with the slow easing of global warming that would result from dramatically lowered carbon dioxide emissions, and how to weigh the costs of geoengineering projects and accommodate public debate.

Proceeding with caution won’t get fast answers, but it seems a wise way to address an issue as thorny as readjusting the global thermostat.

Facebook Data Scientists Prove Memes Mutate And Adapt Like DNA (TechCrunch)

Posted Jan 8, 2014 by  (@joshconstine)

Richard Dawkins likened memes to genes, but a new study by Facebook shows just how accurate that analogy is. Memes adapt to their surroundings in order to survive, just like organisms. Post a liberal meme saying no one should die for lack of healthcare, and conservatives will mutate it to say no one should die because Obamacare rations their healthcare. And nerds will make it about Star Wars.

Facebook’s data scientists used anonymized data to determine that “Just as certain genetic mutations can be advantageous in specific environments, meme mutations can be propagated differentially if the variant matches the subpopulation’s beliefs or culture.”

Take this meme:

“No one should die because they cannot afford health care, and no one should go broke because they get sick. If you agree, post this as your status for the rest of the day”.

In September 2009, 470,000 Facebook users posted this exact phrase as a status update. But a total of 1.14 million status updates containing 121,605 variants of the meme were spawned, such as “No one should be frozen in carbonite because they can’t pay Jabba The Hut”. Why? Because humans help bend memes to better fit their audience.

In the chart below you can see how people of different political leanings adapted the meme to fit their own views, and likely the views of people they’re friends with. As Facebook’s data scientists explain, “the original variant in support of Affordable Care Act (aka Obamacare) was propagated primarily by liberals, while those mentioning government and taxes slanted conservative. Sci-fi variants were slightly liberal, alcohol-related ones slightly conservative”. That matches theories by Dawkins and Malcom Gladwell.

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Average political bias (-2 being very liberal, +2 being very conservative) of users reposting different variants of the “no one should” meme.

As I wrote in my Stanford Cybersociology Master’s program research paper, memes are more shareable if they’re easy to remix. When a meme has a clear template with substitutable variables, people recognize how to put their own spin on it. They’re then more likely to share their own modified creations, which drives awareness of the original. When I recognized this back in 2009, I based my research on Lolcats and Soulja Boy, but more recently The Harlem Shake meme proved me right.

Facebook’s findings and my own have signficant implications for marketers or anyone looking to make a message go viral. Once you know memes are naturally inclined to mutate, and that these mutations increase sharing, you can try to purposefully structure your message in a remixable way. By creating and seeding a few variants of your own, you can crystallize how the template works and encourage your audience to make their own remixes.

As you can see in this graph from my research paper, usage of the word “haz” as in the Lolcat phrase “I can haz cheezburger” grew increasingly popular for several years. Meanwhile, less remixable memes often only create a spike in mentions for a few days. I posit that high remixability — or adaptability — keeps memes popular for a much longer period of time.

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Rise in mentions of the word “haz” in Facebook wall posts, indicating sustained popularity of the highly remixable Lolcats memes – as shown on the now defunct Facebook Lexicon tool

For social networks like Facebook, understanding how memes evolve could make sure we continue to see fresh content. Rather than showing us the exact copies of a meme over and over again in the News Feed, Facebook’s algorithms could purposefully search for and promote mutated variations.

That way instead of hearing about healthcare over and over, you might see that “No one should twerk just because they can’t avoid hearing Miley Cyrus on the radio. If you agree, sit perfectly still with your tongue safely inside your mouth for the rest of the day.”

Samba soccer. The transformation of Brazil’s most storied team (The New Yorker)

BEN MCGRATHJANUARY 13, 2014

The last time Brazil hosted the World Cup, in 1950, two hundred thousand people—a tenth of the population of Rio de Janeiro—streamed into the newly completed Maracanã Stadium to watch their beloved national team, the Seleção, compete for the title against Uruguay. A monumental concrete bowl, intended to rival the Christ statue atop Corcovado, the Maracanã resembled a spaceship and was meant to embody, as the British journalist Alex Bellos writes in “Futebol: The Brazilian Way of Life,” not only Brazil’s athletic ambition but also “the country’s place in the modern world.” Its capacity was greater by several magnitudes than any other Brazilian stadium. Some ten thousand men had contributed to its construction, practicing goal celebrations while they worked. They’d even, somehow, finished ahead of schedule. (…)

Ler o artigo integral aqui: The New Yorker _ Jan 13, 2014

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Otimismo do brasileiro cai pela primeira vez desde 2009 (OESP)

Por José Roberto de Toledo | Estadão Conteúdo – 12.jan.2014

No ano em que a presidente Dilma Rousseff tentará se reeleger, o otimismo do brasileiro está 17 pontos menor do que quando a petista assumiu a Presidência da República. Segundo pesquisa do Ibope, 57% esperam que 2014 seja melhor do que 2013. Apesar de elevada, a taxa caiu pela primeira vez em anos. Na pesquisa anterior, os otimistas eram 72% – mesmo patamar de 2011 (74%), 2010 (73%) e 2009 (74%), pela margem de erro.

O pessimismo praticamente dobrou nos últimos 12 meses. Agora, 14% acham que 2014 será pior do que 2013. Um ano antes, só 8% achavam que 2013 seria pior do que 2012. Os restantes 24% apostam que este ano será igual ao anterior (eram 17%).

Há diferenças regionais importantes no otimismo dos brasileiros. Ele é muito maior no Norte/Centro-Oeste (69%) e Nordeste (67%) do que no Sudeste (47%). Destaca-se nas capitais (61%) e murcha nas cidades das periferias das metrópoles (52%). É a marca dos jovens com menos de 25 anos (64%) e dos mais ricos (72%).

A pesquisa do Ibope faz parte de um levantamento global de opinião pública realizado em 65 países pela rede WIN, que reúne alguns dos maiores institutos de pesquisa do mundo. Apesar da diminuição das expectativas de melhora, o Brasil ainda aparece em 7º lugar no ranking das nações mais otimistas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

SHY Hypothesis Explains That Sleep Is the Price We Pay for Learning (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — Why do animals ranging from fruit flies to humans all need to sleep? After all, sleep disconnects them from their environment, puts them at risk and keeps them from seeking food or mates for large parts of the day.

Sleeping puppy. Is sleep the price the brain must pay for learning and memory? (Credit: © paul prescott / Fotolia)

Two leading sleep scientists from the University of Wisconsin School of Medicine and Public Health say that their synaptic homeostasis hypothesis of sleep or “SHY” challenges the theory that sleep strengthens brain connections. The SHY hypothesis, which takes into account years of evidence from human and animal studies, says that sleep is important because it weakens the connections among brain cells to save energy, avoid cellular stress, and maintain the ability of neurons to respond selectively to stimuli.

“Sleep is the price the brain must pay for learning and memory,” says Dr. Giulio Tononi, of the UW Center for Sleep and Consciousness. “During wake, learning strengthens the synaptic connections throughout the brain, increasing the need for energy and saturating the brain with new information. Sleep allows the brain to reset, helping integrate, newly learned material with consolidated memories, so the brain can begin anew the next day. ”

Tononi and his co-author Dr. Chiara Cirelli, both professors of psychiatry, explain their hypothesis in a review article in today’s issue of the journal Neuron. Their laboratory studies sleep and consciousness in animals ranging from fruit flies to humans; SHY takes into account evidence from molecular, electrophysiological and behavioral studies, as well as from computer simulations. “Synaptic homeostasis” refers to the brain’s ability to maintain a balance in the strength of connections within its nerve cells.

Why would the brain need to reset? Suppose someone spent the waking hours learning a new skill, such as riding a bike. The circuits involved in learning would be greatly strengthened, but the next day the brain will need to pay attention to learning a new task. Thus, those bike-riding circuits would need to be damped down so they don’t interfere with the new day’s learning.

“Sleep helps the brain renormalize synaptic strength based on a comprehensive sampling of its overall knowledge of the environment,” Tononi says, “rather than being biased by the particular inputs of a particular waking day.”

The reason we don’t also forget how to ride a bike after a night’s sleep is because those active circuits are damped down less than those that weren’t actively involved in learning. Indeed, there is evidence that sleep enhances important features of memory, including acquisition, consolidation, gist extraction, integration and “smart forgetting,” which allows the brain to rid itself of the inevitable accumulation of unimportant details. However, one common belief is that sleep helps memory by further strengthening the neural circuits during learning while awake. But Tononi and Cirelli believe that consolidation and integration of memories, as well as the restoration of the ability to learn, all come from the ability of sleep to decrease synaptic strength and enhance signal-to-noise ratios.

While the review finds testable evidence for the SHY hypothesis, it also points to open issues. One question is whether the brain could achieve synaptic homeostasis during wake, by having only some circuits engaged, and the rest off-line and thus resetting themselves. Other areas for future research include the specific function of REM sleep (when most dreaming occurs) and the possibly crucial role of sleep during development, a time of intense learning and massive remodeling of brain.

This work was supported by NIMH (1R01MH091326 and 1R01MH099231 to GT and CC)

Journal Reference:

  1. Giulio Tononi, Chiara Cirelli. Sleep and the Price of Plasticity: From Synaptic and Cellular Homeostasis to Memory Consolidation and IntegrationNeuron, 2014; 81 (1): 12 DOI: 10.1016/j.neuron.2013.12.025

Funding Problems Threaten U. S. Disaster Preparedness (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — The Sept. 11, 2001 attacks in New York City prompted large increases in government funding to help communities respond and recover after human-made and natural disasters. But, this funding has fallen considerably since the economic crisis in 2008. Furthermore, disaster funding distribution is deeply inefficient: huge cash infusions are disbursed right after a disaster, only to fall abruptly after interest wanes. These issues have exposed significant problems with our nation’s preparedness for public health emergencies.

In a report published by the Institute of Medicine, authors Jesse Pines, M.D., director of the Office of Clinical Practice Innovation at the George Washington University (GW) School of Medicine and Health Sciences (SMHS); Seth Seabury, Ph.D., associate professor of emergency medicine at the Keck School of Medicine of the University of Southern California (USC); and William Pilkington, DPA, of the Cabarrus Health Alliance, make seven recommendations to provide a road map to enhance the sustainability of preparedness efforts in the United States.

“With more limited government funding in the foreseeable future, the government needs to be smarter about how it spends its money on emergency preparedness in this country,” said Seabury, who is also with the Leonard D. Schaeffer Center for Health Policy & Economics at USC. “We need to know which communities are prepared and which aren’t, when money is spent, and whether it’s really making these communities better off in handling a disaster.”

The authors make the following recommendations:

1. The federal government should develop and assess measures of emergency preparedness both at the community-level and across communities in the U.S.

2. Measures developed by the federal government should be used to conduct a nation-wide gap analysis of community preparedness.

3. Alternative ways of distributing funding should be considered to ensure all communities have the ability to build and sustain local coalitions to support sufficient infrastructure.

4. When monies are released for projects, there should be clear metrics of grant effectiveness.

5. There should be better coordination at the federal level, including funding and grant guidance.

6. Local communities should build coalitions or use existing coalitions to build public-private partnerships with local hospitals and other businesses with a stake in preparedness.

7. Communities should be encouraged to engage in ways to finance local preparedness efforts.

“A lot of communities out there have found creative ways to get local businesses to invest in preparedness. The more locals buying into the importance of preparedness, the more resilient a community is,” said Pines, who is also a professor of emergency medicine at GW SMHS and professor of health policy at the GW School of Public Health and Health Services. “How Boston responded and recovered so effectively after the marathon bombings is a great example of a prepared community.”

The study, titled “Value-Based Models for Sustaining Emergency Preparedness Capacity and Capability in the United States,” was published by The Institute of Medicine Preparedness Forum.

Climate change rattles mental health of Inuit in Labrador (CBC)

‘Grief, mourning, anger, frustration’ over environmental changes

CBC News Posted: Jan 10, 2014 5:22 PM ET Last Updated: Jan 10, 2014 5:58 PM ET

This photo supplied by researcher Ashlee Cunsolo Willox shows cabins in Double Mer just outside of Rigolet in Nunatsiavut, Labrador. Climate change has caused ice to break up or not form at all, making it difficult for Inuit populations to access the cabins they use as a base for hunting and trapping.This photo supplied by researcher Ashlee Cunsolo Willox shows cabins in Double Mer just outside of Rigolet in Nunatsiavut, Labrador. Climate change has caused ice to break up or not form at all, making it difficult for Inuit populations to access the cabins they use as a base for hunting and trapping. (Couresty My Word: Storytelling & Digital Media Lab)

Researchers studying the mental health and well-being of Inuit populations in coastal Labrador say rising temperatures are having damaging psychological effects on people in traditional communities.

‘Many people said they also felt very depressed about not being able to get out there on the land’– Ashlee Cunsolo Willox, researcher for Inuit Mental Health Adaptation to Climate Change project

In an interview airing on CBC Radio’s Quirks & Quarks on Saturday, Dr. Ashlee Cunsolo Willox, who has been working in partnership with Inuit communities in Nunatsiavut since 2009, describes intense feelings of isolation among people there following temperature changes that have caused disruptions in how the ice and snow are interacting.

“The North Labrador Coast is one of the fastest-changing and fastest-warming areas anywhere in the world,” she told host Bob McDonald. “In particular, rising temperatures have led to a real decrease in sea ice.”

There were strong emotional reactions to that loss among all 120 people interviewed by researchers behind the community-based Inuit Mental Health Adaptation to Climate Change project.

The feelings included a sense of grief, mourning, anger, frustration, sadness, and many people said they also felt very depressed about not being able to get out there on the land,” Cunsolo Willox said.

Traditional routes no longer safe

Wildlife and vegetation have changed, with caribou and moose moving further north, and traditional berries have been failing to grow when they have in the past.

“In some cases, they’re getting less snow than before, which makes it very difficult to travel inland by Ski-Doo or by dog team,” added Cunsolo Willox, who holds the Canada Research Chair in Determinants of Healthy Communities at Cape Breton University.

She and her colleagues interviewed people in the communities of Nain, Hopedale, Postville, Makkovik and Rigolet, and their work is run in partnership with the Rigolet Inuit Community Government. The majority of those interviewed are Inuit.

“People describe themselves as land people, as people of the snow and the ice, and would say that going out on the land and hunting and trapping and fishing [is] just as much part of their life as breathing,” Cunsolo Willox said.

The full interview will be broadcast on Saturday’s program at noon.

Kids Have Skewed View of Gender Segregation (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — Children believe the world is far more segregated by gender than it actually is, implies a new study led by a Michigan State University scholar.

Jennifer Watling Neal and colleagues examined classroom friendships in five U.S. elementary schools. Their findings, published in the journal Child Development, found boys and girls had no problems being friends together but for some reason had a perception that only boys played with boys and girls played with girls.

“Kids believe gender plays a larger role in friendship that it actually does,” said Neal, assistant professor of psychology.

Children who have more accurate perceptions of the social relationships around them may be better able to avoid conflict and have more positive interactions with their peers, Neal said.

The findings also have implications when the students grow up.

“In adulthood,” Neal said, “we know that people who have accurate perceptions of workplace relationships tend to be perceived as more powerful and have better reputations than their colleagues.”

The study of 426 second- through fourth-graders found gender is still important in the formation of friendships; children were nine times more likely to be friends if they were the same gender.

However, when asked about their friends’ friends, a child was 50 times more likely to believe two classmates were friends when they were the same gender.

“Thus, while gender does matter a great deal in the formation of children’s friendships, children think it is nearly the only relevant factor,” Neal said.

Journal Reference:

  1. Jennifer Watling Neal, Zachary P. Neal, Elise Cappella. I Know Who My Friends Are, but Do You? Predictors of Self-Reported and Peer-Inferred RelationshipsChild Development, 2013; DOI: 10.1111/cdev.12194

Peak Oil Is Dead. Long Live Peak Oil! (The Nation)

The eulogies for peak oil came too soon. 

Michael T. Klare

January 9, 2014

Oil rig

A drilling rig near Kennedy, Texas. (AP Photo/Eric Gay)

Among the big energy stories of 2013, “peak oil”—the once-popular notion that worldwide oil production would soon reach a maximum level and begin an irreversible decline—was thoroughly discredited. The explosive development of shale oil and other unconventional fuels in the United States helped put it in its grave.

As the year went on, the eulogies came in fast and furious. “Today, it is probably safe to say we have slayed ‘peak oil’ once and for all, thanks to the combination of new shale oil and gas production techniques,” declared Rob Wile, an energy and economics reporter for Business Insider. Similar comments from energy experts were commonplace, prompting an R.I.P. headline at Time.com announcing, “Peak Oil is Dead.”

Not so fast, though. The present round of eulogies brings to mind the Mark Twain’s famous line: “The reports of my death have been greatly exaggerated.” Before obits for peak oil theory pile up too high, let’s take a careful look at these assertions. Fortunately, the International Energy Agency (IEA), the Paris-based research arm of the major industrialized powers, recently did just that—and the results were unexpected. While not exactly reinstalling peak oil on its throne, it did make clear that much of the talk of a perpetual gusher of American shale oil is greatly exaggerated. The exploitation of those shale reserves may delay the onset of peak oil for a year or so, the agency’s experts noted, but the long-term picture “has not changed much with the arrival of [shale oil].”

The IEA’s take on this subject is especially noteworthy because its assertion only a year earlier that the US would overtake Saudi Arabia as the world’s number one oil producer sparked the “peak oil is dead” deluge in the first place. Writing in the 2012 edition of its World Energy Outlook, the agency claimed not only that “the United States is projected to become the largest global oil producer” by around 2020, but also that with US shale production and Canadian tar sands coming online, “North America becomes a net oil exporter around 2030.”

That November 2012 report highlighted the use of advanced production technologies—notably horizontal drilling and hydraulic fracturing (“fracking”)—to extract oil and natural gas from once inaccessible rock, especially shale. It also covered the accelerating exploitation of Canada’s bitumen (tar sands or oil sands), another resource previously considered too forbidding to be economical to develop. With the output of these and other “unconventional” fuels set to explode in the years ahead, the report then suggested, the long awaited peak of world oil production could be pushed far into the future.

The release of the 2012 edition of World Energy Outlook triggered a global frenzy of speculative reporting, much of it announcing a new era of American energy abundance. “Saudi America” was the headline over one such hosanna in the Wall Street Journal. Citing the new IEA study, that paper heralded a coming “US energy boom” driven by “technological innovation and risk-taking funded by private capital.” From then on, American energy analysts spoke rapturously of the capabilities of a set of new extractive technologies, especially fracking, to unlock oil and natural gas from hitherto inaccessible shale formations. “This is a real energy revolution,” the Journalcrowed.

But that was then. The most recent edition of World Energy Outlook, published this past November, was a lot more circumspect. Yes, shale oil, tar sands, and other unconventional fuels will add to global supplies in the years ahead, and, yes, technology will help prolong the life of petroleum. Nonetheless, it’s easy to forget that we are also witnessing the wholesale depletion of the world’s existing oil fields and so all these increases in shale output must be balanced against declines in conventional production. Under ideal circumstances—high levels of investment, continuing technological progress, adequate demand and prices—it might be possible to avert an imminent peak in worldwide production, but as the latest IEA report makes clear, there is no guarantee whatsoever that this will occur.

Inching Toward the Peak

Before plunging deeper into the IEA’s assessment, let’s take a quick look at peak oil theory itself.

As developed in the 1950s by petroleum geologist M. King Hubbert, peak oil theory holds that any individual oil field (or oil-producing country) will experience a high rate of production growth during initial development, when drills are first inserted into a oil-bearing reservoir. Later, growth will slow, as the most readily accessible resources have been drained and a greater reliance has to be placed on less productive deposits. At this point—usually when about half the resources in the reservoir (or country) have been extracted—daily output reaches a maximum, or “peak,” level and then begins to subside. Of course, the field or fields will continue to produce even after peaking, but ever more effort and expense will be required to extract what remains. Eventually, the cost of production will exceed the proceeds from sales, and extraction will be terminated.

For Hubbert and his followers, the rise and decline of oil fields is an inevitable consequence of natural forces: oil exists in pressurized underground reservoirs and so will be forced up to the surface when a drill is inserted into the ground. However, once a significant share of the resources in that reservoir has been extracted, the field’s pressure will drop and artificial means—water, gas, or chemical insertion—will be needed to restore pressure and sustain production. Sooner or later, such means become prohibitively expensive.

Peak oil theory also holds that what is true of an individual field or set of fields is true of the world as a whole. Until about 2005, it did indeed appear that the globe was edging ever closer to a peak in daily oil output, as Hubbert’s followers had long predicted. (He died in 1989.) Several recent developments have, however, raised questions about the accuracy of the theory. In particular, major private oil companies have taken to employing advanced technologies to increase the output of the reservoirs under their control, extending the lifetime of existing fields through the use of what’s called “enhanced oil recovery,” or EOR. They’ve also used new methods to exploit fields once considered inaccessible in places like the Arctic and deep oceanic waters, thereby opening up the possibility of a most un-Hubbertian future.

In developing these new technologies, the privately owned “international oil companies” (IOCs) were seeking to overcome their principal handicap: most of the world’s “easy oil”—the stuff Hubbert focused on that comes gushing out of the ground whenever a drill is inserted—has already been consumed or is controlled by state-owned “national oil companies” (NOCs), including Saudi Aramco, the National Iranian Oil Company, and the Kuwait National Petroleum Company, among others. According to the IEA, such state companies control about 80 percent of the world’s known petroleum reserves, leaving relatively little for the IOCs to exploit.

To increase output from the limited reserves still under their control—mostly located in North America, the Arctic, and adjacent waters—the private firms have been working hard to develop techniques to exploit “tough oil.” In this, they have largely succeeded: they are now bringing new petroleum streams into the marketplace and, in doing so, have shaken the foundations of peak oil theory.

Those who say that “peak oil is dead” cite just this combination of factors. By extending the lifetime of existing fields through EOR and adding entire new sources of oil, the global supply can be expanded indefinitely. As a result, they claim, the world possesses a “relatively boundless supply” of oil (and natural gas). This, for instance, was the way Barry Smitherman of the Texas Railroad Commission (which regulates that state’s oil industry) described the global situation at a recent meeting of the Society of Exploration Geophysicists.

Peak Technology

In place of peak oil, then, we have a new theory that as yet has no name but might be called techno-dynamism. There is, this theory holds, no physical limit to the global supply of oil so long as the energy industry is prepared to, and allowed to, apply its technological wizardry to the task of finding and producing more of it. Daniel Yergin, author of the industry classics, The Prize andThe Quest, is a key proponent of this theory. He recently summed up the situation this way: “Advances in technology take resources that were not physically accessible and turn them into recoverable reserves.” As a result, he added, “estimates of the total global stock of oil keep growing.”

From this perspective, the world supply of petroleum is essentially boundless. In addition to “conventional” oil—the sort that comes gushing out of the ground—the IEA identifies six other potential streams of petroleum liquids: natural gas liquids; tar sands and extra-heavy oil; kerogen oil (petroleum solids derived from shale that must be melted to become usable); shale oil; coal-to-liquids (CTL); and gas-to-liquids (GTL). Together, these “unconventional” streams could theoretically add several trillion barrels of potentially recoverable petroleum to the global supply, conceivably extending the Oil Age hundreds of years into the future (and in the process, via climate change, turning the planet into an uninhabitable desert).

But just as peak oil had serious limitations, so, too, does techno-dynamism. At its core is a belief that rising world oil demand will continue to drive the increasingly costly investments in new technologies required to exploit the remaining hard-to-get petroleum resources. As suggested in the 2013 edition of the IEA’s World Energy Outlook, however, this belief should be treated with considerable skepticism.

Among the principal challenges to the theory are these:

1. Increasing Technology Costs: While the costs of developing a resource normally decline over time as industry gains experience with the technologies involved, Hubbert’s law of depletion doesn’t go away. In other words, oil firms invariably develop the easiest “tough oil” resources first, leaving the toughest (and most costly) for later. For example, the exploitation of Canada’s tar sands began with the strip-mining of deposits close to the surface. Because those are becoming exhausted, however, energy firms are now going after deep-underground reserves using far costlier technologies. Likewise, many of the most abundant shale oil deposits in North Dakota have now been depleted, requiring an increasing pace of drilling to maintain production levels. As a result, the IEA reports, the cost of developing new petroleum resources will continually increase: up to $80 per barrel for oil obtained using advanced EOR techniques, $90 per barrel for tar sands and extra-heavy oil, $100 or more for kerogen and Arctic oil, and $110 for CTL and GTL. The market may not, however, be able to sustain levels this high, putting such investments in doubt.

2. Growing Political and Environmental Risk: By definition, tough oil reserves are located in problematic areas. For example, an estimated 13 percent of the world’s undiscovered oil lies in the Arctic, along with 30 percent of its untapped natural gas. The environmental risks associated with their exploitation under the worst of weather conditions imaginable will quickly become more evident—and so, faced with the rising potential for catastrophic spills in a melting Arctic, expect a commensurate increase in political opposition to such drilling. In fact, a recent increase has sparked protests in both Alaska and Russia, including the much-publicized September 2013 attempt by activists from Greenpeace to scale a Russian offshore oil platform—an action that led to their seizure and arrest by Russian commandos. Similarly, expanded fracking operations have provoked a steady increase in anti-fracking activism. In response to such protests and other factors, oil firms are being forced to adopt increasingly stringent environmental protections, pumping up the cost of production further.

3. Climate-Related Demand Reduction: The techno-optimist outlook assumes that oil demand will keep rising, prompting investors to provide the added funds needed to develop the technologies required. However, as the effects of rampant climate change accelerate, more and more polities are likely to try to impose curbs of one sort or another on oil consumption, suppressing demand—and so discouraging investment. This is already happening in the United States, where mandated increases in vehicle fuel-efficiency standards are expected to significantly reduce oil consumption. Future “demand destruction” of this sort is bound to impose a downward pressure on oil prices, diminishing the inclination of investors to finance costly new development projects.

Combine these three factors, and it is possible to conceive of a “technology peak” not unlike the peak in oil output originally envisioned by M. King Hubbert. Such a techno-peak is likely to occur when the “easy” sources of “tough” oil have been depleted, opponents of fracking and other objectionable forms of production have imposed strict (and costly) environmental regulations on drilling operations, and global demand has dropped below a level sufficient to justify investment in costly extractive operations. At that point, global oil production will decline even if supplies are “boundless” and technology is still capable of unlocking more oil every year.

Peak Oil Reconsidered

Peak oil theory, as originally conceived by Hubbert and his followers, was largely governed by natural forces. As we have seen, however, these can be overpowered by the application of increasingly sophisticated technology. Reservoirs of energy once considered inaccessible can be brought into production, and others once deemed exhausted can be returned to production; rather than being finite, the world’s petroleum base now appears virtually inexhaustible.

Does this mean that global oil output will continue rising, year after year, without ever reaching a peak? That appears unlikely. What seems far more probable is that we will see a slow tapering of output over the next decade or two as costs of production rise and climate change—along with opposition to the path chosen by the energy giants—gains momentum. Eventually, the forces tending to reduce supply will overpower those favoring higher output, and a peak in production will indeed result, even if not due to natural forces alone.

Such an outcome is, in fact, envisioned in one of three possible energy scenarios the IEA’s mainstream experts lay out in the latest edition of World Energy Outlook. The first assumes no change in government policies over the next 25 years and sees world oil supply rising from 87 to 110 million barrels per day by 2035; the second assumes some effort to curb carbon emissions and so projects output reaching “only” 101 million barrels per day by the end of the survey period.

It’s the third trajectory, the “450 Scenario,” that should raise eyebrows. It assumes that momentum develops for a global drive to keep greenhouse gas emissions below 450 parts per million—the maximum level at which it might be possible to prevent global average temperatures from rising above two degrees Celsius (and so cause catastrophic climate effects). As a result, it foresees a peak in global oil output occurring around 2020 at about 91 million barrels per day, with a decline to 78 million barrels by 2035.

It would be premature to suggest that the “450 Scenario” will be the immediate roadmap for humanity, since it’s clear enough that, for the moment, we are on a highway to hell that combines the IEA’s first two scenarios. Bear in mind, moreover, that many scientists believe a global temperature increase of even two degrees Celsius would be enough to produce catastrophic climate effects. But as the effects of climate change become more pronounced in our lives, count on one thing: the clamor for government action will grow more intense, and so eventually we’re likely to see some variation of the 450 Scenario take shape. In the process, the world’s demand for oil will be sharply constricted, eliminating the incentive to invest in costly new production schemes.

The bottom line: global peak oil remains in our future, even if not purely for the reasons given by Hubbert and his followers. With the gradual disappearance of “easy” oil, the major private firms are being forced to exploit increasingly tough, hard-to-reach reserves, thereby driving up the cost of production and potentially discouraging new investment at a time when climate change and environmental activism are on the rise.

Peak oil is dead! Long live peak oil!

Exposição relembra shows étnicos com humanos ‘exóticos’ na Europa (BBC)

Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil

Atualizado em  2 de dezembro, 2011 – 09:46 (Brasília) 11:46 GMT

Uma exposição no museu do Quai Branly, em Paris, mostra como seres humanos considerados “exóticos, selvagens ou monstros” foram exibidos durante séculos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente.A exposição Exibições – A Invenção do Selvagem indica, segundo os organizadores, que esses “espetáculos” com índios, africanos e asiáticos, além de pessoas portadoras de deficiência, que tinham o objetivo de entreter os espectadores, influenciaram o desenvolvimento de ideias racistas que perduram até hoje.”A descoberta dos zoológicos humanos me permitiu entender melhor por que certos pensamentos racistas ainda existem na nossa sociedade”, diz o ex-jogador da seleção francesa de futebol Lilian Thuram, um dos curadores da mostra.Thuram, campeão da Copa do Mundo de 1998 pela França, criou uma fundação que luta contra o racismo. Ele narra os textos ouvidos no guia de áudio da exposição.”É difícil acreditar, mas o bisavô de Christian Karembeu (também ex-jogador da seleção francesa) foi exibido em uma jaula como canibal em 1931, em Paris”, diz Thuram.A exposição é fruto das pesquisas realizadas para o livro Zoológicos Humanos, do historiador francês Pascal Blanchard e também curador da mostra.

Medição de crânios

A exposição reúne cerca de 600 obras, entre fotos e filmes de arquivo, além de pôsteres de “espetáculos” e objetos usados por cientistas no século 19, como instrumentos para medir os crânios.Nesse período, se desenvolveram noções sobre a raça e o conceito de hierarquia racial, com teses de que os africanos seriam o elo que faltava entre o macaco e os homens brancos ocidentais, ou o “homem normal”, como consideravam os cientistas.A exposição começa com as primeiras chegadas de povos “exóticos” à Europa, trazidos pelos exploradores, como os índios tupinambá, do Brasil, que desfilaram, em 1550, para o rei Henrique 2º em Rouen, na França.Pessoas com deformações físicas e mentais também serviam de atração para as cortes europeias na época.No início do século 19, a exibição de “selvagens” deixou de ser reservada às elites, com o surgimento de “shows étnicos”, que ganharam força com o desenvolvimento da antropologia e a conquista colonial.Londres, que apresentou uma exposição de índios brasileiros Botocudos em 1817, tornou-se a “capital dos espetáculos étnicos”, seguida pela França, Alemanha e Estados Unidos.A exibição em Londres, em 1810, e em Paris, em 1815, da sul-africana Saartje Baartman, conhecida como “Vênus Hotentote” (nome pelo qual sua tribo era conhecida à época), que tinha nádegas proeminentes, marcou uma reviravolta nesse tipo de apresentação.

Indústria de espetáculos

Esses “shows” se profissionalizaram com interesse cada vez maior do público, tornando-se uma indústria de espetáculos de massa, com turnês internacionais.Em Paris, um “vilarejo” africano foi montado próximo à Torre Eiffel em 1895, com apresentações sensacionalistas de mulheres quase nuas e homens tidos como canibais.”É em um contexto expansionista das grandes potências ocidentais e de pesquisa desenfreada dos cientistas que essas exibições vão ganhar legitimidade necessária para existir”, afirmam os organizadores da mostra.Eles dizem que os espetáculos de “diversão” serviam também como instrumento de propaganda para legitimar a colonização.O apogeu dessas exibições ocorreu entre 1890 e os anos 1930.Depois disso, os “shows étnicos” deixaram de existir por razões diversas: falta de interesse do público, surgimento do cinema e desejo das potências de excluir o “selvagem” da propaganda de colonização.A última apresentação desse tipo foi realizada em Bruxelas, em 1958. O “vilarejo congolês” teve de ser fechado devido às críticas na época.Segundo os organizadores da mostra, mais de 1 bilhão de pessoas assistiram aos espetáculos exóticos realizados entre 1800 e 1958.A exposição fica em cartaz no museu do Quai Branly até 3 de junho de 2012.

Scientists: Americans are becoming weather wimps (AP)

By SETH BORENSTEIN

— Jan. 9, 2014 5:33 PM EST

Deep Freeze Weather Wimps

FILE – In this Sunday, Jan. 5, 2014, file photo, a person struggles to cross a street in blowing and falling snow as the Gateway Arch appears in the distance, in St. Louis. The deep freeze that gripped much of the nation this week wasn’t unprecedented, but with global warming we’re getting far fewer bitter cold spells, and many of us have forgotten how frigid winter used to be. (AP Photo/Jeff Roberson, File)

WASHINGTON (AP) — We’ve become weather wimps.

As the world warms, the United States is getting fewer bitter cold spells like the one that gripped much of the nation this week. So when a deep freeze strikes, scientists say, it seems more unprecedented than it really is. An Associated Press analysis of the daily national winter temperature shows that cold extremes have happened about once every four years since 1900.

Until recently.

When computer models estimated that the national average daily temperature for the Lower 48 states dropped to 17.9 degrees on Monday, it was the first deep freeze of that magnitude in 17 years, according to Greg Carbin, warning meteorologist for the National Oceanic and Atmospheric Administration.

That stretch — from Jan. 13, 1997 to Monday — is by far the longest the U.S. has gone without the national average plunging below 18 degrees, according to a database of daytime winter temperatures starting in January 1900.

In the past 115 years, there have been 58 days when the national average temperature dropped below 18. Carbin said those occurrences often happen in periods that last several days so it makes more sense to talk about cold outbreaks instead of cold days. There have been 27 distinct cold snaps.

Between 1970 and 1989, a dozen such events occurred, but there were only two in the 1990s and then none until Monday.

“These types of events have actually become more infrequent than they were in the past,” said Carbin, who works at the Storm Prediction Center in Norman, Okla. “This is why there was such a big buzz because people have such short memories.”

Said Jeff Masters, meteorology director of the private firm Weather Underground: “It’s become a lot harder to get these extreme (cold) outbreaks in a planet that’s warming.”

And Monday’s breathtaking chill? It was merely the 55th coldest day — averaged for the continental United States — since 1900.

The coldest day for the Lower 48 since 1900 — as calculated by the computer models — was 12 degrees on Christmas Eve 1983, nearly 6 degrees chillier than Monday.

The average daytime winter temperature is about 33 degrees, according to Carbin’s database.

There have been far more unusually warm winter days in the U.S. than unusually cold ones.

Since Jan. 1, 2000, only two days have ranked in the top 100 coldest: Monday and Tuesday. But there have been 13 in the top 100 warmest winter days, including the warmest since 1900: Dec. 3, 2012. And that pattern is exactly what climate scientists have been saying for years, that the world will get more warm extremes and fewer cold extremes.

Nine of 11 outside climate scientists and meteorologists who reviewed the data for the AP said it showed that as the world warms from heat-trapping gas spewed by the burning of fossil fuels, winters are becoming milder. The world is getting more warm extremes and fewer cold extremes, they said.

“We expect to see a lengthening of time between cold air outbreaks due to a warming climate, but 17 years between outbreaks is probably partially due to an unusual amount of natural variability,” or luck, Masters said in an email. “I expect we’ll go far fewer than 17 years before seeing the next cold air outbreak of this intensity.

And the scientists dismiss global warming skeptics who claim one or two cold days somehow disproves climate change.

“When your hands are freezing off trying to scrape the ice off your car, it can be all too tempting to say, ‘Where’s global warming now? I could use a little of that!’ But you know what? It’s not as cold as it used to be anymore,” Texas Tech University climate scientist Katharine Hayhoe said in an email.

The recent cold spell, which was triggered by a frigid air mass known as the polar vortex that wandered way south of normal, could also be related to a relatively new theory that may prove a weather wild card, said Rutgers University climate scientist Jennifer Francis. Her theory, which has divided mainstream climate scientists, says that melting Arctic sea ice is changing polar weather, moving the jet stream and causing “more weirdness.”

Ryan Maue, a meteorologist with the private firm Weather Bell Analytics who is skeptical about blaming global warming for weather extremes, dismisses Francis’ theory and said he has concerns about the accuracy of Carbin’s database. Maue has his own daily U.S. average temperature showing that Monday was colder than Carbin’s calculations.

Still, he acknowledged that cold nationwide temperatures “occurred with more regularity in the past.”

Many climate scientists say Americans are weather weenies who forgot what a truly cold winter is like.

“I think that people’s memory about climate is really terrible,” Texas A&M University climate scientist Andrew Dessler wrote in an email. “So I think this cold event feels more extreme than it actually is because we’re just not used to really cold winters anymore.”

Antarctic Emperor Penguins May Be Adapting to Warmer Temperatures (Science Daily)

Jan. 9, 2014 — A new study of four Antarctic emperor penguin colonies suggest that unexpected breeding behaviour may be a sign that the birds are adapting to environmental change.

Emperor penguin colony viewed from the air. (Credit: Ian Potten)

Analysis of satellite observations reveals that penguin colonies moved from their traditional breeding grounds during years when the thin layer of ice (sea ice) formed later than usual to the much thicker floating ice shelves that surround the continent.

Reporting this week in the online journal,PLOS ONE, a team of scientists from British Antarctic Survey (BAS), the Australian Antarctic Division and the Scripps Institution of Oceanography at UC San Diego in California, describe this extraordinary change in behaviour.

Lead author, Peter Fretwell of BAS said, “These charismatic birds tend to breed on the sea ice because it gives them relatively easy access to waters where they hunt for food. Satellite observations captured of one colony in 2008, 2009 and 2010 show that the concentration of annual sea ice was dense enough to sustain a colony. But this was not the case in 2011 and 2012 when the sea ice did not form until a month after the breeding season began. During those years the birds moved up onto the neighbouring floating ice shelf to raise their young.

“What’s particularly surprising is that climbing up the sides of a floating ice shelf — which at this site can be up to 30 metres high — is a very difficult manoeuvre for emperor penguins. Whilst they are very agile swimmers they have often been thought of as clumsy out of the water.”

The emperor penguins’ reliance on sea ice as a breeding platform coupled with recent concern about changing patterns of sea ice has led to the species being designated as ‘near threatened’ by the IUCN red list. The discovery suggests the species may be capable of adapting their behaviour.

In recent years satellite technology has significantly enhanced the scientists’ ability to locate and monitor emperor penguin populations.

Barbara Wienecke of the Australian Antarctic Division said, “These new findings are an important step forward in helping us understand what the future may hold for these animals, however, we cannot assume that this behaviour is widespread in other penguin populations. The ability of these four colonies to relocate to a different environment — from sea ice to ice shelf — in order to cope with local circumstances, was totally unexpected. We have yet to discover whether or not other species may also be adapting to changing environmental conditions.”

Gerald Kooyman, of the Scripps Institution added: “Without satellite imagery these moves onto shelf ice would not have been detected. It is likely that there are other nuances of the emperor penguin environment that will be detected sooner through their behaviour than by more conventional means of measuring environmental changes.”

Whereas sea-ice is frozen salt water, ice shelves are made up of glacial ice that has flowed from the land onto the sea. At the outer edge of an ice shelf ice cliffs can form and these can be anything up to 60 metres high.

Journal Reference:

  1. Peter T. Fretwell, Phil N. Trathan, Barbara Wienecke, Gerald L. Kooyman. Emperor Penguins Breeding on Iceshelves.PLoS ONE, 2014; 9 (1): e85285 DOI:10.1371/journal.pone.0085285

Bíblia do jornalismo dos EUA vê Itaquerão como ‘monumento à gentrificação’ (UOL)

Do UOL, em São Paulo06/01/201418h52

Itaquerão – dezembro. Governo federal divulgou imagens da obra do Itaquerão, estádio de São Paulo para a Copa Divulgação/Portal da Copa/Ministério do Esporte

A nova edição da revista New Yorker, considerada a Bíblia do jornalismo norte-americano, apresenta um texto de 14 páginas sobre o futebol brasileiro, a preparação do país para a Copa do Mundo e o Corinthians.

Escrita para o público dos Estados Unidos, a reportagem cita o Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo, em São Paulo, como um “monumento à gentrificação”, compara Andrés Sanchez ao magnata Donald Trump, Ronaldo a um astro do beisebol, Romário ao boxeador Muhammad Ali e define a CBF como uma entidade “desonrosa”.

Gentrificação é o nome que se dá ao fenômeno social que afeta a população de baixa renda de determinado lugar por meio da valorização imobiliária provocada por um novo empreendimento, como um shopping center ou um estádio de futebol, por exemplo.

Após a construção desse novo equipamento, o preço dos imóveis da vizinhança aumenta, obrigando a população pobre a se mudar – em geral para um bairro mais distante. Os serviços, por consequência, também ficam mais caros, excluindo também pequenos comerciantes.

“O estádio, um monumento à gentrificação, terá o maior telão digital da Terra e uma iluminação duas vezes mais forte do que a utilizada na Allianz Arena, em Munique. Segundo dizem, será visível, em uma noite clara, a 80 km de distância”, diz o texto.

O jornalista Ben McGrath, autor da matéria, compara o luxo do estádio com o que viu em sua visita à Itaquera escrevendo que “o caminho deixou arranha-céus para trás e nos levou direto para a arruinada zona leste, onde grafites e lixo predominam.” Em volta do estádio, “homens trabalhavam para transformar encostas barrentas de uma colina em um cinturão verde”.

O texto, então, faz uma crítica aos estádios construídos para o mundial. McGrath afirma que o Itaquerão, pelo menos, receberá jogos de um grande time quando a Copa do Mundo acabar. “Mas o que será do recentemente reformado Estádio Nacional, com 70 mil lugares, de Brasília, uma cidade cujos maiores times jogam em divisões menores, para plateias que geralmente não passam de algumas centenas?”

A Arena da Amazônia, segundo sugere o autor, também poderá se transformar num elefante branco para Manaus, “uma cidade cercada por 8 mil km² de floresta amazônica”. “Nenhum time do Amazonas competiu em alto nível nos últimos 30 anos”, diz.

REVISTA FALA DE FUTEBOL, CORINTHIANS E COPA DO MUNDO

Comparações com TV e beisebol

Talvez para situar seu público, McGrath opta para comparar figuras do futebol brasileiro com possíveis similares norte-americanos. Para ele, o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, que atualmente é responsável por supervisionar a construção da nova arena corintiana, soa como o empresário Donald Trump, dono de uma vasta rede de hotéis e cassinos e criador do reality show “O Aprendiz”.

“Cada metro quadrado foi projetado [do estádio] em um esquema para dar dinheiro”, escreve McGrath. A impressão do autor foi corroborada pelo próprio Andrés, que disse que declarou a ele que “a ideia era fazer o melhor e maior shopping center do mundo com um campo de futebol no meio.”

Ainda no campo das comparações, a reportagem diz que o ex-jogador Romário é hoje uma das maiores vozes da oposição à Copa do Mundo. “Antes conhecido como um playboy, ele é agora um congressista socialista – um Derek Jeter que se remodelou como Muhammad Ali para aproveitar o momento político”.

Jogador de beisebol, Jeter é o capitão do New York Yankees e já participou 13 vezes do Jogo das Estrelas. O atleta é famoso por seus relacionamentos amorosos com atrizes e modelos. Ronaldo também foi comparado a um jogador de beisebol: David Ortiz, o Big Papi. Com 104 quilos, o rebatedor é ídolo em Boston por suas atuações em momentos decisivos.

Corrupção, violência e Bom Senso

A CBF foi citada como desonrosa e caça-níquel por McGrath. “O problema não é só que poucos atletas da Seleção jogam no Brasil, mas o time nacional fica anos sem jogar em solo brasileiro. Em vez disso, faz turnês pelo mundo, como os Harlem Globetrotters, para levantar dinheiro para a desonrosa CBF.”

A entidade, ainda segundo o autor, serve como um vilão muito conveniente para os jovens que estão protestando contra a corrupção. McGrath lembra, então, que Ricardo Teixeira se envolveu em escândalos de corrupção e José Maria Marín foi flagrado pegando uma medalha na premiação da Copa São Paulo em 2012.

Ao longo da matéria, o autor cita casos recentes de violências nos estádios provocados por torcidas organizadas e aponta que muitas delas recebem dinheiro dos clubes para ir aos jogos.

Boa parte do texto é dedicada à história do Corinthians e à sua principal torcida, a Gaviões da Fiel. O jornalista fala sobre o jejum de 23 anos, a democracia corintiana e entrevista o capitão Paulo André, aproveitando para citar a criação do movimento para pedir mudanças no calendário do futebol Bom Senso F.C. O nome do grupo, segundo McGrath, foi uma criação do publicitário Washington Olivetto.

Uma outra leitura do não vai ter Copa e a disputa histórica das Jornadas de Junho (Fórum)

08/01/2014 | Publicado por Renato Rovai em Política 

As Jornadas de Junho ainda têm sido tratadas de forma maniqueísta por muitos dos que tentam interpretá-la e disputar seu legado. De um lado, há os que buscam transformá-la num movimento de coxinhas e fascistas. Do outro, gente que sonha com novos levantes de rebeldia que sejam controláveis e possam levar o governo federal a ter prejuízos eleitorais. E há ainda um terceiro grupo que quer oportunizar uma ação que é horizontal a partir de um discurso dirigente com contornos de esquerda.

Os primeiros, erram no fundamental. As milhões de pessoas que foram as ruas em centenas de cidades do país querem, na essência, um Brasil melhor. E deixaram claro que cansaram da política de gabinete baseada no toma lá da cá de uma governabilidade que precisa de um novo arranjo. Ao mesmo tempo exigem um serviço público melhor do que o atual e querem um Estado forte.

Essas demandas nunca foram fascistas e sempre foram de esquerda. E não podem deixar de ser apenas porque hoje quem está no governo é um partido mais identificado com bandeiras populares.

Transformar todos aqueles que defendem essas teses em coxinhas e fascistas e exigir adesão total a um governo que muitas vezes fala grosso com o movimento social e fino com o capital, não é exatamente um postura progressista. Ao contrário, é algo que se aproxima muito da prática fascista que esses setores criticam. O fascismo, entre outras coisas, oprime o contraditório porque sabe que ele é parte fundamental do processo democrático.

Já quando os colunistas da direita desejam como presente de ano novo mais gente na rua para mudar o Brasil, o que de fato querem é o povo tomando o Planalto Central, mas não para que esse mesmo povo assuma as rédeas do país.

Querem que esse povo patrocine o caos para que a solução seja um novo governo forte. Ou seja, pretendem um golpe civil por saberem que quarteladas caíram em desuso e tem alto custo do ponto de vista político internacional.

Já certos setores que se consideram de esquerda radical sonham com o que sempre sonharam. Acham que a correlação de forças pode se alterar como num passe de mágica num levante popular. E que o povo pode assumir o poder e tudo virar lindo e maravilhoso da noite para o dia.

As Jornadas de Junho, porém, não tem nada a ver com o desejo de uns e a análise de outros. Foram um momento muito mais impactante na vida nacional. Um grito democrático com diferentes táticas e estratégias de luta. Um grito de um país que provou ter uma democracia mais madura. Que suporta milhões nas ruas e em movimento. Mas que não aceita colocar todas as suas conquistas em risco para produzir qualquer resultado.

Havia muito mais responsabilidade nas ruas do que nas análise de gabinete. E por isso o movimento produziu tantos resultados e obteve vitórias.

Além da diminuição objetiva no preço das passagens de ônibus e metro, entre as suas inúmeras conquistas de junho, por exemplo, pode-se destacar a virada na agenda do transporte público nas grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, o prefeito Haddad disse em entrevista recente que fez em um ano o que pretendia fazer em quatro no setor.

O Mais Médicos também foi antecipado naquele contexto. Era um programa que vinha sendo maturado, mas que poderia ter sido realizado com muito menos força e mais pra frente.

As Jornadas de Junho também trouxeram para o debate político uma geração inteira. Gente que estava vendo a banda passar e que agora quer tomar o Brasil nas mãos. Uma garotada que está fazendo rap, participando de coletivos de cultura, que trabalha em co-workings, que toca projetos sociais ou que labuta de sol a sol e estuda à noite sonhando com uma vida melhor.

Esse jovem não é fascista, não é coxinha e também não é babaca.

Ele não é marionete da Globo e não está disposto a ser papagaio de tucano. E quer fazer valer uma nova agenda. Onde o meio ambiente seja mais respeitado, onde os indígenas sejam protegidos dos grileiros, onde haja mais recursos para moradia, saúde e educação.

Querem também menos corrupção e mais transparência no uso dos recursos públicos. Querem direitos humanos para os pobres, principalmente jovens e negros. E uma polícia que não seja um instrumento de tortura dos setores populares na mão do Estado.

Essa agenda pode levar muitos deles a participarem de um movimento como o “Não vai ter Copa”. Até porque até o momento a Copa que está sendo vendida é a dos outros. Da elite daqui e dos ricos de fora. Não é um Copa produzida para ser a afirmação de um povo e de uma história de lutas de um país que tem oferecido ao mundo avanços democráticos e projetos como o Bolsa Família.

É uma Copa da Fifa. E da exclusão.

Por isso, cabe perguntar: quem está errado, os jovens que entendem que esse pode ser um momento de afirmação de suas ideias ou quem não está disposto a conversar com eles? Quem está errado, os oportunistas que querem aproveitar essa energia para desgastar o governo ou certos governistas que estão achincalhando esse povo que quer discutir seu país?

É preciso ir além desse maniqueísmo de lado bom e lado ruim. A Copa pode ser um excelente momento para discutir o Brasil e ao mesmo tempo assistir futebol e se congregar com as milhares de pessoas de todas as partes do mundo que aqui estarão.

A Copa pode ser um tempo de uma nova agenda na democracia brasileira. Uma Copa com povo e política. Com manifestações de rua fortalecendo as lutas populares e comemorações de rua de torcidas de cada uma das seleções.

Poucos países do mundo podem oferecer um espetáculo desses. E o Brasil é um deles.

Um país multicultural onde há grande respeito à multiplicidade. Um país que deu um enorme salto social nos últimos anos, incluindo milhões de pessoas. Um país que tem desafios imensos ainda pela frente, mas que, a despeito das disputas políticas, tem uma institucionalidade forte. Um país com um movimento social que tem atores coletivos respeitados em todo o planeta, como, por exemplo, o MST e as organizações sindicais.

Poucas nações podem fazer de fato uma Copa das Copas, onde os projetos do outro mundo possível estejam presentes na agenda de um torneio de seleções.

A sociedade civil brasileira tem o dever de assumir esse processo como seu. O slogan “não vai ter Copa” é muito bom e forte para ter apenas uma leitura. E uma das leituras possíveis é que a Copa não vai ser mais a mesma depois de sua passagem pelo Brasil.

De agora em diante, onde a Copa for, o movimento social irá. E colocará suas demandas, fazendo seus fóruns ao lado do evento. E internacionalizando causas de todo o povo do país sede e de outras partes do mundo.

Se isso vier a acontecer o jogo será apenas um detalhe desse imenso espetáculo. E as nossas causas disputarão espaço entre os resultados das partidas. Que ao final terão apenas um campeão. Diferentemente da Copa das Copas, que é a de todos que lutam por um mundo melhor. E onde muitos podem ganhar juntos.

Quem tem que ter medo das ruas é a elite. E não os que se dizem de esquerda. Ou algo está muito, mas muito errado.

Ecossistemas costeiros ganham destaque na mitigação climática (CarbonoBrasil)

07/1/2014 – 11h55

por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil

manguezal1 300x196 Ecossistemas costeiros ganham destaque na mitigação climática

Pesquisador ressalta que acessar o potencial de absorção do carbono por manguezais e outros habitats marinho-costeiros poderia ajudar o Brasil conservar e gerir estes ambientes.

A cada ano que passa, a ciência traz novos dados indicando que os ecossistemas marinhos são elementares na captura e armazenamento do dióxido de carbono (CO2) atmosférico – tendo absorvido até um terço dessas emissões provenientes das atividades humanas.

O chamado ‘carbono azul’ é estocado em ambientes tão diversos como manguezais, marismas, gramas marinhas, recifes de coral e outros ecossistemas, intensamente pressionados pelas atividades antrópicas.

Além disso, esses ambientes costeiros são alguns dos mais produtivos no planeta, e fornecem serviços ecossistêmicos essenciais, como proteção costeira contra tempestades e refúgio para o nascimento de grande parte da vida marinha.

Segundo dados da Iniciativa para o Carbono Azul, 83% do ciclo do carbono global passa pelo oceano, e, mesmo com os habitats costeiros cobrindo menos de 2% da sua área, eles equivalem a cerca da metade do carbono sequestrado no oceano.

Entretanto, todo esse potencial está sendo perdido a taxas alarmantes. Um estudo publicado em 2012 no periódico PLOS One alerta que a contínua destruição desses ambientes é responsável pela liberação anual de quase um bilhão de toneladas de dióxido de carbono.

“A perturbação do carbono estocado na biomassa e no metro superior do sedimento em um hectare de manguezal típico pode contribuir com tantas emissões quanto três a cinco hectares de florestas tropicais. Mesmo um hectare de grama marinha, com a sua pequena biomassa viva, pode conter tanto carbono próximo à superfície quanto um hectare de floresta tropical”, ressaltou o estudo.

O potencial de mitigação das mudanças climáticas do ‘carbono azul’ está chamando a atenção de várias instituições internacionais, que, interessadas na preservação dos ecossistemas marinhos, vêm estudando as oportunidades que o cenário internacional de desenvolvimento de baixo carbono pode apresentar.

“Esta conexão com as mudanças climáticas despertou o interesse da comunidade conservacionista, curiosa sobre se atividades de mitigação e financiamento poderiam avançar práticas de manejo sustentável e adaptação nas zonas costeiras”, comentou Stephen Crooks, pesquisador da Universidade East Anglia, que teve seu trabalho com ‘carbono azul’ utilizado durante painéis da Conferência das Partes nº 16 da UNFCCC.

Para trazer informações sobre o assunto, o Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (PNUMA) lançou recentemente uma página na internet chamada “The Blue Carbon Portal”, com um fórum de discussões e uma plataforma para networking, além de mostrar iniciativas, notícias e eventos. O portal oferece um mapa com as iniciativas que estão sendo conduzidas em nível nacional, como na Costa Rica, Austrália, Indonésia, entre outros.

Em uma frente mais propositiva, a Conservação Internacional, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Comissão Intergovernamental Oceanográfica da UNESCO lançaram a Iniciativa para o Carbono Azul (Blue Carbon Initiative), um programa global para mitigação das mudanças climáticas através da restauração e do uso sustentável dos ecossistemas marinhos costeiros.

Crooks, que faz parte da Iniciativa para o Carbono Azul, relata que as atividades em torno do reconhecimento do ‘carbono azul’ evoluíram muito nos últimos meses.

No mercado voluntário de carbono, o renomado Verified Carbon Standard (VCS) reconheceu a ‘Restauração e Conservação de Áreas Úmidas’ como uma atividade elegível para criação de créditos de carbono. Ou seja, projetos voltados para a redução das emissões por desmatamento e degradação (REDD) já podem ser desenvolvidos nestas áreas.

Além disso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) recentemente adotou diretrizes para a contabilização das emissões e remoções de gases do efeito estufa (GEEs) associadas ao manejo de áreas úmidas (manguezais, marismas, gramas marinhas).

Porém, os países ainda não são obrigados a calcular suas emissões de áreas úmidas, estando convidados pelo IPCC a testarem a metodologia até 2017.

O documento inclui diretrizes para a contabilização de emissões associadas à drenagem ou reposição de água em áreas úmidas e também para o desmatamento, extração de solo, aquicultura, drenagem e restauração de manguezais.

“A coordenação científica no Brasil poderia apoiar enormemente o desenvolvimento de políticas para o manejo das reservas costeiras de carbono e ajudaria na aplicação da contabilização nacional das emissões e remoções de GEEs de atividades humanas em áreas úmidas”, comentou Crooks.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

Noam Chomsky: What Is the Common Good? (Truthout)

Tuesday, 07 January 2014 10:41

By Noam ChomskyTruthout | Op-Ed

 (Image: <a href="http://www.flickr.com/photos/truthout/4521676743/in/set-72157628843920995" target="_blank"> Jared Rodriguez / t r u t h o u t; Adapted: Brian Hillegas, Reigh LeBlanc, abrinsky</a>)(Image: Jared Rodriguez / t r u t h o u t; Adapted: Brian Hillegas, Reigh LeBlanc, abrinsky)

This article is adapted from a Dewey Lecture by Noam Chomsky at Columbia University in New York on Dec. 6, 2013.

Humans are social beings, and the kind of creature that a person becomes depends crucially on the social, cultural and institutional circumstances of his life.

We are therefore led to inquire into the social arrangements that are conducive to people’s rights and welfare, and to fulfilling their just aspirations – in brief, the common good.

For perspective I’d like to invoke what seem to me virtual truisms. They relate to an interesting category of ethical principles: those that are not only universal, in that they are virtually always professed, but also doubly universal, in that at the same time they are almost universally rejected in practice.

These range from very general principles, such as the truism that we should apply to ourselves the same standards we do to others (if not harsher ones), to more specific doctrines, such as a dedication to promoting democracy and human rights, which is proclaimed almost universally, even by the worst monsters – though the actual record is grim, across the spectrum.

A good place to start is with John Stuart Mill’s classic “On Liberty.” Its epigraph formulates “The grand, leading principle, towards which every argument unfolded in these pages directly converges: the absolute and essential importance of human development in its richest diversity.”

The words are quoted from Wilhelm von Humboldt, a founder of classical liberalism. It follows that institutions that constrain such development are illegitimate, unless they can somehow justify themselves.

Concern for the common good should impel us to find ways to cultivate human development in its richest diversity.

Adam Smith, another Enlightenment thinker with similar views, felt that it shouldn’t be too difficult to institute humane policies. In his “Theory of Moral Sentiments” he observed that “How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his nature, which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary to him, though he derives nothing from it except the pleasure of seeing it.”

Smith acknowledges the power of what he calls the “vile maxim of the masters of mankind”: “All for ourselves, and nothing for other people.” But the more benign “original passions of human nature” might compensate for that pathology.

Classical liberalism shipwrecked on the shoals of capitalism, but its humanistic commitments and aspirations didn’t die. Rudolf Rocker, a 20th-century anarchist thinker and activist, reiterated similar ideas.

Rocker described what he calls “a definite trend in the historic development of mankind” that strives for “the free unhindered unfolding of all the individual and social forces in life.”

Rocker was outlining an anarchist tradition culminating in anarcho-syndicalism – in European terms, a variety of “libertarian socialism.”

This brand of socialism, he held, doesn’t depict “a fixed, self-enclosed social system” with a definite answer to all the multifarious questions and problems of human life, but rather a trend in human development that strives to attain Enlightenment ideals.

So understood, anarchism is part of a broader range of libertarian socialist thought and action that includes the practical achievements of revolutionary Spain in 1936; reaches further to worker-owned enterprises spreading today in the American rust belt, in northern Mexico, in Egypt, and many other countries, most extensively in the Basque country in Spain; and encompasses the many cooperative movements around the world and a good part of feminist and civil and human rights initiatives.

This broad tendency in human development seeks to identify structures of hierarchy, authority and domination that constrain human development, and then subject them to a very reasonable challenge: Justify yourself.

If these structures can’t meet that challenge, they should be dismantled – and, anarchists believe, “refashioned from below,” as commentator Nathan Schneider observes.

In part this sounds like truism: Why should anyone defend illegitimate structures and institutions? But truisms at least have the merit of being true, which distinguishes them from a good deal of political discourse. And I think they provide useful stepping stones to finding the common good.

For Rocker, “the problem that is set for our time is that of freeing man from the curse of economic exploitation and political and social enslavement.”

It should be noted that the American brand of libertarianism differs sharply from the libertarian tradition, accepting and indeed advocating the subordination of working people to the masters of the economy, and the subjection of everyone to the restrictive discipline and destructive features of markets.

Anarchism is, famously, opposed to the state, while advocating “planned administration of things in the interest of the community,” in Rocker’s words; and beyond that, wide-ranging federations of self-governing communities and workplaces.

Today, anarchists dedicated to these goals often support state power to protect people, society and the earth itself from the ravages of concentrated private capital. That’s no contradiction. People live and suffer and endure in the existing society. Available means should be used to safeguard and benefit them, even if a long-term goal is to construct preferable alternatives.

In the Brazilian rural workers movement, they speak of “widening the floors of the cage” – the cage of existing coercive institutions that can be widened by popular struggle – as has happened effectively over many years.

We can extend the image to think of the cage of state institutions as a protection from the savage beasts roaming outside: the predatory, state-supported capitalist institutions dedicated in principle to private gain, power and domination, with community and people’s interest at most a footnote, revered in rhetoric but dismissed in practice as a matter of principle and even law.

Much of the most respected work in academic political science compares public attitudes and government policy. In “Affluence and Influence: Economic Inequality and Political Power in America,” the Princeton scholar Martin Gilens reveals that the majority of the U.S. population is effectively disenfranchised.

About 70 percent of the population, at the lower end of the wealth/income scale, has no influence on policy, Gilens concludes. Moving up the scale, influence slowly increases. At the very top are those who pretty much determine policy, by means that aren’t obscure. The resulting system is not democracy but plutocracy.

Or perhaps, a little more kindly, it’s what legal scholar Conor Gearty calls “neo-democracy,” a partner to neoliberalism – a system in which liberty is enjoyed by the few, and security in its fullest sense is available only to the elite, but within a system of more general formal rights.

In contrast, as Rocker writes, a truly democratic system would achieve the character of “an alliance of free groups of men and women based on cooperative labor and a planned administration of things in the interest of the community.”

No one took the American philosopher John Dewey to be an anarchist. But consider his ideas. He recognized that “Power today resides in control of the means of production, exchange, publicity, transportation and communication. Whoever owns them rules the life of the country,” even if democratic forms remain. Until those institutions are in the hands of the public, politics will remain “the shadow cast on society by big business,” much as is seen today.

These ideas lead very naturally to a vision of society based on workers’ control of productive institutions, as envisioned by 19th century thinkers, notably Karl Marx but also – less familiar – John Stuart Mill.

Mill wrote, “The form of association, however, which if mankind continue to improve, must be expected to predominate, is . the association of the labourers themselves on terms of equality, collectively owning the capital with which they carry on their operations, and working under managers electable and removable by themselves.”

The Founding Fathers of the United States were well aware of the hazards of democracy. In the Constitutional Convention debates, the main framer, James Madison, warned of these hazards.

Naturally taking England as his model, Madison observed that “In England, at this day, if elections were open to all classes of people, the property of landed proprietors would be insecure. An agrarian law would soon take place,” undermining the right to property.

The basic problem that Madison foresaw in “framing a system which we wish to last for ages” was to ensure that the actual rulers will be the wealthy minority so as “to secure the rights of property agst. the danger from an equality & universality of suffrage, vesting compleat power over property in hands without a share in it.”

Scholarship generally agrees with the Brown University scholar Gordon S. Wood’s assessment that “The Constitution was intrinsically an aristocratic document designed to check the democratic tendencies of the period.”

Long before Madison, Artistotle, in his “Politics,” recognized the same problem with democracy.

Reviewing a variety of political systems, Aristotle concluded that this system was the best – or perhaps the least bad – form of government. But he recognized a flaw: The great mass of the poor could use their voting power to take the property of the rich, which would be unfair.

Madison and Aristotle arrived at opposite solutions: Aristotle advised reducing inequality, by what we would regard as welfare state measures. Madison felt that the answer was to reduce democracy.

In his last years, Thomas Jefferson, the man who drafted the United States’ Declaration of Independence, captured the essential nature of the conflict, which has far from ended. Jefferson had serious concerns about the quality and fate of the democratic experiment. He distinguished between “aristocrats and democrats.”

The aristocrats are “those who fear and distrust the people, and wish to draw all powers from them into the hands of the higher classes.”

The democrats, in contrast, “identify with the people, have confidence in them, cherish and consider them as the most honest and safe, although not the most wise depository of the public interest.”

Today the successors to Jefferson’s “aristocrats” might argue about who should play the guiding role: technocratic and policy-oriented intellectuals, or bankers and corporate executives.

It is this political guardianship that the genuine libertarian tradition seeks to dismantle and reconstruct from below, while also changing industry, as Dewey put it, “from a feudalistic to a democratic social order” based on workers’ control, respecting the dignity of the producer as a genuine person, not a tool in the hands of others.

Like Karl Marx’s Old Mole – “our old friend, our old mole, who knows so well how to work underground, then suddenly to emerge” – the libertarian tradition is always burrowing close to the surface, always ready to peek through, sometimes in surprising and unexpected ways, seeking to bring about what seems to me to be a reasonable approximation to the common good.

© 2014 Noam Chomsky
Distributed by The New York Times Syndicate

Eduardo Viveiros de Castro: ‘O capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos’ (IHU On-Line/Envolverde)

07/1/2014 – 12h23

por Julia Magalhães*

Crítico feroz do neoliberalismo, de seus ícones e verdades, de suas políticas de “crescimento” que destroem a natureza, do consumo que empobrece as vidas, do Estado que as administra (não sem constrangimentos) e da esquerda (conservadora e antropocêntrica). “A felicidade, diz, tem muitos outros caminhos”.

Enquanto esperamos que a Tinta Limón Ediciones termine a edição (mais ou menos alterada) do livro de entrevistas com Eduardo Viveiros de Castro, o sítio Lobo Suelto! convida à leitura da última – muito transcendental – conversa com o antropólogo brasileiro.

Confira a entrevista:

viveiros2 300x186 ‘O capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos’

Eduardo Viveiros de Castro

Qual é a sua percepção acerca da participação política da sociedade brasileira?

Prefiro começar com uma “des-generalização”: vejo a sociedade brasileira profundamente dividida em relação à visão sobre o país e seu futuro. A ideia de que existe “um” Brasil – no sentido de que as ideias de “unidade” e “brasilidade” não são triviais – parece uma ilusão politicamente conveniente (para os setores dominantes), mas antropologicamente equivocada. Há, pelo menos, dois ou muito mais “Brasis”.

O conceito geopolítico de Estado-Nação unificado não é descritivo, mas normativo. Há rachaduras profundas na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora enorme, que não necessariamente compreendem uma classe específica, apesar de que as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estão bem representadas aqui. Grande parte da chamada “sociedade brasileira” – temo que seja a maioria – se sentiria muito satisfeita com um regime autoritário, especialmente se conduzido midiaticamente por uma autoridade paternal de personalidade forte. Mas, esta é uma das coisas que a minoria liberal que existe no país – e, inclusive, é uma certa minoria “progressista” – prefere manter-se envolta em um silêncio constrangedor. Repete-se o tempo todo, e para qualquer propósito, que o povo brasileiro é democrático, “cordial” e amante da liberdade e da fraternidade, o que é uma ilusão muito perigosa.

É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: como a de um povo fragmentado, dividido, polarizado. Uma polarização que não necessariamente condiz com as divisões políticas (partidos oficiais etc.). O Brasil segue como uma sociedade visceralmente escravocrata, obstinadamente racista e moralmente covarde. Enquanto não nos darmos conta deste inconsciente, não iremos “em frente”.

Em outras ocasiões, fui claro: insurreições esporádicas e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos é o que se evidencia entre os mais pobres – ou os mais alheios ao drama montado pelos setores de cima, na escala social – que inspiram modestas utopias e moderado otimismo por parte daqueles que a história situou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é necessário para mudar isto?

Falar, resistir, insistir, olhar além do imediato. E, obviamente, educar. Mas, não “educar o povo” (como se a elite fosse muito educada e devesse – ou pudesse – conduzir o povo até um nível intelectual superior), mas criar as condições para que as pessoas se eduquem e acabem educando a elite – e, quem sabe, inclusive, se livrem dela.

O panorama da educação do Brasil é, hoje, o de um deserto. Um deserto! E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar neste deserto. Pelo contrário, tenho pesadelos de conspirações, em que sonho que os projetos de poder não se interessam realmente em modificar o panorama da educação do Brasil; domesticar a força de trabalho – se é isto que está se tentando (ou planejando) – não é, de nenhuma maneira, o mesmo que educar.

Isto é apenas um pesadelo, obviamente. Não é assim, não pode ser assim… Espero que não seja assim. Mas o fato é que não se vê uma iniciativa para mudar a situação, considerando a espetacular abertura de dezenas de universidades sem a mínima infraestrutura física (para não falar de boas bibliotecas, um luxo quase impensável no Brasil), enquanto a escola secundária segue muito deficitária, com professores que ganham uma miséria, com as greves dos professores universitários reprimidas, como se fossem ladrões.

A “falta” de educação – que é uma forma de instrução muito particular e perversa, imposta de cima para baixo – é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de grande parte da sociedade brasileira. Por fim, é urgente uma reforma radical da educação brasileira.

Em “A floresta e a escola”, Oswald de Andrade sonhava. Infelizmente, parece que já deixamos de ter uma e ainda não temos a outra. Pois, sem escola, já não cresce a floresta.

Por onde se começa a reforma da educação?

Começa-se de baixo, é claro, a partir da escola primária. A educação pública deveria ter uma política unificada, orientada a partir de uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Ela não será alcançada através da redistribuição da renda (ou melhor, com o aumento da quantidade de migalhas que caem da mesa dos ricos) apenas para comprar um televisor e para assistir ao BBB, e ver a mesma merda. Não é assim que se redistribui a cultura, a educação, a ciência e a sabedoria. Deve-se oferecer ao povo as condições de fazer cultura ao invés de consumir aquela produzida “para” eles.

Está havendo uma melhora nos níveis de vida dos mais pobres, e talvez também nos da velha classe média. Uma melhora que vai durar todo o tempo em que a China continuar comprando do Brasil ao invés de comprar da África. Mas, apesar da melhora no chamado “nível de vida”, não vejo nenhuma melhora real na qualidade de vida, na vida cultural ou espiritual, se me permite usar essa palavra arcaica. Pelo contrário. Será que é necessário destruir as forças vivas, naturais e culturais das pessoas, do povo brasileiro de instrução, para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Neste cenário, atualmente, quais são os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira?

Vejo a “sociedade brasileira” magnetizada – ao menos em termos de sua auto-representação normativa, por parte dos meios de comunicação – por um patriotismo oco, uma espécie de besta orgulhosa, deslumbrada pela certeza de que, de uma vez por todas, o mundo se inclinou frente ao Brasil. Copa do Mundo, Jogos Olímpicos… Não vejo mobilização acerca de temas urgentíssimos, como poderiam ser o da educação e da redefinição da nossa relação com a terra, quer dizer, com o que há debaixo do território. Natureza e cultura, enfim, que agora se encontram, não apenas mediadas, midiatizadas pelo mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se uniu ao Mercado contra a natureza e a cultura.

E estas questões não mobilizam?

Existe certa preocupação da opinião pública por questões ambientais, um pouco mais do que em relação às questões da educação, o que não deixa de ser algo para se lamentar, pois as duas vão juntas. Contudo, tudo me parece “too little, too late”: muito pouco e muito tarde. Está se demorando tempo demais para difundir a consciência ambiental. Uma conscientização que o planeta requer, com absoluta urgência, de todos nós. E esta inércia se traduz na escassa pressão sobre os governos, corporações e empresas que apenas investem nesse conto chinês do “capitalismo verde”. Em particular, evidencia-se muito pouca pressão sobre as grandes empresas, sempre distraídas e incompetentes quando se trata do problema da mudança climática.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que conta com o apoio desinformado (é o que se deduz) de uma parte significativa da população do sul e do sudeste, para onde irá a maior parte da energia que não for vendida – a um preço extremamente barato – para multinacionais de alumínio fazerem latas de saquê – no baixo Amazonas – para o mercado asiático.

Necessitamos de um discurso político mais agressivo em relação às questões ambientais. É necessário, sobretudo, falar com as pessoas, chamar a atenção a respeito de que o saneamento básico é um problema ambiental, de que a dengue é um problema ambiental. Não se pode separar a dengue do desmatamento e do saneamento. Temos que convencer os mais pobres de que melhorar as condições ambientais é assegurar as condições de existência das pessoas.

No entanto, a esquerda tradicional, como está sendo demonstrado, apresenta-se completamente inútil para articular um discurso sobre os temas ambientais. Quando suas cabeças mais pensantes falam, parece haver a sensação de estar “indo para trás”, tratando desastradamente de capturar e de reduzir um tema novo ao já conhecido, um problema muito real que não está em seu DNA ideológico e filosófico. Mesmo quando a esquerda não se alinha com o insustentável projeto “ecocida” do capitalismo, revela sua origem comum a este, com as névoas e obscuridades da metafísica antropocêntrica do cristianismo.

Enquanto continuarmos sustentando que melhorar a vida das pessoas é lhes dar mais dinheiro para comprar uma televisão, ao invés de melhorar o saneamento, abastecimento de água, saúde e educação primária, nada mudará. Escuta-se o governo dizer que a solução é consumir mais, mas não se percebe a menor ênfase para abordar estes aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições do presente século.

Isto não significa, obviamente, que os mais favorecidos pensem melhor e que possam ver além dos mais pobres. Não há nada mais estúpido que estas Land Rovers que vemos em São Paulo ou no Rio de Janeiro, andando com adesivos do Greenpeace, de slogans ecológicos, coladas no para-brisa. As pessoas vão às ruas nestes 4×4 e bebem um diesel venenoso… Gente que pensa que o contato com a natureza é fazer um Rally no Pantanal…

É uma questão difícil: falta educação básica, falta o compromisso dos meios de comunicação, falta agressividade política no tratamento da questão do meio ambiente.

E sempre que se pensa que existe um problema ambiental, algo que está longe de ser o caso dos governantes atuais, estes mostram, ao contrário, e, por exemplo, a preocupação em formar jovens que possam manobrar com segurança e, ao mesmo tempo, mantém firme sua aposta no transporte individual, em carros, em uma cidade como São Paulo, em que já não cabe nem uma agulha. Um governo que não se cansa de se orgulhar pela quantidade de carros produzidos por ano. É absurdo utilizar os números da produção de veículos como um indicador de prosperidade econômica. Essa é uma proposta podre, uma visão estreita e uma proposta muito empobrecedora para o país.

Você está dizendo que os apelos ao consumo vêm do próprio governo, mas também há um apelo muito forte procedente do mercado. Como avalia isto?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é visto por quase todo o mundo como uma evidência palpável, o modo inevitável em que se vive no mundo atual.

Diferentemente de alguns companheiros de caminhada, eu entendo que o capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos. E que nossa atual forma de vida econômica é realmente evitável. Então, simplesmente, nossa forma de vida biológica (quer dizer, a espécie humana) não será mais necessária e a Terra irá favorecer outras alternativas.

As ideias de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, ou a ética da suficiência são incompatíveis com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia de manter certo nível de equilíbrio em relação ao intercâmbio de energia com a natureza não se ajusta na matriz econômica do capitalismo.

Este impasse, gostemos ou não, será “resolvido” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que pensávamos. As pessoas fingem não saber o que está se passando, preferem não pensar nisso, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, pelo contrário, sempre se prepara para o melhor. Este otimismo nacional frente a uma situação planetária é extremamente preocupante, assim como perigoso… E a aposta de que vamos bem dentro do capitalismo é um tanto ingênua, se não desesperada…

O Brasil segue como um país periférico, uma plantação “high tech” que abastece com matérias-primas o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne bovina, para os países industrializados: são estes quem têm a última palavra, os que controlam o mercado. Estamos bem neste momento, mas de modo nenhum em condições de controlar a economia mundial. Se a coisa muda um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil simplesmente pode perder esse lugar no qual se encontra hoje. Para não mencionar, claro, o fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008, que está longe de terminar e que ninguém sabe aonde irá parar. O Brasil, neste momento de crise, é uma espécie de contracorrente do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Deve-se falar sobre estas coisas.

E como você avalia a macropolítica em relação a esta realidade, as políticas macroeconômicas, com as realidades rurais do Brasil, os indígenas e ribeirinhos?

O projeto de Brasil, que tem a atual coalizão do governo sob o mando do Partido dos Trabalhadores (PT), considera os ribeirinhos, os indígenas, os campesinos, os quilombolas como pessoas com atraso, um atraso sociocultural, e que devem ser conduzida para outro estado. Esta é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, o projeto é uma paulistização” do Brasil. Transformar o interior do país em um país de fantasia: muita festa de peão de vaqueiro, caminhonetes 4×4, muita música country, botas, chapéus, rodeios, touros, eucaliptos, gaúchos. E do outro lado, cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo.

O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar para civilizar, para domar, para obter benefícios econômicos, para capitalizar. Em uma lamentável continuidade entre a geopolítica da ditadura e a do governo atual, este é o velho “bandeirantismo” que hoje faz parte do projeto nacional. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é ou deveria ser a civilização brasileira, daquilo que é uma vida digna de ser vivida, do que é uma sociedade que está em sintonia consigo mesmo, é muito, muito similar.

Estamos vendo hoje uma ironia muito dialética: o governo, liderado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura, realizando um projeto de sociedade que foi adotado e implementado por esta mesma ditadura: a destruição da Amazônia, a mecanização, a “transgenização” e a “agrotoxicação” da agricultura, migração induzida pelas cidades.

E por detrás de tudo isso, certa ideia de Brasil que se vê, no início do século XXI, como se devesse ser, ou como se fosse, o que os Estados Unidos eram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, em vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood nos anos 50: muitos carros, muitas autopistas, muitas geladeiras, muitas televisões, todo mundo feliz. Quem pagou por tudo isso? Entre outros, nós. Quem irá nos pagar agora? A África, outra vez? Haiti? Bolívia? Para não falar da massa de infelicidade bruta gerada por esta forma de vida (e de quem se enriquece com isto).

Isto é o que vejo com tristeza: cinco séculos de maldade continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. Nosso governo “de esquerda” governa com a permissão da oligarquia e necessita destes capangas para governar. Podem ser feitas várias coisas, desde que a melhor parte fique com ela. Toda vez que o governo ensaia uma medida que a ameaça, o Congresso – que sabemos como é eleito – e a imprensa bombardeiam, o PMDB sabota…

Há uma série de becos para os quais eu não vejo saída ou que não têm saída no jogo da política tradicional, com suas regras. Vejo um caminho possível pelo lado do movimento social – que hoje está desmobilizado. Mas, se não for pelo lado do movimento social, seguiremos vivendo neste paraíso subjetivo de que um dia tudo vai ficar bem. O Brasil é um país dominado politicamente pelos grandes proprietários de terra e grandes empreiteiros que jamais sofreram uma reforma agrária e ainda dizem que atualmente não é mais necessário fazê-la.

Acredita que as coisas começarão a mudar quando chegarmos a um limite?

É provável que a crise econômica mundial afete o Brasil em algum momento próximo. Contudo, o que vai ocorrer, com certeza, é que o mundo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa durante os próximos 50 anos, com epidemias, fome, secas, catástrofes, guerras, invasões. Estamos vendo como as condições climáticas mudaram muito mais rápido do que pensávamos. E há grandes possibilidades de desastres, de perdas de colheitas, de crises alimentares. Neste meio tempo, hoje em dia, o Brasil até se beneficia, mas um dia a fatura irá chegar. Climatologistas, geofísicos, biólogos e ecologistas são profundamente pessimistas sobre o ritmo, as causas e consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve a vida atual da espécie. Por que deveríamos ser otimistas?

Acredito que se deve insistir que é possível ser feliz sem ficar hipnotizado por este frenesi de consumo que os meios de comunicação impõem. Não sou contrário ao crescimento econômico no Brasil, não sou tão estúpido para pensar que tudo se resolveria mediante a distribuição do dinheiro de Eike Batista entre os agricultores do nordeste semiárido ou cortando os subsídios à classe político-mafiosa que governa o país. Não que não seja uma boa ideia. Sou contrário, isto sim, ao crescimento da “economia” do mundo, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. E também sou, obviamente, a favor de que todos possam comprar uma geladeira e, por que não, uma televisão. Sou a favor de uma maior utilização das tecnologias solar e eólica. E estaria encantado em deixar de dirigir o carro, se pudéssemos trocar este meio de transporte absurdo por soluções mais inteligentes.

E como vê os jovens neste contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Nos anos 1960, tínhamos ideias confusas, mas ideais claros: pensávamos que poderíamos mudar o mundo e imaginávamos que tipo de mundo queríamos. Acredito que, em geral, os horizontes utópicos têm retrocedido enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou a sua atenção?

No Brasil, a aceleração difusa do que poderíamos chamar de uma cultura “agro-sulista”, tanto da direita quanto da esquerda, pelo interior do país. Vejo isto como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, deste modo muito peculiar de a elite governante no poder acertar as contas com seu próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante é a consolidação de uma cultura popular vinculada ao movimento evangélico popular. O evangelismo da Igreja Universal do Reino de Deus associa, por certo, a religião ao consumo.

O como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Essa é uma das poucas coisas a respeito das quais sou muito otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total dos meios de comunicação de cinco ou seis conglomerados midiáticos. Esse enfraquecimento está muito vinculado à proliferação das redes sociais, que são grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para que circule um tipo de informação que não tinha lugar na imprensa oficial. E estão habilitando formas, antes impossíveis, de mobilização. Há movimentos inteiramente produzidos pelas redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada”, os diversos movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas.

As redes são nossa saída de emergência frente à aliança mortal entre o governo e os meios de comunicação. São um fator de desestabilização – no melhor sentido da palavra – do poder dominante. Se puder ocorrer alguma mudança importante na cena política, acredito que será através da mobilização pelas redes sociais.

E por isso se intensificam as tentativas de controlar estas redes, em todo o mundo, por parte do poder constituído. Contudo, controlar o acesso é um instrumento vergonhoso, como o caso do “projeto” da banda larga brasileira, que parte do reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnológica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação das produções culturais.

Parece, às vezes, que haveria uma conspiração para evitar que os brasileiros tenham uma boa educação e um acesso à Internet de qualidade. Essas duas coisas andam de mãos dadas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social que, diga-se de passagem, é necessário vigiar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no Ministério do Meio Ambiente, na época de Marina Silva, criticava-me dizendo que meu discurso, feito à distância do Estado, era romântico e absurdo, que tínhamos de tomar o poder. Eu respondia que, se tomássemos o poder, tínhamos, sobretudo, de saber como mantê-lo depois, pois aí que a coisa se complica. Não tenho um desenho, um projeto político para o Brasil, eu não pretendo saber o melhor para o povo brasileiro em geral, e em seu conjunto. Só posso expressar minhas preocupações e indignações, apenas aí me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou a esta altura tinha – as condições geográficas, ecológicas, culturais para desenvolver um novo estilo de civilização, que não seja uma cópia empobrecida do modelo da América do Norte e da Europa. Poderíamos começar a experimentar, timidamente, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna.

Todavia, imagino que se algum país do mundo irá fazer isso, esse país é a China. É certo que os chineses têm 5.000 anos de história cultural praticamente contínua e o que nós temos para oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste história de etnocídio, deliberado ou não.

Ainda assim, é imperdoável a falta de inventividade da sociedade brasileira – ao menos de sua elite política e intelectual – que já perdeu várias ocasiões de gerar soluções socioculturais – tal como o povo brasileiro historicamente ofereceu – e articular, assim, uma civilização brasileira minimamente diferente da que propõem os comerciais de televisão.

Precisamos mudar completa e, primeiramente, a relação secularmente depredadora da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica de sua própria nacionalidade. Já é hora de começar uma nova relação com o consumo, menos ansioso e mais realista frente à situação de crise atual. A felicidade tem muitos outros caminhos.

* A entrevista é de Julia Magalhães, publicada por Lobo Suelto!, em 4-12-2013. A tradução é do Cepat.

** Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Kennedy planejava invasão dos EUA no Brasil (Yahoo! News)

Por  | Yahoo Notícias – 06.jan.2014

Informações divulgadas pelo site “Arquivos da Ditadura”, que mantém conteúdo colhido nos últimos 30 anos pelo jornalista Elio Gaspari sobre o governo militar do Brasil, mostram que o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy debateu a possibilidade de invadir o Brasil para depor o então presidente João Goulart.

A conversa aconteceu na Casa Branca e teve como centro do debate as situações no Brasil e no Vietnã. Kennedy indaga a possibilidade de seu país “intervir militarmente” no Brasil por conta da tensa situação política envolvendo João Goulart. O questionamento aconteceu 46 dias antes de Kennedy ser assassinado em Dallas, no Texas.

Alguns meses após a conversa e posterior morte do então presidente norte-americano, os militares assumiram o poder no Brasil. É possível ouvir o áudio da conversa, em inglês, clicando aqui.

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Brazil 2014: More than just the World Cup (The Christian Science Monitor)

From elections to transportation fare increases and potentially renewed protests, 2014 promises big stories to watch across Brazil.

By Rachel Glickhouse, Guest blogger / January 2, 2014

People watch fireworks exploding over Copacabana beach during New Year celebrations at the Pavao Pavaozinho slum in Rio de Janeiro, January 1, 2014. Pilar Olivares/Reuters

While 2013 [was] an incredibly interesting year forBrazil, 2014 promises to be even more fascinating. Beyond the World Cup, which promises to occupy much of the year’s headlines, here are some of the big issues to watch.

Transportation fare increases: Governments throughout Brazil backed down on raising bus and subway fares in 2013 after those increases helped spursome of the largest protests seen since redemocratization. Nevertheless, a fare increase could be coming in Rio as early as January.

Inflation and cost of living: In 2013, food prices rose over 9 percent and were the major cause of inflation this year. Overall, inflation this year is estimated at under 6 percent, while some estimates put next year’s inflation at a little over 6 percentSão Paulo and Rio in particular continue to see a rising cost of living.

Consumer debt: With more Brazilians gaining access to the banking system and credit, consumer debt has been a growing problem to keep an eye on. Over the past 12 months, the number of Brazilian families in debt has fluctuated between 60 and 65 percent. Around 20 percent of Brazilians are behind on their bills. Over three-quarters of Brazilians in debt point to credit cardsas the source of their debt; credit card interest rates in Brazil continue to be sky-high, reaching up to 500 percent a year.

Security: While in the past decade, the overall trend for homicides has been an increase in the Northeast and a drop in the Southeast, crimes like robberies andmuggings are rising in cities like Rio and São Paulo. Rio in particular has faced problems with crime this year after a period of seeming improvements.

Pacification in Rio: Though initial results were promising, this year has seen some cracks in Rio’s pacification strategy, such as outbreaks of violence in pacified favelas and revelations of police abuses, the most serious being the torture and murder of favela residents. One of the most important things revealed this year are statistics showing disappearances in pacified favelas rising as murders fall. We’ll see what happens with this trend next year. Fundamentally, the biggest problem with the strategy is the police force itself, as some police have traditionally been criminals themselves, either working directly with drug traffickers or operating in militias when off-duty. Without a major police reform, the strategy could see similar challenges next year.

Health and education policies: One of the major complaints of protesters [last] year was that the government is investing in the World Cup but not enough in hospitals and schools. In 2013, the government began importing Cuban doctors in a bid to bring medical services to underserved areas, which initially was met with controversy that has petered out a bit. Much more remains to be done though, so [this year] it will be interesting to see how the program goes. There were also big teachers’ strikes this year which could potentially happen again in 2014.

Corruption scandals: One of the most important things that happened in 2013 was when a group of defendants in the country’s biggest corruption case went to jail. Parts of the trial are going to drag on next year as some defendants get appeals, but a new corruption scandal would feed another one of the protesters’ complaints.

Protests: While it seems likely that there will be some demonstrations around the World Cup, it remains to be seen whether there will be a repeat of the 2013 protests. That will depend on all of the factors above.

Elections: Brazil will hold presidential and legislative elections in October, which means that federal policies will potentially be designed to appease voters as President Dilma Rousseff seeks reelection. It may not be a year to experiment with reforms or to raise taxes, but it could be a year of bread and circuses.

Infrastructure: While a lot of focus will be on finishing stadiums in time for the games, it remains to be seen how many transportation infrastructure projects, ranging from new highways to airport renovations, will be completed before June. In addition, it will be important to see which major infrastructure projects are moving in an election year, like the Belo Monte dam or the São Francisco water project.

– Rachel Glickhouse is the author of the blog Riogringa.com.

O antropólogo contra o Estado (Piauí)

Edição 88 > _vultos das humanidades > Dezembro de 2013

As ideias e as brigas de Eduardo Viveiros de Castro, o intelectual brasileiro que virou a filosofia ocidental pelo avesso

por RAFAEL CARIELLO 

 

Marcio Ferreira da Silva, um sujeito grandalhão e bem-humorado, professor de antropologia na Universidade de São Paulo, tentava encontrar um volume nas estantes de seu apartamento. Depois de perscrutar as prateleiras da sala, sumiu por um instante no corredor que levava aos quartos. “Achei”, exclamou. Trouxe lá de dentro uma edição especial da revista L’Homme, publicada no ano 2000, em que o antropólogo Claude Lévi-Strauss, aos 91 anos, comentava os avanços recentes de sua disciplina.

“Olha o que o bruxo escreveu!”, disse o antropólogo da USP. Passou então a ler em voz alta os parágrafos finais de um artigo em que o etnólogo francês exalta o trabalho dos “colegas brasileiros”, atribuindo a eles a descoberta de uma metafísica própria aos índios sul-americanos. “A filosofia ocupa novamente o proscênio da antropologia”, escreveu Lévi-Strauss. “Não mais a nossa filosofia”, acrescentou, mas a filosofia dos “povos exóticos”. O texto que Marcio Silva tinha nas mãos indicava que algo havia mudado na relação da academia brasileira com a metrópole – uma relação que poderia ser descrita como uma via de mão única, ou quase isso, ao longo da maior parte do século XX.

Num artigo que causou certa discussão, escrito em 1968 para a aut aut, prestigiosa revista italiana de filosofia, o filósofo Bento Prado Jr. registrou que resenhar, naquela publicação, as obras de seus pares produzidas no Brasil “não implicaria nenhuma informação para o leitor europeu”. E argumentava: “Aqui também se faz marxismo, fenomenologia, existencialismo, positivismo.” Mas não havia novidade ou contribuição maior: “Quase sempre, o que se faz é divulgação.” Três décadas depois, Lévi-Strauss identificava um conjunto de ideias na fronteira da antropologia e da filosofia que, a seu ver, o leitor europeu precisava conhecer.

Marcio Silva havia retirado outro volume da estante. Leu o título: Transformations of Kinship [Transformações do Parentesco]. “É a última grande compilação de estudos da área. O último grande livro do século XX. Tem um artigo do Eduardo”, disse, referindo-se ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, seu orientador no doutorado, nos anos 80. Abriu o livro nas páginas finais e procurou referências bibliográficas. Encontrou os nomes de ex-alunos de Viveiros de Castro. “Olha aqui o Carlos Fausto. Citado em português! A Aparecida Vilaça também.” O próprio Silva também constava da lista. “Foi por causa do Eduardo que os ‘colegas brasileiros’ passaram a existir”, disse. “É muito fácil aferir isso. Basta folhear as principais revistas da disciplina. Isso mudou. E mudou por causa dele.”

Eduardo Viveiros de Castro mora com a mulher, Déborah Danowski, e a única filha deles, Irene, de 18 anos, num prédio antigo, estilo art déco, na praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. No apartamento de pé-direito alto, estantes de livros cobrem as paredes já no pequeno corredor que serve como hall de entrada. Na prateleira de uma delas, na sala, vê-se uma foto antiga do antropólogo, na casa dos 20 anos, com o cabelo comprido. Ao lado, um retrato de Bob Dylan.

Numa noite de outubro do ano passado, Viveiros de Castro criticava o avanço do governo de Dilma Rousseff sobre a Amazônia, seus projetos de estradas e usinas hidrelétricas, benefícios ao agronegócio – e descaso com os direitos dos povos indígenas. Sentado no sofá, o antropólogo comparou as ambições desenvolvimentistas da atual presidente à megalomania da ditadura, com seu ideário de “Brasil Grande”.

“Hegel deve estar dando pulinhos de alegria no túmulo, vendo como a dialética funciona”, ele disse. “Foi preciso a esquerda, uma ex-guerrilheira, para realizar o projeto da direita. Na verdade, eles sempre quiseram a mesma coisa, que é mandar no povo. Direita e esquerda achavam que sabiam o que era melhor para o povo e, o que é pior, o que eles pensavam que fosse o melhor é muito parecido. Os militares talvez fossem mais violentos, mais fascistas, mas o fato é que é muito parecido.”

Apesar da contundência, falava com calma, o tom de voz baixo. “O PT, a esquerda em geral, tem uma incapacidade congênita para pensar todo tipo de gente que não seja o bom operário que vai se transformar em consumidor. Uma incapacidade enorme para entender as populações que se recusaram a entrar no jogo do capitalismo. Quem não entrou no jogo – o índio, o seringueiro, o camponês, o quilombola –, gente que quer viver em paz, que quer ficar na dela, eles não entendem. O Lula e o PT pensam o Brasil a partir de São Bernardo. Ou de Barretos. Eles têm essa concepção de produção, de que viver é produzir – ‘O trabalho é a essência do homem’. O trabalho é a essência do homem porra nenhuma. A atividade talvez seja, mas trabalhar, não.”

Viveiros de Castro não é um homem alto. “Oficialmente”, mede 1,68 metro, mas diz que a idade já deve lhe ter roubado 1 ou 2 centímetros. Tem 62 anos, o cabelo e a barba grisalhos. O que se destaca em sua fisionomia é o nariz grande, reto, quase um triângulo retângulo aplicado ao rosto. Seus gestos são contidos e ele fala numa versão mais atenuada, mais diluída, do sotaque carioca. Em contraste com o discurso combativo, faz lembrar, na prosódia e nos modos, um diplomata. Afável, o antropólogo recusa a imagem: a comparação com a elite burocrática do país – espécie de símbolo da vida burguesa bem-comportada – não lhe agrada.

Num texto memorialístico recente, Viveiros de Castro contabilizou dezesseis anos de estudo, do primário à faculdade, em duas tradicionais instituições cariocas: o Colégio Santo Inácio e a Pontifícia Universidade Católica do Rio. “Dois estabelecimentos privados de classe média e alta – ninguém é perfeito – de minha cidade natal, ambos dirigidos pelos padres jesuítas”, escreveu. Seu pai pertencia a uma família de “políticos e juristas”. Augusto Olympio Viveiros de Castro, bisavô de Eduardo, foi ministro do Supremo Tribunal Federal e hoje é nome de rua em Copacabana. Outro bisavô, Lauro Sodré, nome de avenida em Botafogo, foi militar, senador e governador do Pará. Participou da Revolta da Vacina, em 1904 – segundo o antropólogo, por ser positivista e acreditar que o Estado “só podia chegar até a pele” dos cidadãos. “Um argumento curioso”, comentou. “Equivocado, no caso da vacina. Mas tem seu interesse retórico. Tendo a simpatizar com ele. Acho que o Estado devia parar muito antes, bem longe da pele.”

Do ponto de vista intelectual, Viveiros de Castro é herdeiro de cientistas sociais que ajudaram a derrubar o senso comum de que os povos indígenas são marcados pelo atraso em relação ao mundo ocidental. Essas sociedades sempre foram descritas como “primitivas” por carecerem de instituições modernas – como o Estado e a ciência.

Foi Claude Lévi-Strauss quem aposentou definitivamente a ideia de que os povos sem escrita seriam menos racionais do que os europeus. Os índios ocupavam um lugar próximo, nessa visão de mundo que ele ajudou a desfazer, ao das crianças, ou dos loucos. O pesquisador francês argumentou que havia método e ordem nas aparentemente caóticas associações que esses povos faziam – entre tipos de animais, acidentes geográficos, corpos celestes e instituições sociais. Eram o resultado não da falta de razão, mas, em certo sentido, de seu excesso. O que nenhuma sociedade humana tolera, dizia Lévi-Strauss, é a falta de sentido. O “pensamento selvagem”, assim, é totalizante, e procura, por meio de analogias, uma compreensão completa de todo o universo, estabelecendo relações entre os diferentes tipos de fenômenos. Um determinado rio se distingue de outro de maneira análoga ao modo como uma espécie animal é diferente de outra, ou um grupo social, de seus vizinhos. Nada pode escapar à sua malha de significados.

Nos anos 70, o antropólogo francês Pierre Clastres argumentou que a falta de Estado nos povos das terras baixas sul-americanas – em contraste com a forte centralização política de seus vizinhos andinos – não seria uma carência, mas uma escolha deliberada, coletiva. Há entre eles, com frequência, alguma forma de chefia. Em troca de prestígio, o chefe ocupa um lugar privilegiado, e apartado, em relação aos demais integrantes da sociedade. Pode falar à vontade. Mas ninguém lhe dá ouvidos. “O chefe por vezes prega no deserto”, escreveu Clastres. Do chefe é exigida uma generosidade maior, que o obriga a distribuir bens para o restante da sociedade. Lévi-Strauss, ao falar dos Nambikwara, dizia que “a generosidade desempenha um papel fundamental para determinar o grau de popularidade de que gozará o novo chefe”.

Por mais populares que sejam, contudo, tais líderes não dispõem de nenhuma capacidade coercitiva. O chefe não manda. Tudo se passa como se essas sociedades criassem uma posição privilegiada, o lugar exato onde o Estado poderia nascer, para então esvaziá-la de poder, numa espécie de ação preventiva. Foi o que Clastres chamou de “sociedades contra o Estado”. Defendeu a ideia, em um de seus artigos, argumentando que “só os tolos podem acreditar que, para recusar a alienação, é preciso primeiro tê-la experimentado”.

Naquela mesma década de 70, o norte-americano Marshall Sahlins se ocupou da dimensão econômica dessas sociedades. Procurou analisar as mais “pobres” dentre elas, os grupos nômades de caçadores-coletores. Segundo a visão então consagrada, tais sociedades mal conseguiriam assegurar a própria subsistência. Com técnicas pouco desenvolvidas e baixa produtividade, por certo não havia nelas produção excedente, poupança, investimento. Viviam da mão para a boca.

Ocorre que o tempo dedicado ao trabalho também era pequeno. Esses estranhos “primitivos” pareciam ser ao mesmo tempo miseráveis e ociosos. Oque Sahlins argumentou é que não fazia sentido, para grupos nômades, acumular bens – quanto menos tivessem que carregar, tanto melhor. Tampouco era lógico produzir estoques, quando esses estão ao redor, “na própria natureza”. Do ponto de vista dos caçadores-coletores, não lhes faltava nada. Trabalhar pouco era uma escolha, e aqueles grupos constituiriam o que o antropólogo chamou de primeira “sociedade de afluência”.

Em alguns de seus textos, Viveiros de Castro cita Lévi-Strauss e Pierre Clastres como paixões intelectuais. Não chega a fazer o mesmo com Sahlins, mas o ex-aluno dos padres jesuítas retomou o autor norte-americano, num ensaio recente, para argumentar que, junto aos outros dois, ele contribuiu para colocar em questão “a santíssima trindade do homem moderno: o Estado, o Mercado e a Razão, que são como o Pai, o Filho e o Espírito Santo da teologia capitalista”. Em vez de símbolo de atraso, a “sociedade primitiva”, escreveu o antropólogo carioca, “é uma das muitas encarnações conceituais da perene tese da esquerda de que um outro mundo é possível: de que há vida fora do capitalismo, como há socialidade fora do Estado. Sempre houve, e – é para isso que lutamos – continuará havendo”.

O antropólogo e sua mulher mantêm uma casa simples num condomínio de classe média alta, em Petrópolis, na serra fluminense. Costumam passar os finais de semana lá. No centro do terreno se ergue uma espécie de pequeno Pão de Açúcar, uma pedra grande, com cerca de 5 metros de diâmetro, que se mostrou providencial para baratear o preço do lote. “O pessoal por aqui quer casa com cinco salas, cinco suítes”, disse Viveiros de Castro. “Esse pedregulho atrapalha.” Nos fundos, fica uma obra a que ele se dedica com afinco e que parece lhe dar grande orgulho: um jardim-pomar.

Num domingo de céu sem nuvens, ele caminhava por entre os arbustos distribuídos no terreno gramado. Levava um cajado de madeira quase do seu tamanho. Usava-o sobretudo para apontar as frutas de nomes estranhos, que eram sempre aparentadas de outras, mais conhecidas. “Essa é da família da pitanga”; aquela outra, “parente da lichia”; uma terceira, “deliciosa, com o gosto entre a goiaba e o abacaxi”. Déborah acompanhava o percurso. Ela é professora de filosofia na PUC do Rio. Os dois são casados há quase três décadas. Quando voltamos para a sala da casa, pedi que Viveiros de Castro falasse sobre a ideia que o projetou. A síntese da metafísica dos povos “exóticos”, a que se referia Lévi-Strauss, surgiu em 1996. Ganhou o nome de “perspectivismo ameríndio”.

Fazia já alguns anos, então, que o antropólogo se ocupava de um traço específico do pensamento indígena nas Américas. Em contraste com a ênfase dada pelas sociedades industriais à produção de objetos, vigora entre esses povos a lógica da predação. O pensamento ameríndio dá muita importância às relações entre caça e caçador – que têm, para eles, um valor comparável ao que conferimos ao trabalho e à fabricação de bens de consumo. Diferentes espécies animais são pensadas a partir da posição que ocupam nessa relação. Gente, por exemplo, é ao mesmo tempo presa de onça e predadora de porcos.

Duas alunas suas, Aparecida Vilaça e Tânia Stolze Lima, preparavam, naquela ocasião, teses de doutorado que chamavam a atenção para outra característica curiosa do pensamento de diferentes grupos indígenas. Tânia pesquisava os Juruna, do Xingu; Aparecida, os Wari, em Rondônia. Pois bem: de acordo com os interlocutores de ambas, os animais podiam assumir a perspectiva humana. Tânia e Viveiros de Castro fizeram um levantamento que indicava a existência de ideias semelhantes em outros grupos espalhados pelas Américas, do Alasca à Patagônia. Segundo diferentes etnias, os porcos, por exemplo, se viam uns aos outros como gente. E enxergavam os humanos, seus predadores, como onça. As onças, por sua vez, viam a si mesmas e às outras onças como gente. Para elas, contudo, os índios eram tapires ou pecaris – eram presa. Essa lógica não se restringia aos animais. Aplicava-se aos espíritos, que veem os homens como caça, e também aos deuses e aos mortos.

Ser gente parecia uma questão de ponto de vista. Gente é quem ocupa a posição de sujeito. No mundo amazônico, escreveu o antropólogo, “há mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias”.

Ao se verem como gente, os animais adotam também todas as características culturais humanas. Da perspectiva de um urubu, os vermes da carne podre que ele come são peixes grelhados, comida de gente. O sangue que a onça bebe é, para ela, cauim, porque é cauim o que se bebe com tanto gosto. Urubus entre urubus também têm relações sociais humanas, com ritos, festas e regras de casamento. O mesmo vale para peixes entre peixes, ou porcos-do-mato entre porcos-do-mato.

Tudo se passa, conforme Viveiros de Castro, como se os índios pensassem o mundo de maneira inversa à nossa, se consideradas as noções de “natureza” e de “cultura”. Para nós, o que é dado, o universal, é a natureza, igual para todos os povos do planeta. O que é construído é a cultura, que varia de uma sociedade para outra. Para os povos ameríndios, ao contrário, o dado universal é a cultura, uma única cultura, que é sempre a mesma para todo sujeito. Ser gente, para seres humanos, animais e espíritos, é viver segundo as regras de casamento do grupo, comer peixe, beber cauim, temer onça, caçar porco.

Mas se a cultura é igual para todos, algo precisa mudar. E o que muda, o que é construído, dependendo do observador, é a natureza. Para o urubu, os vermes no corpo em decomposição são peixe assado. Para nós, são vermes. Não há uma terceira posição, superior e fundadora das outras duas. Ao passarmos de um observador a outro, para que a cultura permaneça a mesma, toda a natureza em volta precisa mudar.

Já fazia alguns minutos que Déborah tinha se enfurnado dentro da casa, enquanto o antropólogo falava de peixes, antas e urubus. Viveiros de Castro disse se lembrar de que estava lendo um ensaio de Lévi-Strauss quando teve o “estalo” que deu origem ao perspectivismo. Fez uma pausa e, sem se levantar da poltrona, chamou pela mulher. “Débi!” Ela apareceu no mezanino, sobre nossas cabeças. O antropólogo voltou a contar a história. “Eu lembro que saí do escritório, onde estava lendo esse texto, e disse à Débi que tinha acabado de ter uma ideia; uma ideia que iria me ocupar por uns dez anos, se eu quisesse tirar todas as consequências dela.” Virou-se para cima e perguntou: “Lembra, Débi?” Do alto do mezanino, ela riu, simpática, e respondeu balançando a cabeça: “Não.”

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, avalia que as ideias desenvolvidas por Viveiros de Castro a partir do perspectivismo ameríndio dialogam diretamente com boa parte da tradiçãofilosófica ocidental. Ao mesmo tempo, a síntese que ele propôs do pensamento indígena é uma crítica a essa tradição, ao colocar em questão as noções de “natureza” e “cultura” da “vulgata metafísica ocidental”.

Essa capacidade crítica foi logo notada. Durante um debate na Inglaterra, mal a ideia havia sido apresentada, um interlocutor do antropólogo carioca lhe disse que os índios de que ele falava “pareciam ter estudado em Paris”. Reagindo à provocação, Viveiros de Castro comentou que “na realidade havia ocorrido exatamente o contrário: que alguns parisienses”, e ele se referia certamente a Lévi-Strauss, que viveu no Brasil entre 1935 e 1939, “haviam estudado na Amazônia”. E argumentou que sua análise “devia tanto ao estruturalismo francês”, de Lévi-Strauss, quanto este estava em débito com o conhecimento que travara com povos indígenas do Brasil. “Não fora o Pará que estivera em Paris”, disse o antropólogo, “mas sim Paris no Pará”.

Viveiros de Castro promoveu, em relação à filosofia, algo análogo ao que Pierre Clastres e Marshall Sahlins haviam feito em relação ao Estado e à economia de mercado: mostrou que um outro mundo é possível. A ideia recebeu enorme atenção, dentro e fora do país, quase imediatamente após sua formulação. “Na França e na Inglaterra, o Eduardo é altamente respeitado”, declarou a professora da Universidade de Chicago; “basta dizer que na livraria Gibert, em Paris, há uma seção de prateleira com o nome dele.”

Nos Estados Unidos, a resistência ao perspectivismo foi maior, observou Manuela. No final de novembro passado, contudo, após uma conferência de Viveiros de Castro para a Associação Americana de Antropologia, ela me enviou uma mensagem informando que a recepção às ideias dele estava “melhorando bastante”. Mesmo antes disso, de toda forma, o professor brasileiro já contava com defensores importantes. Marshall Sahlins, colega de Manuela em Chicago, considera Viveiros de Castro “o antropólogo mais erudito e original do planeta” da atualidade, tendo inaugurado “uma nova era para a antropologia, com profundas implicações para o resto das ciências humanas e das humanidades”.

Eduardo Batalha Viveiros de Castro nasceu no dia 19 de abril de 1951, no Rio de Janeiro. Passou toda a adolescência na Gávea, Zona Sul da cidade. Nos anos 60, o bairro era uma larga ilha de classe média contida entre a Rocinha, no alto do morro, e o Parque Proletário, uma favela que não existe mais. Eduardo morava numa casa grande de dois andares, movimentada, aberta à vizinhança, com os pais e os cinco irmãos mais novos. A mãe “era dona de casa, formada em letras, como convinha a uma moça de boa família”. O pai, um advogado trabalhista, não dirigia. Nos finais de semana, contratava os serviços de um vizinho taxista para levar a família à praia em Ipanema.

Tampouco tinham tevê – levaram certo tempo até adquirir uma, “meio que obrigando a gente a estudar”. Por outro lado, a biblioteca era boa. “Os livros que não eram brasileiros eram franceses. Aprendi a ler em francês folheando os livros do meu pai. Minha mãe, também, tinha estudado numa escola de freiras francesas. Havia um ruído de fundo em francês na casa.”

Viveiros de Castro não deu muita atenção quando chegou ao bairro a notícia do golpe militar, em 64: “Eu tinha 13 anos, estava jogando bola.” Seu interesse, além do futebol, eram os livros de divulgação científica. Começou a gostar de música na época em que os discos dos Beatles e dos Rolling Stones desembarcaram no país, e decidiu aprender inglês quando conheceu as canções de Bob Dylan, que ele reputa, ainda hoje, personagem fundamental em sua formação intelectual. “Os discos dele em geral tinham as letras na contracapa. Era só abrir o dicionário.” Foi por meio do cantor norte-americano que o antropólogo descobriu a geração beat, com seus valores libertários, e a contracultura.

Em contraposição à vida alegre da Gávea, o Colégio Santo Inácio, onde estudou até chegar à faculdade, foi um longo “serviço militar”, do qual disse não guardar boas lembranças – nem más. Uma escola exclusivamente masculina, em que a ênfase não estava no ensino religioso, mas na disciplina.

Os anos decisivos foram 1967 e 1968. Interessou-se pelas discussões intelectuais publicadas nos suplementos dominicais da imprensa, tomando o partido da poesia concreta, das revoluções formais e do tropicalismo, contra o que se refere como vertente nacional-populista, “tipo samba de raiz, Tinhorão, CPC – o marxismo cultural, chamemos assim”. Passou a ler obras de linguística, filosofia, poesia brasileira e literatura francesa. Ainda gostava de matemática, carreira que considerou seguir. Desistiu ao se confrontar com um colega que “nadava de costas” na disciplina. “Ele era muito melhor do que eu. Vi que não tinha condições de ser matemático.”

Foi nessa época, disse o antropólogo, que ele descobriu o mundo intelectual “pra valer”. “Comecei também a desenvolver sentimentos antiburgueses. Deixei o cabelo crescer, por assim dizer. Passei a experimentar as drogas, a frequentar ambientes pouco recomendáveis e a ter amigos fora do colégio. Sobretudo um, que foi muito importante para me situar nos debates da época, amigo meu até hoje, que é o Ivan Cardoso, cineasta.”

Quando se referem um ao outro, Viveiros de Castro e o amigo do tempo da adolescência, dois senhores de mais de 60 anos, parecem garotos. Assim que encontrei Ivan Cardoso pela primeira vez, em sua casa, em Copacabana, ele foi logo dizendo: “O Viveiros? Eu comia ele.”

Com uma calva pronunciada, o cineasta trazia o cabelo desarrumado nas têmporas e na nuca. Numa sala atulhada de móveis e objetos criados por ele, quadros com esmaecidas bandeirolas de Festa Junina se destacavam. “São Volpis?”, perguntei. “São Ivolpis”, ele respondeu, satisfeito, “Ivolpis!”

Mais conhecido por seu longa O Segredo da Múmia, de 1982, Cardoso foi um inovador formal, rodando filmes de vanguarda em super-8 a partir do final dos anos 60. Viveiros de Castro conta que a preocupação do amigo com a plasticidade das cenas, aliada à paródia das fitas de terror que fazia, levou o poeta e crítico Haroldo de Campos a sintetizar sua obra como “Mondrian no açougue”. “Tenho uma admiração imensa pelo Ivan”, me disse o antropólogo. “Ele, sim, é um artista. Nunca se afastou disso, e tem uma puta imaginação plástica. Eu sou um anão. O Ivan é um gigante.”

Os pais de Ivan Cardoso e de Viveiros de Castro eram amigos. Os dois garotos estudavam em escolas diferentes, mas próximas. O Colégio São Fernando, que Ivan frequentava, ficava em Botafogo, como o Santo Inácio. Cardoso editava um jornal estudantil e convidava artistas plásticos para dar palestras aos alunos. “O Ivan era muito cara de pau”, explicou o antropólogo. “Batia na porta das pessoas. Eu ia um pouco no vácuo dele.” Os dois ficaram amigos de Hélio Oiticica. “Ele gostou da gente”, contou o antropólogo. “Ensinava coisas. Foi um pouco nosso guia no mundo artístico.”

Esticado na cama de seu quarto, Ivan Cardoso lembrou a primeira vez em que encontrou Oiticica. Cardoso havia ligado para o artista, pedindo que falasse a seus colegas, na escola. Recebeu, como resposta, um convite para que fosse a sua casa, no Jardim Botânico – um lugar que mais tarde ele e Viveiros de Castro passariam a frequentar. “A casa do Hélio era estranhíssima. Misturavam-se críticos de arte e malandros do morro. Era um desfile. Na sala, tinha uma tenda. Ele morava com a mãe. Todo mundo queimando fumo, e a mãe dele descia a escada e reclamava: ‘Vocês vão ser todos presos! Eu já chamei a polícia, seus maconheiros!’ A velha sofreu.”

Viveiros de Castro e Hélio Oiticica gostavam de conversar sobre literatura e filosofia. “Os dois já tinham lido tudo. Cheguei à conclusão de que não adiantava mais eu ler. Qualquer coisa, perguntava para eles.” Segundo o cineasta, seu amigo tomava o café da manhã com um livro aberto na mesa. “Ele lia até trepando”, disse, rindo. “Mas não era apenas um intelectual. Ele andava com um canivete de mola. Era transviado também. Uma vez ele arrumou uma confusão desgraçada no baixo Leblon. Arranjou briga, tacou o carro em cima de um desgraçado lá, um elemento nocivo, tipo um ‘bad boyzinho’ desses. Ele sempre foi uma pessoa carismática, e fazia o marketing dele. Fumava Continental sem filtro, que é um destronca peito desgraçado, e era um bom pé de cana. Tomava traçado.”

No meio da conversa, o cineasta quis saber o que eu achava do amigo intelectual. Em silêncio, sério, prestou atenção à resposta. “Então é isso”, concluiu. “O Caetano está perdendo tempo com esse Mangabeira Unger. É um merda.”

Em 1969, Viveiros de Castro começou a estudar na PUC. Cursou jornalismo por um ano. No ciclo básico, se interessou por ciências sociais e pediu transferência. Parte considerável do que era lecionado no novo curso, no entanto, não o agradava. “O que o pessoal estava ensinando era teoria da dependência, Fernando Henrique Cardoso, burguesia nacional, teoria da revolução – quem seria o guia da mudança, se o operariado ou o campesinato”, contou.

“Eu, na verdade, tinha horror àquela coisa. Não tinha saco para a teoria da dependência e não gostava da teoria do Brasil. Achava de uma arrogância absurda enunciar a verdade sobre o que o povo deve ser, o que o povo deve fazer. Isso de teorizar o Brasil é uma coisa que a classe dominante sempre fez. Quem fala ‘Brasil’ é sempre alguém que está mandando. Seja para fazer revolução de esquerda, seja para soltar os gorilas da ditadura na rua. E aqueles caras… Eu ficava pensando: eles querem as mesmas coisas que os militares. Só que querem ser eles a mandar. Vai ser um quartel, isso aqui.”

O tema mobiliza Viveiros de Castro: esquerda tradicional, “careta”, de um lado; esquerda existencial, “libertária”, de outro. A divisão, ele observa, não era apenas intelectual. Definiu trajetórias pessoais, “como ir para a clandestinidade e para a luta armada; ou ir para a praia, fumar maconha, tocar violão”. Num texto de memórias, disse admirar seus “companheiros mais corajosos” que se arriscaram na clandestinidade. Viveiros resolveu ir à praia.

Em 1970, um píer foi construído em Ipanema, por ocasião das obras para lançar o esgoto longe da costa. Moveram a areia e surgiram morrotes altos, que mais tarde ganhariam o apelido de “dunas do barato”. Mudanças no fundo do mar melhoraram as ondas, atraindo os surfistas. Com eles vieram os hippies e o que havia de contracultura no Rio de Janeiro de então. O jovem estudante da PUC também fazia ponto por lá.

“Como diz o Ivan Cardoso, esse era o tempo em que a gente era feliz e sabia. Eu ia nos finais de semana. Tinha muita droga. Muita maconha, muito ácido. Foi um momento importante porque houve uma interpenetração cultural entre o morro e a baixada, por causa do pessoal que vendia pó, vendia fumo.” Ele próprio, segundo disse, não gostava particularmente das substâncias em voga naquele momento. “Eu sou uma pessoa medrosa. Experimentei uma ou duas vezes LSD. Não gostei, fiquei paranoico. Maconha eu usei muito, mas mais porque era coisa da época. O efeito em si… Me dava sono.”

Seu perfil de usuário era mais clássico: álcool, tabaco e cocaína. “Não era maconha, comida vegetariana, ácido. Eu era mais década de 50 do que década de 70. Fui quase viciado em cocaína. Parei porque achei que não ia aguentar fisicamente. É uma droga horrível. Ela te transforma num monstro narcísico. Dá uma sensação de onipotência, que na verdade é uma ‘oni-impotência’. Quando você está mais onipotente é na verdade quando você está completamente impotente: você fica só falando merda, fazendo besteira, e também não é um estimulante sexual. É uma droga idiota, fascista. Mas eu gostava. Eu usava.”

Entre o píer e a PUC, Viveiros de Castro conheceu a obra de Lévi-Strauss, que começava a ser lida no Brasil. O crítico literário Luiz Costa Lima, professor na mesma PUC, disse ter tomado contato com as ideias do antropólogo francês em meados dos anos 60, “quando começou a moda do estruturalismo”. Atraído pelo rigor formal das análises lévi-straussianas, passou a estudá-las a sério. O que aprendia, ensinava na faculdade. Viveiros de Castro seguiu seu curso. “O estruturalismo fazia parte daquilo que a esquerda tradicional considerava anátema”, disse o ex-aluno. “Falavam que era burguês, formalista, que negava a história. Tinha uma série de palavras de ordem que você ouvia.”

Costa Lima e o aluno se tornaram amigos. Formaram um grupo de estudos e se dedicaram por alguns anos, duas vezes por semana, à leitura sistemática das Mitológicas, a obra em que Lévi-Strauss analisa a lógica de mitos ameríndios, reunindo rigor formal e atenção aos detalhes concretos, significativos nas narrativas: cores, cheiros, comportamentos dos animais, detalhes escatológicos, sexo. “Fiquei fascinado com os mitos”, disse Viveiros de Castro. “Eram rabelaisianos, mas tinham uma lógica formal, por causa das combinações, das permutações. Eram ‘Mondrian no açougue’, como os filmes do Ivan. Aquilo tinha uma relação com as coisas que eu lia nos suplementos e de que gostava. Em particular a linguística. E os concretistas. Havia uma afinidade, não direta, mas havia, entre concretistas, tropicalismo e estruturalismo.”

Essa não foi a única influência que Costa Lima exerceria na vida do aluno. Terminada a faculdade, Viveiros de Castro não sabia que rumo tomar. Pensou em fazer pós-graduação em letras. O professor, crítico literário, o desestimulou. Fez isso, explicaria mais tarde, porque “o estudo de literatura sempre foi muito ruim no Brasil”. “Hoje é péssimo”, frisou. Recomendou ao aluno, entusiasmado pelas Mitológicas, que cursasse antropologia no Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Roberto DaMatta, à época professor do Museu, participou da banca de seleção para o mestrado. “Eu era besta pra cacete”, comentou Viveiros de Castro, ao falar sobre o exame. “O Matta me perguntou: ‘Estou vendo aqui no seu currículo que você leu Lévi-Strauss. O que você leu?’ E eu respondi: ‘Tudo!’”

Na sala de sua casa, em São Paulo, Marcio Silva acendeu um cigarro. O antropólogo pegou uma prancheta na qual havia anotado pontos importantes da trajetória intelectual de seu antigo orientador. Viveiros de Castro se tornou professor assistente do Museu em 1978, pouco depois de concluir o mestrado. Naquele mesmo ano, escreveu um artigo com seus professores Anthony

Seeger e Roberto DaMatta sobre a noção de pessoa entre os grupos indígenas da América do Sul, texto que se tornaria referência para o estudo desses povos.

Marcio ressaltou a audácia dos primeiros parágrafos do artigo. Ali os três autores afirmam que diferentes regiões do planeta haviam contribuído, no passado, com algum aspecto importante da teoria antropológica. A Melanésia, diziam, descobriu a reciprocidade – a obrigação social de dar, receber e retribuir “dádivas”, cuja circulação seria como a linha de costura da sociedade, mantendo-a coesa. O Sudeste Asiático, por sua vez, alargou a compreensão dos sistemas de parentesco e das alianças feitas por regras de casamento. Da África, lembravam, veio um entendimento melhor das linhagens, da bruxaria e da política.

Davam então o passo ousado. Os povos da América do Sul, menos pesquisados e conhecidos, deveriam também fazer sua contribuição, resultado de uma característica específica dessas sociedades: o privilégio que conferiam, em suas cosmologias, ao corpo. “Ele, o corpo, afirmado ou negado, pintado e perfurado, resguardado ou devorado, tende sempre a ocupar uma posição central na visão que as sociedades indígenas têm da natureza do ser humano.”

Perguntei a Marcio Silva se seu ex-orientador, à época desse artigo um jovem de 27 anos, não lhe parecia “atrevido, pretensioso”. “Essa palavra, ‘atrevido’, é boa”, respondeu Silva. “Às vezes ele parece gostar de correr riscos.”

Deu um exemplo. Nos anos 80, Viveiros de Castro retomou um tema, antes central, que estava fora de moda na antropologia: o parentesco. A partir do final do século XIX, pesquisadores passaram a identificar os laços forjados pela consanguinidade – aqueles que criam grupos de descendência – e pela aliança por casamento – laços que “costuram” as relações sociais entre grupos diferentes – como a coluna vertebral das “sociedades primitivas”. Era assim que elas se mantinham coesas, e era por meio do estudo desses laços que os antropólogos poderiam conhecê-las melhor.

Viveiros de Castro fez uma pergunta distinta. Ele não queria saber apenas o que o parentesco dizia sobre os povos indígenas, mas também o que as culturas ameríndias teriam a dizer sobre o parentesco. Será que os índios explicavam o parentesco do mesmo modo que nós, ocidentais? A ideia que lhe ocorreu é em tudo semelhante à lógica do perspectivismo. Pode ser considerada um passo prévio, mais fácil de compreender quando já se conhece a metafísica dos povos indígenas das Américas.

No Ocidente, ele disse, o que é dado são as relações de filiação, de “consanguinidade”. A ligação entre pais, irmãos e filhos é “natural”, logicamente anterior às relações com esposa, sogros e cunhados – relações de “afinidade” que não são dadas, mas construídas pelas escolhas dos indivíduos.

Para os povos ameríndios, contudo, o valor fundamental não está nos laços biológicos, “de sangue”, mas nas relações de aliança, com sogros e cunhados. Aquilo que para nós faz parte da cultura, do que precisa ser construído, para eles já é dado, é a referência que dá sentido e organiza as relações sociais. A lógica da afinidade, das normas que proíbem ou prescrevem casamentos entre pessoas e grupos distintos, é usada mesmo nas relações sociais relativamente distantes, com outros povos, inimigos e espíritos; relações que não têm a ver, necessariamente, com a troca de cônjuges.

O que precisa ser construído por eles, por outro lado, é aquilo que para nós já é dado: o corpo. A “consanguinidade”, a relação de semelhança corporal entre parentes e, até, entre pais e filhos, precisa ser fabricada mesmo depois do nascimento – por meio da partilha dos mesmos alimentos, por exemplo. Daí a importância do corpo, notada no artigo de 1978.

O atrevimento de seu ex-orientador, segundo Marcio Silva, foi tirar todas as consequências desse fato. Os dois modos de compreensão do parentesco têm implicações políticas distintas. “Numa sociedade como a nossa, a consanguinidade, a relação entre irmãos, é pensada como um modelo da relação social”, disse Silva. “Por exemplo, como Viveiros de Castro lembrava, na Revolução Francesa você tem liberdade, igualdade e fraternidade. Fiquemos com a fraternidade. A relação social boa é como se fosse uma relação entre irmãos. Mesmo que eu não tenha parentesco com você, eu sou seu irmão: somos ambos filhos de Deus. Também nas constituições laicas operamos com base nessa metáfora fortíssima de irmãos. O que significa dizer que você é meu irmão? Significa que somos semelhantes e que somos conectados por um ente superior. Que pode ser o Estado, pode ser Deus, pode ser o nosso pai, se formos irmãos mesmo. Isso que nos unifica é um termo superior.”

Já na lógica social dos povos indígenas, não há termo superior que unifique. Os outros – que podem ser um povo indígena diferente, o inimigo, os animais – são para os ameríndios, antes de tudo, uma espécie de cunhado. “O que significa chamar de cunhado? Entre dois cunhados não tem ninguém que seja superior: tem uma mulher que é diferente para cada um. Para um é irmã, para o outro é esposa. Somos relacionados porque vemos uma mesma mulher de maneiras diferentes.” Não há, aí, necessidade de Deus, de pai ou de Estado para se pensar a boa relação social.

“Lembro-me dele dizendo em sala de aula, em tom de blague, que na Amazônia não valia o lema ‘liberdade, igualdade e fraternidade’. Liberdade, tudo bem. Mas no lugar de igualdade, diferença. No lugar de fraternidade, afinidade.”

Se a Melanésia havia contribuído com a noção de reciprocidade, e a África com os grupos de descendência, então os povos da América do Sul forneciam, no início dos anos 90, a ideia de “afinidade potencial”. Tanto nesse caso quanto no perspectivismo ameríndio, que surgiria poucos anos depois, Viveiros de Castro usou conceitos ocidentais – natureza, cultura, consanguinidade, afinidade – para tentar entender as culturas ameríndias. Mas descobriu que era preciso invertê-los para que funcionassem bem naquelas sociedades.

As consequências políticas dessa operação, tanto no caso do parentesco quanto no da metafísica indígena, em que a natureza muda dependendo do observador, eram as mesmas. “Esse é um mundo em que você não tem um ponto de vista dominante, soberano, monárquico”, explicou Viveiros de Castro. “Ao contrário, a condição de sujeito está espalhada, dispersa. Não tem uma transcendência, um ponto de vista do todo, privilegiado. O perspectivismo é o correlato cosmológico, metafísico, da ideia de sociedade contra o Estado, do Pierre Clastres.”

No seu apartamento, em outubro passado, Viveiros de Castro parecia irritado. Explicou que havia se contrariado no trabalho, o que não era incomum. Descreveu mais de três décadas de uma relação conflituosa com seus colegas de instituição. A origem dos aborrecimentos, ele disse, remontava a 1978, quando havia concluído o mestrado e concorreu a uma vaga de professor assistente no Museu Nacional. Dois candidatos se apresentaram: ele próprio e o antropólogo João Pacheco de Oliveira Filho.

Oliveira Filho é, hoje, um dos principais representantes de uma linha de pesquisa importante na instituição carioca. Seus seguidores procuram entender os povos indígenas em suas relações com a sociedade e o Estado brasileiros. Essa corrente descende de Darcy Ribeiro, passando por Roberto Cardoso de Oliveira, um dos criadores da pós-graduação em antropologia no Museu Nacional, em 1968. Cardoso de Oliveira descreveu a “sociologia do contato”, que ele praticava, como uma tentativa de explicar a “sociedade tribal, vista não mais em si, mas em relação à sociedade envolvente”. Em um artigo recente, em que mencionava os Ticuna, do Amazonas, João Pacheco de Oliveira ressaltou que mesmo as “crenças, costumes e princípios organizativos” dos povos indígenas estão “interligados e articulados com determinaçõese projetos da sociedade nacional”.

Por telefone, o norte-americano Anthony Seeger, coautor do artigo de 1978 e orientador de Viveiros de Castro no doutorado, disse que ele e o aluno acreditavam que “as sociedades em si também mereciam atenção”. Ao se preocuparem com o parentesco e com as cosmologias dos grupos que estudavam, praticavam uma etnologia – a parte da antropologia que se ocupa dos povos indígenas – “clássica”, tida por representantes da outra corrente como excessivamente “filosófica”, apolítica e pouco comprometida com as circunstâncias sociais dos índios. De sua parte, Viveiros de Castro acredita que é a “sociologia do contato”, uma linha de pesquisa, ele diz, associada à “esquerda tradicional”, que é politicamente questionável. Seus rivais veriam os índios a partir da mesma perspectiva adotada pelo Estado, como parte do Brasil. Ele, ao contrário, inverteria o ponto de vista. Partiria das sociedades indígenas, tomando suas ideias e práticas como referências para criticar o Brasil, o Estado, o capitalismo.

Viveiros de Castro perdeu o concurso de 1978. Segundo ele porque os representantes da esquerda tradicional eram majoritários na banca. João Pacheco de Oliveira Filho foi o escolhido, mas uma segunda vaga foi criada. O etnólogo “clássico” se tornou, ele também, um jovem professor do Museu. Nos anos seguintes, o que começara como uma disputa teórica se transformaria em cizânia e ressentimento.

Tanto assim que as opiniões sobre o antropólogo carioca se dividem, de maneira marcada. Entre ex-alunos, ele é reconhecido por gestos de generosidade e de correção intelectual. Contudo, são também frequentes os relatos de arrogância na relação de Viveiros de Castro com os colegas, o que contribui para o clima de animosidade na instituição. Ele próprio disse representar, no Museu, “uma posição que é considerada trouble maker, anarquista, e que despreza os outros”. “Isso é quase verdade. Sou tido como alguém que não leva muito a sério o outro tipo de antropologia que é feita lá. De fato. Eu nunca manifestei isso, acho eu. Mas o pessoal percebe. Hoje eu diria que está quase todo mundo aliado ao João, e contra mim. Alguns ficam em cima do muro, que é a posição mais confortável.”

O antropólogo Paulo Maia, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-orientando de Viveiros de Castro, afirma que o antigo professor tende a assumir posições pouco diplomáticas. “Ele não quer encontrar um meio-termo: quer marcar posições”, disse Maia. “O Eduardo não busca o consenso e não gosta de pessoas que têm um caráter mais subalterno, boazinhas. Ele gosta de gente mais intempestiva mesmo. Na própria escrita dele, dá para ver isso. É um estilo que não é muito diferente do modo como ele fala. O que para muitos alunos é encantador. A escrita dele é cativante.”

Em 1997, a tensão entre colegas no Museu Nacional se tornou mais aguda. A instituição abriu concurso para professor titular, o posto mais alto da carreira universitária. Quase duas décadas depois da primeira disputa entre os dois, Viveiros de Castro e João Pacheco de Oliveira tinham novamente a intenção de se candidatar à mesma posição. Outros integrantes do departamento se mobilizaram para evitar o embate. “Houve uma pressão muito forte, dentro da instituição, para que só se apresentasse um candidato”, disse Viveiros de Castro. “Partindo daquele éthos característico da academia, em que você prefere arranjar as coisas para evitar situações delicadas. Entenda-se: para que não entre a pessoa que você não quer.”

A solução encontrada, segundo professores do Museu, foi a realização de um sorteio prévio: quem ganhasse se apresentaria como candidato, e o derrotado desistiria da disputa. Viveiros de Castro perdeu.

Naquele mesmo ano, o antropólogo viajou para a Inglaterra, convidado para uma temporada de um ano na Universidade de Cambridge. Lá, conheceu Marilyn Strathern, professora titular de antropologia social na instituição, talvez o cargo de maior prestígio da disciplina. Ela ainda não conhecia o trabalho do colega brasileiro, que fez quatro conferências sobre o perspectivismo ameríndio. Strathern disse ter ficado impressionada com o argumento, exposto com “erudição e autoconfiança” – o mesmo atrevimento que lhe causava problemas em casa ajudava-o a conquistar audiências estrangeiras. A ideia exposta por Viveiros de Castro pareceu à professora “profundamente imaginativa e bastante precisa”.

O texto sobre o perspectivismo foi lançado em inglês em 1998. “Foram essas conferências de Cambridge e a publicação em inglês que alçaram o tema a uma posição de destaque no campo antropológico”, observou Viveiros de Castro. Segundo Strathern, as ideias do brasileiro fazem, hoje, parte do cânone apresentado aos estudantes de pós-graduação da disciplina no Reino Unido.

O caráter conflituoso de Viveiros de Castro se manifesta nas redes sociais. O antropólogo tem mantido, nos últimos anos, intensa atividade política no Twitter e no Facebook. Seus curtos enunciados são às vezes enigmáticos, com frequência irônicos, quase sempre militantes. Em outubro, quando manifestantes subiram no Monumento às Bandeiras, em São Paulo, e cobriram de tinta as estátuas de Brecheret que celebram a conquista do Oeste pelos paulistas, com consequências trágicas para os índios, ele ofereceu seu veredicto: “É preciso derrubar essa porcaria.”

Boa parte das frases e dos pequenos textos que publicou no Twitter e no Facebook, desde junho, manifestava entusiasmo pelas manifestações de rua, das quais ele evitou participar, por medo de aglomerações. Seus posts revelavam também o que ele chamou de “simpatia” em relação à ação dos black blocs. “É espantoso como a esquerda tradicional está histérica com os black blocs”, ele me disse. “Está histérica porque não controla, porque não é partido. Não é militante de partido. Os black blocs nem existem como movimento. É uma tática.”

“Devo dizer que fiquei muito feliz de ver os manifestantes subirem na parte de cima do Caveirão. Gostaria que eles tivessem virado o Caveirão de cabeça para baixo. Se tivessem feito isso, acharia legal! E será que destruir a porta de um banco é uma coisa assim tão abominável? Em que será que se está tocando quando se quebra a porta de um banco? Por que deixa todo mundo tão nervoso?”

Já havia manifestado ideia semelhante no Facebook. “Quebrou uma vitrine do Banco Itaú, é vândalo, apanha da polícia e vai pro presídio; desapareceu com bilhões do BNDES, é empresário em dificuldades, vai para recuperação judicial”, publicou, no início de novembro. Estendeu-se um pouco mais noutro comentário: “O que o Estado faz, e deixa fazer, com os índios é um resumo altamente concentrado e potencializado do que ele faz, e deixa que façam, com toda a população. Os que dizem que não se pode mesmo dar mole para esses selvagens, que é preciso logo civilizá-los etc., são como o servo que se acha senhor porque o servo do lado levou mais chicotadas no lombo do que ele.”

Em seu apartamento, ao lado da mulher, o antropólogo explicou sua conversão recente às redes sociais, resultado de uma briga com a imprensa mainstream. Há pouco mais de três anos, a revista Veja publicou uma reportagem intitulada “A farra da antropologia oportunista”. Criticava a multiplicação de povos indígenas no país, interessados nas terras que sua nova condição lhes daria direito. “Em 2000, o Ceará contava com seis povos indígenas”, o texto registrava. “Hoje, tem doze. Na Bahia, catorze populações reivindicam reservas. Na Amazônia, quarenta grupos de ribeirinhos de repente se descobriram índios.”

Citavam então Viveiros de Castro, atribuindo a ele uma opinião crítica aos “índios ressurgidos”: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original.” A primeira frase havia sido retirada de um texto publicado pelo antropólogo, intitulado “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. A segunda, ele nunca disse ou escreveu. “Colocaram entre aspas uma frase que tiraram de um artigo meu, e acrescentaram a ela outra, que eles inventaram.” Ao inventarem, puseram em sua boca ideias opostas às que ele defende. Nas últimas décadas, argumentou o antropólogo, tem acontecido no Brasil algo inverso ao problema que ocupava os fundadores da sociologia do contato. Em vez de os índios se tornarem, aos poucos, brasileiros, são os brasileiros que estão virando índios. E não é necessário um “ambiente de cultura indígena original” para que um grupo advogue essa condição.

“Várias populações tradicionais estão se redescobrindo indígenas. Isso acontece porque eram índios. Foram obrigadas a esquecer que eram, forçadas a aprender português. Houve um processo de branqueamento que nunca se completou. E não se completar fazia parte do processo: o cara deixava de ser índio, mas você não o deixava virar branco. Parava no meio. Virava um brasileiro. O que é um brasileiro? É um índio pra quem você diz: ‘Você vai ser branco, você deixará de ser índio’, mas o cara para no meio. Você é quase branco. O cara perde a sua condição indígena, mas não ganha do outro lado.”

Foi para divulgar sua indignação com a revista, disse o antropólogo, que ele passou a usar as redes sociais. Primeiro o Twitter, no qual tem hoje cerca de 4 600 seguidores. Depois o Facebook, onde conta com mil amigos e quase 5 mil seguidores.

Um dos temas caros a Viveiros de Castro e a Déborah Danowski, tratado com frequência por ele em sua militância na internet, é o que chamam de “catástrofe” ambiental. Em outubro, no dia do primeiro leilão do pré-sal, o antropólogo escreveu: “Não faça parte das minorias com projetos ideológicos irreais: colabore para a destruição do planeta. Deus proverá. Viva Libra, viva a Shell, viva a Total, viva a China, viva o Brasil.” Em meados de novembro, um outro post conclamava: “Liberar a Terra das cadeias produtivas.”

Desde os anos 80, o antropólogo milita contra a construção de hidrelétricas na Amazônia. Foi um dos fundadores do ISA, o Instituto Socioambiental, uma das principais ONGs de defesa do meio ambiente e dos povos indígenas no país. Na sala de sua casa, no Rio, o casal citou estimativas de aquecimento global feitas pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU. Um aumento de temperatura que não é improvável neste século, disseram, pode pôr em risco a maior floresta do planeta. “A parte oriental da Amazônia é mais seca do que a ocidental”, afirmou o antropólogo. “Essa parte mais seca, em alguns lugares, está começando a perder mais água do que recebe. Aquilo está secando. Um processo de ressecamento progressivo, discreto talvez, no sentido de que não é uma coisa catastrófica. Mas acontece que, se essa floresta passa de determinado ponto crítico de ressecamento, uma hora pega fogo e ninguém mais apaga.”

Os dois lembraram ainda a impossibilidade de o planeta comportar, para toda a sua população, o atual padrão de produção e consumo ocidental. “O que vai acontecer, provavelmente, é a falência degenerativa, muito mais do que apocalíptica, do atual sistema técnico-econômico mundial, que não vai se sustentar”, disse Viveiros de Castro. “Temos que nos preparar para um mundo radicalmente diferente deste em que vivemos. Temos que pensar num mundo fora do milênio, fora da ideia de que um dia vamos dar tudo para todos, seja no capitalismo ‘sustentável’, dois ponto zero, seja no socialismo.
A ideia de que vamos finalmente chegar a um estágio de plenitude, de abundância e de equilíbrio. Nós não vamos. Minha impressão é de que estamos numa curva descendente do ponto de vista da civilização, talvez da espécie, e que a gente tem que se preparar para o declínio.”

Argumentei que há quem conte com inovações tecnológicas, como já aconteceu no passado, para mover a fronteira dos limites planetários. “Eu acho que isso é religião”, respondeu o antropólogo. “Essa coisa de que vamos sair dessa é teologia. É achar que o homem sempre pode dar um jeito, pela sua capacidade, de transcender as condições naturais. Isso para mim é cristianismo laicizado.”

O que fazer? “Oposição ao governo, dono de um projeto ecocida”, respondeu. O antropólogo votou em Marina Silva, em 2010, mas disse ter dúvidas se repetirá o apoio em 2014, caso ela venha a concorrer. “Não morro de paixão pelas alianças que ela fez nem por sua base de consulta intelectual”, composta por economistas liberais. “Mas nada, nem o Serra, vai me fazer votar na Dilma. Não adianta virem com o Serra pra cima de mim. ‘Olha o Serra!’ Não há Cristo, nem Diabo, que me faça votar na Dilma.”

A política partidária, de toda forma, parece pouco relevante em seu discurso, fatalista. “Pode ser que nós, ocidentais de classe média, o francês, o brasileiro rico de São Paulo, o americano, pode ser que passemos pela mesma coisa por que passaram os índios em 1500. Eles continuam aí, mas o mundo deles acabou em 1500. Se formos falar do fim do mundo, pergunte aos índios como é, porque eles sabem. Eles viveram isso. A América acabou. Pode ser que venhamos todos a ser índios, nesse sentido. Todos venhamos a passar por essa experiência de ter um mundo desabando. No caso deles, eles foram invadidos por nós. Nós também vamos ser invadidos por nós. Já estamos sendo invadidos por nós mesmos. Vamos acabar com nós mesmos da mesma maneira como acabamos com os índios: com essa concepção de que é preciso crescer mais, produzir mais.”

No seu apartamento, já de noite, Viveiros de Castro se disse pessimista. “Mas esse pessimismo não é paralisante. Não é um quietismo. A sensação que eu tenho é de que a gente está lutando dentro de casa. Quarteirão a quarteirão. Como essas guerrilhas.” Deu um exemplo de resistência. “Dizem que os índios já foram incorporados ao capitalismo. Mas não foram dominados mentalmente. Já foram dominados economicamente, politicamente, mas não mentalmente. O problema com os índios é que eles são insubordinados. Você não consegue domesticar o índio. É por isso que o governo tem tanto horror deles.”

“É isso que significa o brasileiro virar índio”, disse, alargando o sentido da frase. “Numa versão ‘Twitter’, para encurtar a conversa, é isso. É virar black bloc. Menos pelego, e mais black bloc.”

Em 2008, Marilyn Strathern se aposentou do cargo de professora titular de antropologia social, em Cambridge. Mais de um ano antes, tinha dado início ao processo de escolha de seu sucessor. Ela sugeriu ao etnólogo carioca que apresentasse sua candidatura ao posto.

Viveiros de Castro disse que foi só por causa da insistência da amiga que concordou em concorrer. “Relutei e tergiversei, pois não tinha a intenção de aceitar”, diria mais tarde. Além de razões práticas – como o trabalho de sua mulher no Rio –, afirmou que “sabia do tamanho do abacaxi que era ser o cabeça da antropologia social” na universidade inglesa. Disse não ter vontade de se dedicar à administração acadêmica, o que certamente seria exigido pela posição.

De toda forma, no final de 2007, estava entre os três finalistas. Viajou à Inglaterra para apresentar uma aula na universidade, parte do processo de seleção. Na sala em que falou, numa noite fria do outono inglês, alunos e professores se apertavam, muitos sentados no chão, outros espremidos nos cantos, junto às paredes.

Foi só quatro anos depois de concorrer à vaga na Inglaterra que Viveiros de Castro pôde afinal se candidatar, em 2011, ao posto de professor titular do Museu Nacional. O memorial que escreveu para o pleito foi redigido “num tom quase insolente” de propósito, ele disse. Ali ele afirma que sua produção intelectual “exerceu uma influência teórica muito significativa” na antropologia, “talvez a influência mais significativa exercida até o presente pelo trabalho de um antropólogo brasileiro”. No mesmo texto, voltou ao assunto do cargo em Cambridge, revelando seu desfecho. “Fizeram-me saber (ou deixaram-me saber, como se diz) que eu tinha todas as chances de ser o escolhido. Escrevi rapidamente ao departamento e a Marilyn recusando o posto, just in case. Eu realmente queria continuar sendo um jardineiro em Petrópolis.”

Considerava já ter alcançado, então, o objetivo de se fazer ouvir ao norte do Equador. No memorial, um balanço de mais de três décadas de atividade intelectual, Viveiros de Castro afirmou ter tido, desde o início de sua carreira, o propósito explícito de “rebater para a matriz nossas lucubrações periféricas” e de “meter a colher na sopa metropolitana”.

“Cuido que consegui”, ele conclui, sem modéstia.

Major Reductions in Seafloor Marine Life from Climate Change by 2100 (Science Daily)

Dec. 31, 2013 — A new study quantifies for the first time future losses in deep-sea marine life, using advanced climate models. Results show that even the most remote deep-sea ecosystems are not safe from the impacts of climate change. 

Large animals (megafauna), such as this hydroid Corymorpha glacialis, are projected to suffer major declines under the latest climate change predictions. (Credit: National Oceanography Centre)

An international team of scientists predict seafloor dwelling marine life will decline by up to 38 per cent in the North Atlantic and over five per cent globally over the next century. These changes will be driven by a reduction in the plants and animals that live at the surface of the oceans that feed deep-sea communities. As a result, ecosystem services such as fishing will be threatened.

In the study, led by the National Oceanography Centre, the team used the latest suite of climate models to predict changes in food supply throughout the world oceans. They then applied a relationship between food supply and biomass calculated from a huge global database of marine life.

The results of the study are published this week in the scientific journal Global Change Biology.

These changes in seafloor communities are expected despite living on average four kilometres under the surface of the ocean. This is because their food source, the remains of surface ocean marine life that sink to the seafloor, will dwindle because of a decline in nutrient availability. Nutrient supplies will suffer because of climate impacts such as a slowing of the global ocean circulation, as well as increased separation between water masses — known as ‘stratification’ — as a result of warmer and rainier weather.

Lead author Dr Daniel Jones says: “There has been some speculation about climate change impacts on the seafloor, but we wanted to try and make numerical projections for these changes and estimate specifically where they would occur.

“We were expecting some negative changes around the world, but the extent of changes, particularly in the North Atlantic, were staggering. Globally we are talking about losses of marine life weighing more than every person on the planet put together.”

The projected changes in marine life are not consistent across the world, but most areas will experience negative change. Over 80 per cent of all identified key habitats — such as cold-water coral reefs, seamounts and canyons — will suffer losses in total biomass. The analysis also predicts that animals will get smaller. Smaller animals tend to use energy less efficiently, thereby impacting seabed fisheries and exacerbating the effects of the overall declines in available food.

The study was funded by the Natural Environment Research Council (NERC) as part of the Marine Environmental Mapping Programme (MAREMAP), and involved researchers from the National Oceanography Centre, the Memorial University of Newfoundland, Canada, the University of Tasmania, and the Laboratoire des Sciences du Climat et de l’Environnement, France.

Journal Reference:

  1. Daniel O. B. Jones, Andrew Yool, Chih-Lin Wei, Stephanie A. Henson, Henry A. Ruhl, Reg A. Watson, Marion Gehlen.Global reductions in seafloor biomass in response to climate changeGlobal Change Biology, 2013; DOI:10.1111/gcb.12480