Arquivo mensal: julho 2011

Nordeste perde um quinto dos reservatórios de água em 2010 (FSP)

JC e-mail 4304, de 20 de Julho de 2011.

Relatório aponta bacias da região semiárida como as mais críticas.

A região Nordeste do País perdeu, entre outubro de 2009 e outubro de 2010, 20% dos reservatórios de água que possuía no período anterior, segundo a ANA (Agência Nacional de Águas). O dado está em um relatório sobre os recursos hídricos do País, publicado ontem e disponível em http://bit.ly/pnZBqo. Segundo a agência, a perda de reservatórios na região se deve à menor quantidade de chuvas.

Na região ficam as bacias do Semiárido, um dos pontos críticos quanto aos recursos hídricos, segundo o relatório. Também são classificadas assim as bacias do rio Meia Ponte, no Centro-Oeste, e a do Tietê, no Sudeste.

A definição leva em conta a disponibilidade e o uso de água, além da presença ou não de vegetação nativa e como é feito o tratamento dos resíduos sólidos no local. Segundo a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, a ideia é, a partir dos dados do relatório, “focar os esforços nas áreas críticas”.

A ampliação dos serviços de saneamento foi apontada como prioridade pela ministra, principalmente nas cidades de até 50 mil habitantes. O pior índice de qualidade da água é o das áreas de grande densidade urbana.
(Folha de São Paulo)

Rios em péssimas condições (O Globo)

JC e-mail 4304, de 20 de Julho de 2011.

Brasil tem só 4% de recursos hídricos com qualidade ótima, segundo relatório.

Com 12% da oferta de água do planeta, o Brasil tem apenas 4% de seus recursos hídricos com qualidade considerada ótima, percentual que caiu seis pontos de 2008 para 2009. Segundo avaliação do “Informe 2011 da Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil”, divulgado ontem pela Agência Nacional de Águas (ANA), cem rios estão em situação ruim ou péssima.

Para avaliar o índice de qualidade da água, a agência usa nove parâmetros, que levam em conta principalmente a contaminação dos rios pelo lançamento de esgoto. Essa centena de rios em situação precária não consegue depurar naturalmente a quantidade de resíduos que vêm recebendo. Embora o governo argumente que está fazendo investimentos em políticas públicas de saneamento, mais da metade das cidades do país – 2.926 municípios – não tem tratamento de esgoto. O relatório aponta que em 2009 foram investidos R$21,4 bilhões em saneamento e gestão da água, sendo R$13,2 bilhões em obras de tratamento de esgoto.

A água de pior qualidade se concentra perto das regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador e das cidades de médio porte, como Campinas (SP) e Juiz de Fora (MG). Entre os rios cuja água é de péssima ou má qualidade, estão o Tietê, que corta a capital paulista, o Iguaçu, que forma as famosas Cataratas do Iguaçu, e o Guandu-Mirim, no Rio – os dois últimos ficam dentro de unidades de conservação, o Parque Nacional do Iguaçu e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Guandu, respectivamente.

Entre 2008 e 2009, a água de qualidade péssima no país se manteve em 2%; a ruim aumentou de 6% para 7%; a regular passou de 12% para 16% e a boa subiu de 70% para 71%. Nesse período, o número de pontos monitorados caiu de 1.812 para 1.747. O superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da agência, Ney Maranhão, mostrou-se satisfeito com os resultados do estudo.

– Temos 90,6% dos rios num estado satisfatório de qualidade e de disponibilidade (quantidade de água). Apenas 2% não apresentam resultado satisfatório – avaliou Maranhão, que coordenou o trabalho.

Estresse hídrico e agricultura – Maranhão ressaltou que as políticas públicas têm sido direcionadas para as bacias que estão em situação crítica, seja por apresentarem baixa disponibilidade ou qualidade de água. A maior parte dos rios e bacias com problema de oferta de água se encontra no Nordeste.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que, no futuro, o estresse hídrico (falta de água em algumas regiões do país) vai impactar na agricultura. Ao todo, 69% dos recursos consumidos pela população são usados em irrigação. Izabella aproveitou a ocasião para mandar um recado ao Congresso, onde tramita a reforma do Código Florestal.

– Quando estamos discutindo Código Florestal, não falamos apenas do uso do solo. Estamos falando de recursos hídricos e qualidade de vida. O relatório traz com muita propriedade o estresse hídrico com perda de mata ciliar (vegetação nativa às margens dos rios). Onde se desmata mata ciliar, há comprometimento dos recursos hídricos – afirmou a ministra.

O levantamento da ANA também levou em conta o problema das mudanças climáticas, responsáveis por eventos naturais extremos em datas diferentes no ano passado: a estiagem na Amazônia; as enchentes em Alagoas, Pernambuco e em Minas Gerais; as cheias no Rio, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Um exemplo do agravamento dessa situação: em 2006, foram registradas 135 situações de emergência ou de calamidade pública por conta de fortes chuvas. Em 2010, esse número de ocorrências subiu para 601. No total, quase 10% das cidades brasileiras – 563 municípios – decretaram situação de emergência devido a enchentes, inundações, enxurradas e alagamentos.

No caso das secas, houve uma inversão: 2010 registrou menos casos de emergência (583) do que 2006 (914). Entre 2009 e 2010 houve diminuição de 20,8% no nível dos reservatórios de água construídos no Nordeste para combater estiagens.
(O Globo)

La Niña’s Exit Leaves Climate Forecasts in Limbo (NASA)

06.29.11

The latest satellite data of Pacific Ocean sea surface heights from the NASA/European Ocean Surface Topography Mission/Jason-2 satellite show near-normal conditions in the equatorial Pacific. The image is based on the average of 10 days of data centered on June 18, 2011. Higher (warmer) than normal sea surface heights are indicated by yellows and reds, while lower (cooler) than normal sea surface heights are depicted in blues and purples. Green indicates near-normal conditions. Image credit: NASA/JPL Ocean Surface Topography Team

It’s what Bill Patzert, a climatologist and oceanographer at NASA’s Jet Propulsion Laboratory in Pasadena, Calif., likes to call a “La Nada” – that puzzling period between cycles of the El Niño-Southern Oscillation climate pattern in the Pacific Ocean when sea surface heights in the equatorial Pacific are near average.

The comings and goings of El Niño and La Niña are part of a long-term, evolving state of global climate, for which measurements of sea surface height are a key indicator. For the past three months, since last year’s strong La Niña event dissipated, data collected by the U.S.-French Ocean Surface Topography Mission (OSTM)/Jason-2 oceanography satellite have shown that the equatorial Pacific sea surface heights have been stable and near average. Elsewhere, however, the northeastern Pacific Ocean remains quite cool, with sea levels much lower than normal. The presence of cool ocean waters off the U.S. West Coast has also been a factor in this year’s cool and foggy spring there.

The current state of the Pacific is shown in this OSTM/Jason-2 image, based on the average of 10 days of data centered on June 18, 2011. The image depicts places where Pacific sea surface height is higher (warmer) than normal as yellow and red, while places where the sea surface is lower (cooler) than normal are shown in blue and purple. Green indicates near-normal conditions. Sea surface height is an indicator of how much of the sun’s heat is stored in the upper ocean.

For oceanographers and climate scientists like Patzert, “La Nada” conditions can bring with them a high degree of uncertainty. While some forecasters (targeting the next couple of seasons) have suggested La Nada will bring about “normal” weather conditions, Patzert cautions previous protracted La Nadas have often delivered unruly jet stream patterns and wild weather swings.

In addition, some climatologists are pondering whether a warm El Niño pattern (which often follows La Niña) may be lurking over the horizon. Patzert says that would be perfectly fine for the United States.

“For the United States, there would be some positives to the appearance of El Niño this summer,” Patzert said. “The parched and fire-ravaged southern tier of the country would certainly benefit from a good El Niño soaking. Looking ahead to late August and September, El Niño would also tend to dampen the 2011 hurricane season in the United States. We’ve had enough wild and punishing weather this year. Relief from the drought across the southern United States and a mild hurricane season would be very welcome.”

Jason-2 scientists will continue to monitor Pacific Ocean sea surface heights for signs of El Niño, La Niña or prolonged neutral conditions.

JPL manages the U.S. portion of the OSTM/Jason-2 mission for NASA’s Science Mission Directorate, Washington, D.C.

For more information on NASA’s ocean surface topography missions, visit: http://sealevel.jpl.nasa.gov/missions/.

To view the latest Jason-1 and OSTM/Jason-2 data, visit: http://sealevel.jpl.nasa.gov/science/elninopdo/latestdata/.

Alan Buis 818-354-0474
Jet Propulsion Laboratory, Pasadena, Calif.
Alan.buis@jpl.nasa.gov

2011-199

Estudo faz diagnóstico atualizado da situação da água e de sua gestão no Brasil (ANA)

JC e-mail 4303, de 19 de Julho de 2011.

Relatório da ANA aponta desafios para a qualidade das águas e evolução da gestão dos recursos hídricos.

A partir de hoje (19), o Brasil saberá qual é a real situação da água no País em vários aspectos, como: disponibilidade hídrica, qualidade e gestão de recursos hídricos. A Agência Nacional de Águas (ANA) divulga o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil – Informe 2011. A publicação estará disponível também no site: http://conjuntura.ana.gov.br/conjuntura/.

Com dados consolidados até dezembro de 2010, o estudo da ANA, que atende a uma demanda do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, é uma ferramenta de acompanhamento sistemático e anual da condição dos recursos hídricos e de sua gestão em escala nacional, por regiões hidrográficas, em temas fundamentais para o setor de recursos hídricos, como: volume de chuvas; ocorrência de eventos hidrológicos críticos (secas e cheias); disponibilidade hídrica nas diferentes regiões do Brasil; os usos múltiplos da água (irrigação, saneamento e hidroeletricidade, por exemplo); qualidade das águas; a evolução dos comitês de bacias; o planejamento, a regulação e a cobrança pelo uso dos recursos hídricos.

O trabalho registra melhorias na qualidade da água na última década em algumas bacias brasileiras, que receberam investimentos em tratamento de esgotos. Além disso, o estudo mostra que em 2010, 19% dos municípios brasileiros decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública devido à ocorrência de cheias ou problemas de estiagem ou seca, sendo que o número geral desses registros caiu de 1967, em 2009, para 1184 no ano passado. No aspecto da gestão de recursos hídricos, o Informe 2011 indica um aumento do número de comitês de bacias e da área de cobertura do território nacional por planos de recursos hídricos (51% do território nacional) – planos diretores que visam a fundamentar e orientar a implementação do gerenciamento e da Política Nacional de Recursos Hídricos.

O Informe 2011 contém uma análise considerando de forma integrada os aspectos de quantidade (relação entre demanda de água e oferta – balanço quantitativo) e qualidade da água nas bacias brasileiras. Os resultados dessa avaliação apontam para um conjunto de bacias críticas, onde há maior potencial para ocorrência de conflitos pelo uso da água, que deverão merecer atenção crescente por parte dos gestores de recursos hídricos.

Para a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil – Informe 2011 é uma ferramenta importante para que o País conheça a realidade da condição de suas águas. “O acompanhamento e a avaliação da situação dos recursos hídricos em escala nacional pelo Relatório subsidiam a definição das ações e intervenções necessárias para a melhora da quantidade e da qualidade das águas”, afirma.

Segundo o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, o Informe 2011 permite o acompanhamento dos desafios e da evolução do setor de recursos hídricos no Brasil. “Por meio do Relatório de Conjuntura, os gestores públicos têm um panorama da situação dos recursos hídricos do País, o que permite a evolução da gestão de nossas águas”, destaca.

Para a elaboração do Relatório de Conjuntura – Informe 2011, a ANA contou com a parceria da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (SRHU/MMA), Departamento Nacional de Obras contras as Secas (DNOCS), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e de todos os órgãos gestores estaduais de recursos hídricos e meio ambiente.

A primeira edição do Relatório de Conjuntura foi lançada em 2009, em reunião do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH). No ano seguinte, o trabalho serviu de base para a 1ª atualização do Plano Nacional de Recursos Hídricos. Entre 2010 e 2012, estão previstos Informes anuais que atualizam os dados do estudo.

Qualidade das águas – Em comparação ao Informe 2010, o diagnóstico dos mais de 1.700 pontos analisados quanto à qualidade das águas revela a manutenção do quadro geral do País com várias bacias comprometidas devido ao grande lançamento de esgotos urbanos domésticos sem tratamento adequado, especialmente nas regiões metropolitanas. No entanto, em algumas bacias foi possível associar melhorias na qualidade das águas a investimentos realizados em tratamento de esgotos na última década, como por exemplo nas seguintes bacias: do rio das Velhas, Paraíba do Sul, Grande e Tietê (Reservatório Billings – Braço do Taquacetuba).

Eventos críticos – Em 2010, exatos 563 municípios brasileiros decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública devido à ocorrência de cheias, causadas por chuvas acima da média histórica. São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Pernambuco, Bahia e os estados da região Sul foram os mais atingidos. Já o Semiárido e a região Amazônica concentraram a maior parte dos 521 municípios (aproximadamente 9% do total nacional) que tiveram que decretar situação de emergência ou estado de calamidade pública em decorrência de estiagem (evento mais duradouro) ou seca. Em comparação a 2009, o número de ocorrências de 2010 caiu de 1967 para 1184.

Irrigação – Responsável por 69% do consumo de água no Brasil, a irrigação atingia no final da última década 4,5 milhões de hectares irrigados dos 29,6 milhões irrigáveis.

Hidroeletricidade – Entre 2009 e 2010, ocorreu um aumento de 2.093 MW (acréscimo de 3%) na capacidade hidrelétrica instalada que alcançou, ao final de 2010, 80.703 MW, o que representa 71% da matriz elétrica nacional.

Gestão de recursos hídricos – Sobre o planejamento de recursos hídricos em bacias interestaduais, em 2010 foi concluído e aprovado o Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Doce. Os planos da Bacia Amazônica – Afluentes da Margem Direita e Verde Grande, concluídos em 2010, tiveram sua aprovação em 2011, respectivamente pelo CNRH e pelo comitê da bacia do Verde Grande. Com isso, a cobertura do território brasileiro por planos de recursos hídricos finalizados chegou a 51%. Com a conclusão de seus planos estaduais de recursos hídricos, Piauí e Minas Gerais fizeram com que 12 das 27 da unidades da Federação tivessem o instrumento. Estes planos diretores visam a fundamentar e orientar a implementação do gerenciamento e da Política Nacional de Recursos Hídricos.

No que diz respeito aos comitês de bacias, em 2007 havia 150 no País. Já em 2010, o número chegou a 173 desses colegiados (um tipo de parlamento das águas), sendo 164 estaduais e 9 interestaduais. Já a cobrança pelo uso dos recursos hídricos entrou em funcionamento na bacia do rio São Francisco, integrando com as bacias do Paraíba do Sul e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), o conjunto de bacias interestaduais com cobrança implementada.

Sobre a outorga de direito de uso de recursos hídricos, entre 2009 e 2010 houve um aumento de 8% na vazão total outorgada no País, que chegou a 5.825m³/s, em virtude do avanço da implementação do instrumento pelos estados, do aumento da demanda por água e também devido ao aumento da base de dados considerada neste Informe 2011, quando comparada com a dos relatórios passados.

Nota-se também uma tendência do fortalecimento das políticas estaduais e nacional de recursos hídricos em bacias onde há maior comprometimento quali-quantitativo.
(Ascom da ANA)

Ensino americano abandona aos poucos a escrita em cursivo (Valor Econômico)

JC e-mail 4302, de 18 de Julho de 2011.

Maioria dos estados já não obriga o aprendizado; especialistas veem tendência.

O estado de Indiana, localizado no Meio-Oeste americano, acabou com a exigência de que as suas escolas ensinem a escrita cursiva, aquele estilo de escrever em que as palavras são formadas com letras emendadas pelas pontas. Com isso, juntou-se a uma onda crescente nos Estados Unidos de privilegiar no currículo outras habilidades hoje consideradas mais úteis, como digitar textos em teclados dos computadores.

Com a mudança, Indiana alinha-se a um padrão comum de ensino adotado por 46 Estados americanos. Nele, não há nenhuma menção à escrita cursiva, mas recomenda-se o ensino de digitação. É um reconhecimento de que, com as novas tecnologias, como computadores e telefones inteligentes, as pessoas cada vez menos precisam escrever de forma cursiva, seja no trabalho ou nas suas atividades do dia-a-dia. Basta aprender a escrever com a mão – exigência que ainda faz parte do currículo de Indiana e dos padrões comuns adotados pelos estados – seja com letras de forma, cursiva ou um misto dos dois estilos.

Também é um reflexo do que muitos nos Estados Unidos veem como uma sobrecarga no currículo escolar, com tempo sempre insuficiente para ensinar disciplinas consideradas fundamentais para passar nos testes usados para admissão nas faculdades, como matemática e leitura de textos. Pesquisas nacionais sobre como o tempo é gasto nas salas de aula mostram que 90% dos professores da 1ª a 3ª séries do ensino primário dedicam apenas 60 minutos por semana ao desenvolvimento da escrita com a mão.

A tendência de abandonar o ensino da escrita cursiva é vista com preocupação por parte dos americanos. Para alguns, as novas gerações terão mais dificuldades para fazer atividades básicas, como preencher e assinar cheques. Outros ponderam que os jovens não serão capazes de ler a declaração de independência no original, toda escrita de forma cursiva, num argumento que apela para o patriotismo americano.

Richard S. Christen, professor da Escola de Educação da Universidade de Portland, no Estado do Oregon, é um dos que dizem que as escolas devem pensar duas vezes antes de suspender o ensino da escrita cursiva, embora ele considere cada vez mais difícil defender a tese de que essa é uma habilidade com valor prático.

Divulgação – Richard Christen, professor da Escola de Educação da Universidade de Portland. “Se você voltar ao século XVII ou XIX, seria impossível fechar negócios sem os escrivãos, que foram cuidadosamente treinados na técnica de escrever com as mãos para registrar os fatos”, disse Christen ao Valor. “Mas hoje o valor prático disso é bem menor.”

Ele pondera, porém, que a escrita cursiva também tem um valor estético em si mesma e diz respeito a valores importantes como civilidade. “A escrita cursiva é um jeito de as pessoas se comunicarem com as outras de forma elegante, valorizando a beleza”, afirma. “Essa é uma chance para as crianças fazerem algo com suas mãos todos os dias, prestando atenção para os elementos de beleza, como formas, contornos e linhas”, afirma. Além disso, estimula as crianças a prestarem atenção na forma como se dirigem e se comunicam com as outras pessoas.

Para o professor Steve Graham, da Universidade de Vanderbilt, uma das maiores autoridades americanas no assunto, a questão central não é necessariamente a escrita cursiva, mas sim preservar o espaço para a escrita à mão de forma geral no currículo.

Apesar de todo o barulho em torno das novas tecnologias, a realidade, afirma ele ao Valor, é que hoje a maioria das crianças nas escolas americanas ainda faz os seus trabalhos em sala de aula com as mãos, pois de forma geral ainda não existe um computador para cada uma delas. Num ambiente como esse, a boa grafia é crucial para o bom aprendizado e para o sucesso na vida acadêmica, ainda que no mundo fora das salas de aula predominem computadores, iPads e telefones inteligentes.

Pesquisa recente conduzida por Graham mostra que, se trabalhos escolares ou provas são apresentados numa grafia sofrível, as notas tendem a ser mais baixas, a despeito do conteúdo. “As pessoas formam opiniões sobre a qualidade de suas ideias com base na sua qualidade de sua escrita”, afirma Graham.

Nesse estudo, alunos escreveram redações, que foram submetidas em seguida a avaliações com notas entre 0 e 100. O passo seguinte foi pegar redações medianas, que tiveram nota 50, e reproduzir seu conteúdo em duas versões, uma com grafia impecável e outra com grafia sofrível, embora legível. Submetidas a uma nova avaliação, a conclusão é que a mesma redação mediana ganhou notas muito boas quando escrita com letras caprichadas e notas inferiores quando escritas com garranchos.

A habilidade de escrever à mão também tem influência sobre a capacidade da criança de produzir bons conteúdos na escrita. Velocidade é crucial. Quando a escrita se torna um processo automático, afirma Graham, as ideias fluem mais rapidamente do cérebro para o papel e, portanto, não se perdem no meio do caminho. Pessoas bem treinadas para escrever com as mãos fazem tudo de forma automática e não precisam pensar sobre o que ocorre com o lápis – e sobram assim mais neurônios para serem dedicados a coisas mais importantes, como refletir sobre a mensagem, organizar as ideias e formar frases e parágrafos.

São bons argumentos para não se abandonar o ensino da escrita à mão pela digitação. Mas qual técnica é mais importante: a cursiva ou a simples escrita à mão? Graham diz que a escrita em letras de forma é em geral mais legível do que a cursiva, mas a escrita cursiva é mais rápida do que a escrita em letra de forma. “As diferenças não são grandes o suficiente para justificar muito debate”, disse. “O importante é ter um estilo de escrita à mão que seja ao mesmo tempo legível e rápido.”

Mas no futuro, reconhece ele, o ensino da escrita à mão pode se tornar menos importante, à medida que ter um computador para cada aluno se torne algo universal. O ensino de digitação, por outro lado, torna-se cada vez mais relevante. “Eles são muito bons com seus telefones, com o twitter, mas não com os computadores”, afirma Graham.

No Brasil, educadores se dividem sobre benefícios – Pais decepcionados com o aprendizado dos filhos poderiam dizer que tudo não passa de um debate bizantino sobre se é melhor tentar decifrar garranchos escritos com letra de médico ou torpedos criptografados numa novilíngua que aboliu as vogais. De qualquer forma, as opiniões se dividem também entre os educadores brasileiros quando se discute a validade de um abandono do ensino da escrita em cursivo.

Para Telma Weisz, doutora em psicologia da aprendizagem e do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP) e supervisora pedagógica do Programa Ler e Escrever, do governo do Estado de São Paulo, “a escrita manuscrita é um resto da Idade Média”. “Do ponto de vista da aprendizagem, não há perda em não usar a manuscrita”, afirma. Segundo ela, a escrita cursiva ajuda o aluno a memorizar a forma ortográfica das palavras, mas um programa de computador processador de texto tem a mesma eficiência, “com mais recursos, aliás”.

Weisz diz que o problema não é desprezar a escrita cursiva e mergulhar de vez na digitação, e sim que “no Brasil não há condições de se fazer isso. Temos escolas onde não há luz, que dirá escola onde todos os alunos tenham um computador”.

João Batista Araujo e Oliveira, doutor em pesquisa educacional pela Florida State University (EUA) e presidente do Instituto Alfa e Beto, ONG dedicada à alfabetização, discorda de Weisz. “Há pesquisas que comparam crianças que aprenderam com a letra cursiva e que aprenderam no teclado, e quem escreve mais à mão grava mais a forma ortográfica da palavra”, diz.

No entanto, Oliveira não tem uma posição radical contra a política adotada pela maioria dos Estados americanos, de não obrigar o ensino do cursivo. “Essas coisas mudam mesmo, é inevitável. Sempre que você tem uma tecnologia nova você procura um meio mais eficiente de avançar. A letra cursiva, por exemplo, é um grande avanço em relação à letra de forma, porque o aluno não tira o lápis do papel.”

Oliveira acredita que antes de se fazer uma mudança dessas é preciso pensar nos “efeitos colaterais”, dando como exemplo a tabuada e a máquina de calcular. “Para pagar o táxi, o cafezinho, você tem que fazer conta de cabeça. Quem só ensina usando a calculadora priva o cidadão de uma competência que dá uma eficiência social muito grande.”

Luis Marcio Barbosa, diretor-geral do colégio Equipe, de São Paulo, descarta adotar a política na sua escola. “Há um conjunto de aprendizado que vem junto com o aprendizado da escrita cursiva que é imprescindível para o desenvolvimento das crianças, que tem a ver com a motricidade, com a organização espacial.” E, além de tudo, diz, “as crianças podem aprender as duas coisas, não precisa ser uma em detrimento da outra.”

A vida dos índios da cidade grande (OESP)

Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110717/not_imp745999,0.php

Na Favela Real Parque, onde se instalaram nos anos 1950, pancararus conservam tradições espirituais; em aldeia de Parelheiros, crianças guaranis colhem frutas no pé

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

Assim como migrantes nordestinos, os pancararus começaram a chegar da zona do sertão do São Francisco, em Pernambuco, em meados da década de 1950, em busca de emprego. Eles foram chamados para cortar árvores em loteamentos do bairro do Morumbi, na zona sul, e depois ajudaram nas obras da construção do estádio do São Paulo.

Paulo Liebert/AE. No extremo sul. Índios guaranis na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros

Instalaram-se nos terrenos vizinhos, descampados que viraram a Favela Real Parque, hoje em processo de urbanização. Estima-se que existam pelo menos mais de 3 mil pancararus na capital, o que os tornaria uma das etnias mais numerosas da cidade. “Depois do incêndio na favela (ocorrido em setembro do ano passado), muitos se dispersaram. Eram mil e hoje são cerca de 200. Estão vivendo de aluguel em outros bairros ou voltaram para a aldeia”, diz o pancararu Ubirajara Ângelo de Souza, de 47 anos, que chegou à Real Parque aos 20 anos. Seu pai trabalhou nas obras do estádio do Morumbi.

Na favela ainda existem lideranças espirituais que rezam nas casas dos indígenas locais e usam ervas medicinais para cura. Também há grupos de canto e dança que utilizam trajes tradicionais em festas indígenas na capital. Para se adaptar às transformações na cidade, os pancararus precisaram aprender a conviver nos últimos anos com as lideranças do tráfico local. “É cada um de um lado. Eu os respeito e eles nos respeitam”, diz Ubirajara, que assim que vender sua casa deve voltar para a aldeia onde nasceu, em Pernambuco.

A melhoria de renda nos Estados do Norte e do Nordeste, por sinal, pode estar levando muitos indígenas a retornar às suas aldeias. Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram redução entre aqueles que se declaram indígenas na Grande São Paulo e na capital. Há dez anos, 33 mil pessoas diziam ser indígenas na metrópole. Atualmente, são 21 mil.

A aldeia guarani Tenondê Porã, em Parelheiros. Tiago Queiroz/AE

No ano que vem, o IBGE vai divulgar os números da primeira pesquisa em que os indígenas declararam aos recenseadores suas etnias. O levantamento mais completo na capital havia sido feito no ano passado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e apontou a existência de 22 etnias na metrópole paulista. “Ainda é preciso olhar os números do censo com cautela. Pode estar de fato havendo uma onda migratória, porque os indígenas se mudam com grande frequência. Mas só os resultados detalhados no ano que vem vão permitir sabermos com mais clareza o que está ocorrendo”, afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Mesmo em uma das maiores cidades do mundo, a vida dos índios paulistanos pode ser bem parecida à de indígenas de tribos no interior do País. Na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros, vivem cerca de 1,2 mil guaranis, a 70 quilômetros da Praça da Sé. São basicamente oito grandes famílias, com filhos, netos, bisnetos, genros e noras, que compartilham casas de tijolos, construídas pelo Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU), seguindo as orientações dos próprios indígenas.

Pratica-se basicamente a agricultura de subsistência, que fornece o alimento cotidiano. Há bananeiras, pés de goiaba, mexerica, goiaba, laranja e manga, que as crianças colhem no pé. A renda vem basicamente do artesanato indígena, vendido para lojinhas da capital.

O cacique, líder local, trava atualmente uma briga para ampliar os perímetros das terras guaranis. Cinco pajés servem como guias espirituais, dando conselhos e rezando em uma casa sagrada. Os pajés também batizam as crianças da aldeia com nomes em guarani, dependendo das características de cada uma. “Vivemos em família, por isso nunca um deixa faltar nada ao outro em nossa comunidade”, afirma o coordenador educacional indígena da aldeia, Adriano Veríssimo, que em guarani se chama Tenonde Porã, nome que significa “belo futuro”.

A vida fora das aldeias pode ser mais difícil. O terena Elton José, de 32 anos, veio para Mogi das Cruzes há dez anos, depois de nascer em uma aldeia em Mato Grosso do Sul onde caçava com lanças e morava em ocas de palha. Acabou seus estudos na Grande São Paulo e hoje trabalha com tecnologia da informação, prestando serviço a grandes empresas. Ele admite que na Grande São Paulo teve acesso a um tipo de conforto que jamais teria se tivesse permanecido em sua aldeia, mas sente falta do que deixou para trás e quer voltar. “Há conforto, mas não há qualidade de vida. Sinto falta do mato. Em São Paulo, você vegeta se não tem dinheiro. O contato familiar é sempre difícil e a relação com os parentes é algo que prezamos muito”, diz.

Elton conta, no entanto, que só passou a realmente valorizar a cultura indígena depois de deixar a sua aldeia.

Ana Rosa Verissimo, de 89 anos, quarenta deles vividos na aldeia Tenondê Porã. Ela veio com o marido do Paraná e tem mais de cem descendentes, entre filhos, netos e bisnetos. Paulo Liebert/AE

Keila Pires de Lima, de 7 anos, na aldeia guarani Tenondê Porã, Paulo Liebert/AE

O xavante Lúcio Waane Terowaa usa brincos de madeira santa. Segundo a tradição, eles ajudam a prever o futuro por meio dos sonhos. Nilton Fukuda/AE.

Índias da aldeia guarani Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

Tucano e indiozinho na aldeia Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

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Cidade de SP tem 38 etnias indígenas
Levantamento da ONG Opção Brasil mostra que Região Metropolitana tem quase o mesmo nº de povos que o Estado do Amazonas

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

O índio xavante Lúcio Waane Terowaa, de 33 anos, migrou para São Paulo há cinco anos vindo de uma tribo de Barra do Garças, em Mato Grosso. Chegou ao Itaim Paulista, na zona leste, para seguir os passos do mais famoso representante de sua etnia, o cacique Mário Juruna, eleito deputado constituinte em 1986, conhecido por gravar promessas suspeitas de políticos.

No ano passado, em São Paulo, Terowaa se lançou candidato a deputado estadual pelo PSL e teve 318 votos. Em vez do gravador, usa o Facebook como ferramenta política. Tem 910 amigos, com quem debate formas de criar uma aldeia “ecologicamente correta” e autossustentável, que sirva como modelo a ser replicado no Brasil, a partir de São Paulo. “Tenho amigos virtuais de 23 etnias só aqui na cidade. É uma das maiores diversidades do Brasil e por isso São Paulo é uma base importante para a política indígena.”

As impressões do xavante são confirmadas pelo levantamento feito pela ONG Opção Brasil, que organiza cursos de educação indígena nas tribos de São Paulo. Na Região Metropolitana, a Opção Brasil já contactou índios de 54 etnias diferentes – 38 só na capital. No Estado do Amazonas, o site da Fundação Nacional do Índio relaciona 60 etnias.

A exemplo de migrantes das zonas rurais e sertões, os indígenas de São Paulo chegam em busca de emprego e vivem principalmente em bairros pobres da periferia. “Fazemos o mapeamento pelo contato boca a boca. Um índio passa o telefone de outro. O objetivo é criar uma rede para que a vida na cidade grande seja mais fácil”, explica o coordenador da Opção Brasil, Marcos Aguiar.

Os guaranis – índios autóctones que já viviam no Estado antes da chegada dos portugueses – são a única etnia a viver em aldeias na cidade. Duas delas, a Krucutu e a Tenonde Porã, ficam em Parelheiros, na zona sul. A terceira, a Tekoah Itu, é do Pico do Jaraguá, na zona norte. Reúnem cerca de 3 mil guaranis. A Expedição Metrópole foi até lá visitá-los (veja na C3).

As outras 53 etnias são formadas por índios que moram em bairros e favelas da metrópole. Pode ser um pastor evangélico wassu cocal ou um faxineiro cambiuá. Em comum, enfrentam o desafio de carregar uma cultura tradicional e coletivista em uma sociedade moderna e competitiva. “Viver no mundo de hoje sem negar as origens é uma arte”, diz a pedagoga Chirley de Souza Almeida Santos, de 37 anos, pancará que mora na cidade há 12.

Philippines: Geckos Are A No-Go For AIDS (NPR)

by SCOTT HENSLEY
12:09 pm
July 18, 2011

The trade in dried geckos, such as these from Indonesia, is on the rise amid growing demand for their use as an ingredient in medicinal and skin care products in Asia.

Traditional forms of medicine used in China and elsewhere in Asia make use of some wild ingredients — literally — from rhino horn to pangolin scales.

But geckos? Yep, in some places even those lizards, thrust into many Americans’ consciousness by omnipresent insurance ads, are used as remedies.

The description of a scientific paper published back in 1998 by the journal Zhong Yao Cai, or the Journal of Chinese Medicinal Materials, says the heads and feet of geckos “have obvious pharmacological action without any toxic or side effects….” The article is in Chinese, though, which is beyond Shots.

But health officials in the Philippines are now warning people not to rely on geckos as medical treatments for some serious conditions, including infection with HIV. “The folkloric practice of using geckos (or “tuko”) as cure for AIDS and asthma persists to this day and is of serious concern….” the Philippines Department of Health said in a statement. “There is no basis that this practice cures ailments like AIDS or brings relief from symptoms of asthma. Thus, we do not recommend it as cure for any ailment.”

Folk healers in the country sometimes recommend “pulverized, fried geckos” sprinkled over water as a remedy for asthma sufferers, according to Agence France-Presse.

The Tokay Gecko, also called “tuko” in the Philippines, is the principal target of hunters. Besides telling people not to use the lizards for medicine, the Philippines government is reminding its citizens not to trap and sell them, because it’s against the law.

The demand for geckos as traditional medicine ingredients has reportedly led to “rampant collection and trade,” the government has said. And that’s putting the gecko population under pressure. In recent years, Chinese demand for sea cucumbers harvested in the Philippines has pushed some species toward extinction.

Geckos can be pretty nasty and give quite a bite. A gecko hunter in Indonesia describes his own battles with the geckos in the Al Jazeera video below.

As raízes coloniais do entendimento da alma nacional (FAPESP)

HUMANIDADES | MELANCOLIA
A psicologia do púlpito

Carlos Haag
Edição Impressa 185 – Julho 2011

© MELENCOLIA I (GRAVURA DE ALBRECHT DÜRER / WIKIMEDIA COMMONS)

Em seu Sermão da quarta dominga depois da Páscoa, o padre Antônio Vieira (1608-1697) discute a tristeza a partir da passagem bíblica em que Cristo anuncia sua morte aos apóstolos, que se entristecem. Para Vieira, porém, a causa daquela tristeza não era a ausência iminente do mestre, mas o silêncio diante de sua partida. Se tivessem perguntado aonde Cristo iria teriam compreendido que não havia motivos para sofrer. Assim, a causa da tristeza era o silêncio. Num curioso paralelo, em 1895, Freud afirmou: “Sofremos de reminiscências que se curam lembrando”. A base da psicanálise freudiana era a cura pela palavra e pelo autoconhecimento da alma. Algo a que, em 1676, Vieira (leia mais na página 86) já aludia em As cinco pedras da funda de Davi: “O primeiro móbil de todas as nossas ações é o conhecimento de nós mesmos”, acrescentando no Sermão da quarta dominga do advento: “Nenhuma coisa trazemos mais esquecida, mais detrás de nós que a nós mesmos”.

“Nessa primeira modernidade havia uma forma de terapia que usava as palavras para tratar as dores da alma, ainda que identificá-la diretamente com a psicoterapia atual seja uma imprecisão”, explica o psicólogo Paulo José Carvalho da Silva, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor da pesquisa Ideias sobre as dores da alma no Brasil entre os séculos XVI e XVIII, apoiada pela FAPESP. “Ainda assim, investigar as noções de dores da alma nesse período é um desdobramento original da história das ideias psicológicas, uma área de pesquisa emergente na história da ciência. A psicologia como ciência de práticas terapêuticas só foi sistematizada no final do século XIX, mas desde a Antiguidade muitos pensadores quiseram compreender e tratar a alma e um dos nomes desses saberes era a medicina da alma”, analisa o pesquisador. “Muitos dos conceitos da psicologia moderna têm raízes no passado e olhar para esse passado nos permite reconhecer os elos de continuidade com nosso presente, as origens de teorias e métodos próprios do nosso modo de pensar. Se analisarmos o conjunto da produção luso-brasileira colonial, destacando-se o aporte dos jesuítas, notamos a criação de formas e métodos para a construção de um tipo de conhecimento da subjetividade e do comportamento humanos muito relevantes para a definição dos alicerces que darão origem à psicologia moderna”, afirma a psicóloga Marina Massimi, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo e autora, entre outros, de História da psicologia brasileira (E.P.U.) “A preocupação com os fenômenos psicológicos no Brasil não é recente e desde os tempos da colônia eles aparecem em obras de filosofia, moral, teologia, medicina, política etc. cujo estudo mostra uma produção muitas vezes original e mesmo questões até hoje atuais”, concorda a psicóloga Mitsuko Makino Antunes, da PUC-SP, e autora de A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição.

O psicólogo e professor da USP Isaías Pessotti observa em seu estudo Notas para uma história da psicologia brasileira que “a evolução da psicologia moderna começa no Brasil colonial em que se veiculam ideias de interesse para a área em diversas áreas do saber mesmo sem a presunção de construir uma psicologia”. Segundo o pesquisador, esses textos eram explicitamente sobre outros temas, mas tratavam de questões como método de ensino, controle das emoções, causas da loucura, diferença de comportamentos entre sexos e raças etc. compondo o pensamento da elite cultural da época colonial. “É um período pré-institucional, pois o que se publica são obras desvinculadas de instituições da psicologia. São trabalhos individuais, sem compromisso com a construção ou difusão do saber psicológico, escritos por autores indiferentes ao progresso do saber psicológico per se. Na sua maioria são religiosos ou políticos, homens de projeção e poder, iluminados pela cultura europeia e interessados em usar essa ‘psicologia’ para a organização da sociedade e do Estado brasileiro.”

Os tratamentos para as patologias da alma eram assumidos, no início, pelos religiosos, no caso do Brasil colônia pelos missionários jesuítas, seguidos de outros, embora isso não significasse que a medicina da alma fosse uma empresa estritamente religiosa. Postulava-se, de modo geral, uma continuidade entre a dor do corpo e a da alma, identificada como tristeza, luto ou descontentamento. “Na primeira modernidade, o debate filosófico sobre a definição da natureza das paixões também incluía sua relação com a violência. Muitos sustentavam que a paixão era um perigoso elemento da natureza humana com enorme potencial subversivo. Filósofos das mais variadas tradições afirmavam que as paixões são capazes de corromper governos, arruinar sociedades ou mesmo provocar a morte. A paixão era um problema da ordem da ética, da política, estética, medicina e da teologia”, nota Carvalho da Silva. Para os que viviam no Brasil dos séculos XVI e XVII, experimentar uma paixão era sinônimo de “sentir”, de ter sentimentos, e ser afetado por uma paixão significava emocionar-se, viver uma emoção. “Há uma produção cultural elaborada no Brasil que mostra o interesse predominante dessa dimensão poderosa e frágil da experiência humana. O conhecimento, controle e manipulação das paixões, em sua natureza teórica e prática, eram um instrumento particularmente importante para os objetivos religiosos, sociais e políticos da Companhia de Jesus, como revela o interesse dos jesuítas sobre o tema”, avalia Marina Massimi.

© NARCISO (MICHELANGELO CARAVAGGIO / WIKIMEDIA COMMONS)

O sistema baseava-se nas teorias formuladas por Aristóteles, revisitado no século XIII por Tomás de Aquino (daí a sua denominação de doutrina “aristotélico-tomista”), um caldo reelaborado pelos pensadores da companhia, nos chamados tratados Conimbrences (termo derivado de Conimbrica, nome latino da cidade de Coimbra, onde os estudos foram elaborados), comentários das obras aristotélicas sobre as paixões. Esses estudiosos atribuíam grande importância aos estados da alma definidos como paixões, entendidas como movimentos do apetite sensitivo, provenientes da apreensão do bem ou do mal, acarretando algum tipo de mutação não natural do corpo. “Os filósofos jesuítas reafirmaram, nos moldes de Aristóteles e Aquino, a função positiva das paixões, caso fossem ordenadas pela razão, o que ajudaria na sobrevivência do homem e o ajudariam a alcançar a virtude. Elas se transformariam em doenças ou distúrbios do ânimo apenas enquanto se afastam da regra e moderação da razão. Assim, a ‘psicologia’ dos Conimbrences é expressiva da posição cultural da modernidade nascente”, avalia Marina. Nesse movimento se estabelece uma analogia profunda entre o organismo do homem, considerado como realidade psicossomática, e o organismo político-social. “É nesse encontro que o controle e a terapia das paixões parecem encontrar sua função teórica e prática. Na dinâmica do corpo social, bem como na do corpo individual, o ‘despotismo’ das paixões deve ser submetido a uma ‘monarquia’ onde o governo da razão e da liberdade atribua a cada aspecto da vida psíquica sua função e seu lugar peculiar”, completa a pesquisadora.

“Daí decorre a importância da pregação, vista como fonte de transmissão de conceitos e práticas psicológicas, mas também como expressão da articulação entre retórica, teoria do conhecimento e psicologia filosófica, resultando numa prática de uso da palavra muito significativa e, num certo sentido, precursora da moderna confiança na força da palavra e do discurso que está presente na psicanálise e nas psicoterapias em geral.” A palavra do pregador seria capaz de mudar juízos e atitudes dos ouvintes e um dos alicerces desse poder, nota a autora, seria a possibilidade de a palavra atingir e mobilizar o dinamismo psíquico dos destinatários, nos termos das psicologias formuladas por Aristóteles, Tomás e Agostinho. “A palavra pregada visa ensinar o ato de conhecimento envolvendo todo o psiquismo humano”, afirma Marina. Um caso exemplar disso seriam os Sermões de Vieira, onde se combinariam a preocupação jesuítica com os efeitos morais da tristeza entre a população brasileira, a apreensão pela insatisfação melancólica dos colonos e a longa tradição europeia de meditações médicas, filosóficas e teológicas sobre essa paixão da alma. “Vieira enfatiza a universalidade e a gravidade da tristeza a que estão sujeitos mesmo os reis de todas as terras, os imperadores mais poderosos e os papa. Ela é tão perigosa para a saúde do corpo como para a salvação da alma. Mais ou menos aguda, a tristeza é sempre mortal, é como um verme que come por dentro, secando tudo até que o princípio da vida se apague. Também segundo ele, as tristezas que permanecem ocultas são as mais opressivas, sensíveis e perigosas”, explica Carvalho.

Mas a dor era entendida como um fenômeno da condição humana que extravasa os limites concebíveis entre a alma, o corpo e mesmo os limites que separariam um indivíduo de outro. O que revela que existia uma confluência de saberes e campos que ora se apresentavam dissociados, mas que, naquele período, dialogavam de modo mais ou menos fluente. Falar sobre a dor implicava abordar não apenas a saúde e a doença, mas temas como finitude e eternidade, perda e separação, fantasia e realidade, afeto e razão, gozo e sofrimento, vida e morte”, continua o pesquisador. “Que é este mundo senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças e mortes?”, escreveu o Padre Vieira. A consolação passou, então, a fazer parte das atividades pastorais, e ao lado da administração dos sacramentos os padres ofereciam a medicina da alma para aqueles que se encontravam na dor. “Para tanto, a identificação da verdadeira e legítima dor é uma referência fundamental para o consolador cristão e uma condição para a experiência de ir além da dor, necessária para a salvação da alma. Todo consolador, como todo confessor, deve saber nomear a dor de quem sofre”, diz Carvalho. Segundo o pesquisador, os sermões eram o meio mais utilizado para a realização da arte da consolação e da medicina da alma em sua função psicológica e espiritual, o que pressupunha um conhecimento prático sobre a importância da memória na experiência da dor e no seu tratamento, em especial, na sua função na origem e na permanência das dores da alma e, portanto, na sua superação. “Mas é importante lembrar que consolar-se é fruto de uma decisão solitária e pessoal. Na medida em que a noção de indivíduo e de vida interior ganhou mais espaço na mentalidade moderna, a relação entre conhecimento de si e a experiência da consolação foi se estreitando cada vez mais.”

Vieira, em particular, apostava na autonomia da razão humana para dominar suas paixões e apetites quando afirma que “o conhecimento de si mesmo, e o conceito que cada um faz de si, é uma força poderosa sobre as próprias ações”. É preciso voltar os olhos, sempre abertos em coisas exteriores, para o interior. “Frei Chagas, por exemplo, recomendava que era melhor empregar o tempo e a inteligência não tanto no exame da história, da geografia e da cultura, mas no da própria alma. Essa anatomia de si é o equivalente moderno do que se viria a ser a análise da alma, ou seja, a decomposição nas menores partes para poder compreendê-la melhor”, nota o autor. “O saber de si mesmo é visto como funcional para o controle sobre suas próprias ações, fundamentando-se na possibilidade de o sujeito representar sua vivência interior através do discurso. A necessidade da palavra para formular o autoconhecimento faz com que esse não seja possível, por exemplo, em experiências intensas como o choro simplesmente. O autoconhecimento se traduz num discurso cuja finalidade é comunicar para o outro a experiência vivenciada. O outro é um ouvinte. A escuta, que ele oferece ao sujeito, permite a este a melhor articulação de sua comunicação verbal e a catarse. O relacionamento interpessoal e o diálogo assumem uma função terapêutica, princípio, aliás, de toda psicoterapia moderna”, analisa Marina. Assim, o sujeito ocupa um lugar ativo, sendo o conhecimento possível pela transformação em discurso da vivência interior que ele próprio elabora. A consciência dos fenômenos e sua comunicação verbal são as condições para o entendimento deste fenômeno.

© DETALHE DE O SONHO DE CONSTANTINO (PIERO DELLA FRANCESCA / WIKIMEDIA COMMONS)

“As palavras, ao mesmo tempo que objetivam os fenômenos subjetivos, exteriorizando o que era contido na intimidade da pessoa, favorecem a libertação das emoções penosas desses estados.” Falar das dores podia aliviar o coração, bem como silenciá-las fazia com que essas se acumulassem e aumentassem ainda mais. “Era possível curar por meio da palavra. Acreditava-se também que o verdadeiro orador, como um médico de almas, curaria seus auditórios de suas enfermidades, combatendo as paixões que lhes são contrárias: eles apaziguam a cólera, aumentam a coragem e fazem suceder o amor ao ódio, e assim por diante”, fala Carvalho. “Vale lembrar ainda a importância da imagem, que, juntamente com a palavra, é um grande recurso de transmissão cultural em sociedades marcadas pela oralidade”, observa Marina.

A chegada de novos princípios científicos ao Brasil colonial trazem mudanças nessa visão psicológica do homem. “Desenvolvem-se uma psicologia e uma psicopatologia inovadoras em relação à tradição cultural anterior. Sendo a mente redutível ao organismo e sendo este regulado pelas leis da natureza, é possível abordar o seu estudo por meio do método científico, que já se mostrara efetivo na física e na biologia. Os distúrbios psíquicos, assim, que dependem do funcionamento do organismo segundo essa nova visão iluminada, poderiam ser conhecidos causalmente, prevenidos e tratados, modificando as variáveis por remédios físicos e normas higiênicas”, explica a pesquisadora. “A terapêutica das dores da alma, agora, deve ser realizada por remédios farmacêuticos que acabam por subordinar a teologia moral à medicina, considerada a disciplina que ultimamente pode instrumentar os tratamentos da alma, inclusive aqueles tradicionalmente cuidados pelos confessores”, concorda Carvalho.

É o caso, por exemplo, de Francisco de Mello Franco (1757-1822), que em sua Medicina teológica postula que a figura do confessor seja substituída pela do médico que detém o conhecimento exato das causas das enfermidades da alma e proporciona os métodos terapêuticos como remédio, tudo fruto de uma análise objetiva e causal. “O objetivo da psicologia médica do século XVIII, que será consolidada no século XIX, é o de definir uma ‘verdade’ sobre o homem, alternativa à proclamada pelo saber tradicional de matriz cristã. A felicidade é identificada com a boa regulação da máquina corporal, segundo a ordem do sistema da natureza”, diz Marina. “Não é uma cura pela palavra, mas uma medicina propriamente dita. Obras como a de Mello Franco propõem a substituição dos confessores pela nova medicina dos nervos e defende que é necessário conhecer os nervos, sua estrutura, para poder tratar os vícios humanos. Na contramão da medicina da alma, abre-se uma nova via à medicina, fundada nas bases de uma nova concepção de homem, de ciência e de racionalidade”, defende Carvalho.

Afinal, o mundo ideal preconizado em sermões não se sustentava mais. “O sonho de uma sociedade ordenada pela verdade e pela justiça é substituído pela consciência da inevitabilidade do destino imposto pelo regime colonial. Então, a dimensão psicológica interior do homem não é mais concebida como o espelho da harmonia universal, como queria a reforma ordenada aristotélico-tomista, nem como o lugar onde mora no homem aquela faísca divina que garante a sua imortalidade, mas como o refúgio precário e passageiro do indivíduo ante os absolutismos do poder e a desordem exterior da sociedade”, explica a pesquisadora. Aos poucos, nasce a ideologia do caráter nacional brasileiro que manipula traços psicológicos na construção de teorias para definir características coletivas do “brasileiro”. “No século XIX, o processo de organização da sociedade nacional traz a necessidade de nivelar os sujeitos sociais e culturais. A nova pergunta é ‘quem somos nós?’ Creio que foi a ocorrência desse processo um dos motivos que explicam, parcialmente, por que a introdução e a difusão da psicologia moderna no país, em suas vertentes de ciência do comportamento ou da psicologia das diferenças individuais, com suas técnicas de avaliação e de medida do ser humano, foi muito favorecida e apoiada como instrumento oportuno e moderno a ser utilizado nessa perspectiva.” Até o início do século XIX não havia no Brasil uma psicologia propriamente dita como prática reconhecida. Mas era crescente o interesse da elite nacional pela produção e aplicação de saberes psicológicos, em especial nas recém-criadas faculdades de Medicina do Rio e da Bahia, onde se produziram várias teses sobre o tema.

Na Bahia, a preocupação principal era a aplicação da psicologia nos problemas sociais, como na higiene mental e psiquiatria forense. No Rio, o interesse era sobre a relação da psicologia com a neuropsiquiatria e a neurologia, com estudos de psicologia experimental. “Boa parte dessas produções se ligava ao movimento que buscava o saneamento das cidades, o que envolvia a eliminação das ‘imundícies’ físicas e morais dos centros urbanos. Os médicos se envolviam em ações para erradicar esses problemas e criar uma sociedade sadia, organizada, normalizada, livre da desordem e dos desvios da escória social. Chegaram os hospícios, com o argumento de ajudar o louco, os quais seriam asilos higiênicos, com base no tratamento moral, mas serviram apenas para excluir do convívio social os indesejáveis”, nota Mitsuko Antunes. Uma escolha que trouxe graves consequências para a psicologia nacional. “Um psicólogo enraizado em sua cultura e sociedade é um agente de transformação social e não de normalização. Hoje temos uma escolha: atuar na redução do ser humano como peça produtiva da sociedade globalizada ou atuar para afirmá-lo como protagonista da sociedade. Acho que o conhecimento das ideias psicológicas surgidas no âmago da história cultural de nosso país tem a função de iluminar essa escolha”, avalia Marina.

“O socialismo é uma doutrina triunfante” (Brasil de Fato)

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

12/07/2011

Joana Tavares

da Redação

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.

ABC e INMET fecham parceria com Organização Meteorológica Mundial (Ascom do INMET)

Firmado acordo de cooperação internacional para meteorologia

JC e-mail 4300, de 14 de Julho de 2011

O ministro Marco Farani,diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), esteve na sede do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em Brasília, no início do mês, para assinar os termos do Programa Executivo de implementação de um Projeto de Cooperação Técnica com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), no valor aproximado de 11 milhões de dólares. O projeto tem a finalidade de promover a consolidação das atividades do INMET relacionadas à previsão numérica de tempo e ao monitoramento e previsão de eventos severos. Será desenvolvido pela OMM, em conjunto com a ABC, e executado pelo INMET, no período de cinco anos.

Segundo o diretor do INMET, Antonio Divino Moura, o novo projeto toma como base e dá seguimento aos excelentes resultados alcançados por meio de um Projeto de Cooperação Técnica anterior (2002-2007) que possibilitou ao Brasil a implantação de uma moderna rede de estações meteorológicas de superfície, com economia de cerca de R$ 40 milhões ao Brasil.

Marco Farani considera que é obrigação da Agência Brasileira de Cooperação apoiar as instituições brasileiras que querem e precisam da cooperação para poder evoluir, adquirir mais conhecimentos e tecnologia. “Esse projeto que nós assinamos com o INMET e com a OMM vai permitir tudo isso. Por outro lado, nós nos preocupamos em levar um pouco do lado brasileiro para o exterior, compartilhar com outros países nossas boas práticas. Nós queremos estimular uma atuação maior do INMET no exterior, de forma a levar boas práticas e tecnologias do Brasil a países em desenvolvimento e agir de forma solidária com eles. Então, nós temos essas duas vias: a via de apoiar a captação de tecnologia, de conhecimento para o Brasil, pela cooperação; e de apoiar o compartilhamento e a prestação de apoio e de ajuda aos países, a partir do conhecimento acumulado no Brasil”, disse Marco Farani.

Em 7 de junho de 2011, aproveitando sua participação no 16º Congresso Meteorológico Mundial, realizado em Genebra, Suíça, Divino Moura obteve a assinatura do Secretário Executivo da OMM, Michel Jarraud, nos termos do Programa Executivo de implementação do Projeto de Cooperação Técnica com aquela Organização.
(Ascom do INMET)

Filósofo define elementos da “corrupção pós-moderna” (JC)

JC e-mail 4298, de 12 de Julho de 2011.

Renato Janine Ribeiro avalia as práticas políticas brasileiras e questiona: é possível governar com ética?

Uma das conferências da 63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizada na manhã desta segunda-feira (11), foi proferida por Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP). Na ocasião, ele falou sobre “a corrupção como ameaça à vida republicana”, avaliando as dificuldades da política contemporânea em lidar com a ética.

O professor foi apresentado por Aldo Malavasi, secretário geral da SBPC e seu companheiro de docência na USP. Malavasi iniciou os trabalhos elogiando a capacidade argumentativa de Janine Ribeiro: “você não hesita em suas falas”. O palestrante esmiuçou a etimologia de “corrupção”. O ponto de partida da palavra seria a filosofia natural do mundo antigo que, grosso modo, definia o termo como morte do corpo, degeneração das células. Por extensão, os antigos consideravam o espaço da política também como um corpo que poderia apodrecer e perder a vitalidade social; ou seja, perder as virtudes exigidas aos homens no espaço público.

Para os romanos, cuja forma de governança era a república, ou “governo para o bem comum”, a maior corrupção seria o retorno ao mundo privado ou o desvirtuamento da atenção dos homens para longe das decisões públicas. A segunda forma de definir a ação foi feita como referência à política moderna, cujos Estados são sustentados a custas de impostos e encargos da própria população e as decisões, ainda que políticas, são tomadas com base em um orçamento comum. De modo que a corrupção moderna, então, teria relação direta com o furto ao patrimônio público. “O corrupto moderno não estaria apenas prejudicando os cofres públicos, mas provocando problemas diretos aos indivíduos, danificando as ações de políticas públicas, o laço social. Assim a sociedade não se sustenta mais”, explicou o professor.

A terceira classificação atribuída pelo professor foi a “corrupção pós- moderna”, digna dos tempos “fluidos” da contemporaneidade. Segundo Janine Ribeiro, esta não envolve diretamente o furto e nem somente beneficia os atores com dinheiro ou valores. Ocorre, sim, troca de favores, de cargos, favorecimento em prestação de serviço, negociações internas, com a iniciativa privada ou até mesmo entre movimentos sociais, além da formação de caixas extras para os partidos políticos, teoricamente representantes diretos do mundo da governança. Assim, a essência de que “um favor paga outro” torna-se fundamental para a “corrupção pós-moderna”. “Às vezes os sujeitos são pessoalmente honestos, mas colaboram para a corrupção maior e a realizam em seu dia-a-dia”, completou.

Partido dos Trabalhadores – O exemplo dado e discutido pelo professor Janine Ribeiro e pelos participantes da conferência foi o da trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) em seus quase nove anos de governo. “O PT, que sempre foi o partido ético brasileiro por excelência, no governo age diferente. Embora pouco tenha sido provado, existem fortes acusações sustentadas até mesmo pelo Supremo Tribunal Federal. O PT sempre fez comissões éticas internas, por que agora não faz mais?”, questionou.

O caso do “mensalão”, para o professor, é emblemático de como, para se manter no poder, determinado grupo político é capaz de ferir os próprios valores éticos. Ele alertou que, mesmo que se tenha simpatia por qualquer partido político ou até mesmo por gestões institucionais, não se deve ignorar as ações de corrupção. “A honestidade deveria ser um valor maior, não uma exceção”, avaliou. Por último, Janine Ribeiro lançou um questionamento ao público: “é possível governar sem corrupção?”
(Ascom da UFG)

The Birth of Religion (fragment, National Geographic)

By Charles C. Mann
Photograph by Vincent J. Musi
June 2011

Göbekli Tepe

[…]

Anthropologists have assumed that organized religion began as a way of salving the tensions that inevitably arose when hunter-gatherers settled down, became farmers, and developed large societies. Compared to a nomadic band, the society of a village had longer term, more complex aims—storing grain and maintaining permanent homes. Villages would be more likely to accomplish those aims if their members were committed to the collective enterprise. Though primitive religious practices—burying the dead, creating cave art and figurines—had emerged tens of thousands of years earlier, organized religion arose, in this view, only when a common vision of a celestial order was needed to bind together these big, new, fragile groups of humankind. It could also have helped justify the social hierarchy that emerged in a more complex society: Those who rose to power were seen as having a special connection with the gods. Communities of the faithful, united in a common view of the world and their place in it, were more cohesive than ordinary clumps of quarreling people.

Göbekli Tepe, to Schmidt’s way of thinking, suggests a reversal of that scenario: The construction of a massive temple by a group of foragers is evidence that organized religion could have come before the rise of agriculture and other aspects of civilization. It suggests that the human impulse to gather for sacred rituals arose as humans shifted from seeing themselves as part of the natural world to seeking mastery over it. When foragers began settling down in villages, they unavoidably created a divide between the human realm—a fixed huddle of homes with hundreds of inhabitants—and the dangerous land beyond the campfire, populated by lethal beasts.

French archaeologist Jacques Cauvin believed this change in consciousness was a “revolution of symbols,” a conceptual shift that allowed humans to imagine gods—supernatural beings resembling humans—that existed in a universe beyond the physical world. Schmidt sees Göbekli Tepe as evidence for Cauvin’s theory. “The animals were guardians to the spirit world,” he says. “The reliefs on the T-shaped pillars illustrate that other world.”

Schmidt speculates that foragers living within a hundred-mile radius of Göbekli Tepe created the temple as a holy place to gather and meet, perhaps bringing gifts and tributes to its priests and crafts­people. Some kind of social organization would have been necessary not only to build it but also to deal with the crowds it attracted. One imagines chanting and drumming, the animals on the great pillars seeming to move in flickering torchlight. Surely there were feasts; Schmidt has uncovered stone basins that could have been used for beer. The temple was a spiritual locus, but it may also have been the Neolithic version of Disneyland.

Over time, Schmidt believes, the need to acquire sufficient food for those who worked and gathered for ceremonies at Göbekli Tepe may have led to the intensive cultivation of wild cereals and the creation of some of the first domestic strains. Indeed, scientists now believe that one center of agriculture arose in southern Turkey—well within trekking distance of Göbekli Tepe—at exactly the time the temple was at its height. Today the closest known wild ancestors of modern einkorn wheat are found on the slopes of Karaca Dağ, a mountain just 60 miles northeast of Göbekli Tepe. In other words, the turn to agriculture celebrated by V. Gordon Childe may have been the result of a need that runs deep in the human psyche, a hunger that still moves people today to travel the globe in search of awe-inspiring sights.

Some of the first evidence for plant domestication comes from Nevalı Çori (pronounced nuh-vah-LUH CHO-ree), a settlement in the mountains scarcely 20 miles away. Like Göbekli Tepe, Nevalı Çori came into existence right after the mini ice age, a time archaeologists describe with the unlovely term Pre-pottery Neolithic (PPN). Nevalı Çori is now inundated by a recently created lake that provides electricity and irrigation water for the region. But before the waters shut down research, archaeologists found T-shaped pillars and animal images much like those Schmidt would later uncover at Göbekli Tepe. Similar pillars and images occurred in PPN settlements up to a hundred miles from Göbekli Tepe. Much as one can surmise today that homes with images of the Virgin Mary belong to Christians, Schmidt says, the imagery in these PPN sites indicates a shared religion—a community of faith that surrounded Göbekli Tepe and may have been the world’s first truly large religious grouping.

Naturally, some of Schmidt’s colleagues disagree with his ideas. The lack of evidence of houses, for instance, doesn’t prove that nobody lived at Göbekli Tepe. And increasingly, archaeologists studying the origins of civilization in the Fertile Crescent are suspicious of any attempt to find a one-size-fits-all scenario, to single out one primary trigger. It is more as if the occupants of various archaeological sites were all playing with the building blocks of civilization, looking for combinations that worked. In one place agriculture may have been the foundation; in another, art and religion; and over there, population pressures or social organization and hierarchy. Eventually they all ended up in the same place. Perhaps there is no single path to civilization; instead it was arrived at by different means in different places.

[…]

Full text at http://ngm.nationalgeographic.com/2011/06/gobekli-tepe/mann-text/1

Ninguna consultora pudo pronosticar la diferencia entre Macri y Filmus (Clarin)

[Eleições municipais em Buenos Aires]
11/07/11
Las encuestadoras oficialistas erraron por 13 puntos la brecha entre los dos primeros

Por MARTÍN BRAVO

Dos consultoras difundieron enc uestas en la semana previa a estas elecciones en la Ciudad con una diferencia de prácticamente 15 puntos en la intención de voto entre Mauricio Macri y Daniel Filmus.

El resto indicaba una brecha menor, y más corta cuanto más cercano al kirchnerismo era el encargado del relevamiento.

Al cierre de esta edición, los datos oficiales marcaban que el actual jefe de Gobierno cosechaba 803.486 votos (un 47,06%) y el senador kirchnerista 475.364 (un 27,84%). Con el 96,31% de las mesas escrutadas, la diferencia a favor de Macri daba casi 19,3%. Management & Fit difundió sus últimos números el 4 de julio, con 42,2% para Macri y 27,4% para Filmus, es decir 14,8% de distancia. La misma brecha proyectó la encuesta de Poliarquía, encargada por el diario La Nación y publicada el viernes: 45,3% a 30,5%.

Aresco, una encuestadora de consulta habitual del Gobierno nacional, difundió 48 horas antes de la elección -no publicada por la veda- una intención de voto del 43,8% para Macri sobre el 34,3% para Filmus, es decir una ventaja de 9,5%. Ya en el boca de urna dio una distancia bastante mayor: 44% a 31%, aunque también por debajo de la ventaja final. Con el resultado puesto, en ningún caso quedó cerca. OPSM difundió el jueves sus números, a los que accedió este diario, con 38% para Macri y 27,8% para Filmus. Una diferencia del 10,2%, apenas menor a su boca de urna: 44% a 33,7%. Esta consultora se presenta como independiente, aunque el búnker kirchnerista le presta mucha atención.

Rouvier & Asociados, que en esta campaña trabajó para Filmus, daba una diferencia de 6,4 puntos una semana antes de la elección (36,2% a 29,8%) y de 7,4 (42,6% a 35,2%) el último jueves. Analogías, que presentó su trabajo como independiente, asignó ocho días atrás una intención de voto a Macri de 38,2% y a Filmus de 29,7%, una brecha de 8,5%. En sus últimas mediciones, no publicadas por Clarín porque ya regía la veda electoral, la diferencia crecía 1,5 puntos: 42% a 32%.

CEOP, la encuestadora que en 2009 anunció un triunfo de Néstor Kirchner por 8 puntos en la provincia (perdió por 3%) atribuía 36,6% a Macri y 30,5% a Filmus, una distancia de 6,1% . Esta consultora, que también mide habitualmente para el Gobierno nacional, dio con amplia ventaja a Rosana Bertone en el balotaje de Tierra del Fuego, en el que Fabiana Ríos consiguió su reelección.

Fernando Solanas llevaba el 12,82% de los votos, según los datos oficiales al cierre de esta edición, un porcentaje superior al que medía en la mayoría de las encuestas, entre ellas Aresco (8,6%), OPSM (8,9%) y Rouvier & Asociados (10%). Pero peor quedó con el resultado puesto el sondeo encargado por su espacio, Proyecto Sur, a la consultora Panorama: difundió el jueves que el cineasta tenía una inteción de voto del 24,5%, por encima de Filmus, y también lo daba ganador sobre Macri en una eventual segunda vuelta.

Tampoco anticipó el holgado triunfo del actual jefe de Gobierno la encuesta de Nueva Comunicación, encargada por Jorge Telerman: su última medición, el 2 de julio, le asignó a Macri una intención de voto del 39,1% sobre el 31,8% para Filmus, una ventaja de 7,3%. A Telerman le daba el 6,9%, lo que le hubiera permitido asegurarse su banca como legislador. Al cierre de esta edici ón tenía 1,76%.

Travestis e transexuais terão direito a usar nome social no estado (O Globo)

Publicada em 11/07/2011 às 13h24m
Ruben Berta

RIO – O governador Sérgio Cabral publica decreto no Diário Oficial desta segunda-feira determinando que os travestis e transexuais poderão utilizar seu nome social (como são identificados na sua comunidade e em seu meio social) em todos os procedimentos da Administração Direta e Indireta do Estado do Rio.

De acordo com o texto, todos os registros do sistema de informação, cadastros, fichas, requerimentos e formulários deverão conter um campo para a colocação do nome social, sendo a nomenclatura civil utilizada somente para procedimentos internos. A Secretaria da Casa Civil terá 120 dias para promover todas as adaptações.

Em maio deste ano, o prefeito Eduardo Paes já havia publicado um decreto semelhante , garantindo o mesmo direito para servidores e usuários de serviços do município.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/07/11/travestis-transexuais-terao-direito-usar-nome-social-no-estado-924875811.asp#ixzz1RofWEVUp
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Rio state has 60,000 unsolved murders in 10 year (AP)

RIO DE JANEIRO (AP, 10.jul.2011) — Rio de Janeiro’s public defenders’ department says the Brazilian state has accumulated more than 60,000 unsolved murders in the last 10 years.

The department investigated the matter for the federal Ministry of Justice as part of a national plan to improve public safety.

The survey shows that 24,000 of the victims haven’t even been identified.
Creation of a special homicide division in the city of Rio de Janeiro did little to improved the solution rate. It went from 11 percent to 14 percent.

Across Brazil, police solve about 8 percent of murders. In the United States and in European countries the rates are reportedly around 70 percent to 80 percent.

A história da Chapeuzinho Vermelho nos dias de hoje (autor desconhecido)

[Uma das muitas versões do email que circula na Internet desde pelo menos 2005]
Se a história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdadeira, como ela seria veiculada HOJE pela imprensa?

JORNAL NACIONAL

(William Bonner): ‘Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem.’

(Fátima Bernardes): ‘.mas a atuação de um caçador evitou a tragédia.’

PROGRAMA DA HEBE

“.Que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”

BRASIL URGENTE (DATENA)

“Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem
transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva. Um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Eu falo mesmo,
não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!” Tô certo ou tô errado? Me ajuda aí, ô!”

SUPERPOP

“Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há
mais de um ano. Abafa o caso!”

GLOBO REPÓRTER

“Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com
psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos
próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter..”

DISCOVERY CHANNEL

“Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.”

REVISTA VEJA

“Lula sabia das intenções do Lobo.”

REVISTA CLÁUDIA

“Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.”

REVISTA NOVA

“Dez maneiras de levar um lobo à loucura, na cama!”

REVISTA ISTO É

Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

REVISTA PLAYBOY

(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho no mês seguinte): “Veja o que só o lobo viu.”

REVISTA VIP

“As 100 mais sexies – Desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!”

REVISTA CARAS

Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: “Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou
outra pessoa.”

REVISTA SUPERINTERESSANTE

“Lobo Mau: mito ou verdade?”

REVISTA TITITI

“Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio.”

FOLHA DE SÃO PAULO

“Lobo que devorou menina era do MST”

O ESTADO DE SÃO PAULO

“Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.”

O GLOBO

“Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.”

O POVO

“Sangue e tragédia na casa da vovó.”

O DIA

“Lenhador desempregado tem dia de herói.”

EXTRA

“Promoção do mês: junte 20 selos, mais 19,90 e troque por uma capa vermelha igual a da Chapeuzinho!”

MEIA HORA

“Lenhador passou o rodo e mandou lobo pedófilo pro saco!”

CAPRICHO

Teste: “Seu par ideal é lobo ou lenhador?”

Homens brancos são maioria dos transplantados. Negros e mulheres têm menos acesso a cirurgias, segundo Ipea (Agência Brasil)

Estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que os efeitos das desigualdades sociais brasileiras se estendem às cirurgias de transplantes de órgãos como coração, fígado, rim, pâncreas e pulmão. A maioria dos transplantados são homens da cor branca.

08/07/2011 – 14h37
Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que os efeitos das desigualdades sociais brasileiras se estendem às cirurgias de transplantes de órgãos como coração, fígado, rim, pâncreas e pulmão. A maioria dos transplantados são homens da cor branca.

De acordo com o estudo, de quatro receptores de coração, três são homens; e 56% dos transplantados tem a cor de pele branca. No transplante de fígado; 63% dos receptores são homens e 37% mulheres. De cada dez transplantes de fígado, oito são para pessoas brancas.

Segundo a análise do Ipea, homens e mulheres são igualmente atendidos nos transplantes de pâncreas; mas 93% dos atendidos são brancos. A maioria absoluta de receptores de pulmão também são homens (65%) e pessoas brancas (77%). O mesmo fenômeno ocorre com o transplante de rim: 61% dos receptores são homens; 69% das pessoas atendidas têm pele clara.

“Verificamos que o conjunto de desigualdades brasileiras acaba chegando no último estágio de medicina”, aponta o economista Alexandre Marinho, da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, um dos autores da pesquisa. Ele e outras duas pesquisadoras analisaram dados de 1995 a 2004, fornecidos pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

O economista não estudou as causas do fenômeno, mas disse à Agência Brasil que a preparação para o transplante pode explicar as razões da desigualdade. Para fazer a cirurgia de transplante, o receptor deve estar apto: eventualmente mudar a alimentação, tomar medicamentos e fazer exames clínicos – procedimentos de atenção básica.

Segundo Marinho, quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) – cerca de três quatros da população brasileira – sai em desvantagem, porque tem dificuldade para receber remédios, fazer consultas e exames clínicos. “A situação onera quem tem menos condições de buscar alternativas.”

“O sistema é desigual na ponta [cirurgia de alta complexidade] porque é desigual na entrada”, assinala o economista, ao dizer que quando o SUS tem excelência no atendimento o acesso não é para todos: “Na hora que funciona, quem se apropria são as pessoas mais bem posicionadas socialmente”.

Conforme Marinho, os planos de saúde são resistentes a autorizar procedimentos de alta complexidade, como as cirurgias de transplantes, por causa dos custos. “Os hospitais privados preferem atender por meio do SUS porque sabe que paga”.

O estudo sobre a desigualdade de transplantes de órgãos está disponível no site do Ipea. Segundo Marinho, o documento foi postado ontem (7) e ainda não é do conhecimento do Ministério da Saúde.

De acordo com os dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), há 1.376 equipes médicas autorizadas a realizar transplantes em 25 estados brasileiros (548 hospitais).

Edição: João Carlos Rodrigues

Direitos e terras indígenas do Nordeste (Diário de Pernambuco)

Recife, sexta-feira, 8 de julho de 2011
Opinião, p. B5

Marcondes Secundino
Antropólogo e coordenador do NEIN/Fundaj
marcondes.secundino@fundaj.gov.br

Ivson José Ferreira
Antropólogo da Funai/PE

Manoel Uilton dos Santos
Coordenador geral da Apoinme

Após a CF de 1988, que consolidou direitos indígenas e reconheceu sua autonomia jurídica e política, o estado brasileiro definiu novos parâmetros na relação com esses povos. Os direitos foram ratificados por acordos externos, como a Convenção 169 da OIT e a Declaração da ONU sobre direitos indígenas. Com isso, o reconhecimento à autodeterminação ganhou relevância no Nordeste, onde é marcante a exclusão desses direitos, sobretudo quanto à demarcação territorial.

A região referida é o Nordeste Legal, segundo a Sudene, que exclui o Maranhão e inclui o norte de Minas e o Espírito Santo. Do ponto de vista geopolítico, é a região de referência das ações indigenistas do estado e do movimento, que nela estrutura sua atuação e representação, como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do NE, MG e ES (Apoinme).

Com tal entendimento, o Núcleo de Estudos Indígenas (Nein/Fundaj), junto ao Museu Nacional/UFRJ, Apoinme e Finep/MCT, criou o Sistema de Monitoramento das Terras Indígenas nessas áreas. Os dados dão destaque à região no plano nacional. Hoje, são cerca de 80 povos indígenas, distribuídos nos estados da região, demandando 110 situações territoriais. Isso representa a segunda maior população indígena do Brasil, ou seja, 30% do total em 2010, segundo o IBGE. Só BA e PE detêm a terceira e a quarta população indígena do país.

O Sistema de Monitoramento dá continuidade, amplia e atualiza a iniciativa pioneira que originou o Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993), organizado pelo antropólogo João Pacheco de Oliveira do Museu Nacional/UFRJ, cuja abrangência se restringia ao submédio São Francisco. Agora, o novo Atlas será editado com o mapeamento total dos povos e terras indígenas, segundo sua localização por municípios e estados, bem como fornecerá informações sobre impactos e sobreposições de ações governamentais e empreendimentos privados em Terras Indígenas (TIs), além do diagnóstico atual do processo de demarcação das TIs.

Ver-se-á, assim, que, em relação ao processo demarcatório, apenas 25% das TIs da região estão regularizadas. Desse percentual, a maioria ainda está ocupada por não-indígenas. Com isso, restringe-se o domínio dos índios e o pleno direito sobre as TIs, o que fere a legislação nacional e internacional. E mais: considerando as TIs que ainda não foram demarcadas, e as que aguardam providências, o CE é o primeiro no ranking regional com 95%, seguido por AL, 90,9%; MG, 73,3%; SE, 66,7%; BA, 65,5%; PE, 64,7%; e PB , 50%. O ES é o único com 100% das TIs regularizadas. Focalizando apenas as reivindicações ‘sem providência’, preocupa a situação de SE, AL, CE, MG, PB, PI e RN.

Nesse aspecto, o mapeamento atual – em breve no site da Fundaj – subsidiará intervenções qualificadas do estado nas áreas indígenas e políticas públicas diferenciadas, além de oferecer diagnóstico do estágio atual da demarcação das TIs e assim assegurar os direitos territoriais constitucionais. E poderá contribuir com iniciativas do Governo Federal, como o Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas, já anunciado pela presidente Dilma Rousseff durante a mobilização indígena em Brasília em abril último.

The Impact of Candidates’ Statements About Climate Change On Electoral Success (Science Daily)

ScienceDaily (July 5, 2011) — Candidates gain votes by taking a “green” position on climate change — endorsing the existence of warming, human causation, and the need for taking action to address it, according to a new study of U.S. adults.

Among citizens who are Democrats and Independents, a hypothetical U.S. Senate candidate gained votes by making a green statement on climate change and lost votes by making a not-green statement, compared to making no statement on climate. Among citizens who are Republicans, the candidate’s vote share was unaffected by taking a green position or a not-green position, compared to being silent on climate.

These results suggest that by taking a green position on climate, candidates of either party can gain the votes of Democrats and Independents while not alienating Republicans.

These results are based on experiments embedded in telephone surveys of a representative national sample of American adults conducted in November 2010 and in telephone surveys of representative samples of adult residents of three states (Florida, Maine, and Massachusetts) in July 2010.

The report by Jon A. Krosnick, Bo MacInnis, and Ana Villar is entitled, “The Impact of Candidates’ Statements about Climate Change on Electoral Success in 2010: Experimental Evidences.”

Some Catholics seek to counter Galileo (Chicago Tribune)

Splinter group says the Earth, not the sun, is, indeed, at the center of the universe

By Manya A. Brachear, Tribune reporter
July 4, 2011

Some people believe the world literally revolves around them. It’s a belief born not of selfishness but faith.

A small group of conservative Roman Catholics is pointing to a dozen biblical verses and the Church’s original teaching as proof that the Earth is the center of the universe, the view that prompted Galileo Galilei’s clash with the Church four centuries ago.

The relatively obscure movement has gained a following among a few Chicago-area Catholics who find comfort in knowing there are still staunch defenders of original Church doctrine.

“This subject is, as far as I can see, an embarrassment to the modern church because the world more or less looks upon geocentrism or someone who believes it in the same boat as the flat Earth,” said James Phillips, of Cicero.

Phillips attends Our Lady Immaculate Catholic Church in Oak Park, a parish run by the Society of St. Pius X, a group that rejects most of the modernizing reforms the Vatican II council made from 1962 to 1965.

But by challenging modern science, the proponents of a geocentric universe are challenging the very church they seek to serve and protect.

“I have no idea who these people are. Are they sincere, or is this a clever bit of theater?” said Brother Guy Consolmagno, the curator of meteorites and spokesman for the Vatican Observatory.

Indeed, those promoting geocentrism argue that heliocentrism, or the centuries-old consensus among scientists that the Earth revolves around the sun, is nothing more than a conspiracy theory to squelch the church’s influence.

“Heliocentrism becomes ‘dangerous’ if it is being propped up as the true system when, in fact, it is a false system,” said Robert Sungenis, leader of a budding movement to get scientists to reconsider. “False information leads to false ideas, and false ideas lead to illicit and immoral actions — thus the state of the world today. … Prior to Galileo, the church was in full command of the world; and governments and academia were subservient to her.”

Sungenis is no lone Don Quixote, as illustrated by the hundreds of curiosity seekers, skeptics and supporters at a conference last fall titled “Galileo Was Wrong. The Church Was Right” just off the University of Notre Dame campus in South Bend, Ind.

Astrophysicists at Notre Dame didn’t appreciate the group hitching its wagon to the prestige of America’s flagship Catholic university and resurrecting a concept that’s extinct for a reason.

“It’s an idea whose time has come and gone,” astrophysics professor Peter Garnavich said. “There are some people who want to move the world back to the 1950s when it seemed like a better time. These are people who want to move the world back to the 1250s. I don’t really understand it at all.”

Garnavich said the theory of geocentrism violates what he believes should be a strict separation of church and science. One answers why, the other answers how, and never the twain should meet, he said.

But supporters of the theory contend that there is scientific evidence to support geocentrism, just as there is evidence to support the six-day story of creation in Genesis.

There is proof in Scripture that the Earth is the center of the universe, Sungenis said. Among many verses, he cites Joshua 10:12-14 as definitive proof: “And the sun stood still, and the moon stayed, while the nation took vengeance on its foe. … The sun halted in the middle of the sky; not for a whole day did it resume its swift course.”

But Ken Ham, founder of the Creation Museum in Petersburg, Ky., said the Bible is silent on geocentrism.

“There’s a big difference between looking at the origin of the planets, the solar system and the universe and looking at presently how they move and how they are interrelated,” Ham said. “The Bible is neither geocentric or heliocentric. It does not give any specific information about the structure of the solar system.”

Just as Ham challenges the foundation of natural history museums, Sungenis challenges planetariums, most notably the Vatican Observatory.

Consolmagno said the very premise of going after Galileo illustrates the theory’s lack of scientific credibility.

“Of course, we understand the universe in a far more nuanced way than Galileo did 400 years ago,” he said. “And I would hope that the next 400 years would see just as much development.”

But Sungenis said the renewed interest in geocentrism is due, in part, to the efforts of Christians entering the scientific domain previously dominated by secularists. These Christian scientists, he said, showed modern science is without scientific foundation or even good evidence.

The issue has even sparked a debate between Art and Pat Jones, of Lyons. Pat Jones, a conservative Catholic who often attends Mass at Phillips’ parish, said heliocentrism is part of a conspiracy.

“Because of our fallen nature in Christian terms, we take the line of least resistance — go with the flow,” said Pat Jones. “But the means of grace have to be intact.”

Her husband, Art, a self-described skeptical Protestant, says he is still a “doubting Thomas” but wouldn’t put it past the orthodox science community to cook up a conspiracy. He accompanied his wife to the South Bend conference to learn more and “keep peace in the family.”

Meanwhile, the theory has brought others like Phillips closer to God.

“I dropped my practice of faith,” Phillips said. “When I came back, it was a big wake-up call for me. … The world has its own dogmas.”

mbrachear@tribune.com

Dilma Rousseff – a favela with a presidential name (The Guardian)

Renaming of Brazilian shantytown puts spotlight on problems facing country’s 16 million citizens living in extreme poverty

Tom Phillips in Rio de Janeiro ; guardian.co.uk, Monday 27 June 2011 16.58 BST

Three-month old Karen da Silva – the youngest resident of Dilma Rousseff – with her mother, 23-year-old Maria da Paixao Sequeira da Silva. Photograph: Tom Phillips

They call her Dilma Rousseff’s daughter: a dribbling three-month-old girl, coated in puppy fat and smothered by cooing relatives.

But Karen da Silva is no relation of Brazil’s first-ever female president. She is the first child to be born into one of the country’s newest favelas – the Comunidade Dilma Rousseff, a roadside shantytown on the western outskirts of Rio de Janeiro that was recently re-baptised with the name of the most powerful woman in the country

“She’s Dilma’s baby,” said Vagner Gonzaga dos Santos, a 33-year-old brick-layer-cum-evangelical preacher and the brains behind the decision to change the name of this hitherto unknown favela.

Last month, just as Rousseff was about to complete six months in power, Santos says he received a heaven-sent message suggesting the renaming.

“God lit up my heart,” he said. “The idea was to pay homage to the president and also to get the attention of the government, of our leaders, so they look to us and help the families here. The poor are God’s children too.”

Until recently, the 30-odd shacks that flank the Rio-Sao Paulo highway were known simply as “kilometre 31”. But its transition to Dilma Rousseff has not been entirely smooth.

At first, locals plastered A4 posters on the area’s walls and front doors, announcing the new name. But the posters referred to the Comunidade “Roussef” – one “f” short of the president’s Bulgarian surname. In May a sign was erected welcoming visitors to their shantytown, but again spelling proved an issue. This time the name given was “Dilma Rusself.”

That mistake has now been corrected, after an intervention from the preacher’s wife, who took a pot of red nail varnish to the sign. Locals say the name-change is starting to pay off.

“It’s been good having the president’s names,” said Marlene Silva de Souza, a 57-year-old mother of five and one of the area’s oldest residents. “Now we can say our community’s name with pride. Before we didn’t have a name at all.”

Dozens of Brazilian newspapers have flocked to the community – poking fun at its misspelt sign but also drawing attention to the poor living conditions inside the favela.

“It has brought us a lot of attention … The repercussion has been marvellous. Today things are starting to take shape, things are improving,” said Santos, who hopes local authorities will now formally recognise the favela, bringing public services such as electricity and rubbish collection.

Still, problems abound. Raw sewage trickles out from the houses, through a patchwork of wooden shacks, banana and mango trees and an allotment where onions sprout amid piles of rubbish. Rats and cockroaches proliferate in the wasteland that encircles the area.

Ownership is also an issue. Dilma Rousseff is built on private land – “The owners are Spanish, I think,” says Santos – and on paper the community does not officially exist. Without a fixed abode Karen “Rousseff” da Silva – the favela’s firstborn child – has yet to be legally registered.

Last month the Brazilian government launched a drive to eradicate extreme poverty unveiling programmes that will target 16 million of Brazil’s poorest citizens.

“My government’s most determined fight will be to eradicate extreme poverty and create opportunities for all,” Rousseff said in her inaugural address in January. “I will not rest while there are Brazilians who have no food on their tables, while there are desperate families on the streets [and] while there are poor children abandoned to their own fate.”

Residents of Rousseff’s namesake, who scratch a living selling biscuits and drinks to passing truck drivers, hope such benefits will soon reach them.

A visit from the president herself may also be on the cards, after Santos launched an appeal in the Brazilian media.

“We dream of her coming one day,” said the preacher, perched on a wooden bench outside his redbrick church, the House of Prayers. “It might be impossible for man to achieve, but for God everything is possible.”

Naming a community

Tear-jerking soap operas, political icons, stars of stage and screen – when it comes to baptising a Brazilian favela, all are fair game. The north-eastern city of Recife is home to favelas called Ayrton Senna, Planet of the Apes and Dancing Days, the title of a popular 1970stelenovela,

In the 1980s residents of a shantytown in Belo Horizonte named their community Rock in Rio – a tribute to the Brazilian rock festival that has played host to acts such as Neil Young, David Bowie and Queen.

Rio de Janeiro is home to the Boogie Woogie favela, the Kinder Egg favela and one community called Disneylandia. Vila Kennedy – a slum in west Rio – was named after the American president John F Kennedy and features a three-metre tall replica of the Statue of Liberty. Nearby, locals christened another hilltop slum Jorge Turco or Turkish George. Jorge was reputedly a benevolent gangster who ruled the community decades ago.

AP Enterprise: Indian tribes welcome much-maligned FEMA homes that were rejected after Katrina (Washington Post)

By Associated Press, Updated: Wednesday, July 6, 8:07 AM

LITTLE AXE, Okla. — Wanda Tiger and her husband needed a new home after a long-term house-sitting arrangement came to an end. But for members of their American Indian tribe in rural Oklahoma, affordable housing options were few.

Then tribal leaders learned of an impossibly attractive offer: Mobile homes that had never been occupied were available from the government almost for free. They had stood vacant for years after being rejected as temporary housing following Hurricane Katrina.

(Sue Ogrocki / Associated Press) – Charles Tiger is pictured during an interview in his FEMA trailer home in Little Axe, Okla., Thursday, June 16, 2011. Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

To Tiger and members of other tribes, the homes seemed perfect, even luxurious.

“When you ain’t got nothing, you’re happy with whatever you can get,” said Tiger, a member of the Absentee Shawnee tribe who now lives in a three-bedroom home courtesy of the Federal Emergency Management Agency. “They call them temporary homes, but hey, sometimes it’s your permanent home, and we’re satisfied with it.”

Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

In the aftermath of the 2005 hurricane, FEMA bought thousands of temporary homes for $20,000 to $45,000 each — both mobile homes and travel trailers.

The mobile homes proved impractical in areas where power and water service had been destroyed. And some people living in travel trailers started to fall sick because the RVs had high levels of formaldehyde, a cancer-causing chemical common in building materials.

Since then, it seemed doubtful that many of the mobile homes would ever be used. But on American Indian reservations, the offer of free housing has been welcomed, particularly among families who live in conditions so crowded that it’s not uncommon for a single mobile home to be shared by more than a dozen relatives.

Tribes have taken almost 2,000 of the government homes and requested more.

Before and during Katrina, critics complained that the homes would not protect residents from future storms. Some also worried the shelters would turn into permanent housing, potentially creating neighborhoods of dilapidated mobile homes.

Then the formaldehyde concerns arose, leading the government to trash most of the travel trailers or sell them to people who signed papers promising not to live in them.

The mobile homes that remained were parked at FEMA storage centers all over the country, costing the agency millions each year to maintain. At one point, more than 19,000 were parked at the Hope, Ark., airport. The fleet was so large that two of the facility’s three runways were closed for more than five years.

Although the mobile homes were never suspected of making anyone sick, most stayed empty, even after new disasters struck.

In Cordova, Ala., which was among the many places crippled by this spring’s historic tornado season, local leaders refused to let the mobile homes into town, despite pleas from some residents who wanted the shelters.

“I don’t feel guilty,” Mayor Jack Scott said, explaining that he did not want the shelters to become permanent. “I can look anyone in the eye.”

FEMA slowly auctioned off most of the homes and found uses for others, including giving some to the tribes. It has also used a limited number of homes in areas recently struck by twisters, including Joplin, Mo., and other parts of Alabama.

For the last several years, the agency “has been working to reduce the number of units in our inventory, while maintaining the capability to purchase units through pre-positioned contracts,” FEMA said in a statement.

Susan Popkin, a housing expert at the Washington-based Urban Institute, questioned the purchase of the shelters, suggesting that it might have been smarter to give storm victims vouchers to rent apartments than to offer them a trailer.

“It was a big stretch for them to take that on after Katrina,” Popkin said. “Their strength is in dealing with people for the first few weeks after the emergency.”

But tribal leaders were thrilled to take the homes.

After 1,300 mobile homes were distributed to tribes during 2008 and 2009, federal officials asked early this year if they wanted more, said Brian Sullivan, a spokesman for the Department of Housing and Urban Development. Ninety-five tribes responded with requests for 3,000 homes — five times as many as were available.

About 550 homes were distributed this spring. Tribal governments paid only to transport them.

John Ballard, chief of the Ottawa Tribe in far northeastern Oklahoma, said his tribe spent an average of $3,000 to acquire each home. The tribe has received 39 units for the elderly and first-time homebuyers, he said.

“Three thousand dollars is not too much to pay for a house,” Ballard said. “These trailers are a great deal for our tribe … I would take 100 more. I’ve had people send me pictures and thank-you cards and want to give me their first-born over this stuff. This has made a great impression on peoples’ lives.”

Similar stories are told by George Blanchard, governor of the Absentee Shawnee Tribe, and Paula Pechonick, chief of the Delaware Tribe of Oklahoma. Blanchard said his only gripe is that there aren’t enough homes to meet the demand.

Tiger and her husband, who live in Little Axe, a rural community southeast of Oklahoma City, were surprised that the homes had been vacant for so long.

“We saw it on the news, and we thought so many people like ourselves could use them, but they were just sitting there,” Tiger said. “Why did it take someone so long to decide, ‘Hey, these could be used’? There are a lot of homeless people in this country.”

The retired couple had been house-sitting for a relative for years when the family member told them they needed to leave in a few weeks.

After being approved for one of the government homes, tribal workers cleared some trees from a piece of land owned by the Tigers. Their new place even had an air conditioner, a luxury on the reservation.

The paperwork that came with the home in 2009 included a warning about formaldehyde and possible symptoms, but the Tigers have never experienced any problems.

Compared to some homes on reservations, FEMA’s homes are like “castles,” said Cheryl Causley, chairwoman of the National American Indian Housing Council.

“It shows you the vast discrepancy and the uneven treatment among the citizens of the United States,” Causley said. “Our people would go miles to receive those units. If there’s any more of them, we would love them. Our need is that extreme.”

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Merchant reported from Little Rock, Ark.

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