Filósofo define elementos da “corrupção pós-moderna” (JC)

JC e-mail 4298, de 12 de Julho de 2011.

Renato Janine Ribeiro avalia as práticas políticas brasileiras e questiona: é possível governar com ética?

Uma das conferências da 63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizada na manhã desta segunda-feira (11), foi proferida por Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP). Na ocasião, ele falou sobre “a corrupção como ameaça à vida republicana”, avaliando as dificuldades da política contemporânea em lidar com a ética.

O professor foi apresentado por Aldo Malavasi, secretário geral da SBPC e seu companheiro de docência na USP. Malavasi iniciou os trabalhos elogiando a capacidade argumentativa de Janine Ribeiro: “você não hesita em suas falas”. O palestrante esmiuçou a etimologia de “corrupção”. O ponto de partida da palavra seria a filosofia natural do mundo antigo que, grosso modo, definia o termo como morte do corpo, degeneração das células. Por extensão, os antigos consideravam o espaço da política também como um corpo que poderia apodrecer e perder a vitalidade social; ou seja, perder as virtudes exigidas aos homens no espaço público.

Para os romanos, cuja forma de governança era a república, ou “governo para o bem comum”, a maior corrupção seria o retorno ao mundo privado ou o desvirtuamento da atenção dos homens para longe das decisões públicas. A segunda forma de definir a ação foi feita como referência à política moderna, cujos Estados são sustentados a custas de impostos e encargos da própria população e as decisões, ainda que políticas, são tomadas com base em um orçamento comum. De modo que a corrupção moderna, então, teria relação direta com o furto ao patrimônio público. “O corrupto moderno não estaria apenas prejudicando os cofres públicos, mas provocando problemas diretos aos indivíduos, danificando as ações de políticas públicas, o laço social. Assim a sociedade não se sustenta mais”, explicou o professor.

A terceira classificação atribuída pelo professor foi a “corrupção pós- moderna”, digna dos tempos “fluidos” da contemporaneidade. Segundo Janine Ribeiro, esta não envolve diretamente o furto e nem somente beneficia os atores com dinheiro ou valores. Ocorre, sim, troca de favores, de cargos, favorecimento em prestação de serviço, negociações internas, com a iniciativa privada ou até mesmo entre movimentos sociais, além da formação de caixas extras para os partidos políticos, teoricamente representantes diretos do mundo da governança. Assim, a essência de que “um favor paga outro” torna-se fundamental para a “corrupção pós-moderna”. “Às vezes os sujeitos são pessoalmente honestos, mas colaboram para a corrupção maior e a realizam em seu dia-a-dia”, completou.

Partido dos Trabalhadores – O exemplo dado e discutido pelo professor Janine Ribeiro e pelos participantes da conferência foi o da trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) em seus quase nove anos de governo. “O PT, que sempre foi o partido ético brasileiro por excelência, no governo age diferente. Embora pouco tenha sido provado, existem fortes acusações sustentadas até mesmo pelo Supremo Tribunal Federal. O PT sempre fez comissões éticas internas, por que agora não faz mais?”, questionou.

O caso do “mensalão”, para o professor, é emblemático de como, para se manter no poder, determinado grupo político é capaz de ferir os próprios valores éticos. Ele alertou que, mesmo que se tenha simpatia por qualquer partido político ou até mesmo por gestões institucionais, não se deve ignorar as ações de corrupção. “A honestidade deveria ser um valor maior, não uma exceção”, avaliou. Por último, Janine Ribeiro lançou um questionamento ao público: “é possível governar sem corrupção?”
(Ascom da UFG)

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