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Ritual de tribo brasileira é indicado a patrimônio da Unesco (BBC)

Atualizado em  22 de novembro, 2011 – 12:39 (Brasília) 14:39 GMT

Ritual Yaokwa. Foto: acervo IphanLista de indicados inclui cerimônia do povo enawenê-nawê (Foto: acervo Iphan)

Um ritual de um povo indígena brasileiro, voltado para “manter a ordem social e cósmica”, foi indicado para integrar uma lista de patrimônios culturais imateriais “em necessidade urgente de proteção” elaborada pela Unesco, a agência da ONU para a educação e a cultura.

O yaokwa é a principal cerimônia do calendário ritual dos enawenê-nawê, povo indígena cujo território tradicional fica no noroeste do Mato Grosso.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou o ritual Yaokwa como bem cultural em 2010. Segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o povo enawenê-nawê – que fala a língua aruak – é formado por cerca de 560 integrantes.O ritual, que marca o início do calendário enawenê, dura sete meses e é realizado com a saída dos homens para realizar uma pesca coletiva com o uso de uma barragem e de armadilhas construídas com cascas de árvore e cipós.

A partir desta quarta-feira, a comissão intergovernamental da Unesco pela salvaguarda do patrimônio cultural imaterial se reúne em Bali, na Indonésia, para avaliar os rituais e tradições indicados para ser protegidos. A reunião se encerra no próximo dia 29.

O Brasil país conta com 18 bens inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

Entre o patrimônio imaterial, dedicado a tradições orais, cultura e a arte populares, línguas indígenas e manifestações tradicionais, estão as Expressões Orais e Gráficas dos Wajãpis do Amapá e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano.

Se entrar na lista, o ritual dos enawenê-nawê passará a contar com apoio da entidade na sua preservação.

Muitas atividades da Unesco estão prejudicadas desde que os Estados Unidos retiraram o seu financiamento da agência, depois que ela aceitou a Palestina como Estado-membro pleno.

Seres subterrâneos

Com o ritual Yaokwa, os enawenê-nawê acreditam entrar em contato com seres temidos que vivem no subterrâneo, os yakairiti, cuja fome deve ser saciada com sal vegetal, peixes e outros alimentos derivados do milho e da mandioca, a fim de manter a ordem social e cósmica.

Para a realização do ritual, os indígenas se dividem em dois grupos: um que fica na aldeia junto às mulheres, preparando o sal vegetal, acendendo o fogo e oferecendo alimentos, e outro que sai para a pesca, com o objetivo de retornar para a aldeia com grandes quantidades de peixe defumado, que é oferecido aos yakairiti.

Construção de barragem. Foto: acervo IphanIndígenas constroem barragem para pesca; alimentos servem de oferenda (Foto: acervo Iphan)

Os indígenas realizam a pesca em rios de médio porte da região. Com os peixes e os demais alimentos, os enawenê-nawê realizam banquetes festivos ao longo de meses, acompanhados de cantos com flautas e danças.

Encantamento de camelos

Além do yaokwa, outro ritual indicado para proteção urgente na América do Sul é o eshuva, composto pelas orações cantadas do povo huachipaire, do Peru.

A lista de proteção urgente também inclui como indicados a dança saman, da província indonésia de Aceh, as tradições de relatos de histórias no nordeste da China e o “encantamento de camelos” da Mongólia, no qual as pessoas cantam para as fêmeas, a fim de persuadi-las a aceitar os filhotes de camelo órfãos.

Já para a lista representativa de patrimônio cultural imaterial da humanidade (sem indicativo de necessidade urgente de proteção), são indicados, pela América do Sul, o conhecimento tradicional dos xamãs jaguares de Yurupari (Colômbia) e a peregrinação ao santuário do senhor de Qoyllurit’i (Peru).

Outras tradições indicadas pela Unesco são as marionetes de sombras chinesas, o kung-fu dos monges Shaolin (China), a porcelana de Limoges (França), a música dos mariachis mexicanos e o fado (música tradicional portuguesa).

Claude Lévi-Strauss: fundador do pós-estruturalismo – Eduardo Viveiros de Castro

Palestra do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no IEB (USP) em 09/10/08, por ocasião de um evento consagrado ao 100o aniversário de Claude Lévi-Strauss.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índios invadem obras de Belo Monte e bloqueiam Transamazônica (FSP)

27/10/2011 – 14h21

AGUIRRE TALENTO
DE BELÉM

O canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, localizado no município de Vitória do Xingu (oeste do Pará, a 945 km de Belém), foi invadido na manhã desta quinta-feira (27) em um protesto de indígenas, pescadores e moradores da região.

Eles também bloquearam a rodovia Transamazônica na altura do quilômetro 52, onde fica a entrada do canteiro de obras da usina.

O protesto, que começou às 5h da manhã, foi organizado durante seminário realizado nesta semana, em Altamira (também no oeste, a 900 km de Belém), que discutiu os impactos da instalação de usinas hidrelétricas na região.

Os seguranças permitiram a entrada dos manifestantes sem oferecer resistência, e os funcionários da empresa não apareceram para trabalhar. Com isso, as obras estão paradas.

“Acreditamos que a empresa ficou sabendo de nossa manifestação e não quis entrar em confronto”, afirmou Eden Magalhães, secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), uma das entidades participantes do protesto.

A Polícia Rodoviária Federal confirmou a ocorrência do protesto, mas ainda não sabe estimar a quantidade de pessoas presentes.Segundo ele, há cerca de 600 pessoas no local, entre índios, pescadores, população ribeirinha e até estudantes.

Os manifestantes exigem a presença de algum integrante do governo federal no local e pedem a paralisação das obras.

Ontem, foi adiado mais uma vez o julgamento na Justiça Federal sobre o licenciamento da usina de Belo Monte. O julgamento está empatado com um voto a favor da construção da usina e um voto contra. Falta o voto de desempate, mas ainda não há previsão de quando o processo voltará a ser colocado em pauta.

 

Questioning Privacy Protections in Research (New York Times)

Dr. John Cutler, center, during the Tuskegee syphilis experiment. Abuses in that study led to ethics rules for researchers. Coto Report

By PATRICIA COHEN
Published: October 23, 2011

Hoping to protect privacy in an age when a fingernail clipping can reveal a person’s identity, federal officials are planning to overhaul the rules that regulate research involving human subjects. But critics outside the biomedical arena warn that the proposed revisions may unintentionally create a more serious problem: sealing off vast collections of publicly available information from inspection, including census data, market research, oral histories and labor statistics.

Organizations that represent tens of thousands of scholars in the humanities and social sciences are scrambling to register their concerns before the Wednesday deadline for public comment on the proposals.

The rules were initially created in the 1970s after shocking revelations that poor African-American men infected with syphilis in Tuskegee, Ala., were left untreated by the United States Public Health Service so that doctors could study the course of the disease. Now every institution that receives money from any one of 18 federal agencies must create an ethics panel, called an institutional review board, or I.R.B.

More than 5,875 boards have to sign off on research involving human participants to ensure that subjects are fully informed, that their physical and emotional health is protected, and that their privacy is respected. Although only projects with federal financing are covered by what is known as the Common Rule, many institutions routinely subject all research with a human factor to review.

The changes in the ethical guidelines — the first comprehensive revisions in more than 30 years — were prompted by a surge of health-related research and technological advances.

Researchers in the humanities and social sciences are pleased that the reforms would address repeated complaints that medically oriented regulations have choked off research in their fields with irrelevant and cumbersome requirements. But they were dismayed to discover that the desire to protect individuals’ privacy in the genomics age resulted in rules that they say could also restrict access to basic data, like public-opinion polls.

Jerry Menikoff, director of the federal Office for Human Research Protections, which oversees the Common Rule, cautions that any alarm is premature, saying that federal officials do not intend to pose tougher restrictions on information that is already public. “If the technical rules end up doing that, we’ll try to come up with a result that’s appropriate,” he said.

Critics welcomed the assurance but remained skeptical. Zachary Schrag, a historian at George Mason University who wrote a book about the review process, said, “For decades, scholars in the social sciences and humanities have suffered because of rules that were well intended but poorly considered and drafted and whose unintended consequences restricted research.”

The American Historical Association, with 15,000 members, and the Oral History Association, with 900 members, warn that under the proposed revisions, for example, new revelations that Public Health Service doctors deliberately infected Guatemalan prisoners, soldiers and mental patients with syphilis in the 1940s might never have come to light. The abuses were uncovered by a historian who by chance came across notes in the archives of the University of Pittsburgh. That kind of undirected research could be forbidden under guidelines designed to prevent “data collected for one purpose” from being “used for a new purpose to which the subjects never consented,” said Linda Shopes, who helped draft the historians’ statement.

The suggested changes, she said, “really threaten access to information in a democratic society.”

Numerous organizations including the Consortium of Social Science Associations, which represents dozens of colleges, universities and research centers, expressed particular concern that the new standards might be modeled on federal privacy rules relating to health insurance and restrict use of the broadest of identifying information, like a person’s ZIP code, county or city.

The 11,000-member American Anthropological Association declared in a statement that any process that is based on the health insurance act’s privacy protections “would be disastrous for social and humanities research.” The 45,000-member American Association of University Professors warned that such restrictions “threaten mayhem” and “render impossible a great deal of social-science research, ranging from ethnographic community studies to demographic analysis that relies on census tracts to traffic models based on ZIP code to political polls that report by precinct.”

Dr. Menikoff said references to the statutes governing health insurance information were meant to serve as a starting point, not a blueprint. “Nothing is ruled out,” he said, though he wondered how the review system could be severed from the issue of privacy protection, as the consortium has discussed, “if the major risk for most of these studies is that you’re going to disclose information inadvertently.” If there is confidential information on a laptop, he said, requiring a password may be a reasonable requirement.

Ms. Shopes, Mr. Schrag and other critics emphasized that despite their worries they were happy with the broader effort to fix some longstanding problems with institutional review boards that held, say, an undergraduate interviewing Grandma for an oral history project to the same guidelines as a doctor doing experimental research on cancer patients.

“The system has been sliding into chaos in recent years,” said Alice Kessler-Harris, president of the 9,000-member Organization of American Historians. “No one can even agree on what is supposed to be covered in the humanities and social sciences.”

Vague rules designed to give the thousands of review boards flexibility when dealing with nonmedical subjects have instead resulted in higgledy-piggledy enforcement and layers of red tape even when no one is at risk, she said.

For example Columbia University, where Ms. Kessler-Harris teaches, exempts oral history projects from review, while boards at the University of Illinois in Urbana-Champaign and the University of California, San Diego, have raised lengthy objections to similar interview projects proposed by undergraduate and master’s students, according to professors there.

Brown University has been sued by an associate professor of education who said the institutional review board overstepped its powers by barring her from using three years’ worth of research on how the parents of Chinese-American children made use of educational testing.

Ms. Shopes said board members at one university had suggested at one point that even using recorded interviews deposited at the Ronald Reagan Presidential Foundation and Library would have needed Reagan’s specific approval when he was alive.

Many nonmedical researchers praised the idea that scholars in fields like history, literature, journalism, languages and classics who use traditional methods of research should not have to submit to board review. They would like the office of human protections to go further and lift restrictions on research that may cause participants embarrassment or emotional distress. “Our job is to hold people accountable,” Ms. Kessler-Harris said.

Dr. Menikoff said, “We want to hear all these comments.” But he maintained that when the final language is published, critics may find themselves saying, “Wow, this is reasonable stuff.”

 

This article has been revised to reflect the following correction:

Correction: October 26, 2011

An article on Monday about federal officials’ plans to overhaul privacy rules that regulate research involving human subjects, and concerns raised by scholars, paraphrased incorrectly from comments by Linda Shopes, who helped draft a statement by historians about possible changes. She said that board members at a university (which she did not name) — not board members at the University of Chicago — suggested at one point that using recorded interviews deposited at the Ronald Reagan Presidential Foundation and Library would have needed Reagan’s specific approval when he was alive.

Demora em demarcações impulsiona ocupações (Carta Capital)

Joana Moncau e Spensy Pimentel 25 de outubro de 2011 às 14:56h

A paciência de muitos grupos se esgotou, porque até mesmo áreas já declaradas indígenas há décadas estão ocupadas por colonos. Fotos: Joana Moncau e Spensy Pimentel

É a convite das próprias lideranças indígenas que chegamos ao local onde estão montadas as barracas de lona preta das quase 70 famílias guarani-kaiowá. No fim do mês de maio, elas deixaram suas casas na reserva de Panambi para criar o acampamento de Guyra Kambi’y, a apenas algumas centenas de metros de outro deles, o Yta’y Ka’aguyrusu, formado em setembro do ano passado, em meio a conflitos com os colonos que vieram para a região a convite do governo federal, entre os anos 40 e 50 do século passado.

Poucas semanas antes da visita, um índio de 56 anos que estava residindo no local foi encontrado enforcado no terreno onde costumava buscar lenha. “Não entendemos bem o que aconteceu, ele estava ajudando a preparar uma casa de reza, inclusive. Essa demora toda, às vezes, deixa as pessoas tristes”, comenta um dos indígenas.

A demora nas demarcações de terras indígenas em Mato Grosso do Sul tem impulsionado a formação de mais e mais acampamentos. A paciência de muitos grupos se esgotou, porque até mesmo áreas já declaradas indígenas há décadas estão ocupadas por colonos – é o que ocorre em Panambi, onde, de 2000 hectares demarcados nos anos 70, os indígenas só ocupam efetivamente 300. Só em Dourados, onde está a reserva cuja situação é mais crítica – fala-se em até 15 mil indígenas em 3,5 mil hectares –, surgiram dois acampamentos este ano.

Índios acampam em MS, enquanto esperam a demarcação

Um levantamento do Conselho Indigenista Missionário atualizado este mês encontrou 31 acampamentos guarani-kaiowá na região sul de Mato Grosso do Sul. Nem sempre eles estão em situação de conflito como acontece em casos como os de Ypo’i, Pyelito e Kurusu Amba (ver matéria anterior), mas a vulnerabilidade é uma constante – alguns grupos vivem na miséria, à beira das estradas, há décadas, com acesso precário aos direitos mais básicos, como saúde, educação e documentação civil.

A partir do momento em que os grupos deixam as reservas superlotadas para realizar ocupações nas fazendas a fim de reivindicar seu direito sobre suas terras, expõem-se ainda mais. A única assistência que passam a ter é federal e vem da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Benefícios sociais como cestas básicas dadas pelo estado são automaticamente cortados. “O estado e os municípios não dão absolutamente nenhuma assistência a esses grupos”,  afirma Maria Aparecida Mendes de Oliveira, coordenadora regional da Funai, em Dourados.

Em áreas dentro de fazendas, muitas vezes mesmo a Sesai e a Funai só conseguem agir com ordem judicial. Em Ypo’i, por exemplo, segundo a Funai, as equipes de saúde e de assistência social só podem entrar uma vez a cada 15 dias. “O problema é que as pessoas não escolhem hora para ficar doentes”, reclama Maria Aparecida. Mesmo o programa de distribuição de cestas básicas da Funai apresenta problemas, pois depende de doações feitas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em alguns meses, a comida simplesmente não chega.

O discurso do governo estadual prega a necessidade de políticas públicas para os indígenas, em contraposição às demandas por terra. Em 2009, o governador André Puccinelli chegou a afirmar: “Eles não querem tanta terra como a Funai quer dar a eles. Os índios querem menos terra e mais programas sociais”. Só que, mesmo nas reservas já demarcadas, o atendimento é péssimo. No caso da saúde, as denúncias de desvios e ineficiência são constantes. Casas recentemente construídas com verba federal são entregues cheias de defeitos e com acabamento precário. Nas escolas, atualmente, está ameaçada a política de educação diferenciada, que pressupõe o ensino em língua guarani, entre outros elementos – prefeitos de diversas cidades têm demitido professores indígenas sem a menor consulta às comunidades, muitas vezes contratando brancos para seus postos.

Acampamento indígena no MS

A crise nas aldeias também se intensifica pela falta de alternativas econômicas com a escassez de terras. Atualmente, está ameaçado até o trabalho precário no corte da cana para as usinas de açúcar e álcool. O plantio da cana está sendo progressivamente mecanizado, o que significa que haverá mais desemprego e fome entre os indígenas, caso o problema das terras não seja resolvido logo.

Para enfrentar recentes agressões como as de Pyelito e Ypo’i, o movimento político guarani-kaiowá, conhecido como Aty Guasu (grande reunião), está solicitando à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República que intensifique sua presença nas áreas em conflito. Desde 2006, por meio do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), órgão de Estado vinculado à SDH, a crise por que passam os Guarani-Kaiowá tem sido reconhecida pelo governo como um dos mais sérios desafios do país na área dos direitos humanos. Diversas lideranças indígenas já integram atualmente o Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos.

Um sinal de atendimento à reivindicação por mais segurança foi a renovação, na semana passada, da portaria do Ministério da Justiça que autoriza a presença da Força Nacional de Segurança Pública para apoiar a Polícia Federal em ações nas aldeias guarani-kaiowá. A esperança dos indígenas é que a ação da chamada Operação Tekoha, hoje focada hoje nas hiperviolentas reservas de Dourados, Amambai e Caarapó, se estenda às áreas localizadas na fronteira e ajude a coibir ataques contra os indígenas em regiões de conflito como Paranhos e Tacuru.

As ações de segurança pública são paliativos necessários, porque a disputa pelas terras ainda deve se estender por vários anos. Atualmente, a grande discussão é sobre a possibilidade de, em caso de demarcação, haver pagamento não só pelas benfeitorias sobre as terras consideradas indígenas, mas também pelo próprio terreno – algo vetado pela Constituição. Como, no estado, a colonização contou com amplo apoio tanto do governo federal como do estadual, uma boa parte dos fazendeiros tem títulos sobre as terras, o que torna a situação particularmente delicada.

Liderança mostra marcas de violência em área de demarcação

Para driblar o lento processo de tramitação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Congresso, o deputado estadual Laerte Tetila (PT) apresentou na Assembleia Legislativa de MS o projeto para a criação de um Fundo Estadual para Aquisição de Terras Indígenas. Do movimento indígena aos fazendeiros, os diversos atores envolvidos no conflito agora analisam a proposta de lei.

O debate sobre a questão das terras em MS também chegou ao Conselho Nacional de Justiça este ano. Em maio, uma comissão especial foi formada para discutir o impasse judicial que cerca as demarcações – um levantamento de 2009 encontrou 87 ações na Justiça envolvendo o conflito sobre terras indígenas no estado. Com a previsão de que venham a público até o início do ano que vem os seis relatórios de identificação de áreas guarani-kaiowá iniciados em 2008, espera-se que a negociação no CNJ previna o completo travamento do processo por conta das batalhas nos tribunais.

A crise envolvendo os Guarani-Kaiowá é a mais grave, mas não a única em MS a envolver disputa por terras indígenas. Os Terena, o segundo maior povo indígena do estado, com pouco mais de 20 mil pessoas, também têm reivindicado a demarcação de suas terras, atualmente reduzidas a umas poucas reservas definidas no início do século XX. Em assembleia recente, eles anunciaram que voltarão a ocupar terras reivindicadas como indígenas antes do fim do ano. Como se vê, a tendência é que os problemas se agravem no estado, caso o governo federal não aja com rapidez.

Segundo a Constituição, a demarcação das terras indígenas em todo o Brasil já deveria ter sido concluída há 18 anos, em 1993. O governo Lula só homologou três terras guarani-kaiowá, e dois desses processos estão suspensos pelo STF até hoje – e a única das novas terras que está efetivamente ocupada pelos indígenas, a Panambizinho, em Dourados, tem pouco mais de 1.200 hectares. Como ministro da Justiça, Tarso Genro vinha garantindo o seguimento do processo iniciado em 2008 em MS, apesar das pressões dos ruralistas e do PMDB. Está chegando a hora de seu sucessor, José Eduardo Cardozo, mostrar a que veio.

Para enfrentar crise em MS, governo federal lançará comitê especial

O governo federal deve recriar oficialmente no próximo mês uma coordenação especial das políticas públicas voltadas para os indígenas Guarani-Kaiowá do sul de Mato Grosso do Sul. O chamado Comitê Gestor de Políticas Indigenistas Integradas do Cone Sul de MS será instalado em uma reunião com participação de representantes de mais de dez ministérios, em Dourados, principal cidade da região, entre os dias 28 e 29 de novembro.

Balas de disparo contra índios de área de conflito

O anúncio foi feito na última quinta-feira (20) pelo secretário Nacional de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, após visita ao acampamento indígena de Ypo’i, onde três pessoas já foram mortas desde 2009 e a comunidade, atualmente, vive uma situação que o secretário definiu como de “crise humanitária” (veja matéria anterior).

“A situação no Cone Sul do Mato Grosso do Sul já ultrapassou todos os limites imagináveis”, afirmou Maldos, em entrevista à CartaCapital. “O governo federal não admite mais esse clima de violência nessa região. Sabemos que o único caminho é a demarcação de terras, mas é um caminho longo, e não podemos esperar. Vamos fortalecer a rede de proteção que está sendo formada entre as comunidades indígenas vítimas de violência. O objetivo é garantir a vida e a integridade das comunidades.”

Em 2006, após a divulgação pela imprensa de mortes por desnutrição entre as crianças guarani-kaiowá, o governo federal já havia criado um comitê gestor semelhante. Depois que o caso arrefeceu no debate público, a iniciativa perdeu impulso. Agora, Maldos promete que essa coordenação das ações federais voltadas para os indígenas será para valer: “Haverá prioridade máxima em todos os sentidos. Vamos agir nas mais variadas áreas: saúde, educação, apoio à produção, segurança, cultura, comunicação e o que mais for preciso”. “Queremos sinalizar para a região que buscamos fazer justiça aos direitos históricos dos Guarani-Kaiowá a partir de agora. Não vamos esperar as demarcações.”

Maldos disse ainda que todas as comunidades guarani-kaiowá serão alvo das políticas do comitê, independente de onde se localizam: “O Estado vai chegar a todas as comunidades, estejam em terras demarcadas ou não, em beiras de estrada ou mesmo dentro de fazendas”.

Índios durante protesto por demarcação. Foto: Cimi

Nos últimos anos, alguns dos principais relatórios internacionais sobre direitos humanos têm apontado a situação dos Guarani-Kaiowá como uma das mais graves entre os povos indígenas das Américas. No ano passado, a Aty Guasu (grande reunião, em guarani), assembleia que congrega os representantes das dezenas de comunidades desses indígenas, recebeu da Presidência da República o Prêmio Direitos Humanos. “Tudo o que for feito será feito em conjunto com eles. A Aty Guasu é nossa parceira”, diz Maldos.

O secretário disse que a escolha de ir ao MS e fazer o anúncio dessas novidades em Ypo’i foi proposital. “Fomos visitar a comunidade mais violentada das violentadas. Além de tudo o que os Guarani-Kaiowá em geral sofrem, lá eles estão sujeitos a um verdadeiro confinamento”, relata ele. “Eu já acompanhava as informações sobre as violências contra os Guarani-Kaiowá havia muitos anos, mas ir até lá me deixou ainda mais indignado com tudo o que vi.”

No final do mês, completam-se dois anos de um crime emblemático: o assassinato de dois professores guarani em Ypo’i, Rolindo e Genivaldo Vera. “Nenhum crime vai ficar impune. Nós vamos identificar esses criminosos”, comprometeu-se Maldos. Entre as violências que têm sido cometidas, o secretário lembra que houve, inclusive, ameaças aos próprios antropólogos que participam dos processos de demarcação de terras.

Expedição no Amazonas vai divulgar astronomia indígena na Semana Nacional de C&T (Jornal A Crítica, de Manaus)

JC e-mail 4365, de 17 de Outubro de 2011.

Calendário indígena do povo dessana associa constelações às mudanças do clima e ao ecossistema amazônico.

Surucucu não é apenas a mais perigosa serpente da Amazônia. Para os povos indígenas da etnia dessana, também é uma das inúmeras constelações que os ajudam a identificar o ciclo dos rios, o período da piracema, a formação de chuvas e sugere o momento ideal para a realização de rituais.

Na astronomia indígena, outubro é o mês do desaparecimento da constelação surucucu (añá em língua dessana) no horizonte oeste – o equivalente a escorpião na astronomia ocidental. O desaparecimento da figura da cobra está associado ao fim do período da vazante. Os dessana têm outras 13 constelações, sempre associadas às alterações climáticas.

Para divulgar a respeito da pouco conhecida astronomia indígena, um grupo de estudiosos promoverá no próximo dia 19 uma expedição de dois dias a uma aldeia da etnia dessana localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Tupé, em Manaus.

Expedição – A comunidade é composta por famílias dessana que se deslocaram da região do alto Rio Negro, no Norte do Amazonas, e ressignificaram suas tradições, cosmologias e rituais na comunidade onde se estabeleceram na zona rural de Manaus. O astrônomo Germano Afonso, do Museu da Amazônia (Musa), que desenvolve há 20 anos estudo sobre constelações indígenas no país, coordenará a expedição. Com os dessana, o trabalho de Germano Afonso é desenvolvimento há dois anos.

Ele descreve a programação como um “diálogo” entre a astronomia indígena e o conhecimento científico. “Será um diálogo entre os dois conhecimentos. Vamos escutar os indígenas e ao mesmo tempo levar uma pequena estação meteorológica que mede temperatura e velocidade. A ciência observa com equipamentos, o indígena vê isso empiricamente”, explicou.

Uma embarcação da Secretaria Municipal de Educação (Semed) levará as pessoas interessadas em participar da experiência. “Vamos fazer atividades de astronomia, meteorologia e química com os indígenas. Será uma atividade integrada à Semana de Ciência e Tecnologia”, explica Afonso.

O traço identificado como surucuru pelos indígenas é mais visível por volta de 19h, pelo lado oeste. Depois da surucuru, é a vez do tatu – outra espécie comum na fauna amazônica.

Desastres – Germano Afonso conta que os povos indígenas observam o céu, a lua, as constelações e sabem exatamente qual a época ideal para fazer o roçado, para se prevenir de uma cheia ou de uma seca. Também sabem qual o momento ideal para realizar um ritual.

A diferença em relação ao conhecimento científico, ocidental, é que não utilizam equipamentos e tecnologia para prever alterações do tempo e mudanças do clima. Mas há uma diferença mais significativa: os indígenas não caem vítimas de desmoronamentos, de grandes cheias ou de uma vazante extraordinária.

“Quem tem mais cuidado com o meio ambiente e evitar os desastres ambientais? Os índios sabem exatamente quando vai cair uma chuva forte e teremos uma grande enchente. Mas eles não morrem por causa disso”, destaca Afonso, que tem ascendência indígena guarani.

Can indigenous peoples be relied on to gather reliable environmental data? (Stanford University)

Public release date: 13-Oct-2011
Contact: Louis Bergeron
Stanford University

No one is in a better position to monitor environmental conditions in remote areas of the natural world than the people living there. But many scientists believe the cultural and educational gulf between trained scientists and indigenous cultures is simply too great to bridge — that native peoples cannot be relied on to collect reliable data.

But now, researchers led by Stanford ecologist Jose Fragoso have completed a five-year environmental study of a 48,000-square-kilometer piece of the Amazon Basin that demonstrates otherwise. The results are presented in a paper published in the October issue of BioScience and are available online.

The study set out to determine the state of the vertebrate animal populations in the region and how they are affected by human activities. But Fragoso and his colleagues knew they couldn’t gather the data over such a huge area by themselves.

“The only way you are going to understand what is in the Amazon in terms of plants and animals and the environment, is to use this approach of training indigenous and the other local people to work with scientists,” Fragoso said.

“If I had tried to use only scientists, postdocs and graduate students to do the work, it would not have been accomplished.”

Fragoso and his colleagues worked in the Rupununi region in Guyana, a forest-savanna ecosystem occupied by the Makushi and Wapishana peoples. They support themselves primarily through a mix of subsistence hunting, fishing and agriculture, along with some commercial fishing, bird trapping and small-scale timber harvesting.

The researchers recruited 28 villages and trained more than 340 villagers in methods of collecting field data in a consistent, systematic way. The villagers were shown how to walk a transect through an area, recording sightings and signs of animals, noting the presence of plants that animals feed on and marking their observations on a map.

The training was not without its challenges. Many of the older villagers were expert bushmen, but could not read, write or do arithmetic. Many of the younger villagers, who had received some formal education, were literate but lacked knowledge of the animals and plants in the wilds around their communities. So researchers paired younger and older villagers to go into the field together. All the villagers were paid for the work they did.

Part of any scientific study is validating the accuracy of the data and Fragoso’s team knew that no matter how well they trained their indigenous technicians, they would have to analyze the data for errors and possible fabrications.

The researchers used a variety of methods, including having a different team of technicians or researchers walk some transects a second time, to verify that they were regularly walked by technicians, that data were accurate and that reported animal sightings were plausible. They also had technicians fill out monthly questionnaires about their work and did statistical analyses for patterns of discrepancy in the data.

The most consistently accurate data was recorded by technicians in communities that had strong leadership and that were part of a larger indigenous organization, such as an association of villages. Fabricated data was most common among technicians from villages unaffiliated or loosely affiliated with such an association, where there was less oversight.

The other main factor was whether a technician’s interest in the work went beyond a salary, whether he was interested in acquiring knowledge.

After all the data verification was done, the researchers found that on average, the indigenous technicians were every bit as able to systematically record accurate data as trained scientists. They were also probably better than scientists at detecting animals and their signs.

“This is the first study at a really large scale that shows that consistently valid field data can be collected by trained, indigenous peoples and it can be done really well,” Fragoso said. “We have measured the error and discovered that 28 percent of villages experienced some data fabrication. This originated from about 5 percent (18 out of 335) of technicians fabricating data, which may not be much different than what occurs in the community of scientists.”

“The indigenous technicians are no more corrupt, sloppy, or lazy than we are,” he said, noting that every year papers published in peer-reviewed science journals have to be withdrawn because of falsified or inaccurate data.

In all, the technicians walked over 43,000 kilometers through the wild, recording data. That’s once around the world and then some. They logged 48,000 sightings of animals of 267 species. They also recorded over 33,000 locations of fruit patches on which various species of animals feed.

Working with indigenous technicians enables researchers to gather far more data over a much larger area than would otherwise be possible, Fragoso said. Such data can be used by governments, scientists and conservation organizations to get an understanding of remote areas, from tropical forests to the Arctic tundra.

Fragoso is optimistic about how the results of the study will be received by the scientific community.

“I have presented this study to some pretty unreceptive groups, such as at scientific meetings, but by the end of the presentation audience members are either convinced, or at least they doubt their argument, which is a major achievement in itself,” he said.

“One thing about the scientific community – if you have enough solid data and the analysis is well done, there is very little you can argue against.”

* * *
[One should ask as well: Can scientists be relied on to gather reliable environmental data? Or journalists? Or politicians?]

A cultura dos geoglifos (Fapesp)

HUMANIDADES | ARQUEOLOGIA
Enormes círculos e quadrados foram escavados no chão da Amazônia há 2 mil anos
Marcos Pivetta
Edição Impressa – Agosto 2011
© EDISON CAETANO
Desenho geométrico em Plácido de Castro, no Acre: palco de cerimônias

Houve uma época em que os deuses parecem ter sido geométricos num canto da Amazônia, o leste do Acre, perto da divisa com a Bolívia. E essa época provavelmente começou bem antes do que se pensava. Doze datações por radiocarbono feitas em diferentes setores de três sítios arqueológicos dessa região sinalizam que a construção dos chamados geoglifos – grandes desenhos escavados no solo da floresta por uma cultura pré-colombiana ainda não determinada, admiradora das linhas retas de quadrados e retângulos e dos traços arredondados de círculos e elipses – teve início há no mínimo 2 mil anos. Coordenado pela arqueóloga Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará (UFPA), o novo estudo, cujo artigo está sendo finalizado antes de ser submetido à publicação numa revista científica, amplia a cronologia da cultura amazônica dos geoglifos. Até agora existia apenas o dado de uma datação feita em 2003 no Acre por pesquisadores finlandeses num desses sítios arqueológicos, que situava os desenhos como tendo sido produzidos entre os séculos XIII e XIV.

Feita a partir de restos de carvão queimado encontrados numa camada geológica rica em pedaços de cerâmica, um indicativo de que houve ali alguma presença humana, a nova série de datações também sugere que os desconhecidos autores dos geoglifos podem ter desaparecido antes da chegada dos europeus nas Américas. Nenhum dos três sítios estudados (Fazenda Colorada, Jacó Sá e Severino Calazas), situados num raio de 20 quilômetros dentro de uma área de platô, de terra firme, não inundável, entre os vales dos rios Acre e Iquiri, forneceu, até agora, elementos de que foram habitados por tribos há mais de 500 anos. “O resultado das datações foi uma surpresa”, diz Denise, que comanda os trabalhos arqueológicos sobre os geoglifos desde 2005 com verbas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Academia de Ciências da Finlândia e do estado do Acre.

A idade dos desenhos geométricos, moldados no solo amazônico por meio da retirada de grandes quantidades de terra, não é o único ponto em revisão. A função primordial desses sítios, que podem apresentar mais de um tipo de geoglifo e vestígios de antigas estradas, também está em aberto. Desde os anos 1970, quando partes do Acre começaram a ser desmatadas por atividades agropecuárias e foram avistados os primeiros geoglifos em pontos até então cobertos pela floresta, os pesquisadores se indagam por que os antigos habitantes da região esculpiram círculos e quadrados em baixo-relevo no solo. A hipótese inicial de que as construções, cujos contornos são formados por valas contínuas abertas no terreno, poderiam ter tido funções defensivas, semelhantes à de um forte, parece fazer cada vez menos sentido. Escavações recentes feitas em quase uma dezena de sítios do Acre associados à ocorrência dos desenhos sinalizam que esses lugares não foram usados prioritariamente como moradia por povos antigos. Como uma espécie de praça tribal, a área interna dos geoglifos deve ter sido utilizada para cerimônias. “A evidência arqueológica sugere que esses sítios eram usados para encontros especiais, cultos religiosos e apenas ocasionalmente como aldeia”, diz Denise.

Quando iniciaram as incursões de campo, os pesquisadores trabalhavam com a ideia de que os sítios com geoglifos pudessem fornecer algum tipo de evidência de ocupação humana em larga escala e por um período prolongado em sua vizinhança. Afinal, é mais do que razoável supor que o povo responsável pela confecção dos grandes e precisos desenhos no solo era numeroso e apresentava uma estrutura social complexa. “Os construtores dos geoglifos não tinham pedras naquela região, mas fizeram enormes trabalhos na terra que demandavam poderio e habilidades de organização comparáveis à de outras civilizações antigas”, diz o arqueólogo Martti Pärssinen, do Instituto Ibero-americano da Finlândia, sediado em Madri, que colabora com a equipe brasileira e também um dos autores do trabalho com as novas datações dos geoglifos acreanos.

Em média, a área interna de um geoglifo varia de 1 a 3 hectares. As figuras menores apresentam geralmente linhas arredondadas, enquanto as maiores podem ser tanto círculos como quadrados. Nos sítios estudados, a profundidade dos buracos no solo que formam os traços dos desenhos variou de 35 centímetros a 5 metros (m) e a amplitude das valetas foi de 1,75 a 20 m. A terra retirada para abrir os fossos era usada pelos arquitetos dos geoglifos para fazer pequenas muretas, de até 1,5 m, que seguiam os contornos das figuras. Para dar conta de todo esse serviço, milhares de pessoas deveriam ter vivido em algum momento nos arredores dos geoglifos e trabalhado de forma coordenada para sua construção. Mas os achados arqueológicos nos sítios investigados em detalhe não ratificam, uma vez mais, o pressuposto inicial dos pesquisadores.

Ossadas humanas preservadas não foram encontradas em nenhum lugar. Não há também manchas da chamada terra preta, um tipo de solo negro muito comum em outras partes da Amazônia, que se forma a partir de restos orgânicos produzidos pelo estabelecimento de ocupações humanas prolongadas numa área. Os poucos artefatos associados a uma cultura material, em geral alguns pedaços de cerâmica, foram resgatados no topo ou no fundo das valas que formam as linhas geométricas ou em pequenos montículos de terra, provavelmente restos de habitações pré-históricas, que se situam bem ao lado dos contornos dos geoglifos. Dentro da área plana demarcada pelos misteriosos círculos e quadrados escavados no chão nada de realmente relevante foi resgatado. “Ainda precisamos achar os locais de moradia e cemitérios dos construtores dos geoglifos”, afirma o paleontólogo Alceu Ranzi, hoje professor aposentado na Universidade Federal do Acre (Ufac), a quem se deve a (re)descoberta dos desenhos no solo nas duas últimas décadas. “Eles devem ter vivido em algum lugar não muito longe dos sítios.”

© AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DO ACRE E EDISON CAETANO / PROJETO GEOGLIFOS DA AMAZÔNIA OCIDENTAL
Diversidade de formas: geoglifos com linhas arredondadas e retas

A tecnologia aeroespacial tem sido uma aliada dos arqueólogos na tarefa de localizar e estudar os sítios amazônicos com geoglifos. Estar um pouco longe e acima dos desenhos, dentro de um avião ou tendo como olhos as lentes de um satélite, facilita o trabalho de procura das grandes figuras geométricas em meio a áreas desmatadas (se há floresta esse expediente não funciona). Inicialmente, os cientistas usaram as imagens gratuitas do serviço Google Earth para procurar novas ocorrências dos desenhos. A partir de 2007, com apoio do governo do Acre, obtiveram também as imagens do satélite taiwanês Formosat-2, que têm maior cobertura. Com o emprego dessas ferramentas de prospecção remota, a quantidade de sítios conhecidos com geoglifos deu um salto: saiu de 32 em 2005, chegou a 150 dois anos mais tarde e hoje está na casa dos 300. Esses são os números relativos ao Acre, que parece ter sido a região onde os desenhos se concentram e podem se espalhar por uma porção do estado com uma área de 25 mil quilômetros quadrados, 16 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Nos estados vizinhos do Amazonas e de Rondônia e também na Bolívia foram identificadas áreas com geoglifos por essa metodologia. “Não é mais tão fácil encontrar novos sítios, pois já fizemos várias varreduras sistemáticas”, explica a geógrafa Antonia Barbosa, da (Ufac), membro da equipe nacional que estudou os geoglifos. “Quando iniciamos o trabalho com imagens de satélite, encontrávamos em uma varredura uns 10 sítios. Hoje, com sorte, achamos um ou dois.”

Não há evidências concretas sobre quem foram os construtores dos geoglifos nem quanto tempo foi consumido nessa tarefa. A construção de valetas e muretas para cercar casas e aldeias já ocorria, por exemplo, na Europa há aproximadamente 10 mil anos, nos primórdios da agricultura. Mas na Amazônia esse tipo de construção é bem mais rara. Como até agora não há indícios de que a fronteira do Acre com a Bolívia foi a morada de uma única e grande civilização perdida, cujos restos das casas e grandes aldeias ninguém consegue encontrar, os arqueólogos passaram a trabalhar com um cenário intermediário. Não deve ter havido um enorme império perdido que cultuava deuses geométricos nesse canto da Amazônia, mas talvez dois ou três povos, ainda seminômades e espalhados por pequenas aldeias (hoje mais difíceis de serem encontradas), que partilhavam alguns traços culturais em comum, como a feitura dos geoglifos. “A sociedade dos geoglifos era de alguma forma complexa, mas estava num estágio formativo, de transição”, diz a arqueóloga Sanna Saunaluoma, da Universidade de Helsinque, que estuda os desenhos tanto na Bolívia como no Acre, aqui do lado dos brasileiros.

Membros das etnias Tacana e Aruaque, que hoje habitam respectivamente o lado boliviano e brasileiro dessa fronteira binacional, são apontados como os possíveis descendentes dos povos que tiveram a tradição de traçar enormes círculos e quadrados no solo. Mas, se um dia foram portadores dessa tradição comum, hoje não a professam mais. Para tornar o quadro mais incerto, não há provas de que as duas tribos estivessem realmente presentes nessa área na época em que os geoglifos foram feitos, tampouco se sabe qual era a divisa territorial que as separava. Uma pista, ainda tênue, de que ao menos uma dessas etnias, a Tacana, pode ter construído geoglifos vem de um texto do final do século XIX. O escrito relata o encontro de um coronel brasileiro, na divisa com a Bolívia, com 200 índios que moravam numa aldeia muito organizada e cultuavam deuses geométricos, talhados em madeira. A história não prova nada, mas pode ser um rastro a ser seguido.

Infanticídio indígena: traços de uma cultura em transformação (I.H. Unisinos)

15/8/2011 –  Instituto Humanitas Unisinos
Infanticídio indígena: traços de uma cultura em transformação. Entrevista especial com Saulo Feitosa
“Se as pessoas querem defender a vida das crianças indígenas, devem aderir a outros projetos de lei”, como o Estatuto dos Povos Indígenas, diz Saulo Feitosa à IHU On-Line, ao criticar oProjeto de Lei 1057/2007, que criminaliza os povos que praticam infanticídio.

Em entrevista concedida por telefone, ele explica que todos os indígenas que vivem no Brasil estão submetidos à legislação brasileira e que, portanto, não há necessidade de sancionar o Projeto de Lei 1057/2007, de autoria do deputado Henrique Afonso (PT/AC). Na avaliação do secretário doCimi, o Projeto tem uma carga preconceituosa, racista e serve “para ampliar o grau de preconceito da sociedade contra os povos indígenas, e para justificar interesses colonialistas que se mantêm nos dias de hoje”.

De acordo com Feitosa, o infanticídio era praticado no período colonial e desde o início da década de 1990 não se têm informações de casos de infanticídio em tribos indígenas. “Todos os registros históricos, dos quais tenho conhecimento, acenam que, entre os indígenas, o índice de infanticídio é baixíssimo. Inclusive viajantes como Fernão Cardim, que escreveu um livro sobre os hábitos do Brasil, faziam referência à maneira carinhosa como as mulheres indígenas cuidavam de seus filhos em comparação às mulheres de Lisboa. (…) Causa-nos estranheza que, 500 anos depois, apareçam grupos fundamentalistas acusando indígenas de matanças generalizadas de suas crianças”.

Feitosa explica ainda que o infanticídio era regido por uma cosmologia indígena e que fazia parte da cultura de alguns povos. “O fato de existir uma narrativa cosmológica não significa que a cultura se mantém atualizada”, enfatiza. E dispara: “A questão do infanticídio, na prática, é residual porque os povos mudam suas culturas”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como avalia a polêmica acerca da prática do infanticídio e o projeto de lei que criminaliza indígenas e profissionais de órgãos governamentais por tais práticas? ONGs e deputados evangélicos acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado é obrigado por lei a protegê-las.

Saulo Feitosa – Por trás desse projeto de lei e desse debate existe uma questão fundamentalista religiosa e uma questão política. Os povos indígenas estão submetidos à mesma legislação brasileira. Portanto, se vierem a cometer qualquer crime, serão julgados e punidos como todos os cidadãos deste país. Hoje, aproximadamente 750 indígenas estão cumprindo pena no sistema penitenciário nacional. Desse modo, não há razão para existir uma lei específica para falar de infanticídio indígena. No entendimento do Cimi, na medida em que se cria uma lei, os índios seriam, duas vezes, julgados e condenados por um mesmo crime.

Todos sabemos que os indígenas defendem a vida, a natureza. Portanto, existe uma campanha nacional e internacional negativa contra os povos indígenas e isso gera um descrédito da população em relação a essas comunidades. É nesse contexto ofensivo contra os direitos indígenas que surge a questão do infanticídio indígena. Os propositores do Projeto de Lei 1057/2007 afirmam que há, entre os povos indígenas do Brasil, a prática do sacrifício de crianças e que esta prática não é combatida pelo Estado e pelos órgãos que atuam junto dos povos indígenas. Sendo assim, eles querem obrigar as pessoas que trabalham com a questão indígena a denunciarem os índios caso suspeitassem da possibilidade de alguma mulher, em processo de gestação, abandonar o filho. Se os profissionais não denunciarem os indígenas, serão julgados pelo crime de omissão. Essa medida mostra novamente a carga preconceituosa e racista do projeto.

IHU On-Line – Qual é a origem e o sentido do infanticídio para as comunidades indígenas? Ele ainda é praticado no Brasil? Quais são as etnias indígenas que praticam o infanticídio?

Saulo Feitosa – Segundo os parlamentares que querem aprovar o Projeto de Lei, o infanticídio seria uma prática regular dos povos indígenas. Temos conhecimento de experiências isoladas, da mesma forma que identificamos casos de abandono infantil na sociedade brasileira. Semanalmente, assisto, no noticiário, informações de crianças abandonadas em grandes cidades: recém-nascidos jogados em lixeiras, abandonados nas ruas, etc. Essa questão do abandono e, mesmo do assassinato de crianças, é uma questão que aflige a toda a humanidade.

Todos os registros históricos dos quais tenho conhecimento acenam que, entre os indígenas, o índice de infanticídio é baixíssimo. Inclusive viajantes como Fernão Cardim, que escreveu um livro sobre os hábitos do Brasil, faziam referência à maneira carinhosa como as mulheres indígenas cuidavam de seus filhos em comparação às mulheres de Lisboa. Muitos historiadores afirmam que a prática de infanticídio era comum no período colonial, especialmente em comunidades que viviam no Rio de JaneiroSalvador e Recife. Há relatos históricos de uma quantidade enorme de recém-nascidos que eram abandonados nas calçadas, nas ruas, mortos e comidos por porcos e cachorros. Os historiadores que relatam esses fatos sempre os comparam com a questão indígena, e afirmam que, entre os índios, essa prática era muito diminuta.

Causa-nos estranheza que, 500 anos depois, apareçam grupos fundamentalistas acusando indígenas de matanças generalizadas de suas crianças. Nós, do Cimi, temos conhecimentos de casos isolados. Alguns missionários já presenciaram atos de abandono de crianças nas florestas. Entretanto, não temos relatos recentes de missionários sobre esses casos. Por isso, não podemos afirmar que há prática de infanticídio nas comunidades indígenas e, tampouco, que acontecem em grandes proporções.

Infanticídio

Vi, em matéria recente de um jornal de grande circulação, que, de um total de 250 povos, cerca de 20 praticam o infanticídio. Não sei como eles chegaram a esse número, considerando que os últimos registros do Cimi datam de 1990. Sabemos que oito povos ainda praticam o infanticídio, os quais têm pouquíssimo contato com a sociedade nacional.

Antigamente alguns povos abandonavam recém-nascidos por não ter informações sobre o que significa, por exemplo, uma criança nascer com retardamento psicomotor. Não tendo condições de sobreviver na floresta, essas crianças eram abandonadas. Há outros relatos de crianças que nascem sem um “pai social”. Para os indígenas, uma criança que nasce sem um pai para poder caçar e garantir a sua sobrevivência não tem condições de sobreviver. Nesses casos, os recém-nascidos eram abandonados por questões práticas, pois, na percepção da comunidade, não teriam condições de sobreviver na selva. Outros relatos referem-se às narrativas cosmológicas do nascimento de gêmeos. Pesquisadores registraram, através da história oral, que não se aceitava, em determinadas culturas, o nascimento de gêmeos. Então, em função da cosmologia e dos mitos de origem do povo, se acreditava que os gêmeos deveriam ser sacrificados.

Campanha contra o infanticídio

Hoje, essas campanhas contra o chamado infanticídio indígena se fundamentam nesta narrativa cosmológica, o que, para nós, é um absurdo. O fato de existir uma narrativa cosmológica não significa que a cultura se mantém atualizada. A prática dos processos de cultura é dinâmica. Então, deve haver, em povos que têm pouco contato com outras culturas, essa referência cosmológica, que justificaria o abandono de uma criança gêmea, por exemplo. Mas em muitos povos onde essa narrativa estava presente, a prática deixou de existir. É muito fácil compreender isso: muitas práticas do Antigo Testamento são condenáveis na sociedade de hoje. Apesar de elas permanecerem na Bíblia, não são praticadas pelos cristãos do século XXI. Então, não podemos olhar para o nosso universo religioso e olhar para os demais povos de outra forma. Embora subsista, nas narrativas cosmológicas, informações a respeito da gravidez de gêmeos, na prática, as ações têm se alterado. Por isso, costumamos dizer que a questão do infanticídio, na prática, é residual porque os povos mudam suas culturas. O pluralismo histórico acontece em todas as culturas, as quais adquirem, com o tempo, novas formas.

Quando o Cimi foi fundado, os povos indígenas não tinham acesso à saúde e, portanto, os missionários eram treinados para suprir essa carência. Hoje, existe a assistência à saúde, ao médico, por mais precária que seja. Isso também contribui para alterar a cultura dos povos.

No Mato Grosso tem um povo formado por aproximadamente 100 pessoas. Eles foram combatidos em 1978. Na época, sobreviveram 27 pessoas. Desde então acompanhamos essa comunidade. Daquele número de 27 pessoas, eram poucas as mulheres em idade fértil. Logo após a inserção da nossa equipe na comunidade, nasceu uma criança doente. Para os indígenas, o recém-nascido era vítima de feitiço e, portanto, deveria ser sacrificado. Os missionários que estavam no local explicaram que, na nossa sociedade, havia uma espécie de pajé que conseguia realizar um tratamento e sanar aquela deficiência. A comunidade aceitou e a criança foi levada a um hospital em Goiânia, onde foi submetida a uma cirurgia de reparação. O bebê retornou um tempo depois e foi aceito pela comunidade. Para resolver essa questão, não foi preciso uma lei, mas, sim, diálogo. É lógico que depois daquele acontecimento, a cultura da comunidade sofreu mudanças. Então, nada justifica que agora se insista na aprovação de um projeto de lei para criminalizar um povo. Projetos como esse servem para ampliar o grau de preconceito da sociedade contra os povos indígenas e para justificar interesses colonialistas que se mantêm nos dias de hoje.

Esses povos têm muitos valores e nós precisamos aprender com eles. Então, não aceitamos, em hipótese alguma, essa leviandade que está sendo veiculada na mídia, inclusive com a produção de um pseudodocumentário mentiroso que fala do enterramento de crianças junto dos povos Suruwahá. Não se trata de um documentário e, sim, de uma ficção gerada pela mente colonizadora.

O povo Suruwahá pratica o suicídio coletivo. Eles são conhecidos como o povo do veneno. A população deles é diminuta, algo em torno de 100 pessoas. Com a morte dos adultos, muitas crianças ficam órfãs. Então, o problema do Suruwahá não é o infanticídio e, sim, o suicídio. Os membros de organizações que criticam o infanticídio dizem que os índios praticam o suicídio porque são obrigados a matar seus filhos e, para não matá-los, elas se suicidam. Isso é uma mentira, uma distorção de informações. Esse povo sofreu, há séculos, um grande ataque e os sobreviventes nunca mais conseguiram formar novos pajés. Então, eles adotaram a prática do suicídio ainda jovem para se encontrarem com os pajés em outra esfera. Este ano estive na Amazônia e a equipe que trabalha lá disse que houve redução de casos de suicídios entre esses índios dessa etnia.

IHU On-Line – Então a discriminação contra os indígenas tem um viés religioso? Que religiões manifestam essa posição e por quê?

Saulo Feitosa – Quem coordena e estimula essa campanha é a ONG Atini – Voz pela vida, e outros grupos religiosos fundamentalistas. O povo brasileiro tomou conhecimento do infanticídio a partir do ano de 2006, quando foi produzido um documentário chamado Hakani. A história de uma sobrevivente, que mostra o enterro de crianças vivas. Os atores indígenas que desempenharam esses papéis receberam 30 reais. Depois da veiculação do vídeo, o Ministério Público entrou com uma ação contra os produtores do documentário, porque as crianças que apareceram no filme pertenciam ao povo Karitiana, de Rondônia. O documentário foi exibido em um programa de televisão e as pessoas da comunidade assistiram. Pela cultura daquele povo, quem simula o enterramento perde a sua alma. Portanto, as imagens criaram um problema cultural grave para as crianças. Inclusive, no depoimento para o Ministério Público, os pais das crianças indígenas disseram que receberam 30 reais para as crianças serem fotografadas. Eles não sabiam que elas participariam de um documentário.

IHU On-Line – Quais são as razões da intolerância indígena hoje?

Saulo Feitosa – Uma das razões é a distribuição da terra. A grande função do projeto de Lei é criar, dentro do Congresso Nacional, um clima anti-indígena porque existem diversos projetos de leis a favor dos povos indígenas tramitando no Congresso. Há uma campanha internacional para demonstrar que os povos indígenas são selvagens. Essa imagem certamente irá repercutir em outros projetos de leis referentes à demarcação de terras indígenas, exploração de minérios em terras indígenas, etc., reforçando a imagem negativa que se tem desses povos.

Se as pessoas querem defender a vida das crianças indígenas, devem aderir a outros projetos de lei. Existe no Congresso uma proposta, que foi amplamente discutida com todos os povos indígenas do Brasil, sobre a criação do Estatuto dos Povos Indígenas, porque a legislação que está em vigor é de 1973, ou seja, é anterior à Constituição Federal e, portanto, não está adequada para a atual situação dessas comunidades. O novo texto tem, inclusive, um artigo especial de proteção à criança e ao adolescente indígena, o qual enfatiza que, caso uma criança seja rejeitada pelos pais, poderá ser adotada por pessoas do próprio povo ou povos próximos.

IHU On-Line – Nesta semana, o povo Kaingang bloqueou sete estradas federais no Rio Grande do Sul, reivindicando melhores condições na área da saúde. Eles argumentam que, embora tenham acesso ao SUS, as condições de atendimento são precárias. Como avalia essa questão? O acesso à saúde entre as comunidades indígenas é mais precário do que para a população em geral?

Saulo Feitosa – No final dos anos 1980, o Brasil instalou um sistema correlato de atenção à saúde indígena. Portanto, os índios têm um sistema próprio de saúde que se fundamenta nos distritos especiais indígenas. Esses distritos foram projetados com a perspectiva de serem autônomos do ponto de vista da gestão, assim, eles teriam quadros de funcionários para atender as comunidades. Esse projeto de assistência à saúde foi bem desenhado, mas, na prática, ocorreram privatizações e um esvaziamento da proposta original de se criar distritos para atender as comunidades. Os serviços foram terceirizados e essa terceirização foi agravada pelo alto índice de corrupção dentro daFundação Nacional da Saúde – Funasa: auditorias demonstram os desvios de verbas da saúde pública. Além disso, cargos foram loteados para políticos e os distritos não foram administrados por pessoas competentes. Nesse sentido, a saúde indígena é tão precária quanto à dos demais brasileiros. O governo deveria abrir concurso público para atender à saúde indígena. Enquanto isso não acontecer, continuaremos assistindo essa precariedade e a morte de crianças.

IHU On-Line – Como vê a política indigenista hoje? Quais os avanços e os limites?

Saulo Feitosa – O governo e a Fundação Nacional do Índio – Funai têm um discurso progressista de reconhecimento aos direitos indígenas, de valorização da cultura, mas, uma prática colonialista. O governo Lula criou a Comissão Nacional de Política Indigenista, a qual pensávamos ser um processo importante, mas percebemos que o governo inicialmente apenas sinalizou para uma discussão. Quando os índios passaram a exercer a sua autonomia, o governo começou a tomar atitudes autoritárias ao ponto de fazer uma reestruturação da Funai sem discutir com os povos indígenas. Esse era um processo para ser feito como uma construção coletiva, e não reproduzindo modelos autoritários do período militar.

Ainda este ano, o presidente da Funai, junto com o ministro da Justiça e o delegado geral da União, publicaram uma portaria para redefinir as bases para a demarcação de terras indígenas incluindo a participação dos municípios, que historicamente sempre foram contra à demarcação de terras por causa de interesses econômicos e políticos locais. Essa situação se agravou e, na última reunião daComissão Nacional de Política Indigenista – CNPI, em junho, os representantes indígenas dessa comissão, em protesto, disseram que não votariam e se retirariam da reunião. Eles só voltariam a se reunir se a presidenta Dilma estivesse presente porque, desde que foi eleita, ela não conversou com as representações indígenas do país.

As obras do PAC afetam as terras indígenas e os povos não são consultados, embora o país seja signatário da Organização Internacional do Trabalho – OIT, e embora a Constituição obrigue o Estado a fazer consultas em relação a temas polêmicos como Belo Monte, a transposição do rioSão Francisco, as hidrelétricas do rio Madeira etc. Diria que os documentos do governo não reproduzem mais o ranço da ditadura militar, mas, na prática, agem da mesma maneira.

O paraíso indígena e a lenda da “pedra da Batateiras” (O Povo)

No Cariri, conta a tradição indígena que uma pedra rolará da Chapada do Araripe, inundando toda a região

20.08.2011| 16:00

A pedra fica na nascente do rio Batateiras, na Chapada do Araripe (DIVULGAÇÃO)

Conta-se no Cariri que a pedra da nascente do rio Batateiras, o maior olho d’água da Chapada do Araripe, um dia irá rolar, inundando toda a região e despertando uma serpente que vem devolver as terras dos índios escravizados pelos brancos.

A lenda da catástrofe, seguida da volta do povoamento dos índios cariris, contada há séculos, ganha nova leitura com a pesquisa do historiador Eldinho Pereira. O texto inédito “A Pedra da Batateiras e a restauração do ‘Paraíso’” reconta a história dos índios cariris e as origens da lenda que cerca a nascente.

Pesquisador do Instituto da Memória do Povo Cearense (Imopec), com sede em Fortaleza, Eldinho explica que muitos aspectos da lenda são recuperados por relatos que chegaram até os dias atuais.

“Desde criança tenho ouvido histórias fantásticas. Comecei a colocar alguma coisa no papel e os depoimentos de pessoas locais diferentes acabaram convergindo”, detalha o historiador, natural de Farias Brito, no Cariri.

Eldinho é adepto da tese do cineasta Rosemberg Cariry, para quem os movimentos de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro, de Juazeiro do Norte, por Padre Cícero, e do Caldeirão, pelo beato José Lourenço, “constituíram verdadeiras tentativas de recriações do ‘Paraíso’ dos índios cariris e dos mestiços despojados de suas próprias terras”.

Mar e Sertão

O historiador relaciona a lenda da “pedra da Batateiras” à percepção dos índios cariris de que a região um dia abrigou mar.

“Como os índios não tinham conhecimentos específicos, apelaram para o imaginário. Para eles, o mar tinha se evacuado, descido para o subsolo e a água voltaria pela nascente do rio Batateiras”, conta Eldinho.

O pesquisador cita ainda a importância de movimentos como a tentativa de reorganização de povos cariri no sítio Poço Dantas, na zona rual do Crato, onde vivem entre 30 e 40 famílias descendentes da etnia.

Como

ENTENDA A NOTÍCIA
O mais provável é que a lenda tenha surgido entre os índios aldeados na Missão do Miranda, no século XVIII. De acordo com Rosemberg Cariry, os pajés profetizavam que a pedra rolaria e, quando as águas baixassem, a terra voltaria a ser fértil e os cariris voltariam para o “Paraíso”.

SAIBA MAIS
Eldinho Pereira conta que, sob a ótica católica, a lenda da serpente é trocada por uma baleia que habitaria o subterrâneo do centro do Crato. “Quando ela sair, anunciará o novo tempo, expulsando os homens maus. Anjos suspenderiam Juazeiro e a água passaria por baixo”, relata.

As forte chuvas no Crato, em janeiro, foram motivo para que a população da cidade lembrasse a lenda. “A pedra da Batateira rolou”, comentava-se.

Segundo Eldinho, Antônio Conselheiro teria tomado conhecimento da lenda em sua passagem pelo sul do Ceará e Nordeste da Bahia, onde também habitavam os cariris. Daí as menções de que o “sertão vai virar mar” em seus discursos.

Thiago Mendes
thiagomendes@opovo.com.br

As pedras do sol (Fapesp)

Pesquisa FAPESP – Edição 186 – Agosto 2011
Humanidades

Blocos de granito talhados há mil anos no Amapá estão alinhados com a trajetória do astro 
Por Marcos Pivetta

© MARIANA PETRY CABRAL
Sítio do Rego Grande: astronomia e cemitério

No final do século XIX, o zoólogo suíço Emílio Goeldi fez uma expedição ao rio Cunani e encontrou grandes blocos de rocha que pareciam apontar para o céu em terras do atual norte do Amapá, uma área então em litígio entre o Brasil e a França. Ao longo das seis primeiras décadas do século passado, alguns pesquisadores de renome, como o alemão Curt Nimuendajú nos anos 1920 e os americanos Betty Meggers e Clifford Evans no final dos anos 1950, também avistaram essas construções humanas com os tais blocos de granito em alguns sítios arqueológicos. Pouca cerâmica associada aos locais dos megálitos, como são chamadas as grandes estruturas de pedra arranjadas ou construídas por mãos humanas, foi resgatada e ganhou corpo a interpretação de que, naquele pedaço quase perdido da Amazônia, apenas uma pequena população de algum povo pré-colombiano deve ter feito sua morada. Os sítios deveriam ter sido usados basicamente para fins cerimoniais. Depois disso, a região caiu num semiesquecimento para a ciência.

Até que, em 2005, um jovem casal de arqueólogos gaúchos, Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanha, deixou o Sul, se mudou para a capital amapaense e passou a se dedicar ao estudo de alguns 200 sítios pré-históricos do estado, dos quais uns 30 apresentam megálitos. Embora ainda haja muitas lacunas de conhecimento sobre a antiga cultura que talhou e ordenou os blocos de granito, alguns com até 2,5 metros de altura e 4 toneladas, a dupla de pesquisadores produziu uma série de novos dados sobre o contexto em que as estruturas foram erigidas. Pela primeira vez, o importante sítio do Rego Grande, dotado de vistosas pedras na posição vertical e situado em Calçoene, município distante 460 quilômetros ao norte de Macapá, foi alvo de uma datação por carbono 14, um dos métodos mais confiáveis. “Conseguimos realizar três datações de fragmentos de carvão encontrados dentro de poços funerários do Rego Grande”, diz Mariana, que, como Saldanha, trabalha no Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa). O local foi habitado há cerca de mil anos, dado que confirma as estimativas iniciais dos cientistas. Outros 10 sítios do Amapá, três deles com megálitos, também foram datados e todos parecem ter sido ocupados entre 700 e mil anos atrás.

É relativamente comum que sítios pré-históricos com megálitos exibam evidências de terem sido usados como lugares para observação de algum fenômeno astronômico. Essa é uma das funções que se atribuem comumente ao famoso círculo de pedras de Stonehenge, erigido há 4,5 mil anos no sul da Inglaterra. Seria o Rego Grande um Stonehenge amazônico? As evidências apoiam essa interpretação. Nos últimos anos os arqueólogos realizaram medições sistemáticas sempre na data de 21 ou 22 de dezembro, que marca o solstício de inverno (Calçoene está acima da linha do equador), e verificaram que um fino monólito parece estar alinhado com a trajetória do sol ao longo desse dia. Ao nascer, o sol está no topo da rocha e, com o passar das horas, vai descendo até morrer na base da rocha. “Nessa época do ano o solstício marca o início da temporada de chuvas na Amazônia”, comenta Saldanha. “Os índios deviam saber disso.” Dois outros blocos de granito, inclusive um com furo feito por mãos humanas, também ocupam posições aparentemente associadas ao movimento do astro nessa data. Como as pedras e blocos inclinados do Rego Grande exibem uma robusta fundação, feita também de pedras, os arqueólogos acreditam que a angulação do megálito foi pensada por seus idealizadores, e não seria fruto do desgaste natural sofrido pelos pedaços de granito do sítio.

Especialista em megálitos, em especial os do Alentejo, o arqueólogo português Manoel Calado, da Universidade de Lisboa, concorda com a hipótese de que as pedras inclinadas do Rego Grande podem ter sido dispostas dessa maneira para marcar a observação, na linha do horizonte, de eventos astronômicos simples, de caráter cíclico, como a trajetória do sol solsticial. “Não tenho nenhuma dúvida (disso)”, diz Calado, que já esteve no Amapá para conhecer as estruturas líticas desse sítio, mas não faz parte do grupo de pesquisa dos brasileiros. “Esse é um dos aspectos que tornam os megálitos amazônicos muito semelhantes aos da Europa.” Para ele, a construção desse tipo de estrutura pode ter sido realizada no Amapá num momento em que as tribos locais passavam por um processo de sedentarização e de eclosão ou desenvolvimento da agricultura. Era preciso estar fixo à terra para alterar a paisagem com estruturas como os megálitos.

Cemitério – Rego Grande e outros sítios com megálitos exibem traços de terem sido usados também como cemitérios, outra característica típica desse tipo de estrutura pré-histórica. Urnas funerárias feitas no estilo cerâmico aristé, marcado por desenhos vermelhos sob um fundo branco ou pontuado por gravuras feitas na argila ainda úmida, foram encontradas nesses locais. Pedaços de vasos decorados, achados junto às urnas, indicam que os mortos podem ter sido enterrados ao lado de oferendas. “Os sítios com grandes megálitos devem ter sido destinados às pessoas mais importantes da tribo”, afirma Saldanha. O problema é que cerâmicas desse estilo foram igualmente encontradas em sítios pré-históricos que não exibem monumentos de pedra. Comum em todo o litoral norte do Amapá e na Guiana Francesa, a elaborada cerâmica aristé deixou de ser produzida depois da chegada do europeu às Américas e, segundo Mariana, sua confecção não pode ser associada a nenhum povo indígena atual da região.

A dupla de pesquisadores, que representa dois terços da arqueologia amapaense (só há mais um especialista nesse tema no estado), escavou ainda duas aldeias antigas, também na região de Calçoene, onde devem ter morado os construtores das grandes estruturas líticas. Descobriram vestígios de apenas meia dúzia de habitações em cada aldeia. No início de seus trabalhos os arqueólogos ainda se amparavam na hipótese de que poderia ter havido uma sociedade complexa e organizada, com uma população numerosa e grandes acampamentos, no norte do Amapá, por volta do ano mil da era cristã, quando surgiram os primeiros megálitos. Agora acreditam que a alteração na paisagem natural do Amapá pode ter sido produzida por tribos com poucos representantes. “Eles parecem ter vivido em pequenas aldeias esparsas, mas tinham uma liderança e organização para ter feito os megálitos”, afirma Saldanha.

Dancing, Climate Change, and Human Perseverence

Posted by Douglas Joseph La Rose at the EANTH list. 23/07/2011 12:20

“This Wednesday, I had one of the most powerful experiences of my life. I went to a small village in the Upper West Region of Ghana named Bakbamba to help conduct research on climate change and social-cultural adaptations to a changing environment. I have been doing this work for a few weeks now, beginning in coastal eastern Ghana and moving north. But what I experienced today was a life-changing experience. I will do my best to convey my feelings here, but no words would ever be ample to describe the emotion, compassion, and appreciation I felt in this community.

The Upper West Region of Ghana is the poorest region in the country. Outside of the regional capital, Wa, there is really nothing else but vast savanna covered with Shea and baobab trees. The people are primarily subsistence farmers and fishers. The farmers plant guinea corn, maize, yams, beans, bambara beans, millet, groundnuts, and some other crops. Fishers set traps and mobilize nets in the black Volta river that separates Ghana from Burkina Faso. Women also gather Shea nuts and sell them to foreign buyers who process them into cosmetics and edibles. Over the past ten years, rainfall has become sporadic, inconsistent, unpredictable, and unreliable. In these Wala, Fulani, and Lobi communities that have been surviving for centuries, people are beginning to give up and move out. They are suffering from observable climate change and often becoming climate change refugees.

In the course of doing interviews with rural farmers, fishers, and gatherers I heard many stories about failed crops, declining catches in fish, and even lack of fruits from Shea trees, which have been a productive alternative economic resource for decades. Their story is a bleak one. Most crops fail and the only foods Wala and Lobi people can depend on are fish and maize, which takes three months to grow and can be opportunistically planted. Though they plant other crops, many of them are failing because rains are becoming increasingly unpredictable and deluges and floods more common. There is no source of potable water, so people in the village drink from stagnant, muddy ponds. Guinea worm is still a widespread problem. There is no other option. Most of the people we were able to interview were only in their 30s and 40s – because that is about as old as they live. In this village of 300 people, 20 have already died this year. One particular woman I interviewed was 30 years old, but she looked like she was 60. Poor nutrition, hard work, and no access to clean water are taking their toll.

At the end of the day, the women in the town gathered in a circle and began a traditional dance. The women around the circle were clapping poly-rhythmically and singing with beautifully sculpted, angelic voices. I watched as, one by one, the women would enter the circle and do an energetic, stomping dance. At the end of the dance they would throw themselves into the surrounding circle and be caught by the other women. This went on for almost 45 minutes. I asked one of our local research assistants what they were singing and he explained that the dance was about a fighting couple, and they were saying that if the husband no longer loved the wife he should leave her. The women who were catching each other represented the community. “We should support each other,” a woman told me. I sat down and watched the dance, how the women were moving around in passionate whirls, heaving themselves into the boundaries of the circle to be caught by other community members. In this poor village of hunger, desperation, and confusion about a changing environment they were finding the energy to remember and celebrate the perseverance of the human spirit. It was an overwhelming experience to watch frustration and unity translated into cultural performance.

Throughout our interviews and participation in the community, I felt both alarmed and reassured. Alarmed that the situation in this part of upper Ghana is much worse than I expected, and reassured that people are forging ways to adapt.”

Mato Grosso do Sul tem mais de 600 índios nas universidades e cursos de pós-graduação (Midiamax News)

24/07/2011 13:38

Jucyllene Castilho, com informações da UCDB

Atualmente, há mais de 600 índios nas universidades de Mato Grosso do Sul, segundo estimativa do Projeto Rede de Saberes. Esse número vem crescendo junto ao de pós-graduandos índios, que fazem mestrado é até doutorado dentro ou fora do estado. Na sexta-feira (22), eles se reúnem na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) para pensar a criação de um fórum ou uma rede de pesquisadores indígenas.

Os professores perceberam que a universidade precisa estar preparada para recebê-los e criar formas de reconhecer os conhecimentos que eles já trazem de suas comunidades, ou seja, os conhecimentos tradicionais, que por muito tempo foram subestimados pela academia. A idéia desses professores é mostrar que os saberes destes povos são tão importantes quanto o da universidade, então a academia não deve tentar “engessá-los” em métodos científicos, mas ouvi-los e dialogar com eles.

Desde 1995, professores da UCDB têm trabalhado em projetos com populações indígenas de MS. Eles se articulam à professores de outras universidades do estado para ampliar essas ações e melhor entender quais são as necessidades destas comunidades.

Graduação

A UCDB tem 40 índios na graduação e seis cursando Mestrado em Educação ou Desenvolvimento Local. O número é maior nas universidades do interior do estado, que ficam mais próximas das reservas indígenas. Estes índios são das etnias Guarani, Terena, Kadiwéu, Ofaié e Kinikinau.

O projeto que trabalha especificamente com os universitários indígenas no MS é o Rede de Saberes. Os outros trabalhos de pesquisa e extensão junto aos índios estão articulados ao Programa Kaiowá Guarani, coordenado pelo Antonio Brand e desenvolvido pelo Neppi (Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas), que é coordenado pelo padre George Lachnitt.

Rede de Saberes conta com a parceria entre a UCDB, UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e UEMS (Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul), realizaram no último dia 17, em Dourados, o III Encontro de Acadêmicos Índios e Política Partidária, que reúne índios, professores e representantes de instituições convidadas, além de oito vereadores indígenas.

Durante o evento foi realizada uma discussão entre os parlamentares, estudantes e lideranças, a respeito de estratégias que fortaleçam a presença de índios no segundo maior estado com população indígena do País. Junto com o III Encontro, o Rede de Saberes realiza também nesses dois dias, o 1° Encontro Temático Saberes Tradicionais e Científicos – Direito.

O evento, que conta com a presença do Neppi da UCDB e de acadêmicos do curso de Direito da Católica, busca abrir discussão entre os estudantes sobre os saberes tradicionais e científicos, a fim de articular os dois conhecimentos. Mais informações sobre o Rede de Saberes podem ser obtidas pelo telefone 3312-3351.

Articulista é condenado à prisão por crime de racismo contra indígenas (MPF)

Do MPF

por Sue Lizzie Viana Coitinho
14/07/2011 14:56

Condenação é inédita em MS e rara no país. Justiça considera que liberdade de expressão não pode ser usada para propagar racismo.

A Justiça aceitou os argumentos do Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) e condenou o advogado e articulista Isaac Duarte de Barros Júnior a dois anos de reclusão pelo crime de racismo contra etnia indígena. A sentença, de 6 de julho, é inédita em Mato Grosso do Sul, estado com a 2ª maior população indígena do país.

Ele escreveu um artigo, publicado no jornal O Progresso, de Dourados, com termos ofensivos aos indígenas da região. O MPF ajuizou duas ações na Justiça Federal contra o articulista, uma penal e outra por danos morais, em que é exigida reparação que pode passar de R$ 30 milhões. Com a presente decisão judicial, a ação por danos morais, que estava suspensa, deve voltar a tramitar.

Isaac foi condenado com base no artigo 20 da Lei 7.716/89, que define os crimes de preconceito de raça ou cor. Na sentença, o juiz afirma que a liberdade de expressão não é uma garantia absoluta. “A dignidade da pessoa humana, base do estado democrático de direito, prevalece sobre qualquer manifestação de pensamento que incite ao preconceito ou à discriminação racial, étnica e cultural”

Cultura indígena deve acabar

O artigo foi publicado em 27 e 28 de dezembro de 2008, sob o título “Índios e o Retrocesso”. Nele, o articulista utilizou os termos “bugrada” e “malandros e vadios” para referir-se aos indígenas. Afirmou, ainda, que eles “se assenhoram das terras como verdadeiros vândalos, cobrando nelas os pedágios e matando passantes”.

Em outro trecho, critica a cultura indígena: “A preservação de costumes que contrariem a modernidade são retrocessos e devem acabar. Quanto a uma civilização indígena que não deu certo e em detrimento disso foi conquistada pela inteligência cultural dos brancos, também é retrógrada a atitude de querer preservá-la”.

Também é contrário ao respeito à organização social, a cultura, crenças e tradições indígenas, mandamento constitucional confirmado como cláusula pétrea: “Em nome da razão e dos avanços culturais modernos civilizados, os palacianos parlamentares brasileiros deveriam retirar imediatamente a tutela constitucional exercida comodamente sobre os costumes ultrapassados dos índios aculturados”.

O articulista também se insurgiu contra o processo de demarcação de terras indígenas em Mato Grosso do Sul: “O que necessitamos, com maturidade responsável, é dar urgente finalidade social e produtiva a todos os quinhões brasileiros, inclusive aqueles ocupados por índios malandros e vadios”.

A culpa é da TV

Chamado a explicar-se perante a 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados, o articulista negou o que havia escrito e atribuiu suas ideias a um avô e a programas de TV, afirmando que “os donos da terra são os silvícolas e deve haver uma distribuição de terras aos indígenas(…) que ao seu ver bugre é bandido, índio não”. As alegações não foram aceitas pela Justiça: “Observa-se a tentativa do acusado em ludibriar esse juízo (…) Como pode uma pessoa com formação intelectual, escrever sobre questões indígenas e desconhecer o real significado dos termos por ele próprio utilizados?”.

Referência processual na Justiça Federal de Dourados:

Processo penal: 2009.60.02.000481-5

Processo cível (indenização): 2009.60.02.004327-4

[Publicado no blog de Luis Nassif em 20/07/2011 – ver aqui]

A vida dos índios da cidade grande (OESP)

Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110717/not_imp745999,0.php

Na Favela Real Parque, onde se instalaram nos anos 1950, pancararus conservam tradições espirituais; em aldeia de Parelheiros, crianças guaranis colhem frutas no pé

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

Assim como migrantes nordestinos, os pancararus começaram a chegar da zona do sertão do São Francisco, em Pernambuco, em meados da década de 1950, em busca de emprego. Eles foram chamados para cortar árvores em loteamentos do bairro do Morumbi, na zona sul, e depois ajudaram nas obras da construção do estádio do São Paulo.

Paulo Liebert/AE. No extremo sul. Índios guaranis na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros

Instalaram-se nos terrenos vizinhos, descampados que viraram a Favela Real Parque, hoje em processo de urbanização. Estima-se que existam pelo menos mais de 3 mil pancararus na capital, o que os tornaria uma das etnias mais numerosas da cidade. “Depois do incêndio na favela (ocorrido em setembro do ano passado), muitos se dispersaram. Eram mil e hoje são cerca de 200. Estão vivendo de aluguel em outros bairros ou voltaram para a aldeia”, diz o pancararu Ubirajara Ângelo de Souza, de 47 anos, que chegou à Real Parque aos 20 anos. Seu pai trabalhou nas obras do estádio do Morumbi.

Na favela ainda existem lideranças espirituais que rezam nas casas dos indígenas locais e usam ervas medicinais para cura. Também há grupos de canto e dança que utilizam trajes tradicionais em festas indígenas na capital. Para se adaptar às transformações na cidade, os pancararus precisaram aprender a conviver nos últimos anos com as lideranças do tráfico local. “É cada um de um lado. Eu os respeito e eles nos respeitam”, diz Ubirajara, que assim que vender sua casa deve voltar para a aldeia onde nasceu, em Pernambuco.

A melhoria de renda nos Estados do Norte e do Nordeste, por sinal, pode estar levando muitos indígenas a retornar às suas aldeias. Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram redução entre aqueles que se declaram indígenas na Grande São Paulo e na capital. Há dez anos, 33 mil pessoas diziam ser indígenas na metrópole. Atualmente, são 21 mil.

A aldeia guarani Tenondê Porã, em Parelheiros. Tiago Queiroz/AE

No ano que vem, o IBGE vai divulgar os números da primeira pesquisa em que os indígenas declararam aos recenseadores suas etnias. O levantamento mais completo na capital havia sido feito no ano passado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e apontou a existência de 22 etnias na metrópole paulista. “Ainda é preciso olhar os números do censo com cautela. Pode estar de fato havendo uma onda migratória, porque os indígenas se mudam com grande frequência. Mas só os resultados detalhados no ano que vem vão permitir sabermos com mais clareza o que está ocorrendo”, afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Mesmo em uma das maiores cidades do mundo, a vida dos índios paulistanos pode ser bem parecida à de indígenas de tribos no interior do País. Na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros, vivem cerca de 1,2 mil guaranis, a 70 quilômetros da Praça da Sé. São basicamente oito grandes famílias, com filhos, netos, bisnetos, genros e noras, que compartilham casas de tijolos, construídas pelo Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU), seguindo as orientações dos próprios indígenas.

Pratica-se basicamente a agricultura de subsistência, que fornece o alimento cotidiano. Há bananeiras, pés de goiaba, mexerica, goiaba, laranja e manga, que as crianças colhem no pé. A renda vem basicamente do artesanato indígena, vendido para lojinhas da capital.

O cacique, líder local, trava atualmente uma briga para ampliar os perímetros das terras guaranis. Cinco pajés servem como guias espirituais, dando conselhos e rezando em uma casa sagrada. Os pajés também batizam as crianças da aldeia com nomes em guarani, dependendo das características de cada uma. “Vivemos em família, por isso nunca um deixa faltar nada ao outro em nossa comunidade”, afirma o coordenador educacional indígena da aldeia, Adriano Veríssimo, que em guarani se chama Tenonde Porã, nome que significa “belo futuro”.

A vida fora das aldeias pode ser mais difícil. O terena Elton José, de 32 anos, veio para Mogi das Cruzes há dez anos, depois de nascer em uma aldeia em Mato Grosso do Sul onde caçava com lanças e morava em ocas de palha. Acabou seus estudos na Grande São Paulo e hoje trabalha com tecnologia da informação, prestando serviço a grandes empresas. Ele admite que na Grande São Paulo teve acesso a um tipo de conforto que jamais teria se tivesse permanecido em sua aldeia, mas sente falta do que deixou para trás e quer voltar. “Há conforto, mas não há qualidade de vida. Sinto falta do mato. Em São Paulo, você vegeta se não tem dinheiro. O contato familiar é sempre difícil e a relação com os parentes é algo que prezamos muito”, diz.

Elton conta, no entanto, que só passou a realmente valorizar a cultura indígena depois de deixar a sua aldeia.

Ana Rosa Verissimo, de 89 anos, quarenta deles vividos na aldeia Tenondê Porã. Ela veio com o marido do Paraná e tem mais de cem descendentes, entre filhos, netos e bisnetos. Paulo Liebert/AE

Keila Pires de Lima, de 7 anos, na aldeia guarani Tenondê Porã, Paulo Liebert/AE

O xavante Lúcio Waane Terowaa usa brincos de madeira santa. Segundo a tradição, eles ajudam a prever o futuro por meio dos sonhos. Nilton Fukuda/AE.

Índias da aldeia guarani Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

Tucano e indiozinho na aldeia Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

* * *

Cidade de SP tem 38 etnias indígenas
Levantamento da ONG Opção Brasil mostra que Região Metropolitana tem quase o mesmo nº de povos que o Estado do Amazonas

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

O índio xavante Lúcio Waane Terowaa, de 33 anos, migrou para São Paulo há cinco anos vindo de uma tribo de Barra do Garças, em Mato Grosso. Chegou ao Itaim Paulista, na zona leste, para seguir os passos do mais famoso representante de sua etnia, o cacique Mário Juruna, eleito deputado constituinte em 1986, conhecido por gravar promessas suspeitas de políticos.

No ano passado, em São Paulo, Terowaa se lançou candidato a deputado estadual pelo PSL e teve 318 votos. Em vez do gravador, usa o Facebook como ferramenta política. Tem 910 amigos, com quem debate formas de criar uma aldeia “ecologicamente correta” e autossustentável, que sirva como modelo a ser replicado no Brasil, a partir de São Paulo. “Tenho amigos virtuais de 23 etnias só aqui na cidade. É uma das maiores diversidades do Brasil e por isso São Paulo é uma base importante para a política indígena.”

As impressões do xavante são confirmadas pelo levantamento feito pela ONG Opção Brasil, que organiza cursos de educação indígena nas tribos de São Paulo. Na Região Metropolitana, a Opção Brasil já contactou índios de 54 etnias diferentes – 38 só na capital. No Estado do Amazonas, o site da Fundação Nacional do Índio relaciona 60 etnias.

A exemplo de migrantes das zonas rurais e sertões, os indígenas de São Paulo chegam em busca de emprego e vivem principalmente em bairros pobres da periferia. “Fazemos o mapeamento pelo contato boca a boca. Um índio passa o telefone de outro. O objetivo é criar uma rede para que a vida na cidade grande seja mais fácil”, explica o coordenador da Opção Brasil, Marcos Aguiar.

Os guaranis – índios autóctones que já viviam no Estado antes da chegada dos portugueses – são a única etnia a viver em aldeias na cidade. Duas delas, a Krucutu e a Tenonde Porã, ficam em Parelheiros, na zona sul. A terceira, a Tekoah Itu, é do Pico do Jaraguá, na zona norte. Reúnem cerca de 3 mil guaranis. A Expedição Metrópole foi até lá visitá-los (veja na C3).

As outras 53 etnias são formadas por índios que moram em bairros e favelas da metrópole. Pode ser um pastor evangélico wassu cocal ou um faxineiro cambiuá. Em comum, enfrentam o desafio de carregar uma cultura tradicional e coletivista em uma sociedade moderna e competitiva. “Viver no mundo de hoje sem negar as origens é uma arte”, diz a pedagoga Chirley de Souza Almeida Santos, de 37 anos, pancará que mora na cidade há 12.

Direitos e terras indígenas do Nordeste (Diário de Pernambuco)

Recife, sexta-feira, 8 de julho de 2011
Opinião, p. B5

Marcondes Secundino
Antropólogo e coordenador do NEIN/Fundaj
marcondes.secundino@fundaj.gov.br

Ivson José Ferreira
Antropólogo da Funai/PE

Manoel Uilton dos Santos
Coordenador geral da Apoinme

Após a CF de 1988, que consolidou direitos indígenas e reconheceu sua autonomia jurídica e política, o estado brasileiro definiu novos parâmetros na relação com esses povos. Os direitos foram ratificados por acordos externos, como a Convenção 169 da OIT e a Declaração da ONU sobre direitos indígenas. Com isso, o reconhecimento à autodeterminação ganhou relevância no Nordeste, onde é marcante a exclusão desses direitos, sobretudo quanto à demarcação territorial.

A região referida é o Nordeste Legal, segundo a Sudene, que exclui o Maranhão e inclui o norte de Minas e o Espírito Santo. Do ponto de vista geopolítico, é a região de referência das ações indigenistas do estado e do movimento, que nela estrutura sua atuação e representação, como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do NE, MG e ES (Apoinme).

Com tal entendimento, o Núcleo de Estudos Indígenas (Nein/Fundaj), junto ao Museu Nacional/UFRJ, Apoinme e Finep/MCT, criou o Sistema de Monitoramento das Terras Indígenas nessas áreas. Os dados dão destaque à região no plano nacional. Hoje, são cerca de 80 povos indígenas, distribuídos nos estados da região, demandando 110 situações territoriais. Isso representa a segunda maior população indígena do Brasil, ou seja, 30% do total em 2010, segundo o IBGE. Só BA e PE detêm a terceira e a quarta população indígena do país.

O Sistema de Monitoramento dá continuidade, amplia e atualiza a iniciativa pioneira que originou o Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993), organizado pelo antropólogo João Pacheco de Oliveira do Museu Nacional/UFRJ, cuja abrangência se restringia ao submédio São Francisco. Agora, o novo Atlas será editado com o mapeamento total dos povos e terras indígenas, segundo sua localização por municípios e estados, bem como fornecerá informações sobre impactos e sobreposições de ações governamentais e empreendimentos privados em Terras Indígenas (TIs), além do diagnóstico atual do processo de demarcação das TIs.

Ver-se-á, assim, que, em relação ao processo demarcatório, apenas 25% das TIs da região estão regularizadas. Desse percentual, a maioria ainda está ocupada por não-indígenas. Com isso, restringe-se o domínio dos índios e o pleno direito sobre as TIs, o que fere a legislação nacional e internacional. E mais: considerando as TIs que ainda não foram demarcadas, e as que aguardam providências, o CE é o primeiro no ranking regional com 95%, seguido por AL, 90,9%; MG, 73,3%; SE, 66,7%; BA, 65,5%; PE, 64,7%; e PB , 50%. O ES é o único com 100% das TIs regularizadas. Focalizando apenas as reivindicações ‘sem providência’, preocupa a situação de SE, AL, CE, MG, PB, PI e RN.

Nesse aspecto, o mapeamento atual – em breve no site da Fundaj – subsidiará intervenções qualificadas do estado nas áreas indígenas e políticas públicas diferenciadas, além de oferecer diagnóstico do estágio atual da demarcação das TIs e assim assegurar os direitos territoriais constitucionais. E poderá contribuir com iniciativas do Governo Federal, como o Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas, já anunciado pela presidente Dilma Rousseff durante a mobilização indígena em Brasília em abril último.

AP Enterprise: Indian tribes welcome much-maligned FEMA homes that were rejected after Katrina (Washington Post)

By Associated Press, Updated: Wednesday, July 6, 8:07 AM

LITTLE AXE, Okla. — Wanda Tiger and her husband needed a new home after a long-term house-sitting arrangement came to an end. But for members of their American Indian tribe in rural Oklahoma, affordable housing options were few.

Then tribal leaders learned of an impossibly attractive offer: Mobile homes that had never been occupied were available from the government almost for free. They had stood vacant for years after being rejected as temporary housing following Hurricane Katrina.

(Sue Ogrocki / Associated Press) – Charles Tiger is pictured during an interview in his FEMA trailer home in Little Axe, Okla., Thursday, June 16, 2011. Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

To Tiger and members of other tribes, the homes seemed perfect, even luxurious.

“When you ain’t got nothing, you’re happy with whatever you can get,” said Tiger, a member of the Absentee Shawnee tribe who now lives in a three-bedroom home courtesy of the Federal Emergency Management Agency. “They call them temporary homes, but hey, sometimes it’s your permanent home, and we’re satisfied with it.”

Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

In the aftermath of the 2005 hurricane, FEMA bought thousands of temporary homes for $20,000 to $45,000 each — both mobile homes and travel trailers.

The mobile homes proved impractical in areas where power and water service had been destroyed. And some people living in travel trailers started to fall sick because the RVs had high levels of formaldehyde, a cancer-causing chemical common in building materials.

Since then, it seemed doubtful that many of the mobile homes would ever be used. But on American Indian reservations, the offer of free housing has been welcomed, particularly among families who live in conditions so crowded that it’s not uncommon for a single mobile home to be shared by more than a dozen relatives.

Tribes have taken almost 2,000 of the government homes and requested more.

Before and during Katrina, critics complained that the homes would not protect residents from future storms. Some also worried the shelters would turn into permanent housing, potentially creating neighborhoods of dilapidated mobile homes.

Then the formaldehyde concerns arose, leading the government to trash most of the travel trailers or sell them to people who signed papers promising not to live in them.

The mobile homes that remained were parked at FEMA storage centers all over the country, costing the agency millions each year to maintain. At one point, more than 19,000 were parked at the Hope, Ark., airport. The fleet was so large that two of the facility’s three runways were closed for more than five years.

Although the mobile homes were never suspected of making anyone sick, most stayed empty, even after new disasters struck.

In Cordova, Ala., which was among the many places crippled by this spring’s historic tornado season, local leaders refused to let the mobile homes into town, despite pleas from some residents who wanted the shelters.

“I don’t feel guilty,” Mayor Jack Scott said, explaining that he did not want the shelters to become permanent. “I can look anyone in the eye.”

FEMA slowly auctioned off most of the homes and found uses for others, including giving some to the tribes. It has also used a limited number of homes in areas recently struck by twisters, including Joplin, Mo., and other parts of Alabama.

For the last several years, the agency “has been working to reduce the number of units in our inventory, while maintaining the capability to purchase units through pre-positioned contracts,” FEMA said in a statement.

Susan Popkin, a housing expert at the Washington-based Urban Institute, questioned the purchase of the shelters, suggesting that it might have been smarter to give storm victims vouchers to rent apartments than to offer them a trailer.

“It was a big stretch for them to take that on after Katrina,” Popkin said. “Their strength is in dealing with people for the first few weeks after the emergency.”

But tribal leaders were thrilled to take the homes.

After 1,300 mobile homes were distributed to tribes during 2008 and 2009, federal officials asked early this year if they wanted more, said Brian Sullivan, a spokesman for the Department of Housing and Urban Development. Ninety-five tribes responded with requests for 3,000 homes — five times as many as were available.

About 550 homes were distributed this spring. Tribal governments paid only to transport them.

John Ballard, chief of the Ottawa Tribe in far northeastern Oklahoma, said his tribe spent an average of $3,000 to acquire each home. The tribe has received 39 units for the elderly and first-time homebuyers, he said.

“Three thousand dollars is not too much to pay for a house,” Ballard said. “These trailers are a great deal for our tribe … I would take 100 more. I’ve had people send me pictures and thank-you cards and want to give me their first-born over this stuff. This has made a great impression on peoples’ lives.”

Similar stories are told by George Blanchard, governor of the Absentee Shawnee Tribe, and Paula Pechonick, chief of the Delaware Tribe of Oklahoma. Blanchard said his only gripe is that there aren’t enough homes to meet the demand.

Tiger and her husband, who live in Little Axe, a rural community southeast of Oklahoma City, were surprised that the homes had been vacant for so long.

“We saw it on the news, and we thought so many people like ourselves could use them, but they were just sitting there,” Tiger said. “Why did it take someone so long to decide, ‘Hey, these could be used’? There are a lot of homeless people in this country.”

The retired couple had been house-sitting for a relative for years when the family member told them they needed to leave in a few weeks.

After being approved for one of the government homes, tribal workers cleared some trees from a piece of land owned by the Tigers. Their new place even had an air conditioner, a luxury on the reservation.

The paperwork that came with the home in 2009 included a warning about formaldehyde and possible symptoms, but the Tigers have never experienced any problems.

Compared to some homes on reservations, FEMA’s homes are like “castles,” said Cheryl Causley, chairwoman of the National American Indian Housing Council.

“It shows you the vast discrepancy and the uneven treatment among the citizens of the United States,” Causley said. “Our people would go miles to receive those units. If there’s any more of them, we would love them. Our need is that extreme.”

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Merchant reported from Little Rock, Ark.

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A Amazônia da grande mídia (Mercado Ético)

16/06/2011 19:04:42 – http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/a-amazonia-da-grande-midia/

André Alves*

O programa Observatório da Imprensa da última terça-feira (14/06) transmitido pela TV Brasil e conduzido pelo jornalista Alberto Dines fez uma discussão sobre o estranhamento da grande mídia sobre a Amazônia. Participaram como convidados o cientista político Sérgio Abranches, o antropólogo Alfredo Wagner Almeida e a repórter de meio ambiente Afra Balazina, do Estado de S.Paulo. A tese do programa era a de mostrar as limitações da grande mídia (leia-se os veículos do sudeste) em cobrir o país em sua totalidade, sobretudo a Amazônia.

Os convidados deram uma grande contribuição à discussão mostrando que os problemas da região são muito mais complexos do que a mídia pressupõe. Wagner, coordenador do importantíssimo Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia fez um paralelo sobre o aumento da violência no campo e a revisão no Congresso Nacional do Código Florestal. Abranches falou do enfraquecimento do interesse da mídia pelo tema e a jornalista do Estadão mostrou a dificuldade de se cobrir à distância assuntos delicados e urgentes.

No entanto, algumas abordagens sobre a Amazônia não foram consideradas como se deveria. Apesar do esforço do antropólogo em mostrar esses debates, Alberto Dines sempre voltava a questão da necessidade de mais profissionais dos maiores jornais distribuídos pelo país e em vários momentos criticou a cobertura dos veículos locais. Ainda que grande parte dos veículos pequenos mereça críticas e que o jornalista é um grande pensador brasileiro, seu enviesamento no programa deixou muitas abordagens interessantes sem serem discutidas.

Uma questão muito importante se refere ao fato de que a imprensa brasileira não conhece a Amazônia. Trata a região que abriga nove estados e mais de 60% do território brasileiro como se fosse uma coisa só, desconsiderando suas diferenças geográficas, econômicas, de biodiversidade, cultural, potencialidades e problemas. Essa limitação é ancorada num outro fator muito preponderante: o mito sobre a Amazônia. É do senso comum conceber a Amazônia como sendo uma grande floresta em que mesmo em capitais como Manaus, Belém ou Cuiabá é possível ver índios andando semi-nus nas ruas e não raro se deparar com uma onça pintada na esquina ou um jacaré saindo da beira do rio.

Mais do que isso, cria-se um imaginário quase onírico ou saído das páginas de José de Alencar sobre os povos que habitam a região. Já faz alguns anos que parei de contar as vezes que algum amigo, familiar ou jornalista fez considerações etnocêntricas sobre comunidades indígenas quando constatam, por exemplo, que em muitas (talvez a maioria das aldeias em Mato Grosso) existem escolas, telefone, televisão e seus moradores andem vestidos. “Nossa, eles deixaram de serem índios”, é o que mais escuto. Não necessariamente por maldade e sim por ignorância, mesmo. No sentido literal do termo.

É claro que a Amazônia tem que sair na mídia por conta do desmatamento que voltou a aumentar e a violência no campo que explodiu na mídia, embora aconteça sistematicamente desde antes da morte de Chico Mendes e Irmã Dorothy, em várias regiões. Mas também tem uma riqueza social, cultural, econômica e ambiental que tem que ser valorizada e discutida na mídia com intensidade parecida.

É muito fácil os jornalistas do sudeste criticarem as mídias do norte por não repercutirem tanto os descasos de sua região, embora sofram muito mais de carência de pessoal e infra-estrutura. E sim, e é claro que quase a totalidade das mídias locais pertence ou sofre severas influências de políticos locais que impedem a divulgação de determinados temas. Mas essa censura (às vezes velada, às vezes às claras) não é privilégio dos pequenos grupos.

As grandes corporações de comunicação também evitam assuntos ao máximo ou deturpam de tal maneira temas como Terras Indígenas, comunidades tradicionais e grandes obras de infra-estrutura que reforçam estereótipos e preconceitos de tal maneira que dificulta ainda mais que as vozes dos que precisam gritar sejam ouvidas. A grande mídia precisa descer do pedestal e de suas torres de marfins e ir mais a campo, contar com jornalistas locais e ouvir fontes mais diversas. Existe um mundo de organizações não-governamentais, associações de assentados, comunidades tradicionais e indígenas que sistematicamente divulgam suas lutas por sites, blogs e emails, que ajudam a diminuir a distância entre os fatos da Amazônia e os jornalistas do sudeste.

A mídia quando quer faz boa cobertura sobre qualquer assunto. E talvez seja esse o verbo que falte às redações!

* André Alves é jornalista em Mato Grosso e especialista em Antropologia

Intuitions Regarding Geometry Are Universal, Study Suggests (ScienceDaily)

ScienceDaily (May 26, 2011) — All human beings may have the ability to understand elementary geometry, independently of their culture or their level of education.

A Mundurucu participant measuring an angle using a goniometer laid on a table. (Credit: © Pierre Pica / CNRS)

This is the conclusion of a study carried out by CNRS, Inserm, CEA, the Collège de France, Harvard University and Paris Descartes, Paris-Sud 11 and Paris 8 universities (1). It was conducted on Amazonian Indians living in an isolated area, who had not studied geometry at school and whose language contains little geometric vocabulary. Their intuitive understanding of elementary geometric concepts was compared with that of populations who, on the contrary, had been taught geometry at school. The researchers were able to demonstrate that all human beings may have the ability of demonstrating geometric intuition. This ability may however only emerge from the age of 6-7 years. It could be innate or instead acquired at an early age when children become aware of the space that surrounds them. This work is published in thePNAS.

Euclidean geometry makes it possible to describe space using planes, spheres, straight lines, points, etc. Can geometric intuitions emerge in all human beings, even in the absence of geometric training?

To answer this question, the team of cognitive science researchers elaborated two experiments aimed at evaluating geometric performance, whatever the level of education. The first test consisted in answering questions on the abstract properties of straight lines, in particular their infinite character and their parallelism properties. The second test involved completing a triangle by indicating the position of its apex as well as the angle at this apex.

To carry out this study correctly, it was necessary to have participants that had never studied geometry at school, the objective being to compare their ability in these tests with others who had received training in this discipline. The researchers focused their study on Mundurucu Indians, living in an isolated part of the Amazon Basin: 22 adults and 8 children aged between 7 and 13. Some of the participants had never attended school, while others had been to school for several years, but none had received any training in geometry. In order to introduce geometry to the Mundurucu participants, the scientists asked them to imagine two worlds, one flat (plane) and the second round (sphere), on which were dotted villages (corresponding to the points in Euclidean geometry) and paths (straight lines). They then asked them a series of questions illustrated by geometric figures displayed on a computer screen.

Around thirty adults and children from France and the United States, who, unlike the Mundurucu, had studied geometry at school, were also subjected to the same tests.

The result was that the Mundurucu Indians proved to be fully capable of resolving geometric problems, particularly in terms of planar geometry. For example, to the question Can two paths never cross?, a very large majority answered Yes. Their responses to the second test, that of the triangle, highlight the intuitive character of an essential property in planar geometry, namely the fact that the sum of the angles of the apexes of a triangle is constant (equal to 180°).

And, in a spherical universe, it turns out that the Amazonian Indians gave better answers than the French or North American participants who, by virtue of learning geometry at school, acquire greater familiarity with planar geometry than with spherical geometry. Another interesting finding was that young North American children between 5 and 6 years old (who had not yet been taught geometry at school) had mixed test results, which could signify that a grasp of geometric notions is acquired from the age of 6-7 years.

The researchers thus suggest that all human beings have an ability to understand Euclidean geometry, whatever their culture or level of education. People who have received no, or little, training could thus grasp notions of geometry such as points and parallel lines. These intuitions could be innate (they may then emerge from a certain age, as it happens 6-7 years). If, on the other hand, these intuitions derive from learning (between birth and 6-7 years of age), they must be based on experiences common to all human beings.

(1) The two CNRS researchers involved in this study are Véronique Izard of the Laboratoire Psychologie de la Perception (CNRS / Université Paris Descartes) and Pierre Pica of the Unité ?Structures Formelles du Langage? (CNRS / Université Paris 8). They conducted it in collaboration with Stanislas Dehaene, professor at the Collège de France and director of the Unité de Neuroimagerie Cognitive à NeuroSpin (Inserm / CEA / Université Paris-Sud 11) and Elizabeth Spelke, professor at Harvard University.

Journal ReferenceVéronique Izard, Pierre Pica, Elizabeth S. Spelke, and Stanislas Dehaene. Flexible intuitions of Euclidean geometry in an Amazonian indigene group. Proceedings of the National Academy of Sciences, 23 May 2011.

Antigos índios da Amazônia contribuíram para a fertilidade da terra preta (FAPESP)

CIÊNCIA | GEOQUÍMICA
Adubo pré-colombiano
Marcos Pivetta
Edição Impressa 183 – Maio de 2011

Perfil mostra a diferença entre a fértil terra preta (alto) e o latossolo típico e pobre da Amazônia. À direita, imagem de microscopia por fluorescência da superfície de carbono pirogênico. © EDUARDO GÓES NEVES (ESQUERDA) / CENA/USP (DIREITA)

Os arqueólogos costumam debater qual o real significado das manchas de terra preta encontradas em sítios pré-históricos da Amazônia Central, um tipo de solo escuro que se destaca visualmente da monotonia marrom-amarelada característica das áreas de terra firme da região. Para alguns, elas são um indicativo de que grupos indígenas pré-colombianos viveram por centenas ou até uns poucos milhares de anos em sociedades complexas e estruturadas, baseadas na agricultura sedentária e no manejo do ambiente, em meio à floresta. Para outros, a existência desse tipo de terreno mais escuro, frequentemente recheado de fragmentos de peças de cerâmica, não é uma prova cabal de que houve ali um processo de ocupação humana antiga e prolongada antes do desembarque do conquistador europeu. Mas sobre uma questão, mais relacionada às ciências agrárias do que às humanidades, há consenso generalizado: a terra preta é um oásis quase permanente de fertilidade numa zona recheada de solos pobres e incapazes de reter nutrientes por muito tempo. Estudo recente confirma que um componente importante dessa variante de solo é um vestígio inequívoco do estabelecimento de assentamentos humanos: as fezes dos índios.

Concentrações de um biomarcador associado à deposição de excrementos humanos no ambiente, o coprostranol (5ß-stanol), foram encontradas em amostras de terra preta oriundas de cinco sítios pré-históricos da Amazônia, de acordo com um artigo científico a ser publicado por uma equipe de pesquisadores do Brasil e da Alemanha na edição de junho da revista Journal of Archaeological Science. Quatro sítios estão localizados no Amazonas, a sudoeste de Manaus, numa faixa de terra firme na confluência entre os rios Negro e Solimões, e um se situa no Pará, a sudoeste de Santarém, no baixo Tapajós. “A rigor, o biomarcador também poderia indicar a presença de fezes de porcos domesticados”, afirma o engenheiro agrônomo Wenceslau Geraldes Teixeira, da Embrapa Solos, do Rio de Janeiro, um dos autores do trabalho. “Mas, como esse animal só foi introduzido na América do Sul depois da chegada dos europeus, descartamos essa possibilidade.” Todos os exemplares de terra preta analisados se formaram entre 500 e 2.500 anos atrás, antes da descoberta oficial do continente por Cristóvão Colombo.

Rica em minerais associados à fertilidade dos solos, a terra preta deve sua cor enegrecida à elevada presença em sua composição do chamado carbono pirogênico, uma forma estável de carvão aromático produzida pela combustão incompleta de biomassa. O modo de vida dos antigos índios da Amazônia – que queimavam os restos de animais consumidos, enterravam os mortos  e depositavam lixo e excrementos nos arredores de suas comunidades – deve ter sido o responsável pela formação desse tipo de solo. “Estamos tentando entender a composição química da terra preta e descobrir qual aporte de material orgânico a mantém fértil até hoje”, afirma o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP), outro autor do estudo e coordenador de um projeto temático da FAPESP sobre a história pré-colonial da Amazônia. “Se tivermos sucesso nesse objetivo, talvez possamos aprender a melhorar a fertilidade em solos pobres e dar uma contribuição para uma agricultura tropical mais sustentável.” Existem tentativas de reproduzir artificialmente as propriedades da terra preta, mas os esforços ainda estão nos trabalhos iniciais.

Alguns especialistas acreditam que compostos presentes nas fezes humanas desempenham um papel importante na manutenção a longo prazo da fecundidade dessa variante do chão amazônico.  Ao contrário dos empobrecidos latossolos típicos da Amazônia, a terra preta sofre pouca lixiviação, processo caracterizado pela perda de nutrientes devido à infiltração da água da chuva que “lava” o solo e lhe rouba os componentes químicos.  “Os excrementos dão uma contribuição significativa para o conteúdo de nutrientes encontrados na terra preta, como nitrogênio e fósforo, e a ajudam a reciclar seus nutrientes”, afirma Bruno Glaser, da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, Alemanha, estudioso da biogeoquímica de solos e também coautor do artigo. “Nas sociedades modernas isso não ocorre mais, pois esses nutrientes são perdidos com a deposição do lodo de esgoto em reservatórios.” Na terra preta as fezes provavelmente se misturam ao solo devido à ação de minhocas, cupins, formigas e outros organismos.

Embora não costume ser diretamente apontado como um elemento capaz de conferir fertilidade ao solo, o carbono pirogênico parece conter uma conjunto único de fungos e bactérias, cuja sinergia pode estar relacionada à fertilidade da terra preta. Trabalhos feitos pela equipe da engenheira agrônoma Siu Mui Tsai, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da USP, em Piracicaba, mostram que a forma de carvão presente nesse tipo de solo abriga o DNA de até 3 mil espécies de microrganismos. “Essa biodiversidade  é bem maior do que a encontrada em solos amazônicos vizinhos à terra preta”, afirma Siu. “Os índios não usavam produtos tóxicos e seu sistema estava em equilíbrio.” Ninguém sabe, no entanto, se os povos pré-colombianos criaram intencionalmente a terra preta, como  forma de enriquecer o solo destinado à agricultura,  ou se ela é uma mera decorrência acidental dos dejetos e do lixo produzidos por seu modo de vida.

Artigo científico: BIRK, J.J. et alFaeces deposition on Amazonian Anthrosols as assessed from 5ß -stanolsJournal of Archaeological Science. v. 38 (6). p-1209-20, jun. 2011.

Amondawa tribe lacks abstract idea of time, study says (BBC News)

20 May 2011
By Jason Palmer
Science and technology reporter, BBC News

The Amondawa were first “discovered” by anthropologists in 1986

An Amazonian tribe has no abstract concept of time, say researchers.

The Amondawa lacks the linguistic structures that relate time and space – as in our idea of, for example, “working through the night”.

The study, in Language and Cognition, shows that while the Amondawa recognise events occuring in time, it does not exist as a separate concept.

The idea is a controversial one, and further study will bear out if it is also true among other Amazon languages.

The Amondawa were first contacted by the outside world in 1986, and now researchers from the University of Portsmouth and the Federal University of Rondonia in Brazil have begun to analyse the idea of time as it appears in Amondawa language.

“We’re really not saying these are a ‘people without time’ or ‘outside time’,” said Chris Sinha, a professor of psychology of language at the University of Portsmouth.

“Amondawa people, like any other people, can talk about events and sequences of events,” he told BBC News.

“What we don’t find is a notion of time as being independent of the events which are occuring; they don’t have a notion of time which is something the events occur in.”

The Amondawa language has no word for “time”, or indeed of time periods such as “month” or “year”.

The people do not refer to their ages, but rather assume different names in different stages of their lives or as they achieve different status within the community.

But perhaps most surprising is the team’s suggestion that there is no “mapping” between concepts of time passage and movement through space.

Ideas such as an event having “passed” or being “well ahead” of another are familiar from many languages, forming the basis of what is known as the “mapping hypothesis”.

The Amondawa have no words for time periods such as “month” or “year”

But in Amondawa, no such constructs exist.

“None of this implies that such mappings are beyond the cognitive capacities of the people,” Professor Sinha explained. “It’s just that it doesn’t happen in everyday life.”

When the Amondawa learn Portuguese – which is happening more all the time – they have no problem acquiring and using these mappings from the language.

The team hypothesises that the lack of the time concept arises from the lack of “time technology” – a calendar system or clocks – and that this in turn may be related to the fact that, like many tribes, their number system is limited in detail.

Absolute terms
These arguments do not convince Pierre Pica, a theoretical linguist at France’s National Centre for Scientific Research (CNRS), who focuses on a related Amazonian language known as Mundurucu.

“To link number, time, tense, mood and space by a single causal relationship seems to me hopeless, based on the linguistic diversity that I know of,” he told BBC News.

Dr Pica said the study “shows very interesting data” but argues quite simply that failing to show the space/time mapping does not refute the “mapping hypothesis”.

Small societies like the Amondawa tend to use absolute terms for normal, spatial relations – for example, referring to a particular river location that everyone in the culture will know intimately rather than using generic words for river or riverbank.

These, Dr Pica argued, do not readily lend themselves to being co-opted in the description of time.

“When you have an absolute vocabulary – ‘at the water’, ‘upstream’, ‘downstream’ and so on, you just cannot use it for other domains, you cannot use the mapping hypothesis in this way,” he said.

In other words, while the Amondawa may perceive themselves moving through time and spatial arrangements of events in time, the language may not necessarily reflect it in an obvious way.

What may resolve the conflict is further study, Professor Sinha said.

“We’d like to go back and simply verify it again before the language disappears – before the majority of the population have been brought up knowing about calendar systems.”

Brazil tribe prove words count

BBC News, 20 August, 2004

When it comes to counting, a remote Amazonian tribespeople have been found to be lost for words.

Researchers discovered the Piraha tribe of Brazil, with a population of 200, have no words beyond one, two and many.

The word for “one” can also mean “a few”, while “two” can also be used to refer to “not many”.

Peter Gordon of Columbia University in New York said their skill levels were similar to those of pre-linguistic infants, monkeys, birds and rodents.

He reported in the journal Science that he set the tribe simple numerical matching challenges, and they clearly understood what was asked of them.

“In all of these matching experiments, participants responded with relatively good accuracy with up to two or three items, but performance deteriorated considerably beyond that up to eight to 10 items,” he wrote.

Language theory

Dr Gordon added that not only could they not count, they also could not draw.

“Producing simple straight lines was accomplished only with great effort and concentration, accompanied by heavy sighs and groans.”

The tiny tribe live in groups of 10 to 20 along the banks of the Maici River in the Lowland Amazon region of Brazil.

Dr Gordon said they live a hunter-gatherer existence and reject any assimilation into mainstream Brazilian culture.

He added that the tribe use the same pronoun for “he” and “they” and standard quantifiers such as “more”, “several” and “all” do not exist in their language.

“The results of these studies show that the Piraha’s impoverished counting system truly limits their ability to enumerate exact quantities when set sizes exceed two or three items,” he wrote.

“For tasks that required cognitive processing, performance deteriorated even on set sizes smaller than three.”

The findings lend support to a theory that language can affect thinking.

Linguist Benjamin Lee Whorf suggested in the 1930s that language could determine the nature and content of thought.

Índios serão atendidos por pajés em hospital do RS (OESP)

Por Elder Ogliari

Agência Estado – sex, 13 de mai de 2011

Os índios mbyá-guarani de São Miguel das Missões serão atendidos pelos médicos e também pelos pajés da tribo no Hospital São Miguel Arcanjo, principal casa de saúde do município do noroeste do Rio Grande do Sul.

O acordo entre a comunidade, representada pelo cacique Ariel Ortega, e o diretor da Associação Hospitalar São Miguel Arcanjo, Inácio Müller, foi assinado no fim de abril, a pedido do Ministério Público Federal.

Segundo a crença guarani, a medicina tradicional do homem branco não é suficiente para tratar todos os males, porque é mais voltada para o corpo do que para o espírito. O hospital destinou uma sala com banheiro privativo e espaço para três leitos, na qual é permitido o uso de cachimbo e eventuais manifestações sonoras do ritual, ao contrário do restante das dependências, onde se proíbe o fumo e se recomenda silêncio.

Astonishing Photos of One of Earth's Last Uncontacted Tribes (Fox News)

February 01, 2011 | FoxNews.com

 

Tribe members painted with red and black vegetable dye watch a Brazilian government plane overhead.

Gleison Miranda/FUNAI/Survival International

Tribe members painted with red and black vegetable dye watch a Brazilian government plane overhead.

Stunning new photos taken over a jungle in Brazil reveal new images of one of the last uncontacted tribal groups on the planet.

The photos reveal a thriving, healthy community living in Brazil near the Peruvian border, with baskets full of manioc and papaya fresh from their gardens, said Survival International, a rights organization working to preserve tribal communities and organizations worldwide.

Survival International created a stir in 2008, when it released similar images of the same tribal groups — images that sparked widespread allegations that the pictures were a hoax. Peru’s President Garcia has publicly suggested uncontacted tribes have been ‘invented’ by ‘environmentalists’ opposed to oil exploration in the Amazon, while another spokesperson compared them to the Loch Ness monster, the group explains on its site.

Survival International strongly disputes those allegations, however. A spokeswoman for the group told FoxNews.com that the Brazilian government has an entire division dedicated to helping out uncontacted tribes.

“In fact, there are more than one hundred uncontacted tribes around the world,” the group explains.

Peru has yet to make a statement about the newly released pictures, which were taken by Brazil’s Indian Affairs Department, the group said. Survival International is using them as part of its campaign to protect the tribe’s survival — they are in serious jeopardy, the organization argues, due to an influx of illegal loggers invading the Peru side of the border.

Brazilian authorities believe the influx of loggers is pushing isolated Indians from Peru into Brazil, and the two groups are likely to come into conflict. Marcos Apurina, coordinator of Brazil’s Amazon Indian organization COIAB said in a statement that releasing the images was necessary to prove the logging was going on — and to protect the native groups.

“It is necessary to reaffirm that these peoples exist, so we support the use of images that prove these facts. These peoples have had their most fundamental rights, particularly their right to life, ignored … it is therefore crucial that we protect them,” he said.

“The illegal loggers will destroy this tribe,” agreed Survival International’s director Stephen Corry. “It’s vital that the Peruvian government stop them before time runs out. The people in these photos are self-evidently healthy and thriving. What they need from us is their territory protected, so that they can make their own choices about their future.”

Read more: http://www.foxnews.com/scitech/2011/02/01/astonishing-photos-reveal-earths-uncontacted-tribes/#ixzz1DKZgWVgW