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A diretriz do Rio é decepcionante, dizem grupos da sociedade civil (IPS)

Envolverde Rio + 20
21/6/2012 – 10h48

por Stephen Leahy, da IPS

Rio Civil Society final1 A diretriz do Rio é decepcionante, dizem grupos da sociedade civil

Um cartaz em uma parede no Riocentro. Grupos da sociedade civil dizem que estão “muito decepcionados” com as negociações formais na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Foto: Stephen Leahy/IPS

Rio de Janeiro, Brasil (TerraViva) “Muito decepcionante” é a forma como empresas e organizações não governamentais descreveram, hoje, as negociações intergovernamentais formais na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Depois de dois anos, negociadores de mais de 190 nações concordaram com um documento de 49 páginas destinado a ser o roteiro para essa transformação. Ele será apresentado aos chefes de Estado no Rio de Janeiro, na abertura da reunião de alto nível da cúpula, no dia 20. Funcionários da ONU disseram que era altamente improvável que qualquer mudança seja feita. O documento deixa de fora o fundo de US$ 30 bilhões para financiar a transição para uma economia verde proposto pelo Grupo dos 77 (G-77), bloco de nações em desenvolvimento mais a China, e não define Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs) tangíveis para substituir as Metas do Milênio, que expiram em 2015.

“Isso é extremamente decepcionante…. Não há visão, não há dinheiro e realmente não há compromissos aqui”, disse Lasse Gustavsson, chefe internacional da delegação para a Rio+20 do World Wildlife Fund (WWF). “A Rio +20 deveria ter sido sobre a vida, sobre o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos. Deveria ter sido sobre florestas, rios, lagos, oceanos dos quais todos nós estamos dependendo para a nossa segurança de alimentos, água e energia”, declarou ao TerraViva.

A conferência foi um contraste gritante com a emocionante atmosfera de “vamos mudar o mundo” da primeira Cúpula da Terra em 1992, disse Robert Engleman do Worldwatch Institute, um “think tank” ambiental internacional. Enquanto o documento de forma geral re-confirma compromissos passados de uma forma muito passiva, há uma nova confirmação a respeito da importância da preservação de sementes tradicionais, e a consideração sobre fortalecer o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), afirmou ao TerraViva.

“Este documento é uma grande decepção, não há ambição e pouca referência aos desafios planetários que enfrentamos”, disse Kiara Worth, representando o grupo Crianças e Jovens na Rio +20. “As vozes da sociedade civil e as futuras gerações não serão ouvidas. Devemos chamar este evento de ‘Rio menos 20′ porque estamos indo para trás”, declarou ao TerraViva.

Steven Wilson do International Council for Science, uma organização não governamental que representa organismos científicos nacionais e uniões científicas internacionais, observou que “a evidência científica é clara. Nós vamos precisar de um esforço global em ciência e tecnologia para atender o maior desafio que a humanidade já enfrentou, e eu não entendo porque não há uma seção no documento sobre a ciência. Isto passa uma mensagem muito infeliz”.

Jeffery Huffines da Civicus World Alliance for Citizen Participation, organização com sede em Joahnnesburgo, na África do Sul, opinou que “nós temos um sistema econômico fundamentalmente falho e nós da sociedade civil esperávamos que os governos do mundo reconhecessem essa realidade, mas eles não fizeram isso.” Em vez disso, há 49 páginas de conceitos, sem quaisquer compromissos ou meios para avançar com estes conceitos. O papel da participação da sociedade civil tem sido limitado. “Precisamos de uma tomada de decisões mais democrática, e não menos”, enfatizou. Envolverde/IPS

* Publicado originalmente no site TerraViva.

A Rio+20 e o valor da diferença (Canal Ibase)

Renzo Taddei*

Canal Ibase, 19/06/2012

Durante todo o processo de negociação em torno do documento final da Rio+20, o que tem chamado a atenção da mídia, de forma mais patente, é a dificuldade em se construir o consenso em torno dos temas em discussão. A falta de consenso é apresentada quase como escândalo, e o alinhamento de pensamentos é apresentado como algo intrinsecamente desejável. Isso, a meu ver, é um dos elementos mais problemáticos da cobertura midiática pobre da conferência das Nações Unidas.

Qualquer pessoa que pesquise a história da ONU, em sua relação com as questões mundiais de cada época e com as formas de vida locais, se dá conta de que nem tudo no mundo se conserta via diplomacia. Isso se dá por muitas razões, das quais a mais relevante é o fato de que a diplomacia só enxerga através da lente dos Estados-nação; e estes, por sua vez, são cada vez menos capazes de operar de forma autônoma. A Cúpula dos Povos, atividade paralela da sociedade civil, está aí para dar visibilidade a esse fato. E, para ela, a convergência de posicionamentos éticos e a coordenação de ações táticas sempre foi, e deve continuar sendo, mais importante do que o reconhecimento da necessidade de sintonização substantiva de ideias.

O risco da ideia de consenso substantivo extrapolar a esfera da diplomacia é o da perda do valor da diferença. Como disseram Isabela Fraga e Monike Mar na revista Democracia Viva 48, “o cotidiano e as práticas de quilombolas, indígenas, agricultores, jovens, mulheres, negros, hackers, coletivos de economia solidária e grupos comunitários mostram que existem alternativas à busca do crescimento econômico a qualquer custo”. Exatamente: alternativas, no plural. Se para a comunidade diplomática é importante a construção de um pensamento único, a defesa do direito à diferença tem sido, e tem que continuar sendo, parte integrante da agenda política das entidades da sociedade civil.

É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, enquanto a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio para que “entendam” os efeitos deletérios de suas práticas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso logocentrismo, esse foco exacerbado em informação e pensamento, onde diagnosticamos tudo como “falta de informação”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. O que se quer criar é um discurso único sobre o meio ambiente dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente economicista, materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento-vida, outras epistemologias-ontologias?

Como disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, precisamos aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum dos seres vivos. Que tipo de ética decorre daí, na relação entre humanos e não humanos? Índio não gosta da floresta por opção (apenas) estética, mas há uma outra ética, certamente mais humana, na relação entre humanos e meio ambiente. Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

Precisamos entender que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns” – a exaustão de elementos ambientais compartilhados, como a água ou o ar -, por exemplo, nem tentar esverdear a matriz energética que move as engrenagens de nossa economia, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade.

A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas – por exemplo, ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele -, são tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas. Slavoj Žižek, na sua atitude iconoclasta de sempre, afirmou recentemente que a ideia de que a sociedade urbana e tecnológica é ruim e a natureza é boa é sintoma do problema. Fugir para o mato não resolve nada; o contrário, na verdade, é que constitui alternativa interessante: é preciso aprender a “amar” a sociedade tecnológica e seus produtos. A palavra amar, aqui, – descontado o estilo peculiar do Žižek – refere-se à necessidade de se abandonar essa relação neurótica que temos com as coisas, onde o fetiche pela novidade se transforma em desapego radical, e nossos objetos de desejo se transformam em lixo, substituídos por novos fetiches, numa velocidade vertiginosa. Para que não geremos tanto lixo e tanto consumo, é preciso amar o que temos.

Às vezes perdemos essas questões de vista; nada como o impacto das diferenças culturais para que sejamos incentivamos a repensar nossas formas de vida. As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

*Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.

Liderança “verde” do Brasil cética com a Rio+20 (Envolverde/IPS)

Envolverde Rio + 20
11/6/2012 – 07h41

por Fabíola Ortiz, da IPS

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Marina Silva. Foto: Divulgação.

Rio de Janeiro, Brasil, 11/6/2012 – A agenda para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece este mês no Brasil, ainda carece de prioridades e seus resultados podem ficar sepultados diante das urgências da crise econômica global, afirmou a ex-ministra brasileira de Meio Ambiente (2003-2009), Marina Silva. O documento final da Rio+20 continua sendo “fraco e geral” e não contém contribuições que superem o que foi feito nos últimos 20 anos, desde a Cúpula da Terra de 1992, opinou Marina em entrevista a jornalistas de meios internacionais.

“A discussão sobre economia verde, desenvolvimento social e governança perdeu força, por isso qualquer acordo geral, que não tenha uma atitude crítica e não incorpore instrumentos para enfrentar a deterioração do planeta, atentará contra a memória da cúpula de 1992”, criticou a ex-ministra, que também foi candidata a presidente pelo Partido Verde. Após obter 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, Marina criou o não governamental Instituto Democracia e Sustentabilidade, o qual representará na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, que acontecerá entre 15 e 23 deste mês, paralela à reunião oficial organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Para Marina, a linha de trabalho para a Rio+20, que em nível de chefes de Estado e de governo acontecerá entre os dias 20 e 22, continua com um grave problema de origem, que é aparecerem separadas ecologia e economia, quando deveriam estar integradas. “A União Europeia atende prioritariamente a crise econômica que a afeta, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fracassou em sua tentativa de avançar em uma agenda de clima e biodiversidade, e a China não se mobiliza e não assume compromissos”, declarou.

Apesar de cientistas de todo o mundo alertarem para os graves problemas que a humanidade enfrentará se não for detida a deterioração ambiental, os governos não incorporam em suas agendas propostas de solução ou mudança de rumo, alertou Marina. “O mundo enfrenta uma crise dramática, que se constitui de múltiplas crises: econômica, política, ambiental e de valores”, ressaltou.

A última fase de negociação prévia à Rio+20 será completada no dia 13 no Rio de Janeiro. Perante esta instância, a atual ministra de Meio Ambiente, Izabella Teixeira, contrapôs o pessimismo de Marina Silva ao afirmar que as notícias “são bastante promissoras” para o documento base do encontro. Admitiu que se está diante de um desafio importante, que é obter um consenso que exige compromissos e convergências dos governos. “Temos que facilitar e permitir que todos façam sua parte e que se sintam comprometidos com as diretrizes e os resultados da Rio+20”, afirmou à IPS.

A ministra entende que as negociações iniciadas em Nova York tiveram “avanços importantes”, por isso acredita que o legado da Rio+20 será mais amplo do que o da cúpula de duas décadas atrás, a Eco 92, e refletirá plenamente o conceito de sustentabilidade. Contudo, também reconheceu que devem ser discutidos “novos modelos econômicos ou não conseguiremos fazer a mudança para um desenvolvimento sustentável”.

Por sua vez, Marina Silva afirmou que o Brasil, como anfitrião da Rio+20, reúne as condições para fazer esse rompimento do modelo do Século 20 e atuar como ponte negociadora na busca de compromissos. “É muito importante que o Brasil assuma um papel de liderança para mediar saídas com propostas efetivas para este encontro, sob pena de acabar com a memória da Eco 92”, alertou. Em tom de crítica sobre a gestão da presidente Dilma Rousseff, Marina destacou que espera que sejam corrigidos os rumos de seu governo, para encabeçar uma “nova agenda de economia e desenvolvimento sustentável”.

O Brasil ainda não pode se considerar uma potência socioambiental, apesar de possuir 11% das reservas de água doce do mundo, 20% das espécies vivas, 60% de seu território coberto por florestas, 280 povos autóctones que falam cerca de 120 línguas diferentes além do português, enfatizou Marina. “Isto não nos transforma em uma potência ambiental por natureza, é preciso consegui-lo com atitudes políticas eficazes. Nossa agricultura tem condições para ter uma base sustentável, e não podemos repetir os mesmos equívocos cometidos pelos países industrializados”, indicou.

A aprovação do polêmico Código Florestal mostrou um retrocesso na política ambiental brasileira e coloca em discussão a liderança do governo quanto a levar adiante uma economia sustentável, advertiu Marina. “Vivemos um momento de dúvidas. Parece que podemos retroceder para uma economia semelhante à do século passado. No entanto, é possível ainda reduzir a pobreza, ter crescimento econômico e diminuir as emissões com menos devastação”, apontou.

Às vésperas da Rio+20, o Brasil passa por um desmonte de sua legislação ambiental, especialmente do Código Florestal, que segue adiante apesar de 80% dos entrevistados em diferentes pesquisas afirmarem não concordar com as mudanças realizadas. “O Brasil não precisa desmatar para se manter como um grande produtor de grãos, pois podemos duplicar a produção agrícola sem derrubar uma só árvore”, esclareceu Marina. “Temos tecnologia e conhecimento sem que seja necessário expandir a fronteira agrícola. Podemos produzir alimentos preservando a base natural de nosso desenvolvimento”, concluiu.

Rio+20, somente semear para o futuro (IPS)

Envolverde Rio + 20
29/5/2012 – 09h52

por Stephen Leahy, da IPS

12 Rio+20, somente semear para o futuroUxbridge, Canadá, 29/5/2012 – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) servirá apenas de terreno onde se tentará cultivar as ideias e os valores que a humanidade necessita para o Século 21. Contudo, ninguém espera, ou mesmo deseja, um grande tratado internacional sobre desenvolvimento sustentável, lamentou Manish Bapna, presidente interino da organização ambientalista internacional World Resources Institute, com sede em Washington.

“O importante acontecerá de forma paralela às negociações formais”, disse Bapna à IPS. Porém, “pode haver alguns esperançosos compromissos específicos” dos países na Rio+20, acrescentou. Talvez, seu resultado mais importante seja acabar com o errôneo conceito de que proteger o meio ambiente vai contra o crescimento econômico, quando, na realidade, ocorre o contrário, destacou Bapna. Sem um meio ambiente saudável e funcionando a humanidade perde os benefícios de “produtos gratuitos”: ar, água, terras de cultivo e clima estável.

Para Bapna, “um dos principais obstáculos para o futuro é que funcionários de muitos países acreditam que avançar em um caminho mais sustentável implica um custo demasiadamente alto”. Ele espera que a Rio+20 gere um “novo discurso”, com maior compreensão de que uma economia baixa em carbono e eficiente em termos de recursos pode também aliviar a pobreza e gerar empregos.

Espera-se que ao menos 50 mil pessoas participem de centenas de atividades na Rio+20, entre elas mais de 130 líderes mundiais, incluindo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e os primeiros-ministros Manmohan Singh, da Índia, e Wen Jiaboa, da China. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não confirmou sua presença no encontro, que acontece 20 anos depois da Cúpula da Terra.

Aquela reunião, também no Rio de Janeiro, deu à luz três importantes tratados sobre meio ambiente, mudança climática, biodiversidade, degradação de terras e desertificação. Porém, em quase todas essas categorias a situação piorou desde 1992. Apenas poucos países, como a Alemanha, entendem a necessidade ambiental e econômica de optar por um caminho mais sustentável, afirmou Bapna. “Esse país realiza o esforço individual mais importante do mundo para combater a mudança climática e reduzir o carbono em sua economia”, ressaltou.

A Alemanha está comprometida em duplicar sua produtividade energética e de recursos até 2020, o que gerará novos empregos e fortalecerá sua competitividade em um mundo com cada vez menos e mais caros recursos. Aproximadamente 22% da energia da Alemanha procede de fontes renováveis, e sua meta é alcançar 35% até 2020, e 80% até 2050. Para isto, realiza grandes esforços na melhoria da eficiência energética

O consumo de água potável, petróleo e cobre caminha para ser triplicado até 2050, segundo informe da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2001. O problema é que não restam recursos suficientes no planeta para sustentar este ritmo. A Rio+20 precisa atrair as pessoas com uma nova “história” sobre o imperativo de viver de forma sustentável, com exemplos de como podem ser criados novos mercados e empregos verdes, apontou Bapna.

Enquanto isso, as negociações oficiais da Rio+20 vão tão mal que foram acrescentadas mais sessões. As delegações negociam o chamado “rascunho zero”, onde se procura estabelecer um mapa do caminho para o crescimento sustentável e no qual esteja previsto o estabelecimento de uma série de metas. Porém, como todos os acordos da ONU, cada palavra necessita de uma aprovação unânime de todas as nações, o que é extremamente difícil.

“Reconhecemos que não podemos continuar queimando e consumindo nossa forma de prosperidade. Entretanto, não adotamos a solução óbvia. A única solução possível, hoje como há 20 anos, é o desenvolvimento sustentável”, disse em uma declaração o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Também admitiu que as negociações seguem “dolorosamente lentas”, e interveio pessoalmente para acrescentar outra semana de conversações, exortando os países a olharem além de seus interesses nacionais. Segundo Ban Ki-moon, o Rio de Janeiro “oferece uma oportunidade geracional para acionar o botão de reinício, para fixar um novo curso rumo ao futuro que equilibre as dimensões econômica, social e ambiental da prosperidade e do bem-estar humanos”.

Faltando menos de 30 dias para o encontro de alto nível, ainda não “há uma definição acordada do que é economia verde”, alertou Craig Hanson, diretor do Programa de População e Ecossistemas do Instituto de Recursos Mundiais. Há um crescente consenso sobre a necessidade de um crescimento e um desenvolvimento verdes, mas a população em geral não sabe exatamente o que isto significa.

A Alemanha oferece um exemplo com seus esforços de energia limpa, que criaram 370 mil empregos, indicou Hanson à IPS. Outro exemplo é o êxito de Níger em reverter a desertificação na zona do Sahel, acrescentou. As negociações sobre como obter economias mais verdes são uma batalha, pois muitos países colocam seus interesses nacionais acima dos interesses do planeta e das futuras gerações, observou.

Reduzir gradualmente os milhões de dólares que os governos investem em subsídios anuais para combustíveis fósseis seria um caminho ideal, mas não está claro se as nações estão dispostas a isso, opinou Bapna. “Repetirão suas antigas promessas ou assumirão firmes compromissos no Rio? Simplesmente não sabemos”, afirmou. O mundo mudou desde 1992. As coisas são muito menos previsíveis. Não há uma visão ecológica única para todos os países. “O que sabemos é que esta é uma década crítica. O mundo necessita de compromissos no curto prazo para atuar”, concluiu.

Envolverde/IPS

Empresariado promove agenda paralela à Rio+20 (Mercado Ético)

Envolverde Rio + 20
31/5/2012 – 10h44

por Sucena Shkrada Resk, do Mercado Ético

Capa4 Empresariado promove agenda paralela à Rio+20A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) não mobiliza somente os governos e a sociedade civil organizada, mas também o setor empresarial, que estará presente em eventos paralelos, no mês de junho, no Rio de Janeiro e em outras localidades do Brasil. Os temas centrais do evento – economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, além da governança internacional da sustentabilidade – são o pano de fundo para a realização dos debates e propostas entre as organizações da iniciativa privada.

“Os eventos paralelos à conferência e à pré-conferência Rio+20 são uma forma de envolver a sociedade organizada, empresas e outras partes interessadas no processo de discussão dos rumos do acordo político que está sendo construído para fortalecer a inclusão dos princípios do desenvolvimento sustentável nas diversas instâncias de processos decisórios. Cada encontro lateral busca atingir algum público e algum ponto de vista”, explica Jorge Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, uma das corporações que terá atividades voltadas ao público presente na Rio+20.

Segundo ele, dessa forma, a soma de todos os encontros laterais cobrirá a diversidade, própria ao desenvolvimento sustentável. “Entendo que dessa ampla participação e discussão surgirão propostas que colocarão a energia e o apoio que os negociadores precisam para que o acordo político resultante seja contundente e à altura do desafio que a humanidade está enfrentando”, avalia.

Programação

A exemplo do evento oficial e da Cúpula dos Povos, a agenda ligada às corporações está bem diversificada. No período de 11 a 13 de junho, em São Paulo, será realizada a já tradicional Conferência Ethos 2012, cujo tema será A empresa e a nova economia: o que muda com a Rio + 20 (www.ethos.org.br/ci2012). Na ocasião também será lançada a versão em português da obra O Estado do Mundo 2012: Rumo à Prosperidade Sustentável, do World Watch Institute.

“Durante o evento, discutiremos e produziremos um documento em parceria com representantes de cerca de 40 organizações, com propostas em relação aos 10 temas (veja abaixo) que serão debatidos por representantes da sociedade civil nos Diálogos sobre Desenvolvimento Sustentável, que será organizados pelo governo brasileiro, de 16 a 19 de junho, na programação da Rio+20″, explica Paulo Itacarambi, vice-presidente executivo do Instituto Ethos.

Os temas são: Desenvolvimento Sustentável para o combate à pobreza; Como resposta às crises econômicas e financeiras; Desemprego, trabalho decente e migrações; A economia do Desenvolvimento Sustentável, incluindo padrões sustentáveis de produção e consumo; Florestas; Segurança alimentar e nutricional; Energia Sustentável para todos; Água; Cidades Sustentáveis e Inovação; Oceanos.

O material será entregue aos participantes dos Diálogos e ao comitê organizador da Rio+20, com o objetivo, segundo ele, de se propor alternativas a cenários futuros. “Durante a Conferência Ethos também avançaremos em um debate além da Rio+20, que refletirá sobre a construção de uma economia includente verde e responsável”. Para isso, será tratada a questão dos novos modelos de negócios, com a participação de John Elkington, criador do conceito do triple bottom line, entre outras personalidades.

No Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, ocorrerão mais eventos entre os dias 11 e 22 de junho. Ainda sem programa definido (a ser lançado no próximo dia 25), as atividades ali serão organizadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e pela Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan), em parceria com a Fundação Roberto Marinho e a Prefeitura do Rio de Janeiro.

O Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) manterá um espaço institucional no Parque dos Atletas, no Rio de Janeiro, de 13 a 23 de junho, e também manterá eventos paralelos, no Rio Centro e no Forte de Copacana, quando será apresentado o lançamento do documentoVisão Brasil 2050, uma iniciativa “tropicalizada” do documento produzido pelo World Business Council for Sustainable Development – WBCSD (Conselho Mundial de Gestão para o Desenvolvimento Sustentável).

“Esse documento é considerado um dos mais importantes já lançados sobre o futuro da sustentabilidade e tem inspirado o planejamento estratégico de inúmeras empresas em todo o mundo. Visão Brasil 2050 é uma agenda para o desenvolvimento sustentável e a transição para a economia verde nos próximos 40 anos”, explica Marina Grossi, presidente executiva do CEBDS.

Outro projeto a ser divulgado é “Rio Cidade Sustentável“. A iniciativa, lançada, neste ano, tem sete eixos: turismo comunitário, desenvolvimento de empreendedores locais, sustentabilidade nas escolas e lares, infraestrutura urbana verde, agricultura urbana orgânica, gestão comunitária de resíduos e melhoria habitacional sustentável.

“Trata de infraestrutura urbana e transformação social com foco em sustentabilidade, que articula poder público, empresas e moradores para melhorar a qualidade de vida das comunidades. Desde janeiro deste ano, duas comunidades pacificadas da Zona Sul carioca, Babilônia e Chapéu Mangueira, acolhem as sete frentes de atuação do programa.”, diz ela.

Por fim, o Rio+20 Corporate Sustainability Forum: Innovation & Collaboration for the Future We Want (Rio+20 Fórum de Sustentabilidade Corporativa: inovação e colaboração para o futuro que queremos) será promovido pelo Pacto Global da ONU, entre 15 e 18 de junho, também no Rio de Janeiro (http://csf.compact4rio.org/events/rio-20-corporate-sustainability-forum/event-summary-251b87a2deaa4e56a3e00ca1d66e5bfd.aspx).

* Publicado originalmente no site Mercado Ético.

Ruralistas não aceitam vetos e já elaboram 50 emendas à MP que altera o Código (Agência Brasil)

31/5/2012 – 10h52

por Danilo Macedo,da Agência Brasil

Capa5 Ruralistas não aceitam vetos e já elaboram 50 emendas à MP que altera o CódigoDeputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) elaboraram cerca de 50 emendas à Medida Provisória 571/2012, que trata dos trechos vetados do Código Florestal. Os parlamentares tem até sexta-feira para apresentá-las. O atual presidente da frente, deputado Moreira Mendes (PSD-RO), disse que vários deputados vão entrar com mandado de segurança contra a MP, por considerarem “uma afronta” e “entendendo que a presidenta exorbitou no seu poder”.

Segundo Mendes, alguns parlamentares entendem que a legislação estabelece que assuntos votados no Congresso Nacional não podem ser objeto de medida provisória antes da aceitação ou derrubada do veto presidencial. Após o veto da presidenta Dilma Rousseff, o Congresso Nacional tem 30 dias para discutir o assunto. “Vamos ouvir o restante da frente para que se tome uma deliberação a esse respeito”.

O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) disse que ficou surpreso com a MP tratando de matéria derrotada na Câmara dos Deputados e a considerou uma “agressão” ao Congresso. “Ela passa a legislar acima da vontade do Congresso Nacional. Esse que é o ponto sobre o qual queremos entrar com mandado de segurança no sentido de buscar a sustação dos efeitos dessa medida provisória”, disse.

Moreira Mendes disse que o assunto Novo Código Florestal precisa ser liquidado, mas devido ao rito da medida provisória, com prazo de 120 dias, o assunto não será resolvido antes do recesso parlamentar. Em relação às emendas, o presidente da FPA disse que a intenção é buscar um texto de conciliação, nem mantendo o atual e nem resgatando a proposta que saiu das discussões na Câmara dos Deputados.

* Publicado originalmente no site  Brasil de Fato.

Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal (EcoD)

29/5/2012 – 10h34

por Redação EcoD

51 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

Os ministros anunciaram vetos em 12 itens e 32 modificações no texto do Código Florestal, feitos pela presidenta Dilma Rousseff, na última semana. Foto: José Cruz/ABr

Impedir a anistia a quem desmatou e proibir a produção agropecuária em áreas de proteção permanente (APPs) foram alguns dos principais objetivos da presidenta Dilma Rousseff ao vetar parte do novo Código Florestal na sexta-feira, 25 de maio. Os vetos de 12 artigos resgatam o teor do acordo firmado entre os líderes partidários e o governo durante a tramitação da proposta no Senado.

Artigo 1º, que foi modificado pelos deputados após aprovação da proposta no Senado, foi vetado. Na medida provisória (MP) publicada hoje (28) no Diário Oficial da União, o Palácio do Planalto devolve ao texto do Código Florestal os princípios que haviam sido incorporados no Senado e suprimidos, posteriormente, na segunda votação na Câmara. A MP foi o instrumento usado pelo governo para evitar lacunas no texto final.

Também foi vetado o Inciso 11 do Artigo 3º da lei, que trata das atividades eventuais ou de baixo impacto. O veto retirou do texto o chamado pousio: prática de interrupção temporária de atividade agrícolas, pecuárias ou silviculturais, para permitir a recuperação do solo.

61 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

Artigo 61 previa a continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008 – o governo vetou. Foto: leoffreitas

Recebeu veto ainda o Parágrafo 3º do Artigo 4º que não considerava área de proteção permanente (APP) a várzea (terreno às margens de rios, inundadas em época de cheia) fora dos limites estabelecidos, exceto quanto houvesse ato do Poder Público. O dispositivo vetado ainda estendia essa regra aos salgados e apicuns – áreas destinadas à criação de mariscos e camarões.

Foram vetados também os parágrafos 7º e 8º. O primeiro estabelecia que, nas áreas urbanas, as faixas marginais de qualquer curso d’água natural que delimitem as áreas das faixas de passagem de inundação (áreas que alagam na ápoca de cheia) teriam sua largura determinada pelos respectivos planos diretores e pela Lei de Uso do Solo, ouvidos os conselhos estaduais e municipais do Meio Ambiente. Já o Parágrafo 8º previa que, no caso de áreas urbanas e regiões metropolitanas, seria observado o dispositivo nos respectivos planos diretores e leis municipais de uso do solo.

O Parágrafo 3º do Artigo 5º também foi vetado. O dispositivo previa que o Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno de Reservatório Artificial poderia indicar áreas para implantação de parques aquícolas e polos turísticos e de lazer em torno do reservatório, de acordo com o que fosse definido nos termos do licenciamento ambiental, respeitadas as exigências previstas na lei.

73 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

APP em Minas Gerais. Parágrafo 3º do Artigo 4º desconsiderava área de proteção permanente (APP) a várzea (terreno às margens de rios, inundadas em época de cheia) fora dos limites estabelecidos, exceto quanto houvesse ato do Poder Público. Foto: Paula FJ

Já no Artigo 26, que trata da supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo tanto de domínio público quanto privado, foram vetados o 1º e 2º parágrafos. Os dispositivos detalhavam os órgãos competentes para autorizar a supressão e incluía, entre eles, os municipais do Meio Ambiente.

A presidenta Dilma Rousseff também vetou integralmente o Artigo 43. Pelo dispositivo, as empresasconcessionárias de serviços de abastecimento de água e geração de energia elétrica, públicas ou privadas, deveriam investir na recuperação e na manutenção de vegetação nativa em áreas de proteção permanente existente na bacia hidrográfica em que ocorrer a exploração.

Um dos pontos que mais provocaram polêmica durante a tramitação do código no Congresso, o Artigo 61, foi vetado. O trecho autorizava, exclusivamente, a continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008.

Também foram vetados integramente os artigos 76 e 77. O primeiro estabelecia prazo de três anos para que o Poder Executivo enviasse ao Congresso projeto de lei com a finalidade de estabelecer as especificidades da conservação, da proteção, da regeneração e da utilização dos biomas da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa. Já o Artigo 77 previa que na instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente seria exigida do empreendedor, público ou privado, a proposta de diretrizes de ocupação do imóvel.

A MP que complementa o projeto, publicada nesta segunda-feira (28), vale por 60 dias, podendo ser prorrogada por mais 60 dias – ela ainda será votada pelo Congresso.

* Publicado originalmente no site da EcoD.

Divisão Norte-Sul paira sobre a Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
01/6/2012 – 10h05

por Thalif Deen, da IPS

Slide2 Divisão Norte Sul paira sobre a Rio+20

Branislav Gosovic. Foto: Cortesia Branislav Gosovic

Nova York, Estados Unidos, 1/6/2012 – A Cúpula da Terra de 1992 no Rio de Janeiro se viu em grande parte desbaratada pela divisão Norte-Sul: uma batalha entre uma coalizão de nações industrializadas ricas e o Grupo dos 77 (G-77), atualmente integrado por 134 países em desenvolvimento.

De certa forma, as atuais divisões são mais profundas do que por ocasião da Conferência sobre Ambiente Humano realizada em Estocolmo em 1972, a primeira cúpula ambiental, e do que a Cúpula da Terra, duas décadas depois, disse Branislav Gosovic, ex-integrante da Comissão Brundtland sobre Meio Ambiente e que integrou a delegação do Centro Sul na conferência de 1992.

“A divisão afetará o processo e o resultado da Rio+20”, afirmou Gosovic, referindo-se à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) no Rio de Janeiro, de 20 a 22 de junho. Branislav Gosovic é autor de The Quest for World Environmental Cooperation: The Case of the U.N. Global Environment Monitoring System (A busca da cooperação mundial para o meio ambiente: o caso do Sistema Mundial de Monitoramento Ambiental das Nações Unidas).

IPS: Como participante da Cúpula da Terra de 1992, tem alguma confiança ou está cético com relação ao resultado da Rio+20?

Branislav Gosovic: Não sou otimista quanto a êxitos ou grandes avanços. A reunião acontecerá em um momento difícil para a economia global e nacional e após 20 anos de predomínio de uma globalização neoliberal. No primeiro caso, os chefes de Estado estarão preocupados com a resposta à atual crise que não sabem como manejar nem superar. E o segundo prejudicou a agenda sobre desenvolvimento sustentável e paralisou, ou fez retroceder, alguma das políticas e dos avanços conceituais realizados no período anterior com vistas à (e na) cúpula do Rio de Janeiro.

IPS: Qual sua opinião sobre o documento da Rio+20 que é negociado?

BG: Mantém muitas ideias e muitos objetivos vivos. Entretanto, semanas antes do encontro, parágrafos entre parênteses (o que indica desacordos) e palavras ambíguas sobre questões muito importantes mostram a falta de consenso e que a comunidade internacional caminha para um período de seca. Porém, me atrevo a ser otimista quanto ao longo prazo e após um período de globalização neoliberal, dada a maturação de muitos temas e a preocupação e o agravamento dos problemas globais identificados em Estocolmo há 40 anos, que a Rio+20 possa marcar o começo de 20 anos mais promissores para a cooperação internacional rumo a “Estocolmo+60, isto é, Rio+40.

IPS: Qual a melhor forma de conseguir isso?

BG: É preciso muito trabalho, compromisso e liderança de alguns países que estão em posição de oferecê-lo e participação das forças sociais em um movimento global genuíno. E o mais importante, acarretará grandes mudanças estruturais e paradigmas sobre como a sociedade se organiza, em escala nacional e global, uma chave que abrirá a porta para cumprir muitos dos atuais objetivos esquivos ou inalcançáveis. Não há motivo de surpresa no fato de tais mudanças sofrerem resistência e serem combatidas com unhas e dentes e por todos os meios disponíveis pelos que se opõem a elas.

IPS: Acredita em uma repetição da divisão Norte-Sul de 1991 nas atuais negociações do plano de ação da Rio+20, intitulado O futuro que queremos?

BG: A divisão Norte-Sul existe há mais de 60 anos, desde os primeiros dias da Organização das Nações Unidas. Afetou e determinou o resultado de Conferência de Estocolmo e a forma como foi conceituada a agenda ambiental, como um plano de desenvolvimento sustentável. Esteve presente no informe e na primeira reunião da Comissão Brundtland, isto é, a Comissão sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e depois na Rio 92 e em Johannesburgo 2002. E tal como mostra o atual rascunho do documento final, terá um papel central na Rio+20. Pode-se argumentar que as questões ambientais usufruíram a agenda internacional para o desenvolvimento e vice-versa. Os problemas ambientais globais não podem ser atendidos nem resolvidos sem a participação do Sul e dos países em desenvolvimento, e sendo sócios iguais na empresa. Não se pode fazer desaparecerem as cúpulas gêmeas sobre meio ambiente e desenvolvimento, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e a Chamada Cúpula da Terra, como fazem alguns países industrializados tentando encontrar divisões e diferenças no Sul. Continuarão fazendo isso até que o Norte mude sua política e assuma sua posição de solidariedade e tenha uma adesão genuína aos princípios do Rio, de “responsabilidades comuns e diferenciadas”. Por outro lado, observa-se os esforços para transformar a agenda ambiental em uma grande oportunidade empresarial e de criação de emprego, para projetar uma imagem de determinados países em desenvolvimento importantes como principal ameaça para o meio ambiente global. Também para enfrentar nas negociações sobre mudança climática pequenos grupos de Estados em desenvolvimento vulneráveis, em um esforço de nunca acabar tendente a dividir o Grupo dos 77. Definitivamente, o conflito Norte-Sul está vivo e se movendo, dirá presente na Rio+20 e se manterá no futuro imediato.

IPS: Como se compara a Agenda 21 e o documento da Rio+20 com o histórico informe da Comissão Brundtland de 1987? Houve avanços substanciais desde então e desde a Conferência de Estocolmo?

BG: O documento da Rio+20 é resultado de um processo de negociações. Nesse sentido, não se pode comparar com o Informe Brundtland nem com o da Cúpula da Terra, ambos elaborados por equipes dedicadas a essa tarefa durante um longo tempo. Por outro lado, a maioria dos temas presentes no Informe Brundtland e na Agenda 21 podem ser encontrados no documento da Rio+20, embora redigidos de tal forma que revela a falta de consenso e de compromisso para agir. Houve avanços em numerosas áreas, mas, nas questões cruciais e nos conflitos subjacentes, quase não existiu movimento. Isso continuará sendo de interesse e desempenhará um papel importante na Rio+20. Um desses conflitos tem a ver com as divisões Norte-Sul, a agenda internacional para o desenvolvimento, e a questão relacionada da ordem global e política existente, que está sendo questionada. O outro conflito, menos visível, tem a ver com a natureza da ordem socioeconômica dominante, ou o paradigma, que é questionado por não ser sustentável do ponto de vista social nem ambiental. Este conflito estará presente no Norte e no Sul. Houve poucos progressos na prática sobre questões fundamentais desse tipo. Envolverde/IPS

(IPS)

Rio+20 é a conferência de todos (IPS)

Envolverde Rio + 20
01/6/2012 – 10h00

por Sha Zukang*

Slide1 Rio+20 é a conferência de todosNações Unidas, 1/6/2012 – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro, é uma oportunidade única em uma geração. Mais de 135 chefes de Estado e de governo, e mais de 50 mil participantes no total, incluindo executivos de empresas e representantes da sociedade civil, estarão presentes. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, definiu o encontro como “uma das mais importantes conferências da história” da ONU.

Não nos equivoquemos, o mundo está observando. Com a interdependência sem precedentes que vivemos hoje, o desenvolvimento sustentável é a única via para enfrentar os desafios econômicos, sociais e ambientais que afetam milhões de pessoas e ameaçam nosso planeta compartilhado.

Os progressos no desenvolvimento sustentável se traduzem em alimentos na mesa de milhões de pessoas que hoje sofrem fome, bem como em oportunidades de trabalho decente, em acesso a água potável e na capacidade de respirar ar puro e caminhar por uma mata cheia de vida. Além disso, o desenvolvimento sustentável assegura que cada mulher tenha iguais oportunidades e que cada menino e menina tenha a possibilidade de ir à escola, de ter acesso a saneamento básico, crescer em um ambiente socialmente inclusivo e aspirar um futuro promissor.

Talvez, muitos de nós sejamos suficientemente afortunados para darmos como assentadas estas bases do desenvolvimento sustentável. Contudo, devemos fazê-lo?

Nosso sobrecarregado planeta enfrenta um grande número de desafios: as repercussões da recessão econômica global, a insegurança energética, a escassez de água, os altos preços dos alimentos, as vulnerabilidades diante da mudança climática e a frequência e severidade dos desastres naturais, entre outros.

A natureza destes desafios nos recorda uma verdade importante: somos um, e estamos interligados de infinitas maneiras. Estes desafios não afetam apenas um país ou uma região. São de natureza global e têm impacto sobre todos. No mundo de hoje, o que acontece em uma parte do planeta pode facilmente repercutir em outra. Não podemos continuar com a mesma atitude, vivendo do tempo emprestado, e consumindo recursos como se existissem cinco planetas.

A Rio+20 não é “apenas outra conferência da ONU”. Por que o fórum mundial a está convocando? Não se trata de adotar normas e regulações à custa da qualidade de vida, mas de estimular e facilitar mais sábias opções para indivíduos, comunidades locais, negócios e governos.

Combinadas, nossas opções determinam a saúde de nossas economias, de nosso planeta e de nossa sociedade. O Rio de Janeiro é uma importante oportunidade para assegurar que os líderes globais respeitem seus compromissos para um mundo sustentável, tanto econômica quanto social e ambientalmente, e para que escolham políticas a favor do povo e do planeta.

Uma ideia que ganha cada vez mais apoio são as Metas de Desenvolvimento Sustentável (MDS), que complementariam os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. As MDS, aplicáveis e mensuráveis, dariam uma concreta expressão ao renovado compromisso político pelo desenvolvimento sustentável. No Rio de Janeiro espero ver ações para avançar em direção a uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza.

Na verdade, vários temas reclamam ação urgente: empregos decentes, especialmente para os quase 80 milhões de jovens que entram anualmente no mercado de trabalho; sistemas de proteção social; inclusão social; acesso a energia; eficiência e sustentabilidade. Além disso, segurança alimentar e agricultura sustentável, gestão racional da água, cidades sustentáveis, proteção e administração de oceanos e melhor resistência e preparação diante de desastres naturais.

Os governos também terão que decidir com qual marco institucional se pode avançar melhor na agenda do desenvolvimento sustentável e proporcionar um espaço para que a sociedade civil e o setor privado desempenhem seu papel. Na verdade, todos os setores da sociedade podem desenvolver tecnologias que ajudem a transformar o mundo para melhor, criar empregos verdes e influenciar positivamente a sociedade por meio da responsabilidade social das corporações.

A sociedade civil pode responsabilizar os governos e assegurar que as vozes dos mais vulneráveis estejam representadas. Os cientistas podem desenvolver soluções inovadoras para os desafios da sustentabilidade, e cada um de nós também tem uma parte nas decisões que tomamos a cada dia.

A Rio+20 é a conferência de todos, assim como o planeta também é de todos. Suas metas, suas aspirações e seu resultado pertencerão a todos. Por fim, não esqueçamos que a Rio+20 também é uma conferência para as futuras gerações. Um famoso provérbio indígena norte-americano diz: “Não herdamos a Terra de nossos ancestrais, mas a tomamos emprestada de nossos filhos”.

Juntos, participando de um pensamento criativo, de iniciativas para avançar e de compromisso voluntários, podemos conseguir consenso e procurar um mundo que faça nossos descendentes se orgulharem. Trabalharemos unidos para criar o futuro que queremos. Envolverde/IPS

* Sha Zukang é secretário-geral adjunto da ONU, diretor do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais e secretário-geral da Rio+20.

Rio+20 será um fracasso, avalia Eduardo Viola, especialista em clima e professor da UnB (Agência Câmara de Notícias)

01/06/2012

Eco Debate

A afirmação foi feita durante audiência pública realizada pela Comissão Mista sobre Mudanças Climáticas para debater a economia verde no contexto da erradicação da pobreza e o papel da governança para o desenvolvimento sustentável.

O professor avaliou que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) não terá grandes avanços porque as duas das maiores superpotências – Estados Unidos e China – não estão interessadas em negociações ambientais. “Neste momento, temos três superpotências no sistema internacional: Estados Unidos, União Europeia e China. Dessas três só a União Europeia, mesmo que limitadamente, se orienta para uma economia mais verde. Estados Unidos e China são conservadores e não querem ceder soberania nacional”, explicou.

Na opinião de Eduardo Viola, a Rio+20 vem em um “momento errado da História” e não deve passar de “acordos superdifusos que vão apenas repetir coisas já ditas em conferências anteriores”. Para ele, a Rio+20 só teria condições de sucesso se houvesse profundas mudanças políticas nas três superpotências.

Conselho de Desenvolvimento Sustentável
O professor citou outras transformações necessárias no caminho da sustentabilidade. Entre elas, a criação de uma organização poderosa do meio ambiente, com a introdução de limites planetários nas diversas atividades econômicas. Viola, entretanto, não acredita que essas mudanças acontecerão em um futuro próximo.

O diretor interino do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores, Paulino Franco de Carvalho Neto, defendeu a criação de um Conselho de Desenvolvimento Sustentável, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). “O conselho teria mais poderes e um status mais elevado do que a atual Comissão de Desenvolvimento Sustentável, que tem um caráter mais de discussão, com pouco alcance de resultados concretos que interferem nas políticas públicas”, observou.

Carvalho Neto disse que o governo brasileiro defende o reforço do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), estabelecendo, por exemplo, que as contribuições dos países para o programa sejam obrigatórias e não voluntárias. O diretor ressaltou ainda que “as questões ambientais não devem ser vistas isoladamente, devem englobar também as questões sociais e econômicas”.

Aspecto social
Já o professor da USP Eliezer Martins Diniz disse que o conceito de economia verde não tem grandes diferenças em relação ao de desenvolvimento econômico sustentável.

O Pnuma, lembrou, define economia verde como “a que resulta em um maior bem-estar humano e igualdade social enquanto reduz significativamente o risco ambiental e a escassez ecológica”.

Diniz, que é economista e especialista em desenvolvimento sustentável, considera o conceito redundante. “A definição de desenvolvimento sustentável já trata desses temas”. Ele explicou que a única diferença em relação aos dois conceitos é que o de desenvolvimento sustentável dá mais ênfase ao aspecto econômico e ambiental enquanto o conceito de economia verde engloba também o aspecto social.

O economista alertou ainda para a grande ênfase ao aspecto social, na frente das prioridades ambientais. “Pode ser uma ‘armadilha perigosa’, pois países em desenvolvimento podem argumentar que não cumpriram metas ambientais estabelecidas porque priorizaram a erradicação da pobreza.”

Na opinião do professor, se os países em desenvolvimento simplesmente disserem que têm como prioridade a erradicação da pobreza e que, por isso, não cumpriram nenhuma meta, não poderão ser cobrados. “É preciso haver cobrança de resultados ambientais muito claros.”

Da Redação/ RCA
Com informações da Agência Senado

Matéria da Agência Câmara de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 01/06/2012

Economia verde, o nome não faz a essência (Inter Press Service)

Inter Press Service – Reportagens
31/5/2012 – 09h27

por Giuliano Battiston, da IPS

IPS1c Economia verde, o nome não faz a essênciaFlorença, Itália, 31/5/2012 – A atual crise econômico-financeira que afeta o Norte industrial apresenta uma oportunidade para reformar o sistema econômico, segundo participantes da nona edição do evento Terra Futura, sobre “boas práticas” em sustentabilidade social, econômica e ambiental. “O que, quanto, como e para quem produzir são as perguntas que temos de responder com urgência”, afirmou Guido Viale, economista ambiental e autor de vários livros de ecologia.

“A crise oferece a oportunidade de reconverter ecologicamente a forma como produzimos, usamos os produtos e serviços para preparar o caminho com vistas à redução de nossa dependência dos combustíveis fósseis para respeitar a biodiversidade e criar um sistema econômico seguro e com poucas emissões de carbono”, afirmou Viale durante a mostra, realizada entre 25 e 27 de maio nesta cidade. O primeiro passo para uma economia saudável e um ambiente limpo é “encontrar formas rentáveis de melhorar nossa infraestrutura e ‘descarbonizar’ nosso fornecimento energético”, disse Monica Frassoni, presidente da Aliança Europeia para Economizar Energia.

Esta organização foi criada por ocasião da 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em dezembro de 2010, e inclui algumas das principais companhias multinacionais da Europa, além de um grupo de políticos de diversos partidos. “Sem compromissos obrigatórios com a eficiência energética até 2020 e sem objetivos de economia verificáveis para os membros da União Europeia (UE), o bloco corre o risco de alimentar sua dependência dos combustíveis fósseis”, destacou Frassoni.

Tão importante quanto ter um marco institucional e objetivos de economia setoriais nas principais áreas da economia europeia é conseguir uma mudança radical no estilo de vida. “As mudanças que vão durar são as que criarem raízes em uma mentalidade renovada”, explicou Karl-Ludwig Schibel, coordenador do braço italiano do Pacto dos Prefeitos. O movimento europeu pretende cumprir e superar o objetivo da UE de reduzir em 20% as emissões de dióxido de carbono (CO²) até 2020. O Pacto dos Prefeitos foi lançado pela Comissão Europeia em 2008, após a adoção do Pacote sobre Clima e Energia. “Realmente, acreditamos na efetividade de um processo de baixo para cima, promovido por cidadãos, autoridades regionais e administradores locais. É ali que ocorrem as revoluções mentais mais profundas”, detalhou Schibel.

Segundo a ambientalista Vandana Shiva, a consciência cultural de nossa escravidão intrínseca e frágil da “terra viva” é a ferramenta mais importante para promover a justiça, a sustentabilidade e uma nova economia. “É hora de abandonar o modelo centralizado, fossilizado e esclerosado, adotado na era industrial, e se construir um novo, descentralizado, democrático, horizontal e no qual todos os ecossistemas sejam respeitados e a diversidade seja um valor”, enfatizou.

“Devemos lutar contra as monoculturas mentais promovidas pela industrialização, e sermos cuidadosos com as velhas armadilhas escondidas em novas palavras, como economia verde”, acrescentou Vandana. Susan George, presidente do diretório do Transnational Institute, uma rede mundial de pesquisadores e ativistas, disse à IPS: “Não me agrada utilizar o termo economia verde, pois pode se converter em um meio pelo qual o capitalismo corporativo global consiga benefícios com um novo rosto mais respeitável”.

Vinte anos depois da Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a comunidade internacional se reunirá novamente nessa cidade, de 20 a 22 de junho, para outra Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, onde se discutirá sobre economia verde, cujo adjetivo verde continua sendo motivo de controvérsia.

“Há alguns anos proponho o Novo Tratado Verde, isto é, assumir o controle das finanças e os investimentos na transição verde e social. O primeiro passo é socializar, não nacionalizar, os bancos, para incluir cidadãos e clientes na gestão, e conceder empréstimos para pequenas iniciativas ambientais”, contou Susan. A chamada economia verde é algo totalmente diferente. “Sou pessimista sobre a Rio+20”, declarou. “Será apenas uma desculpa para que as grandes corporações digam: ‘a ONU é lenta e ineficaz, nós somos efetivos e inteligentes, nos deem o dinheiro e investiremos em economia verde’. Porém, apenas buscam novos benefícios. Devemos perguntar: uma economia verde para quem e gerida por quem?”.

Barbara Unmüßig, presidente da Heinrich Boll Stiftung, escreveu em um artigo intitulado “Economia verde: uma nova bala mágica”, que “grandes setores da sociedade civil acreditam que a economia verde seja uma área extremamente benéfica”. Para marcar a diferença, o modelo de economia verde também dever prestar atenção a questões de poder e igualdade, e ao mesmo tempo afastar a ênfase política global do crescimento e livre comércio. Envolverde/IPS

(IPS)

‘O tempo está acabando’, diz Ban Ki-moon sobre negociações da Rio+20 (EcoAgência)

Envolverde Rio + 20
31/5/2012 – 10h07

por Redação UNIC Brazil

Capa11 ‘O tempo está acabando’, diz Ban Ki moon sobre negociações da Rio+20Rodada de negociações dá aos países uma oportunidade para avançar no diálogo e finalizar o documento final da Conferência, que ocorrerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ressaltou hoje (29) a importância deste momento para o sucesso dos objetivos da Rio+20. Seu discurso foi feito durante o início da terceira e última rodada de negociações informais entre os representantes de governos e os ‘Major Groups’ para definir o documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O encontro de líderes globais está ocorrendo em Nova York de terça-feira (29/5) a sábado (2/6). “O tempo está acabando”, disse Ban Ki-moon aos participantes da rodada informal. “Vocês ainda têm muito trabalho a fazer – talvez trabalho demais – mas vocês devem perseverar. Os riscos são muito, muito altos, para o povo e para o planeta, para a paz e a prosperidade.”

Esta rodada de negociações, que foi acrescentada no início do mês, dá aos países uma oportunidade para avançar no diálogo e finalizar o documento final da Conferência, que ocorrerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro. O evento reunirá mais de 130 Chefes de Estado e de Governo, juntamente com milhares de parlamentares, prefeitos, funcionários da ONU, diretores executivos e líderes da sociedade civil.
As negociações serão baseadas em um texto que foi encurtado e simplificado pelos copresidentes do processo de deliberação, o Embaixador John Ashe de Antígua e Barbuda e o Embaixador Kim Sook da República da Coreia.

“Quando nos encontrarmos no Rio, os Chefes de Estado e de Governo devem ter diante de si um documento final conciso que atenda às suas expectativas”, disse Ban. Ele encorajou os delegados a serem ousados e trabalharem de forma construtiva com o documento simplificado ao longo dos próximos dias.

A questão-chave nas negociações tem sido o desenvolvimento dos chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – um conjunto de parâmetros de referência que orientem os países na obtenção de resultados específicos dentro de um período de tempo específico, como no acesso universal a energia sustentável e água limpa para todos, tendo como base os já conhecidos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), após o prazo final de 2015.

“Um processo que defina os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pode ser um dos resultados mais importantes da Rio+20”, disse Ban. “Eles podem fornecer marcos concretos no caminho de realização da nossa visão, e podem ajudar a garantir a integração das três dimensões do desenvolvimento sustentável: social, econômica e ambiental.” Após a última rodada de negociações informais do documento final, as conversas serão retomadas durante a Terceira Reunião do Comitê Preparatório, que acontecerá no Rio de Janeiro, de 13 e 15 de junho.

Confira o discurso de Ban Ki-moon na íntegra: http://www.un.org/sg/statements/index.asp?nid=6087

Acesse o vídeo da participação do Secretário-Geral: http://bit.ly/MWAWVy

 * Publicado originalmente no site da EcoAgência.

This Forest Is Our Forest (N.Y.Times)

OP-ED CONTRIBUTOR

By LUIS UBIÑAS – Published: May 31, 2012

Twenty years ago, the world came together in Rio de Janeiro for a historic summit meeting to tackle the environmental issues that threaten the very sustainability and preservation of our planet. Now, as world leaders and thousands of other participants prepare for the Rio+20 Conference, we are facing an even more urgent set of environmental challenges.

Samrang Pring/Reuters. Koh Kong province, in southwestern Cambodia.

The pace of global climate change has worsened, representing a fundamental threat to the planet’s health and environmental well-being. And there is little indication the world’s leaders are ready to meet the challenges of building an environmentally sustainable future.

But there is some good news to report — and it’s coming from the world’s forests, a critical front line in the effort to slow climate change and conserve biodiversity. In a largely unreported global movement, some 30 of the world’s most forested countries have adopted an innovative idea for protecting forests: granting ownership rights to communities that reside in them.

Almost 90 percent of the laws granting such rights have been passed since the first Earth Summit in 1992, demonstrating that a global consensus can produce real change. A new report from the Rights and Resources Initiative — a global coalition of organizations working for forest-use reforms — presents a growing body of evidence that in places where local communities have taken ownership of forests, the results have been overwhelmingly positive. Protected areas, owned by indigenous communities in Asia and Latin America, have lower rates of deforestation, forest fires and, above all, carbon emissions.

Since forests also provide for the livelihoods of tens, even hundreds, of millions of people, clarifying and recognizing ownership rights is helping to spur economic growth and raise living standards.

In Brazil, which is hosting the Rio+20 summit — formally the United Nations Conference on Sustainable Development — deforestation rates have significantly declined, even as incomes in indigenous forest communities have increased. Brazil has moved toward this goal by giving communities the legal protections to keep out ranchers, loggers and others seeking to destroy their forests.

Yet the progress we’ve seen across the globe has been uneven, and the potential to build on it stands at risk. As chronicled in the R.R.I. report, most of the new laws that recognize customary rights circumscribe those rights and are applied at limited scale.

In Africa, nearly eight out of 10 laws that recognize the rights of indigenous peoples and communities do not allow them to exclude outsiders — a critical element of land ownership. Even where legal rights exist, complicated bureaucratic procedures often make it difficult to realize them. In Mozambique, for example, to qualify for “community concessions” local communities must provide six copies of a topographical map identifying all the detailed geographical features of the land. Not surprisingly, in 2009 — a decade after the act was passed — no concessions had been granted.

Worse still, some of the countries with rights on the books now find themselves at the center of a growing and troubling land grab by commercial investors focused on clearing forests for agriculture, with little concern for the local communities that call them home.

Recent efforts by wealthy ranchers to weaken land rights in Brazil illustrate this growing threat. In the face of rising food, mineral and energy prices, this fierce competition for land will only increase, making the need for strongly established community rights more important than ever before.

For all of these reasons, Rio+20 must build on the success of its predecessor and serve as a new impetus to expand and strengthen community rights to the world’s forests.

This means ensuring that billions of hectares of forest are turned over to local communities; it means engaging with the private sector to help clarify groups’ rights to land and forest; and it means creating new public/private partnerships, such as those that have been used to combat other global issues like H.I.V.-AIDS and malaria, to build public support for ownership rights. Above all, it means ensuring that the rights already recognized by governments are fully realized in local communities.

Taking action on these fronts will set us on a powerful course for a more sustainable and equitable future — just as it did 20 years ago. Actions that simultaneously strengthen human rights and achieve sustainable development are an unusual win-win. The fact that they also help stop deforestation and climate change makes them an even more attractive and urgent option.

At a time when the struggle against global warming seems more daunting than ever, our two decade-long experience with community forestry shows that we have within our means the ability to turn the tide.

Luis Ubiñas is president of the Ford Foundation.

Resultado mais forte da Rio+20 virá da sociedade civil, dizem cientistas (OESP)

Especialistas estimam que principal mensagem do evento será passado pela Cúpula dos Povos

21 de maio de 2012 | 3h 05
Giovana Girardi – O Estado de S.Paulo

A exatamente um mês da Rio+20, membros da sociedade civil reunidos ontem em São Paulo em debate sobre a conferência para o desenvolvimento sustentável manifestaram que, nessa altura dos acontecimentos, o melhor que se pode esperar do evento é que ele sirva para fortalecer a mobilização da sociedade.

Arquiteto Nabil Bonduki diz que cúpula vai apontar que outro mundo podemos ter - Divulgação
Divulgação
Arquiteto Nabil Bonduki diz que cúpula vai apontar que outro mundo podemos ter

“Os temas que estão colocados na Rio+20 – economia verde, governança e erradicação da pobreza – são como recomeçar o mundo. Sem dúvida são coisas que dependem de acordos entre governos, mas temos a sensação de que esses acordos vão demorar cada vez mais. Então é fundamental a sociedade se mobilizar por esses temas, pressionar”, afirmou o pesquisador da USP Pedro Roberto Jacobi, do Programa de Pós Graduação em Ciência Ambiental. Ele falou durante debate no evento Viva a Mata, que celebra o Dia Nacional da Mata Atlântica, no domingo.

Jacobi resumiu um sentimento que prevalece na academia, entre organizações não governamentais e até entre os negociadores de alto nível de certo pessimismo que a conferência não resulte em compromissos mais concretos para que o mundo se encaminhe para o tão falado desenvolvimento sustentável.

A comparação inevitável é com a Rio-92, vista como um momento que representou uma mudança de paradigma.

“A Rio+20 significa um nada, um vazio. De 92 para cá o que aconteceu foi a não implementação de tudo o que foi acordado. Só que passados 20 anos, temos hoje muito mais dados e certezas de que caminhamos para um desastre ambiental e o que acontece? Nada”, disse João Paulo Capobianco, do Instituto Democracia e Sustentabilidade.

“É uma reunião sem entendimento mínimo sobre o que se espera dela, marcada pela falta de líderes, e que não vai enfrentar nosso pior problema, que é a falta de governança, a incapacidade de implementar acordos que nós mesmos fizemos”,

Para o economista Ricardo Abramovay, também da USP, só uma forte pressão social poderia levar a conferência a alcançar pelo menos uma nova forma de medir e avaliar o crescimento econômico que seja alternativa ao Produto Interno Bruto (PIB). “Precisamos entrar no mérito do que o sistema econômico de fato está oferecendo para a sociedade para podermos julgar se essa oferta aumenta o bem-estar das pessoas ou não e se está comprometendo os serviços ofertados pela natureza ou não.”

Rio+20: ruptura ou ajuste? (Mundo Sustentável)

Se você entende que há alguma razão para a mudança, manifeste-se. A Rio+20 é uma obra em construção. Ainda há tempo.

Diante do risco de a mais importante conferência do ano se transformar em uma “terapia de grupo”, onde o falatório e a papelada possam resultar em um novo acordo político genérico, convém prestar atenção desde já no posicionamento dos diferentes segmentos que marcarão presença na Rio +20.

Reunidos na PUC-RJ durante a conferência, aproximadamente 500 cientistas deverão compartilhar novas avaliações sobre o estado de fragilidade e degradação dos ecossistemas que  fornecem água, matéria-prima e energia à humanidade. De lá deverá surgir mais um grito de alerta em favor da vida sem nenhuma conotação política ou religiosa. Quem usa a ciência para medir os estragos causados pelo atual modelo de desenvolvimento é basicamente um cético: se orienta apenas e tão somente pelas evidências que a metodologia científica lhe revela.

Os povos indígenas causarão enormes constrangimentos aos organizadores da Rio+20. Representantes das etnias que sobreviveram a sucessivos massacres no Brasil e no exterior denunciarão o absurdo do uso insustentável da terra.

Os empresários engajados exibirão os resultados contábeis da ecoeficiência e assumirão novos compromissos em defesa da inovação tecnológica e da redução do desperdício. Haverá entre eles os que fazem maquiagem verde (falam de “sustentabilidade”, mas não praticam), os neo-convertidos, que ajustaram procedimentos mais por conveniência (do que por convicção) e os que, de fato, estão convencidos da necessidade de mudanças e conseguem enxergar mais além do lucro imediato.

A constelação das ONGs deverá confirmar o tamanho e a diversidade das múltiplas correntes de pensamento que não cabem na moldura da ONU, mas que emprestam densidade e legitimidade a uma das pautas mais importantes da Rio+20: governança. Os tomadores de decisão já reconhecem a força do terceiro setor num mundo onde as articulações em rede robustecem a democracia, oxigenam as instituições e promovem a transparência e a justiça.

Caberá às organizações civis e às mídias (todas as mídias, de todos os tamanhos) aquecer a panela de pressão onde os chefes de estado vão cozinhar o texto final da Conferência. Sem isso, será mais do mesmo. Obnubilados pelos afazeres e interesses mais imediatos, de curtíssimo prazo, os chefes de estado não conseguirão justificar mudanças estruturais de longo prazo sem que haja uma boa razão para isso. Se você entende que há alguma razão para a mudança, manifeste-se. A Rio+20 é uma obra em construção. Ainda há tempo.

André Trigueiro

14.mar.2012

Artigo publicado na edição de março 2012 da Revista GQ

Mudando para que nada mude (Cineclube Ciência em Foco)

SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012

 “A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. […] A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas […] são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas”.

 

Renzo Taddei – Doutor em Antropologia pela Univ. de Columbia, pesquisador da Coordenação do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos da ECO-UFRJ e palestrante do Ciência em Foco de 2 de junho.

1) O personagem central do filme Árido Movie é um profissional que apresenta diariamente a previsão do tempo para o Brasil em uma rede de TV em São Paulo. Ao voltar para sua terra natal no sertão nordestino, ele se vê deslocado na fissura entre estes dois “nordestes”: o da previsão do tempo, distante e virtual, e o concreto. Diante dos vários contrastes com os quais se defronta, como podemos pensar seu deslocamento?

Essa fissura não se limita à questão do “nordeste”, mas é ainda mais importante, ainda que menos saliente, na própria questão do clima. Somos levados a crer todo o tempo que o clima que importa está em algum outro lugar, e que só é acessível através da mediação de especialistas e equipamentos. Obviamente isso ocorre de fato, mas há efeitos deletérios nessa alienação entre os indivíduos e o meio ambiente: a questão passa a ser entendida como problema distante, vivido apenas de forma abstrata. Isso gera a atitude caracterizada pela ideia de que “eu não tenho nada com isso” – o que é exatamente o que o personagem do filme diz à avó quando percebe que esta espera que ele vingue a morte do pai. De certa forma, ele vivia a sua própria relação familiar de forma alienada, como algo abstrato, virtual, e as contingências da vida o obrigam a enfrentar a incontornável materialidade dos contextos locais. A crise ambiental atual nos confronta com esta materialidade incontornável. Se o personagem vivesse as suas relações familiares de forma mais integral, talvez o destino de todos ali fosse outro. Há responsabilidades que nos implicam, mas que não escolhemos – algo difícil de aceitar no contexto liberal em que vivemos. Mas a analogia acaba por aqui: felizmente não há morte alguma a ser vingada na questão climática (ou haverá?).

2) O fenômeno climático da seca é recorrente na filmografia brasileira. Pode-se dizer que o cinema traz representações do meio ambiente que muitas vezes nos forçam a pensar seus elementos a partir de sua relação com a sociedade e a cultura. Sem entregar muito de sua fala, poderia comentar algo em torno desta relação? Qual a importância destas perspectivas e seu papel no cenário das discussões oficiais?

Mais do que a seca propriamente dita, o elemento que povoou a imaginação de escritores e artistas foi o “sertão”. Hoje, especialmente para as audiências do sudeste urbano, sertão é quase sinônimo de nordeste rural, mas no passado a situação era diferente. Há debates acadêmicos sobre de onde vem a palavra sertão: uma das hipóteses é que tem origem na palavra desertão, sugerindo a ideia de área remota e desolada; outra, sugere que a palavra vem de sertus, termo do latim que significa entrelaçado, enredado. Na história do Brasil, o sertão sempre foi o espaço refratário à penetração do poder oficial, das instituições de controle do Estado. Um dos lugares onde isso é mais claro é na obraGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A obra se ambienta toda em Minas Gerais, em uma região que não é semiárida como o sertão nordestino, e numa época onde sequer existia o “Nordeste”, mas tudo o que ficava acima da Bahia era considerado “Norte”. No início, o Brasil todo era sertão; com a expansão do Estado ao longo do século XX, houve uma redução considerável do território que pode ser considerado sertão, nos sentidos mencionados acima: praticamente toda a região sudeste, por exemplo, se “dessertaniza” à medida que o espaço passa a ser ocupado por cidades e atividade agrícola em larga escala.

Desta forma, na imaginação artística o sertão funcionou, ao longo dos últimos dois séculos, como o “outro mundo” onde há liberdade em contraposição aos controles que marcam as sociedades urbanas, e onde há mais autenticidade, o que pode ser encarado por um viés romântico (como vemos em José de Alencar, por exemplo) ou onde coisas impensáveis podem ocorrer, numa espécie de mirada conradiana [referente a elementos da obra do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924), autor de Coração das trevas]. Mesmo com o Cinema Novo, onde há uma sociologização mais intensa do sertão, esse não deixa de ser espaço de liberdade e experimentação, como vemos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Mas é preciso que se diga que isso tudo marca uma perspectiva de quem olha de fora. O sertão não é uma coisa, são muitas.

O que a seca faz, em certo sentido, é ressertanizarmomentaneamente um território dessertanizado, porque ela tem o potencial de desorganizar processos políticos e sociais locais, inclusive no que diz respeito às instituições oficiais de poder. Em lugares onde as variações climáticas (como as secas) são recorrentes, como no nordeste brasileiro, em geral as relações de poder locais existem de forma associada às epidemias de sofrimento trazidas pela seca. A infame indústria da seca é um exemplo disso. Mas há limites em quanto as sociedades e instituições locais conseguem se ajustar à variação do clima: secas muito intensas podem efetivamente colocar toda uma sociedade em situação de crise, como se vê atualmente nos sertões de Pernambuco e da Bahia.

Um segundo ponto da questão menciona a forma como o cinema nos faz pensar o meio ambiente em sua relação com sociedade e cultura. Há duas formas de relacionar natureza e sociedade que parecem ser recorrentes na experiência humana. Por um lado, usamos elementos da natureza para pensar relações sociais, coisa que na antropologia chamamos de totemismo. A forma como usamos figuras de animais para pensar torcidas de futebol (urubu, gaviões, porco etc), ou como destacamentos militares usam símbolos animais (a onça em quartéis na Amazônia), ou ainda quando nos referimos a qualidades pessoais através de imagens animais (ao dizer que alguém “é” uma cobra, um rato, ou uma anta), são exemplos disso. Por outro, projetamos na natureza elementos humanos, culturais e sociais, o que, por sua vez, é conhecido na antropologia como animismo. Desta forma, uma tempestade é “traiçoeira”, ou uma estação chuvosa, como ouvi várias vezes em pesquisa de campo no sertão do Ceará, pode ser “velhaca” (isto é, promete e não cumpre). O cinema naturalmente se utiliza disso tudo como recurso narrativo.

Além disso, nossa percepção do ambiente é visceralmente marcada por nossas perspectivas contextuais. Uma pesquisa que coordenei a respeito das respostas sociais e culturais às secas do ano de 2005 – um ano em que houve secas na Amazônia, no Nordeste e no sul do Brasil – mostrou que as populações locais não pensam o meio ambiente como algo desconectado das demais dimensões da vida; como tais dimensões são variáveis, a percepção do ambiente o é também. Os resultados da pesquisa foram publicados no livroDepois que a chuva não veio, disponível em texto integral na Internet. O problema é que os governos centrais, como o federal, no Brasil, têm a tendência a homogeneizar tudo com o qual se relacionam, ignorando os contextos locais; e a ciência climática tende a pregar que o contexto local e o clima não têm relação causal direta (especialmente quando estão contestando a capacidade do conhecimento tradicional de produzir previsões climáticas válidas). No que diz respeito às relações entre sociedade e clima, vivemos uma situação verdadeiramente neurótica. O meio ambiente pode inclusive ser uma forma de eufemizar uma discussão demasiadamente sensível em termos políticos e sociais. Um manual de infoativismo editado na Inglaterra, por exemplo, sugere que personagens em forma de animais sejam usados em campanhas públicas em que questões politicas sensíveis dificultem a comunicação através de exemplos humanos.

As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

3) No mês de junho, o Rio de Janeiro sediará a Rio+20, a conferência das Nações Unidas em torno do desenvolvimento sustentável, que articulará líderes mundiais em discussões que convidam à cooperação mundial para a melhoria de problemas sociais. Tendo em vista o cenário de mudanças climáticas, como abordar a participação social nestas discussões, face às diferenças culturais que estão em jogo?

As diferenças culturais não devem ser entendidas como obstáculo às ações relacionadas à crise ambiental. Pelo contrário, são recursos importantes. É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, e ao mesmo tempo a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio, por exemplo, para que “entendam” os efeitos deletérios de algumas de suas práticas cotidianas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso foco em informação e no pensamento, ou seja, ao diagnosticar tudo como “falta de informação” ou diferentes “formas de pensar”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões morais e éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, me assusta. A própria ideia de “entendimento mundial” em torno do meio ambiente evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. Nunca na história da humanidade houve uma tentativa tão articulada para a criação de um discurso único sobre o meio ambiente. A polarização política que se vê nos Estados Unidos, em torno da questão climática, é uma farsa: o comportamento do partido republicano mostra com clareza que se trata de uma disputa pelo poder, onde os envolvidos se comportam estrategicamente e defendem qualquer posição que maximize suas chances de vitória. E, acima de tudo, apresentam o problema climático como se houvesse apenas duas alternativas – aceitar ou negar o efeito das ações humanas nas mudanças climáticas –, mas as duas são validadas dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento e de vida, outras epistemologias e ontologias? Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, é preciso aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum de todos os seres vivos. Que tipo de ética e moralidade decorre dai, na relação entre humanos e não humanos? Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

No meu entender, o que sobressai nesta questão da participação social e da multiplicidade cultural é o fato de que é preciso que os ocidentais, e nós, ocidentalóides, entendamos que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais, por exemplo, não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns”, por exemplo, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade. A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas (ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele, por exemplo), são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas.

4) Contraplanos – expresse em poucas palavras (ou apenas uma) sua sensação com relação aos sentidos e problemáticas evocadas pelas seguintes palavras:

– tempo e clima: clima é um ponto de vista[1]; tempo é a vista (a partir) de um ponto[2] (notas: [1] Clima é “ponto de vista” no sentido de que trata-se de uma construção abstrata, resultante de cálculos estatísticos sobre medições de indicadores atmosféricos em intervalos amplos de tempo, e onde as técnicas estatísticas, o termômetro e outros mediadores técnicos têm tanta importância quanto a vibração das partículas que o termômetro busca medir; [2] tempo, no sentido dado ao conceito pela meteorologia, é o fenômeno atmosférico que existe num prazo de tempo mais curto, e portanto tende a fazer referência ao fenômeno em si, enquanto singularidade experiencial, ou seja, coisas que vivemos e lembramos, porque nos afetam num tempo e espaço específicos, e desta forma são a experiência a partir de um ponto).

 – sustentabilidade: o que exatamente se está tentando sustentar? Precisamos pensar a “mutabilidade” tanto quanto sustentabilidade. É muito difícil mudar o (insustentável) sistema econômico em que nos encontramos, e é preciso atentar para o fato de que, sob a fachada de “sustentabilidade”, há um esforço imenso de mudar apenas o que é necessário para que nada mude no final. O mercado de carbono é o exemplo paradigmático disso. Ou seja, em geral os debates sobre sustentabilidade (e sobre adaptação, resiliência etc.) são conservadores e insuficientes.

– construção social: já não há mais muita clareza a respeito do que significa tal associação de termos (o que é bom). Se tudo é construção social, a ideia deixa de ser relevante, porque não explica muita coisa. Tudo está em fluxo; se é “construção”, e se é “social”, depende de qual jogo semântico se está jogando. A expressão diz mais a respeito de quem usa a expressão do que sobre o fenômeno em questão. Tenho a impressão que dizer que o clima, por exemplo, é uma “construção social” constitui uma forma de evitar levar o clima a sério – e aqui estou repetindo ideias de autores como Bruno Latour ou Roy Wagner, por exemplo.

– ciência e cultura: há muito menos clareza a respeito do que significam tais termos (o que é melhor ainda). Num sentido mais propriamente filosófico, são duas ideias que morreram no século XX. Ou seja, tanto a Ciência como a Cultura, assim com “c” maiúsculo, que constituíam o santo graal do pensamento acadêmico Europeu dos séculos XIX e grande parte do XX se mostraram quimeras, principalmente em função dos trabalhos de gente como Heidegger, Merleau-Ponty, Wittgenstein, Gadamer, dentre muitos outros. Sobraram “ciências” e “culturas” com “c” minúsculo, ou seja, tais conceitos se transformaram em problemas empíricos. Puxando a sardinha pro meu lado (risos), se tornaram problemas antropológicos.

5) Roteiros alternativos – espaço dedicado à sugestão de links, textos, vídeos, referências diversas de outros autores/pesquisadores que possam contribuir com a discussão. Para encerrar essa sessão, transcreva, se quiser, uma fala de um pensador que o inspire e/ou seu trabalho.

No meu blog Uma (In)certa Antropologia (http://umaincertaantropologia.org) mantenho um arquivo de notícias e materiais acadêmicos sobre as relações entre cultura, sociedade e o clima. Há lá uma gravação em áudio de uma apresentação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro que toca no tema das mudanças climáticas como crise do Ocidente, e como outros povos e outras culturas se relacionam com isso, que vale a pena ser ouvida. Ela está no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/ViveirosdeCastro_IFCS_20111123.wav.

O livro Depois que a chuva não veio, mencionado acima, está disponível no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/DQACNV.htm.

O documentário “10 tacticts for turning information into action”, também mencionado acima, está no site http://informationactivism.org/original_10_tactics_project#viewonline, com subtítulos em português – o exemplo de uso de animais como personagens está na tática número 3.

Há um vídeo provocativo do Slavok Žižek, cujo título éEcology as Religion, que evoca discussões importantes sobre como o meio ambiente existe no senso comum e nas discussões políticas. O video está reproduzido em https://umaincertaantropologia.org/2012/04/12/slavoj-zizek-on-ecology-as-religion-youtube/

6) Como conhecer mais de suas produções?

Há uma lista de artigos acadêmicos e também escritos para jornais e revistas em meu website, no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/Textos.htm

Inpe e Rede Clima lançam cartilha educativa para a RIO+20 (Fapesp)

Publicação apresenta os temas que serão discutidos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável e os cenários de mudanças climáticas projetados para o Brasil (reprodução)

23/05/2012

Agência FAPESP – O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) produziram uma cartilha educativa, intitulada O futuro que queremos – economia verde, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza.

Voltada ao público em geral, a publicação apresenta os conceitos de economia verde e sustentabilidade e a importância da erradicação da pobreza, que são temas que serão discutidos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20), que será realizada de 13 a 22 de junho no Rio de Janeiro.

A cartilha também traz um histórico das conferências anteriores relacionadas ao meio ambiente e o conceito de “pegada ecológica” (metodologia usada para medir os rastros deixados pelos humanos no planeta a partir de seus hábitos).

A publicação apresenta ao leitor os cenários de mudanças climáticas projetadas para o Brasil para o século 21, as atividades do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e outros projetos e programas nessas áreas, apoiados pelo Inpe.

A cartilha está disponível para download em versão para internet em www.inpe.br/noticias/arquivos/pdf/RIO+20-web.pdf.

O arquivo digital com resolução para impressão pode ser solicitado pelo e-mail maira.morais@inpe.br.

Bruno Latour: Love Your Monsters (Breakthrough)

Breakthrough Journal, No. 2, Fall 2011

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In the summer of 1816, a young British woman by the name of Mary Godwin and her boyfriend Percy Shelley went to visit Lord Byron in Lake Geneva, Switzerland. They had planned to spend much of the summer outdoors, but the eruption of Mount Tambora in Indonesia the previous year had changed the climate of Europe. The weather was so bad that they spent most of their time indoors, discussing the latest popular writings on science and the supernatural.

After reading a book of German ghost stories, somebody suggested they each write their own. Byron’s physician, John Polidori, came up with the idea for The Vampyre, published in 1819,1 which was the first of the “vampire-as-seducer” novels. Godwin’s story came to her in a dream, during which she saw “the pale student of unhallowed arts kneeling beside the thing he had put together.”2 Soon after that fateful summer, Godwin and Shelley married, and in 1818, Mary Shelley’s horror story was published under the title, Frankenstein, Or, the Modern Prometheus.3

Frankenstein lives on in the popular imagination as a cautionary tale against technology. We use the monster as an all-purpose modifier to denote technological crimes against nature. When we fear genetically modified foods we call them “frankenfoods” and “frankenfish.” It is telling that even as we warn against such hybrids, we confuse the monster with its creator. We now mostly refer to Dr. Frankenstein’s monster as Frankenstein. And just as we have forgotten that Frankenstein was the man, not the monster, we have also forgotten Frankenstein’s real sin.

Dr. Frankenstein’s crime was not that he invented a creature through some combination of hubris and high technology, but rather that heabandoned the creature to itself. When Dr. Frankenstein meets his creation on a glacier in the Alps, the monster claims that it was notborn a monster, but that it became a criminal only after being left alone by his horrified creator, who fled the laboratory once the horrible thing twitched to life. “Remember, I am thy creature,” the monster protests, “I ought to be thy Adam; but I am rather the fallen angel, whom thou drivest from joy for no misdeed… I was benevolent and good; misery made me a fiend. Make me happy, and I shall again be virtuous.”

Written at the dawn of the great technological revolutions that would define the 19th and 20th centuries, Frankenstein foresees that the gigantic sins that were to be committed would hide a much greater sin. It is not the case that we have failed to care for Creation, but that we have failed to care for our technological creations. We confuse the monster for its creator and blame our sins against Nature upon our creations. But our sin is not that we created technologies but that we failed to love and care for them. It is as if we decided that we were unable to follow through with the education of our children.4

Let Dr. Frankenstein’s sin serve as a parable for political ecology. At a time when science, technology, and demography make clear that we can never separate ourselves from the nonhuman world — that we, our technologies, and nature can no more be disentangled than we can remember the distinction between Dr. Frankenstein and his monster — this is the moment chosen by millions of well-meaning souls to flagellate themselves for their earlier aspiration to dominion, to repent for their past hubris, to look for ways of diminishing the numbers of their fellow humans, and to swear to make their footprints invisible?

The goal of political ecology must not be to stop innovating, inventing, creating, and intervening. The real goal must be to have the same type of patience and commitment to our creations as God the Creator, Himself. And the comparison is not blasphemous: we have taken the whole of Creation on our shoulders and have become coextensive with the Earth.

What, then, should be the work of political ecology? It is, I believe, tomodernize modernization, to borrow an expression proposed by Ulrich Beck.5 
This challenge demands more of us than simply embracing technology and innovation. It requires exchanging the modernist notion of modernity for what I have called a “compositionist” one that sees the process of human development as neither liberation from Nature nor as a fall from it, but rather as a process of becoming ever-more attached to, and intimate with, a panoply of nonhuman natures.

1.
At the time of the plough we could only scratch the surface of the soil. Three centuries back, we could only dream, like Cyrano de Bergerac, of traveling to the moon. In the past, my Gallic ancestors were afraid of nothing except that the “sky will fall on their heads.”

Today we can fold ourselves into the molecular machinery of soil bacteria through our sciences and technologies. We run robots on Mars. We photograph and dream of further galaxies. And yet we fear that the climate could destroy us.

Everyday in our newspapers we read about more entanglements of all those things that were once imagined to be separable — science, morality, religion, law, technology, finance, and politics. But these things are tangled up together everywhere: in the Intergovernmental Panel on Climate Change, in the space shuttle, and in the Fukushima nuclear power plant.

If you envision a future in which there will be less and less of these entanglements thanks to Science, capital S, you are a modernist. But if you brace yourself for a future in which there will always be more of these imbroglios, mixing many more heterogeneous actors, at a greater and greater scale and at an ever-tinier level of intimacy requiring even more detailed care, then you are… what? A compositionist!

The dominant, peculiar story of modernity is of humankind’semancipation from Nature. Modernity is the thrusting-forward arrow of time — Progress — characterized by its juvenile enthusiasm, risk taking, frontier spirit, optimism, and indifference to the past. The spirit can be summarized in a single sentence: “Tomorrow, we will be able to separate more accurately what the world is really like from the subjective illusions we used to entertain about it.”

The very forward movement of the arrow of time and the frontier spirit associated with it (the modernizing front) is due to a certain conception of knowledge: “Tomorrow, we will be able to differentiate clearly what in the past was still mixed up, namely facts and values, thanks to Science.”

Science is the shibboleth that defines the right direction of the arrow of time because it, and only it, is able to cut into two well-separated parts what had, in the past, remained hopelessly confused: a morass of ideology, emotions, and values on the one hand, and, on the other, stark and naked matters of fact.

The notion of the past as an archaic and dangerous confusion arises directly from giving Science this role. A modernist, in this great narrative, is the one who expects from Science the revelation that Nature will finally be visible through the veils of subjectivity — and subjection — that hid it from our ancestors.

And here has been the great failure of political ecology. Just when all of the human and nonhuman associations are finally coming to the center of our consciousness, when science and nature and technology and politics become so confused and mixed up as to be impossible to untangle, just as these associations are beginning to be shaped in our political arenas and are triggering our most personal and deepest emotions, this is when a new apartheid is declared: leave Nature alone and let the humans retreat — as the English did on the beaches of Dunkirk in the 1940s.

Just at the moment when this fabulous dissonance inherent in the modernist project between what modernists say (emancipation from all attachments!) and what they do (create ever-more attachments!) is becoming apparent to all, along come those alleging to speak for Nature to say the problem lies in the violations and imbroglios — the attachments!

Instead of deciding that the great narrative of modernism (Emancipation) has always resulted in another history altogether (Attachments), the spirit of the age has interpreted the dissonance in quasi-apocalyptic terms: “We were wrong all along, let’s turn our back to progress, limit ourselves, and return to our narrow human confines, leaving the nonhumans alone in as pristine a Nature as possible, mea culpa, mea maxima culpa…

Nature, this great shortcut of due political process, is now used to forbid humans to encroach. Instead of realizing at last that the emancipation narrative is bunk, and that modernism was always about attachments, modernist greens have suddenly shifted gears and have begun to oppose the promises of modernization.

Why do we feel so frightened at the moment that our dreams of modernization finally come true? Why do we suddenly turn pale and wish to fall back on the other side of Hercules’s columns, thinking we are being punished for having transgressed the sign: “Thou shall not transgress?” Was not our slogan until now, as Nordhaus and Shellenberger note in Break Through, “We shall overcome!”?6

In the name of indisputable facts portraying a bleak future for the human race, green politics has succeeded in leaving citizens nothing but a gloomy asceticism, a terror of trespassing Nature, and a diffidence toward industry, innovation, technology, and science. No wonder that, while political ecology claims to embody the political power of the future, it is reduced everywhere to a tiny portion of electoral strap-hangers. Even in countries where political ecology is a little more powerful, it contributes only a supporting force.

Political ecology has remained marginal because it has not grasped either its own politics or its own ecology. It thinks it is speaking of Nature, System, a hierarchical totality, a world without man, an assured Science, but it is precisely these overly ordered pronouncements that marginalize it.

Set in contrast to the modernist narrative, this idea of political ecology could not possibly succeed. There is beauty and strength in the modernist story of emancipation. Its picture of the future is so attractive, especially when put against such a repellent past, that it makes one wish to run forward to break all the shackles of ancient existence.

To succeed, an ecological politics must manage to be at least as powerful as the modernizing story of emancipation without imagining that we are emancipating ourselves from Nature. What the emancipation narrative points to as proof of increasing human mastery over and freedom from Nature — agriculture, fossil energy, technology — can be redescribed as the increasing attachmentsbetween things and people at an ever-expanding scale. If the older narratives imagined humans either fell from Nature or freed themselves from it, the compositionist narrative describes our ever-increasing degree of intimacy with the new natures we are constantly creating. Only “out of Nature” may ecological politics start again and anew.

2.
The paradox of “the environment” is that it emerged in public parlance just when it was starting to disappear. During the heyday of modernism, no one seemed to care about “the environment” because there existed a huge unknown reserve on which to discharge all bad consequences of collective modernizing actions. The environment is what appeared when unwanted consequences came back to haunt the originators of such actions.

But if the originators are true modernists, they will see the return of “the environment” as incomprehensible since they believed they were finally free of it. The return of consequences, like global warming, is taken as a contradiction, or even as a monstrosity, which it is, of course, but only according to the modernist’s narrative of emancipation. In the compositionist’s narrative of attachments, unintended consequences are quite normal — indeed, the most expected things on earth!

Environmentalists, in the American sense of the word, never managed to extract themselves from the contradiction that the environment is precisely not “what lies beyond and should be left alone” — this was the contrary, the view of their worst enemies! The environment is exactly what should be even more managed, taken up, cared for, stewarded, in brief, integrated and internalized in the very fabric of the polity.

France, for its part, has never believed in the notion of a pristine Nature that has so confused the “defense of the environment” in other countries. What we call a “national park” is a rural ecosystem complete with post offices, well-tended roads, highly subsidized cows, and handsome villages.

Those who wish to protect natural ecosystems learn, to their stupefaction, that they have to work harder and harder — that is, to intervene even more, at always greater levels of detail, with ever more subtle care — to keep them “natural enough” for Nature-intoxicated tourists to remain happy.

Like France’s parks, all of Nature needs our constant care, our undivided attention, our costly instruments, our hundreds of thousands of scientists, our huge institutions, our careful funding. But though we have Nature, and we have nurture, we don’t know what it would mean for Nature itself to be nurtured.7

The word “environmentalism” thus designates this turning point in history when the unwanted consequences are suddenly considered to be such a monstrosity that the only logical step appears to be to abstain and repent: “We should not have committed so many crimes; now we should be good and limit ourselves.” Or at least this is what people felt and thought before the breakthrough, at the time when there was still an “environment.”

But what is the breakthrough itself then? If I am right, the breakthrough involves no longer seeing a contradiction between the spirit of emancipation and its catastrophic outcomes, but accepting it as the normal duty of continuing to care for unwanted consequences, even if this means going further and further down into the imbroglios. Environmentalists say: “From now on we should limit ourselves.” Postenvironmentalists exclaim: “From now on, we should stop flagellating ourselves and take up explicitly and seriously what we have been doing all along at an ever-increasing scale, namely, intervening, acting, wanting, caring.” For environmentalists, the return of unexpected consequences appears as a scandal (which it is for the modernist myth of mastery). For postenvironmentalists, the other, unintended consequences are part and parcel of any action.

3.
One way to seize upon the breakthrough from environmentalism to postenvironmentalism is to reshape the very definition of the “precautionary principle.” This strange moral, legal, epistemological monster has appeared in European and especially French politics after many scandals due to the misplaced belief by state authority in the certainties provided by Science.8

When action is supposed to be nothing but the logical consequence of reason and facts (which the French, of all people, still believe), it is quite normal to wait for the certainty of science before administrators and politicians spring to action. The problem begins when experts fail to agree on the reasons and facts that have been taken as the necessary premises of any action. Then the machinery of decision is stuck until experts come to an agreement. It was in such a situation that the great tainted blood catastrophe of the 1980s ensued: before agreement was produced, hundreds of patients were transfused with blood contaminated by the AIDS virus.9

The precautionary principle was introduced to break this odd connection between scientific certainty and political action, stating that even in the absence of certainty, decisions could be made. But of course, as soon as it was introduced, fierce debates began on its meaning. Is it an environmentalist notion that precludes action or a postenvironmentalist notion that finally follows action through to its consequences?

Not surprisingly, the enemies of the precautionary principle — which President Chirac enshrined in the French Constitution as if the French, having indulged so much in rationalism, had to be protected against it by the highest legal pronouncements — took it as proof that no action was possible any more. As good modernists, they claimed that if you had to take so many precautions in advance, to anticipate so many risks, to include the unexpected consequences even before they arrived, and worse, to be responsible for them, then it was a plea for impotence, despondency, and despair. The only way to innovate, they claimed, is to bounce forward, blissfully ignorant of the consequences or at least unconcerned by what lies outside your range of action. Their opponents largely agreed. Modernist environmentalists argued that the principle of precaution dictated no action, no new technology, no intervention unless it could be proven with certainty that no harm would result. Modernists we were, modernists we shall be!

But for its postenvironmental supporters (of which I am one) the principle of precaution, properly understood, is exactly the change ofzeitgeist needed: not a principle of abstention — as many have come to see it — but a change in the way any action is considered, a deep tidal change in the linkage modernism established between science and politics. From now on, thanks to this principle, unexpected consequences are attached to their initiators and have to be followed through all the way.

4.
The link between technology and theology hinges on the notion of mastery. Descartes exclaimed that we should be “maîtres et possesseurs de la nature.”10
But what does it mean to be a master? In the modernist narrative, mastery was supposed to require such total dominance by the master that he was emancipated entirely from any care and worry. This is the myth about mastery that was used to describe the technical, scientific, and economic dominion of Man over Nature.

But if you think about it according to the compositionist narrative, this myth is quite odd: where have we ever seen a master freed from any dependence on his dependents? The Christian God, at least, is not a master who is freed from dependents, but who, on the contrary, gets folded into, involved with, implicated with, and incarnated into His Creation. God is so attached and dependent upon His Creation that he is continually forced (convinced? willing?) to save it. Once again, the sin is not to wish to have dominion over Nature, but to believe that this dominion means emancipation and not attachment.

If God has not abandoned His Creation and has sent His Son to redeem it, why do you, a human, a creature, believe that you can invent, innovate, and proliferate — and then flee away in horror from what you have committed? Oh, you the hypocrite who confesses of one sin to hide a much graver, mortal one! Has God fled in horror after what humans made of His Creation? Then have at least the same forbearance that He has.

The dream of emancipation has not turned into a nightmare. It was simply too limited: it excluded nonhumans. It did not care about unexpected consequences; it was unable to follow through with its responsibilities; it entertained a wholly unrealistic notion of what science and technology had to offer; it relied on a rather impious definition of God, and a totally absurd notion of what creation, innovation, and mastery could provide.

Which God and which Creation should we be for, knowing that, contrary to Dr. Frankenstein, we cannot suddenly stop being involved and “go home?” Incarnated we are, incarnated we will be. In spite of a centuries-old misdirected metaphor, we should, without any blasphemy, reverse the Scripture and exclaim: “What good is it for a man to gain his soul yet forfeit the whole world?” /

1. Polidori, John, et al. 1819. The Vampyre: A Tale. Printed for Sherwood, Neely, and Jones.

2. Shelley, Mary W., 1823. Frankenstein: Or, The Modern Prometheus. Printed for G. and W.B. Whittaker.

3. Ibid.

4. This is also the theme of: Latour, Bruno. 1996. Aramis or the Love of Technology. Translated by Catherine Porter. Cambridge, Mass: Harvard University Press.

5. Beck, Ulrich. 1992. Risk Society: Towards a New Modernity. London: Sage.

6. Nordhaus, Ted, and Michael Shellenberger. 2007. Break Through: From the Death of Environmentalism to the Politics of Possibility. Boston: Houghton Mifflin Harcourt.

7. Descola, Philippe. 2005. Par dela nature et culture. Paris: Gallimard.

8. Sadeleer, Nicolas de, 2006. Implementing the Precautionary Principle: Approaches from Nordic Countries and the EU. Earthscan Publ. Ltd.

9. Hermitte, Marie-Angele. 1996. Le Sang Et Le Droit. Essai Sur La Transfusion Sanguine. Paris: Le Seuil.

10. Descartes, Rene. 1637. Discourse on Method in Discourse on Method and Related Writings. Translated by Desmond M. Clark. 1999. Part 6, 44. New York: Penguin.

Environment agency becomes crunch issue in Rio talks (Agence France-Presse)

By Richard Ingham (AFP) – 05.Feb.2012

PARIS — The UN Environment Programme (UNEP) is emerging as a hot issue in preparations for June’s Rio conference, styled as a once-in-a-generation chance to restore a sick planet to good health.

The US is fighting a proposal, backed according to France by least 100 countries, for transforming UNEP from a poorly noticed, second-string unit into a planetary super-agency.

Environmentalists have long complained that Nairobi-based UNEP, set up in 1972 as an office of the UN and with a membership of only 58 nations, lacks clout to deal with the globe’s worsening ills.

These range from climate change, water stress and over-fishing to species loss, deforestation and ozone-layer depletion.

But the environmental mess also coincides with the crisis of capitalism, which greens say is blind to the cost for Nature in its relentless quest for growth.

The fateful intertwining of these problems points to a unique chance of a solution at the June 20-22 “Rio+20” conference, they argue.

With possibly scores of leaders in attendance, the 20-year follow-up to the famous Earth Summit has the declared aim of making growth both greener and sustainable.

“The new capitalism which emerges from the crisis has to be environmental, or it won’t be new,” French Ecology Minister Nathalie Kosciusko-Morizet said on Tuesday.

The key vehicle would be UNEP, which according to the vaguely-worded French proposal would be changed into the World Environment Organisation.

It would become the UN’s 16th “specialised” agency alongside the World Health Organisation (WHO), Food and Agricultural Organisation (FAO) and so on.

To the outsider, this may sound at best like a bit of terminological tinkering — at worst, just another bureaucracy-breeding machine.

Experts, though, say status change could be surprisingly far-reaching.

Specialised UN agencies have high degrees of autonomy, enabling them to set agendas, frame international norms, stir up interest in dormant issues and sometimes poke their noses into areas of national sovereignty.

At its most ambitious, a World Environment Organisation would embrace not just the member-states which fund it but also business, green and social groups, becoming a very loud voice indeed.

It could intrude into sensitive areas such as trans-border use of water resources, fishery quotas and habitat use — and even monitor environmental standards for trade in goods and services.

According to Kosciusko-Morizet’s ministry, more than 30 European countries back the French proposal, along with 54 countries in Africa, plus Thailand, Malaysia, Nepal, Chile, Uruguay and others.

But in a US presidential election year where green issues — especially foreign ones — are easily trumped by domestic politics, Washington has set down a marker.

“We do not believe that international efforts on the environment and sustainable development would be improved by creating a new specialised agency on the environment,” a State Department official told AFP.

“We prefer to work towards a strengthened role for UNEP, as well as better coordination across the UN system in integrating environment into development, and in working towards sustainable development.”

Canada, like the US, says it prefers a smarter, better-connected UNEP.

Tensions over this are now emerging at preparatory talks on the “zero draft,” a document that will be finessed into June’s all-important summit communique.

“The Americans have come out guns blazing,” said Farooq Ullah, head of policy and advocacy at a London-based NGO called Stakeholder Forum.

“The risk, of course, is not necessarily that they would veto it (a super-UNEP) but that they would pull out their funding for it. A big part of UNEP’s funding comes from the Americans, so it would be a major blow,” he stressed.

Could the dispute rip Rio apart? Or could it doom it to dismal compromise, as many view the outcome of 2009 Copenhagen climate summit?

“The biggest risk with these things that have a lot of interest is that if you push too far too quickly and it becomes too contentious, it will just be negotiated out,” warned Ullah.

Lucien Chabason of a French thinktank, the Institute of Sustainable Development and International Relations (IDDRI), said the outcome did not have to be dramatic.

“One can imagine a mixture of the two ideas, in which Rio adopts a position in principle to beef up UNEP and launch a negotiation process,” he said.

Embuste ideológico (O Globo)

JC e-mail 4398, de 05 de Dezembro de 2011.

Artigo de Denis Lerrer Rosenfield publicado no jornal O Globo de hoje (5).

Nesta semana, irá finalmente a voto, pelo Plenário do Senado, o novo Código Florestal. O adiamento de última hora foi nada mais do que o fruto de uma manobra regimental do PSOL para postergar a votação, apostando em um atraso generalizado, envolvendo, também, a Câmara dos Deputados. O status quo tende a favorecer os grupos mais radicais, inconformados com o consenso, a negociação e o entendimento alcançados pelas duas Casas Legislativas, com o apoio e a participação do próprio governo.

A situação não deixa de ser inusitada, pois o entendimento é fruto de um consenso suprapartidário, onde desapareceram as clivagens partidárias, em nome da necessária modernização da legislação. As particularidades foram deixadas de lado em nome de um bem maior. Não se trata de opor agricultura/pecuária de um lado, e meio ambiente de outro. As próprias palavras são mal utilizadas, procurando obscurecer em vez de esclarecer um debate que se mostrou profícuo e extremamente importante para o futuro do País.

No entanto, há um ambientalismo radical que se recusa a qualquer composição e, mesmo, termina mostrando uma face autoritária. Poderíamos definir esse ambientalismo radical como um rescaldo de uma concepção rousseauísta, eivada de tinturas marxistas. Segundo tal concepção, a natureza seria uma espécie de reino idílico, que deveria servir de exemplo e, mesmo, de alternativa à moderna sociedade capitalista. Os “alimentos” seriam apenas “colhidos”. Haveria uma espécie de comunismo primitivo, onde não existiria propriedade privada, e os homens viveriam em harmonia entre si e a natureza.

Ainda segundo essa concepção, surge a ideia de indígenas e ribeirinhos que seriam os depositários da floresta que deveria ser mantida intacta, como se o Brasil já não tivesse, na Amazônia, mais de 80% de florestas nativas preservadas e, em todo o território nacional, 61%. Algum outro país ostenta esses índices?

O matiz marxista traduz-se também pela oposição mais feroz ao direito de propriedade e à segurança jurídica, como se estes devessem ser severamente restringidos ou, inclusive, em uma solução utópica, suprimidos.

Expressões ainda dessa postura se fazem presentes na contestação do agronegócio e, também, da política energética do atual governo, em especial a construção de hidrelétricas, tendo como símbolo mais eloquente toda a campanha contra a usina de Belo Monte. Afinal, a produção de energia hidrelétrica, ainda segundo essa concepção, nada mais seria do que perpetuação da moderna sociedade industrial e capitalista.

Evidentemente, nem é colocada a questão básica de como alimentar uma nação de milhões de habitantes e um planeta de bilhões, o que passa necessariamente pela produção de alimentos e pelo cultivo da terra em larga escala. Se as pessoas possuem energia em casa, isto não cai do céu. Nem os indígenas querem mais viver sem os confortos de uma vida moderna, que almejam como objetivo a ser atingido. Somente os ideólogos do ambientalismo radical defendem tal posição.

Neste sentido, convém distinguir entre desmatamento e cultivo da terra. O desmatamento com fins meramente predatórios, arbitrários, deve ser cuidadosamente diferenciado do cultivo da terra, da agricultura e da pecuária, mantendo, igualmente, uma postura de preservação ambiental. Hoje, por exemplo, na produção de florestas de eucaliptos, áreas expressivas são deixadas à reprodução de florestas nativas. Produção e conservação andam – e devem andar – de mãos juntas.

Os problemas de desmatamento da Amazônia, por sua vez, não são fruto da “avidez pelo lucro”, mas da falta pura e simples de Estado, que se traduz pela ausência de cartórios, de títulos confiáveis e legítimos de propriedade. Em uma terra de ninguém, proliferam a grilagem, a exploração predatória e a irresponsabilidade. Eis por que o processo de regularização fundiária em curso pode ser um poderoso instrumento de controle ambiental. Um produtor rural é responsável por sua propriedade e deve obrigatoriamente seguir a lei. Um grileiro, por sua vez, é meramente um predador, não sendo responsável por nada. Nem o Estado consegue responsabilizá-lo.

Ademais, não deixa de ser curioso que o MST, aliando-se aos ambientalistas radicais, por sua postura anticapitalista, seja, também, um dos maiores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia, como já tem sido sobejamente noticiado. Vale aqui somente a postura ideológica, o discurso contra a economia de mercado.

Da mesma maneira, ONGS internacionais estão, agora, alardeando em Durban, na África do Sul, que o novo Código Florestal já está, aliás, antes de sua sanção presidencial, criando novos desmatamentos. Nada mais longe da verdade. O novo Código dificulta novos desmatamentos, estabelecendo como linha de corte as áreas consolidadas em junho de 2008. Qualquer novo desmatamento que não seguir as regras em vigor deverá ser severamente punido. Fingir nada saber é uma forma de embuste ideológico.

Por último, o ambientalismo radical nutre uma aversão pela democracia. Estão simplesmente advogando que a presidente da República vete artigos importantes do novo Código Florestal. Com isto, transmitem a mensagem de que não aceitam um longo trabalho da Câmara dos Deputados, do Senado e do Palácio do Planalto, visando a um entendimento conjunto. A opinião pública participou ativamente desse debate. Todas as partes se expressaram publicamente.

Enquanto esses ambientalistas reinavam no Ministério do Meio Ambiente e, também, na opinião pública, acostumaram-se, por demais, a atos administrativos para “regular” o meio ambiente e tudo fizeram, igualmente, para impedir o progresso científico graças a suas ações na CTNBio. Recusam-se ao diálogo, pois estão firmemente imbuídos de uma missão quase religiosa, como se exigissem simplesmente ser acatados e obedecidos. A democracia passa por debates, convencimentos e processos legislativos. É isto que está sendo negado.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Parques eólicos valem uma Belo Monte (Valor Econômico)

JC e-mail 4397, de 02 de Dezembro de 2011.

Os investimentos em eólicas em todo o País vão somar R$ 30 bilhões até 2014 para que 280 parques sejam erguidos, com capacidade de gerar mais de 7,2 mil megawatts (MW) de energia – metade para consumo efetivo. São números comparáveis com os da hidrelétrica de Belo Monte, a usina que tem gerado críticas até de artistas globais.

O que não se pode comparar entre Belo Monte e eólicas é a ampla aceitação que os projetos de ventos ganharam entre ambientalistas, que acreditam ser uma das formas de geração de energia mais limpas do mundo. Nessa onda, tradicionais geradoras de energia hidrelétrica começaram a investir pesado nesse segmento para se tornarem “renováveis”.

Os dois casos mais marcantes neste ano foram da Renova, que ganhou um aporte de capital da Cemig, por meio da Light; e da CPFL Energia. Essa última investiu bilhões de reais em compra de ativos e também apostou em uma fusão com a Ersa, do banco Pátria, e criou a CPFL Renováveis. A empresa tem hoje em operação 210 MW de eólicas e constrói parques que vão somar 550 MW, a maior parte na cidade de Parazinho, ao norte de Natal, no Rio Grande do Norte.

Os ventos potiguares são tão promissores que até 2014 o Estado vai abrigar sozinho um terço de todos os investimentos do país para a construção de 83 parques com capacidade de gerar 2,3 mil MW. De acordo com o secretário de desenvolvimento do Estado, Benito Gama, para o próximo leilão de energia do governo federal, que acontece este mês, foram concedidas licenças ambientais para 62 novos parques na região. “A implantação das torres eólicas já gera em algumas cidades mais empregos que a própria prefeitura”, afirma o secretário estadual.

Em Parazinho, são ao todo 700 empregos diretos gerados pelas obras da CPFL. A empresa está colocando 98 torres nos parques Santa Clara e que tiveram a energia vendida no primeiro leilão do governo federal, em 2009. “Só para Santa Clara arrendamos 2,2 mil hectares de terras, de grandes fazendeiros”, conta o diretor de operações da CPFL Renováveis, João Martin.

As torres e aerogeradores da CPFL são fornecidos pela Wobben e fabricados dentro do próprio canteiro de obras da empresa. As torres são todas com acabamento de concreto, diferentemente daquelas que estão chegando à região de Caetité, na Bahia, para atender a Renova.

A GE é a principal fornecedora na Bahia. As torres são de aço e todas transportadas de Pernambuco até Caetité. A Renova, neste momento, está erguendo 180 torres na região, que vão gerar pouco menos de 300 MW. Mas o projeto total chegará a 1,1 mil MW, sendo que 400 MW são de energia que foi vendida para a Light. O vice-presidente de operações da Renova e um dos fundadores da empresa, Renato Amaral, diz que foi estratégico para a empresa fazer a parceria com a Light justamente para vender a energia no mercado livre. Os preços do mercado regulado caíram fortemente e a competição está cada vez mais dura, com cada vez mais grupos estrangeiros chegando ao Brasil. A eólica que no Proinfa, a preços sem correção de cinco anos atrás, foi vendida a mais de R$ 200 o MW, chegou a R$ 100 no último leilão, que aconteceu em meados deste ano.