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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

FAO reafirma o impacto devastador da produção de carne para o clima (Terra)

Em 03/10/2013

Amália Safatle

Não, nem todo ambientalista é vegetariano. Mas que reduzir o consumo de carne ajuda – e muito – isso é inegável. Diante das graves constatações divulgadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês),  uma das maneiras mais à mão – ou da mão à boca –  para contribuir com a redução de emissões é mexer nas formas de produzir e consumir alimentos, especialmente os de origem animal. Focalizando mais: sobretudo os de origem bovina.

O novo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), intitulado Tackling Climate Change Through Livestock, ou Combatendo as Mudanças Climáticas por Meio da Pecuária, é contundente em reafirmar o efeito devastador da criação de dezenas de bilhões de animais. As palavras são da Human Society Internacional (HSI), organização voltada à proteção animal, que pegou uma carona no relatório da FAO para defender não somente a redução no consumo, mas o tratamento mais ético e digno na produção animal – causa das mais nobres.

No estudo, a FAO expõe que somente a criação de animais responde por 14,5% dos gases de efeito estufa gerados por atividades humanas (acesse em http://www.fao.org/docrep/018/i3437e/i3437e.pdf). De acordo com um estudo de 2012, a pegada hídrica dos produtos de origem animal é seis vezes maior para a carne bovina, e uma vez e meia maior para carne de frango, ovos e laticínios, comparada à pegada dos legumes.

Além disso, a  expansão de pastos para animais de produção é uma das principais causas do desmatamento, especialmente no Brasil. Em todo o mundo, segundo a HSI, utilizamos mais terras para alimentar animais de produção do que para qualquer outro fim. Mais de 97% do farelo de soja e 60% da produção global de cevada e milho são usadas para alimentar animais de produção.

O impacto é tamanho que uma família americana de renda média que deixe de consumir carne vermelha e laticínios e os substitua por produtos de origem vegetal apenas um dia por semana terá, ao final de um ano, reduzido suas emissões anuais gases-estufa em volume equivalente ao emitido ao dirigir 1.600 quilômetros.

A partir de cálculos como esse surgiu a campanha Segunda Sem Carne, que propõe às pessoas evitar carne vermelha ao menos uma vez por semana.

É uma tentativa de refrear o aumento da demanda: de 1980 e 2005, o consumo deper capita de carnes no Brasil praticamente dobrou, alcançando níveis similares ao de países desenvolvidos, segundo a FAO. O consumo de laticínios e ovos também cresceu significativamente, em 40% e 20%, respectivamente.

Mas reduzir consumo não é a única alternativa. Para os carnívoros inveterados, o novo relatório da FAO mostra como a produção de carnes pode diminuir seus impactos e emissões se adotar novas tecnologias, técnicas mais avançadas de manejo e elevar a produtividade. Mais que isso, apresenta propostas para formuladores de políticas públicas.

O relatório ainda aponta que programas com objetivo de reduzir as emissões do setor devem também levar em consideração o bem-estar animal. Além de se submeter a regras mais rígidas para um tratamento humanitário dos animais no lado da oferta, na ponta da demanda o consumidor pode dar preferência a produtos que tenham padrões de bem-estar animal mais elevados.

“No Brasil, cerca de 90% da produção de ovos é proveniente do sistema de gaiolas em bateria convencional, tão intensivo que os animais praticamente não podem se mover. Na indústria suína, a maioria das porcas reprodutoras passam praticamente suas vidas inteiras em celas de gestação, que têm praticamente o mesmo tamanho do corpo dos animais e não permitem que as porcas sequer se virem dentro delas ou deem mais do que um passo para frente ou para trás”, informa a HSI.

Segundo a organização, o confinamento de poedeiras nas gaiolas em bateria convencional e o confinamento contínuo de porcas reprodutoras em celas de gestação já foram proibidos em toda a União Europeia e em vários estados dos EUA. Líderes de mercado como McDonald’s, Burger King, Wendy’s e Costco anunciaram que eliminarão o uso de celas de gestação em suas cadeias de fornecimento nos EUA.

Resta saber por que essas redes têm políticas diferenciadas nos países em que atuam, em vez de enfrentar o assunto de forma global, partindo do simples respeito à vida, seja ela qual for.

Native Tribes’ Traditional Knowledge Can Help US Adapt to Climate Change (Science Daily)

Oct. 3, 2013 — New England’s Native tribes, whose sustainable ways of farming, forestry, hunting and land and water management were devastated by European colonists four centuries ago, can help modern America adapt to climate change.

That’s the conclusion of more than 50 researchers at Dartmouth and elsewhere in a special issue of the journal Climatic Change. It is the first time a peer-reviewed journal has focused exclusively on climate change’s impacts on U.S. tribes and how they are responding to the changing environments. Dartmouth also will host an Indigenous Peoples Climate Change Working Group meeting Nov. 4- 5.

The special issue, which includes 13 articles, concludes that tribes’ traditional ecological knowledge can play a key role in developing scientific solutions to adapt to the impacts. “The partnerships between tribal peoples and their non-tribal research allies give us a model for responsible and respectful international collaboration,” the authors say.

Dartmouth assistant professors Nicholas Reo and Angela Parker, whose article is titled “Re-thinking colonialism to prepare for the impacts of rapid environmental change,” said New England settlers created a cascade of environmental and human changes that spread across North America, including human diseases, invasive species, deforestation and overharvest.

The researchers identified social and ecological tipping points and feedback loops that amplify and mitigate environmental change. For example, prior to the arrival of Europeans, old growth deciduous forests were rich with animal and plant resources and covered more than 80 percent of New England. Native peoples helped to sustain this bountiful biodiversity for centuries through their land practices.

“But when indigenous communities were decimated by disease and eventually alienated from their known environments, land tenure innovations based on deep, local ecological knowledge, disappeared,” the researchers say. “Colonists, and their extractive systems aimed at key animal and plant species, became the new shapers of cultural landscapes. Rapid ecological degradation subsequently ensued, and New Englanders created a difficult project of stewarding a far less resilient landscape without help from indigenous land managers who would have known best how to enact ecological restoration measures.”

Today’s tribal members who work with natural resources, such as fisherman, farmers and land managers, can play key roles in devising local and regional strategies to adapt to climate change, the researchers say.

Journal Reference:

  1. Nicholas James Reo, Angela K. Parker. Re-thinking colonialism to prepare for the impacts of rapid environmental changeClimatic Change, 2013; DOI:10.1007/s10584-013-0783-7

Antropólogos x ruralistas

JC e-mail 4826, de 03 de Outubro de 2013.

A Constituição em perigo

Ruralistas tentam tornar legais as transgressões da lei. Primeiro foi o Código Florestal. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas

Artigo de Manuela Carneiro da Cunha* publicado na Folha. Há 25 anos, em 1988, uma nova Constituição afirmou que o país queria novos rumos

O capítulo dos direitos dos índios na Constituição de 1988 foi emblemático dessa postura. Não tanto pelo reconhecimento do direito dos índios à terra, que já figurava em todas as Constituições do século 20. Mais significativo foi o abandono da ideia –esta do século 19– de que a missão da chamada civilização consistia em fazer os índios deixarem de ser índios. Em vez disso, pela primeira vez, celebrou-se a diversidade como um valor a ser preservado.

Em 1988, as expectativas de mineração e construção de hidrelétricas em áreas indígenas já eram contrárias à afirmação dos direitos dos índios. No entanto, a Confederação Nacional dos Geólogos se opôs aos interesses das mineradoras e entendeu que as terras indígenas constituíam uma reserva mineral. Ou seja, elas deveriam ser as últimas a serem consideradas para mineração, quando o minério fosse de interesse estratégico indiscutível e não houvesse alternativa no território nacional.

Na Constituinte, chegou-se finalmente a um acordo: exceções às garantias de usufruto exclusivo dos índios sobre suas terras, somente em caso de relevante interesse da União. Foi o parágrafo 6º do artigo 231 da CF. O entendimento era de que cada caso seria debatido e sua excepcionalidade comprovada.

Agora, 25 anos mais tarde, as exceções pretendem se tornar a regra. Como? Definindo –a pretexto de regulamentar o tal parágrafo– o “relevante interesse da União” de uma forma tão genérica e tão ampla que tudo caiba nela. Pasme: passa a ser de “relevante interesse nacional” qualquer mineração e hidrelétrica, é claro, além de estradas, oleodutos, gasodutos, aeroportos, portos fluviais e até assentamentos agrários. E no final, a pérola que trai a origem da manobra: podem ser “de relevante interesse da União” até terras indígenas intrusadas, com títulos contestáveis.

Esse é o teor de um projeto de lei complementar na Câmara, de origem ruralista, o PLP 227/2012. Outro projeto, de redação mais sutil, mas com efeitos até piores, foi apresentado recentemente pelo senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, e, sem sequer ainda ter número, deve ter rápida tramitação. Deve-se reconhecer a esperteza da manobra, que pretende acabar de uma vez com todas as restrições.

O que está acontecendo? A bancada ruralista, aliada à bancada da mineração, está tomando conta do nosso Congresso. Por outro lado, desde 1988, as terras públicas remanescentes foram sendo destinadas para se garantir o que interessa ao Brasil como um todo, por exemplo a conservação ambiental.

A investida dos ruralistas, agora em posição de força no Congresso –e, portanto, no governo também– é no sentido de tornar legais todas as transgressões da lei que já eram praticadas. Primeiro foi o Código Florestal, desfigurado há dois anos, que anistiou os desmatamentos irregulares. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas.

Na tentativa de influenciar a opinião pública, os ruralistas usam como fachada os pequenos agricultores. A situação hoje é a seguinte: a definição de áreas de conservação ambiental e a demarcação de terras indígenas e de quilombolas estão paradas. Multiplicaram-se os projetos de lei e de emendas constitucionais que lhes são hostis.

Um exemplo gritante é a proposta de emenda constitucional (PEC) 215, que quer tirar do Executivo e passar para o Congresso a demarcação das terras indígenas, o que, na prática, significa o fim das demarcações.

Por toda esta semana, índios e não índios protestam contra o desmantelamento do capítulo “Dos Índios” na Constituição Federal. Mas esse não é só um ataque aos índios. É todo o nosso projeto de futuro que está em jogo.

*Manuela Carneiro da Cunha é antropóloga, é membro da Academia Brasileira de Ciências e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo e da Universidade de Chicago

(Folha de S.Paulo)

 

É hora de defender o Brasil

Artigo de Luis Carlos Heinze* publicado na Folha. Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais e sem isenção e laudos tendenciosos prevalecem na farsa indigenista

O princípio da legalidade no Brasil é o de que a administração nada pode fazer senão o que a lei determina –e essa é justamente uma das principais garantias do cidadão.

Esse preceito, porém, não é observado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que, de forma arbitrária e ideológica, desrespeita até a Constituição. Impedir que seus atos sejam analisados por outros órgãos, como faz com o apoio do Ministério Público, é ainda uma afronta ao sistema democrático.

Com insistência, a Funai identifica pretensas terras indígenas por meio de procedimentos administrativos de natureza inquisitória. O resultado é a insegurança jurídica.

O direito ao contraditório e à defesa foram extintos. A perda da propriedade é a pena imposta a legítimos detentores de terras de forma afrontosa à cláusula pétrea do dispositivo constitucional.

Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais, sem a necessária isenção, e laudos tendenciosos e fraudulentos prevalecem na farsa indigenista. A evidência é tanta que a Procuradoria-Geral da República firmou acordo com a Associação Brasileira de Antropólogos, e a Funai contrata apenas os profissionais sugeridos para desenvolver seus estudos, que são, claro, favoráveis aos indígenas.

Apoiada por interesses de ONGs, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e por setores do Ministério Público, a Funai se porta como um poder judiciário paralelo –ela mesma denuncia, julga e condena.

Com tantas irregularidades, apropriação de poderes e interpretações equivocadas, defendemos a aprovação da PEC 215 para esclarecer o que a Carta Magna estipula: é o Congresso Nacional que disciplina os bens da União. E o que são terras indígenas? Bens da União. Resta óbvio que os limites desses territórios são de competência do Legislativo. A PEC só faz reafirmar esse poder.

Também discutimos a regulamentação do artigo 231 da lei suprema para impor um marco temporal às demarcações, por meio do projeto de lei complementar (PLP) 227/12. Que mais uma vez é redundante: a Carta de 88 é claríssima ao expor que “a União concluirá as demarcações das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Constitucionalmente, esse é o prazo legal para as delimitações e deve ser respeitado rigorosamente. Hoje, 25 anos após a promulgação, existem mais de 500 processos em andamento e, a cada dia, surge um novo.

Segundo a Funai, no Brasil, há 110 milhões de hectares reconhecidos como terras indígenas –13% do território brasileiro– para atender uma população que não ultrapassa 900 mil índios –0,4% da população. Não bastasse, a Funai ainda quer mais 40 milhões de hectares –e não haverá limites, se não barrarmos o abuso.

Mais estranho ainda é o apoio do Ministério Público à Funai, ao desmerecer seu papel institucional de guardião da Constituição. É chegada a hora de defendermos o Brasil. Nós, deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, vamos impor esse respeito, para o bem do país e de seus cidadãos.

LUIS CARLOS HEINZE* é engenheiro agrônomo, deputado federal (PP-RS) e líder da Frente Parlamentar da Agropecuária

(Folha de S.Paulo)

Insetos conseguem prever tempestades e ventanias (Fapesp)

Animais mudam o comportamento sexual quando há queda da pressão atmosférica, fenômeno comum antes de chuvas e ventos fortes, indica pesquisa feita na Esalq (foto: José Maurício Simões Bento/Esalq)

03/10/2013

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Na Índia e no Japão há um ditado popular que diz que “formigas carregando ovos barranco acima, é a chuva que se aproxima”. Já no Brasil, outro provérbio afirma que “quando aumenta a umidade do ar, cupins e formigas saem de suas tocas para acasalar”.

Um estudo publicado na edição do dia 2 de outubro da revistaPLoS One – realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), de Piracicaba (SP), em parceria com colegas da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), de Guarapuava (PR), e da University of Western Ontario, do Canadá – comprovou que os insetos preveem mudanças climáticas e dão indicações disso com modificações no comportamento.

Os pesquisadores observaram que besouros da espécie Diabrotica speciosa – conhecido popularmente como “brasileirinho” ou “patriota”, por terem cor verde e pintas amarelas –, além de pulgões-da-batata (Macrosiphum euphorbiae) e lagartas da pastagem (Pseudaletia unipuncta), têm capacidade de detectar queda na pressão atmosférica – que, na maioria dos casos, é um sinal de chuva iminente. E, ao perceberem isso, modificam o comportamento sexual, diminuindo a disposição de cortejar e acasalar.

“Demonstramos que os insetos, de fato, têm capacidade de detectar mudanças no tempo por meio da queda da pressão atmosférica, de se antecipar e buscar abrigo para se proteger das más condições climáticas, como temporais e ventanias, por exemplo”, disse José Maurício Simões Bento, professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.

“Certamente esses animais estão mais preparados para enfrentar as mudanças repentinas no tempo que, provavelmente, ocorrerão com maior frequência e intensidade no mundo nos próximos anos em razão das mudanças climáticas globais”, avaliou Bento, um dos pesquisadores principais do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Semioquímicos na Agricultura – um dos INCTs financiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para realizar o estudo, os pesquisadores selecionaram três diferentes espécies de insetos – o besouro “brasileirinho”, o pulgão-da-batata e a lagarta da pastagem –, que pertencem a ordens bem distintas e que variam significativamente em termos de massa corpórea e morfologia.

O besouro “brasileirinho” tem estrutura mais robusta e possui cutícula dura e, por isso, é mais resistente a condições de tempo severas, como chuvas fortes e ventanias. Já o pulgão-da-batata tem estrutura mais frágil e é menos resistente a eventos climáticos extremos.

Como já existiam evidências de que os insetos ajustam seus comportamentos associados com o voo e com a alimentação às mudanças na velocidade dos ventos, os pesquisadores decidiram avaliar o efeito das condições atmosféricas especificamente sobre o comportamento de “namoro” e acasalamento dessas três espécies quando sujeitas a mudanças naturais ou manipuladas experimentalmente da pressão atmosférica.

Os experimentos em condições naturais (sem a manipulação da pressão) e sob condições controladas, em laboratório, revelaram que, ao detectar uma queda brusca na pressão atmosférica, por exemplo, as fêmeas diminuem ou simplesmente deixam de manifestar um comportamento conhecido como “chamamento”, no qual liberam feromônio para atrair machos para o acasalamento.

Os machos, por sua vez, passam a apresentar menor interesse sexual, não respondem aos estímulos das fêmeas e procuram abrigos para se proteger da mudança de tempo capaz de ocorrer nas próximas horas. Passado o mau tempo, os insetos retomam as atividades de cortejo, namoro e acasalamento.

“Esse comportamento de perda momentânea do interesse no acasalamento horas antes de uma tempestade representa uma capacidade adaptativa que, ao mesmo tempo, reduz a probabilidade de lesões e mortes desses animais – uma vez que são organismos diminutos e muito vulneráveis a condições climáticas adversas, como temporais, chuvas pesadas e ventanias – e assegura a reprodução e a perpetuação das espécies”, afirmou Bento.

 Experimentos

Os experimentos em condições naturais foram realizados na Esalq e no INCT de Semioquímicos na Agricultura, ambos em Piracicaba. Os pesquisadores utilizaram um olfatômetro com estrutura em Y, colocando uma fêmea em uma das duas extremidades menores e, na outra, um controle (que fica vago). Posteriormente, uma corrente de ar foi passada no interior do sistema, de forma que o feromônio fosse levado para a extremidade principal, onde o macho estava colocado.

Dependendo da direção seguida pelo  macho quando a corrente de ar com feromônio era liberada – a extremidade onde estava a fêmea ou a outra, do controle –, era possível avaliar se ele estava sendo atraído ou não pelo feromônio emitido pela fêmea.

Nos experimentos com o besouro “brasileirinho”, os pesquisadores constataram que, sob condições de pressão atmosférica estável ou crescente, o inseto caminhava normalmente em direção ao tubo por onde a corrente de ar com o feromônio da fêmea estava sendo liberado. Já na condição de queda de pressão, o inseto apresentava menor movimentação e interesse em seguir em direção à fêmea.

O grupo também observou que, quando mantido em contato direto com as fêmeas em condição de queda da pressão atmosférica, os machos também não empenharam esforço para acasalar. Tal comportamento, de acordo com Bento, pode ser explicado pela sensação de risco de vida do inseto.

“É como se, diante de uma situação de perigo iminente, esses animais colocassem a questão da sobrevivência em primeiro lugar – porque é o que garante a perpetuação da espécie – e deixassem o acasalamento para um segundo plano, por ser uma atividade que pode ser retomada após a passagem do mau tempo”, avaliou.

Os pesquisadores também avaliaram o número de vezes que o pulgão-da-batata e a lagarta da pastagem atenderam ao “chamamento” das respectivas fêmeas, sob diferentes condições atmosféricas. Os resultados foram semelhantes aos obtidos com o besouro “brasileirinho”.

O comportamento dos insetos estudados foi afetado significativamente por mudanças na pressão do ar, obtida pelos pesquisadores por meio de dados fornecidos de hora em hora pelo site do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Ao perceber que os dados fornecidos pela instituição indicavam uma queda ou aumento brusco da pressão atmosférica da região de Piracicaba, os pesquisadores davam início aos experimentos para verificar se os insetos apresentavam mudanças no comportamento de chamamento e de cópula e faziam as comparações com as condições de pressão estável.

“Conseguimos verificar, dessa forma, que o comportamento sexual dos insetos varia em função do efeito da pressão atmosférica, uma vez que todas as outras condições – como a temperatura, umidade e a luz – foram controladas nos experimentos”, afirmou Bento.

Após constatar essa mudança de comportamento sexual dos insetos em condições naturais, o grupo da Esalq fez uma parceria com colegas canadenses do Departamento de Biologia da University of Western Ontario para realizar novos ensaios comportamentais em laboratório, mais precisamente em uma câmara barométrica de grandes dimensões, que permite controlar a pressão atmosférica, além da temperatura, umidade e luz.

Segundo Bento, os testes conduzidos sob controle de pressão comprovaram as observações feitas em condições naturais.

Fênomeno extensivo

De acordo com o pesquisador, o fato de as três espécies de insetos analisadas no estudo terem modificado o comportamento sexual em resposta às alterações na pressão do ar sugere que o fenômeno pode ser extensivo, de maneira geral, às demais espécies de insetos, e que esses animais são adaptados para enfrentar as más condições meteorológicas.

“Já havia outros trabalhos científicos sugerindo mudanças de comportamento de animais em função das mudanças no tempo, mas foram realizados com uma única espécie, especificamente, e não poderiam ser generalizados para as demais espécies do grupo”, disse Bento.

“Nosso estudo demonstrou que, no caso dos insetos, esse fenômeno parece ser extensivo às outras espécies”, afirmou.

O grupo de pesquisadores da Esalq investiga agora os mecanismos que os insetos utilizam para detectar mudanças na pressão atmosférica e desenvolver o comportamento adaptativo de interromper o acasalamento ao pressentir mudanças no tempo.

O artigo Weather forecasting by insects: modified sexual behaviour in response to atmospheric pressure changes (doi: 10.1371/journal.pone.0075004), de Bento e outros, pode ser lido na PLoS One em http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0075004.

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Insects Modify Mating Behavior in Anticipation of Storms(Science Daily)

Oct. 2, 2013 — Insects modify calling and courting mating behavior in response to changes in air pressure, according to results published October 2 in the open-access journal PLOS ONE by Ana Cristina Pellegrino and José Maurício Bento, University of São Paulo, and colleagues from other institutions. The bugs’ ability to predict adverse weather conditions may help them modify their mating behavior during high winds and rain, reducing risk of injury or even death.

Researchers studied mating behavior changes in the curcurbit beetle, the true armyworm moth, and the potato aphid under falling, stable, and increasing air pressure conditions. When researchers measured the male beetles’ response to female sex pheromones under the different conditions, they found a significant decrease in pheromone response when air pressure fell compared to stable or increasing pressure. Furthermore, 63% of males started copulating faster in the presence of females during dropping atmospheric pressure, a condition associated with high rains and winds. By contrast, under stable or rising air pressure conditions, all males showed full courtship behavior.

Additionally, the amount that female armyworm moths and potato aphids showed mate-attracting behavior was also measured under the three atmospheric conditions. The female armyworms’ calling was reduced during decreasing air pressure, but the potato aphid showed reduced calling during both decreasing and increasing air pressure, two conditions that can occur with high winds. In both cases, reduced calling went hand-in-hand with reduced mating behavior. Bento explains, “The results presented show that three very different insect species all modify aspects of their sexual behaviour in response to changing barometric pressure. However, there is a great deal of interspecific variability in their responses that can be related to differences in size, flight ability and the diel periodicity of mating.”

Journal Reference:

  1. Ana Cristina Pellegrino, Maria Fernanda Gomes Villalba Peñaflor, Cristiane Nardi, Wayne Bezner-Kerr, Christopher G. Guglielmo, José Maurício Simões Bento, Jeremy N. McNeil.Weather Forecasting by Insects: Modified Sexual Behaviour in Response to Atmospheric Pressure ChangesPLoS ONE, 2013; 8 (10): e75004 DOI:10.1371/journal.pone.0075004

Quando os jornalistas falam sobre ciência (Fapesp)

Martin Bauer foi um dos palestrantes do painel da FAPESP Week London sobre cultura científica (foto: LSE)

02/10/2013

Por Fernando Cunha, de Londres

Agência FAPESP – O retrato que os jornalistas fazem da ciência, a tensão quando repórteres tentam relatar ao público o que faz a ciência e a maneira como a ciência aparece na ficção – algumas vezes de forma estereotipada – foram algumas das questões discutidas no painel sobre cultura científica, apresentado na sexta-feira (27/09), último dia de atividades da FAPESP Week London 2013.

Martin Bauer, da London School of Economics, falou sobre um projeto de pesquisa coordenado por ele que criará indicadores para verificar o nível de mobilização do mundo científico para divulgar ciência. Temas controversos como transgenia e mudanças climáticas, que provocam mobilização política, sempre vêm acompanhados de um momento educativo, segundo o pesquisador.

O projeto propõe a construção, até o fim de 2015, de um sistema de indicadores a partir de parâmetros como: a atenção do público à informação científica, as aspirações de leitores em termos de bem-estar, a percepção da contribuição da ciência para a cultura do público e a distância relativa entre o sujeito que recebe a informação científica e a própria ciência.

“Estamos interessados na análise dos conteúdos para entender a eficácia da linguagem utilizada e, particularmente, no conceito de autoridade da ciência para transmitir conteúdos de pesquisa para o público”, disse Bauer.

Os indicadores previstos estão agrupados em três tipos: percepção pública da ciência; presença, em termos quantitativos, da ciência na imprensa e na produção cultural da mídia – incluindo as diferentes editorias em jornais e a programação de rádio e TV, incluindo telenovelas; e assuntos científicos tratados.

A pesquisa e coleta de dados serão feitas principalmente em países da Europa e na Índia, e incluirá também o Brasil, em uma colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Interesse público

Marcelo Leite, repórter do jornal Folha de S. Paulo, tratou do jornalismo de ciência e da percepção pública da ciência no Brasil a partir de uma análise de matérias publicadas sobre as mudanças climáticas globais.

“Estou convencido de que o jornalismo de ciência pode funcionar como um modelo que todas as formas de jornalismo poderiam e deveriam seguir, porque vai além de opiniões, crenças e ideologias para chegar ao mais perto que podemos esperar da verdade”, disse Leite. “O jornalismo de ciência instrui leitores sobre o processo de pesquisa científica, tentando desfazer a percepção equivocada de que os cientistas são detentores da verdade eterna”, disse.

Para o jornalista, a presença do tema das mudanças climáticas nos veículos de comunicação e, em especial, a divulgação na imprensa do conteúdo do quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), no fim de setembro, oferecem interessante oportunidade de análise da cobertura e da percepção dos conteúdos.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil, concluída em 2010, mostrou que o índice de atenção do público brasileiro em ciência tem aumentado, atingindo 65% dos cidadãos consultados.

“Sobre o tema ambiente, o interesse subiu de 58%, em 2006, para 82% em 2010, provavelmente por questões relacionadas com a Amazônia e mudanças climáticas, que parecem atrair a maioria das pessoas”, disse.

Em relação à cobertura jornalística de temas relacionados ao clima, a pesquisa concluiu que há uma concentração de textos na área política – com foco em negociações e na mitigação das consequências das emissões de gases de efeito estufa (50% das matérias) – e no desmatamento da floresta (23%).

O painel teve também a participação de Philip Macnaghten, da Universidade de Durham e professor visitante na Unicamp, que tratou dos cenários da pesquisa e inovação responsável no Brasil, e de Maria Immacolata Vassalo de Lopes, professora na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), que falou sobre a experiência de criação de uma rede ibero-americana para o estudo da ficção na televisão, o Obitel, formada em 2005 na Colômbia, com a participação de pesquisadores de 12 países, incluindo do Brasil.

O projeto teve apoio da FAPESP, da USP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Globo Universidade (TV Globo) e do Ibope.

Realizada pela FAPESP na capital britânica entre 25 e 27 de setembro, com apoio da Royal Society e do British Council, a FAPESP Week London promoveu a discussão de temas avançados de pesquisa para ampliar oportunidades de colaboração entre cientistas brasileiros e europeus nos campos da Biodiversidade, Mudanças Climáticas, Ciências da Saúde, Bioenergia, Nanotecnologia e Comunicação.

Vikings May Have Been More Social Than Savage (Science Daily)

Oct. 1, 2013 — Academics at Coventry University have uncovered complex social networks within age-old Icelandic sagas, which challenge the stereotypical image of Vikings as unworldly, violent savages.

Replica of Viking ship. Academics have uncovered complex social networks within age-old Icelandic sagas, which challenge the stereotypical image of Vikings as unworldly, violent savages. (Credit: © pemabild / Fotolia)

Pádraig Mac Carron and Ralph Kenna from the University’s Applied Mathematics Research Centre have carried out a detailed analysis of the relationships described in ancient Icelandic manuscripts to shed new light on Viking society.

In a study published in the European Physical Journal, Mac Carron and Kenna have asked whether remnants of reality could lurk within the pages of the documents in which Viking sagas were preserved.

They applied methods from statistical physics to social networks — in which nodes (connection points) represent individuals and links represent interactions between them — to home in on the relationships between the characters and societies depicted therein.

The academics used the Sagas of Icelanders — a unique corpus of medieval literature from the period around the settlement of Iceland a thousand years ago — as the basis for their investigation.

Although the historicity of these tales is often questioned, some believe they may contain fictionalised distortions of real societies, and Mac Carron’s and Kenna’s research bolsters this hypothesis.

They mapped out the interactions between over 1,500 characters that appear in 18 sagas including five particularly famous epic tales. Their analyses show, for example, that although an ‘outlaw tale’ has similar properties to other European heroic epics, and the ‘family sagas’ of Icelandic literature are quite distinct, the overall network of saga society is consistent with real social networks.

Moreover, although it is acknowledged that J. R. R. Tolkien was strongly influenced by Nordic literature, the Viking sagas have a different network structure to the Lord of the Rings and other works of fiction.

Professor Ralph Kenna from Coventry University’s Applied Mathematics Research Centre said: “This quantitative investigation is very different to traditional approaches to comparative studies of ancient texts, which focus on qualitative aspects. Rather than individuals and events, the new approach looks at interactions and reveals new insights — that the Icelandic sagas have similar properties to those of real-world social networks.

Journal Reference:

  1. P. Mac Carron, R. Kenna. Network analysis of the Íslendinga sögur – the Sagas of IcelandersThe European Physical Journal B, 2013; 86 (10) DOI:10.1140/epjb/e2013-40583-3

Demissões no Inpe comprometem a previsão do tempo, afirma sindicato (Portal G1, via Agência Ambiente Brasil)

JC e-mail 4825, de 02 de Outubro de 2013.

Se os contratos de 71 funcionários forem suspensos, o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos vai perder mais de um terço da mão de obra

A 10 dias para o fim do prazo determinado pela Justiça para a demissão de servidores contratados irregularmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o governo federal ainda não definiu a liberação de vagas para abertura de um concurso público. Se os contratos de 71 funcionários forem suspensos a partir de 11 de outubro, o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), em Cachoeira Paulista (SP), vai perder mais de um terço da mão de obra – o centro é o mais avançado em previsão numérica de tempo e clima da América Latina.

O Sindicato dos Servidores Públicos Federais da área de Ciência e Tecnologia no setor Aerospacial (SindCT) cobra agilidade da direção do Inpe e dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Planejamento na solução do problema com o objetivo de tentar suspender temporariamente a decisão judicial. De acordo com a entidade, a previsão do tempo poderá ser comprometida. A direção do Inpe nega que isso vá ocorrer e aguarda a decisão do recurso protolado no Tribunal Regional Federal (TRF-SP) em que pede prolongamento do prazo para solucionar o problema dos contratos irregulares.

O Inpe foi notificado da nulidade dos contratos em 27 agosto e, na ocasião, a sentença definiu prazo de 45 dias para promover as demissões – o prazo termina no próximo dia 10. A ação do Ministério Público Federal (MPF) contesta 111 contratações feitas em caráter emergencial em 2010. Mas segundo Leonel Perondi, diretor do Inpe, um concurso realizado em 2012 possibilitou a substituição dos temporários e, atualmente, a situação se mantém irregular para um grupo de 71 servidores, entre os quais 52 que atuam na previsão do tempo. Outros nove profissionais trabalham no Laboratório de Combustão e Propulsão, onde testes de combustíveis para satélites são realizados. O Cptec tem atualmente um total de 146 servidores.

A maioria dos profissionais que serão desligados são meteorologistas, engenheiros analistas de sistemas e técnicos de computação. Parte dos funcionários que devem ter os contratos suspensos atuam na operação do Tupã, o supercomputador que custou R$ 50 milhões e ampliou a precisão das previsões de fenômenos climáticos extremos, como grandes temporais. O computador é o único no país, segundo o Inpe e, além do Cptec, também fornece informações ao Instituto Nacional Meteorologia (Inmet).

Os contratos dos servidores temporários, caso não houvesse intervenção judicial, terminaria entre os anos de 2014 e 2015. Segundo o instituto, nenhum servidor foi demitido até o momento.

Ameaça de paralisação – O Sindicato dos Servidores Públicos Federais da área de Ciência e Tecnologia no setor Aerospacial (SindCT) cobra agilidade. “Já se passou metade do prazo judicial para que as demissões aconteçam e as vagas não foram liberadas. Essa seria a única possibilidade de tentar suspender a decisão judicial. A previsão do tempo será comprometida, não temos efetivo para operar o Tupã e isso trará consequências a todo país, sobretudo na agricultura”, disse Fernando Morais, vice-presidente do SindCT.

A entidade informou que planeja fazer uma paralisação na próxima sexta-feira (4), envolvendo os 71 demissíveis na tentativa de sensibilizar o governo federal. “Não é possível esperar mais. Estive em Brasília para falar com as autoridades para tentar intervir no problema, mas é preciso que, se liberadas as vagas, esse edital seja lançado no dia seguinte”, afirmou Morais ao G1.

Segundo o presidente do Inpe, dois avisos ministeriais solicitando a abertura de concursos ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão foram enviados pelo instituto desde novembro do ano passado, mas nenhuma resposta foi obtida. O diretor do Inpe vai a Brasília nesta terça (1º) tentar negociar a liberação das vagas.

Prejuízo – Os dados e informações fornecidos pelo supercomputador Tupã geram previsões meteorológicas diárias e a longo prazo do tempo. As informações são usadas na agricultura, pelas prefeituras e Defesa Civil que recebem alertas de desastres naturais por meio do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemadem) e também pela aviação civil.

O supercomputador não pode ser desligado. “Essa máquina não foi feita para ser desligada, por isso está atrelada a geradores. O desligamento pode resultar em até 3 meses de serviço, envolvendo técnicos especializados, na tentativa de recuperá-lo. Isso vai envolver custos”, informou o vice-presidente do SindCT.

Ele destacou também que a abertura das vagas ameaçadas por meio de concurso público não traria impacto financeiro ao órgão. “Essas pessoas já tem seus salários inclusos na folha de pagamento do Inpe, não muda nada”, destacou.

De acordo com Perondi, a possibilidade de desligamento do supercomputador está descartada. Ele informa que espera que o recurso sensibilize a Justiça quanto ao prolongamento dos prazos e, que paralelamente, tem estudado medidas para manter o serviço de previsão do tempo.

“Acredito que será possível fazermos um termo de ajuste de conduta e mantermos esses profissionais nas suas atividades até a realização do concurso. Não se contempla a possibilidade de parar a previsão, são dados para áreas críticas do país, vamos estudar alternativas para suprir a eventual falta destes profissionais”, disse ao G1. Perondi acredita que o ideal seria prolongar o prazo para a regularização dos contratos em pelo menos um ano. O Inpe recebeu uma série de pedidos de órgãos como do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Defesa Civil. Os documentos foram anexados no recurso.

Acusação – As contratações irregulares no Inpe aconteceram durante a gestão de Gilberto Câmara. O SindCT acusa o então gestor de negligenciar as recomendações jurídicas e promover as contratações irregulares. “Existia um parecer desaconselhando essas contratações. Ele criou um imbróglio, nunca brigou pelas vagas, nunca pediu pela abertura de concurso e agora temos esse problema”, denunciou Morais.

Em missão na Alemanha, Câmara entrou em contato com a reportagem nesta terça-feira (1º) e rebateu as acusações. Segundo ele, as contratações já ocorriam antes de sua gestão e as terceirizações questionadas pelo Ministério Público, que ocorreram em 2010, estavam respaldadas por parecer da Advocacia Geral da União (AGU). Ele também encaminhou ao G1 cópia de ofícios solicitando a abertura de vagas para o órgão em 2007 e 2009.

O ex-diretor questionou ainda o modelo de contratação exigido para o Inpe, considerado por ele um prejuízo para o país. “O país precisa do serviço prestado pelo Inpe e não de mais servidores públicos. O melhor regime seria a criação de uma organização social (OS), como ocorre em vários institutos que recebem missões do governo. Não faz sentido contratar servidor público para a vida inteira. Entendo que o interesse público está servido enquanto o Inpe tiver servidores qualificados, exercendo seus cargos”, defendeu.

O último concurso público do Inpe foi realizado em 2012 para o preenchimento de pouco mais de 100 vagas, incluindo a regularização dos 40 profissionais que corriam risco de terem os contratos suspensos. Antes deste concurso, um outro foi realizado em 2004.

A previsão é que até 2015, tendo como base a quantidade de 1.063 funcionários em atividade em 2010, o Inpe tenha uma redução de 36% no efetivo por motivo de aposentadoria. A idade média dos servidores é de 52 anos.

Entenda o caso – De acordo com o procurador Fernando Lacerda Dias, autor da proposta que resultou na anulação dos contratos, o Inpe fez manobras jurídicas proibidas pela lei para contratar pessoal. “Os contratos foram feitos com base em uma lei que autoriza essas contratações sem concurso. Mas é uma legislação específica para contratação temporária e não para funções de rotina, que é o que eles fizeram”, disse ao G1 no último dia 5.

O Inpe, ao longo dos anos, acumulou novas funções na sua área de atuação, mas o aumento de atribuições não foi acompanhado pela renovação de servidores, o que gerou defasagem quantitativa de mão de obra.

Na tentativa de resolver o problema, o órgão passou a contratar servidores terceirizados, com base no decreto 2.271/97. O procedimento é considerado ilegal, porque a terceirização de mão de obra não pode servir para suprir as atividades finalísticas de um órgão público.

Em 2006, a União se comprometeu a substituir gradualmente os funcionários terceirizados irregulares por servidores concursados, mas em 2009, próximo a expiração dos contratos existentes, o Inpe tentou nova contratação de servidores terceirizados.

A terceirização foi negada pelos órgãos internos de assessoramento jurídico do Inpe. Sem ter o concurso público aberto, o órgão alterou a forma jurídica das contratações, realizando processo seletivo para contratação temporária de 111 novos servidores, com base na lei 8.745/93. A manobra também foi considerada ilegal.

Outro lado – O ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, foi procurado e informou, por meio de sua assessoria de imprensa que a pasta pleiteou a liberação das vagas para a abertura do concurso. A assessoria da pasta recomendou inicialmente que o G1 procurasse o Ministério do Planejamento para obter informações sobre a liberação das vagas,

O Ministério do Planejamento informou por e-mail que autorizou em 2013 o provimento de 832 vagas para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, a quem compete realizar a distribuição das vagas entre seus vários institutos de pesquisa e que autorizações adicionais dependerão de novas tratativas com o MCTI.

Informado sobre o retorno do Ministério do Planejamento nesta quinta-feira (26), a assessoria de imprensa do Ministério de Ciência e Tecnologia não informou até a tarde desta segunda-feira (30) o destino destas vagas liberadas, nem se elas estão disponíveis para o Inpe.

(Portal G1, via Agência Ambiente Brasil)

“O REDD+ está pedindo socorro”, alerta Conservação Internacional (CarbonoBrasil)

Economia

01/10/2013 – 11h51

por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil

florestanew 300x208 O REDD+ está pedindo socorro, alerta Conservação Internacional

ONG afirma que mecanismo está ameaçado pelo grande desequilíbrio entre oferta e demanda; enquanto mais de 22 milhões de créditos podem ser gerados anualmente, apenas 6,8 milhões teriam compradores. 

A demora para criar instrumentos que estimulem, ou obriguem, países e empresas a comprar créditos florestais de carbono e a falta de vontade política para incluir o REDD+ (clique aqui e saiba mais sobre o conceito de REDD+)  em mercados já estabelecidos, como o EU ETS, estão resultando no excesso de créditos no mercado voluntário, causando a queda dos preços e diminuindo o interesse para o desenvolvimento de projetos de conservação florestal.

Essa é a mensagem central que a Conservação Internacional (CI) tenta passar com o relatório “REDD+ Market: Sending Out an SOS” (algo como Mercado de REDD+: pedindo socorro).

De acordo com a ONG, apenas considerando a certificação Verified Carbon Standard (VCS), até 22 milhões de créditos podem ser gerados anualmente, porém, a demanda do mercado voluntário atualmente não passaria de 6,8 milhões. Desde 2010, a procura por esse tipo de crédito teria caído 65%.

Esse desequilíbrio entre oferta e demanda fez com que o preço médio dos créditos do REDD+ passasse de US$ 12 em 2011 para US$ 6 no ano passado.

A CI aponta que o REDD+ já ajudou a proteger mais de 14 milhões de hectares de florestas. Além disso, trouxe ganhos para mais de 70 mil pessoas em comunidades locais, evitou as emissões de quatro milhões de toneladas de CO2 equivalente desde 2009 e protegeu 139 espécies que estão ameaçadas de extinção.

situacaoredd 133x300 O REDD+ está pedindo socorro, alerta Conservação Internacional“A falta de recompensas financeiras para esses casos de sucesso envia um sinal forte e preocupante para todos os países desenvolvendo esforços para reduzir o desmatamento. Suas ações não têm recebido apoio, mas indiferença e incertezas. Esse sinal não gera a motivação necessária para promover as reformas políticas complexas que o REDD+ tanto precisa”, afirma o relatório.

Como podem apenas ser negociados no mercado voluntário, os créditos do REDD+ são muito dependentes de doadores e de ferramentas internacionais que ainda não possuem a abrangência para estimular novos projetos de forma sustentável.

O relatório cita a Forest Carbon Partnership Facility’s do Banco Mundial (FCPF), o fundo de ação antecipada de REDD+ da Alemanha e o futuro Fundo Climático Verde como exemplos de mecanismos que têm buscado aumentar a demanda por créditos, mas que, no entanto, ainda são muito limitados em termos de disponibilização de financiamentos, de escopo geográfico e de velocidade de implementação.

Propostas

Uma das soluções óbvias citadas pela CI passa por garantir um preço justo para os créditos de REDD+.

Isso poderia ser conseguido de diversas formas: maior interesse dos fundos climáticos pelo REDD+, expansão dos programas de compensação voluntária do setor privado e a criação de compromissos para países doadores.

“Essas ações ajudariam a catalisar novos investimentos assim como estabilizariam a situação dos atuais projetos para os próximos anos, reduzindo a vulnerabilidade das comunidades devido à queda dos preços do REDD+”, afirma o relatório.

Outro ponto que precisa receber atenção seria o reconhecimento dos benefícios múltiplos dos projetos de REDD+.

Segundo a CI, as iniciativas de conservação florestal melhoram a vida de povos nativos, protegem a biodiversidade e garantem os serviços ecossistêmicos.

Assim, programas governamentais que tenham objetivos semelhantes aos que são alcançados pelo REDD+ deveriam considerar o financiamento desse tipo de projeto. Dessa forma, o mecanismo seria encarado não apenas como uma ferramenta para “compensar emissões”, mas também como um modelo de desenvolvimento inteligente.

O relatório destaca que muitos projetos já começam a ser desenvolvidos pelos próprios povos nativos, como é o caso do Projeto de Carbono Florestal Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro do povo Paiter Suruí, localizado nos estados de Rondônia e Mato Grosso.

Inclusive, no mês passado, o projeto Suruí vendeu seus primeiros créditos de REDD+; foram 120 mil unidades compradas pela Natura.

A CI conclui que a importância de manter o REDD+ funcionando em um alto nível de qualidade não pode ser subestimada. Não apenas para lidar com o desmatamento e com as emissões de gases do efeito estufa, mas também para evitar os impactos negativos que projetos mal elaborados podem produzir.

“Para alcançar os resultados esperados, está claro que o REDD+ deve melhorar em escala, mas também em questões como legislação (…) Isso deve ser feito para evitar que estímulos perversos sejam criados”, explica o relatório.

A ONG está neste caso se referindo aos riscos muitas vezes associados ao REDD+, como a exploração dos povos nativos e os conflitos por terras.

“Estabelecer estruturas institucionais é necessário para implementar a gestão local que facilitará o desenvolvimento de mecanismos de REDD+ nacionais e internacionais”, conclui a CI.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

O que é e como surgiu o REDD? (ipam.org.br)

Florestas tropicais representam hoje 15% da superfície terrestre (FAO, 2006 apud GCP, 2008) e contém cerca de 25% de todo o carbono contido na biosfera terrestre (BONAN, 2008 apud GCP, 2008). Além disso, 90% dos cerca de 1,2 bilhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza dependem dos recursos florestais para sobreviverem (GCP, 2008).

Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), das Nações Unidas (2006), aproximadamente 13 milhões de hectares de florestas tropicais são desmatados todos os anos (uma área equivalente ao Peru).

Preservar florestas, além da redução nas emissões de gases do efeito estufa, tem o potencial de gerar co-benefícios substanciais, como impactos positivos sobre a biodiversidade e sobre a conservação de recursos hídricos.  A floresta em pé também auxilia na estabilização do regime de chuvas e, conseqüentemente, do clima (Angelsen, 2008).

O relatório do IPCC publicado em 2007 (IPCC, 2007) estimou as emissões por desmatamento nos anos 1990 como sendo de aproximadamente 20% do total, fazendo da “mudança no uso da terra” a segunda atividade que mais contribui para o aquecimento global (GCP, 2008).

Conceito e desenvolvimento

O conceito de REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), basicamente, parte da idéia de incluir na contabilidade das emissões de gases de efeito estufa aquelas que são evitadas pela redução do desmatamento e a degradação florestal.  Nasceu de uma parceria entre pesquisadores brasileiros e americanos, que originou uma proposta conhecida como “Redução Compensada de Emissões” (Santilli et al, 2000), que foi apresentada durante a COP-9, em Milão, Itália (2003), por IPAM e parceiros. Segundo este conceito, os países em desenvolvimento detentores de florestas tropicais, que conseguissem promover reduções das suas emissões nacionais oriundas de desmatamento receberiam compensação financeira internacional correspondente às emissões evitadas. O conceito de redução compensada tornou-se a base da discussão de REDD nos anos seguintes.

Em seguida, durante a COP-11, em Montreal, Canadá (2005) a chamada “Coalition of Rainforest Nations” ou “Coalizão de Nações Tropicais”, liderados por  Papua Nova Guiné e Costa Rica, apresentou uma proposta similar que tem por objetivo discutir formas de incentivar economicamente a redução do desmatamento nos países em desenvolvimento, detentores de florestas tropicais (Pinto et al, 2009).

O argumento colocado é que os países tropicais são responsáveis por estabilizar o clima por meio de suas florestas e, assim, os custos para mantê-las em pé devem ser divididos por todos. Esta iniciativa fez com que, oficialmente, o assunto REDD fosse incluído na pauta de negociações internacionais.

Um ano depois, na COP-12, em Nairobi, Nigéria (2006), o governo brasileiro anunciou publicamente uma proposta para tratar da questão do desmatamento, também muito parecida com as anteriores, só que sem considerar o mecanismo de mercado de créditos de carbono e sim as doações voluntárias.

A COP-13, realizada em Bali, Indonésia, em 2007, culminou com a Decisão 1/ CP 13, conhecida como “Mapa do Caminho de Bali”, para discutir como inserir o tema REDD num mecanismo que será estruturado para iniciar em 2012, ano em que chega ao fim o primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto.

É imprescindível notar que este mecanismo foi inicialmente concebido para os países em desenvolvimento que detêm florestas tropicais, permitindo-os participar efetivamente dos esforços globais de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Necessário também salientar que a discussão sobre o desmatamento evitado evoluiu de um mecanismo que tinha foco somente no desmatamento evitado (COP 11, 2005), para ser ampliado e incluir a degradação de florestas (COP 13, 2007),

e REDD+?

Hoje o conceito foi ampliado e é conhecido como REDD+, se refere à construção de um mecanismo, ou uma política, que deverá contemplar formas de prover incentivos positivos aos países em desenvolvimento que tomarem uma ou mais das seguintes ações para a mitigação das mudanças climáticas:

1. Redução das emissões derivadas de desmatamento e degradação das florestas;

2. Aumento das reservas florestais de carbono;

3. Gestão sustentável das florestas;

4. Conservação florestal. (Pinto et al, 2009).

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Referências:

ANGELSEN, Arild. (org.). Moving Ahead with REDD: Issues, Options and Implications. CIFOR. Poznan, Polônia. 2008.

GLOBAL CANOPY PROGRAM. The Little REDD Book: A guide to Governmental and non-governmental proposals for Reducing Emissions from Deforestation and Degradation. 2008. Disponível em: http://www.the littleREDDbook.org

INTERNATIONAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change Synthesis Report. Summary for Policymakers. Switzerland. 2007.

PINTO, Erika; MOUTINHO, Paulo; RODRIGUES, Liana; OYO FRANÇA, Flavia Gabriela; MOREIRA, Paula Franco; DIETZSCH, Laura. Cartilha: Perguntas e Respostas Sobre Aquecimento Global. 4a edição. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Belém. 2009.

SANTILLI, Márcio; MOUTINHO, Paulo; SCHWARTZMAN, Stephan; NEPSTAD, Daniel; CURRAN, Lisa; NOBRE, Carlos. Tropical deforestation and the Kyoto Protocol: an editorial essay. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. 2000.

Contribuição de conteúdo por Ricardo Rettmann (ricardo.rettmann@ipam.org.br)

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Acesse publicação REDD no Brasil: um enfoque amazônico

O livro apresenta e discute as condições favoráveis do Brasil à implementação de um regime nacional de REDD+ e propõe dois modelos de estrutura institucional para a repartição de benefícios: um baseado na distribuição por estados e outra por cate-gorias fundiárias. REDD+ é aqui discutido como um elemento importante na transição do modelo de desenvolvimento da Amazônia para um de baixas emissões de carbono, com distribuição de renda e justiça social. A alteração mais importante desta 3a edição foi a utilização da metodologia de cálculo do desmatamento evitado proposta pelo Comitê Técnico do Fundo Amazônia, juntamente com parâmetros fixados pelo Decreto 7.390/2010, que regulamenta a Política Nacional sobre Mudança do Clima. Esta alteração nos cálculos não altera a mensagem central do livro, porém pode ser percebida em algumas figuras chaves que demonstram o valor total do desmatamento evitado no Brasil.

Faça download da publicação

Pesquisadores alertam sobre necessidade urgente de proteger os oceanos (Fapesp)

Artigo de brasileiro e uruguaio será publicado como editorial no periódico Marine Pollution Bulletin(Wikipedia)

02/10/2013

Por José Tadeu Arantes

Agência FAPESP – Estima-se que 41% dos mares e oceanos do planeta se encontrem fortemente impactados pela ação humana, segundo estudos. Trata-se de um problema grave que não tem recebido a merecida atenção. Um exemplo está no ritmo de implementação da diretriz relativa à proteção marinha definida pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da Organização das Nações Unidas (ONU).

Aprovada por 193 países mais a União Europeia durante a 10ª Conferência das Partes da CDB, realizada em Nagoya, Japão, em outubro de 2010, essa diretriz estabeleceu que, até 2020, pelo menos 10% das áreas costeiras e marinhas, especialmente aquelas importantes por sua biodiversidade, deveriam estar protegidas.

Decorrido quase um terço do prazo, porém, as chamadas Áreas de Proteção Marinha (APMs) não cobrem mais do que 1,17% da superfície dos mares e oceanos do planeta. Dos 151 países com linha de costa, apenas 12 excederam os 10%. E a maior potência do mundo, os Estados Unidos, dotada de extensos litorais tanto no Atlântico como no Pacífico, não aderiu ao protocolo.

As informações, que configuram um alerta urgente, estão no artigo Politics should walk with Science towards protection of the oceans (“A política deve caminhar com a ciência na proteção dos oceanos”), assinado pelo brasileiro Antonio Carlos Marques, professor associado do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, e pelo uruguaio Alvar Carranza, pesquisador do Museu Nacional de História Natural, do Uruguai. Enviado ao Marine Pollution Bulletin, o texto, que será publicado como editorial da versão impressa do periódico, está disponível on-line em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X13004530.

O artigo também destaca que, com uma das mais extensas costas do mundo – de 9.200 quilômetros, se forem consideradas as saliências e reentrâncias –, o Brasil possui apenas 1,5% de seu litoral protegido por APMs. Além disso, 9% das áreas consideradas prioritárias para conservação já foram concedidas a companhias petroleiras para exploração. As costas altamente povoadas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentram a maioria das reservas de petróleo do país.

Os dados publicados são derivados de dois projetos apoiados pela FAPESP e coordenados por Marques: um projeto de Auxílio à Pesquisa – Regular, que apoia a Rede Nacional de Pesquisa em Biodiversidade Marinha (Sisbiota Mar), e um Projeto Temático para pesquisar fatores que geram e regulam a evolução e diversidade marinhas.

“Como um expediente para cumprir a meta, alguns governos têm criado Áreas de Proteção Marinha gigantescas, mas em torno de ilhas ou arquipélagos praticamente desabitados, muito distantes do próprio país”, disse Marques à Agência FAPESP.

“A maior APM do mundo, situada no arquipélago de Chagos, tem mais de meio milhão de quilômetros quadrados. É uma área enorme, que cumpre, com sobra, a meta do Reino Unido”, disse. O arquipélago faz parte do Território Britânico do Oceano Índico.

“Porém a população dessa área se resume ao contingente rotativo de uma base britânica. A ninguém mais. Além disso, as características da área, situada no meio do Oceano Índico, em nada correspondem à biodiversidade do Reino Unido”, prosseguiu.

Embora reconheça o valor de uma APM como essa, Marques argumenta que sua criação não é necessariamente efetiva em termos de preservação ambiental. Segundo ele, cumpre-se o aspecto quantitativo, mas não o qualitativo, ou seja, não oferece proteção efetiva ao litoral do país onde está a maior parte de sua população. E o que é mais grave, segundo Marques, é que o mesmo expediente foi adotado em todas as outras grandes APMs criadas recentemente.

“Verificamos, e divulgamos em nosso artigo, que a população média das 10 maiores APMs do mundo, computada em raios de 10 quilômetros em torno das mesmas, é de apenas 5.038 pessoas”, informou Marques. E essa média é puxada para cima por apenas duas APMs, a Reserva Marinha de Galápagos (Equador) e o Parque Nacional da Grande Barreira de Corais (Austrália), ambas com pouco mais de 25 mil habitantes. A população total das demais APMs não chega a 4 mil indivíduos, sendo nula em três delas.

“Para os governos, é uma medida muito cômoda criar áreas de proteção ambiental em regiões como essas, porque o desgaste socioeconômico de tal implementação é baixíssimo. Exceto por uma ou outra indústria pesqueira, ninguém vai reclamar muito. É uma situação muito diferente da que ocorreria se as APMs fossem criadas nos litorais dos respectivos países”, disse Marques.

O pesquisador ressalta que essas áreas remotas são úteis, como nas APMs de Galápagos e da Barreira de Corais, pela especialidade dos ecossistemas protegidos. Mas as APMs não seriam representativas da gama de ambientes dos países.

Fracassos e sucessos

“Nossa principal intenção ao escrever o artigo foi destacar que existe uma necessidade de proteção, que pode ser parcialmente atendida pela meta de 10%, mas essa proteção tem que respeitar os ambientes reais dos países. Não basta alcançar o número sem que haja uma correspondência entre quantidade e qualidade”, disse Marques.

O pesquisador conta que, ao enviar o artigo para o Marine Pollution Bulletin, um de seus objetivos foi estabelecer uma interlocução com o editor do periódico, Charles Sheppard, da University of Warwick, no Reino Unido. Sheppard é considerado uma das maiores autoridades em conservação marinha do mundo e foi um dos mentores da APM britânica do arquipélago de Chagos.

“A resposta do professor Sheppard foi a mais positiva que eu poderia esperar, tanto que ele decidiu publicar nosso artigo como editorial do Marine Pollution Bulletin.

De acordo com Marques, os dados básicos e as análises gerados pelos cientistas são vitais para o melhor uso dos recursos, ao estabelecer áreas de preservação.

“É necessário entender se a área é a ideal para ser protegida do ponto de vista evolutivo, genético, biogeográfico, ecológico etc. Há exemplos de sucesso em que isso foi observado e exemplos de fracassos em que foi ignorado. O melhor cenário possível é aquele em que cientistas, técnicos e políticos participam francamente do processo”, disse.

Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais (IHU On-Line)

Sociedade

02/10/2013 – 11h26

por Redação do IHU On-Line

pescadores artesanais alto uruguai 370x230 Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais

Foto: http://bit.ly/1fNDm5V

Com a privatização das águas, “não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal”, adverte a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais.

Responsável por 70% da produção de pescado no país, a pesca artesanal está ameaçada pelo Projeto do Ministério da Pesca e da Aquicultura, denominado pelo movimento dos pescadores e pescadoras tradicionais de “privatização das águas públicas dos mares”.

Trata-se da Cessão de águas Públicas lançada em editais no mês de junho (Licitações: 11/2013- 12/2013-13/2013-14/2013), que transfere determinada área do mar para grupos que pretendem cultivar uma determinada espécie de peixe. Segundo a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, Elionice Sacramento, já serão privatizadas áreas em cinco estados brasileiros, sendo “três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Elionice enfatiza que “quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal”. Com o passar do tempo, acentua, o órgão passou a adotar políticas “que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil”.

Elionice Sacramento é integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O que caracteriza a privatização das águas públicas e qual é o objetivo desta privatização? Em que consiste essa política desenvolvida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura?

Elionice Sacramento – Queria dizer que quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal. Depois percebemos que ele estava adotando políticas que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil. Então, o governo passou a ver o Ministério como um espeço de promoção política de alguns deputados, tanto que se criou um esquema de corrupção muito grande no Ministério no que diz respeito à documentação de pescadores. Daí para frente começamos a ouvir falar em um projeto de privatização das águas públicas.

Em junho, foi lançado no país um edital para a privatização de áreas de quatro estados brasileiros, ou seja, serão privatizadas três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais. Trata-se de um modelo que passa por cima das comunidades tradicionais que utilizam aquele espaço com uma relação de respeito com o mar e que interessa às forças capitalistas.

IHU On-Line – Como funciona esse processo de privatização das águas?

Elionice Sacramento – Foi lançado um edital, os interessados demonstram seus interesses, concorrem a esses espaços. Após a licitação, o grupo interessado terá direito de fazer uso daquele espaço durante 20 anos e pagar uma quantia mínima aos cofres públicos.

IHU On-Line – O que a privatização das águas públicas significa para as comunidades tradicionais, especialmente, as pesqueiras? Além das comunidades, quem mais será prejudicado com a privatização desses espaços?

Elionice Sacramento – Não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal. Então, os turistas serão prejudicados, e o comércio dessas regiões também, porque esses pescados que são produzidos em cativeiro são pescados para exportação, e não para uso nacional. Por outro lado, haverá um processo de desequilíbrio do meio ambiente, porque espécies estranhas serão cultivada no mar, e o lixo produzido por elas ficará no mar.

Sem contar que os pescadores e pescadoras artesanais desempenham um papel fundamental no Brasil. Nós somos guardiões de uma tradição milenar, somos produtores de alimento, porque 70% de todo pescado produzido no país vem da pesca artesanal. Então, essa tradição só se manteve durante tantos anos porque estabelecemos com a natureza uma relação de completo respeito, uma relação de amor, mas principalmente uma relação de dependência e de respeito.

Respeitamos os períodos de reposição dos peixes, e agimos de acordo com a determinação da natureza. Esses processos industriais não têm respeito com nada. Eles atropelam tudo, desmontam processos de organização que já existem nas comunidades.

IHU On-Line – Já existem editais lançados para a compra de corpos d’águas em alguns estados. Do ponto de vista legal, como o movimento vem contestando os editais e esse processo de privatização?

Elionice Sacramento – Esse edital lançado em junho feriu algumas leis e alguns acordos internacionais. Por exemplo, o princípio de consulta às comunidades tradicionais não foi cumprido.

Então, as comunidades que fazem uso desses espaços não foram consultadas sobre esse processo de privatização das águas públicas. E isso já é motivo de ilegalidade do processo.

Quando o edital foi lançado na Bahia, o ministro em exercício à época não quis ouvir os integrantes do movimento e disse que apenas uma pessoa poderia falar. Quando nós nos negamos a aceitar essa proposta, o ministro levantou e disse que não ficava no encontro. Não houve nenhum tipo de diálogo com a comunidade. Por outro lado, nós visitamos a Secretaria de Patrimônio da União, que foi quem regularizou as áreas da água para ceder ao Ministério da Pesca, e questionamos por que os territórios não estão sendo cedidos aos pescadores, e sim para a apicultura. Segundo as pessoas que nos receberam, existia a Secretaria de Patrimônio da União desconhecia o porquê de essas áreas não serem destinadas para a pesca artesanal.

Então, entramos com um recurso contestando a ilegalidade do processo, fomos até a 6ª Câmara Federal, procuramos a Promotora Deborah Duprat, e também outros cinco promotores. Todos receberam esse processo com muita indignação.

IHU On-Line – Os editais determinam que as empresas vencedoras das licitações devem promover um número mínimo de empregos. Como você enxerga esse ponto específico?

Elionice Sacramento – A maioria dos empreendimentos, quando chegam às comunidades, apontam a justificativa de que vão gerar empregos. Por conta disso, esses empreendimentos acabam recebendo a aceitação de políticos e de pessoas que não têm vocação para a pesca. Só que isso é enganação. Temos muita clareza de que o discurso do emprego não é verdadeiro, até porque o processo que querem implementar é muito industrial.

IHU On-Line – Quais apoios são importantes no processo de luta para impedir a privatização das águas públicas?

Elionice Sacramento – Nós estamos em campanha pela própria ação e regularização dos territórios pesqueiros. Nessa campanha foi pensado um projeto de iniciativa popular onde a sociedade brasileira vai dizer, através de assinaturas, se concorda que o território pesqueiro seja protegido. Também temos divulgado o trabalho dos pescadores, porque somos invisível nesse país. Parece que a sociedade não sabe de onde vem o peixe que gostamos de comer.

IHU On-Line – Você gostaria de acrescentar algo?

Elionice Sacramento – Gostaria de sugerir que as pessoas acessem o nosso blog, assinem o abaixo assinado pela Campanha da Regulamentação dos Territórios Pesqueiros, e compreendam a importância da pesca artesanal e dos pescadores e pescadoras.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Todo o universo indígena está a perigo (Carta Capital)

Sociedade
02/10/2013 – 01h15

por Felipe Milanez*

indigenascapa 300x225 Todo o universo indígena está a perigo

Foto: Reprodução/ Internet

“A situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave”, afirma Sydney Possuelo, presidente da Funai durante o governo Collor.

Presidente da Funai durante o governo Collor, Sydney Possuelo foi o responsável pela demarcação da terra indígena Yanomami. É tido como criador do departamento de índios isolados da Funai (atual Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato), responsável por institucionalizar a postura de não-contato com os povos indígenas em isolamento voluntário.

O tema é complexo, e hoje, a situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave. Em várias situações, como entre os awa-guaja no Maranhão, ou os Piripkura no norte do Mato Grosso, ou grupos isolados Yanomami, a situação é de risco grave de genocídio.

A qualquer momento, um desastre pode acontecer, com um ataque feito por madeireiros ou garimpeiros, nesses casos citados, podendo ocasionar o extermínio massivo de uma população. Ou seja: o crime de genocídio. E muitas obras do governo atingem diretamente essas áreas ocupadas por povos isolados, desde prospecção de petróleo no Vale do Javari a Usina Belo Monte. Para Possuelo, “Todo o universo indígena está a perigo, inclusive os isolados”.

CartaCapital: O que está acontecendo hoje, como explicar esse ataque aos direitos indígenas?

Sydney Possuelo: De um modo geral, a sociedade nacional nunca gostou de índio. Hoje, se soma a essa postura histórica de nunca gostar e não respeitar, a ação governamental que se alia aos tradicionais inimigos dos povos indígenas. O agronegócio, no Brasil, esta aliado ao governo. O governo está mais desmatando do que tudo. As grandes obras nacionais, hidrelétricas, que também se aliam ao governo porque é o governo que esta fazendo. Há um monte de ONG que dependem do governo, e elas não tem mais voz. Dentro da Funai não se encontra mais nenhum defensor dos índios. Aquela Funai antiga, que vários companheiros faziam da Funai um órgão de luta de defesa dos povos indígenas, hoje não existe mais.

Há ha uma convergência de fatores, vários fatores tradicionalmente anti-indígena, e todos convergem junto do governo por interesses. Uma situação que faz recrudescer a tradicional indiferença nacional com os povos indígenas. E, contra os índios, o agronegócio, o grande desenvolvimento a qualquer preço, as obras. Essas convergências se misturam com ausência de pessoas e fatores, e a própria imprensa, que antigamente era mais atuante a favor dos povos indígenas. Na imprensa, de um modo geral, os artigos são contra os povos indígenas. Não se tem vozes nacionais que se levantem na defesa. Todos calados, alimentando esse processo do governo com suas obras, a ideia do “Brasil grande” que precisa se desenvolver.

CC: Qual a ameaça dessas mudanças legislativas (PEC 215, PLP 227) para o futuro?

SP: Os índios estão mais ameaçados. Antigamente, a esperança era maior. Porque tínhamos muita atividade indigenista, demarcávamos terra, bastante vozes se levantavam na imprensa, grupos, entidades, falavam sobre os povos indígenas. Existia mais esperança. Hoje, é o contrario. A esperança diminui e aumenta as dificuldades para os povos indígenas. O resultado é que desde 1500 até hoje, com pequenos momentos mais leves na nossa historia politica, todo o processo ameaça os povos indígenas. A sociedade até entende, mas a ganancia e a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer negócios predominam. Fatores que atuavam isoladamente, hoje estão todos juntos. Todo mundo em volta do governo, que é o elemento que converge esses interesses, que subordina a todos. Eu vejo esse governo como um dos mais nefastos com relação aos povos indígenas, desde a entrada do lula até hoje. A postura é: vamos desenvolver. O índio permanece sendo o entrave.

CC: Como esse processo de força contrário aos índios se tornou tão poderoso e influente?

SP: O polarizador foi o governo, com bilhões de reais, ele faz a estrada, e quem faz a estrada esta a favor do governo, é a empreiteira, o governo deixa desmatar, “autoriza”. E o governo alimenta essa situação porque o que eles querem é a produção de mais carne, de mais soja para mais gente criar boi na Europa e na China. Os interesses do governo convergem com parte da sociedade nacional, os construtores de estrada, os chamados desbravadores.

CC: O que pode ser feito? Ou o que deveria ser feito no Brasil?

SP: Não é simples, e não basta simplesmente mudar o governo. Historicamente, os governos de centro ou esquerda ou direita, seja qual for a tendência, sempre foram contrários aos índios. Uns mais, outros menos. Não acredito que venha um governo de centro, ou de direita, que vai transformar. É uma coisa incorporada a nossa sociedade, por vários motivos histórico. Como vamos ter um órgão a favor dos índios se o governo não se porta a favor dos índios. E não falo só do federal, mas o estadual e municipal: todos são contrários aos índios. Na época das demarcações que fizemos nos meus dois anos de presidência da Funai, tivemos uma ação demarcatória muito positiva, no governo Collor. Em um ano duplicamos a superfície de terras indígenas no brasil. Houve momento em que essa situação estava melhor, como voltar a uma atividade mais respeitosa. Como respeitar os povos indígenas se a gente não se respeita? Somos uma sociedade que tem que caminhar muito.

CC: E como está a situação dos povos indígenas isolados, tema com o qual o senhor trabalhou durante muitos anos?

SP: A situação dos índios isolados está igual a dos outros povos: de mal a pior. tudo aquilo que fizemos com a criação do departamento de índios isolados, com seis ou sete equipes funcionando, mantendo a terra, dando um pouco de sossego para os índios, tudo aquilo se perdeu. Perdeu-se a motivação porque não tem mais aquelas pessoas, que foram anuladas e mandadas embora, e a começar por mim mesmo, mas, todos os que contribuíram de alguma forma. Antes da criação desse departamento e toda a filosofia que eu implantei, cada um fazia aquilo que queria. Fizemos uma filosofia de não contato, porque são sociedades vulneráveis, e somos tão grande, porque não sermos um pouco generosos e deixá-los nas sua áreas? As frentes estão abandonadas, não tem pessoas motivadas trabalhando nelas. Os índios isolados estão tão a perigo quanto os que estão contatados. Todo o universo indígena esta a perigo, inclusive os isolados.

Eu não consigo ver lados positivos em qualquer desenvolvimento que não respeite as populações diretamente afetadas, que não considere elas, que não faça obras de atenuação dos impactos. Impactos sempre vão ocorrer, mas convém atenuar. Senão não é desenvolvimento nem sustentável nem ético.

* Felipe Milanez é pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Felipe Milanez escreve sobre meio ambiente, conflitos sociais e questões indígenas. É também pesquisador visitante na Universidade de Manchester e integra o European Network of Political Ecology (Entitle). Twitter: @felipedjeguaka

** Publicado originalmente no site Carta Capital.

Climate sceptics claim warming pause backs their view (BBC)

26 September 2013 Last updated at 00:47 GMT

By Matt McGrathEnvironment correspondent, BBC News, The Netherlands

Hurricane SandyCome hell or… An increased likelihood of extreme weather events is one predicted outcome of global warming, but some dispute the scale of expected effects

In the run up to a key global warming report, those sceptical of mainstream opinion on climate change claim they are “winning” the argument.

They say a slowing of temperature rises in the past 15 years means the threat from climate change is exaggerated.

But a leading member of the UN’s panel on climate change said the views of sceptics were “wishful thinking”.

Some of what the sceptics are saying is either wishful thinking or totally dishonest”

Prof Jean-Pascal van Ypersele, IPCC

The pause in warming was a distraction, he said, from the growing scientific certainty about long-term impacts.

Prof Jean Pascal van Ypersele spoke to BBC News ahead of the release of a six-yearly status report into global warming by the UN panel known as the Intergovernmental Panel on Climate Change, or IPCC.

Scientists and government representatives are currently meeting in Stockholm, Sweden, going through the dense, 31-page summary of the state of the physical science behind climate change.

When it is released on Friday, the report is likely to state with even greater certainty than before that the present-day, rapid warming of the planet is man-made.

Netherlands flood rescue simulationClimate change could profoundly impact the Netherlands, but sceptics remain influential there

But climate sceptics have focused their attention on the references to a pause or hiatus in the increase in global temperatures since 1998.

The sceptics believe that this slowdown is the most solid evidence yet that mainstream computer simulations of the Earth’s climate – climate models – are wrong.

These computer simulations are used to study the dynamics of the Earth’s climate and make projections about future temperature change.

“The sceptics now have a feeling of being on the winning side of the debate thanks to the pause,” said Marcel Crok, a Dutch author who accepts the idea that human activities warm the planet, but is sceptical about the scale of the effect.

“You are now starting to see a normalisation of climate science. Suddenly mainstream researchers, who all agree that greenhouse gases play a huge role, start to disagree about the cause of the pause.

“For me this is a relief, it is finally opening up again and this is good.”

The view that the sceptics have positively impacted the IPCC is supported by Prof Arthur Petersen, who is a member of the Dutch government team currently examining the report.

“The sceptics are good for the IPCC and the whole process is really flourishing because of this interaction over the past decades,” he told BBC News.

“Our best climate researchers are typically very close to really solid, sceptical scientists. In this sense scepticism is not necessarily a negative term.”

Others disagree.

Bart Verheggen is an atmospheric scientist and blogger who supports the mainstream view of global warming. He said that sceptics have discouraged an open scientific debate.

Crok

Dutch writer Marcel Crok is sceptical about the sensitivity of the atmosphere to carbon emissions

“When scientists start to notice that their science is being distorted in public by these people who say they are the champions of the scientific method, that could make mainstream researchers more defensive.

“Scientists probably think twice now about writing things down. They probably think twice about how this could be twisted by contrarians.”

Sensitive debate

In 2007, the IPCC defined the range for what’s termed “equilibrium climate sensitivity”. This term refers to the likely span of temperatures that would occur following a doubling of CO2 concentrations in the atmosphere.

The panel’s last report said temperatures were likely to rise within the range of 2C to 4.5C with a best estimate of 3C.

The new report is believed to indicate a range of 1.5C to 4.5C with no best estimate indicated.

Although that might not appear like much of a change, many sceptics believe it exposes a critical flaw.

“In the last year, we have seen several studies showing that climate sensitivity is actually much less than we thought for the last 30 years,” said Marcel Crok.

“And these studies indicate that our real climate shows a sensitivity of between 1.5C and 2C, but the climate models on which these future doom scenarios are based warm up three degrees under a doubling of CO2.”

But other researchers who are familiar with the text believe that the sceptics are reading too much into a single figure.

“Some of what the sceptics are saying is either wishful thinking or totally dishonest,” Prof van Ypersele, who is vice-chair of the IPCC, told BBC News.

“It is just a change in a lower border [of the range of temperature rise]. Even if this turns out to be the real sensitivity, instead of making the challenge extremely, extremely, extremely difficult to meet, it is only making it extremely, extremely difficult.

“Is that such a big change?”

Prof van Ypersele points out that many other aspects of the forthcoming report are likely to give greater certainty to the scale of impacts of a warming world. The predictions for sea level rise are likely to be considerably strengthened from 2007. There is also likely to be a clearer understanding of the state of sea ice.

Who are the climate sceptics?

Although there are only a small number of mainstream scientists who reject the established view on global warming, they are supported by a larger group of well resourced bloggers and citizen scientists who pore through climate literature and data looking for evidence of flaws in the hypothesis.

There are many different shades of opinion in the sceptical orbit. Some such as the group Principia Scientific reject the “myth” of greenhouse gas warming.

There are also political sceptics, such as some members of the Republican party in the US, who argue that climate science is a hoax or a conspiracy.

But there are also sceptical bloggers such as Anthony Watts and Andrew Montford who accept the basic science that adding carbon to the atmosphere can affect the temperature. They contest mainstream findings on the sensitivity of the climate to carbon and the future impacts on temperature.

The Dutch approach to sceptics

With around 20% of the country under sea level, the Dutch have a keen interest in anything that might affect their environment, such as climate change.

But scepticism about the human influence on global warming has been growing in the Netherlands, according to research from the OECD.

In a country where consensus is a key word, the government has taken a more inclusive approach to climate dissenters. To that end, they have funded Marcel Crok to carry out a sceptical analysis of the IPCC report.

In an effort to build bridges between sceptics and the mainstream they are also funding an initiative called climatedialogue.org which serves as a platform for debate on the science of global warming.

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IPCC climate report: humans ‘dominant cause’ of warming – and other articles (BBC)

27 September 2013 Last updated at 09:12 GMT

By Matt McGrathEnvironment correspondent, BBC News, Stockholm

Climate change “threatens our planet, our only home”, warns Thomas Stocker, IPCC co-chair

A landmark report says scientists are 95% certain that humans are the “dominant cause” of global warming since the 1950s.

The report by the UN’s climate panel details the physical evidence behind climate change.

On the ground, in the air, in the oceans, global warming is “unequivocal”, it explained.

It adds that a pause in warming over the past 15 years is too short to reflect long-term trends.

The panel warns that continued emissions of greenhouse gases will cause further warming and changes in all aspects of the climate system.

To contain these changes will require “substantial and sustained reductions of greenhouse gas emissions”.

Infographic

Projections are based on assumptions about how much greenhouse gases might be released

After a week of intense negotiations in the Swedish capital, the summary for policymakers on the physical science of global warming has finally been released.

The first part of an IPCC trilogy, due over the next 12 months, this dense, 36-page document is considered the most comprehensive statement on our understanding of the mechanics of a warming planet.

It states baldly that, since the 1950s, many of the observed changes in the climate system are “unprecedented over decades to millennia”.

Each of the last three decades has been successively warmer at the Earth’s surface, and warmer than any period since 1850, and probably warmer than any time in the past 1,400 years.

“Our assessment of the science finds that the atmosphere and ocean have warmed, the amount of snow and ice has diminished, the global mean sea level has risen and that concentrations of greenhouse gases have increased,” said Qin Dahe, co-chair of IPCC working group one, who produced the report.

Speaking at a news conference in the Swedish capital, Prof Thomas Stocker, another co-chair, said that climate change “challenges the two primary resources of humans and ecosystems, land and water. In short, it threatens our planet, our only home”.

Since 1950, the report’s authors say, humanity is clearly responsible for more than half of the observed increase in temperatures.

Dr Rajendra Pachauri said he was confident the report would convince the public on global climate change

But a so-called pause in the increase in temperatures in the period since 1998 is downplayed in the report. The scientists point out that this period began with a very hot El Nino year.

“Trends based on short records are very sensitive to the beginning and end dates and do not in general reflect long-term climate trends,” the report says.

Prof Stocker, added: “I’m afraid there is not a lot of public literature that allows us to delve deeper at the required depth of this emerging scientific question.

“For example, there are not sufficient observations of the uptake of heat, particularly into the deep ocean, that would be one of the possible mechanisms to explain this warming hiatus.”

“Likewise we have insufficient data to adequately assess the forcing over the last 10-15 years to establish a relationship between the causes of the warming.”

However, the report does alter a key figure from the 2007 study. The temperature range given for a doubling of CO2 in the atmosphere, called equilibrium climate sensitivity, was 2.0C to 4.5C in that report.

In the latest document, the range has been changed to 1.5C to 4.5C. The scientists say this reflects improved understanding, better temperature records and new estimates for the factors driving up temperatures.

In the summary for policymakers, the scientists say that sea level rise will proceed at a faster rate than we have experienced over the past 40 years. Waters are expected to rise, the document says, by between 26cm (at the low end) and 82cm (at the high end), depending on the greenhouse emissions path this century.

The scientists say ocean warming dominates the increase in energy stored in the climate system, accounting for 90% of energy accumulated between 1971 and 2010.

For the future, the report states that warming is projected to continue under all scenarios. Model simulations indicate that global surface temperature change by the end of the 21st Century is likely to exceed 1.5 degrees Celsius, relative to 1850.

Prof Sir Brian Hoskins, from Imperial College London, told BBC News: “We are performing a very dangerous experiment with our planet, and I don’t want my grandchildren to suffer the consequences of that experiment.”

What is the IPCC?

In its own words, the IPCC is there “to provide the world with a clear scientific view on the current state of knowledge in climate change and its potential environmental and socio-economic impacts”.

The offspring of two UN bodies, the World Meteorological Organization and the United Nations Environment Programme, it has issued four heavyweight assessment reports to date on the state of the climate.

These are commissioned by the governments of 195 countries, essentially the entire world. These reports are critical in informing the climate policies adopted by these governments.

The IPCC itself is a small organisation, run from Geneva with a full time staff of 12. All the scientists who are involved with it do so on a voluntary basis.

Document

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O dióxido de carbono está reconfigurando o planeta (IPS)

Ambiente

30/9/2013 – 08h08

por Stephen Leahy, da IPS

stephen6401 O dióxido de carbono está reconfigurando o planeta

O derretimento da geleira de Orizaba, no México, é outra consequência do aquecimento global. Foto: Maurício Ramos/IPS

Nantes, França, 30/9/2013 – A Groenlândia pode acabar se tornando verde, pois a maior parte de sua enorme camada de gelo está condenada a derreter, informou, no dia 27, o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC). O resumo de 36 páginas apresentado em Estocolmo pelo IPCC, que funciona na órbita da Organização das Nações Unidas (ONU), inclui um alerta de que há 20% de possibilidades de os gelos da Groenlândia iniciarem um derretimento irreversível com apenas 0,2 grau de aquecimento adicional.

Essa quantidade de aquecimento agregado é uma certeza agora. Contudo, o derretimento definitivo do gelo na Groenlândia consumirá mil anos. “O novo informe é outro chamado para despertar, que nos diz que estamos com grandes problemas e vamos rumo a graus perigosos de mudança climática”, destacou David Cadman, presidente da Iclei, a única rede de cidades sustentáveis que opera em todo o mundo e envolve 1.200 governos locais.

“O IPCC será atacado por interesses (da indústria dos combustíveis fósseis e seus defensores. Eles tentarão assustar o público, alegando que tomar medidas coloca em risco os empregos e a economia. Isso não é verdade. Pelo contrário”, afirmou Cadman à IPS. O Resumo para Responsáveis por Políticas do Informe do Grupo de Trabalho I – Bases de Ciência Física estabelece claramente que os seres humanos estão esquentando o planeta, e confirma estudos que datam de 1997. Desde os anos 1950, cada década foi mais quente do que a anterior, diz o documento.

O texto completo será divulgado hoje e é o primeiro dos quatro volumes (os dos três grupos de trabalho mais a síntese) do Quinto Informe de Avaliação do IPCC, conhecido como AR5. No Hemisfério Norte, “as temperaturas entre 1983 e 2012 foram as mais quentes dos últimos 1.400 anos”, destacou Thomas Stocker, copresidente do Grupo de Trabalho I.

Em resposta às notícias dos últimos dias, falando sobre uma “interrupção do aquecimento”, Stocker disse que o sistema climático é dinâmico, sendo provável que nos últimos anos tenha ingressado mais calor nos oceanos e que tenha diminuído ligeiramente o ritmo dos aumentos das temperaturas superficiais. Há mais de cem anos pesquisadores demonstraram que o dióxido de carbono prende o calor do Sol.

A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento, a agricultura e outras atividades humanas emitem esse gás na atmosfera, onde permanece quase para sempre. Os maiores volumes de dióxido de carbono, por sua vez, acrescentam mais calor, pois atuam como outra camada de isolamento. Mais de 90% desta energia térmica adicional é absorvida pelos oceanos, segundo o Resumo. Isso explica a causa de as temperaturas da superfície ainda não terem superado o aumento médio mundial de 0,8 grau.

O Resumo destaca que a redução da camada de gelo do Ártico nas últimas três décadas foi a maior dos últimos 1.450 anos. Embora o derretimento no último verão boreal tenha sido menor que no ano passado, o Ártico segue no caminho de ficar sem gelo na temporada estival de 2050, bem antes do projetado por relatórios anteriores.

O informe do IPCC, uma revisão das pesquisas científicas disponíveis, se baseou em trabalhos de 259 autores de 39 países, e contou com 54.677 comentários. O informe de avaliação anterior, ou AR4, é de 2007. O IPCC não realiza pesquisas próprias e está sob a direção de 110 governos que passaram os últimos quatro dias aprovando o texto do sumário. “Cada palavra contida nas 36 páginas foi debatida. Alguns parágrafos foram discutidos por mais de uma hora”, contou Stocker em entrevista coletiva em Estocolmo. “Nenhum outro relatório científico jamais passou por um escrutínio tão crítico”, ressaltou.

O Resumo, redigido com cautela, detalha e confirma os impactos observados, com o aumento das temperaturas, as mudanças nos padrões pluviométricos e os extremos climáticos. Também confirma que estes e outros impactos vão piorar na medida em que aumentarem as emissões de dióxido de carbono. As atuais emissões deste gás estão no rumo do pior cenário.

O resumo do AR5 diz que a camada gelada da Groenlândia perdeu, em média, 177 bilhões de toneladas de gelo por ano entre 1992 e 2001. Estudos mais recentes demonstram que o gelo perdido aumentou substancialmente desde então. Segundo o relatório, há uma possibilidade em cinco de a camada gelada da Groenlândia derreter totalmente se as temperaturas globais aumentarem entre 0,8 grau e mais de um, como parece inevitável agora.

Um dos motivos é que a elevação das temperaturas no Ártico é quase três vezes maior do que o aumento médio mundial. Se a temperatura média mundial aumentar cerca de quatro graus será desencadeado um derretimento na Groenlândia, que elevaria o nível do mar em até sete metros. Apesar disto, o AR5 diz que não se espera que o nível do mar suba mais de um metro neste século.

Outros cientistas, entre eles James Hansen, ex-diretor do Instituto Goddar de Estudos Espaciais da Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), acreditam que o acelerado derretimento observado no Ártico, na Groenlândia, na Antártida e nas geleiras é um sinal de que neste século o mar pode subir vários metros, a menos que as emissões sejam reduzidas.

Mesmo antes de se tornar público o novo informe do IPCC, “os que negam a mudança climática” o atacaram e tergiversaram, tentando retratar suas conclusões como radicais ou extremistas, afirmou Charles Greene, professor de ciências atmosféricas e da terra na Cornell University, de Nova York. Greene se referia a um orquestrado esforço de propaganda de atores da indústria dos combustíveis fósseis e de organizações que tentam convencer o público de que o aquecimento global não é um assunto de extrema urgência. “Na verdade, o IPCC tem um longo histórico de subestimar os impactos” da mudança climática, afirmou Greene.

Embora a ação mundial contra o aquecimento esteja em ponto morto, algumas cidades já estão reduzindo suas emissões de carbono. Os membros do Iclei se comprometeram com uma redução de 20% até 2020 e de 80% até 2050. A maioria dos governos não está tomando iniciativas, o que revela claramente o poder e a influência do setor dos combustíveis fósseis, pontuou Cadman. “As cidades podem fazer até dez vezes mais, mas, simplesmente, não têm dinheiro”, ressaltou.

Envolverde/IPS

IPCC sustenta que aquecimento global é inequívoco (IPS)

Ambiente

30/9/2013 – 08h01

por Fabíola Ortiz, da IPS

IPCC1 IPCC sustenta que aquecimento global é inequívoco

A elevação do nível do mar pode alagar várias regiões do Recife, no Nordeste do Brasil. Foto: Alejandro Arigón/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 30/9/2013 – Em meio a rumores de que o aquecimento global se deteve nos últimos 15 anos, o novo informe do Grupo Internacional de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) indica que as três últimas décadas foram, sucessivamente, mais quentes do que qualquer outra desde 1850. O Resumo para Responsáveis por Políticas do informe do Grupo de Trabalho I – Bases de Ciência Física, foi divulgado no dia 27, em Estocolmo, na Suécia.

O texto completo, sem edições, será conhecido hoje e constitui o primeiro dos quatro volumes do Quinto Informe de Avaliação do IPCC. O aquecimento é “inequívoco”, afirma o IPCC. “A atmosfera e o oceano esquentam, a quantidade de neve e gelo diminui, o nível do mar sobe e as concentrações de gases-estufa aumentam”, destaca o estudo.

Para o especialista brasileiro em clima, Carlos Nobre, um dos autores principais do Quarto Informe de Avaliação, o novo relatório não dá “nenhuma razão para o otimismo. Cada uma das três últimas décadas foi sucessivamente mais quente do que qualquer outra desde 1850. No Hemisfério Norte, o período 1983-2012 representa, provavelmente, os 30 anos mais quentes dos últimos 1.400”, diz o novo resumo. Os dados “das temperaturas médias terrestres e da superfície do oceano, calculados como uma tendência linear, mostram um aquecimento de 0,85 grau no período 1880-2012”, acrescentou Nobre

A respeito da suposta pausa no aumento do calor, o IPCC afirma que “a taxa de aquecimento dos últimos 15 anos (1998-2012) – que foi de 0,05 grau por década e que começou com um potente El Niño (fase quente da Oscilação do Sul) – é menor do que a calculada entre 1951 e 2012, que foi de 0,12 grau por década”.

Entretanto, argumenta, “devido à variabilidade natural, as tendências baseadas em registros de períodos curtos são muito sensíveis às datas de começo e final, e não refletem, em geral, as tendências climáticas de longo prazo”. Resumindo, diz o documento, “é virtualmente certo (99% a 100% de certeza) que a troposfera esquenta desde meados do século 20”.

Nobre indicou à IPS que “o resumo observa com mais detalhe o que está mudando e reduz as incertezas com um conhecimento científico aperfeiçoado”. Além disso, confirma que as alterações do clima se originam principalmente nas ações humanas, destacou Nobre, secretário de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia.

A humanidade deverá se decidir a deixar grande parte dos combustíveis fósseis – responsáveis pela emissão de gases que esquentam a atmosfera – e passar para outras formas de energia renovável, advertiu Nobre. Tecnicamente, é possível, falta uma opção consciente de todos os países, ressaltou. “Essa transição tem um custo, mas que é cada vez menor do que o estimado há 15 anos. O problema não é a tecnologia, mas a decisão política”, acrescentou.

Para Carlos Rittl, coordenador do programa de mudanças climáticas e energia do WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza), “embora o aquecimento tenha apresentado uma aparente estabilização quanto à temperatura média, os anos mais quentes foram registrados na última década. Isso não nos deixa em uma situação de conforto”.

O informe do IPCC, uma revisão das pesquisas científicas disponíveis, se baseou em trabalhos de 259 autores de 39 países, e contou com 54.677 comentários. Sua divulgação veio permeada de uma renovada onda mediática de dúvidas e rumores sobre a existência do aquecimento global.

Com base em diferentes trajetórias de emissão de gases-estufa, o resumo projeta para este final de século uma elevação da temperatura superior a 1,5 grau em relação ao período 1850-1900 em todos os cenários, menos no de menor concentração de gases. Também afirma que, provavelmente, o aumento exceda os dois graus até 2100 nos dois cenários de maior emissão de gases. O informe anterior, de 2007, previa aumento de dois graus, no melhor dos casos, e de até seis, no pior.

Após o fracasso da conferência intergovernamental de Copenhague, em dezembro de 2009, quando os países não conseguiram obter um acordo para reduzir a contaminação climática, foram redobrados os questionamentos ao IPCC, em particular por uma errônea estimativa do derretimento das geleiras do Himalaia. A informação “foi usada de forma irresponsável por quem nega o aquecimento global”, alertou Rittl.

Seis anos depois, há mais e melhores evidências científicas para estimar, por exemplo, quanto o derretimento de gelos contribui para a elevação do nível do mar. Até o final de 2100 a elevação média do mar oscilará entre 24 centímetros e 63 centímetros, segundo o melhor e o pior cenários de contaminação atmosférica. As chuvas “aumentarão nas regiões mais úmidas e diminuirão naquelas onde há escassez pluviométrica”, detalhou Rittl, que é doutor em ecologia.

No Brasil os exemplos são a árida região do Nordeste e as mais úmidas do Sul e Sudeste. A incidência de chuvas crescerá entre 1% e 3% em zonas do sul, segundo a velocidade do aquecimento, enquanto as áridas apresentarão padrões de seca mais severos. Todas as tendências confirmadas pelo informe são “alarmantes”, apontou Rittl. “Nós, humanos, somos responsáveis por essas mudanças, que vão piorar o cenário atual em que já há centenas de milhões de pessoas sofrendo escassez de água, de comida e de condições adequadas para sobreviver”, ressaltou.

O primeiro volume do Quinto Informe de Avaliação do IPCC é divulgado dois meses antes de acontecer em Varsóvia, na Polônia, a 19ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Nesse encontro deverá ser feito um esforço mundial para garantir a transição para uma economia baixa em dióxido de carbono, disse Nobre. “Este informe é um choque de realidade”, ressaltou.

Em sua opinião, o Brasil é um dos “poucos bons exemplos”, pois conseguiu reduzir em 38,4% suas emissões de gases-estufa entre 2005 e 2010, devido à queda no desmatamento da Amazônia. “O Brasil adotou compromissos voluntários, mas no global não há um acordo ambicioso”, explicou Nobre. Quanto mais tempo se demorar em “adotar ações concretas, mais difícil e improvável será conseguir uma trajetória sustentável de acomodação e adaptação à mudança climática”, enfatizou.

Rittl acredita que os governos devem enfrentar a mudança climática como um desafio nacional para o desenvolvimento, a inclusão social e a redução da pobreza. “É necessário lidar com os riscos e as oportunidades com muita responsabilidade”, concluiu.

Envolverde/IPS

Ahead of IPCC report, fossil-fuel groups organize climate denial campaign (Grist)

By , 20 Sep 2013 11:38 AM

tiny man, huge megaphone
Shutterstock
If only they would shut up.

Watch out: A tsunami of stupidity is due to crash over the world next Friday.

That’s when the Intergovernmental Panel on Climate Change will release a summary of its big new climate assessment report, the first since 2007. But that’s not the stupid part.

A global campaign funded by fossil-fuel interests has been steadily building to discredit the report. That’s where the stupidity comes in. From The Guardian:

Organisations that dismiss the science behind climate change and oppose curbs on greenhouse gas pollution have made a big push to cloud the release of the IPCC report, the result of six years of work by hundreds of scientists.

Those efforts this week extended to promoting the fiction of a recovery in the decline of Arctic sea ice.

The IPCC assessments, produced every six or seven years, are seen as the definitive report on climate change, incorporating the key findings from some 9,000 articles published in scientific journals.

Climate deniers are pushing their messages out through blogs as well as old-fashioned outlets like the Daily MailFrom Skeptical Science:

Like the way a picnic on a sunny afternoon in August tends to attract lots of annoying wasps, major events on the climate change timeline tend to see certain contrarian figures and organisations dialling up the rhetorical output.

This is frustrating yet it has over the years become quite predictable: arguing with some climate change contrarians is similar to attempting debate with a well-trained parrot. Imagine: the parrot has memorised some twenty statements that it can squawk out at random. Thus it will follow up on ‘no warming since 1997′ with ‘in the 1970s they said there’d be an ice-age’ and so on. Another piece in the UK-based Daily Mail’s Sunday edition of September 8th 2013, written by a figure familiar to Skeptical Science readers, Mail and Vanity Fair journalist David Rose, gives a classic example of such parroting. There’s another in the UK’s Daily Telegraph along remarkably similar lines (it could even be the same parrot).

Meanwhile, the Koch-funded Heartland Institute has already published a compilation of lies in its own preemptive report. Its “experts” are so desperate to get their climate-denying messages out that they would probably turn up at your kid’s birthday party if you asked them nicely enough.

The news here is predictable but not terrible. Scientists and activists are doing better jobs of organizing communication strategies in the face of anti-science blather. From Inside Climate News:

Dozens of prominent scientists involved with drafting IPCC reports formed a Climate Science Rapid Response Team that punches back against misleading claims about climate research.

Kevin Trenberth is part of that team as well as a climate scientist at the National Center for Atmospheric Research and an author and editor on the forthcoming IPCC report. He explained that nearly every time there is a scientific paper linking man-made carbon dioxide emissions to climate change, the “denial-sphere” immediately responds with accusations that the research is wrong.

“The scientists get nasty emails. Certain websites comment. … So a bunch of us formed this rapid response team to deflate these arguments.” The group has been very busy in recent weeks.

Although those who make a living by denying climate science are screaming as loudly as ever, most people are getting better at tuning out their histrionics. Again from the Inside Climate News article:

Cindy Baxter, a longtime climate campaigner, said she thinks climate skeptics “are getting more shrill, but getting less notice,” because Americans are more convinced that global warming is real.

“Hurricane Sandy. Droughts. Flooding. Wildfires. People are feeling the effects of climate change. That makes it harder to deny,” said Baxter, who is also a co-author of Greenpeace’s new report Dealing in Doubt, which chronicles the history of climate skeptic campaigns. Polls say a larger majority of Americans from both parties see recent waves of deadly weather as a sign of climate change.

Unfortunately, this denier campaign will be around for a while. The IPCC report due out next Friday is just the first of four scheduled to be released over the coming year. Maybe after the final one comes out, the denial pushers will finally potter off to find new work, perhaps as baby-seal clubbers, orphan poisoners, or textbook reviewers for the Texas State Board of Education.

John Upton is a science fan and green news boffin who tweets, posts articles to Facebook, and blogs about ecology. He welcomes reader questions, tips, and incoherent rants: johnupton@gmail.com.

Sociological explanations for climate change denial (resilience.org)

by Olga Bonfiglio, originally published by Energy Bulletin  | MAR 17, 2012

Talk about climate change seems to be a taboo subject in America today.

Three years ago promises by both major political parties to do something have gone by the wayside while today’sRepublican presidential candidates reject evidence that humans are responsible for the warming of the earth

The mainstream media routinely report on extreme weather, like this winter’s high temperatures and last summer’s droughts, but reporters and commentators typically veer away from connecting it to climate change.

Last October, the New York Times reported that those who believed the Earth was warming dropped from 79 percent in 2006 to 59 percent.  However, a month laterpolling experts blamed this decline on a collapse in media coverage and pollsters’ deeply flawed questions.

It turns out that the United States is one of the few countries in the world still quibbling over climate change, and its influence is stymieing progress at environmental summits like Durbin (2011), Cancun (2010), and Copenhagen (2009).

What’s going on?

As you may expect, it’s about money, politics, culture and media bias.

Ron Kramer, a sociologist at Western Michigan University, has been studying how sociological and cultural factors are preventing Americans from talking about or acting on climate change.  He drew on the research of sociologist Stanley Cohen, professor emeritus at the London School of Economics, who says that denial “refers to the maintenance of social worlds in which an undesirable situation (event, condition, phenomenon) is unrecognized, ignored or made to seem normal.”

He cites three categories of denial:

  • literal denial is: “the assertion that something did not happen or is not true.”
  • With an interpretive denial, the basic facts are not denied, however, “…they are given a different meaning from what seems apparent to others.” People recognize that something is happening but that it’s good for us.
  • Implicatory denial “covers the multitude of vocabularies, justifications, rationalizations, evasions that we use to deal with our awareness of so many images of unmitigated suffering.” Here, “knowledge itself is not an issue. The genuine challenge is doing the ‘right’ thing with this knowledge.”

Through literal and interpretive denial, climate change deniers declare that the earth is not warming even though 98 percent of our scientists have written thousands of peer-reviewed papers and reports concluding that climate change is real and caused by human activity.

Actually, deniers are organized by conservative think tanks funded by the fossil fuel industry that attempt to create doubt about climate science and block actions that would reduce greenhouse gas emissions and create clean energy alternatives.

To do this they use conspiracy theories and “fake” experts with no background in climate science.  They insist on absolute certainty, cherry-pick the data and ignore the larger body of evidence or misrepresent data and promote logical fallacies like “the climate has changed in the past, therefore current change is natural.”

“Creating doubt blocks any action,” said Kramer.  “This is the same tactic the tobacco industry used to deny that smoking was harmful to people’s health. And, some of the same people are now doing this with climate change.”

The “conservative climate change denial counter-movement,” as Kramer calls it, was led by the George W. Bush administration and congressional Republicans who obstruct and manipulate the political system to promote their view.  They are complemented by right-wing media outlets such as Fox News and Rush Limbaugh.  The mainstream media’s “balancing norm” practice then allows the denialists to be placed on par with the climate scientists.

The rationale behind this counter-movement is that corporations make money if Americans continue their materialistic attitudes and practices so they lobby politicians to protect their interests and they fund think tanks that accuse “eco-scientists” of destroying capitalism, as revealed by the New YorkTimes.

Corporations provide research monies to university scientists, who rely on them as support from state legislatures and benefactors dwindles.  They advance narratives that people from other parts of the world are worse off than Americans, so we don’t have to change.  They make claims to virtue on TV ads about all they are doing for the environment (a.k.a. “greenwashing”).  And, they argue that doing something about global warming will cost too much and cause them to lose their competitive edge.

Research shows that conservative white males are more likely to espouse climate change denial than other groups for two reasons.  They tend to filter out any information that is different from their already-held worldview because it threatens the identity, status and esteem they receive by being part of their group, he said.  Sociologists call this “Identity Protective Cognition.”

Secondly, conservative white males have a stronger need to justify the status quo and resist attempts to change it.  Sociologists call this “System Justification.”

For example, successful conservative white males stridently defend the capitalist system because it has worked well for them. For anyone to imply the system is not functioning is an unfathomable impossibility akin to blasphemy. [Climatewire via Scientific American]

“Identity Protective Cognition” should also inform environmental activists that the information deficit model of activism is not always a good approach, warned Kramer.  Just providing more information may not change anyone’s views given their commitment to a particular cultural worldview.

In implicatory denial people recognize that something untoward is happening but they fail to act because they are emotionally uncomfortable or troubled about it.

For example, there are the people who are aware of climate change and have some information about it, but take no action, make no behavioral changes and remain apathetic.

This response occurs when people confront confusing and conflicting information from political leaders and the media.  Consequently, they have yet another reason for denial—or they believe the problem can be overcome with technology and they can go on with their lives.

“At some level people understand that climate change can alter human civilization, but they feel a sense of helplessness and powerlessness at the prospect,” said Kramer.  “Others feel guilty that they may have caused the problem.”

Several cultural factors also thwart any decisive action on climate change, said Kramer.

Americans have a tendency toward “anti-intellectualism,” so “nerdy” climate scientists are easily suspect.

Our strong sense of “individualism” helps us strive toward our individual goals, but it likewise keeps us from joining together to do something about climate change.  They ask:  “What good does it do to recycle or drive less when we have such a huge, complex problem as climate change?”

“American exceptionalism” celebrates the American way of life, which has given us a vast bounty of wealth and material goods.  We want to continue this life and, in fact, deserve it.  Nothing bad will happen to us.

Finally, “political alienation” keeps us from trusting our political system to tackle the problem.

“What we ultimately need is international agreement about what to do about climate change,” said Kramer.  “Nothing will happen, however, until the United States commits to doing something.”

What to do about climate change?

Kramer believes we should regard climate change as a matter of social justice and not just science because the people most affected by it are not the ones who created it.

North American and European lifestyles, which are based on easy and cheap access to fossil fuels for energy, agriculture and consumer products have inadvertently caused much suffering, poverty and environmental degradation to the people of the Global South.

To illustrate, analysts at Maplecroft have produced a map that measures of the risk of climate change impacts and the social and financial ability of communities and governments to cope with it.  The most vulnerable nations are Haiti, Bangladesh and Zimbabwe.

Second, Kramer emphasized the moral obligation we have to future generations and other species.  Simply put, we must reduce our use of fossil fuels that are largely responsible for emitting greenhouse gases into the atmosphere and causing extreme weather conditions like hurricanes, floods, drought, tsunami, earthquakes, heat waves, warm winters and melting polar ice caps.

Again, people’s lives, livelihoods and communities are affected and it shouldn’t escape notice that human encroachment on animal habitats is contributing to massive species losses, what some call the Sixth Great Extinction.  Criminologists are grappling with the language characterizing this wonton disregard with words like “ecocide” and “biocide.”

Kramer suggests that we shift our lifestyles from a culture based on materialistic consumption to a culture based on the caretaking of the Earth, as advocated by Scott Russell Sanders in A Conservationist Manifesto (2009).  Sanders asks such questions as (see a video with Sanders)

  • What would a truly sustainable economy look like?
  • What responsibilities do we bear for the well-being of future generations?
  • What responsibilities do we bear toward Earth’s millions of other species?
  • In a time of ecological calamity and widespread human suffering, how should we imagine a good life?

Third, Kramer calls for a more “prophetic imagination” as put forward by Walter Brueggeman, a theologian and professor emeritus at Columbia Theological Seminary, where we take a reasoned approach and face the realities of climate change, confront the truth, “penetrate the numbness and despair,” and avoid drowning in our sense of loss and grief that is paralyzing us from action.

Such an approach can give voice to a “hope-filled responsibility” where people are empowered to act rather than left listless and inattentive.

“It’s not about someone being responsible, but all of us,” said Kramer, “because we are all affected by climate change.”

One major way we can do that is by reducing greenhouse gas emissions—and we have a way to measure our progress.

Bill McKibben, author of The End of Nature (1988), one of the first popularized books about global warming, contends that rising counts in greenhouse gas emissions are threatening our world.  Today, we are at 400 parts per million (ppm) and heading toward 550-650 ppm compared to pre-industrial counts that measured at 275 ppm.  McKibben advocates a goal of 350 ppm and has encouraged people in 188 countries to reduce carbon emissions in their communities.  (See the video explaining this charge.)

However, can people really be motivated to act given the complexity of the problem?

Kramer harkens to Howard Zinn’s autobiographical book, You Can’t Be Neutral on a Moving Train (1994).  In it Zinn says that we have to “look to history” to see that people working at the grassroots level were able to make change despite tremendous and entrenched obstacles.  It was people who ended slavery and Apartheid, liberated India, dismantled the Soviet Union and initiated the Arab Spring of 2011.  (See a video with Zinn)

“Climate change is a political issue” Kramer insisted.  “We know what to do.  We know that we need to mitigate the carbon emissions from fossil fuels.  What we lack is the political will and the mechanisms to move forward.”

Kramer insisted that climate change is not a party or ideological issue but rather a humanity issue.

“Planet Earth will survive,” he concluded, “but will human civilization?”

Math Explains History: Simulation Accurately Captures the Evolution of Ancient Complex Societies (Science Daily)

Sep. 23, 2013 — The question of how human societies evolve from small groups to the huge, anonymous and complex societies of today has been answered mathematically, accurately matching the historical record on the emergence of complex states in the ancient world.

A section of over 8000 Terracotta Warriors in the mausoleum of the first Qin emperor outside Xian, China. Intense warfare is the evolutionary driver of large complex societies, according to a new mathematical model whose findings accurately match those of the historical record in the ancient world. (Credit: iStockphoto)

Intense warfare is the evolutionary driver of large complex societies, according to new research from a trans-disciplinary team at the University of Connecticut, the University of Exeter in England, and the National Institute for Mathematical and Biological Synthesis (NIMBioS). The study appears this week as an open-access article in the journal Proceedings of the National Academy of Sciences.

The study’s cultural evolutionary model predicts where and when the largest-scale complex societies arose in human history.

Simulated within a realistic landscape of the Afro-Eurasian landmass during 1,500 BCE to 1,500 CE, the mathematical model was tested against the historical record. During the time period, horse-related military innovations, such as chariots and cavalry, dominated warfare within Afro-Eurasia. Geography also mattered, as nomads living in the Eurasian Steppe influenced nearby agrarian societies, thereby spreading intense forms of offensive warfare out from the steppe belt.

The study focuses on the interaction of ecology and geography as well as the spread of military innovations and predicts that selection for ultra-social institutions that allow for cooperation in huge groups of genetically unrelated individuals and large-scale complex states, is greater where warfare is more intense.

While existing theories on why there is so much variation in the ability of different human populations to construct viable states are usually formulated verbally, by contrast, the authors’ work leads to sharply defined quantitative predictions, which can be tested empirically.

The model-predicted spread of large-scale societies was very similar to the observed one; the model was able to explain two-thirds of the variation in determining the rise of large-scale societies.

“What’s so exciting about this area of research is that instead of just telling stories or describing what occurred, we can now explain general historical patterns with quantitative accuracy. Explaining historical events helps us better understand the present, and ultimately may help us predict the future,” said the study’s co-author Sergey Gavrilets, NIMBioS director for scientific activities.

Journal Reference:

  1. Turchin P, Currie T, Turner E, Gavrilets S. War, space, and the evolution of Old World complex societiesPNAS, 2013 DOI: 10.1073/pnas.1308825110

Disaster Relief Donations Track Number of People Killed, Not Number of Survivors (Science Daily)

Sep. 23, 2013 — People pay more attention to the number of people killed in a natural disaster than to the number of survivors when deciding how much money to donate to disaster relief efforts, according to new research published in Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science. The donation bias can be reversed, however, with a simple change in terminology.

“While fatalities have a severe impact on the afflicted community or country, disaster aid should be allocated to people affected by the disaster — those who are injured, homeless, or hungry,” says lead researcher Ioannis Evangelidis of Rotterdam School of Management, Erasmus University (RSM) in the Netherlands. “Our research shows that donors tend not to consider who really receives the aid.”

This discrepancy leads to a “humanitarian disaster,” say Evangelidis and colleague Bram Van den Bergh, where money is given disproportionately toward the natural disasters with the most deaths, instead of the ones with the most people in desperate need of help.

The researchers began by examining humanitarian relief data for natural disasters occurring between 2000 and 2010. As they expected, they found that the number of fatalities predicted the probability of donation, as well as the amount donated, by private donors in various disasters. Their model estimated that about $9,300 was donated per person killed in a given disaster. The number of people affected in the disasters, on the other hand, appeared to have no influence on the amount donated to relief efforts.

Evangelidis and Van den Bergh believe that donors are more likely to pay attention to a death toll when deciding how much to give because the term “affected” is ambiguous. In many cases, though, fatalities don’t correlate with the number of actual people in need.

To find a way to combat this donation bias, the researchers brought participants into the laboratory and presented them with several scenarios, involving various types of disasters and different numbers of people killed and affected.

Overall, participants allocated more money when a disaster resulted in a high death toll — even when the number of people affected was low — mirroring the data from the real natural disasters.

The bias was reversed, however, when participants had to compare two earthquakes — one that killed 4,500 and affected 7,500 versus one that claimed 7,500 and affected 4,500 — before allocating funds.

The act of comparing the two disasters seems to have forced the participants to think critically about which group actually needed the aid more. Notably, the effect carried over when the participants were asked to allocate funds for a third disaster

But the easiest, and most realistic, way to reduce the donation bias may involve a simple change in terminology. When the researchers swapped the term “affected” with the much less ambiguous term “homeless,” participants believed that money should be allocated according to the number of homeless people following a disaster.

“Above all, attention should be diverted from the number of fatalities to the number of survivors in need,” Evangelidis and Van den Bergh conclude. “We are optimistic that these insights will enhance aid to victims of future disasters.”

Journal Reference:

  1. I. Evangelidis, B. Van den Bergh. The Number of Fatalities Drives Disaster Aid: Increasing Sensitivity to People in NeedPsychological Science, 2013; DOI:10.1177/0956797613490748

Para especialistas, novo código de mineração é omisso na questão ambiental (Agência Câmara)

JC e-mail 4822, de 27 de Setembro de 2013.

Consultor do Ibase afirmou que, na última década, a exploração mineral no Brasil triplicou e isso trouxe reflexos ambientais irreversíveis

Participantes da audiência pública sobre o projeto do novo Código de Mineração (PL 5807/13, do Executivo, apensado ao PL 37/11), realizada nesta quinta-feira (26) pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, afirmaram que o texto é omisso em relação à questão ambiental.

O consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Carlos Bittencourt, afirmou que, na última década, a exploração mineral no Brasil triplicou e isso trouxe reflexos ambientais irreversíveis. Ele deu exemplos desse impacto: a atividade mineral usou cinco quatrilhões de litros de água em 2012, o equivalente ao consumo de oito cidades do porte do Rio de Janeiro.

A quantidade de energia elétrica utilizada para produzir 432 mil toneladas de alumínio é maior do que a necessária para atender as cidades de Belém (PA) e Manaus (AM). “O principal problema que a gente tem apontado é o completo silêncio em relação aos aspectos socioambientais”, afirmou Bittencourt.

Zoneamento
O advogado do Instituto Socioambiental (ISA), Raul do Valle, defendeu que a proposta crie o zoneamento de áreas de mineração e a criação de um seguro ambiental. Ele afirma que a proposta será votada sem o devido aprofundamento do debate.

“O projeto foi feito durante quatro anos a portas fechadas no Executivo e agora veio para o Congresso com 90 dias para ser aprovado. Ele precisa ter debate aprofundado e, sobretudo, incluir a dimensão socioambiental, que é a grande ausente nesse projeto”, afirmou.

O coordenador de Mineração e Obras Civis do Ibama, Jonatas Souza da Trindade, apresentou um estudo técnico, ainda não aprovado pelo órgão, que aponta a necessidade de o projeto do código seguir o modelo de outras formas de licenciamento, como as dos setores hidrelétrico e rodoviário, em que o planejamento ambiental é feito antes do licenciamento ambiental.

“Tecnicamente isso melhora e qualifica o processo de licenciamento ambiental. Esse é um entendimento técnico que ainda não foi aprovado, mas é um possível encaminhamento”, afirmou Trindade.

Questão tratada
O assessor da Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, Marcel Stenner, afirmou o contrário dos especialistas em meio ambiente. Segundo ele, a legislação atual dá pouco tratamento para a questão ambiental, diferente do projeto do governo.

“A legislação proposta pelo governo aborda várias das questões, dá tratamento, cria a questão da responsabilidade do agente minerador sobre eventuais danos e impactos ambientais e estabelece condições para que a gente venha a garantir o cumprimento dessas áreas”, disse.

Emendas
O coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, deputado Sarney Filho (PV-MA), afirma que existem mais de 20 emendas ao novo código tratando de aspectos socioambientais. “O sentido geral desse código, do jeito que veio, não é favor da sociedade, é a favor das empresas. Isso que temos que inverter”, disse. Sarney Filho defende condicionantes para que os lucros das empresas sejam limitados pela segurança ambiental.

Ao todo, a proposta recebeu 372 emendas. Elas serão analisadas pelo relator, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG). O projeto vai ser votado na comissão especial em outubro e depois segue para o Plenário da Câmara.

Íntegra da proposta:
PL-37/2011
PL-5807/2013
(Agência Câmara – 26/09)

Pesquisadores criam escalas para avaliação da dor em bovinos, equinos e suínos (Fapesp)

Por meio da análise de alterações comportamentais, estudo da Unesp de Botucatu busca mais precisão para diagnósticos e tratamentos veterinários (Stélio Pacca Loureiro Luna)

Especiais

25/09/2013

Por Noêmia Lopes

Agência FAPESP – Apesar da crescente preocupação nacional e internacional com o bem-estar dos animais, espécies pecuárias ainda são negligenciadas quando o assunto é dor. “A ausência de escalas cientificamente validadas que auxiliem produtores, veterinários e pesquisadores a reconhecer e a mensurar a dor nesses animais contribui para o tratamento inapropriado ou insuficiente da dor”, afirmou Stélio Pacca Loureiro Luna, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (FMVZ/Unesp) de Botucatu (SP), à Agência FAPESP.

Luna coordena um Projeto Temático que, desde 2010, busca propor e validar escalas que indiquem se, para determinado quadro clínico, é recomendável ou não aplicar analgésicos. O foco principal é a dor aguda pós-operatória em bovinos, equinos e suínos.

As escalas são criadas a partir da análise de alterações comportamentais relacionadas a fatores como postura, posição da cabeça, locomoção, interação com o ambiente, ingestão de alimentos, atenção à ferida cirúrgica, entre outras.

Para identificar e analisar as alterações, os pesquisadores gravam vídeos em momentos distintos: antes do procedimento, quando os animais estão sem dor; logo após a cirurgia, quando há um pico de dor; e depois da aplicação de analgésicos, quando se espera que já não haja dor.

“O procedimento que adotamos para as três espécies estudadas foi a castração, por ser relativamente invasivo, atingir tecidos de alta sensibilidade, gerar uma inflamação grande e estar entre as cirurgias mais realizadas nesses animais”, explicou Luna.

A etapa de filmagens, com cerca de 700 horas, já foi concluída. Os vídeos dos suínos, captados a partir de câmeras instaladas nas baias, estão em análise pela FMVZ/Unesp. As imagens dos equinos (também feitas a partir das baias) e dos bovinos (gravadas em pastos, com anteparos separando observador e boi, a fim de que a presença do primeiro não afetasse o comportamento do segundo) já passaram às fases seguintes: validação externa e cálculos estatísticos.

A validação do conteúdo que dará forma às escalas é feita por especialistas e pesquisadores vinculados a instituições parceiras no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha e em outros países da América do Sul, como Uruguai e Argentina.

Cada avaliador recebe trechos de vídeos sem ordem cronológica, ou seja, sem saber se o animal em questão foi filmado antes ou logo após a cirurgia ou ainda depois da medicação. Então, assinala em uma tabela se recomendaria a aplicação de analgésicos; classifica a dor de acordo com uma escala descritiva simples (sem dor = 0; dor leve = 1; dor moderada = 2, dor intensa =3); e indica quais alterações comportamentais consegue perceber a partir das imagens.

Por fim, a equipe da FMVZ/Unesp recebe a devolutiva dos materiais, faz comparações com as suas conclusões iniciais e realiza análises estatísticas para compor escalas validadas em três idiomas (português, inglês e espanhol). São tabelas com a descrição das alterações comportamentais mais relevantes, acompanhadas de vídeos e classificadas com notas que, somadas, resultam em um escore total. “A partir de ao redor de um terço da pontuação máxima, por meio de cálculos matemáticos, considera-se que o animal é meritório de receber analgésicos”, afirmou Luna.

“Quando estiverem finalizados, os produtos finais do estudo serão pioneiros para dor aguda em bovinos e suínos, que ainda não contam com escalas validadas nacional ou internacionalmente”, disse o pesquisador. “Entre equinos, até então havia somente uma escala ortopédica, mas nada a respeito de tecidos moles, atingidos, por exemplo, pela castração.”

As novas ferramentas serão disponibilizadas gratuitamente no site Animal Pain, no qual a FMVZ/Unesp já publicou uma escala de dor aguda em gatos, resultado de um projeto de pós-doutorado supervisionado por Luna e apoiado pela FAPESP. Dois dos artigos relacionados a esse estudo podem ser lidos em Journal of Feline Medicine and Surgery e BMC Veterinary Research.

“Ampliar os conhecimentos sobre a dor e, assim, aplicar analgésicos com mais propriedade é importante para o bem-estar dos animais e do ponto de vista prático. Isso porque pode haver ganhos [para o produtor], como menor tempo de recuperação pós-operatória e redução de inflamações”, disse Luna.

Anestesia em suínos

Ainda no âmbito do Projeto Temático, Luna orientou uma iniciação científica sobre os efeitos da castração de leitões com e sem o uso de anestésico local.

A investigação concluiu que o ganho de peso nos animais castrados com anestesia é superior ao dos animais que não recebem anestésicos.

“Em termos financeiros, há um ganho significativo para propriedades com milhares de animais. O procedimento cirúrgico fica um minuto mais lento, mas a relação custo-benefício é promissora. Sem contar que a medida colabora com o bem-estar animal e agrega valor ao produto perante o mercado consumidor”, disse Luna.

A partir de tal comprovação, os pesquisadores esperam inspirar o uso de anestésicos em suínos durante outros procedimentos que em geral são feitos sem anestesia, como o corte da cauda e a extração de dentes.

Dor crônica em cães

Por meio de um projeto de pós-doutorado, a equipe de Luna também busca estabelecer correlações entre o Índice de Dor Crônica de Helsinki (IDCH) – criado pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, para avaliar a dor em cães – e experimentos realizados na própria FMVZ/Unesp.

“Esse tipo de escala, referente a problemas crônicos, é feita a partir de relatos dos proprietários de cães, que, por conviverem diretamente com os animais, podem opinar sobre o humor, a disposição para brincar, entre outros fatores. Buscamos incorporar elementos mais objetivos a esse tipo de ferramenta, usando a análise de movimento (cinética) dos animais e plataforma de pressão (baropodometria)”, afirmou Luna.

Para tanto, foram observados animais com displasia coxofemoral (um problema no assentamento da articulação entre o fêmur e a coxa), enquanto caminhavam sobre a plataforma de pressão. Os pesquisadores coletaram dados sobre a movimentação, a angulação das patas, a pressão exercida sobre o dispositivo e a distribuição do peso em cada membro.

“Pretendemos correlacionar as medidas objetivas da locomoção com o IDCH a fim de aprimorar a mensuração da dor e indicar possíveis tratamentos”, disse Luna.

Estímulos nociceptivos em equinos

Dois outros projetos, ambos de doutorado, estão vinculados ao Temático e interligados: uma tese busca padronizar e validar diferentes métodos de nocicepção – estímulos térmicos, mecânicos e elétricos capazes de provocar certo desconforto – em equinos e um segundo projeto visa avaliar o efeito de diferentes vias de administração de analgésicos, também em cavalos.

“O objetivo é conhecer a eficácia e a duração de analgésicos frente aos estímulos que provocamos – primeiramente testados em nós mesmos, como forma de assegurar que não causam lesões, apenas incômodos”, explicou Luna.

Para tanto, animais saudáveis e conscientes recebem analgesia. Em seguida, são estimulados termicamente (com sensores que esquentam via controle remoto), mecanicamente (com um dispositivo semelhante ao que mede a pressão arterial em humanos) ou eletricamente (por meio de pequenos choques).

“Se há desconforto, o animal levanta a pata, quando então interrompemos o estímulo. Assim, conseguimos avaliar se o analgésico faz efeito, se influencia no limiar do incômodo – em vez de o cavalo puxar a pata quando o sensor acusa 45 graus Celsius, ele o faz a 48 graus Celsius, por exemplo – e por quanto tempo a medicação faz efeito”, completou o professor da FMVZ/Unesp.

Estamos preparados para o pré-sal e o gás de xisto? (O Estado de São Paulo)

JC e-mail 4817, de 20 de Setembro de 2013.

Em artigo publicado no Estadão, Washington Novaes* reforça o alerta da SBPC sobre os riscos da exploração do gás xisto

Anuncia-se que em novembro vão a leilão áreas brasileiras onde se pretende explorar o gás de xisto, da mesma forma que estão sendo leiloadas áreas do pré-sal para exploração de petróleo no mar. Deveríamos ser prudentes nas duas direções. No pré-sal, não se conhecem suficientemente possíveis consequências de exploração em áreas profundas. No caso do xisto, em vários países já há proibições de exploração ou restrições, por causa das consequências, na sua volta à superfície, da água e de insumos químicos injetados no solo para “fraturar” as camadas de rocha onde se encontra o gás a ser liberado. Mas as razões financeiras, em ambos os casos, são muito fortes e estão prevalecendo em vários lugares, principalmente nos Estados Unidos.

No Brasil, onde a tecnologia para o fraturamento de rochas ainda vai começar a ser utilizada, há um questionamento forte da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências, que, em carta à presidente da República (5/8), manifestaram sua preocupação com esse leilão para campos de gás em bacias sedimentares. Nestas, diz a carta, agências dos EUA divulgaram que o Brasil teria reservas de 7,35 trilhões de metros cúbicos em bacias no Paraná, no Parnaíba, no Solimões, no Amazonas, no Recôncavo Baiano e no São Francisco. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) estima que as reservas podem ser o dobro disso. Mas, segundo a SBPC e a ANP, falta “conhecimento das características petrográficas, estruturais e geomecânicas” consideradas nesses cálculos, que poderão influir “decisivamente na economicidade de sua exploração”.

E ainda seria preciso considerar os altos volumes de água no processo de fratura de rochas para liberar gás, “que retornam à superfície poluídos por hidrocarbonetos e por outros compostos”, além de metais presentes nas rochas e “dos próprios aditivos químicos utilizados, que exigem caríssimas técnicas de purificação e de descarte dos resíduos finais”. A água utilizada precisaria ser confrontada “com outros usos considerados preferenciais”, como o abastecimento humano. E lembrar ainda que parte das reservas está “logo abaixo do Aquífero Guarani”; a exploração deveria “ser avaliada com muita cautela, já que há um potencial risco de contaminação das águas deste aquífero”.

Diante disso, não deveria haver licitações imediatas, “excluindo a comunidade científica e os próprios órgãos reguladores do país da possibilidade de acesso e discussão das informações”, que “poderão ser obtidas por meio de estudos realizados diretamente pelas universidades e institutos de pesquisa”. Além do maior conhecimento científico das jazidas, os estudos poderão mostrar “consequências ambientais dessa atividade, que poderão superar amplamente seus eventuais ganhos sociais”. É uma argumentação forte, que, em reunião da SBPC no Recife (22 a 27/7), levou a um pedido de que seja sustada a licitação de novembro.

Em muitos outros lugares a polêmica está acesa – como comenta o professor Luiz Fernando Scheibe, da USP, doutor em Mineração e Petrologia (12/9). Como na Grã-Bretanha, onde se argumenta que a tecnologia de fratura, entre muitos outros problemas, pode contribuir até para terremotos. A liberação de metano no processo também pode ser altamente problemática, já que tem efeitos danosos equivalentes a mais de 20 vezes os do dióxido de carbono, embora permaneça menos tempo na atmosfera. E com isso anularia as vantagens do gás de xisto para substituir o uso de carvão mineral. O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) tem argumentado que o gás de xisto pode, na verdade, aumentar as emissões de poluentes que contribuem para mudanças do clima.

Na França os protestos têm sido muitos (Le Monde, 16/7) e levado o país a restrições fortes, assim como na Bulgária. Alguns Estados norte-americanos proibiram a tecnologia em seus territórios, mas o governo dos EUA a tem aprovado, principalmente porque o gás de xisto não só é mais barato que o carvão, como reduziu substancialmente as importações de combustíveis fósseis do país, até lhe permitindo exportar carvão excedente. E a Agência Internacional de Energia está prevendo que até 2035 haverá exploração do gás de xisto em mais de 1 milhão de pontos no mundo. Nos EUA, este ano, a produção de gás de xisto estará em cerca de 250 bilhões de metros cúbicos – facilitada pela decisão governamental de liberar a Agência de Proteção Ambiental de examinar possíveis riscos no processo e pela existência de extensa rede de gasodutos (o Brasil só os tem na região leste; gás consumido aqui vem da Bolívia).

Também a China seria potencial usuária do gás, pois 70% de sua energia vem de 3 bilhões de toneladas anuais de carvão (quase 50% do consumo no mundo).Embora tenha 30 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto – mais que os EUA -, o problema é que as jazidas se situam em região de montanhas, muito distante dos centros de consumo – o que implicaria um aumento de 50% no custo para o usuário, comparado com o carvão. Por isso mesmo, a China deverá aumentar o consumo do carvão nas próximas décadas (Michael Brooks na New Scientist, 10/8).

E assim vamos, em mais uma questão que sintetiza o dilema algumas vezes já comentado neste espaço: lógica financeira versus lógica “ambiental”, da sobrevivência. Com governos, empresas, pessoas diante da opção de renunciar a certas tecnologias e ao uso de certos bens – por causa dos problemas de poluição, clima, consumo insustentável de recursos, etc. -, ou usá-los por causa das vantagens financeiras imediatas, que podem ser muito fortes.

Cada vez mais, será esse o centro das discussões mais fortes em toda parte, inclusive no Brasil – com repercussões amplas nos campos político e social. Preparemo-nos.

*Washington Novaes é jornalista.

Quinto relatório do IPCC: repercussão

Documento divulgado nesta sexta (27/09) afirma que a temperatura do planeta pode subir quase 5 °C durante este século, o que poderá elevar o nível dos oceanos em até 82 centímetros (foto do Oceano Ártico: Nasa)

Especiais

Quinto relatório do IPCC mostra intensificação das mudanças climáticas

27/09/2013

Por Karina Toledo, de Londres

Agência FAPESP – Caso as emissões de gases do efeito estufa continuem crescendo às atuais taxas ao longo dos próximos anos, a temperatura do planeta poderá aumentar até 4,8 graus Celsius neste século – o que poderá resultar em uma elevação de até 82 centímetros no nível do mar e causar danos importantes na maior parte das regiões costeiras do globo.

O alerta foi feito pelos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), que divulgaram no dia 27 de setembro, em Estocolmo, na Suécia, a primeira parte de seu quinto relatório de avaliação (AR5). Com base na revisão de milhares de pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, o documento apresenta as bases científicas da mudança climática global.

De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos seis brasileiros que participaram da elaboração desse relatório, foram simulados quatro diferentes cenários de concentrações de gases de efeito estufa, possíveis de acontecer até o ano de 2100 – os chamados “Representative Concentration Pathways (RCPs)”.

“Para fazer a previsão do aumento da temperatura são necessários dois ingredientes básicos: um modelo climático e um cenário de emissões. No quarto relatório (divulgado em 2007) também foram simulados quatro cenários, mas se levou em conta apenas a quantidade de gases de efeito estufa emitida. Neste quinto relatório, nós usamos um sistema mais completo, que leva em conta os impactos dessas emissões, ou seja, o quanto haverá de alteração no balanço de radiação do sistema terrestre”, explicou Artaxo, que está em Londres para a FAPESP Week London, onde participou de um painel sobre mudança climática.

O balanço de radiação corresponde à razão entre a quantidade de energia solar que entra e que sai de nosso planeta, indicando o quanto ficou armazenada no sistema terrestre de acordo com as concentrações de gases de efeito estufa, partículas de aerossóis emitidas e outros agentes climáticos.

O cenário mais otimista prevê que o sistema terrestre armazenará 2,6 watts por metro quadrado (W/m2) adicionais. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre poderia variar entre 0,3 °C e 1,7 °C de 2010 até 2100 e o nível do mar poderia subir entre 26 e 55 centímetros ao longo deste século.

“Para que esse cenário acontecesse, seria preciso estabilizar as concentrações de gases do efeito estufa nos próximos 10 anos e atuar para sua remoção da atmosfera. Ainda assim, os modelos indicam um aumento adicional de quase 2 °C na temperatura – além do 0,9 °C que nosso planeta já aqueceu desde o ano 1750”, avaliou Artaxo.

O segundo cenário (RCP4.5) prevê um armazenamento de 4,5 W/m2. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre seria entre 1,1 °C e 2,6 °C e o nível do mar subiria entre 32 e 63 centímetros. No terceiro cenário, de 6,0 W/m2, o aumento da temperatura varia de 1,4 °C até 3,1 °C e o nível do mar subiria entre 33 e 63 centímetros.

Já o pior cenário, no qual as emissões continuam a crescer em ritmo acelerado, prevê um armazenamento adicional de 8,5 W/m2. Em tal situação, segundo o IPCC, a superfície da Terra poderia aquecer entre 2,6 °C e 4,8 °C ao longo deste século, fazendo com que o nível dos oceanos aumente entre 45 e 82 centímetros.

“O nível dos oceanos já subiu em média 20 centímetros entre 1900 e 2012. Se subir outros 60 centímetros, com as marés, o resultado será uma forte erosão nas áreas costeiras de todo o mundo. Rios como o Amazonas, por exemplo, sofrerão forte refluxo de água salgada, o que afeta todo o ecossistema local”, disse Artaxo.

Segundo o relatório AR5 do IPCC, em todos os cenários, é muito provável (90% de probabilidade) que a taxa de elevação dos oceanos durante o século 21 exceda a observada entre 1971 e 2010. A expansão térmica resultante do aumento da temperatura e o derretimento das geleiras seriam as principais causas.

O aquecimento dos oceanos, diz o relatório, continuará ocorrendo durante séculos, mesmo se as emissões de gases-estufa diminuírem ou permanecerem constantes. A região do Ártico é a que vai aquecer mais fortemente, de acordo com o IPCC.

Segundo Artaxo, o aquecimento das águas marinhas tem ainda outras consequências relevantes, que não eram propriamente consideradas nos modelos climáticos anteriores. Conforme o oceano esquenta, ele perde a capacidade de absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Se a emissão atual for mantida, portanto, poderá haver uma aceleração nas concentrações desse gás na atmosfera.

“No relatório anterior, os capítulos dedicados ao papel dos oceanos nas mudanças climáticas careciam de dados experimentais. Mas nos últimos anos houve um enorme avanço na ciência do clima. Neste quinto relatório, por causa de medições feitas por satélites e de observações feitas com redes de boias – como as do Projeto Pirata que a FAPESP financia no Atlântico Sul –, a confiança sobre o impacto dos oceanos no clima melhorou muito”, afirmou Artaxo.

Acidificação dos oceanos

Em todos os cenários previstos no quinto relatório do IPCC, as concentrações de CO2 serão maiores em 2100 em comparação aos níveis atuais, como resultado do aumento cumulativo das emissões ocorrido durante os séculos 20 e 21. Parte do CO2 emitido pela atividade humana continuará a ser absorvida pelos oceanos e, portanto, é “virtualmente certo” (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar. No melhor dos cenários – o RCP2,6 –, a queda no pH será entre 0,06 e 0,07. Na pior das hipóteses – o RCP8,5 –, entre 0,30 e 0,32.

“A água do mar é alcalina, com pH em torno de 8,12. Mas quando absorve CO2 ocorre a formação de compostos ácidos. Esses ácidos dissolvem a carcaça de parte dos microrganismos marinhos, que é feita geralmente de carbonato de cálcio. A maioria da biota marinha sofrerá alterações profundas, o que afeta também toda a cadeia alimentar”, afirmou Artaxo.

Ao analisar as mudanças já ocorridas até o momento, os cientistas do IPCC afirmam que as três últimas décadas foram as mais quentes em comparação com todas as anteriores desde 1850. A primeira década do século 21 foi a mais quente de todas. O período entre 1983 e 2012 foi “muito provavelmente” (90% de probabilidade) o mais quente dos últimos 800 anos. Há ainda cerca de 60% de probabilidade de que tenha sido o mais quente dos últimos 1.400 anos.

No entanto, o IPCC reconhece ter havido uma queda na taxa de aquecimento do planeta nos últimos 15 anos – passando de 0,12 °C por década (quando considerado o período entre 1951 e 2012) para 0,05°C (quando considerado apenas o período entre 1998 e 2012).

De acordo com Artaxo, o fenômeno se deve a dois fatores principais: a maior absorção de calor em águas profundas (mais de 700 metros) e a maior frequência de fenômenos La Niña, que alteram a taxa de transferência de calor da atmosfera aos oceanos. “O processo é bem claro e documentado em revistas científicas de prestígio. Ainda assim, o planeta continua aquecendo de forma significativa”, disse.

Há 90% de certeza de que o número de dias e noites frios diminuíram, enquanto os dias e noites quentes aumentaram na escala global. E cerca de 60% de certeza de que as ondas de calor também aumentaram. O relatório diz haver fortes evidências de degelo, principalmente na região do Ártico. Há 90% de certeza de que a taxa de redução da camada de gelo tenha sido entre 3,5% e 4,1% por década entre 1979 e 2012.

As concentrações de CO2 na atmosfera já aumentaram mais de 20% desde 1958, quando medições sistemáticas começaram a ser feitas, e cerca de 40% desde 1750. De acordo com o IPCC, o aumento é resultado da atividade humana, principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento, havendo uma pequena participação da indústria cimenteira.

Para os cientistas há uma “confiança muito alta” (nove chances em dez) de que as taxas médias de CO2, metano e óxido nitroso do último século sejam as mais altas dos últimos 22 mil anos. Já mudanças na irradiação solar e a atividade vulcânica contribuíram com uma pequena fração da alteração climática. É “extremamente provável” (95% de certeza) de que a influência humana sobre o clima causou mais da metade do aumento da temperatura observado entre 1951 e 2010.

“Os efeitos da mudança climática já estão sendo sentidos, não é algo para o futuro. O aumento de ondas de calor, da frequência de furacões, das inundações e tempestades severas, das variações bruscas entre dias quentes e frios provavelmente está relacionado ao fato de que o sistema climático está sendo alterado”, disse Artaxo.

Impacto persistente

Na avaliação do IPCC, muitos aspectos da mudança climática vão persistir durante muitos séculos mesmo se as emissões de gases-estufa cessarem. É “muito provável” (90% de certeza) que mais de 20% do CO2 emitido permanecerá na atmosfera por mais de mil anos após as emissões cessarem, afirma o relatório.

“O que estamos alterando não é o clima da próxima década ou até o fim deste século. Existem várias publicações com simulações que mostram concentrações altas de CO2 até o ano 3000, pois os processos de remoção do CO2 atmosférico são muito lentos”, contou Artaxo.

Para o professor da USP, os impactos são significativos e fortes, mas não são catastróficos. “É certo que muitas regiões costeiras vão sofrer forte erosão e milhões de pessoas terão de ser removidas de onde vivem hoje. Mas claro que não é o fim do mundo. A questão é: como vamos nos adaptar, quem vai controlar a governabilidade desse sistema global e de onde sairão recursos para que países em desenvolvimento possam construir barreiras de contenção contra as águas do mar, como as que já estão sendo ampliadas na Holanda. Quanto mais cedo isso for planejado, menores serão os impactos socioeconômicos”, avaliou.

Os impactos e as formas de adaptação à nova realidade climática serão o tema da segunda parte do quinto relatório do IPCC, previsto para ser divulgado em janeiro de 2014. O documento contou com a colaboração de sete cientistas brasileiros. Outros 13 brasileiros participaram da elaboração da terceira parte do AR5, que discute formas de mitigar a mudança climática e deve sair em março.

De maneira geral, cresceu o número de cientistas vindos de países em desenvolvimento, particularmente do Brasil, dentro do IPCC. “O Brasil é um dos países líderes em pesquisas sobre mudança climática atualmente. Além disso, o IPCC percebeu que, se o foco ficasse apenas nos países desenvolvidos, informações importantes sobre o que está acontecendo nos trópicos poderiam deixar de ser incluídas. E é onde fica a Amazônia, um ecossistema-chave para o planeta”, disse Artaxo.

No dia 9 de setembro, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) divulgou o sumário executivo de seu primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1). O documento, feito nos mesmos moldes do relatório do IPCC, indica que no Brasil o aumento de temperatura até 2100 será entre 1 °C e 6 °C, em comparação à registrada no fim do século 20. Como consequência, deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.

“A humanidade nunca enfrentou um problema cuja relevância chegasse perto das mudanças climáticas, que vai afetar absolutamente todos os seres vivos do planeta. Não temos um sistema de governança global para implementar medidas de redução de emissões e verificação. Por isso, vai demorar ainda pelo menos algumas décadas para que o problema comece a ser resolvido”, opinou Artaxo.

Para o pesquisador, a medida mais urgente é a redução das emissões de gases de efeito estufa – compromisso que tem de ser assumido por todas as nações. “A consciência de que todos habitamos o mesmo barco é muito forte hoje, mas ainda não há mecanismos de governabilidade global para fazer esse barco andar na direção certa. Isso terá que ser construído pela nossa geração”, concluiu.

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JC e-mail 4822, de 27 de Setembro de 2013.

IPCC lança na Suécia novo relatório sobre as mudanças climáticas (O Globo)

O documento reúne previsões do aquecimento global até 2100 apontando aumento de temperatura superior a 2 graus. ‘A influência humana no clima é clara’, diz trabalho

A previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) é que o aquecimento global até o final do século 21 seja “provavelmente superior” a 2 graus (com pelo menos 66% de chances disto acontecer), superando o limite considerado seguro pelos especialistas. Até 2100, o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros, considerando o pior cenário (ou de 26 a 55 centímetros, no melhor), e o gelo do Ártico pode diminuir até 94% durante o verão local.

Além disso, o relatório do IPCC — publicado na manhã desta sexta-feira em Estocolmo, na Suécia, com as bases científicas mais atualizadas sobre as mudanças climáticas — considera que há mais de 95% de certeza para afirmar que o homem causou mais da metade da elevação média da temperatura entre 1951 e 2010. Neste período, o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros.

O documento, com o trabalho de 259 cientistas e representantes dos governos de 195 países, inclusive o Brasil, ressalta que parte das emissões de CO2 provocadas pelo homem continuará a ser absorvida pelos oceanos. Por isso, é praticamente certo (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar, afetando profundamente a vida marinha.

– A mudança de temperatura da superfície do planeta deve exceder 1,5 grau, e, provavelmente, será superior a 2 graus – disse o copresidente do trabalho Thomas Stocker. – É muito provável que as ondas de calor ocorram com mais frequência e durem mais tempo. Com o aquecimento da Terra, esperamos ver regiões atualmente úmidas recebendo mais chuvas, e as áridas, menos, apesar de haver exceções.

Os especialistas fizeram quatro projeções considerando situações diferentes de emissões de gases-estufa. Em todas, há aumento de temperatura. As mais brandas ficam entre 0,3 ºC e 1,7 ºC. Nestes casos, seria necessário diminuir muito as emissões. Já no cenário mais pessimista, o aquecimento ficaria entre 2,6 ºC e 4,8 ºC.

– Na minha opinião, o relatório é muito bom, repleto de informações e todas muito bem fundamentadas – comentou a especialista brasileira Suzana Kahn, que faz parte do grupo de pesquisadores do IPCC em Estocolmo. – No fundo, o grande ganho é a comprovação do que tem sido dito há mais tempo, com muito mais informação sobre o papel dos oceanos, das nuvens e aerossóis. Isto é muito importante para o mundo científico, pois aponta para áreas que precisam ser mais investigadas.

Suzana conta que a dificuldade de fazer projeções e análises para o Hemisfério Sul causou muita polêmica. O grande problema é a falta de dados:

– Acho que isto foi interessante para comprovar que estávamos certos ao criar o Painel Brasileiro de Mudança Climática para suprir esta lacuna.

De acordo com Carlos Rittl, Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energias do WWF-Brasil, o relatório do IPCC deixa uma mensagem clara: o aquecimento global é incontestável. E é preciso começar agora contra os piores efeitos.

– O relatório do IPCC reafirma algumas certezas e vai além. Aponta a perda de massa de gelo, o aumento do nível dos oceanos, o incremento de chuvas onde já se chove muito, além da diminuição da umidade nas regiões mais áridas. No Brasil, o semiárido pode se tornar mais árido. Por outro lado, o Sul e Sudeste podem ter mais chuvas do que hoje – enumerou Rittl. – É importante ressaltar que o relatório fala de médias. Ou seja, em algumas regiões do país pode haver aumento de seis graus, com picos de mais de oito graus. A gente não está preparado para isso. E nossas emissões nos colocam numa trajetória de altíssimo risco, mais próxima dos piores cenários.

Para Rittl, a ciência está dando uma mensagem clara: é preciso diminuir as emissões. Isso significa levar os temas relacionados às mudanças climáticas para as decisões políticas:

– Hoje o aquecimento global ainda é um tema marginal. Os investimentos em infraestrutura, energia, o plano Safra, todos os grandes investimentos da escala de trilhões de reais não têm praticamente nenhuma vinculação com a lógica de baixo carbono. Estamos sendo pouco responsáveis.

Diplomacia e ciência
John Kerry, secretário de Estado dos EUA, ressalta que o relatório do IPCC não deve ser esquecido num armário, nem interpretado como uma peça política feita por políticos: “é ciência”, resume. De acordo com ele, os Estados Unidos estão “profundamente comprometidos em combater as mudanças climáticas”, reduzindo emissões de gases-estufa e investindo em formas eficientes de energia.

Este é mais um chamado de atenção: aqueles que negam a ciência ou procuram desculpas para evitar a ação estão brincando com fogo – afirmou Kerry. – O resumo do relatório do IPCC é este: a mudança climática é real, está acontecendo agora, os seres humanos são a causa dessa transformação, e somente a ação dos seres humanos pode salvar o mundo de seus piores impactos.

Lançado a cada seis anos, os relatórios do IPCC estão sob críticas de especialistas. O processo de análise dos documentos por representantes do governo acaba chegando a uma situação intermediária entre diplomacia e ciência, explica Emilio La Rovere, pesquisador da Coppe/UFRJ.

– O resultado é um meio termo entre diplomacia e ciência – afirmou Rovere.
Um dos pontos mais polêmicos são os chamados hiatos, períodos de cerca de 15 anos em que a temperatura média do planeta não aumenta. Por exemplo, a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha anunciou, nesta semana, que o último trimestre na Península Ibérica foi o menos quente desde 2008. Entretanto, o relatório de 2007 do IPCC não citou estas pausas do aquecimento, dando argumento aos céticos.

Limite do aquecimento global
As informações do IPCC são importantes para a criação de estratégias de combate às mudanças climáticas. Na Convenção do Clima da Dinamarca (COP-15, realizada em 2009), foi criada a meta de limitar o aquecimento global em 2 graus. Para isso acontecer em 2050, explica Emilio La Rovere, da Coppe/UFRJ, seria necessário cortar 80% das emissões em comparação com 1990:

– Os modelos matemáticos simulando evolução demográfica, economia mundial, demanda e oferta de energia mostram que fica realmente quase impossível atingir este objetivo.

Este é o Quinto Relatório do IPCC, que será lançado em quatro partes, entre setembro de 2013 e novembro de 2014. Nesta sexta-feira, foi publicado o documento do Grupo de Trabalho I (sobre os aspectos científicos das mudanças climáticas). Entre os dias 25 e 29 de março de 2014, será a vez do Grupo de Trabalho II (analisando os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade), que se reunirá em Yokohama, no Japão. O Grupo de Trabalho III (especializado na mitigação dos impactos das mudanças climáticas) está previsto para os dias 7 e 11 de abril em Berlim, na Alemanha. Por fim, será criado um relatório síntese, cujos trabalhos ocorrerão entre os dias 27 e 31 de outubro, em Copenhague, na Dinamarca.

(Cláudio Motta/O Globo)

http://oglobo.globo.com/ciencia/ipcc-lanca-na-suecia-novo-relatorio-sobre-as-mudancas-climaticas-10173671#ixzz2g6D6tmU6

Matéria complementar de O Globo:

Relatório destaca como a ação humana agrava o aquecimento
http://oglobo.globo.com/ciencia/relatorio-destaca-como-acao-humana-agrava-aquecimento-1-10171896#ixzz2g6MfZIsl

Veja mais em:

Folha de S.Paulo
Relatório sobe tom de alerta sobre aquecimento
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/131005-relatorio-sobe-tom-de-alerta-sobre-aquecimento.shtml

Agência Estado
ONU culpa atividades humanas por aquecimento global
http://www.territorioeldorado.limao.com.br/noticias/not297255.shtm

Zero Hora
Temperatura da Terra subirá entre 0,3°C e 4,8°C neste século, aponta IPCC
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/planeta-ciencia/noticia/2013/09/temperatura-da-terra-subira-entre-0-3c-e-4-8c-neste-seculo-aponta-ipcc-4283083.html

Correio Braziliense
Temperatura do planeta subirá entre 0,3 e 4,8ºC no século 21, diz IPCC
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2013/09/27/interna_ciencia_saude,390388/temperatura-do-planeta-subira-entre-0-3-e-4-8-c-no-seculo-21-diz-ipcc.shtml

 

Por trás do desmatamento da Amazônia (Fapesp)

Mais de 50% das emissões de gases de efeito estufa do bioma são causados pela demanda do restante do país e do exterior por insumos produzidos na região, aponta estudo feito na USP (Nasa)

Especiais

20/09/2013

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – O consumo interno do Brasil e as exportações de soja, carne bovina e outros produtos primários provenientes da Amazônia são responsáveis por mais da metade das taxas de desmatamento e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa (GEE) registradas pelo bioma.

A avaliação é de um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), no âmbito de um Projeto Temático, realizado no Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Os resultados do estudo foram apresentados no dia 12 de setembro durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), realizada pela FAPESP em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), em São Paulo.

“Mais da metade das emissões de GEE da Amazônia acontecem por conta da demanda de consumo fora da região, para abastecimento interno do país ou para exportação”, disse Joaquim José Martins Guilhoto, professor da FEA e um dos pesquisadores participantes do projeto.

De acordo com dados apresentados pelo pesquisador, obtidos do segundo Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa – publicado no final de 2010, abrangendo o período de 1990 a 2005 –, em 2005 o Brasil emitiu mais de 2,1 gigatoneladas de CO2 equivalente. A Amazônia contribui com mais de 50% das emissões de GEE do país.

A fim de identificar e entender os fatores econômicos causadores do desmatamento e, por conseguinte, das emissões de GEE na Amazônia naquele ano, os pesquisadores fizeram um mapeamento das emissões diretas por atividade produtiva separando a Região Amazônica do restante do Brasil e calcularam a parcela de contribuição de cada um na emissão de CO2 equivalente, assim como a participação das exportações.

Os cálculos revelaram que as exportações diretas da Amazônia são responsáveis por 16,98% das emissões de GEE da região. Já as exportações do resto do país são responsáveis por mais 6,29% das emissões da Amazônia, uma vez que há produtos provenientes da região que são processados e exportados por outros estados brasileiros.

O consumo interno, por sua vez, responde por 46,13% das emissões amazônicas, sendo 30,01% pelo consumo no restante do país e 16,12% pelo consumo dentro da própria Região Amazônica, aponta o estudo.

“A soma desses percentuais demonstra que mais de 50% das emissões de GEE da Amazônia ocorrem por conta do consumo de bens produzidos na região, mas consumidos fora dela”, afirmou Guilhoto. “Essa constatação indica que os fatores externos são mais importantes para explicar as emissões de GEE pela Amazônia.”

Segundo o estudo, a pecuária, a produção de soja e de outros produtos agropecuários são os setores produtivos que mais contribuem para as emissões de GEE pela Amazônia. Mas, além deles, há outros setores econômicos, como o de mobiliário, entre outros, que são fortemente dependentes de insumos produzidos na região.

“Os dados obtidos no estudo mostram que, de modo geral, apesar de haver uma dependência muito maior da Amazônia pelos insumos produzidos pelo resto do Brasil, a pouca dependência que o resto do Brasil tem do bioma se dá em insumos fortemente relacionados com a emissão de GEE na região”, resumiu Guilhoto.

Redução do desmatamento

Em outro estudo também realizado por pesquisadores da FEA, no âmbito do Projeto Temático, constatou-se que entre 2002 e 2009 houve uma grande expansão da área de produção agropecuária brasileira e, ao mesmo tempo, uma redução drástica das taxas de desmatamento da Amazônia.

A cana-de-açúcar, a soja e o milho responderam por 95% da expansão líquida da área colhida entre 2002 e 2009, enquanto o rebanho bovino teve um acréscimo de 26 milhões de cabeças de gado. Nesse mesmo período a Amazônia registrou uma queda de 79% do desmatamento.

A fim de investigar os principais vetores do desmatamento no país, uma vez que boa parte dos eventos de expansão agropecuária ocorre fora da Amazônia, os pesquisadores fizeram um estudo usando análises espaciais integradas do território brasileiro, incluindo os seis biomas do país.

Para isso, utilizaram dados sobre desmatamento obtidos do Projeto Prodes, do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), além de imagens georreferenciadas obtidas dos satélites Landsat, da agência espacial norte-americana Nasa.

O estudo revelou que, no período de 2002 a 2009, foram desmatados 12,062 milhões de hectares da Amazônia, 10,015 milhões de hectares do Cerrado, 1,846 milhão de hectares da Caatinga, 447 mil hectares do Pantanal, 375 mil hectares da Mata Atlântica e 257 mil hectares do Pampa.

“A soma desses números indica que o Brasil desmatou em sete anos o equivalente ao Estado de São Paulo mais o Triângulo Mineiro ou uma Grã-Bretanha”, calculou Rafael Feltran-Barbieri, pesquisador da FEA e um dos autores do estudo.

De acordo com o pesquisador, uma das principais conclusões do estudo foi que os outros biomas estão funcionando como uma espécie de “amortecedor” do desmatamento da Amazônia.

“Quando consideramos a expansão agropecuária do Brasil como um todo, vemos que boa parte da redução das taxas de desmatamento da Amazônia se deve ao fato de que os outros biomas estão sofrendo essas consequências [registrando aumento no desmatamento]”, afirmou.

Outra conclusão do estudo é de que há um impacto espacial sinérgico dos vetores do desmatamento no Brasil, uma vez que a expansão das diversas atividades agropecuárias – como o cultivo da cana e da soja ou a criação de gado – ocorre de forma concomitante e disputa território.

No caso da cana-de-açúcar, uma das constatações foi que, no período de 2002 a 2009, a cultura passou a ocupar áreas desmatadas por outras atividades agropecuárias, embora ela própria não tenha vocação para desmatar.

“Estamos percebendo que existe uma formação quase complementar entre as expansões [nos diferentes biomas] e isso faz com que os efeitos de desmatamento sejam altamente correlacionados”, disse Feltran-Barbieri.

“Essa constatação leva à conclusão de que, se o Brasil pretende assumir uma posição de fato responsável em relação às mudanças climáticas – e disso depende a agropecuária –, é preciso fazer planejamento estratégico do território, porque o planejamento setorial não está dando conta de compreender esses efeitos sinérgicos”, avaliou.