Quando os jornalistas falam sobre ciência (Fapesp)

Martin Bauer foi um dos palestrantes do painel da FAPESP Week London sobre cultura científica (foto: LSE)

02/10/2013

Por Fernando Cunha, de Londres

Agência FAPESP – O retrato que os jornalistas fazem da ciência, a tensão quando repórteres tentam relatar ao público o que faz a ciência e a maneira como a ciência aparece na ficção – algumas vezes de forma estereotipada – foram algumas das questões discutidas no painel sobre cultura científica, apresentado na sexta-feira (27/09), último dia de atividades da FAPESP Week London 2013.

Martin Bauer, da London School of Economics, falou sobre um projeto de pesquisa coordenado por ele que criará indicadores para verificar o nível de mobilização do mundo científico para divulgar ciência. Temas controversos como transgenia e mudanças climáticas, que provocam mobilização política, sempre vêm acompanhados de um momento educativo, segundo o pesquisador.

O projeto propõe a construção, até o fim de 2015, de um sistema de indicadores a partir de parâmetros como: a atenção do público à informação científica, as aspirações de leitores em termos de bem-estar, a percepção da contribuição da ciência para a cultura do público e a distância relativa entre o sujeito que recebe a informação científica e a própria ciência.

“Estamos interessados na análise dos conteúdos para entender a eficácia da linguagem utilizada e, particularmente, no conceito de autoridade da ciência para transmitir conteúdos de pesquisa para o público”, disse Bauer.

Os indicadores previstos estão agrupados em três tipos: percepção pública da ciência; presença, em termos quantitativos, da ciência na imprensa e na produção cultural da mídia – incluindo as diferentes editorias em jornais e a programação de rádio e TV, incluindo telenovelas; e assuntos científicos tratados.

A pesquisa e coleta de dados serão feitas principalmente em países da Europa e na Índia, e incluirá também o Brasil, em uma colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Interesse público

Marcelo Leite, repórter do jornal Folha de S. Paulo, tratou do jornalismo de ciência e da percepção pública da ciência no Brasil a partir de uma análise de matérias publicadas sobre as mudanças climáticas globais.

“Estou convencido de que o jornalismo de ciência pode funcionar como um modelo que todas as formas de jornalismo poderiam e deveriam seguir, porque vai além de opiniões, crenças e ideologias para chegar ao mais perto que podemos esperar da verdade”, disse Leite. “O jornalismo de ciência instrui leitores sobre o processo de pesquisa científica, tentando desfazer a percepção equivocada de que os cientistas são detentores da verdade eterna”, disse.

Para o jornalista, a presença do tema das mudanças climáticas nos veículos de comunicação e, em especial, a divulgação na imprensa do conteúdo do quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), no fim de setembro, oferecem interessante oportunidade de análise da cobertura e da percepção dos conteúdos.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil, concluída em 2010, mostrou que o índice de atenção do público brasileiro em ciência tem aumentado, atingindo 65% dos cidadãos consultados.

“Sobre o tema ambiente, o interesse subiu de 58%, em 2006, para 82% em 2010, provavelmente por questões relacionadas com a Amazônia e mudanças climáticas, que parecem atrair a maioria das pessoas”, disse.

Em relação à cobertura jornalística de temas relacionados ao clima, a pesquisa concluiu que há uma concentração de textos na área política – com foco em negociações e na mitigação das consequências das emissões de gases de efeito estufa (50% das matérias) – e no desmatamento da floresta (23%).

O painel teve também a participação de Philip Macnaghten, da Universidade de Durham e professor visitante na Unicamp, que tratou dos cenários da pesquisa e inovação responsável no Brasil, e de Maria Immacolata Vassalo de Lopes, professora na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), que falou sobre a experiência de criação de uma rede ibero-americana para o estudo da ficção na televisão, o Obitel, formada em 2005 na Colômbia, com a participação de pesquisadores de 12 países, incluindo do Brasil.

O projeto teve apoio da FAPESP, da USP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Globo Universidade (TV Globo) e do Ibope.

Realizada pela FAPESP na capital britânica entre 25 e 27 de setembro, com apoio da Royal Society e do British Council, a FAPESP Week London promoveu a discussão de temas avançados de pesquisa para ampliar oportunidades de colaboração entre cientistas brasileiros e europeus nos campos da Biodiversidade, Mudanças Climáticas, Ciências da Saúde, Bioenergia, Nanotecnologia e Comunicação.

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