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Steiner e Cúpula dos Povos se chocam quanto à economia verde (IPS)

Economia Verde
19/6/2012 – 09h28

por Fabiana Frayssinet, da IPS

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Achim Steiner debatendo na Cúpula dos Povos. Crédito: João Roberto Ripper

Rio de Janeiro, Brasil, 18/6/2012 (TerraViva) O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, acredita que ele a Cúpula dos Povos coincidem quanto ao atual modelo econômico ter causado o colapso ambiental. Porém, o diálogo sobre como substituí-lo se transformou em áspero debate.

O encontro com Steiner foi o mais esperado da Cúpula dos Povos: um alto representante da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, se deslocou para o outro lado da cidade, até a sede da reunião da sociedade civil no Aterro do Flamengo, para discutir com ecologistas e ativistas sociais sobre economia verde.

A economia verde é proposta como uma grande transformação dos modelos de produção e consumo para deter a contaminação e o esgotamento dos recursos naturais. Entretanto, para os movimentos sociais, não é mais do que outra cor para disfarçar o capitalismo.

“A Cúpula dos Povos é crítica da economia verde, porque os povos é que sofrem a crise do capitalismo e desse modelo de produção que quanto mais se agrava mais avança sobre nossos direitos”, afirmou de início a brasileira Fátima Mello, uma das organizadoras do encontro.

“Entendemos que a economia verde, que se baseia na mercantilização de bens naturais, está estreitamente ligada a uma economia marrom”, de contaminação e depredação, disse a também brasileira Larissa Packer, da organização Terra de Direitos.

A verdadeira “economia verde não é o dólar verde, como a veem os governantes. É nossa Amazônia verde”, defendeu o indígena boliviano Edwin Vásquez, que acusou as corporações transnacionais de invadirem e saquearem os recursos naturais.

Por sua vez, o argentino Juan Herrera, da rede internacional Via Camponesa, propôs um modelo de “economia popular, solidária e camponesa” que substitua o atual grande agronegócio, pois este “gerou verdadeiros desertos de soja e milho onde os camponeses já não têm um lugar”.

Diante desses pronunciamentos e críticas, Steiner, um especialista em políticas ambientais, se confessou “surpreso”. “No Pnuma estabelecemos que o modelo econômico atual não é o modelo do futuro. Estamos de acordo com vocês nisso”, afirmou, orientando os participantes a “lerem o documento oficial desta agência das Nações Unidas que aborda as diferentes interpretações sobre economia verde.

Sem seus habituais terno e gravata, Steiner explicou que o “fracasso” de não se ter evitado a degradação natural “tem a ver com o modelo econômico do mundo que trata o planeta como mineração: extrair, extrair e extrair”.

E quase adotou a mesma linguagem que a plateia adversária, ao se declarar crítico da “capacidade do mercado de alcançar o desenvolvimento sustentável”, e especificou: um mercado baseado, como se fosse uma “lei da física”, na livre oferta e demanda.

“O atum de barbatana azul vale hoje no mercado US$ 4 mil. Por isto, as empresas poderiam capturar até o último exemplar”, deu como exemplo para justificar que o “mercado não ajuda a administrar o planeta de forma sustentável”.

As diferenças surgiram ao se buscar opções a esse modelo. Entre outras propostas, Steiner propôs atribuir um valor econômico ao ecossistema, para promover “leis que protejam a natureza ou negócios que não sejam destrutivos”.

Também se referiu a novas tecnologias “boas e possíveis”, como as energias limpas e renováveis, que não gerariam desemprego, porque, pelo contrário, “dão mais empregos do que a indústria automobilística”.

Seus argumentos não convenceram o especialista em biodiversidade Pat Mooney. Este canadense citou tecnologias danosas propostas pela economia verde, como a biologia sintética, que modifica micro-organismos, ou o desenvolvimento de variedades transgênicas, que concentrou o controle das sementes em um punhado de multinacionais.

Mooney se disse espantado por uma economia verde que agora busca controlar a biomassa do planeta.

Tampouco o embaixador da Bolívia perante a Organização das Nações Unidas (ONU), Pablo Solón, ficou convencido, acusando Steiner de “não ter sido honesto”.

“Por trás desse conceito está o assumir que a natureza é um quintal”, enfatizou Solón elevando a voz, e afirmou que “não estamos inventando isso”, que está no rascunho em discussão pelos governos na Rio+20.

Steiner “disse que buscam desacoplar o crescimento com a deterioração ambiental. Não se pode crescer eternamente, o limite é a biodiversidade! O que necessitamos é redistribuir a riqueza!”, polemizou.

“Não por ter elevado o tom de voz e o da plateia, tudo o que você disse é correto”, respondeu Steiner. Nessa polarização entre capitalismo e anticapitalismo “o mundo não avançará”, ressaltou ao argumentar o difícil que é conseguir consenso entre todos os Estados-membros da ONU.

Propor uma economia verde sem regulamentar o mercado financeiro causará o contrário da conservação: “uma bolha financeira imprevisível”, apontou Packer ao TerraViva. “Quando há escassez de uma mercadoria, seu valor sobe. Portanto, quanto mais se destruir a natureza, maior será o valor dos ativos naturais”, alertou. (IPS/TerraViva)

* Publicado originalmente no site TerraViva.

A Rio+20 e o valor da diferença (Canal Ibase)

Renzo Taddei*

Canal Ibase, 19/06/2012

Durante todo o processo de negociação em torno do documento final da Rio+20, o que tem chamado a atenção da mídia, de forma mais patente, é a dificuldade em se construir o consenso em torno dos temas em discussão. A falta de consenso é apresentada quase como escândalo, e o alinhamento de pensamentos é apresentado como algo intrinsecamente desejável. Isso, a meu ver, é um dos elementos mais problemáticos da cobertura midiática pobre da conferência das Nações Unidas.

Qualquer pessoa que pesquise a história da ONU, em sua relação com as questões mundiais de cada época e com as formas de vida locais, se dá conta de que nem tudo no mundo se conserta via diplomacia. Isso se dá por muitas razões, das quais a mais relevante é o fato de que a diplomacia só enxerga através da lente dos Estados-nação; e estes, por sua vez, são cada vez menos capazes de operar de forma autônoma. A Cúpula dos Povos, atividade paralela da sociedade civil, está aí para dar visibilidade a esse fato. E, para ela, a convergência de posicionamentos éticos e a coordenação de ações táticas sempre foi, e deve continuar sendo, mais importante do que o reconhecimento da necessidade de sintonização substantiva de ideias.

O risco da ideia de consenso substantivo extrapolar a esfera da diplomacia é o da perda do valor da diferença. Como disseram Isabela Fraga e Monike Mar na revista Democracia Viva 48, “o cotidiano e as práticas de quilombolas, indígenas, agricultores, jovens, mulheres, negros, hackers, coletivos de economia solidária e grupos comunitários mostram que existem alternativas à busca do crescimento econômico a qualquer custo”. Exatamente: alternativas, no plural. Se para a comunidade diplomática é importante a construção de um pensamento único, a defesa do direito à diferença tem sido, e tem que continuar sendo, parte integrante da agenda política das entidades da sociedade civil.

É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, enquanto a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio para que “entendam” os efeitos deletérios de suas práticas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso logocentrismo, esse foco exacerbado em informação e pensamento, onde diagnosticamos tudo como “falta de informação”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. O que se quer criar é um discurso único sobre o meio ambiente dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente economicista, materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento-vida, outras epistemologias-ontologias?

Como disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, precisamos aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum dos seres vivos. Que tipo de ética decorre daí, na relação entre humanos e não humanos? Índio não gosta da floresta por opção (apenas) estética, mas há uma outra ética, certamente mais humana, na relação entre humanos e meio ambiente. Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

Precisamos entender que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns” – a exaustão de elementos ambientais compartilhados, como a água ou o ar -, por exemplo, nem tentar esverdear a matriz energética que move as engrenagens de nossa economia, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade.

A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas – por exemplo, ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele -, são tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas. Slavoj Žižek, na sua atitude iconoclasta de sempre, afirmou recentemente que a ideia de que a sociedade urbana e tecnológica é ruim e a natureza é boa é sintoma do problema. Fugir para o mato não resolve nada; o contrário, na verdade, é que constitui alternativa interessante: é preciso aprender a “amar” a sociedade tecnológica e seus produtos. A palavra amar, aqui, – descontado o estilo peculiar do Žižek – refere-se à necessidade de se abandonar essa relação neurótica que temos com as coisas, onde o fetiche pela novidade se transforma em desapego radical, e nossos objetos de desejo se transformam em lixo, substituídos por novos fetiches, numa velocidade vertiginosa. Para que não geremos tanto lixo e tanto consumo, é preciso amar o que temos.

Às vezes perdemos essas questões de vista; nada como o impacto das diferenças culturais para que sejamos incentivamos a repensar nossas formas de vida. As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

*Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.

TATU OR NOT TATU Manifesto Uninômade +10

TATU OR NOT TATU
Manifesto Uninômade +10
15 de Junho de 2012
 
A palavra revolução voltou a circular. Nas ruas, nas praças, na internet, e até mesmo nas páginas de jornal, que a olha com olhos temerosos. Mas, principalmente, em nossos espíritos e corpos. Da mesma maneira, a palavra capitalismo saiu de sua invisibilidade: já não nos domina como dominava. Assistimos ao final de um ciclo – o ciclo neoliberal implementado a partir dos anos 80, mas cujo ápice se deu com a queda do muro de Berlim e o consenso global em torno da expansão planetária do mercado. Muitos dentre nós (principalmente os jovens) experimentam seu primeiro deslocamento massivo das placas tectônicas da história. 

Mas nossa era não é apenas crepuscular. Ao fim de um ciclo abrem-se amplas oportunidades, e cabe a nós transformar a crise da representação e do capitalismo cognitivo em novas formas de democracia absoluta. Para além das esferas formais, dos Estados e nacionalidades. Para além do capitalismo financeiro e flexível. Lá onde brilha nossa singularidade comum: a mulher, o negro, o índio, o amarelo, o pobre, o explorado, o precário, o haitiano, o boliviano, o imigrante, o favelado, o trabalhador intelectual e manual. Não se trata de um recitar de excluídos, mas de uma nova inclusão híbrida. A terra, enfim, nossa. Nós que somos produzidos por esta chuva, esta precipitação de encontros de singularidades em que nos fazemos divinos nesta terra.

É pelo que clama a multidão na Grécia, na Espanha e os occupy espalhados pelos Estados Unidos; é pelo que clamam as radicalidades presentes na primavera árabe, esta multidão situada para além da racionalidade ocidental. É o mesmo arco que une a primavera árabe, as lutas dos estudantes no Chile e as lutas pela radicalização da democracia no Brasil. Nossas diferenças é o que nos torna fortes.

A luta pela mestiçagem racial, simbólica, cultural e financeira passa pela materialidade do cotidiano, pela afirmação de uma longa marcha que junte nossa potência de êxodo e nossa potência constituinte. Acontecimento é o nome que nos anima para o êxodo perpétuo das formas de exploração. Êxodo para dentro da terra. Fidelidade à terra. Tatu or not tatu.

É preciso ouvir em nós aquele desejo que vai para além da vida e da sua conservação: para além do grande terror de uma vida de merda que nos impõe o estado de precariedade e desfiliação extrema. É preciso re-insuflar o grito que nos foi roubado à noite, resistir aos clichês que somos, e que querem fazer de nós: para além de nossas linhas de subjetivação suspensas entre o luxo excedente do 1% ou do lixo supérfluo dos 99%. 

É preciso não precisar de mais nada, a não ser nossa coragem, nosso intelecto e nossos corpos, que hoje se espraiam nas redes de conhecimentos comuns apontando para nossa autonomia. Somos maiores do que pensamos e desejamos tudo.  Não estamos sozinhos! É preciso resistir na alegria, algo que o poder dominador da melancolia é incapaz de roubar. Quando o sujeito deixa de ser um mero consumidor-passivo para produzir ecologias. Um corpo de vozes fala através de nós porque a crise não é apenas do capital, mas sim do viver. Uma profunda crise antropológica. Manifesta-se no esvaziamento de corpos constrangidos, envergonhados, refletidos na tela da TV, sem se expandir para ganhar as ruas. Nossos corpos paralisam, sentem medo, paranóia: o outro vira o grande inimigo. Não criam novos modos de vida. Permanecem em um estado de vidaMenosvida: trabalho, casa, trem, ônibus, trabalho, casa. A vida individual é uma abstração. Uma vida sem compartilhamento afetivo, onde a geração do comum se torna impossível. É preciso criar desvios para uma vidaMaisvida: sobrevida, supervida, overvida. Pausa para sentir parte do acontecimento, que é a vida.  Somos singularidades cooperativas. Pertencemos a uma esfera que nos atravessa e nos constrói a todo o momento.

O capitalismo cognitivo e financeiro instaura um perpétuo estado de exceção que busca continuamente reintegrar e modular a normalidade e a diferença: lei e desordem coincidem dentro de uma mesma conservação das desigualdades que produz e reproduz as identidades do poder: o “Precário” sem direitos, o Imigrante “ilegal”, o “Velho” abandonado, o “Operário” obediente, a “Mulher” subjugada, a “Esposa” dócil, o “Negro” criminalizado e, enfim, o “Depressivo” a ser medicalizado. As vidas dos pobres e dos excluídos passam a ser mobilizadas enquanto tais. Ao mesmo tempo em que precisam gerar valor econômico, mantêm-se politicamente impotentes.

O pobre e o louco. O pobre – figura agora híbrida e modulada de inclusão e exclusão da cadeia do capital –  persiste no cru da vida, até usando seu  próprio corpo como moeda. E o louco, essa figura que vive fora da história, “escolhe” a exclusão. Esse sujeito que se recusa a produzir, vive sem lugar. Onde a questão de exclusão e inclusão é diluída no delírio. Ninguém delira sozinho, delira-se o mundo. Esses dois personagens vivem e sobrevivem à margem, mas a margem transbordou e virou centro. O capital passa a procurar valor na subjetividade e nas formas de vida das margens e a potência dos sem-dar-lucro passa a compor o sintoma do capital: a crise da lei do valor, o capitalismo cognitivo como crise do capitalismo.

A crise dos contratos subprimes em 2007, alastrando-se para a crise da dívida soberana europeia, já não deixa dúvidas: a forma atual de governabilidade é a crise perpétua, repassada como sacrifício para os elos fragilizados do arco social. Austeridade, cortes, desmonte do welfare, xenofobia, racismo. Por detrás dos ternos cinza dos tecnocratas pós-ideológicos ressurgem as velhas bandeiras do biopoder: o dinheiro volta a ter rosto, cor, e não lhe faltam ideias sobre como governar: “que o Mercado seja louvado”, “In God we trust”. O discurso neutro da racionalidade econômica é obrigado a mostrar-se em praça pública, convocando o mundo a dobrar-se ao novo consenso, sem mais respeitar sequer a formalidade da democracia parlamentar. Eis o homo œconomicus: sacrifício, nação, trabalho, capital! É contra este estado de sítio que as redes e a ruas se insurgem. Nas mobilizações auto-convocadas em redes, nas praças das acampadas, a exceção aparece como criatividade do comum, o comum das singularidades que cooperam entre si.

No Brasil são muitos os que ainda se sentem protegidos diante da crise global. O consenso (neo) desenvolvimentista produzido em torno do crescimento econômico e da construção de uma nova classe média consumidora cria barreiras artificiais que distorcem nossa visão da topologia da crise: a crise do capitalismo mundial é, imediatamente, crise do capitalismo brasileiro. Não nos interessa que o Brasil ensine ao mundo, junto à China, uma nova velha forma de capitalismo autoritário baseado no acordo entre Estados e grandes corporações! 

O governo Lula, a partir das cotas, do Prouni, da política cultural (cultura viva, pontos de cultura) e da distribuição de renda (programas sociais, bolsa família, valorização do salário mínimo) pôde apontar, em sua polivalência característica, para algo que muitos no mundo, hoje, reivindicam: uma nova esquerda, para além dos partidos e Estados (sem excluí-los). Uma esquerda que se inflame dos movimentos constituintes que nascem do solo das lutas, e reverta o Estado e o mercado em nomes  do comum. Uma esquerda que só pode acontecer “nessa de todos nós latino-amarga américa”. Mais do que simples medidas governamentais, nestas políticas intersticiais, algo de um acontecimento histórico teve um mínimo de vazão: aqueles que viveram e morreram por transformações, os espectros das revoluções passadas e futuras, convergiram na construção incipiente de nossa emancipação educacional, racial, cultural e econômica. Uma nova memória e um novo futuro constituíram-se num presente que resistira ao assassinato simbólico da história perpetrado pelo neoliberalismo. A popularidade dos governos Lula tinha como lastro esses interstícios onde a política se tornava uma poética. Já hoje, nas taxas de aprovação do governo Dilma, podemos facilmente reconhecer também as cores deslavadas de um consenso prosaico. O “país rico” agora pacifica-se no mantra desenvolvimentista, retrocedendo em muitas das políticas que tinham vazado. Voltam as velhas injunções progressistas: crescimento econômico para redistribuir! Estado forte! As nuvens ideológicas trazem as águas carregadas do gerencialismo e do funcionalismo tecnocrático: menos política, mais eficiência! Desta maneira, removem-se e expropriam-se os pobres: seja em nome de um Brasil Maior e se seu interesse “público” (Belo Monte, Jirau, Vila Autódromo), seja em nome de um Mercado cada vez Maior e de seu interesse “privado” (Pinheirinho, TKCSA, Porto do Açu). Juntando-se entusiasticamente às equações do mercado, os tratores do progresso varrem a sujeira na construção de um novo “País Rico (e) sem pobreza”. Os pobres e as florestas, as formas de vida que resistem e persistem, se tornam sujeira. A catástrofe ambiental (das florestas e das metrópoles) e cultural (dos índios e dos pobres) é assim pacificada sob o nome do progresso. Dominação do homem e da natureza conjugam-se num pacto fáustico presidido por nenhum Mefistófeles, por nenhuma crise de consciência: já somos o país do futuro!
 
Na política de crescer exponencialmente, só se pensa em eletricidade e esqueceu-se a democracia (os Soviets : Conselhos). Assim, governa-se segundo a férrea lógica – única e autoritária – da racionalidade capitalista. Ataca-se enfim a renda vergonhosa dos “banquiplenos”, mas a baixa dos juros vai para engordar os produtores de carros, essas máquinas sagradas de produção de individualismo, em nome da moral do trabalho. Dessa maneira, progredir significa, na realidade, regredir: regressão política como acontece na gestão autoritária das revoltas dos operários das barragens; regressão econômica e biológica, como acontece com uma expansão das fronteiras agrícolas que serra a duração das relações entre cultura e natureza; regressão da vida urbana, com a remoção de milhares de pobres para abrir o caminho dos megaeventos; regressão da política da cultura viva, em favorecimento das velhas oligarquias e das novas indústrias culturais. O progresso que nos interessa não contém nenhuma hierarquia de valor, ele é concreta transformação qualitativa, “culturmorfologia”.

Este é o imaginário moderno em que a dicotomia prevalece: corpo e alma, natureza e cultura, nós e os outros; cada macaco no seu galho! Estes conceitos resultam em uma visão do mundo que distancia o homem da ecologia e de si mesmo. O que está em questão é a maneira de viver no planeta daqui em diante. É preciso encontrar caminhos para reconciliar estes mundos. Perceber outras configurações relacionais mais móveis, ativar sensibilidades. Fazer dessa revolução um grande caldeirão de desejos que crie formas de cooperação e modos de intercâmbio, recombine e componha novas práticas e perspectivas: mundos. Uma mestiçagem generalizada: nossa cultura é nossa economia e nosso ambiente é nossa cultura: três ecologias!

As lutas da primavera Árabe, do 15M Espanhol, do Occupy Wall Street e do #ocupabrasil gritam por transformação, aonde a base comum que somos nos lança para além do estado de exceção econômico: uma dívida infinita que busca manipular nossos corações e manter-nos acorrentados aos medos. Uma dívida infinita que instaura a perpétua transferência de renda dos 99% dos devedores ao 1% dos credores. Não deixemos que tomem por nós a decisão sobre o que queremos! 

A rede Universidade Nômade se formou há mais de dez anos, entre as mobilizações de Seattle e Gênova, os Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre e a insurreição Argentina de 2001 contra o neoliberalismo. Foram dois momentos constituintes: o manifesto inicial que chamava pela nomadização das relações de poder/saber, com base nas lutas dos pré-vestibulares comunitários para negros e pobres (em prol da política de cotas raciais e da democratização do acesso ao ensino superior); e o manifesto de 2005 pela radicalização democrática. Hoje, a Universidade Nômade acontece novamente: seu Kairòs (o aqui e agora) é aquele do capitalismo global como crise. Na época da mobilização de toda a vida dentro da acumulação capitalista, o capitalismo se apresenta como crise e a crise como expropriação do comum, destruição do comum da terra. Governa-se a vida: a catástrofe financeira e ambiental é o fato de um controle que precisa separar a vida de si mesma e opõe a barragem aos índios e ribeirinhos de Belo Monte,  as obras aos operários, os megaeventos aos favelados e aos pobres em geral, a dívida aos direitos, a cultura à natureza. Não há nenhum determinismo, nenhuma crise terminal. O capital não tem limites, a não ser aqueles que as lutas sabem e podem construir. A rede Universidade Nômade é um espaço de pesquisa e militância, para pensar as brechas e os interstícios onde se articulam as lutas que determinam esses limites do capital e se abrem ao possível: pelo reconhecimento das dimensões produtivas da vida através da renda universal, pela radicalização democrática através da produção de novas instituições do comum, para além da dialética entre público e privado, pelo ressurgimento da natureza como produção da diferença, como luta e biopolítica de fabricação de corpos pós-econômicos. Corpos atravessados pela antropofagia dos modernistas, pelas cosmologias ameríndias, pelos êxodos quilombolas, pelas lutas dos sem teto, sem terra, precários, índios, negros, mulheres e hackers: por aqueles que esboçam outras formas de viver, mais potentes, mais vivas.

Rio+20 sem ciência (Mundo Sustentável, G1)

sáb, 16/06/12

por André Trigueiro

Depois de cinco dias reunidos na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), 500 cientistas de 75 países – seis deles Prêmios Nobel – produziram um relatório contundente em que resumem a situação do planeta. Entre outras informações, eles dizem que “há evidências científicas convincentes de que o atual modelo de desenvolvimento está minando a capacidade de o planeta responder às agressões do homem”. Manifestam preocupação com o fato de que “os níveis de produção e de consumo poderão causar mudanças irreversíveis e catastróficas para a humanidade”. Mas asseveram que “temos conhecimento e criatividade para construir um novo caminho. Entretanto, é preciso correr contra o tempo”.

O Prêmio Nobel de Química,Yuan Tse Lee, de Taiwan, foi escolhido pelos colegas para uma missão quase impossível: resumir em apenas dois minutos para os chefes de estado no Riocentro o que de mais importante aparece no relatório. Apenas 120 segundos serão suficientes para inspirar nas principais lideranças do mundo o devido senso de urgência? Bom, foi este o tempo definido pelo protocolo da ONU. Perguntei ao dr.Yuan qual seria a mensagem mais importante do relatório.

“Não temos muito mais tempo para transformar a sociedade, torná-la sustentável. Se continuarmos nesse ritmo, vai ficar cada vez pior. Entraremos numa grande enrascada”, disse ele, para em seguida arrematar com um lampejo de confiança no futuro:”Não temos o direito de ficar pessimistas. Estou feliz a de ver tantos jovens no Rio”.

Quem também estava no encontro foi o climatologista Carlos Nobre, que nesta semana teve a honra de escrever o editorial da prestigiada revista científica Science com o sugestivo título de “UNsustainable? (com as iniciais da ONU em maiúsculas no início da palavra “insustentável” em inglês) onde afirmou que o mundo “saiu da zona de segurança”. Perguntei a ele se a classe política está ouvindo os alertas dos cientistas.

“Nós estamos tendo dificuldade de comunicar a todos os tomadores de decisão o senso de urgência. Tempo talvez seja o recurso mais escasso na questão do desenvolvimento sustentável”. Ao ser indagado sobre o que estava em jogo, caso as recomendações dos cientistas não fossem consideradas pelos tomadores de decisão, o atual secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação respondeu com indisfarçável preocupação. “O risco de excedermos alguns limites planetários existe. Os recursos não são infinitos e a capacidade da Terra absorver os choques também não. No caso do clima, por exemplo, provavelmente também já estamos operando fora da margem de segurança”.

Para Carlos Nobre, “a urgência da situação planetária requer decisões também urgentes e ações imediatas. Essa distância entre o que os cientistas percebem como urgente e a as respostas dadas pelo sistema político configura o descompasso”.

Deixei a PUC intrigado não apenas pela contundência de mais um alerta da comunidade científica, mas também pela ausência de jornalistas interessados em cobrir o maior evento paralelo da Rio+20 na área da ciência. Será que nós, profissionais de imprensa, também estamos em descompasso com as informações relevantes descortinadas pela comunidade científica? Será este um assunto restrito às mídias especializadas ou todos os jornalistas e comunicadores deveriam abrir mais espaços, especialmente em tempos de crise, para o que os cientistas estão dizendo? Vale a reflexão. E, sobretudo, a ação.

Definição de economia verde, uma pedra no sapato da Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
15/6/2012 – 09h58

por Thalif Deen, da IPS

Slide18 Definição de economia verde, uma pedra no sapato da Rio+20Nova York, Estados Unidos, 15/6/2012 (IPS/TerraViva) – A discussão central da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá na próxima semana no Rio de Janeiro, será em torno do conceito de “economia verde” e sobre a melhor forma de defini-la.

“Se a economia for definida claramente apontando para um desenvolvimento sustentável, sem recorrer a experimentos baseados no mercado ou em soluções técnicas, será um êxito”, disse Alex Scrivener, oficial de políticas do World Delepoment Movement (WDM – Movimento Mundial de Desenvolvimento), com sede em Londres. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, afirmou que a comunidade internacional deve chegar a um consenso sobre a economia verde inclusiva, “que tire as pessoas da pobreza e proteja o meio ambiente”. Isto, acrescentou, exige colaboração internacional. Contudo, também investimento, financiamento, experiências compartilhadas e transferência de tecnologia.

Um tema fundamental da Rio+20 será como integrar uma “economia verde” ao conceito mais amplo de desenvolvimento sustentável. Segundo o WDM, “uma verdadeira economia verde adotará a justiça econômica e o direito das comunidades pobres de definirem seu próprio caminho para sair da pobreza e acabar com as políticas perniciosas que priorizam o lucro em relação às pessoas e ao meio ambiente”. O WDM também diz que esta economia porá fim “à nossa obsessão pelo crescimento econômico e um consumo não sustentável, os quais reorientará insistindo em como cobrir as necessidades de todo o mundo de maneira verdadeiramente sustentável”.

O rascunho do plano de ação, documento a ser discutido na Rio+20, divulgado em janeiro, era vago e deixava de fora muitos dos compromissos concretos, diz a organização, mas as negociações seguintes parecem tê-lo diluído ainda mais. Sem declarações específicas, como a disponibilidade de fundos para facilitar para os países em desenvolvimento a implantação de políticas verdes ou um cronograma concreto para o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, o documento final da conferência corre o risco de ser uma declaração insossa de generalidades, destaca o WDM.

Esta organização observa que as nações industrializadas, como a Grã-Bretanha, além dos bancos e das companhias multinacionais, utilizam o termo “economia verde” como cortina de fumaça para esconder seus planos de privatizar bens globais e criar novos mercados para os serviços que a natureza fornece gratuitamente. “Deste cavalo de Troia surgirão novos mecanismos de mercado que permitirão ao setor financeiro obter maior controle sobre a gestão dos bens globais”, alerta a organização.

Em lugar de contribuir para o desenvolvimento sustentável e a justiça econômica, esta “economia verde corporativa” levará à privatização da terra e da natureza, as quais passarão a ser controladas por multinacionais que as afastarão das comunidades que delas dependem, prevê o WDM. Scrivener não acredita que o Fundo Verde para o Clima alcance o objetivo de reunir US$ 100 bilhões até 2020. “A falta de fundos públicos se tornou a desculpa dos países industrializados para justificar sua falta de colaboração econômica para o clima ou sua tentativa de utilizar fundos privados para cobrir o vazio”, afirmou.

“A realidade é que, apesar da crise de dívida soberana na Europa ter aumentando a pressão sobre a disponibilidade de fundos públicos, perdeu-se totalmente a oportunidade de explorar novas fontes”, apontou Scrivener. Como exemplo mencionou que a ideia de introduzir novos impostos em setores muito contaminantes, como são a aviação e os transportes, citada na cúpula de Copenhague no final de 2009, caiu no esquecimento, apesar de esse tipo de medida ser suficiente para cobrir a falta de fundos públicos.

“Quando se fala de escassez de fundos não devemos esquecer a dívida climática que o mundo industrializado tem com as nações em desenvolvimento”, ressaltou Scrivener. Esse dinheiro, que representaria uma ínfima proporção dos orçamentos das nações ricas, “não deveria ser considerado um compromisso discricionário e sua concessão deveria ser vista como prioritária”, considerou.

“Infelizmente, é pouco provável que no Rio de Janeiro seja anunciado um pacote com fundos públicos, e o rascunho preliminar do documento final não estabelece nada significativo além da tradicional assistência oficial ao desenvolvimento, de 0,7% do produto interno bruto”, lamentou Scrivener. “É ruim, mas creio que a principal batalha na cúpula girará em torno dos princípios para definir uma nova economia verde”, acrescentou.

A atual crise econômica deveria servir de lição para os governos sobre a inerente instabilidade, a falta de sustentabilidade de nosso sistema econômico e as razões pelas quais deve ser substituído. No entanto, os governos se concentram em regressar a um crescimento econômico que não é sustentável, e inclusive estudam destinar um valor monetário à natureza, o que poderia estender a influência dos instáveis mercados financeiros sobre o meio ambiente.

A crise também faz os governos não darem importância aos grandes desafios que representam a mudança climática, a redução da pobreza e a degradação ambiental. “Vemos que isso acontece em diferentes âmbitos como a falta de ambição do rascunho do documento final da Rio+20”, acrescentou Scrivener. Quanto à mudança climática, essa mentalidade ficou demonstrada com a retirada de Canadá, Japão e Rússia do Protocolo de Kyoto, bem como pela tentativa de considerar o gás natural como uma fonte de energia barata que emite pouco dióxido de carbono.

Envolverde/IPS

Desenvolvimento sustentável requer transformação também na ciência (Fapesp)

Em novo paradigma da ciência para a sustentabilidade global, cientista tende a ser mais multidisciplinar e mais participativo na sociedade, segundo Lidia Brito, diretora da Divisão de Políticas Científicas da Unesco (foto:Unesco)

13/06/2012

Por Fábio de Castro, do Rio de Janeiro

Agência FAPESP – Depois de concluir que é preciso reinaugurar a relação entre a ciência e a sociedade para viabilizar as ações necessárias para a sustentabilidade global, a comunidade científica internacional se deu conta de que já foi dado o primeiro passo nessa direção.

A ciência para a sustentabilidade, um novo paradigma do conhecimento, já está sendo construída, segundo Lidia Brito, diretora da divisão de Políticas Científicas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Ex-ministra da Ciência de Moçambique, Brito participa no Rio de Janeiro do “Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development”, que ocorre até sexta-feira (15/06).

O evento de cinco dias tem o objetivo de debater uma nova agenda científica internacional para o período que se seguirá à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20) – que será realizada também na capital fluminense entre 13 e 22 de junho.

O fórum é organizado pelo Conselho Internacional para a Ciência (ICSU, na sigla em inglês), em parceria com Unesco, a Federação Mundial das Organizações de Engenharia (WFEO), o Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

As discussões no fórum estão alinhadas com a Declaração sobre o Estado do Planeta, documento que sintetizou o resultado dos debates da reunião Planet Under Pressure, copresidida por Brito, em Londres (Inglaterra), onde mais de 3 mil cientistas envolvidos com diversos temas socioambientais discutiram qual seria a posição da comunidade científica internacional na RIO+20.

Uma das principais conclusões da declaração é que o sistema terrestre tem limites para sua exploração e os atuais níveis de pressão nesse sistema poderão levar a uma emergência humanitária de escala global, com a intensificação das crises sociais, econômicas e ambientais.

A superação desses problemas exigirá um novo pacto entre a ciência e a sociedade, com maior conectividade entre as lideranças de todos os setores, e, de acordo com Brito, essa mudança já está em andamento.

Em entrevista à Agência FAPESP, Brito falou sobre o novo paradigma para a sustentabilidade global, que requer um cientista cada vez mais multidisciplinar e mais participativo na sociedade. Explicou ainda por que rejeita a expressão “economia verde” e defendeu que o PIB é insuficiente para medir o sucesso do desenvolvimento de um país.

Agência FAPESP – A comunidade científica chega à RIO+20 com uma mensagem clara para a sociedade?
Lidia Brito – Há uma posição clara e algumas mensagens. Uma das grandes conclusões da comunidade científica do planeta é que entramos em uma nova era, o Antropoceno. Uma era em que o homem é a maior força a conduzir os destinos do planeta. Portanto, há uma nova responsabilidade do ponto de vista da humanidade em relação ao planeta. Outra conclusão é que o Antropoceno é uma era de interconexões, na qual tudo está interligado. Essa interconexão também ocorre em um ponto crítico, que são as fronteiras planetárias. Nas mudanças que introduzimos no sistema planetário, estamos a atingir essas fronteiras interligadas. Não é só o aumento da temperatura isoladamente, nem a acidificação dos oceanos, nem a perda da biodiversidade de forma individual, mas é como tudo isso está ligado.

Agência FAPESP – É correto dizer que essa mesma profusão de interconexões que gera os problemas globais também proporciona oportunidades para lidar com eles?
Lidia Brito – Sim. Essa interconexão profunda é um risco, porque o que quer que seja que façamos para empurrar uma dessas fronteiras, a fim de manter seu nível de estabilidade, irá criar instabilidade e incertezas em todas as outras fronteiras. Mas temos também que ver essa sociedade e esse sistema planetário interconectados como uma oportunidade inédita que nos é oferecida. Porque a mudança é mais rápida. Ideias e soluções que podem nos levar para uma zona de maior estabilidade são mais viáveis, porque tudo está ligado. Isso, por outro lado, faz com que a ciência tenha que mudar. Esse é um grande desafio que temos pela frente.

Agência FAPESP – O que o cientista precisa mudar em sua atitude e seu modo de trabalhar, tanto individualmente como coletivamente?
Lidia Brito – Individualmente, o cientista tem que entender que já não é suficiente trabalhar apenas na zona de conforto de sua disciplina, mas que é necessário se ligar com outras áreas de ciência, a outros sistemas de conhecimento, para que juntos novas soluções possam aparecer. São soluções às vezes até enraizadas em conhecimento já existente, mas só o fato de trazer outras disciplinas, outras formas de estar nas ciências, outras metodologias, outras perspectivas, dá um campo diferente para encontrar soluções.

Agência FAPESP – É preciso refletir a interconectividade no interior da própria atividade científica?
Lidia Brito – Sim, exatamente, com multidisciplinaridade e até mesmo transdisciplinaridade. Usar inclusivamente metodologias de outras áreas de ciência para nosso próprio campo científico. Isso é um desafio importante para o cientista da atualidade: abrir-se a outras comunidades, a outros colegas e outras áreas de ciência. Em nível global coletivo, da ciência como uma comunidade planetária, não só devemos trabalhar juntos nas diferentes perspectivas do conhecimento, mas principalmente engajarmo-nos em uma interação muito mais aberta com a sociedade e os tomadores de decisão – em nível do governo, do setor privado e da sociedade civil – para codesenhar e coproduzir essas soluções que são necessárias para uma sustentabilidade global.

Agência FAPESP – O cientista precisa aumentar seu poder de influência para ser capaz de trazer subsídios científicos para os processos decisórios?
Lidia Brito – Claro. Para isso é preciso interagir de uma forma que essas outras comunidades não se sintam fora da decisão ou do desenho daquilo que é a questão científica. O cientista não deve ditar soluções unilateralmente com base em seu conhecimento, ou não atingirá a sociedade. Seu verdadeiro papel na atualidade é dizer quais são as questões que enfrentamos como humanidade e como nós todos – comunidade científica, gestores políticos, setor privado, sociedade civil – vamos encontrar juntos soluções com base científica para essas questões que afligem a todos nós.

Agência FAPESP – Isso será um processo longo?
Lidia Brito – Acho que é uma questão que demanda urgência. Não podemos esperar muito tempo para fazer essa mudança. O que foi bom em todo esse processo é que já temos uma iniciativa, oFuture of Earth, que procura, da parte da comunidade científica em nível global, trazer todas as ciências e os stakeholders – os intervenientes do processo de desenvolvimento sustentável – para a mesa, a fim de definir quais são as questões que temos que investigar e juntos vamos conseguir fazer isso. É um momento interessante, porque está a haver como que um rearranjo da governança científica e da forma como nós olhamos fazer ciência, que está claramente na mesa e está claramente a influir. E penso que é emblemático que isto esteja a acontecer de novo no Rio de Janeiro. Porque em 1992 houve uma mudança drástica, que, acredito, ocorre mais uma vez em 2012. A comunidade científica está a trazer para a RIO+20 sua convicção em dizer: já percebemos o que é preciso mudar, vamos todos mudar juntos. É isso que trazemos para a mesa na Conferência.

Agência FAPESP – Fala-se também de tecnologia nesse fórum. Muitas vezes há uma impressão distorcida do papel da tecnologia, como se ela tivesse a função de fornecer soluções para que se possa manter o chamado cenário business as usual, isto é, seguir no mesmo padrão de consumo, produção e pressão ambiental atual. Como contornar essa distorção?
Lidia Brito – Simplesmente não podemos manter esses padrões. Está fora de questão. A tecnologia tem um papel enorme nesse processo e desenvolvimento sustentável. Mas, por si própria, a tecnologia não dá conta. Ela tem que ser acompanhada por uma transformação social e uma consciência e um compromisso social de que temos que trazer a sustentabilidade global como algo que tem que fazer parte do nosso próprio tecido. Em cada dia, em cada ação que tomamos, a sustentabilidade global precisa estar presente. O que faz diferença, talvez, é esse termo “global”. Nem norte nem sul, nem rico nem pobre. Todos nós. Tem que estar no tecido de nossas nações e do nosso comportamento individual e coletivo. Só assim poderemos aspirar a um mundo mais estável.

Agência FAPESP – A consciência dessa centralidade do desenvolvimento sustentável está arraigada até que ponto na comunidade científica?
Lidia Brito – A Unesco, quando publicou o Relatório da Ciência em 2010, já tinha mostrado que havia uma mudança efetiva no cenário da comunidade cientifica. O que vemos, objetivamente, é muito mais colaboração internacional, muito mais ciência interdisciplinar. Acreditamos que já inclusivamente estamos em uma mudança de paradigmas. A ciência para a sustentabilidade global é o novo paradigma da ciência.

Agência FAPESP – Então a ciência para a sustentabilidade global não é apenas uma aspiração dos pesquisadores, mas uma nova realidade que começa a tomar forma?
Lidia Brito – É algo que está a permear as várias escolas e vários níveis da produção de conhecimento e de ciência. Um exemplo disso é a iniciativa Future of Earth, que é um comprometimento da comunidade científica de que vamos trabalhar juntos nas varias áreas de saber. É também um compromisso daqueles que apoiam a pesquisa global: os financiadores da pesquisa estão conosco nesse comprometimento. Estamos prontos para fazer outro tipo de ciência que responde melhor aos desafios globais. Agora, há muita coisa a fazer. E um dos grandes desafios é garantir que não haja exclusões nesses processos. Parte desse movimento consiste em criar capacidade científica em países que não a têm. E o Brasil é um país que claramente tem um papel enorme nisso.

Agência FAPESP – Por quê?
Lidia Brito – Porque vocês conseguiram criar a vossa capacidade científica nas várias áreas do saber. O Brasil tem experiências nessa coprodução, nessa multidisciplinaridade na abordagem da ciência para o desenvolvimento sustentável. O Brasil pode ser um modelo para o estabelecimento de metas nesse contexto. É um país que mostrou muita capacidade de trazer juntas as redes do conhecimento. Em muitos aspectos vocês estão na dianteira, é simbólico que estejamos discutindo isso no Rio de Janeiro.

Agência FAPESP – Vários pesquisadores brasileiros que temos entrevistado têm demonstrado certo ceticismo em relação à chamada “economia verde”. Qual resposta se pode dar a eles?
Lidia Brito – Para ser honesta, nós na Unesco não falamos em economia verde. Falamos de sociedade verde. Penso que o ceticismo dos investigadores vem daí: a discussão não é sobre economia. O que temos certeza é que, no Antropoceno, não é possível falar apenas de um dos blocos do desenvolvimento sustentável. A economia não pode ser discutida sem as questões sociais, culturais e ambientais. Elas estão interligadas e não podem ser tratadas de forma independente. Fico satisfeita com os cientistas brasileiros, que não querem falar apenas em economia. Temos que falar em sociedade verde, para destacar essa força de mudança.

Agência FAPESP – A senhora é a favor de abandonar o conceito de PIB e criar outras medidas de prosperidade?
Lidia Brito – Claramente não podemos ter só o PIB como medida de sucesso de uma sociedade. O PIB é muito restrito, não mede inclusão social, nem a harmonia entre homem e natureza, não mede o bem-estar das pessoas, nem a equidade. Temos que ter outras medidas. Por isso, nas conclusões do Planet under Pressure, dissemos: usem a comunidade cientifica para definir outras metas. Para desenvolver modelos de medida integrada da economia, sociedade e ambiente. Sim, sou uma das defensoras de que precisa haver outras medidas de sucesso de um país que considerem o desenvolvimento sustentável em todos seus pilares.

Desenvolvimento Sustentável: Estado Sólido, Líquido ou Gasoso? (Plurale)

Envolverde Rio + 20
14/6/2012 – 10h48

por Patricia Almeida Ashley*

c27 300x260 Desenvolvimento Sustentável: Estado Sólido, Líquido ou Gasoso?Faço aqui uma reflexão sobre as discussões em andamento sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Goals) para uma possível ação a ser acordada entre os países representados na Rio+20.

Percebo uma ansiedade por um “estado sólido”, paupável, mensurável, segurável, assegurável, verificável, comprovável, comparável, planejável, previsível, reproduzível, sempre que se fala em Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como resultados e impactos a serem desdobrados em Indicadores e Metas para serem usados por todos os países e regiões no mundo. Haja números e estatísticas e equações!!!. Para mim, reflete uma racionalidade mecanicista, positivista, típica da abordagem científica hipotético-dedutiva e cartesiana, que pressupõe equações lineares, métodos estatísticos e métricas parametrizáveis para comparações, rankings, previsões. Típica de formação de engenharias e outras ciências que requerem, para a sua contribuição na formação do conhecimento humano, estruturas mensuráveis.

Quando passamos a conceber os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como algo mais pertinente a processos e capacidades para que as sociedades renovem seus sistemas jurídicos, normativos, suas lógicas anacrônicas para a educação, reprodução, produção e consumo, estamos passando para um “estado líquido” de concepção de desenvolvimento sustentável, algo como a água que não se perde ao cruzar com as pedras, mas as contorna, sofre com contaminações, mas se evapora, se desmancha para um novo ciclo de vida. Ou seja, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável não passam mais a ser comparáveis em métricas entre países, pois somos águas e terrenos distintos, mas somos passíveis de trocas, intercâmbios, aprendizagens, intenções e ações para que nossas águas sempre se renovem e gerem vida.

E se caminharmos para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como algo mais pertinente a princípios, valores, sensações, sentimentos, afetos, daí caminharemos para a qualidade espiritual da humanidade em harmonia com a Terra e com o Cosmos, passando a enxergar o quão grande é a família a que pertencemos e o que viemos fazer aqui e agora e com todos que percebemos estar e viver e morrer. Digo que é desenvolvimento sustentável como “estado gasoso” que trabalha pela inteligência espiritual, pela evolução de consciências, pelo desapego à limitação da expressão sólida apenas perceptível pelos cinco sentidos. Como medir em indicadores e metas o que atingimos e atuamos quando podemos nos abraçar profundamente e sem medo? Já experimentou algo assim? Percebe o que muda em sua hierarquia de valores? Entende por que podemos ser plenamente realizados sem ter que ter que ter que ter, mas sendo o ser para ser o ser entre seres?

O artigo Why we need sustainable development goals?, que replico mais abaixo e originalmente publicado em Why we need Sustainable Development Goals – SciDev.Net, foi o que me provocou as reflexões que escrevi acima. Coloco, como contraposição, o excelente artigo elaborado por Benedito Silva Neto e David Basso, publicado na Revista Ambiente e Sociedade, em 2010, sob título A ciência e o desenvolvimento sustentável: para além do positivismo e da pós-modernidade, que nos ajuda a sair do estado sólido, transitar pelo necessário estado líquido para atingir e recuperarmos o estado gasoso do desenvolvimento sustentável.

Patricia Almeida Ashley é colunista de Plurale, professora e coordenadora da Rede EConsCiência e Ecocidades da Univesidade Federal Fluminense.

* Publicado originalmente no site Plurale.

Ética para uma civilização ecológica (IPS)

Envolverde Rio + 20
13/6/2012 – 10h11

por Suvendrini Kakuchi, da IPS

Slide31 Ética para uma civilização ecológicaTóquio, Japão, 13/6/2012 – Ecologistas japoneses promovem o conceito de ética como forma de exercer pressão na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá na próxima semana no Rio de Janeiro. O enfoque tem o objetivo de promover a responsabilidade ambiental. “A ética ambiental se baseia no conceito de que as pessoas assumam sua responsabilidade na preservação dos recursos naturais e da biodiversidade. Ao destacar este aspecto, procuramos combater o lugar prioritário do crescimento econômico, que conspirou contra cúpulas anteriores”, afirmou Ryoichi Yamamoto, especialista em desenvolvimento e professor da Universidade de Tóquio.

Na Rio+20 será negociada a transição para uma economia verde como forma de preservar o ar, a terra e a biodiversidade do planeta. Os ativistas temem que o debate sobre o futuro do planeta volte a ter uma forte ênfase no uso de tecnologias para combater a contaminação e a exploração dos recursos naturais, e assim favorecer o crescimento econômico, como ocorreu desde que o desenvolvimento sustentável passou a ser um tema global, em 1992.

Esse enfoque não garantiu uma adequada proteção dos recursos naturais nem dos ecossistemas delicados, segundo ativistas. Por exemplo, mais de cem países entraram em acordo sobre o objetivo ambicioso de manter o aquecimento global abaixo de dois graus, colocando limites às emissões contaminantes de cem bilhões de toneladas de dióxido de carbono até 2050. Contudo, ao que parece, é impossível cumprir a meta.

Numerosos estudos indicam que já foi emitido um terço da cota permitida nos últimos nove anos no planeta, especialmente desde que grandes economias, como China e Índia, passaram a ser grandes contaminadoras. Além disso, apesar do crescimento econômico superior a 8% em países como estes dois, a brecha entre ricos e pobres aumenta. O Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), diz que a expectativa de vida, o analfabetismo e a mortalidade infantil são quase sete vezes maiores nos pequenos povoados da China do que nas grandes cidades.

Para fazer frente a essa tendência alarmante, Yamamoto lidera uma campanha para criar o Grupo de Ética para uma Civilização Ecológica, como agência especial da Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa busca fortalecer o contexto institucional do desenvolvimento sustentável mediante a colaboração entre ciência, cultura e religião. Excelentes pesquisas científicas, que avaliam desde a vulnerabilidade dos ecossistemas até o crescimento econômico, oferecem amplo conhecimento para incidir nas decisões políticas, destacou Yamamoto à IPS.

“Entretanto, o que falta é um desenvolvimento sustentável baseado na perspectiva de uma civilização ecológica, que possa existir em harmonia com os sistemas naturais”, acrescentou Yamamoto. A proposta de um enfoque ético para encontrar soluções na Rio+20 ganhou força no Japão depois da catástrofe nuclear de 2011. “O desastre levou à revisão do êxito econômico desse país. Apesar do grande crescimento do pós-guerra, o ocorrido foi uma dura lição sobre a vulnerabilidade dos materiais enriquecidos e convenceu a população de que a proteção do meio ambiente não pode ficar em segundo lugar”, ressaltou.

O apoio público à energia nuclear diminuiu drasticamente, e quase 70% da população se opõem a recuperar os reatores, apesar de até o desastre do ano passado ser considerada o eixo do desenvolvimento neste país de poucos recursos. As pesquisas de opinião indicam que nem mesmo a ameaça de escassez de energia durante o verão fez com que a população deixasse de ser contra a energia nuclear.

Há cinco anos, Teruyuki Matsushita inaugurou o Clube Donguri, uma pequena organização dedicada a conscientizar sobre o papel da floresta no município de Mihama, onde também há três reatores nucleares. “Meu trabalho contra a energia atômica traz um grande desafio, e para conseguir apoio público tive que demonstrar que a selva pode oferecer emprego que fomenta um desenvolvimento sustentável. Por isto, comecei o Clube Donguri, educamos as pessoas e ganhamos a vida com o corte e a venda de produtos como flores”, explicou Matsushita à IPS.

Como mais da metade da população mundial trabalha na agricultura, Takumo Yamada, da Oxfam Tóquio, destacou que a Rio+20 é uma plataforma crucial para discutir alternativas para um sistema no qual as corporações multinacionais fixam a agenda que afeta milhões de agricultores nos países em desenvolvimento. “O discurso no Rio de Janeiro não deverá estar dominado por empresas ricas que mostram produtos de alta tecnologia como solução para os governos que querem erradicar a pobreza e lidar com os problemas de energia”, afirmou à IPS. “Deve haver uma mudança de modelo na forma de pensar na Rio+20. Devemos trabalhar no âmbito global para conseguir justiça ambiental e objetivos de igualdade e sustentabilidade”, concluiu.

Envolverde/IPS

A água não pode faltar na Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
13/6/2012 – 10h01

por Thalif Deen, da IPS

Slide17 A água não pode faltar na Rio+20

No Cairo, nem todos têm acesso fácil a água. Foto: Victoria Hazou/IPS

Nações Unidas, 13/6/2012 – A manchete de um jornal de Nova York, em março deste ano, capturou a essência de uma possível ameaça à estabilidade mundial: “Informe dos Estados Unidos prevê tensões pela água”. O estudo, uma somatória de relatórios da inteligência norte-americana, alerta que nos próximos dez anos muitos países “quase seguramente experimentarão problemas relacionados com a água, por escassez, má qualidade ou inundações, que poderiam gerar instabilidade e falhas nos Estados, aumentando as tensões regionais”.

Apesar destas advertências, há temores de que no plano de ação que se espera seja acordado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece de 20 a 22 deste mês no Rio de Janeiro, deixe fora o assunto fundamental da água e do saneamento. “Muitos estão perdendo sua fé no sistema das Nações Unidas, e um resultado fraco na Rio+20 contribuirá para essa desconfiança”, alertou Karin Lexen, do Instituto Internacional da Água de Estocolmo.

“Naturalmente, gostaríamos de ver um resultado contundente, com compromissos concretos e com visão de futuro”, disse Karin à IPS. Este especialista também afirmou que seria importante os líderes reunidos no Rio de Janeiro acordarem novas metas de desenvolvimento sustentável. Como elemento crucial da economia, a água claramente deve ser tema de uma das metas, e também deve estar incluída em outras referentes a setores como energia e alimentação, destacou.

A Rio+20, da qual participarão mais de 120 chefes de Estado e de governo, acontecerá 20 anos depois da Cúpula da Terra, também realizada no Rio de Janeiro. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, afirmou que a cúpula deve obter progressos nos elementos fundamentais da sustentabilidade: energia, água, alimentação, cidades, oceanos, emprego e empoderamento das mulheres. Por sua vez, a relatora especial da ONU sobre direito humano a água e saneamento, Catarina de Albuquerque, exortou os Estados-membros a contemplarem este tema na Rio+20.

Em carta aberta dirigida aos governos que discutem o documento final do encontro, Catarina expressa sua preocupação pela possibilidade de ser excluído do texto um expresso reconhecimento do direito humano a água e saneamento, após fracassarem neste aspecto três rodadas de negociações em Nova York. “Alguns países sugeriram uma linguagem alternativa que não faz menção explícita a esse direito. Outros tentaram reinterpretá-lo e inclusive diluir o conteúdo deste direito”, apontou.

A relatora destacou que o acesso a água já foi reconhecido, em 2010, como direito humano tanto pela Assembleia Geral da ONU como pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Quando fixarem metas sobre acesso a água potável, os líderes reunidos na Rio+20 deverão integrar o conceito desse recurso como direito humano, insistiu Catarina. A água deve estar disponível em quantidade suficiente para proteger a saúde e a dignidade humanas, especialmente para os mais marginalizados, ressaltou.

No entanto, Karin destacou que na Rio+20 será fundamental acordar “uma gestão sábia e sustentável da água”. Se tudo continuar como está, a demanda mundial poderá superar a oferta em 40% até 2030. Isto, advertiu, porá em risco também a energia e a alimentação, aumentará os custos da saúde pública, limitará o desenvolvimento econômico, desatará tensões sociais e geopolíticas e causará danos ambientais duradouros.

“Portanto, os fundamentos de uma economia verde eficiente devem ser construídos sobre água, energia e segurança alimentar, e esses temas precisam ser enfrentados de forma integrada e global, além de constarem” do documento final do Rio, acrescentou Karin. Este especialista opinou que as conferências internacionais ainda não dão à água o lugar de destaque que merece, considerando seu papel fundamental para a vida e o desenvolvimento, além de ser ferramenta para a cooperação e também possível motivo de conflitos.

Embora a água seja mencionada no rascunho da declaração final, está excluída quando se refere a outras áreas relacionadas. As delegações continuam debatendo sobre o conceito do acesso a água e saneamento como direito humano, quando faltam poucos dias para o início da reunião. “Temos muito trabalho na última semana que resta pela frente, e na própria cúpula, para garantir que haja compromissos concretos e um resultado contundente”, enfatizou Karin. Envolverde/IPS

Coastal N.C. counties fighting sea-level rise prediction (News Observer)

MON, MAY 28, 2012 10:50 PM

BY BRUCE HENDERSON
The News & Observer Publishing Company

State lawmakers are considering a measure that would limit how North Carolina prepares for sea-level rise, which many scientists consider one of the surest results of climate change.

Federal authorities say the North Carolina coast is vulnerable because of its low, flat land and thin fringe of barrier islands. A state-appointed science panel has reported that a 1-meter rise in sea level is likely by 2100.

The calculation, prepared for the N.C. Coastal Resources Commission, was intended to help the state plan for rising water that could threaten 2,000 square miles. Critics say it could thwart economic development on just as large a scale.

A coastal economic development group called NC-20 attacked the report, insisting the scientific research it cited is flawed. The science panel last month confirmed its findings, recommending that they be reassessed every five years.

But NC-20, named for the 20 coastal counties, appears to be winning its campaign to undermine them.

The Coastal Resources Commission agreed to delete references to planning benchmarks – such as the 1-meter prediction – and new development standards for areas likely to be inundated.

The N.C. Division of Emergency Management, which is using a $5 million federal grant to analyze the impact of rising water, lowered its worst-case scenario prediction from 1 meter (about 39 inches) to 15 inches by 2100.

Politics and economics in play

Several local governments on the coast have passed resolutions against sea-level rise policies.

When the General Assembly convened this month, Republican legislators went further.

They circulated a bill that authorizes only the coastal commission to calculate how fast the sea is rising. It said the calculations must be based only on historic trends – leaving out the accelerated rise that climate scientists widely expect this century if warming increases and glaciers melt.

The bill, a substitute for an unrelated measure the N.C. House passed last year, has not been introduced. State legislative officials say they can’t predict how it might be changed, or when or whether it will emerge.

Longtime East Carolina University geologist Stan Riggs, a science panel member who studies the evolution of the coast, said the 1-meter estimate is squarely within the mainstream of research.

“We’re throwing this science out completely, and what’s proposed is just crazy for a state that used to be a leader in marine science,” he said of the proposed legislation. “You can’t legislate the ocean, and you can’t legislate storms.”

NC-20 Chairman Tom Thompson, economic development director in Beaufort County, said his members – many of them county managers and other economic development officials – are convinced that climate changes and sea-level rises are part of natural cycles. Climate scientists who say otherwise, he believes, are wrong.

The group’s critiques quote scientists who believe the rate of sea-level rise is actually slowing. NC-20 says the state should rely on historical trends until acceleration is detected. The computer models that predict a quickening rate could be inaccurate, it says.

“If you’re wrong and you start planning today at 39 inches, you could lose millions of dollars in development and 2,000 square miles would be condemned as a flood zone,” Thompson said. “Is it really a risk to wait five years and see?”

State planners concerned

State officials say the land below the 1-meter elevation would not be zoned as a flood zone and off-limits to development. Planners say it’s crucial to allow for rising water when designing bridges, roads, and sewer lines that will be in use for decades.

“We’re concerned about it,” said Philip Prete, an environmental planner in Wilmington, which will soon analyze the potential effects of rising water on infrastructure. “For the state to tie our hands and not let us use the information that the state science panel has come up with makes it overly restrictive.”

Other states, he said, are “certainly embracing planning.”

Maine is preparing for a rise of up to 2 meters by 2100, Delaware 1.5 meters, Louisiana 1 meter and California 1.4 meters. Southeastern Florida projects up to a 2-foot rise by 2060.

Dueling studies

NC-20 says the state should plan for 8 inches of rise by 2100, based on the historical trend in Wilmington.

The science panel based its projections on records at the northern coast town of Duck, where the rate is twice as fast, and factored in the accelerated rise expected to come later. Duck was chosen, the panel said, because of the quality of its record and site on the open ocean.

The panel cites seven studies that project global sea level will rise as much as 1 meter, or more, by 2100. The Intergovernmental Panel on Climate Change estimated in 2007 a rise of no more than 23 inches, but did not factor in the melting land ice that many scientists now expect.

NC-20’s science adviser, Morehead City physicist John Droz, says he consulted with 30 sea-level experts, most of them not named in his latest critique of the panel’s work. He says the 13-member panel failed to do a balanced review of scientific literature, didn’t use the best available science and made unsupported assumptions.

“I’m not saying these people are liars,” Thompson said. “I’m saying they have a passion for sea-level rise and they can’t give it up.”

John Dorman of the N.C. Division of Emergency Management, which is preparing a study of sea-level impact, said an “intense push” by the group and state legislators led to key alterations.

Instead of assuming a 1-meter, worst-case rise, he said, the study will report the impact of seas that rise only 3.9, 7.8, 11.7 and 15.6 inches by 2100. The 1-meter analysis will be available to local governments that request it.

“It’s not the product we had put the grant out for,” Dorman said, referring to the $5 million from the Federal Emergency Management Agency that’s paying for the study. Coastal communities will still find the work useful, he predicts.

The backlash on the coast centers on the question of whether sea-level rise will accelerate, said Bob Emory, chairman of the Coastal Resources Commission.

Emory, who lives in New Bern, said the commission deleted wording from its proposed sea-level rise policy that hinted at new regulations in order to find common ground. “Any remaining unnecessarily inflammatory language that’s still in there, we want to get out,” he said.

New information will be incorporated as it comes out, he said.

“There are people who disagree on the science. There are people who worry about what impact even talking about sea-level rise will have on development,” Emory said. “It’s my objective to have a policy that makes so much sense that people would have trouble picking at it.”

In written comments, the N.C. Department of Environment and Natural Resources said the legislation that circulated earlier this month appeared consistent with the coastal commission’s policy changes.

But the department warned of the “unintended impacts” of not allowing agencies other than the coastal commission to develop sea-level rise policies. The restriction could undermine the Division of Emergency Management’s study, it said, and the ability of transportation and emergency-management planners to address rising waters.

The N.C. Coastal Federation, the region’s largest environmental group, said the bill could hurt local governments in winning federal planning grants. Insurance rates could go up, it says.

Relying solely on historical trends, the group said, is like “being told to make investment decisions strictly on past performance and not being able to consider market trends and research.”

Liderança “verde” do Brasil cética com a Rio+20 (Envolverde/IPS)

Envolverde Rio + 20
11/6/2012 – 07h41

por Fabíola Ortiz, da IPS

e11 300x225 Liderança “verde” do Brasil cética com a Rio+20

Marina Silva. Foto: Divulgação.

Rio de Janeiro, Brasil, 11/6/2012 – A agenda para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece este mês no Brasil, ainda carece de prioridades e seus resultados podem ficar sepultados diante das urgências da crise econômica global, afirmou a ex-ministra brasileira de Meio Ambiente (2003-2009), Marina Silva. O documento final da Rio+20 continua sendo “fraco e geral” e não contém contribuições que superem o que foi feito nos últimos 20 anos, desde a Cúpula da Terra de 1992, opinou Marina em entrevista a jornalistas de meios internacionais.

“A discussão sobre economia verde, desenvolvimento social e governança perdeu força, por isso qualquer acordo geral, que não tenha uma atitude crítica e não incorpore instrumentos para enfrentar a deterioração do planeta, atentará contra a memória da cúpula de 1992”, criticou a ex-ministra, que também foi candidata a presidente pelo Partido Verde. Após obter 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, Marina criou o não governamental Instituto Democracia e Sustentabilidade, o qual representará na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, que acontecerá entre 15 e 23 deste mês, paralela à reunião oficial organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Para Marina, a linha de trabalho para a Rio+20, que em nível de chefes de Estado e de governo acontecerá entre os dias 20 e 22, continua com um grave problema de origem, que é aparecerem separadas ecologia e economia, quando deveriam estar integradas. “A União Europeia atende prioritariamente a crise econômica que a afeta, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fracassou em sua tentativa de avançar em uma agenda de clima e biodiversidade, e a China não se mobiliza e não assume compromissos”, declarou.

Apesar de cientistas de todo o mundo alertarem para os graves problemas que a humanidade enfrentará se não for detida a deterioração ambiental, os governos não incorporam em suas agendas propostas de solução ou mudança de rumo, alertou Marina. “O mundo enfrenta uma crise dramática, que se constitui de múltiplas crises: econômica, política, ambiental e de valores”, ressaltou.

A última fase de negociação prévia à Rio+20 será completada no dia 13 no Rio de Janeiro. Perante esta instância, a atual ministra de Meio Ambiente, Izabella Teixeira, contrapôs o pessimismo de Marina Silva ao afirmar que as notícias “são bastante promissoras” para o documento base do encontro. Admitiu que se está diante de um desafio importante, que é obter um consenso que exige compromissos e convergências dos governos. “Temos que facilitar e permitir que todos façam sua parte e que se sintam comprometidos com as diretrizes e os resultados da Rio+20”, afirmou à IPS.

A ministra entende que as negociações iniciadas em Nova York tiveram “avanços importantes”, por isso acredita que o legado da Rio+20 será mais amplo do que o da cúpula de duas décadas atrás, a Eco 92, e refletirá plenamente o conceito de sustentabilidade. Contudo, também reconheceu que devem ser discutidos “novos modelos econômicos ou não conseguiremos fazer a mudança para um desenvolvimento sustentável”.

Por sua vez, Marina Silva afirmou que o Brasil, como anfitrião da Rio+20, reúne as condições para fazer esse rompimento do modelo do Século 20 e atuar como ponte negociadora na busca de compromissos. “É muito importante que o Brasil assuma um papel de liderança para mediar saídas com propostas efetivas para este encontro, sob pena de acabar com a memória da Eco 92”, alertou. Em tom de crítica sobre a gestão da presidente Dilma Rousseff, Marina destacou que espera que sejam corrigidos os rumos de seu governo, para encabeçar uma “nova agenda de economia e desenvolvimento sustentável”.

O Brasil ainda não pode se considerar uma potência socioambiental, apesar de possuir 11% das reservas de água doce do mundo, 20% das espécies vivas, 60% de seu território coberto por florestas, 280 povos autóctones que falam cerca de 120 línguas diferentes além do português, enfatizou Marina. “Isto não nos transforma em uma potência ambiental por natureza, é preciso consegui-lo com atitudes políticas eficazes. Nossa agricultura tem condições para ter uma base sustentável, e não podemos repetir os mesmos equívocos cometidos pelos países industrializados”, indicou.

A aprovação do polêmico Código Florestal mostrou um retrocesso na política ambiental brasileira e coloca em discussão a liderança do governo quanto a levar adiante uma economia sustentável, advertiu Marina. “Vivemos um momento de dúvidas. Parece que podemos retroceder para uma economia semelhante à do século passado. No entanto, é possível ainda reduzir a pobreza, ter crescimento econômico e diminuir as emissões com menos devastação”, apontou.

Às vésperas da Rio+20, o Brasil passa por um desmonte de sua legislação ambiental, especialmente do Código Florestal, que segue adiante apesar de 80% dos entrevistados em diferentes pesquisas afirmarem não concordar com as mudanças realizadas. “O Brasil não precisa desmatar para se manter como um grande produtor de grãos, pois podemos duplicar a produção agrícola sem derrubar uma só árvore”, esclareceu Marina. “Temos tecnologia e conhecimento sem que seja necessário expandir a fronteira agrícola. Podemos produzir alimentos preservando a base natural de nosso desenvolvimento”, concluiu.

O termômetro para medir a Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
12/6/2012 – 09h33

por Thalif Deen, da IPS

Slide15 O termômetro para medir a Rio+20

As inundações, como a que afetou Dominica em 2011, são um dos efeitos devastadores da mudança climática. Foto: Desmond Brown/IPS

Nações Unidas, 12/6/2012 – Quando terminar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá entre os dias 20 e 22 deste mês, no Rio de Janeiro, qual será o critério para medir seus êxitos e fracassos? O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, tem seus próprios parâmetros.

Segundo Ban, a Rio+20 deverá concluir com pelo menos um renovado compromisso político com a economia verde, uma série de metas de desenvolvimento sustentável, um contexto constitucional para implantar o novo plano de ação e associações com a sociedade civil. “Precisamos inventar um novo modelo, um modelo que ofereça crescimento e inclusão social, um modelo que respeite os recursos finitos do planeta”, afirmou Ban a jornalistas na primeira semana deste mês.

Entretanto, para Patricia Lerner, conselheira política do Greenpeace International, definir metas para 2030 não é suficiente. “A atenção deve estar concentrada nesta década, pois as ações que forem tomadas neste momento são fundamentais para prevenir a catastrófica mudança climática, salvar nossos oceanos e proteger os recursos florestais remanescentes, todos fundamentais para o desenvolvimento e o bem-estar humano”, declarou Lerner à IPS.

Por seu lado, o intergovernamental Centro do Sul, com sede em Genebra, tem expectativas maiores. Seu diretor-executivo, Martin Khor, afirmou à IPS que é imperativo reafirmar os compromissos adotados na Cúpula da Terra, realizada há 20 anos também no Rio de Janeiro. “Pelo menos isso demonstrará que os líderes, especialmente dos países industrializados, não estão retrocedendo no que acordaram”, acrescentou.

O princípio mais importante que deve ser reafirmado na Rio+20 é o de responsabilidades comuns diferenciadas, destacou Khor. Isto significa que os países do Norte devem aceitar que têm um dever maior na redução da contaminação das emissões de gases-estufa, causadores do aquecimento global. E, portanto, devem prover financiamento e tecnologia para os países do Sul, para que todos possam avançar no caminho da economia verde, acrescentou Khor, ex-diretor do escritório na Malásia da Rede do Terceiro Mundo.

Ban Ki-moon acrescentou que há 26 áreas prioritárias, que os próprios Estados-membros da ONU identificaram durante as negociações com vistas à Rio+20. Entre estas se destacam segurança alimentar, pobreza, educação, saúde, energia renovável, oceanos, água e saneamento, agricultura, igualdade de gênero e empoderamento das mulheres. “Pode demorar para se chegar a um acordo nas 26 áreas”, admitiu, mas acrescentou que ao menos se deveria pactuar no que ele considera “temas obrigatórios”.

Ban Ki-moon também exortou os Estados-membros das Nações Unidas a acordarem novas metas de desenvolvimento sustentável baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os quais a comunidade mundial se comprometeu a alcançar até 2015. “Temos apenas dois anos e meio”, ressaltou.

Khor disse à IPS que os líderes do mundo deveriam reconhecer que a crise no meio ambiente e na economia é muito mais grave hoje do que há 20 anos, e que devem ser adotados novos compromissos sistemáticos. Também cobrou um acordo que fortaleça significativamente as instituições encarregadas do desenvolvimento sustentável, de forma séria e adequada.

A Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável era toda uma promessa em seu início, mas demonstrou ser muito frágil: reúne-se apenas duas ou três vezes ao ano. “Tem de ser reformada radicalmente ou transformada em um novo conselho ou fórum que possa encarar os desafios impostos pela crise global em suas três dimensões: ambiental, econômica e social”, sugeriu Khor.

A comissão, prosseguiu Khor, deveria manter reuniões regulares, e sua secretaria deveria ser forte, com mais pessoal e dinamismo. A Rio+20 deveria fortalecer esse órgão para que realize um acompanhamento das decisões adotadas pelos líderes políticos, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) deveria, por seu lado, fortalecer suas operações, enfatizou. “É preciso haver claros compromissos para apoiar os países em desenvolvimento com o objetivo de que estes assumam maiores responsabilidades nos problemas ambientais, sociais e econômicos”, observou.

A cúpula não pode ficar atrasada em matéria de implantação, apontou Khor. “Deve haver um novo compromisso e recursos financeiros adicionais para o desenvolvimento sustentável e a transferência de tecnologia em termos favoráveis e preferenciais, como foi acordado há duas décadas no Rio e muitas vezes depois”, ressaltou. “Me preocupa o fato de nos últimos meses muitos países industrializados terem emitido sinais de que não desejam manter esses compromissos. Isto seria desastroso”, alertou.

Envolverde/IPS

Sustainable water management through green economy? (DIE)

Houdret, Annabelle; Elke Herrfahrdt-Pähle Waltina Scheumann; Ines Dombrowsky(2012). Sustainable water management through green economy? Bonn: German Development Institute (DIE) – Briefing Paper 5/2012.

Summary

Twenty years after the international community meeting in Rio de Janeiro agreed on the triad of ecological, economic and social sustainability, the subject of the green economy is gaining ground in debates on the environment and development. Many international organisations have developed their own definitions and programmes designed to boost economic growth, create jobs and protect natural resources all at the same time. In view of the ecological, social and economic problems caused by the overuse of natural resources and the continued increase in greenhouse gas emissions, the question of a sustainable economic order is more urgent than ever. Even the United Nations Conference on Sustainable Development, or the Rio+20 Summit for short, is dominated by the green economy debate, which is almost threatening to supplant the established concept of sustainability. Although it is emphasised that sustainable development remains the contracting parties’ principal objective and that the achievement of the green economy is only a means to that end, most of the proposed measures and the debates have so far focused on strengthening environmentally compatible growth, with little attention paid to possible unintended effects on society and ecosystems.

For human development and ecosystems, however, the water sector plays a key role in the implementation of many green economy projects. This paper therefore analyses the extent to which the green economy may help the water sector to achieve sustainable development and to meet the major challenges. It reaches the conclusion that, while the attention paid to the water sector
that accompanies the debate on the green economy is good, the concept has serious weaknesses:

— On the whole, the green economy debate makes little reference to existing norms and discourses on sustainable water management. One result of this is that certain aspects of social sustainability and human development are frequently overlooked. Nor are many of the proposed measures adequately embedded in the overall ecological context, the postulated positive effects for sustainable water management thus being uncertain.

— Too little attention has so far been paid to conflicts of objectives between the implementation of the green economy agenda and the classical social and ecological aspects of sustainable water management.

— It is becoming clear that too much emphasis is being placed on the role of the private sector and too little on the responsibilities of the state as organiser of the sustainable use of natural resources. There is consequently a danger of measures / sectors in which the business community shows no interest being neglected.

Read the full paper here.

The top five things voters need to know about conservatives and climate change (Grist.org)

By David Roberts4 Jun 2012 3:46 PM

Five! (Photo by woodleywonderworks)I’ve seen a recent surge of stories about conservatives and climate change. None of them, oddly, tell voters what they most need to know on the subject. In fact, one of them does the opposite. (Grrrr …)I respond in accordance with internet tradition: a listicle!
5. Conservatives have a long history of advancing environmental progress. In a column directed to Mitt Romney, Thomas Friedman reels off(one suspects from memory) “the G.O.P.’s long tradition of environmental stewardship that some Republicans are still proud of: Teddy Roosevelt bequeathed us national parks, Richard Nixon the Clean Air Act and the Environmental Protection Agency, Ronald Reagan the Montreal Protocol to protect the ozone layer and George H. W. Bush cap-and-trade that reduced acid rain.” This familiar litany is slightly misleading, attributing to presidents what is mostly the work of Congresses, but the basic point is valid enough: In the 20th century, Republicans have frequently played a constructive role on the environment.
4. There is a conservative approach to addressing climate change. Law professor Jonathan Adler has laid it out in the past and does so again in a much-discussed post over at The Atlantic. He suggests prizes for innovation, reduced regulatory barriers to alternative energy, a revenue-neutral carbon tax, and some measure of adaptation.It’ll be no surprise to Adler or anyone else that I believe the problem is more severe than he does; solving it — as opposed to just “doing something” — will involve a far more vigorous government role than he envisions. But he makes an eloquent, principled case for the simple notion that “embrace of limited government principles need not entail the denial of environmental claims.” Conservatives could, if they wanted, spend their time arguing for their preferred solutions rather than denying scientific results.
3. There are conservatives who believe in taking action on climate change. Even thosedismal polls we’re always talking about find 30 or 40 percent of Republicans acknowledging the threat of climate change. And support for clean air and clean energy policies remains high across the board. Heck, some — OK, a tiny handful of — conservatives are even brave enough to say so in public! It’s really only the hard nut of the GOP, anywhere from 15 to 30 percent, depending on how you measure, that is intensely and ideologically opposed to climate science and solutions alike. Oh, and almost all Republicans in Congress.
2. Mitt Romney used to say and do moderate things on green issues when he was governor of Massachusetts. He spoke in favor of the Regional Greenhouse Gas Initiative, a cap-and-trade system for Northeastern states, and introduced the Massachusetts Climate Protection Plan. He wasn’t afraid to crack down on coal plants — I never get tired of thisremarkable video:Romney also directed considerable state funding to renewable energy companies and waged open war on sprawl. It’s almost like he was running a state where that kind of stuff was popular.
1. The Republican establishment has gone nuts on climate change and the environment.This, more than anything, is what American voters need to know about the Republican Party — not what Republicans used to do, or what one or two outliers say, but what the party as an extant political force is devoted to today. The actually existing GOP wants todismantle the EPA, open more public land to coal mining and oil drilling, remove what regulatory constraints remain on fossil-fuel companies, slash the budget for clean-energy research and deployment, scrap CAFE and efficiency standards, protect inefficient light bulbs, withdraw from all international negotiations or efforts on climate, and stop the military from using less oil.
Which brings me to the piece that drives me crazy, from National Journal‘s customarily excellent Amy Harder: “Campaign Energy Messages Differ; Policies Not So Much.”Seriously?No … seriously?I know journalists don’t headline their own pieces. But the piece itself isn’t much better. Take this bit:

Whether the data is inflated or not, the message that may be coming across most to voters is that there really isn’t much difference between Obama’s policies and those likely to be pursued in a Romney administration.

Ah, so the problem is not that Obama and Romney would have similar energy policies. That’s just the message “coming across to most voters.
”Now, if you’re a journalist, and you determine that voters are receiving a wildly incorrect message, what do you do? Do you write a story about their receipt of the incorrect message? Or do you correct the message?
The fact is, Romney would not pursue the same energy policies that Obama is pursuing. At all. Not even a little bit. It’s interesting, I suppose, that Romney used to run a state (and a state party) where moderate energy policy was demanded by voters. But what matters now is that Mitt Romney serves the present-day Republican Party, which has gone crazy.
The notion that Mitt Romney will rediscover some hidden internal moderate and buck the party on this stuff is just a VSP fantasy. Ever since he started running for president (this time around, anyway), he’s been frantically trying to please the right-wing base. Friedman says Romney’s “biggest challenge in attracting independent swing voters will be overcoming a well-earned reputation for saying whatever the Republican base wants to hear.” But self-styled centrists like Friedman have been saying this kind of thing forever and there remains very little indication that any Republican politician faces a tangible cost for pandering to the right.
Romney will not be elected to follow his heart. He’ll be elected to ratify the GOP agenda. Grover Norquist, a man with as much claim to leadership of the GOP as anyone, made his feelings on the matter extremely clear at CPAC:

All we have to do is replace Obama. … We are not auditioning for fearless leader. We don’t need a president to tell us in what direction to go. We know what direction to go. … We just need a president to sign this stuff. We don’t need someone to think it up or design it. The leadership now for the modern conservative movement for the next 20 years will be coming out of the House and the Senate.…Pick a Republican with enough working digits to handle a pen to become president of the United States. This is a change for Republicans: the House and Senate doing the work with the president signing bills. His job is to be captain of the team, to sign the legislation that has already been prepared. [my emphasis]

Mitt Romney is well-aware — and if he wasn’t before, the primary taught him — that his job is to “sign the legislation that has already been prepared.” The leadership of the party is in Congress. It has declared skepticism of climate science the de facto party position. It has declared open war on clean energy, efficiency, and environmental protections. It has made clear that it will support fossil-fuel companies at every juncture.
That’s conservatives and climate for you. It’s interesting, intellectually, that there’s a history of green moderation in the party; that there’s a conceptual space where titular conservative principles overlap with climate protection; that many self-identified Republicans aren’t as crazy as their leaders; and that Romney used to pander in a different direction. But what’s relevant to voters who value climate and environmental protection is that they won’t get any under a GOP administration or a GOP Congress.

Tomgram: Bill McKibben, Climate-Change Deniers Have Done Their Job Well (TomDispatch.com)

Posted by Bill McKibben at 4:40pm, June 3, 2012.

Here’s the thing about climate-change deniers: these days before they sit down to write their blog posts, they have to turn on the AC.  After all, it might as well be July in New York (where I’m writing this), August in Chicago (where a century-old heat record was broken in late May), and hellat the Indy 500.  Infernos have been raging from New Mexico and Colorado, where the fire season started early, to the shores of Lake Superior, where dry conditions and high temperatures led to Michigan’s third largest wildfire in its history.  After a March heat wave for the record books, we now have summer in late spring, the second-named tropical storm of the season earlier than ever recorded, and significant drought conditions, especially in the South and Southwest.  In the meantime, carbon dioxide (and other greenhouse gases) continue to head for the atmosphere inrecord quantities.  And in case anyone living in a big city doesn’t know it, heat can kill.

It’s true that no single event can be pinned on climate change with absolute certainty.  But anyone who doesn’t think we’re in a fierce new world of weather extremes — and as TomDispatch regularBill McKibben has suggested, on an increasingly less hospitable planet that he calls Eaarth — is likely to learn the realities firsthand soon enough.  Not so long ago, if you really wanted to notice the effects of climate change around you, you had to be an Inuit, an Aleut, or some other native of the far north where rising temperatures and melting ice were visibly changing the landscape and wrecking ways of life — or maybe an inhabitant of Kiribati.  Now, it seems, we are all Inuit or Pacific islanders.  And the latest polling numbers indicate that Americans are finally beginning to notice in their own lives, and in numbers that may matter.

With that in mind, we really do need a new term for the people who insist that climate change is a figment of some left-wing conspiracy or a cabal of miscreant scientists.  “Denial” (or the more active “deniers”) seems an increasingly pallid designation in our new world.  Consider, for instance, that in low-lying North Carolina, a leading candidate for disaster from globally rising sea levels, coastal governments and Republicans in the state legislature are taking action: they are passing resolutions against policies meant to mitigate the damage from rising waters and insisting that official state sea-level calculations be made only on the basis of “historic trends,” with no global warming input.  That should really stop the waters!

In the meantime, this spring greenhouse-gas monitoring sites in the Arctic have recorded a startling first: 400 parts per million of carbon dioxide in the atmosphere.  It’s an ominous line to cross (and so quickly).  As in the name of McKibben’s remarkable organization, 350.org, it’s well above the safety line for what this planet and many of the species on it, including us, can take in the long term, and heat-trapping gases in the atmosphere are still on the rise.  All of this is going to get ever harder to “deny,” no matter what resolutions are passed or how measurements are restricted.  In the meantime, the climate-change deniers, McKibben reports, are finally starting to have troubles of their own. Tom

The Planet Wreckers
Climate-Change Deniers Are On the Ropes — But So Is the Planet

By Bill McKibben

It’s been a tough few weeks for the forces of climate-change denial.

First came the giant billboard with Unabomber Ted Kacynzki’s face plastered across it: “I Still Believe in Global Warming. Do You?” Sponsored by the Heartland Institute, the nerve-center of climate-change denial, it was supposed to draw attention to the fact that “the most prominent advocates of global warming aren’t scientists. They are murderers, tyrants, and madmen.” Instead it drew attention to the fact that these guys had over-reached, and with predictable consequences.

A hard-hitting campaign from a new group called Forecast the Facts persuaded many of the corporations backing Heartland to withdraw $825,000 in funding; an entire wing of the Institute, devoted to helping the insurance industry, calved off to form its own nonprofit. Normally friendly politicians like Wisconsin Republican Congressman Jim Sensenbrenner announced that they would boycott the group’s annual conference unless the billboard campaign was ended.

Which it was, before the billboards with Charles Manson and Osama bin Laden could be unveiled, but not before the damage was done: Sensenbrenner spoke at last month’s conclave, but attendance was way down at the annual gathering, and Heartland leaders announced that there were no plans for another of the yearly fests. Heartland’s head, Joe Bast, complained that his side had been subjected to the most “uncivil name-calling and disparagement you can possibly imagine from climate alarmists,” which was both a little rich — after all, he was the guy with the mass-murderer billboards — but also a little pathetic.  A whimper had replaced the characteristically confident snarl of the American right.

That pugnaciousness may return: Mr. Bast said last week that he was finding new corporate sponsors, that he was building a new small-donor base that was “Greenpeace-proof,” and that in any event the billboard had been a fine idea anyway because it had “generated more than $5 million in earned media so far.” (That’s a bit like saying that for a successful White House bid John Edwards should have had more mistresses and babies because look at all the publicity!) Whatever the final outcome, it’s worth noting that, in a larger sense, Bast is correct: this tiny collection of deniers has actually been incredibly effective over the past years.

The best of them — and that would be Marc Morano, proprietor of the website Climate Depot, and Anthony Watts, of the website Watts Up With That — have fought with remarkable tenacity to stall and delay the inevitable recognition that we’re in serious trouble. They’ve never had much to work with.  Only one even remotely serious scientist remains in the denialist camp.  That’s MIT’s Richard Lindzen, who has been arguing for years that while global warming is real it won’t be as severe as almost all his colleagues believe. But as a long article in the New York Times detailed last month, the credibility of that sole dissenter is basically shot.  Even the peer reviewers he approved for his last paper told the National Academy of Sciences that it didn’t merit publication. (It ended up in a “little-known Korean journal.”)

Deprived of actual publishing scientists to work with, they’ve relied on a small troupe of vaudeville performers, featuring them endlessly on their websites. Lord Christopher Monckton, for instance, an English peer (who has been officially warned by the House of Lords to stop saying he’s a member) began his speech at Heartland’s annual conference by boasting that he had “no scientific qualification” to challenge the science of climate change.

He’s proved the truth of that claim many times, beginning in his pre-climate-change career when he explained to readers of the American Spectator that “there is only one way to stop AIDS. That is to screen the entire population regularly and to quarantine all carriers of the disease for life.” His personal contribution to the genre of climate-change mass-murderer analogies has been to explain that a group of young climate-change activists who tried to take over a stage where he was speaking were “Hitler Youth.”

Or consider Lubos Motl, a Czech theoretical physicist who has never published on climate change but nonetheless keeps up a steady stream of web assaults on scientists he calls “fringe kibitzers who want to become universal dictators” who should “be thinking how to undo your inexcusable behavior so that you will spend as little time in prison as possible.” On the crazed killer front, Motl said that, while he supported many of Norwegian gunman Anders Breivik’s ideas, it was hard to justify gunning down all those children — still, it did demonstrate that “right-wing people… may even be more efficient while killing — and the probable reason is that Breivik may have a higher IQ than your garden variety left-wing or Islamic terrorist.”

If your urge is to laugh at this kind of clown show, the joke’s on you — because it’s worked. I mean, James Inhofe, the Oklahoma Republican who has emerged victorious in every Senate fight on climate change, cites Motl regularly; Monckton has testified four times before the U.S. Congress.

Morano, one of the most skilled political operatives of the age — he “broke the story” that became the Swiftboat attack on John Kerry — plays rough: he regularly publishes the email addresses of those he pillories, for instance, so his readers can pile on the abuse. But he plays smart, too. He’s a favorite of Fox News and of Rush Limbaugh, and he and his colleagues have used those platforms to make it anathema for any Republican politician to publicly express a belief in the reality of climate change.

Take Newt Gingrich, for instance.  Only four years ago he was willing to sit on a love seat with Nancy Pelosi and film a commercial for a campaign headed by Al Gore.  In it he explained that he agreed with the California Congresswoman and then-Speaker of the House that the time had come for action on climate. This fall, hounded by Morano, he was forced to recant again and again.  His dalliance with the truth about carbon dioxide hurt him more among the Republican faithful than any other single “failing.”  Even Mitt Romney, who as governor of Massachusetts actually took some action on global warming, has now been reduced to claiming that scientists may tell us “in fifty years” if we have anything to fear.

In other words, a small cadre of fervent climate-change deniers took control of the Republican party on the issue.  This, in turn, has meant control of Congress, and since the president can’t sign a treaty by himself, it’s effectively meant stifling any significant international progress on global warming.  Put another way, the variousright wing billionaires and energy companies who have bankrolled this stuff have gotten their money’s worth many times over.

One reason the denialists’ campaign has been so successful, of course, is that they’ve also managed to intimidate the other side. There aren’t many senators who rise with the passion or frequency of James Inhofe but to warn of the dangers of ignoring what’s really happening on our embattled planet.

It’s a striking barometer of intimidation that Barack Obama, who has a clear enough understanding of climate change and its dangers, has barely mentioned the subject for four years.  He did show a little leg to his liberal base in Rolling Stoneearlier this spring by hinting that climate change could become a campaign issue.  Last week, however, he passed on his best chance to make good on that promise when he gave a long speech on energy at an Iowa wind turbine factory without even mentioning global warming. Because the GOP has been so unreasonable, the President clearly feels he can take the environmental vote by staying silent, which means the odds that he’ll do anything dramatic in the next four years grow steadily smaller.

On the brighter side, not everyone has been intimidated.  In fact, a spirited counter-movement has arisen in recent years.  The very same weekend that Heartland tried to put the Unabomber’s face on global warming, 350.org conducted thousands of rallies around the globe to show who climate change really affects. In a year of mobilization, we also managed to block — at least temporarily — the Keystone pipeline that would have brought the dirtiest of dirty energy, tar-sands oil, from the Canadian province of Alberta to the Gulf Coast.  In the meantime, our Canadian allies are fighting hard to block a similar pipeline that would bring those tar sands to the Pacific for export.

Similarly, in just the last few weeks, hundreds of thousands have signed on to demand an end to fossil-fuel subsidies. And new polling data already show more Americans worried about our changing climate, because they’ve noticed the freakish weather of the last few years and drawn the obvious conclusion.

But damn, it’s a hard fight, up against a ton of money and a ton of inertia. Eventually, climate denial will “lose,” because physics and chemistry are not intimidated even by Lord Monckton. But timing is everything — if he and his ilk, a crew of certified planet wreckers, delay action past the point where it can do much good, they’ll be able to claim one of the epic victories in political history — one that will last for geological epochs.

Bill McKibben is Schumann Distinguished Scholar at Middlebury College, founder of the global climate campaign 350.org, a TomDispatch regular, and the author, most recently, of Eaarth: Making a Life on a Tough New Planet.

Copyright 2012 Bill McKibben

Os Negadores das Mudanças Climáticas encontram uma Radical à Altura: a Natureza!

by Alexandre Araújo Costa on Thursday, June 7, 2012 at 9:50pm (publicado no Facebook).

O título alternativo deste artigo bem poderia conter “o IPCC é fichinha” ou, de forma mais inclusiva, “Cientistas do Clima somos fichinha”. Isto porque, de fato, o embate entre nós e os negadores está longe de ser justo.

O debate científico se dá em Conferências e Congressos e, principalmente, por meio da literatura com revisão. São necessários vários meses para um artigo científico (que às vezes sintetiza resultados de anos de trabalho), após, às vezes, múltiplas idas e vindas de revisões, finalmente ser publicado (suas conclusões sendo geralmente restritas a um pequeno aspecto da ciência e, por ter de necessariamente ser apresentada de forma técnica, acessível a um público muito restrito de especialistas da própria área).  Apesar de suas imperfeições (erros em artigos científicos podem, sim, ocorrer), do olhar não raro fragmentado, e de sua aparência geralmente obscura para o grande público, são – particularmente hoje em dia – as contribuições parciais, os pequenos avanços e retrocessos, que pavimentam o caminho para sólidas conclusões científicas.

A clareza de entendimento em torno da mudança climática atual, do papel antrópico determinante e do risco envolvido foi fruto dessa acumulação de evidências. Apoiando-se em conhecimentos mais fundamentais da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia, da Geologia e das interfaces entre elas, e sobre uma colossal quantidade de dados, análises, modelos de diversos níveis de complexidade é que a Ciência do Clima erigiu seu edifício. Nesse contexto, quando as peças se encaixam, a quantidade (as múltiplas informações parciais, mas convergentes) se transforma em qualidade (a “Big Picture”), no quebra-cabeça montado, demonstrado várias e várias vezes nos relatórios de avaliação do IPCC.

Por outro lado, os negadores não seguem as regras do debate e do método científicos. Pelo contrário, atacam-nos, sem cerimônia. É possível fazer qualquer afirmação tresloucada em um blog, em uma palestra, em um “debate” (desses que mais parecem debate eleitoral) ou em uma aparição na mídia. A liberdade para mentir, fantasiar, tergiversar nesses casos é quase infinita e para quem tem compromisso com a verdade científica, é difícil dar conta até de uma pequena parcela dessas mentiras, falsificações e tergiversações. Explicar porque determinada afirmação é falsa dá muito mais trabalho do que fazê-la. Desnudar inveracidades, desmistificar o “cherry-picking” (o ato de escolher um dado entre mil que aparentemente serve de base para uma dada afirmação), localizar sofismas não é trivial no pouco tempo ou espaço que se tem nesse terreno. É desse terreno que os negadores gostam. É por meio dele, e não de um debate verdadeiramente científico e honesto, que eles tentam envenenar a opinião pública e os tomadores de decisão. Deveriam se envergonhar. Mas não! Nesse terreno, um negador que seja um orador (ou escritor) talentoso, cujo semblante não trema, mesmo quando faz afirmações obviamente mentirosas como “o efeito estufa não existe” ou “os modelos de clima não consideram as correntes oceânicas”, deita e rola.

Poucos cientistas, portanto, terminam por entrar nessa arena de gládio, para encararem o vale-tudo dos negadores. Individualmente, nada se ganha ao fazê-lo, pelo contrário. Perde-se tempo e energia que poderia estar sendo dedicada à pesquisa e à produção científica (que infelizmente é avaliada segundo métricas quantitativas que nem sempre refletem a real contribuição à ciência). Há também os cientistas que acham que não é seu papel popularizar a ciência ou sequer combater a pseudo-ciência e a anti-ciência junto ao público. Por fim, há um fator que não se deve desprezar. Pela virulência dos ataques e pelo grau acentuado de desonestidade dos negadores, muitos dos meus pares simplesmente preferem não lutar no terreno deles. É preciso, realmente, muito estômago!

Mas felizmente, os negadores têm um adversário à altura, que não precisa, como nós, caminhar sobre ovos! Um adversário duro, bruto, que vai direto ao assunto, que não se intimida, que não faz juízo de valor, que não tem ideologia. É esse adversário, e não o IPCC e o restante da comunidade da Ciência do Clima, quem tem feito o contraponto mais cristalino aos negadores. Chama-se Natureza! Esta não tem de se preocupar em testar múltiplas vezes suas próprias hipóteses, nem em revisar, em um processo lento, uma análise sobre suas próprias leis. Ela simplesmente é. Simplesmente se comporta de acordo com suas próprias regras. Simplesmente faz! E bate duro na negação!

Chequemos, portanto, o que a Natureza nos tem afirmado. No que diz respeito às projeções do IPCC de temperatura, feitas quando da preparação do seu 4o relatório, estas têm-se confirmado de forma bastante clara, como mostra a Figura a seguir, obtida em http://www.realclimate.org/index.php/archives/2012/02/2011-updates-to-model-data-comparisons/.

Comparação das projeções de temperatura dos modelos do IPCC com observações

A região cinza nessa Figura representa a faixa de projeções do conjunto do IPCC (de tal modo que 95% das previsões se encontra dentro dela). A linha preta é a média delas. As linhas coloridas representam observações da temperatura média global, de acordo com 3 centros de pesquisa. Baixa atividade solar e ocorrência mais frequente de La Niñas (situação em que o Pacífico Equatorial esfria) nos últimos anos podem ter diminuído a velocidade do aquecimento verificada nos anos 90, mas o que assusta é que, em condições como as dos últimos anos, nós deveríamos ter observado um resfriamento do sistema terrestre! Ou seja, ficamos com o nó na garganta, esperando o que pode vir no próximo período em que uma maior atividade solar coincidir com uma maior frequência de El Niños (quando o Pacífico Equatorial se aquece)… Tudo indica que, neste caso, ao invés de aumentarem num ritmo um pouco abaixo, mas próximo ao da média do conjunto dos modelos do IPCC, as temperaturas voltem a mostrar um aumento pronunciado.

Na verdade, mesmo que tivéssemos observado uma constância nas temperaturas ou mesmo um ligeiro resfriamento nos últimos anos, isso não poderia servir de argumento para os negadores! La Niñas e sol pouco ativo deveriam ter servido para resfriar o planeta, o que obviamente não aconteceu em função da contribuição antrópica. As figuras que mostro a seguir são para explicar, de forma didática, a sobreposição dessas duas contribuições (natural e humana). Os processos naturais, a princípio, poderiam ser considerados cíclicos, ou quase cíclicos. Há muitos ciclos, de diferentes frequências e uma boa dose de “caos” (que dá um cara de aleatoriedade a alguns processos climáticos), mas por simplicidade, assumiremos uma oscilação simples, com a temperatura subindo durante alguns anos, descendo nos anos seguintes, depois voltando a subir, e assim por diante, como na figura abaixo.

Representação idealizada da variação “puramente natural” de temperatura

Mas existe a contribuição do homem, que é obviamente de aquecimento (como já discuti, acumular CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera não tem como produzir outra coisa!). Isso seria representado por uma curva ascendente, isto é, com a temperatura sempre subindo. Como a contribuição antrópica tem-se acelerado, um gráfico da contribuição “puramente humana” poderia ter a aparência desta curva aqui:

Representação simplificada da contribuição antrópica para a mudança de temperatura

Somando as duas contribuições, isto é, a “natural”, representada pela primeira curva e a “antrópica”, pela segunda, o que se verifica é algo bastante interessante, ilustrando em parte o que já se viu e em parte o que se deve esperar no futuro. No começo (faixa azul), o sinal humano é muito pequeno e as oscilações naturais dominam por inteiro. No período imediatamente posterior, as oscilações naturais ainda se destacam, mas o sinal humano cresce, tornando-se discernível, mesmo sendo ainda relativamente pequeno. Em seguida (faixa laranja), temos algo como aumentos acelerados de temperatura, alternados com períodos de poucas variações. No meu ponto de vista, estamos ainda nessa fase, mas duas coisas devem ser ditas. No próximo ciclo em que o sinal humano e o sinal natural estiverem ambos contribuindo para o aquecimento (como no local indicado pela seta, em nossa caricatura abaixo), deveremos experimentar um aquecimento mais acelerado do sistema climático do que aquele verificado nos anos 90. Mais ainda! No período posterior (faixa vermelha), o sinal antrópico tende a ser dominante! Isso é representado pelo final do gráfico, em que mesmo quando tivermos condições naturais (sol menos ativo, ocorrência maior de La Niñas), o aquecimento praticamente não desacelera!

Representação do resultado da sobreposição dos efeitos natural e antrópico, indo de um estado dominado pelo fator natural até um estado dominado pelo fator antrópico

Mas são outros componentes do sistema climático terrestre que, por sofrerem menos influência de oscilações naturais de alta frequência do que a atmosfera, têm-se mostrado ainda mais veementes ao “negarem a negação”.

Comparemos primeiro as projeções de elevação do nível do mar com o que tem acontecido na realidade. É fácil verificar que apenas o modelo mais “pessimista” ou “catastrofista” (não gosto desses juízos de valor) tem acompanhado a realidade (vide http://www.global-warming-forecasts.com/resources/sea-level-increase.png , reproduzida abaixo e http://www.skepticalscience.com/images/SLR_models_obs.gif). Nessa figura, as observações (representadas pelas linhas vermelha – marégrafos – e azul – satélite) estão sistematicamente acima da faixa cinza, que contém a maioria das projeções de modelos. Outro processo que tem mostrado uma realidade pior do que a das projeções do último relatório do IPCC é a do degelo do Ártico, como mostrado em http://www.realclimate.org/images/seaice11.jpg e aqui reproduzido. O degelo real (linha vermelha) tem sido mais acelerado do que qualquer projeção dos modelos (várias outras linhas). Ainda que, nesses dois casos, outros processos que não o aquecimento global antrópico possam ter contribuído para acelerar as mudanças (elevação do nível do mar e degelo) para além das piores projeções feitas pelo IPCC, a Natureza tem falado alto. A humanidade, ridiculamente, faz ouvidos moucos.

Comparação das projeções de elevação do nível do mar dos modelos do IPCC com observações

Comparação das projeções de degelo do Ártico dos modelos do IPCC com observações

Um dos paleoclimatologistas mais respeitados do mundo e um cientista de atuação inspiradora e contangiante, o Prof. Richard Alley, da Pennsylvania State University, costuma colocar a questão de forma muito simples. A realidade pode, sim, não ser tão ruim quanto a apresentada pelo IPCC que é baseada, como mostrei em meu texto anterior (http://www.facebook.com/notes/alexandre-ara%C3%BAjo-costa/a-nega%C3%A7%C3%A3o-das-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-e-seu-desprop%C3%B3sito-versus-a-objetividade-e-ati/399810206727544), em estimativas médias de várias quantidades, processos e fenômenos. Mas é fundamental dizer que existe a mesma chance de ser ainda pior e se o que mostrei podem não ser indícios totalmente claros nesse sentido, deveriam ao menos servir de alerta! Não agir para reduzir globalmente as emissões de gases de efeito estufa é, em tais condições, uma postura de total irracionalidade, irresponsabilidade e desprezo para com os direitos e aspirações das gerações futuras!

Cientistas da USP continuam fiéis ao IPCC (Jornal do Campus-USP) + carta de Ricardo Felício

por   e 

Especialistas defendem a credibilidade do painel climático mundial e opinam sobre o aquecimento global

Desde novembro do ano passado, o IPCC passa por uma crise de credibilidade. Na ocasião foram encontrados erros no relatório que deu ao painel o Prêmio Nobel da Paz em 2007. O mais grave deles era uma previsão sobre o degelo do Himalaia até 2035. Na mesma época vieram a público trocas de e-mails entre seus cientistas insinuando que pesquisas que negam o aquecimento global não seriam avaliadas pelo IPCC. O caso ficou conhecido como Climategate.

Os acontecimentos serviram de argumento para os céticos, aqueles que defendem que o aquecimento global é um fenômeno natural com precedentes ao longo da história e não tem relação com as ações do homem no planeta.

A polêmica ganhou novamente os holofotes da mídia em fevereiro, quando o secretário executivo do painel pediu demissão do cargo. Imediatamente o presidente da instituição, Rajendra Pachauri, anunciou que não mediria esforços para propor um conjunto de medidas que assegurem mais rigor científico nos relatórios e maior controle sobre os especialistas que os produzem.

Sem crise

Tércio Ambrizzi acredita que mais cuidado pode evitar dados incorretos. No entanto, “quando olhado no geral, o relatório do IPCC é muito sólido”, acredita. Segundo ele, mais de mil páginas são analisadas e esse volume dá margem para que algum erro escape. Quanto aos emails publicados, Ambrizzi diz que a invasão da privacidade é algo extremamente perigoso. “Em ciência não é assim que você prova que um resultado científico está errado. Você prova com a ciência”.

Paulo Artaxo compartilha dessa visão, também enfatizando o esforço que os cientistas têm com o relatório: “Ter duas citações que merecem ser corrigidas não invalida o trabalho intenso de milhares de cientistas ao longo de muitos anos”.

A professora Ilana Wainer, presidente da Comissão de Pesquisa do Instituto de Oceanografia (IO), vai além na defesa da credibilidade do IPCC. A professora diz que não vê crise “no que diz respeito à ciência, que é irrefutável e determinística”.

A cientista do IO é enfática ao afirmar que o Climategate foi baseado num verdadeiro roubo de emails de pesquisadores do centro de pesquisa do clima em East Anglia (Reino Unido). “Foram mais de 1000 emails e os ‘céticos’ tentaram desacreditar a ciência das mudanças climáticas baseados nisso e só conseguiram achar um ou outro email pessoal. Existe uma base científica sólida que sustenta a afirmação de que o aquecimento global das últimas quatro, cinco décadas vem da ação do homem”.

(ilustração: Hugo Neto)

Aquecimento global

Para Artaxo, o homem está alterando de modo significativo vários aspectos do planeta. Ele cita como exemplo a queima de combustíveis fósseis nos últimos 150 anos e as alterações no uso do solo, como a troca intensiva de florestas por plantações: “A acumulação adicional de gases de efeito estufa na atmosfera aumentou a temperatura média de nosso planeta em 0.7 graus centígrados nos últimos 150 anos”.

Ambrizzi e Ilana também são categóricos na defesa do aquecimento global e da interferência do homem. “O aquecimento global está ocorrendo e é inequívoca a participação do homem nisso”, afirma a professora do IO.

Já Aretha Sanchez, advogada e autora de pesquisa sobre mudanças climático-ambientais desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), afirma que mudanças climáticas são comprovadas por registros através do tempo.  “Essas alterações ocorrem por fatores externos ou internos à Terra – dentre os internos, temos a presença humana”, diz Aretha.

Iceberg gigante

Perguntada se o desprendimento do iceberg gigante na Antártida tem relação com o aquecimento global, Ilana explica que “do lado continental há acúmulo de neve/gelo; do lado oceânico ocorre um processo conhecido como calving, que é a liberação repentina e o rompimento de uma massa de gelo de uma geleira. O gelo que rompe pode ser classificado como um iceberg. O desprendimento desse grande iceberg pode ocorrer normalmente como parte do balanço de massa da geleira. O aquecimento global favorece, sim, a intensificação do calving e maior frequência de icebergs, mas não necessariamente está associado ao tamanho deles”.

*   *   *

Carta aberta de Ricardo Augusto Felicio, professor de climatologia do Departamento de Geografia da FFLCH, endereçada ao Jornal do Campus (JC) da USP

Lamentável e repugnante a matéria deste jornal da primeira quinzena de março de 2010, informando que os cientistas da USP permanecem fiéis ao
IPCC <http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2010/03/cientistas-da-usp-continuam-fieis-ao-ipcc/>.

Vocês deveriam se retratar em público por tamanho absurdo. Somos muitos os pesquisadores desta instituição que negam as imbecilidades pregadas, em
forma de dogma, da patifaria imposta por ONGs, ONU e interesses de governos internacionais.

Cientista não pode ser fiel, muito menos a um órgão político da ONU que nada tem de científico. O jornal ainda peca ao falar dos 2000 cientistas. Eles não devem passar atualmente de 100 ou 200. Só em 2008, mais de 600 caíram fora, alegando que não mais participariam deste conluio. O número real expressa um avolumando contingente de membros de ONGs, políticos e burocratas que nada tem a ver com ciência. Esta é a realidade que custa a ser demonstrada aqui no Brasil.

Enquanto a briga lá fora está acirrada devido aos diversos escândalos, quase semanais, encontrados nos afazeres do IPCC e seus asseclas, a nossa
imprensa se cala, não trazendo as grandes discussões diárias sobre o assunto que vemos em outros países.

Só mesmo pseudocientistas, engajados em interesses econômicos, é que se curvam ao IPCC. E pelo que vemos, temos muitos aqui dentro.

Então lançamos o desafio, exatamente como é feito no exterior: *mostrem a evidência! *Já adiantamos que não aceitamos: “eu acho” ou “eu creio”; saída
de modelos de computador e nem dogmas.

A grande prova de que eles não tem nada é sua fuga das discussões e seus ridículos planos, atrelados ao uso do “princípio da precaução, porque na falta de plena certeza científica, devem-se tomar medidas de mitigação imediatas”.

Qual a finalidade da pesquisa científica séria e dedicada, se no final das contas a resposta já está dada de antemão – se o aquecimento global fosse verdadeiro, deveríamos tomar medidas mitigatórias, mas se ele não for comprovado (como não o é) devemos tomar *exatamente as mesmas medidas*, apenas por precaução?

Que futuro resta para a ciência climática, se ela não é mais ouvida, pois todas as decisões em nome dela já foram tomadas? Sem falar da idéia de consenso, pois todos já admitiram que o homem causa “aquecimento global”, também confundido com “mudanças climáticas”. Oras, só nestas afirmações nós
percebemos como eles são totalmente contraditórios.

Sem falar que ainda dizem que os debates já se encerraram. Como as discussões estão encerradas se elas nunca aconteceram?

Querem trocar todo o cotidiano das atividades humanas baseados em mentiras?! Isto é completamente absurdo! A patifaria tomou vida própria. Está mais do que na hora de ser devidamente neutralizada.

Gastar verbas com o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas – PBMC será uma fabulosa forma de sumir com dinheiro público que poderia ser muito bem empregado para fazer melhorias contra um real problema: saneamento básico no Brasil!

Quanto à imparcialidade do jornal, esta ficou muito a desejar.

Ricardo Augusto Felicio é graduado em Ciências Atmosféricas – Meteorologia pela USP, tem mestrado em Meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais e doutorado em Geografia (Geografia Física) pela USP

A Negação das Mudanças Climáticas e seu Despropósito versus a Objetividade e Atitude Ponderada da Comunidade Científica

by Alexandre Araújo Costa on Wednesday, June 6, 2012 at 12:56pm (postado no Facebook)

Tenho recebido respostas interessantes a meus posts anteriores em que discuto a negação das mudanças climáticas. Alguns, que concordam ou simpatizam com a visão dos negadores, compartilharam links que, democraticamente, permanecem na minha página, expondo ainda mais os erros crassos e primários da negação. Como mostro, nenhum dos pseudo-argumentos apresentados se sustenta de pé, tendo eu mesmo os refutado ou indicado links que desmistificam tudo. Em alguns casos, indicar outros materiais de sites confiáveis como http://www.realclimate.org ou http://www.skepticalscience.com torna-se mais fácil e prático, pois uma característica da incansável hidra negadora é a da reciclagem de material (pelo menos nisso, ela é ecologicamente correta…). Algo desmentido uma vez pode aparecer noutro momento e/ou noutro país como uma “nova descoberta” para mostrar que “o aquecimento global é uma farsa” e toda a ladainha negadora repetida à exaustão, no esforço de repetir tanto uma mentira até que ela pareça verdade. Infelizmente, como mostrei em http://www.facebook.com/notes/alexandre-ara%C3%BAjo-costa/a-nega%C3%A7%C3%A3o-das-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-o-bode-e-os-gamb%C3%A1s-o-que-%C3%A9-uma-opini%C3%A3o-pondera/393911987317366, algumas dessas mentiras parecem mesmo ter forte tendência a serem perpetuadas, como as acusações grotescas contra Michael Mann e outros cientistas.

Obviamente há também os comentários de amigos que compartilham dos meus pontos de vista (ou pelo menos de boa parte deles) sobre o que está em jogo no que diz respeito à negação das mudanças climáticas. E muitos desses comentários têm servido de mote para dar prosseguimento à discussão. Assim como foi com o bode, inspirado por um desses amigos, assim é com a discussão sobre as noções de “posição ponderada” ou “posição radical” trazida por outro, que levanta a questão de que se “a posição ponderada sobre o aquecimento global é a do IPCC”, (…) “ela estaria entre as hipóteses radicais minimizadoras/negacionistas e supostas hipóteses radicais alarmistas/apocalípticas”.

O “texto do bode” dá dicas no sentido de que uma coisa não leva necessariamente à outra, dando exemplos em que, na realidade, pontos de vista intermediários seriam impossíveis ou, no mínimo, bizarrices frankensteinianas de pensamento. Há nessa suposição uma simplificação, como se pudéssemos marcar os pontos de vista como pontos geométricos em um segmento de reta e que a posição que representa uma melhor aproximação da realidade seria uma espécie de média (aritmética ou “ponderada”) dos extremos. Evidentemente, num debate que prime pela honestidade intelectual e em que os atores sejam movidos por um interesse comum, talvez o esqueminha da figura abaixo tenha alguma validade. Caso contrário, é preciso abandoná-lo como representação pictórica adequada.

É fato que não vi nenhum cientista falando de “efeito estufa desenfreado” (que aconteceu provavelmente em Vênus) como algo que possa ocorrer na Terra em um futuro tangível, ou outra teoria “radical” nesse sentido, mas quando digo que o IPCC tenta exprimir o consenso da comunidade científica, isso quer dizer que ele tenta encontrar estimativas quantitativas de um determinado fenômeno, efeito ou processo (bem como da incerteza em torno dessa estimativa), com base no que há disponível na literatura científica e/ou em bases de dados reconhecidamente validadas.

Para processos, fenômenos e componentes do sistema climático com efeito bem conhecido, geralmente a “barra de erro” (incerteza) é pequena, indicando que os valores estimados por diferentes metodologias e por diferentes grupos de pesquisa relatados em diferentes artigos na literatura são todos muito próximos. Processos sobre os quais não se tem um conhecimento quantitativo tão preciso geralmente exibem uma barra de erro maior, exprimindo exatamente esse menor grau de entendimento na forma de um maior espalhamento entre as estimativas individuais disponíveis na literatura.

Uma das estimativas mais importantes nesse sentido é a da grandeza que conhecemos como “Forçante Radiativa”, isto é, a contribuição de um determinado componente do sistema climático (seja um gás de efeito estufa ou um tipo de aerossol, ou a variabilidade solar, etc.) para alterar o balanço de energia desse sistema ao longo de um dado período. A Forçante Radiativa é a energia ganha ou perdida (respectivamente positiva ou negativa) pelo sistema climático em função das mudanças nesse componente por unidade de área por unidade de tempo (sendo medida em Watts por metro quadrado ou W/m2). Por exemplo, como vários gases de efeito estufa têm tido sua concentração aumentada desde o período pré-industrial, eles exercem uma forçante radiativa positiva desde lá até o presente pois mais energia é retida no sistema climático agora do que antes, ao invés de deixar o planeta na forma de radiação infravermelho. Por outro lado, uma atmosfera com mais aerossóis (partículas líquidas ou sólidas em suspensão) reflete mais luz, portanto, como a concentração destes também aumentou com a industrialização, os aerossóis contribuem com uma forçante radiativa negativa, pois menos energia entra no sistema na forma de luz solar. Um componente cujo comportamento não tenha mudado de maneira significativa nos últimos séculos exerce, portanto, uma forçante radiativa próxima de zero.

Dentre as componentes bem estudadas e com estimativas bem consolidadas, estão o CO2 e demais gases de efeito estufa de vida longa (metano, óxido nitroso e halocarbonetos). Em 2005, a estimativa era de que o aumento antrópico do CO2 na atmosfera (cuja concentração então era de 379 partes por milhão e hoje em dia ultrapassou 390) contribuía com uma forçante de +1,66 W/m2 (com pequena incerteza para mais ou para menos) um valor bastante significativo para o aquecimento do sistema climático terrestre. Os demais gases de efeito estufa entram com algo muito próximo de 1 W/m2 a mais.

Mesmo com incertezas relativamente maiores, o caso do Sol é um excelente exemplo de como o IPCC chega a uma estimativa “de consenso”. Em http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch2s2-7-1-2.html, é mostrado um levantamento das estimativas disponíveis na literatura científica de quanto a atividade solar teria variado desde o período conhecido como “mínimo de Maunder”, no século XVII, até os dias de hoje, algo que tanto os negadores gostam de falar. Devo dizer que as estimativas não são de artigos de pesquisadores em clima, mas de estudos por especialistas… em Sol. As estimativas são de que as mudanças na atividade solar desde então têm contribuído com quase zero (isso mesmo!) a, na estimativa maior, +0,68 W/m2, como mostrado neste link. Percebam que, baseando-se nos especialistas que estudam o Sol, o IPCC não poderia fazer outra coisa a não ser atribuir às variações de atividade solar uma forçante radiativa de aquecimento bastante modesta, de poucos décimos de W/m2. Não haveria motivo para concluir que o Sol não variou em nada se apenas dois estudos em dez vão nesse sentido, mas também não teria sentido adotar uma estimativa próxima do outro extremo. Mas é preciso deixar claro! Mesmo se escolhêssemos a dedo esse maior valor, ainda assim chegaríamos à conclusão inevitável de que a contribuição da variabilidade solar para o clima desde o século XVII é várias vezes menor do que a dos gases de efeito estufa! Considerando estimativas a partir do século XVIII (e não XVII), fica mais claro que o papel do Sol é ainda menos significativo (forçante radiativa estimada de apenas +0,12 W/m2).

Algo parecido é feito com os aerossóis de sulfato como em http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch2s2-4-4-1.html, mostrando que, como sua concentração na atmosfera também aumentou em função da industrialização, esses aerossóis exercem um efeito de resfriamento, contrabalançando parte do efeito de aquecimento dos gases de efeito estufa, com estimativas de forçante radiativa variando entre -0,12 e -0,96 W/m2.

Há valores discrepantes entre estimativas? Há! Mas, ei… não é um leilão onde um negador pode chegar e chutar qualquer valor numérico, nem muito menos, sem nenhum embasamento, chegar e dizer “o aquecimento é natural”, “o sol é que está causando o aquecimento da Terra”, etc. Mede-se, calcula-se, submete-se à apreciação da revisão por pares. Aí sim, ganha-se voz no debate científico. Os que abandonam a seriedade do método realmente não têm compromisso em se aproximar da verdade científica.

Portanto, a opinião ponderada não está “no meio” entre opiniões cientificamente fundamentadas e desvarios motivados por agenda econômica, político-ideológica ou vaidade! Não pode estar! Está “no meio” daquilo que tem valor científico! As indicações do IPCC são médias entre medidas e estimativas de verdade, documentadas e publicadas às quais se agrega uma barra de incerteza. Representa o bom senso de não considerar como verdade absoluta nenhum valor individualmente medido ou estimado por diferentes pesquisadores usando diferentes métodos (satélite, observação de superfície, modelagem, etc.). Tampouco se agarra em um valor extremo, nem de um lado, nem de outro. Essas estimativas são o ponto de partida para obter tanto a melhor avaliação (a grosso modo, a média) quanto a incerteza, que depende do espalhamento das várias estimativas, chegando a algo como http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/fig/figure2-20-l.png, reproduzida a seguir.

Essa figura não deixa margens para dúvidas e é por isso que o IPCC se pronunciou. Ao se somar os efeitos, o resultado é de uma forçante radiativa positiva, que não pode resultar em outra coisa senão aquecimento. De onde vem a maior parte desse sinal? Do CO2 e dos gases de efeito estufa. O silêncio seria uma postura de irresponsabilidade e covardia extremas, numa situação em que, mesmo tomando a menor estimativa de aquecimento por esses gases e a maior estimativa de resfriamento pelos aerossóis (o principal fator que atua no sentido contrário), ainda assim se obtém um número que indica que o planeta está, sim, aquecendo, e de maneira intrinsecamente ligada às atividades humanas. Esse posicionamento (que para muito além do IPCC enquanto instituição é a de mais de 97% daqueles que são pesquisadores atuantes na área, vide http://www.skepticalscience.com/global-warming-scientific-consensus-intermediate.htm), portanto, é ponderada, séria, realista. Nada tem de radical. Se a ciência alerta para riscos e implica em mudanças em nossa sociedade que podem parecer incômodas, e as pessoas preferem ignorar esse alerta, aí é outra história! Espero que fique claro, assim, porque não se pode conceder um milímetro sequer aos negadores, em seu desserviço à opinião pública, em sua ação deliberada de desinformação, em sua campanha abertamente anti-ciência.

Mas se vocês querem saber, parece haver alguém que tem radicalizado no sentido oposto ao dos negadores, sim! Esse alguém tem mostrado que algumas projeções do IPCC são, ao invés de ponderadas, subestimadas, conservadoras… Já ouviram falar de uma tal de “Natureza”? Pois bem… Mas esse será o assunto de outro artigo…

Felicidade chega à Rio+20 e vira tema de debate (O Globo)

O Globo – 12/04/2012
Agostinho Vieira

Um antigo ditado garante que os números não mentem jamais. Isso não significa que, de vez em quando, eles não escondam a verdade. É o caso do Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo. Se o governo de um país resolver destruir todas as florestas, vender a madeira, instalar fábricas e criar gado, o PIB vai crescer. Imagine uma nação que acabou de sair da guerra. Ela investe na reconstrução de estradas e edifícios. O PIB aumenta. Nos dois casos, os números são verdadeiros, mas escondem enormes prejuízos sociais e ambientais.

Outra máxima, muito usada nas empresas, diz que quem não mede não gerencia. É verdade. Mas o que fazer se o PIB não avalia adequadamente o desenvolvimento dos países? Ou vocês acreditam que o Brasil é mesmo o sexto maior do planeta? O tema já vem sendo debatido há algum tempo. As propostas vão desde o uso mais efetivo do IDH até a criação de um PIB Verde. Na semana passada, em Nova York, cerca de 600 pessoas discutiram por três dias uma das alternativas ao PIB: a Felicidade Interna Bruta (FIB).

Esse curioso indicador foi criado há mais de 30 anos no Butão, um pequeno país que fica no alto do Himalaia, perto do Tibet. De acordo com a FIB, para medir a riqueza dos países deveriam ser considerados, além do crescimento econômico, itens como saúde, educação, preservação do meio ambiente, uso do tempo, vitalidade da relação comunitária e até o bem-estar psicológico.

Neste evento da ONU, onde estavam vários economistas que já ganharam o Prêmio Nobel, foi elaborado um documento que recebeu o nome de “Felicidade e Bem-Estar: Definindo um novo paradigma econômico”. Este texto estará entre as propostas que vão ser analisadas na Rio+20, em junho. É muito difícil prever o que acontecerá. É provável até não aconteça nada. Mas o fato de a felicidade entrar na pauta dos debates mundiais já é um excelente começo.

Rio+20, somente semear para o futuro (IPS)

Envolverde Rio + 20
29/5/2012 – 09h52

por Stephen Leahy, da IPS

12 Rio+20, somente semear para o futuroUxbridge, Canadá, 29/5/2012 – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) servirá apenas de terreno onde se tentará cultivar as ideias e os valores que a humanidade necessita para o Século 21. Contudo, ninguém espera, ou mesmo deseja, um grande tratado internacional sobre desenvolvimento sustentável, lamentou Manish Bapna, presidente interino da organização ambientalista internacional World Resources Institute, com sede em Washington.

“O importante acontecerá de forma paralela às negociações formais”, disse Bapna à IPS. Porém, “pode haver alguns esperançosos compromissos específicos” dos países na Rio+20, acrescentou. Talvez, seu resultado mais importante seja acabar com o errôneo conceito de que proteger o meio ambiente vai contra o crescimento econômico, quando, na realidade, ocorre o contrário, destacou Bapna. Sem um meio ambiente saudável e funcionando a humanidade perde os benefícios de “produtos gratuitos”: ar, água, terras de cultivo e clima estável.

Para Bapna, “um dos principais obstáculos para o futuro é que funcionários de muitos países acreditam que avançar em um caminho mais sustentável implica um custo demasiadamente alto”. Ele espera que a Rio+20 gere um “novo discurso”, com maior compreensão de que uma economia baixa em carbono e eficiente em termos de recursos pode também aliviar a pobreza e gerar empregos.

Espera-se que ao menos 50 mil pessoas participem de centenas de atividades na Rio+20, entre elas mais de 130 líderes mundiais, incluindo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e os primeiros-ministros Manmohan Singh, da Índia, e Wen Jiaboa, da China. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não confirmou sua presença no encontro, que acontece 20 anos depois da Cúpula da Terra.

Aquela reunião, também no Rio de Janeiro, deu à luz três importantes tratados sobre meio ambiente, mudança climática, biodiversidade, degradação de terras e desertificação. Porém, em quase todas essas categorias a situação piorou desde 1992. Apenas poucos países, como a Alemanha, entendem a necessidade ambiental e econômica de optar por um caminho mais sustentável, afirmou Bapna. “Esse país realiza o esforço individual mais importante do mundo para combater a mudança climática e reduzir o carbono em sua economia”, ressaltou.

A Alemanha está comprometida em duplicar sua produtividade energética e de recursos até 2020, o que gerará novos empregos e fortalecerá sua competitividade em um mundo com cada vez menos e mais caros recursos. Aproximadamente 22% da energia da Alemanha procede de fontes renováveis, e sua meta é alcançar 35% até 2020, e 80% até 2050. Para isto, realiza grandes esforços na melhoria da eficiência energética

O consumo de água potável, petróleo e cobre caminha para ser triplicado até 2050, segundo informe da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2001. O problema é que não restam recursos suficientes no planeta para sustentar este ritmo. A Rio+20 precisa atrair as pessoas com uma nova “história” sobre o imperativo de viver de forma sustentável, com exemplos de como podem ser criados novos mercados e empregos verdes, apontou Bapna.

Enquanto isso, as negociações oficiais da Rio+20 vão tão mal que foram acrescentadas mais sessões. As delegações negociam o chamado “rascunho zero”, onde se procura estabelecer um mapa do caminho para o crescimento sustentável e no qual esteja previsto o estabelecimento de uma série de metas. Porém, como todos os acordos da ONU, cada palavra necessita de uma aprovação unânime de todas as nações, o que é extremamente difícil.

“Reconhecemos que não podemos continuar queimando e consumindo nossa forma de prosperidade. Entretanto, não adotamos a solução óbvia. A única solução possível, hoje como há 20 anos, é o desenvolvimento sustentável”, disse em uma declaração o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Também admitiu que as negociações seguem “dolorosamente lentas”, e interveio pessoalmente para acrescentar outra semana de conversações, exortando os países a olharem além de seus interesses nacionais. Segundo Ban Ki-moon, o Rio de Janeiro “oferece uma oportunidade geracional para acionar o botão de reinício, para fixar um novo curso rumo ao futuro que equilibre as dimensões econômica, social e ambiental da prosperidade e do bem-estar humanos”.

Faltando menos de 30 dias para o encontro de alto nível, ainda não “há uma definição acordada do que é economia verde”, alertou Craig Hanson, diretor do Programa de População e Ecossistemas do Instituto de Recursos Mundiais. Há um crescente consenso sobre a necessidade de um crescimento e um desenvolvimento verdes, mas a população em geral não sabe exatamente o que isto significa.

A Alemanha oferece um exemplo com seus esforços de energia limpa, que criaram 370 mil empregos, indicou Hanson à IPS. Outro exemplo é o êxito de Níger em reverter a desertificação na zona do Sahel, acrescentou. As negociações sobre como obter economias mais verdes são uma batalha, pois muitos países colocam seus interesses nacionais acima dos interesses do planeta e das futuras gerações, observou.

Reduzir gradualmente os milhões de dólares que os governos investem em subsídios anuais para combustíveis fósseis seria um caminho ideal, mas não está claro se as nações estão dispostas a isso, opinou Bapna. “Repetirão suas antigas promessas ou assumirão firmes compromissos no Rio? Simplesmente não sabemos”, afirmou. O mundo mudou desde 1992. As coisas são muito menos previsíveis. Não há uma visão ecológica única para todos os países. “O que sabemos é que esta é uma década crítica. O mundo necessita de compromissos no curto prazo para atuar”, concluiu.

Envolverde/IPS

Empresariado promove agenda paralela à Rio+20 (Mercado Ético)

Envolverde Rio + 20
31/5/2012 – 10h44

por Sucena Shkrada Resk, do Mercado Ético

Capa4 Empresariado promove agenda paralela à Rio+20A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) não mobiliza somente os governos e a sociedade civil organizada, mas também o setor empresarial, que estará presente em eventos paralelos, no mês de junho, no Rio de Janeiro e em outras localidades do Brasil. Os temas centrais do evento – economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, além da governança internacional da sustentabilidade – são o pano de fundo para a realização dos debates e propostas entre as organizações da iniciativa privada.

“Os eventos paralelos à conferência e à pré-conferência Rio+20 são uma forma de envolver a sociedade organizada, empresas e outras partes interessadas no processo de discussão dos rumos do acordo político que está sendo construído para fortalecer a inclusão dos princípios do desenvolvimento sustentável nas diversas instâncias de processos decisórios. Cada encontro lateral busca atingir algum público e algum ponto de vista”, explica Jorge Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, uma das corporações que terá atividades voltadas ao público presente na Rio+20.

Segundo ele, dessa forma, a soma de todos os encontros laterais cobrirá a diversidade, própria ao desenvolvimento sustentável. “Entendo que dessa ampla participação e discussão surgirão propostas que colocarão a energia e o apoio que os negociadores precisam para que o acordo político resultante seja contundente e à altura do desafio que a humanidade está enfrentando”, avalia.

Programação

A exemplo do evento oficial e da Cúpula dos Povos, a agenda ligada às corporações está bem diversificada. No período de 11 a 13 de junho, em São Paulo, será realizada a já tradicional Conferência Ethos 2012, cujo tema será A empresa e a nova economia: o que muda com a Rio + 20 (www.ethos.org.br/ci2012). Na ocasião também será lançada a versão em português da obra O Estado do Mundo 2012: Rumo à Prosperidade Sustentável, do World Watch Institute.

“Durante o evento, discutiremos e produziremos um documento em parceria com representantes de cerca de 40 organizações, com propostas em relação aos 10 temas (veja abaixo) que serão debatidos por representantes da sociedade civil nos Diálogos sobre Desenvolvimento Sustentável, que será organizados pelo governo brasileiro, de 16 a 19 de junho, na programação da Rio+20″, explica Paulo Itacarambi, vice-presidente executivo do Instituto Ethos.

Os temas são: Desenvolvimento Sustentável para o combate à pobreza; Como resposta às crises econômicas e financeiras; Desemprego, trabalho decente e migrações; A economia do Desenvolvimento Sustentável, incluindo padrões sustentáveis de produção e consumo; Florestas; Segurança alimentar e nutricional; Energia Sustentável para todos; Água; Cidades Sustentáveis e Inovação; Oceanos.

O material será entregue aos participantes dos Diálogos e ao comitê organizador da Rio+20, com o objetivo, segundo ele, de se propor alternativas a cenários futuros. “Durante a Conferência Ethos também avançaremos em um debate além da Rio+20, que refletirá sobre a construção de uma economia includente verde e responsável”. Para isso, será tratada a questão dos novos modelos de negócios, com a participação de John Elkington, criador do conceito do triple bottom line, entre outras personalidades.

No Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, ocorrerão mais eventos entre os dias 11 e 22 de junho. Ainda sem programa definido (a ser lançado no próximo dia 25), as atividades ali serão organizadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e pela Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan), em parceria com a Fundação Roberto Marinho e a Prefeitura do Rio de Janeiro.

O Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) manterá um espaço institucional no Parque dos Atletas, no Rio de Janeiro, de 13 a 23 de junho, e também manterá eventos paralelos, no Rio Centro e no Forte de Copacana, quando será apresentado o lançamento do documentoVisão Brasil 2050, uma iniciativa “tropicalizada” do documento produzido pelo World Business Council for Sustainable Development – WBCSD (Conselho Mundial de Gestão para o Desenvolvimento Sustentável).

“Esse documento é considerado um dos mais importantes já lançados sobre o futuro da sustentabilidade e tem inspirado o planejamento estratégico de inúmeras empresas em todo o mundo. Visão Brasil 2050 é uma agenda para o desenvolvimento sustentável e a transição para a economia verde nos próximos 40 anos”, explica Marina Grossi, presidente executiva do CEBDS.

Outro projeto a ser divulgado é “Rio Cidade Sustentável“. A iniciativa, lançada, neste ano, tem sete eixos: turismo comunitário, desenvolvimento de empreendedores locais, sustentabilidade nas escolas e lares, infraestrutura urbana verde, agricultura urbana orgânica, gestão comunitária de resíduos e melhoria habitacional sustentável.

“Trata de infraestrutura urbana e transformação social com foco em sustentabilidade, que articula poder público, empresas e moradores para melhorar a qualidade de vida das comunidades. Desde janeiro deste ano, duas comunidades pacificadas da Zona Sul carioca, Babilônia e Chapéu Mangueira, acolhem as sete frentes de atuação do programa.”, diz ela.

Por fim, o Rio+20 Corporate Sustainability Forum: Innovation & Collaboration for the Future We Want (Rio+20 Fórum de Sustentabilidade Corporativa: inovação e colaboração para o futuro que queremos) será promovido pelo Pacto Global da ONU, entre 15 e 18 de junho, também no Rio de Janeiro (http://csf.compact4rio.org/events/rio-20-corporate-sustainability-forum/event-summary-251b87a2deaa4e56a3e00ca1d66e5bfd.aspx).

* Publicado originalmente no site Mercado Ético.

Ruralistas não aceitam vetos e já elaboram 50 emendas à MP que altera o Código (Agência Brasil)

31/5/2012 – 10h52

por Danilo Macedo,da Agência Brasil

Capa5 Ruralistas não aceitam vetos e já elaboram 50 emendas à MP que altera o CódigoDeputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) elaboraram cerca de 50 emendas à Medida Provisória 571/2012, que trata dos trechos vetados do Código Florestal. Os parlamentares tem até sexta-feira para apresentá-las. O atual presidente da frente, deputado Moreira Mendes (PSD-RO), disse que vários deputados vão entrar com mandado de segurança contra a MP, por considerarem “uma afronta” e “entendendo que a presidenta exorbitou no seu poder”.

Segundo Mendes, alguns parlamentares entendem que a legislação estabelece que assuntos votados no Congresso Nacional não podem ser objeto de medida provisória antes da aceitação ou derrubada do veto presidencial. Após o veto da presidenta Dilma Rousseff, o Congresso Nacional tem 30 dias para discutir o assunto. “Vamos ouvir o restante da frente para que se tome uma deliberação a esse respeito”.

O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) disse que ficou surpreso com a MP tratando de matéria derrotada na Câmara dos Deputados e a considerou uma “agressão” ao Congresso. “Ela passa a legislar acima da vontade do Congresso Nacional. Esse que é o ponto sobre o qual queremos entrar com mandado de segurança no sentido de buscar a sustação dos efeitos dessa medida provisória”, disse.

Moreira Mendes disse que o assunto Novo Código Florestal precisa ser liquidado, mas devido ao rito da medida provisória, com prazo de 120 dias, o assunto não será resolvido antes do recesso parlamentar. Em relação às emendas, o presidente da FPA disse que a intenção é buscar um texto de conciliação, nem mantendo o atual e nem resgatando a proposta que saiu das discussões na Câmara dos Deputados.

* Publicado originalmente no site  Brasil de Fato.

Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal (EcoD)

29/5/2012 – 10h34

por Redação EcoD

51 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

Os ministros anunciaram vetos em 12 itens e 32 modificações no texto do Código Florestal, feitos pela presidenta Dilma Rousseff, na última semana. Foto: José Cruz/ABr

Impedir a anistia a quem desmatou e proibir a produção agropecuária em áreas de proteção permanente (APPs) foram alguns dos principais objetivos da presidenta Dilma Rousseff ao vetar parte do novo Código Florestal na sexta-feira, 25 de maio. Os vetos de 12 artigos resgatam o teor do acordo firmado entre os líderes partidários e o governo durante a tramitação da proposta no Senado.

Artigo 1º, que foi modificado pelos deputados após aprovação da proposta no Senado, foi vetado. Na medida provisória (MP) publicada hoje (28) no Diário Oficial da União, o Palácio do Planalto devolve ao texto do Código Florestal os princípios que haviam sido incorporados no Senado e suprimidos, posteriormente, na segunda votação na Câmara. A MP foi o instrumento usado pelo governo para evitar lacunas no texto final.

Também foi vetado o Inciso 11 do Artigo 3º da lei, que trata das atividades eventuais ou de baixo impacto. O veto retirou do texto o chamado pousio: prática de interrupção temporária de atividade agrícolas, pecuárias ou silviculturais, para permitir a recuperação do solo.

61 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

Artigo 61 previa a continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008 – o governo vetou. Foto: leoffreitas

Recebeu veto ainda o Parágrafo 3º do Artigo 4º que não considerava área de proteção permanente (APP) a várzea (terreno às margens de rios, inundadas em época de cheia) fora dos limites estabelecidos, exceto quanto houvesse ato do Poder Público. O dispositivo vetado ainda estendia essa regra aos salgados e apicuns – áreas destinadas à criação de mariscos e camarões.

Foram vetados também os parágrafos 7º e 8º. O primeiro estabelecia que, nas áreas urbanas, as faixas marginais de qualquer curso d’água natural que delimitem as áreas das faixas de passagem de inundação (áreas que alagam na ápoca de cheia) teriam sua largura determinada pelos respectivos planos diretores e pela Lei de Uso do Solo, ouvidos os conselhos estaduais e municipais do Meio Ambiente. Já o Parágrafo 8º previa que, no caso de áreas urbanas e regiões metropolitanas, seria observado o dispositivo nos respectivos planos diretores e leis municipais de uso do solo.

O Parágrafo 3º do Artigo 5º também foi vetado. O dispositivo previa que o Plano Ambiental de Conservação e Uso do Entorno de Reservatório Artificial poderia indicar áreas para implantação de parques aquícolas e polos turísticos e de lazer em torno do reservatório, de acordo com o que fosse definido nos termos do licenciamento ambiental, respeitadas as exigências previstas na lei.

73 Conheça todos os 12 vetos ao novo Código Florestal

APP em Minas Gerais. Parágrafo 3º do Artigo 4º desconsiderava área de proteção permanente (APP) a várzea (terreno às margens de rios, inundadas em época de cheia) fora dos limites estabelecidos, exceto quanto houvesse ato do Poder Público. Foto: Paula FJ

Já no Artigo 26, que trata da supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo tanto de domínio público quanto privado, foram vetados o 1º e 2º parágrafos. Os dispositivos detalhavam os órgãos competentes para autorizar a supressão e incluía, entre eles, os municipais do Meio Ambiente.

A presidenta Dilma Rousseff também vetou integralmente o Artigo 43. Pelo dispositivo, as empresasconcessionárias de serviços de abastecimento de água e geração de energia elétrica, públicas ou privadas, deveriam investir na recuperação e na manutenção de vegetação nativa em áreas de proteção permanente existente na bacia hidrográfica em que ocorrer a exploração.

Um dos pontos que mais provocaram polêmica durante a tramitação do código no Congresso, o Artigo 61, foi vetado. O trecho autorizava, exclusivamente, a continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008.

Também foram vetados integramente os artigos 76 e 77. O primeiro estabelecia prazo de três anos para que o Poder Executivo enviasse ao Congresso projeto de lei com a finalidade de estabelecer as especificidades da conservação, da proteção, da regeneração e da utilização dos biomas da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa. Já o Artigo 77 previa que na instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente seria exigida do empreendedor, público ou privado, a proposta de diretrizes de ocupação do imóvel.

A MP que complementa o projeto, publicada nesta segunda-feira (28), vale por 60 dias, podendo ser prorrogada por mais 60 dias – ela ainda será votada pelo Congresso.

* Publicado originalmente no site da EcoD.

Comunidade internacional comenta veto parcial a novo Código Florestal brasileiro (Carbono Brasil)

01/6/2012 – 11h12

por Jéssica Lipinski, do Instituto Carbono Brasil

Chamada6 Comunidade internacional comenta veto parcial a novo Código Florestal brasileiroOs desdobramentos do projeto de lei do novo Código Florestal brasileiro não foram seguidos apenas nacionalmente, mas também pela comunidade internacional. Com a suspensão da presidente Dilma Rousseff de 12 dos 84 artigos da proposta e modificação de 32 deles, a resposta internacional ao veto parcial não demorou a chegar, e como no Brasil, causou muita polêmica.

Alguns grupos ambientalistas saudaram a decisão da governante brasileira, afirmando que a ação de Dilma impediu que grandes danos às florestas brasileiras fossem autorizados. “Aplaudimos a presidente Rousseff hoje por votar as partes mais perigosas dessa lei e por seu compromisso contínuo em acabar com o desmatamento brasileiro até 2020”, comentou Doug Boucher, diretor de pesquisa e análise climática da União dos Cientistas Preocupados.

“A emenda que concederia anistia para desmatamentos ilegais de antes de 2008 seria um precedente perigoso. Os proprietários de terras teriam ficado livres para continuar a derrubar florestas sob a suposição de que outro período de anistia seria oferecido. Se Rousseff não tivesse vetado essa seção, isso teria minado todo o Código Florestal”, continuou Boucher.

Outras organizações que defendem o meio ambiente celebraram parcialmente a iniciativa da presidente. “A presidente Rousseff aparentemente aderiu à opinião pública brasileira em vetar as seções mais irresponsáveis do Código Florestal ruralista, mas não estamos fora de perigo ainda”, observou Jennifer Haverkamp, diretora do programa climático internacional do Fundo de Defesa Ambiental (EDF), em comunicado à imprensa.

“O que esses vetos realmente significam para o futuro das florestas – e se a lei pode ser efetivamente aplicada – dependerá das especificidades da ordem executiva (medida provisória) que a presidente emite na segunda-feira”, acrescentou Haverkamp.

No entanto, a maioria da comunidade internacional criticou a decisão de Dilma, alegando que muitos dos pontos que passaram só contribuirão para um maior desmatamento no Brasil.

Pedro Abramovay, diretor de campanhas do site de mobilização Avaaz, lembrou que das duas milhões de assinaturas existentes no documento entregue à governante que pedia pelo veto total ao novo código, 1,7 milhões foram recolhidas no exterior, sobretudo na Alemanha e na França, o que segundo ele, demonstra a preocupação mundial do que pode acontecer às florestas brasileiras sob o novo código.

“Pedimos o veto porque essa legislação representa em retrocesso para o Brasil e para o mundo e porque está baseado em um modelo que propõe desmatar para desenvolver”, alertou Abramovay.

Por todo o mundo, grupos ambientalistas, como o Greenpeace e o WWF, se pronunciaram contra o novo projeto de lei, e manifestações ocorreram em várias cidades do planeta, como Madri, na Espanha, e Tel Aviv, em Israel.

“Essa tentativa de excluir elementos de uma parte já complicada da legislação fará com que o Código Florestal revisado seja muito difícil de ser implementado – e as florestas do Brasil podem sofrer muito como resultado”, declarou o WWF.

“Na última década, o Brasil esteve no caminho do progresso econômico e ambiental. Agora, a declaração da presidente Rousseff cria um futuro incerto para as florestas brasileiras”, concluiu Jim Leape, diretor geral do WWF Internacional.

* Publlicado originalmente no site do Carbono Brasil.