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Diocese de Milão cria telefone para atender à crescente demanda por exorcismo (BBC)

Publicado em Domingo, 02 Dezembro 2012 10:01

Escrito por BBC Brasil

Clérigo cita aumento na demanda, mas conta que poucos casos são de fato ‘fenômenos diabólicos’. – AFP

O interesse do público pelo exorcismo fez com que a Diocese de Milão dobrasse o número de padres que realizam a prática e criasse, inclusive, uma linha de telefone para atender à crescente demanda.

Em uma entrevista publicada por um site ligado à Igreja Católica, a diocese explicou ter aumentado de 6 para 12 o número de clérigos oficialmente treinados para exorcismos.

Pelo telefone, pessoas interessadas em receber o atendimento conseguem agendar visitas aos padres especialmente treinados.

Fenômenos diabólicos

Segundo o monsenhor Angelo Mascheroni, encarregado, nos últimos 15 anos, de treinar os padres praticantes de exorcismo, o interesse está em alta.

“A partir do número de chamadas que recebemos, (notamos que) a demanda dobrou”, disse ele ao site Incrocinews.

Um membro da diocese disse à BBC que a linha telefônica especial está recebendo entre três e quatro chamadas diárias. E, segundo Mascheroni, esse interesse vem de pessoas distintas.

“São jovens e idosos, homens e mulheres, pessoas de diferentes níveis educacionais – tanto os que abandonaram a escola como os que se formaram na universidade.”

No entanto, casos que de fato requerem exorcismo são incomuns, ele acrescentou.

“Todas as pessoas devem ser escutadas com paciência e ninguém deve ficar chocado com o que eles contam, porque Deus é sempre mais forte que o diabo. Mas os fenômenos realmente diabólicos são, pelo menos na minha experiência, muito raros.”

“Muitas vezes recebo ligações de pais dizendo que seu filho ou filha está faltando na escola, usando drogas ou se rebelando”, prossegue o clérigo. “Não há nenhum demônio neles, mas, aos 18 anos, muitos jovens não querem limites. É importante discernir as diferentes situações.”

O agronegócio e a manipulação midiática: o caso dos conflitos fundiários em Mato Grosso do Sul e o papel da Antropologia (ABA)

Fabio Mura (antropólogo, membro da CAI)

Informativo especial n° 026/2012  |  28/11/2012 (retificado)

Uma decisão judicial revertendo uma reintegração de posse e tendo como beneficiária uma comunidade indígena, e, ademais, determinando que o Estado brasileiro (através do órgão indigenista oficial) promova a conclusão dos estudos para identificação e delimitação de uma terra indígena é seguida de uma chuva de artigos em jornais, revistas e blogs, que estão com ela diretamente relacionados. Em seu cerne, estes artigos focam-se num ataque aos antropólogos que são os profissionais responsáveis por tais tipos de estudos. Tal coincidência de fatos merece uma devida contextualização e uma análise, que passaremos a delinear.

“No que toca aos indígenas em especial a Veja tem exercitado com inteira impunidade o direito de desinformar a opinião pública, realimentar velhos estigmas e preconceitos, e inculcar argumentos de encomenda que não resistem a qualquer exame ou discussão”.

As matérias mentirosas, caluniosas e carregadas de preconceito “não devem ser vistas como episódios isolados, mas como manifestações de um poder abusivo que pretende inviabilizar o cumprimento de direitos constitucionais, abafando as vozes das coletividades subalternizadas e cerceando o livre debate e a reflexão dos cidadãos”

João Pacheco de Oliveira, Coordenador da CAI, maio de 2010

O artigo  expressa o ponto de vista da Associação Brasileira de Antropologia-ABA.

O contexto que dá origem à solidariedade da sociedade civil para com os indígenas e à reação midiática em defesa do agronegócio 

Vem cada vez mais ganhando a atenção da sociedade civil a situação em que se encontram os indígenas Guarani-Kaiowa e Guarani-Ñandéva de Mato Grosso do Sul. Os episódios de violência de que estes indígenas têm sido alvo em diversos enfrentamentos fundiários chamam a atenção por sua natureza: pessoas espancadas, feridas por arma de fogo, mortas, indícios de sequestro de corpos de vítimas para confundir investigações policiais, assim como um clima de tensão, gerado em cercos aos acampamentos organizados por esses indígenas nos espaços que consideram como de sua ocupação tradicional, e demonstrações de opulência paramilitar nas estradas que conduzem às fazendas da região.

Nos últimos tempos, a luta de uma comunidade kaiowa específica, Pyelito Kue, tem se constituído em algo emblemático pela tenacidade demonstrada por seus integrantes.  Acampada próxima ao rio Hovy, no município de Iguatemi, sul do estado essa comunidade afirmou uma disposição de morrer, antes de deixar o que consideram como suas terras de origem e de onde foram expulsas. Com efeito, não obstante a fragilidade de vida no acampamento – sofrendo de fome, com casos de suicídio entre seus membros –, as famílias de Pyelito reagiram à liminar de despejo emitida pela Justiça Federal de Naviraí (MS) dispondo-se a morrer na terra ancestral.

Todos esses fatores (embasados por outros de caráter especificamente jurídicos) eram de conhecimento do Juiz, através da argumentação interposta pelo MPF.  Na audiência para decidir o pleito, o juiz pode, ademais, contar com os esclarecimentos prestados pela antropóloga responsável pelos estudos de identificação e delimitação da terra indígena correspondente à comunidade de Pyelito, no concernente ao processo de expropriação fundiária que desembocou na expulsão das famílias de Pyelito de seus espaços de ocupação tradicional – ora reivindicados.  Não obstante essas informações, e o fato de os índios ocuparem apenas um hectare do total de 700 da fazenda cujo proprietário impetrou a ação de reintegração de posse, a sentença foi desfavorável aos indígenas – de modo idêntico, aliás, à esmagadora maioria dos casos julgados em primeira instância em Mato Grosso do Sul sobre disputa fundiária envolvendo comunidades Guarani-Kaiowa e Guarani-Ñandéva.

Em seguida, a referida atitude dos indígenas provocou a solidariedade e a indignação de parte significativa da sociedade civil, que percebia na decisão judicial uma atitude que atentava ao direito à vida e à especificidade dessa vida do ponto de vista indígena, assim refutando o que se revela como um genocídio e um etnocídio dos Guarani. Através das redes sociais da internet, iniciou-se uma campanha, de repercussão nacional e internacional, focada principalmente sobre o destino da comunidade de Pyelito e, de modo mais geral, sobre o destino de todo este povo.

Em decorrência de recurso da decisão, em uma instância externa a Mato Grosso do Sul, o Tribunal Regional Federal de São Paulo, não apenas foi acatado o recurso, suspendendo a liminar de despejo, mas, no corpo da sentença, intimou-se o Governo, responsável pelo processo administrativo, a publicar, no prazo de 30 dias, o relatório de identificação e delimitação da terra indígena – no caso, a “Terra Indígena Iguatemipegua I”, que abrange as comunidades de Pyelito Kue e Mbarakay.

É justamente a partir, e contrastando o mérito desta última decisão judicial, que no espaço de apenas duas semanas tem-se uma sequência de artigos publicados pela revista “Veja” e pela “Folha de São Paulo”, apoiados em resultados de uma pesquisa feita pelo Datafolha, sob encomenda de um organismo nada isento de interesse, como é a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Mais do que aprofundar-se em entender casos específicos como o de Pyelito, o intento destes artigos é discutir quais seriam as “reais exigências e interesses dos índios contemporâneos” (sic). Vejamos (e analisemos) a seguir os principais dados e argumentos apresentados pelos articulistas, bem como suas conclusões.

Os argumentos de certa mídia sobre os povos indígenas 

Os artigos veiculados pela revista Veja (Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria), de Leonardo Coutinho (http://www.abant.org.br/file?id=864 – Nota de João Pacheco de Oliveira, Coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas, em maio de 2010 sobre a matéria intitulada “A farra da antropologia oportunista”,  elaborada pelo mesmo mau jornalista), e os de autoria de Reinaldo Azevedo (As reservas indígenas e o surrealismo brasileiro: celular, televisão, cesta básica, Bolsa Família e 13% do território brasileiro para… nada! E há gente querendo mais!, e O que realmente querem os índios e o que alguns antropólogos querem que eles queiram…), publicados respectivamente nos dias 4, 10 e 11 de novembro de 2012, bem como a matéria Uma antropologia imóvel, da senadora Kátia Abreu, na Folha de São Paulo do sábado, dia 17 de novembro, apresentam estruturas argumentativas e objetivos bastante semelhantes, complementando-se entre si. A finalidade principal é apresentar resultados de pesquisas como aquela realizada recentemente pelo Datafolha, arrogando-se a competência necessária para analisar os dados produzidos, e apresentando situações sociais, culturais e materiais de suma complexidade, como se estas fossem de simples compreensão.

Improvisando-se em especialistas em antropologia e questões indígenas, os autores declaram que as “reais necessidades” dos indígenas contemporâneos, seriam manifestadas a partir de uma lógica de consumo, em tudo semelhante àquela que impulsiona a classe média da sociedade nacional: os índios desejam celulares, televisões, casas de alvenaria, geladeiras, etc. Afirma-se que escola e trabalho seriam, portanto, os caminhos para se conseguir estes bens, que permitiriam “progredir socialmente”, sendo a terra e os recursos naturais nela presentes de importância secundária, se não irrelevante. Declara-se que os indígenas (em geral) seriam, em suas origens, “pescadores, nômades e coletores”, como escreve a senadora Abreu, razão pela qual não teriam, em suas organizações enquanto povos, um vínculo específico com um determinado lugar; eles apenas “vagam” pelo Brasil”, como afirmado por Leonardo Coutinho. Não seriam agricultores, produtores de alimentos e as reivindicações fundiárias não surgiriam, portanto, das necessidades destes povos, mas da cabeça de missionários e antropólogos, que teriam convencido os índios (sempre nas palavras de Coutinho) “de que o nascimento ou o sepultamento de um de seus membros em um pedaço de terra que ocupem enquanto vagam pelo Brasil é o suficiente para considerarem toda a área de sua propriedade”.

Como fica evidente até mesmo nos títulos das matérias, a imagem que se quer transmitir é de uma antropologia que, propositalmente ou romanticamente, buscaria descrever os indígenas com características que seriam apenas de seus antepassados remotos, com o intuito de justificar a demarcação de amplas frações do território nacional para nelas continuar tutelando os povos indígenas. Reinaldo Azevedo chega a afirmar que o processo demarcatório estaria produzindo “uma horda de miseráveis com celular, televisão e DVD”.

Desta forma, acusa-se profissionais com uma longa formação acadêmica de manifestar um “pensamento medieval”, de promover uma “antropologia do miolo mole”, como definido pelo mesmo Azevedo em seu blog, ou ainda uma “antropologia imóvel”, segundo a expressão de Kátia Abreu.  Com exceção feita ao escrito da senadora, cujo tom apresenta uma formal polidez , para veicular esses argumentos as matérias utilizam-se de uma linguagem arrogante e profundamente preconceituosa, quando não ofensiva, principalmente em relação aos indígenas. Os Guarani (Kaiowa e Ñandéva) de Mato Grosso do Sul prontamente responderam aos argumentos de Coutinho, através de nota emitida pelo conselho da Aty Guasu, a assembleia geral destes povos, manifestando indignação e acusando a revista Veja de fomentar o preconceito para com os índios, apresentados que são como incapazes de pensar com suas próprias cabeças e de tomar suas próprias decisões. No tocante ao papel da Antropologia, cabe observar que especificamente a senadora, na abertura de sua matéria, parece reconhecer os profundos conhecimentos que a Antropologia vem acumulando a respeito dos diferentes povos indígenas, mas ao mesmo tempo afirma que seria injustificável que estas informações “sejam usadas como instrumento de dominação e manipulação”. Ainda citando o caso dos povos tupi e guarani, argumenta ela que estes “são estudados há tanto tempo quanto os astecas e os incas, mas a ilusão de que eles, em seus sonhos e seus desejos, estão parados no tempo não resiste a meia hora de conversa com qualquer um dos seus descendentes atuais”.

Pois bem, estas colocações nos levam a questionar: quem de fato está manipulando informações?  Qual seria a Antropologia que não leva em consideração, em suas análises, as formas de viver e de conceituar o mundo por parte dos indígenas contemporâneos? Comecemos enfrentando a segunda questão, para, em seguida, nos dedicarmos à primeira.

Desconstruindo estereótipos e lugares comuns: o saber antropológico e a questão indígena 

Indicaremos aqui, de modo sucinto, a complexidade dos dados e dos estudos voltados a identificar e delimitar uma terra indígena, bem como dos conhecimentos antropológicos, de modo geral. Para tal propósito, focaremos um contexto específico: o das reivindicações fundiárias feitas pelos Guarani Kaiowa e Guarani Ñandéva, em Mato Grosso do Sul. Com isto queremos evitar sermos excessivamente generalistas e, ao mesmo tempo, poder informar sobre o caso que desencadeou a reação de uma certa mídia, representada aqui pelos veículos e autores citados. O objetivo é revelar quão superficiais, mal informados, caricaturais e mal intencionados são os argumentos das matérias jornalísticas aqui tratadas.

Em primeiro lugar, é totalmente falso o fato de que todos os povos indígenas sejam ou tenham, um dia, sido nômades, centrando as suas economias na caça, na pesca e na coleta. E mais importante ainda, quando nômades, estes não “vagam” por um espaço geográfico, mas constroem, através de suas experiências acumuladas ao longo de séculos, verdadeiros territórios de referência, nos quais baseiam suas atividades e desenvolvem suas vidas.

Em segundo lugar, significativa parte dos indígenas centra suas atividades econômicas na agricultura. Os Guarani aqui em tela são milenares agricultores, existindo uma ampla e rica literatura histórica, arqueológica e antropológica que documenta este fato. Esta mesma literatura coloca em destaque também o fato de os Guarani terem, ao longo de milênios, num processo de expansão civilizacional em busca de terras férteis, realizado amplas migrações; isto de modo algum os caracteriza como nômades, como é muitas vezes erroneamente apresentado pela mídia. Com efeito, ao considerarmos os últimos séculos, percebe-se um modo de ocupação sedentário; milhares de sítios arqueológicos justamente revelam para os Guarani uma continuidade ocupacional e o desenvolvimento de rotações de cultivos ao redor de centros de habitações. Estes centros são construídos nas proximidades de fontes de água (nascentes, córregos e rios), formando amplas redes de comunidades locais. A relação entre estas comunidades, que permite a integração social e a cooperação, é determinada por uma elevada mobilidade espacial, para participar de rituais, realizar atividades econômicas (coleta, caça e pesca), socializar, visitar parentes, estabelecer casamentos, formar ou fortalecer alianças e, antigamente, para organizar e empreender ações guerreiras. Como fica claro, esta mobilidade não representa absolutamente um “vagar” pelo Brasil (ou entre Brasil e Paraguai), conforme pretendido por Leonardo Coutinho em sua matéria.

Em terceiro lugar, é importante destacar que os indígenas não são uma realidade abstrata e homogênea, cada povo sendo um sujeito histórico com suas peculiaridades, constituídas ao longo do tempo, em situações sociais, econômicas e territoriais concretas. Neste sentido, os povos indígenas não podem ser vistos como estáticos, relegados a um modo de vida pretérito, nem como seres passivos, suas vidas, desejos e inspirações sendo definidas apenas por fatores externos ao seu próprio agir. Não cabe dúvida de que o impacto da colonização e o contato com outras civilizações têm-lhe proporcionado novos saberes, tornando as experiências individuais e coletivas mais ricas e diversificadas.  Por outro lado, é também verdade que estas novas experiências não são realizadas a partir de um vazio de informação, de parâmetros e de lógicas de entendimento sobre o mundo; os indígenas vêm, ao longo de séculos e milênios, construído tradições de conhecimento, produzindo cosmologias, definindo quadros morais, lógicas de troca, circulação e uso de bens materiais e simbólicos, fatores estes que permitem a definição de parâmetros para dar um sentido específico a suas coletividades.

É a partir da compreensão destes parâmetros, que costumam ser bastante sofisticados, que podemos entender qual espaço um determinado objeto ocupa na escala de valores definida pelos indígenas, qual será o seu destino de uso, suas propriedades simbólicas, como este pode ser transacionado, trocado, distribuído, etc. Para dar um pequeno exemplo, quando se encontram geladeiras nas residências kaiowa, estas são utilizadas de uma forma bem específica: suas prateleiras são quase totalmente ocupadas por garrafas PET cheias de água, que é destinada ao preparo do tererê (infusão fria da erva mate), consumido geralmente de modo coletivo, quando da visita de parentes, algo constante nas residências destes indígenas. Fica, portanto, óbvio que a eficiência técnica da geladeira, como instrumento que subtrai calor, é algo apreciado pelos kaiowa, mas o uso social deste objeto é definido de modo bem particular. Este exemplo representa apenas a ponta de um iceberg, cuja base não poderemos apresentar aqui por falta de espaço, havendo que se levar em conta todos os parâmetros acima descritos, que são absolutamente diferentes daqueles que servem como referência aos membros da nova classe média nacional, e não similar, como pretendido em seu blog por Reinaldo Azevedo.

Há que se considerar, ainda, que a terra não representa para os povos indígenas em geral um mero meio econômico, assim como a agricultura e outras atividades produtivas não apresentam apenas aspectos materiais, sendo intimamente ligadas à ordem cósmica, adquirindo fortes conotações religiosas. Neste sentido, no caso dos kaiowa, pensar-se que a retirada forçada de seus integrantes de significativas porções de seus territórios de ocupação tradicional, com a sucessiva depauperação dos mesmos (por desmatamento para pecuária extensiva e monoculturas exportadoras) leve estes indígenas a renunciarem àqueles espaços territoriais, representa uma visão extremamente superficial do fenômeno em pauta. Com efeito, as famílias indígenas consideram-se pertencentes a esses lugares, cujo uso material e simbólico revela-se para elas fundamental na manutenção da ordem cósmica e no destino de seu povo. As violências (físicas e simbólicas) sofridas por efeitos da colonização têm, ao contrário, conduzido a uma exaltação simbólica das propriedades da terra e dos lugares de origem, num complexo processo de construção cultural do sentido de pertencimento territorial, étnico e cósmico. Esta complexidade emerge através de acuradas pesquisas e não resulta das presumidas fantasias de “antropólogos de miolo mole” (como disse Azevedo), que estariam convencendo os índios de que “o nascimento ou o sepultamento de um de seus membros em um pedaço de terra” lhes outorga o direito de propriedade sobre o mesmo (como afirmado por Leonardo Coutinho, na Veja).

Finalmente, é importante observar que quando se identifica e delimita uma terra indígena busca-se relacionar famílias indígenas concretas e específicas com espaços territoriais também concretos e específicos. Para tal propósito é necessário verificar as modalidades de uso, conceituação e exploração do território por parte do grupo em consideração. Assim, em Mato Grosso do Sul, a tarefa consiste em analisar a relação de comunidades indígenas contemporâneas com os lugares de onde foram expulsas há apenas poucas décadas, delimitando-se apenas os espaços necessários à reprodução física e cultural dessas comunidades específicas, conforme os ditames da Constituição Federal vigente. No caso da comunidade de Pyelito Kue, que tem atraído toda essa atenção midiática, por exemplo, trata-se de um esbulho ocorrido a partir dos anos quarenta e que se acirrou com uma remoção maciça das famílias indígenas dos lugares que consideram de sua origem no final da década de 1970. Não se trata, pois, de definir um elo imemorial com a situação pré-colonial, criando um território indígena abstrato e sem parâmetros no tamanho. Portanto, é totalmente desprovido de fundamento afirmar-se que, uma vez que antes da conquista européia o Brasil era habitado unicamente por indígenas, estes últimos poderiam reivindicar hoje a totalidade da sua superfície, colocando assim em perigo o resto da população do país (e a capacidade produtiva e econômica da nação).

Inúmeras páginas ainda poderiam detalhar os fatores necessários para se desenvolver uma adequada pesquisa que dê embasamento aos Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação de uma Terra Indígena (orientada, aliás, por regulamentação específica e criteriosa), feitos pelos antropólogos, mas, por motivos de espaço, isto se torna impossível. O objetivo maior é apontar sua complexidade, ao tempo que revela a desinformação, a banalização e a distorção da realidade que são apresentadas nos artigos aqui elencados. Poder-se-ia talvez afirmar que isto é fruto da ignorância, mas isto não é uma justificativa válida. Há uma vasta e riquíssima literatura sobre povos indígenas, constituída por publicações, dissertações e teses, bem como por relatórios de identificação de terras e laudos periciais antropológicos, que poderia bem ser consultada. Por que será que isto não ocorre? Pensamos que seja não um problema de mera ignorância, mas devido a uma proposital intenção de manipular a informação, cujas razões consideraremos a seguir.

Os interesses do agronegócio e a Antropologia como incômodo

Os estudos e aprofundamentos antropológicos podem se constituir em uma ameaça aos interesses do agronegócio. A imprensa que apoia as suas razões, por sua vez, sabe que em processos administrativos e jurídicos, argumentações bem fundamentadas, fruto das pesquisas de profissionais sérios, com formação consistente e ampla experiência sobre os indígenas podem redundar no reconhecimento de direitos territoriais, colocando assim em risco seus empreendimentos. Seus representantes sabem, igualmente, que atacar diretamente a Antropologia como um todo, uma ciência com mais de um século de formação, seria contraproducente; proceder deste modo os exporia, deixando transparecer de modo evidente e radical a unilateralidade de seus próprios interesses. Não podendo afrontá-la diretamente, enveredam por caminhos indiretos. Em lugar de conduzir o debate a partir de conteúdos antropológicos, lançam mão dos sentimentos nacionalistas, suscitando com isto alarmismos, ao afirmar que os índios atentam à soberania nacional, representam o atraso e estão associados a interesses estrangeiros. Recorrem também a ataques pessoais, buscando contrastar os profissionais antropólogos não tanto em seus argumentos, mas como indivíduos, que seriam suspeitos. Ainda assim, necessitam contornar o fato de que os argumentos antropológicos lhes são inconvenientes. Constroem então o expediente de se referir aos antropólogos que realizam identificações e laudos periciais como sendo representantes de “certa Antropologia”. É bastante evidente o objetivo desta estratégia: deixar imaginar a existência de outras possíveis Antropologias, cujos argumentos refutariam aqueles normalmente apresentados nos relatórios e nas perícias. Afirma-se, por exemplo, que os antropólogos da FUNAI em Mato Grosso do Sul estariam querendo demarcar o maior número de terras indígenas para nelas perpetuar a tutela. Isto é algo falso, na medida em que os Grupos Técnicos que estão realizando os trabalhos naquele estado são coordenados por antropólogos que não são funcionários desta instituição oficial. Ademais, esses antropólogos têm formação acadêmica em nível de doutorado ou mestrado, em sua maioria sendo professores de universidades federais, com experiência sobre os indígenas em pauta, tendo defendido sobre eles dissertações e teses, publicando livros e diversos artigos científicos.

É evidente que estas estratégias discursivas são rapidamente desmascaradas frente a um crivo acadêmico. Porém, há que se evidenciar que o seu principal alvo (além obviamente da opinião pública, contribuindo para reforçar lugares comuns) é o mundo jurídico, mais especificamente a Justiça Federal, buscando influenciar suas decisões, formando verdadeiros dossiês, compostos com matérias de artigos impressos e da internet. Por vezes os juízes não possuem parâmetros para discernir sobre a qualidade de um estudo antropológico, nem sobre correntes, paradigmas teóricos, metodologias, etc. É justamente em virtude desta situação que, por exemplo, em vários contra-laudos (documentos elaborados para contrastar os relatórios de identificação de terras e as perícias antropológicas) são exaltados determinados autores que sequer têm formação antropológica, apresentando-os como eminências na disciplina, buscando criar assim uma Antropologia fictícia, a ser contraposta àquela “Antropologia do miolo mole”. Gera-se, nesses termos, uma imagem de autoridade sobre a matéria, cuja verificação se torna de difícil realização pelos juízes, que confiam na idoneidade de seus elaboradores.

Por último mas não menos relevante, ao deslocar a atenção do conteúdo e da qualidade dos relatórios antropológicos de identificação de uma terra indígena para um ataque à FUNAI, essas estratégias discursivas buscam igualmente desestabilizar e deslegitimar a estrutura do Estado, procurando interferir, o máximo possível, nos processos administrativos voltados ao cumprimento de ditames constitucionais.

 

The State of Climate Science (scienceprogress.org)

CLIMATE SCIENCE

A Thorough Review of the Scientific Literature on Global Warming

By Dr. James Powell | Thursday, November 15th, 2012

Polls show that many members of the public believe that scientists substantially disagree about human-caused global warming. The gold standard of science is the peer-reviewed literature. If there is disagreement among scientists, based not on opinion but on hard evidence, it will be found in the peer-reviewed literature.

I searched the Web of Science, an online science publication tool, for peer-reviewed scientific articles published between January first 1991 and November 9th 2012 that have the keyword phrases “global warming” or “global climate change.” The search produced 13,950 articles. See methodology.

I read whatever combination of titles, abstracts, and entire articles was necessary to identify articles that “reject” human-caused global warming. To be classified as rejecting, an article had to clearly and explicitly state that the theory of global warming is false or, as happened in a few cases, that some other process better explains the observed warming. Articles that merely claimed to have found some discrepancy, some minor flaw, some reason for doubt, I did not classify as rejecting global warming.

Articles about methods, paleoclimatology, mitigation, adaptation, and effects at least implicitly accept human-caused global warming and were usually obvious from the title alone. John Cook and Dana Nuccitelli also reviewed and assigned some of these articles; John provided invaluable technical expertise.

This work follows that of Oreskes (Science, 2005) who searched for articles published between 1993 and 2003 with the keyword phrase “global climate change.” She found 928, read the abstracts of each and classified them. None rejected human-caused global warming. Using her criteria and time-span, I get the same result. Deniers attacked Oreskes and her findings, but they have held up.

Some articles on global warming may use other keywords, for example, “climate change” without the “global” prefix. But there is no reason to think that the proportion rejecting global warming would be any higher.

By my definition, 24 of the 13,950 articles, 0.17 percent or 1 in 581, clearly reject global warming or endorse a cause other than CO2 emissions for observed warming. The list of articles that reject global warming is here.

The 24 articles have been cited a total of 113 times over the nearly 21-year period, for an average of close to 5 citations each. That compares to an average of about 19 citations for articles answering to “global warming,” for example. Four of the rejecting articles have never been cited; four have citations in the double-digits. The most-cited has 17.

Of one thing we can be certain: had any of these articles presented the magic bullet that falsifies human-caused global warming, that article would be on its way to becoming one of the most-cited in the history of science.

The articles have a total of 33,690 individual authors. The top ten countries represented, in order, are USA, England, China, Germany, Japan, Canada, Australia, France, Spain, and Netherlands. (The chart shows results through November 9th, 2012.)

Global warming deniers often claim that bias prevents them from publishing in peer-reviewed journals. But 24 articles in 18 different journals, collectively making several different arguments against global warming, expose that claim as false. Articles rejecting global warming can be published, but those that have been have earned little support or notice, even from other deniers.

A few deniers have become well known from newspaper interviews, Congressional hearings, conferences of climate change critics, books, lectures, websites and the like. Their names are conspicuously rare among the authors of the rejecting articles. Like those authors, the prominent deniers must have no evidence that falsifies global warming.

Anyone can repeat this search and post their findings. Another reviewer would likely have slightly different standards than mine and get a different number of rejecting articles. But no one will be able to reach a different conclusion, for only one conclusion is possible: Within science, global warming denial has virtually no influence. Its influence is instead on a misguided media, politicians all-too-willing to deny science for their own gain, and a gullible public.

Scientists do not disagree about human-caused global warming. It is the ruling paradigm of climate science, in the same way that plate tectonics is the ruling paradigm of geology. We know that continents move. We know that the earth is warming and that human emissions of greenhouse gases are the primary cause. These are known facts about which virtually all publishing scientists agree.

James Lawrence Powell is the author of The Inquisition of Climate Science. Powell is also the executive director of the National Physical Science Consortium, a partnership among government agencies and laboratories, industry, and higher education dedicated to increasing the number of American citizens with graduate degrees in the physical sciences and related engineering fields. This article is cross-posted with permission with the Columbia University Press blog.

This article is a cross-post with our partners at DeSmogBlog.

Saúde mental, outra vítima da mudança climática (IPS)

23/11/2012 – 10h05

por Patricia Grogg, da IPS

clima Saúde mental, outra vítima da mudança climática

As tensões e angústias acompanham toda pessoa que sofre um desastre. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

Santiago de Cuba, Cuba, 23/11/2012 – “A cidade parecia bombardeada. Caminho para meu escritório, cruzo com pessoas que levavam em seus rostos o mesmo – diria dramático – espanto que eu. Nos olhávamos e, sem nos conhecermos, nos perguntávamos: como foi com você? Aconteceu alguma coisa com sua casa? Foi uma solidariedade afetiva muito importante para mim”. Este testemunho dado à IPS, por uma jornalista de Santiago de Cuba, coloca na balança um dos lados bons da reação coletiva após um desastre como o sofrido por esta cidade na madrugada do dia 25 de outubro, quando o furacão Sandy, apesar do alerta meteorológico e das advertências oficiais, surpreendeu boa parte de seus habitantes.

O valor econômico dos prejuízos ainda são desconhecidos hoje, quando a parte mais oriental do país cura suas feridas, graves de todos os ângulos. Mas existe também o impacto psicológico, do qual se fala menos e se vê nos olhos das pessoas quando contam: “perdemos nossa casa com móveis, eletrodomésticos, até as lembranças”. “Tive muito medo, me enfiei no armário quando o vento levou o telhado do meu quarto. Meus vizinhos me tiraram de casa e me ajudaram a atravessar a rua até onde haviam se refugiado outras famílias cujas casas estavam em muito mau estado”, contou à IPS Isabel da Cruz, de 70 anos, moradora de Guantânamo, outra área afetada.

Depressão, tristeza, angústia, desespero, incerteza e agressividade, todas estas são manifestações que acompanham as pessoas depois de um desastre em qualquer parte do mundo. “Imagine, nos deitamos com a bela e acordamos com a fera”, comparou um trabalhador do setor turístico cujo hotel onde é empregado foi totalmente destruído. “As pessoas estão deprimidas e desorientadas. Em muitas nota-se o desequilíbrio psíquico pelas perdas sofridas”, disse à IPS o sacerdote católico Eugenio Castellanos, reitor do Santuário da Caridad del Cobre, virgem padroeira de Cuba. O padre estima que 90% das casas do Cobre, localidade vizinha a esta cidade, sofreram o impacto do Sandy.

Juan González Pérez, por sua vez, disse à IPS que dias antes do furacão houve focos de violência em alguns lugares, especialmente na hora de comprar artigos em falta. “Ficamos muitos dias sem energia elétrica e começaram a vender ‘luz brilhante’ (querosene) para cozinhar. Embora houvesse o suficiente para todos, aconteceram discussões e brigas na fila. Quando as pessoas se desesperam, costumam ficar agressivas”, observou Pérez, mais conhecido por Madelaine, líder do espiritismo cruzado “muertero”, uma expressão de religiosidade popular nesse lugar. Segundo contou, aconselha aos seus seguidores “unirem-se, se lavar bem, dar a quem não tem e não se desesperar”.

Em Mar Verde, a praia por onde o Sandy tocou o território cubano a 15 quilômetros de Santiago, a médica Elizabeth Martínez atende mais de cem pessoas, abrigadas em cabanas de veraneio que, por estarem mais afastadas do mar, se salvaram do desastre. “O impacto psicológico é grande, mas não houve mortes e nem temos pessoas doentes”, contou. Pouco mais de uma semana depois da passagem do furacão, os esforços em matéria de saúde se concentravam fundamentalmente em conter focos epidêmicos. “Estamos dando informações sanitárias aos moradores, ensinando como cuidar de doenças transmissíveis, sobre a importância de descontaminar a água antes de beber”, informou a médica.

Segundo meios especializados, estima-se que entre um terço e metade de uma população exposta a desastres sofre algum tipo de problema psicológico, embora na maioria dos casos se deva entender como reações normais diante de eventos extremos, que sob o impacto da mudança climática ameaçam aumentar em intensidade.

“Quando encontrei meus vizinhos no abrigo, estávamos em choque. Mas alguém disse: vamos limpar a entrada que está bloqueada por essas árvores caídas. Então, começamos a trabalhar, embora no começo ninguém falasse”, contou uma mulher do setor turístico. Nos primeiros dias era possível ver muitas pessoas recolhendo escombros e varrendo as ruas de suas vizinhanças.

Diante da frequência e da maior intensidade dos ciclones tropicais, as autoridades de saúde, desde a década de 1990, começaram a se preocupar com o impacto psicológico dos desastres causados por esses e outros fenômenos naturais. Em 2008, quando o país sofreu três furacões, uma indicação ministerial fortaleceu a inclusão do tema nos planos sanitários. Em um artigo sobre o assunto, o médico cubano Alexis Lorenzo Ruiz explica que os aspectos psicossociais dos desastres são considerados tanto na capacitação do pessoal como na organização dos programas que chegam a todo o país e enfatizam a atenção a setores mais vulneráveis, como menores de idade, adolescentes e idosos.

Do ponto de vista da saúde mental, nos desastres toda a população “sofre tensões e angústias em maior ou menor medida, direta ou indiretamente”, afirmaram Katia Villamil e Orlando Fleitas, que recomendaram não se esquecer que o impacto nessas circunstâncias é mais acentuado em populações de escassos recursos. Estes profissionais afirmam que as reações mais frequentes vão desde as consideradas normais, como ansiedade controlável, depressão leve ou quadros “histeriformes”, até estresse “peritraumático”, embotamento, redução do nível de atenção, descompensação de transtornos psiquiátricos pré-existentes, bem como “reação coletiva de agitação”.

O furacão Sandy causou estragos não apenas em Santiago de Cuba, mas também nas províncias de Guantânamo e Holguín, com saldo de 11 mortos. O governo de Raúl Castro ainda não divulgou as perdas econômicas, embora dados preliminares e incompletos dos primeiros dias indicassem uma estimativa de US$ 88 milhões.

Os direitos indígenas nos debates sobre REDD+ (Mercado Ético)

22/11/2012 – 10h53

por Redação do GTA

indigenas2 Os direitos indígenas nos debates sobre REDD+Notícia recente informou que povos indígenas e ambientalistas californianos reunidos em São Francisco teriam se manifestado contra a possibilidade de utilização de créditos de REDD+ no mercado de carbono que vem sendo desenvolvido naquele estado.

Segundo o noticiado, a queixa, com forte viés ideológico, apresentava o temor de que a comercialização desses créditos seria o equivalente a venda dos recursos naturais dos povos da floresta, o que não é verdade.

O GTA compartilha com as preocupações apresentadas sobre o mecanismo de REDD+ e reconhece os desafios e riscos que os mercados de carbono podem trazer e se empenha na luta pela garantia dos direitos dos povos e comunidade da floresta, sobretudo no que se refere ao direito a terra e uso e acessos dos recursos florestais.

Para garantir esses direitos, o GTA participa de vários fóruns nacionais e internacionais, contribuindo com o diálogo entre as partes interessadas e exigindo a inclusão de salvaguardas socioambientais que garantam e protejam os direitos dos povos das florestas.

Em benefício dos povos da floresta

No entanto, o GTA também reconhece que o REDD+ pode trazer novas oportunidades e benefícios para os povos e populações tradicionais, assim como a conservação das florestas, garantindo renda e mantendo a floresta em pé.

Exemplo disso é como o povo Surui, em Rondônia, tem se organizado para se beneficiar de recursos do REDD+ de forma auto determinada, mas transparente, com acompanhamento da Fundação Nacional do Índio (Funai). Com as oportunidades que se abrem, os Surui estão planejando o futuro da comunidade para os próximos anos.

O Projeto REDD+ dos Surui está diretamente ligado ao Plano de 50 anos de gestão integrada e autônoma dos Surui, cujo território se estende por 248 mil hectares na Amazônia brasileira. Para conhecer os detalhes do Projeto Carbono Surui, visite o site do Observatório do REDD, aqui.

No Acre, o exemplo vem do governo do estado, que criou o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais (SISA), no qual os direitos dos povos indígenas não foram esquecidos. Criado em 2010, o SISA foi debatido abertamente durante nove meses, incluindo consultas específicas com lideranças indígenas e organizações locais.

Posteriormente, a Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento do SISA instituiu o Grupo de Trabalho denominado de GT Indígena, tendo como missão estabelecer o diálogo entre este sistema, as comunidades indígenas e a sociedade civil.

Além disso, durante o processo das consultas públicas, foram realizadas oficinas com representantes de 22 terras indígenas do Acre, as quais contaram com participação do GTA, COIAB, FUNAI, Comissão Pró-Índio, entre outras organizações.

Desta forma, o SISA vem buscando garantir os direitos das populações indígenas e comunidades locais, em sintonia com o debate sobre o tema dentro do Brasil e com os acordos internacionais assinados pelo governo federal.

A Rede GTA acredita, antes de tudo, que os questionamentos a respeito do REDD e do mercado de carbono não devam ser uma forma de obstrução ao desenvolvimento social das comunidades tradicionais, mas seja um meio para a construção de políticas sociais mais justas visando ao benefícios dos povos da floresta.

O que é a Rede GTA

Em 1992, quando uma conferência mundial no Rio de Janeiro reconheceu que o futuro do planeta dependeria do meio ambiente, movimentos sociais ecoaram em todos os continentes que esse futuro ambiental também estava ligado com uma outra justiça social e cultural. Nesse contexto foi criado o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), rede que envolve mais de 600 entidades representativas de agricultores, extrativistas, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores, ribeirinhos, entre outras.

* Publicado originalmente no site GTA e retirado do site Mercado Ético.

Wallerstein: a crise estrutural do capitalismo vai continuar (Revista Fórum)

13/11/2012 8:05 pm

(http://www.flickr.com/photos/buridan/)

Para sociólogo, o que ele denomina como sistema-mundo tem problemas de tal magnitude que não será possível sua sobrevivência, mas o que virá depois é algo ainda totalmente incerto

Entrevista a por Lee Su-hoon | Tradução de Hugo Albuquerque e Inês Castilho para o Outras Palavras

Em dois sentidos, pelo menos, o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein parece disposto a contrariar as ideias que ainda predominam sobre a crise iniciada em 2007. Primeiro, no diagnóstico do fenômeno. Para ele, estamos diante de algo muito mais profundo que uma mera turbulência financeira. Foram abaladas as bases do próprio capitalismo. Ou, para usar um conceito caro a Wallerstein, do “sistema-mundo” que se desenhou a partir do século 16, em algumas partes da Europa, e se tornou globalmente hegemônico desde os anos 1800. Tal sistema teria atingido “o limite de suas possibilidades”, sendo incapaz de sobreviver à crise atual. Se ainda temos dificuldade para compreender o alcance das transformações em curso é porque, presos à inércia, demoramos a aceitar que “há alguns dilemas insolúveis”. “Nada dura para sempre – nem o Universo”, lembra Wallerstein, um tanto irônico.

O segundo ponto de vista não-convencional deste sociólogo – também um pesquisador de enorme repercussão internacional nos terrenos da História e da Geopolítica – diz respeito ao que virá, diante do eventual colapso do atual sistema-mundo. Ele diverge dos que pensam, baseados numa interpretação pouco refinada do marxismo, que podemos permanecer tranquilos – já que o declínio do sistema atual dará necessariamente lugar a uma ordem fraterna e socialista.

Não – diz Wallerstein – o futuro está mais aberto que nunca. O declínio do capitalismo pode abrir espaço, inclusive, a um sistema mais desumano – como sugere a forte presença, em todo o mundo, de correntes de pensamento autoritárias e xenófobas.

Estamos, portanto, condenados à ação, sugere este pensador, em cuja obra destaca-se a tetralogia “O Sistema Mundial Moderno”. Se o sentido do século 21 é imprevisível, isso deve-se ao fato de ele estar sendo construído neste exato momento, “em uma infinidade de nano-ações, desempenhadas por uma infinidade de nano-atores, em múltiplos nano-momentos. Em outras palavras, convoca Wallerstein, não se trata de prever o futuro, mas de construí-lo, inclusive em ações e atitudes quotidianas.

Para transformar, contudo, é preciso conhecer. Talvez por isso, embora aos 83 anos e consagrado por vasta obra teórica, Wallerstein dedica-se, em seu site, a análises quinzenais sobre temas contemporâneos muito concretos. Boa parte do material produzindo nos últimos dois anos traduzida e publicada por “Outras Palavras”. Entrevistado há poucas semanas pelo cientista político coreano Lee Su-hoon, ele avança no exame destes temas, muitas vezes expressando pontos de vista pouco usuais.

Indigado sobre a Europa, onde os cortes de direitos sociais e serviços públicos parecem não têm fim, propõe que se busque alternativas olhando, por exemplo, para a Argentina e Malásia. Estes países saíram da crise porque contrariaram, nas décadas de 1990 e 2000. Agora, pensa Wallerstein, o espaço para fazê-lo é ainda maior – mas é preciso ter coragem política.

O mundo irá tornar-se mais seguro se o Irã for impedido de desenvolver energia atômica? A resposta é “não”, garante este professor da Universidade de Yale: o atual Tratado de Não-Proliferação nuclear (TNP) é absolutamente hipócrita e será cada vez mais ineficaz. Contra o que ele preconiza, prevê Wallerstein, diversos países do Sul desenvolverão armas atômicas nos próximos anos – inclusive o Brasil…

China e Estados Unidos tendem a se converter em potências globais inimigas? Nada demonstra esta hipótese, frisa ele. A despeito da retórica, e da necessidade de satisfazer audiências locais, na prática Washington e Beijing mantêm cada vez mais interesses em comum. A entrevista completa, publicada pelo ótimo jornal sul-coreano Hankioreh, vem a seguir. (Antonio Martins)

Lee Su-hoon: Você disse: “Nos próximos 50 anos o mundo vai mergulhar em uma turbulência econômica séria e, mais tarde, o capitalismo vai enfrentar uma crise tremenda, como a da Grande Depressão”. As pessoas dizem que a crise se deve à ganância de Wall Street e à bolha imobiliária etc. Como você analisa essa crise?

Wallerstein: Faz cinco anos que eu não mudo de opinião. Basicamente, a meu ver, estamos em uma crise estrutural da economia capitalista mundial desde os anos 1970, e ela vai continuar. E não vai ser totalmente resolvida até talvez 2040 ou 2050. É difícil prever a data exata, mas vai levar muito tempo. No momento, o sistema mundial está bifurcado. Tem problemas de tal magnitude que não poderá sobreviver, está tão longe do equilíbrio que não há como voltar atrás. Mas para onde ele vai é totalmente incerto, porque, como disse, essa bifurcação significa que, tecnicamente, há duas formas de resolver uma mesma equação, o que não é normal.

Em linguagem leiga, isso significa simplesmente que o futuro sistema mundial, ou sistemas mundiais (porque não sabemos se haverá um só) que vai ou vão surgir no final desse processo podem ter, no mínimo, duas variedades fundamentais. Assim, não se pode prever qual sistema teremos, porque ele vai ser uma consequência de uma infinidade de nano-ações, desempenhadas por uma infinidade de nano-atores, em múltiplos nano-momentos – e ninguém é capaz de elaborar tanta coisa. Mas vai acontecer. Então, aqui estamos nós, no meio de tudo isso. É caótico, como se diz.

E o que significa dizer “É caótico”? Significa que as flutuações são enormes e, portanto, há incertezas inclusive no prazo muito curto. Isso significa que uma pessoa que preveja qual será a relação entre o iene, o dólar, o euro e a libra dentro de um ano será alguém muito corajoso. Não há como saber. Mas os empresários precisam dessa informação. Eles têm de ter o mínimo de estabilidade, do contrário correm o risco de sofrer perdas enormes. Isso os deixa paralisados, com muito receio de se envolver em qualquer tipo de investimento, uma das coisas que está acontecendo no mundo todo. É por isso que o desemprego explodiu. E é também por isso que os governos estão em tal dificuldade financeira, pois sem essa produção adicional não há receitas fiscais, e sem receitas os governos passaram a sofrer um grande aperto. E então o desemprego aumenta, o que coloca mais pressão sobre o governo. É o que acontece hoje em praticamente todos os países do mundo. Os governos têm menos dinheiro e enfrentam demandas para gastar mais. Isso, naturalmente, é impossível: não se pode ter menos e gastar mais. Então, eles vêm com tudo quanto é tipo de solução. Nenhuma parece funcionar. É onde nos encontramos atualmente.

Lee: E muitos países europeus estão enfrentando uma crise fiscal, uma espécie de moratória, o que os leva a tentar obter ajuda da UE (União Europeia) e do BCE (Banco Central Europeu).

Wallerstein: Os europeus têm um problema básico. Possuem pelo menos nove moedas, e 17 países compartilham o euro. Mas não têm um governo federal. É uma situação muito complicada, pois significa que os governos não podem intervir em sua própria moeda. Uma dos instrumentos que os governos utilizam tradicionalmente para lidar com suas dificuldades é aumentar ou diminuir o valor da moeda. Ao diminuir o valor da moeda pode-se vender mais; aumentando o seu valor, pode-se comprar mais. Os países da zona do euro não têm essa opção, porque nenhum país tem moeda própria. E eles estão enfrentando os mesmos problemas de todos os outros. Ou seja, exigências crescentes, porque o aumento do desemprego gera mais demandas sobre o governo. Ao mesmo tempo, a receita do governo diminui, porque não há empregos.

Sua única opção (da Grécia, Espanha, Portugal ou Irlanda) é obter ajuda, algum tipo de solidariedade. Então eles se deparam com a relutância, por parte dos países mais ricos, em “salvar” os mais pobres. Isso não leva em conta o fato de que o único e maior beneficiário da zona do euro é, de fato, a Alemanha. E é justamente o país que está fazendo o maior estardalhaço sobre não querer ajudar outros países, a menos que façam X, Y ou Z – medidas que, na verdade, só pioram a situação. Essa é a questão da zona do euro. É o problema enfrentado por todo o mundo, acrescido do fato de que esses países não podem manipular individualmente suas próprias moedas. Mas o problema básico não é diferente daquele dos EUA, da Rússia, do Egito ou de qualquer outro lugar onde haja aperto.

Lee: Aqui na Coreia, os especialistas e a mídia apresentam dois argumentos diferentes. A Irlanda, a Grécia e outros gastam muito dinheiro em benefícios sociais – essa é uma linha de argumentação. A outra é o efeito de contágio, por causa da facilidade de migração na zona do euro.

Wallerstein: Vamos lidar com os dois argumentos. O primeiro é “a Grécia está em apuros porque exagerou no bem-estar social”. Isso é exatamente o que o Partido Republicano diz sobre os EUA. É um mesmo argumento para todo o mundo, não um argumento especial para a Grécia. A reação das forças mais conservadoras a essa crise é dizer “corte benefícios”, o que significa “reduzir os gastos do governo”. Mas se você cortar benefícios reduz também o poder de compra das pessoas. Cria assim uma demanda menos eficaz. Por exemplo, uma pessoa que fabrica camisetas, ou algo assim, tem menos clientes. De forma que essa não parece ser a solução. Para mim, só piora o problema. De qualquer forma, a questão é que não é um problema específico da Grécia, da Espanha ou de Portugal. É um problema de todos os países.

Agora, o efeito de contágio. O que acontece é que, como os governos estão sem recursos, precisam de dinheiro emprestado. E para obter esse dinheiro, dependem do mercado. As pessoas emprestam dinheiro com mais facilidade quando veem possibilidades de obter reembolso. Então há, sim, um efeito de contágio na Europa: a Grécia começa a ter problemas, Portugal e Irlanda começam a ter problemas, e Espanha e Itália começam a ter problemas. E agora é a França que está se metendo em encrencas, e depois a Holanda e a própria Alemanha. É o efeito de contágio, em parte criado pelas agências de classificação de risco – que não são neutras –, mas também um problema muito real. O efeito de contágio vai da Europa para os EUA, e da Europa para o resto do mundo. Vai deixando as pessoas paralisadas. Isso significa que, quando veem as coisas indo tão mal, dizem “bem, pode dar errado em outros lugares também, portanto, não vamos emprestar o dinheiro”, ou “vamos exigir taxas de juro mais elevadas”.

Mas se tomamos o dinheiro emprestado a taxas de juros mais altas, sobra ainda menos dinheiro para gastar em outras coisas. Esse é exatamente o problema mundial. Então, novamente, não vejo isso como um problema especialmente europeu. A questão na Europa, no momento, é saber se as forças que dizem ”os países europeus estariam em situação melhor se não houvesse euro” conseguirão aboliro euro e voltar para suas moedas nacionais. Há um certo movimento nessa direção, tanto da direita como de alguns setores de esquerda.

A esquerda europeia não gosta do fato de que Bruxelas, com tanta influência, tenha um viés neoliberal tão forte. Diz-se (em alguns países escandinavos e mesmo na França): “estaríamos melhor se estivéssemos livres do controle de Bruxelas”, em oposição ao ponto de vista ainda dominante – o de que o euro fortalece a posição europeia frente ao resto do mundo e, mais especificamente, frente aos Estados Unidos.

Está acontecendo uma luta política, não há dúvida. Tendo a acreditar que, em geral, deve-se separar a retórica política da realidade e das pressões geopolíticas. A retórica política é em geral uma resposta a uma circunstância política imediata de um país. Se a chanceler Angela Merkel diz certas coisas na Alemanha, não é necessariamente porque ela acredita naquilo, mas porque, na próxima eleição, que pode ser muito em breve, ela julga que com isso ganharia votos. A mesma coisa vale para Obama. Vale também, tenho certeza, para o presidente da Coreia. Os políticos têm de se preocupar com a próxima eleição. Isso não significa que: (a) eles querem realmente dizer o que falam, e (b) o que dizem tem importância. Não acho que importe muito.

Ainda que, numa situação muito volátil, a estupidez possa prevalecer. Em geral, o que acontece é decorrente de pressões geopolíticas. Então, penso que a pressão para manter o euro, os benefícios em termos de geopolítica, são muito maiores do que a pressão para voltar às moedas individuais.

A chanceler Merkel está dizendo às pessoas, em toda a Europa, “deixem-me fazer isso, e então terei cacife político para convencer os políticos e eleitores alemães a me acompanhar”. Penso que a Europa vai concordar com um aumento do federalismo, ainda que não chamem isso de federalismo, porque não gostam dessa palavra. Mas um fortalecimento do poder central e, em consequência, um aumento do fluxo de dinheiro. Nos EUA, um estado como o Mississippi só não vai à falência porque o governo federal pode redirecionar dinheiro para lá. É disso que a Europa precisa. É isso o que querem realmente dizer as pessoas que estão clamando por “solidariedade”.

Se você me pedir que faça previsões, penso que a probabilidade de vermos, em três anos, não apenas um euro, mas um euro fortalecido, é muito maior do que o contrário. E algum tipo de mecanismo que permita enfatizar menos a prosperidade e mais a volta de recursos, ter o dinheiro fluindo novamente, é a única solução de curto prazo para os problemas europeus, assim como para os dos EUA.

Lee: Gostaria de acrescentar algo em sua análise da situação da zona do euro. Você mencionou os países escandinavos, que são mais fortes em termos de benefícios sociais. São os que mais gastam com bem-estar social e os que pagam mais impostos. Mas não estão em crise, embora se argumente que o chamado “populismo do bem-estar” social é inteiramente errado.

Wallerstein: Sim, evidente. Isso pode ser demonstrada de várias maneiras. É claro, existem cinco países nórdicos diferentes, cada um com uma situação um pouco diferente, inclusive aqueles que estão e aqueles que não estão na zona do euro, e os que estão e os que não estão na OTAN. Mas, em geral, você tem toda a razão ao dizer que aqueles cinco países nórdicos ainda são estados de bem-estar fortes, com impostos relativamente altos.

Lee: Sim, na verdade o problema fiscal da Europa é um problema mundial. Quando você olha para países específicos, há diferenças. Em alguns países, a corrupção é mais grave do que em outros.

Wallerstein: Vamos nos deter um pouco na corrupção. Penso que a corrupção é mais grave nos EUA, na Grã-Bretanha, na França e na Alemanha, do que em alguns casos de países muito citados em todo o mundo. Eles são fichinha, perto da corrupção real. Temos escândalos o tempo todo nos EUA, França e Grã-Bretanha. Quando você se depara com esses escândalos, de repente descobre que se trata de trilhões de dólares. Já quando ocorre algo do tipo em Myanmar ou no Iraque, por exemplo, estamos lidando com milhões, nem sequer com bilhões de dólares.

Assim, a corrupção é uma arma deveras etnocêntrica. Os países do Norte tendem a dizer que os do Sul são imorais, porque são corruptos. Mas não dizem que somos imorais porque somos corruptos. A corrupção é geral em nosso sistema. É geral porque, se você tem um sistema em que o principal objetivo é a acumulação de capital, a corrupção é simplesmente um aluguel que as pessoas que estão no lugar certo cobram, da acumulação sem fim do capital. Dizer que “eles não deveriam” é uma posição moral correta, mas retórica, porque eles irão até onde der, já que a opinião pública não gosta de enxergar a corrupção. E talvez uma ou duas pessoas sejam presas por um tempo relativamente pequeno, mas, basicamente, nada mais é feito contra a corrupção. Quando foi a última vez que uma pessoa corrupta dessas foi mandada para uma prisão de verdade, por um período realmente longo e teve de devolver todo o dinheiro que levou? Isso simplesmente não acontece.

Lee: Quando ouvi o discurso de feito por Obama ao se candidatar à reeleição, anotei o que ele apresentou como receitas para salvar os EUA dos tempos difíceis: criar mais postos de trabalho na indústria, reconstruir a classe média, enfatizar a educação, cortar tributos sobre a riqueza, uma nova política energética, a redução das importações e benefícios sociais que incluíssem assistência médica – um tema sempre muito controverso nas eleições norte-americanas. Mas eu me surpreendi ao ouvir as mesmas coisas dos candidatos presidenciais aqui na Coreia do Sul. Claro, a Coreia tem uma situação peculiar: a divisão da península, razão pela qual a questão da paz e a questão nuclear são importantes. Fora isso, os programas e políticas socioeconômicas eram mais ou menos idênticos. Isso me levou a pensar se a Coreia do Sul seria como os EUA socioeconomicamente. Cerca de vinte anos atrás a Coreia do Sul foi saudada como modelo para os países de Terceiro Mundo, uma vez que alcançou o crescimento econômico com relativa igualdade. Mas após as crises de 1997 e 2008 a Coreia do Sul revelou-se muito parecida com os EUA, e então as receitas políticas são quase idênticas nos dois países, penso eu.

Wallerstein: Bem, não discordo. Dentre os países mais ricos do mundo, a Coreia do Sul não está no topo, mas não está muito mal. As opiniões sobre o bem-estar social parecem estar divididas entre os conservadores e as pessoas de esquerda. Mas penso que, na verdade, a divisão pode ser mais ampla. Quando se olha para o papel do governo nos países mais pobres do mundo, ainda há a questão de quanto eles têm de benefícios sociais. Uma das coisas que o neoliberalismo, como um movimento atuante desde os anos 1980, tem prescrito para os países do Sul é: “Vejam, ocês têm todos esses problemas econômicos. Querem emprestar dinheiro de nós? Então reduzam os benefícios sociais, porque isso é dinheiro jogado fora”. A teoria age como uma força conservadora contra o governo local, que está atuando mais à esquerda. É o mesmo tipo de debate.

Você se lembra da chamada ”crise da dívida asiática” de 1997? De repente, uma série de países do Leste e do Sudeste da Ásia se viu encrencado economicamente. Ou seja, o dinheiro desapareceu. Os governos viram-se em apuros. Alguns buscaram ajuda, dizendo: “emprestem-nos dinheiro.” E esses governos contaram que a resposta recebida em geral foi: “emprestar dinheiro para vocês? Sim, desde que façam assim e assado”.

O único país que se recusou a tomar dinheiro emprestado nesses termos foi a Malásia — e ela foi o que se recuperou mais rapidamente, por ter recusado. Ao aceitar as exigências, a Indonésia provocou a queda de Suharto. E eu gostaria de citar este episódio. Trata-se de uma famosa atuação de Henry Kissinger, um político reconhecidamente de direita. Após a queda de Suharto, ele escreveu: ”como vocês (FMI e governo dos EUA) podem ser tão estúpidos? Vocês prescrevem para o governo de Suharto medidas que provocam sua queda e colocam, no seu lugar, um governo à esquerda dele. É mais importante manter Suharto no poder do que negar-lhe dinheiro. Vocês não entenderam suas prioridades. A prioridade é geopolítica, e não econômica”. Ele os repreendeu por fazer o que vinham fazendo há dez ou vinte anos em países menos importantes que a Indonesia.

A Coreia ficou no meio, tendo em vista o modo como respondeu. Teve uma atuação melhor do que a dos países que se entregaram completamente ao FMI, mas não tão boa quanto a da Malásia. Uma das coisas que se aprende com isso, e depois do que aconteceu na Argentina, é que esses países têm mais poder geopolítico do que acreditam ter e são mais capazes de reagir contra agências tipo FMI. Naturalmente, o FMI e o Banco Mundial aprenderam a lição. E começaram a falar em programas contra a pobreza. De repente, sua linguagem mudou, como resultado da crise da dívida asiática, porque se deram conta daquilo que Kissinger estava lhes dizendo: precisam ser mais astutos politicamente; não podem ser estritamente econômicos em suas exigências.

Lee: Na convenção do Partido Democrata norte-americano deste ano, Joseph Biden afirmou, repetidamente, que “os EUA não estão em declínio”, e Obama disse que “os EUA são um país do Pacífico”. Isso pode ser interpretado como um retorno dos EUA à zona asiática do Pacífico, inclusive sugerindo a contenção da China.

Wallerstein: Aqui há duas questões. Uma delas é afirmar que os EUA não estão em declínio. A outra é o que eles estão tentando fazer com essa ênfase na Ásia e no Pacífico.

“Os EUA não estão em declínio” é um mantra nos Estados Unidos. Nenhum político pode dizer que os EUA estão em decadência. Na verdade, todos eles se esforçam para negar essa realidade, porque a população dos EUA não está preparada para aceitar o fato de que os EUA não são mais o “Número 1”, um exemplo admirado no mundo inteiro. Eles não vão dizer isso publicamente. É uma pena porque, a meu ver, uma das coisas importantes é tornar a população dos Estados Unidos mais consciente da realidade geopolítica e do fato de que os EUA são um país muito forte – mas não mais, em nenhum sentido, acima dos demais. Há vários países com avaliação melhor que os EUA em determinadas questões. E a capacidade de os EUA para influenciar a situação em várias partes do mundo diminuiu enormemente. Então, penso que é preciso separar a retórica política da realidade política.

E agora, o que os Estados Unidos estavam fazendo na Ásia? A primeira coisa a notar é que os EUA não têm força econômica e militar suficiente para engajar-se por completo, como costumavam, na Europa e na Ásia. Se eles dizem publicamente “vamos estar fazer isso na Ásia”, querem dizer ao mesmo tempo que não vão fazer isso na Europa. Isso não está sendo ignorado pelos europeus. Está sendo ignorado pela opinião pública dos Estados Unidos. Ou seja: isso, em parte, é admitir o declínio.

Agora, a segunda parte é ”conter” a China. Os comunistas chegaram ao poder em 1948. A China não tem sido politicamente popular nos EUA. A Guerra da Coreia, entre o Norte e o Sul da península, foi também uma guerra entre os EUA e a China. Não a denominamos assim, mas essa é a realidade. E a linha de armistício não é tão diferente da linha anterior à guerra. Considero que houve um empate militar entre a China e os EUA. Nenhum dos lados ganhou. No entanto, a retórica era muito forte nos dois lados, China e EUA denunciando um ao outro de todas as maneiras possíveis, até que Nixon foi à China, guiado por seus instintos geopolíticos e os de Henry Kissinger. A combinação era bastante forte. Ambos eram muito cínicos e muito inteligentes. Naquele momento, a China travava uma grande disputa com a União Soviética. Tinham um terreno comum. Uniram-se contra a União Soviética, é simples assim.

Agora, a Guerra Fria acabou, e a União Soviética não existe mais, e há algo chamado Rússia, que é o mesmo país e ao mesmo tempo um país extremamente diferente. A China ficou mais forte do que era antes – militarmente e economicamente. Mas não se deve exagerar. A China está se afirmando geopoliticamente como líder da Ásia. Mas, trinta anos atrás, ninguém na África ou na América Latina pensava na China. A China simplesmente não fazia parte da cena. Agora, mudou. A China ambiciona ser uma potência, e uma potência mundial precisa interessar-se por todas as partes do mundo, da mesma forma que os EUA e a Grã-Bretanha, que são potências mundiais, estão interessados em todas as partes do mundo. Nesse sentido, a União Soviética era uma potência mundial.

A China e os Estados Unidos têm muitas diferenças sobre questões imediatas, e esfregam isso na cara um do outro, de modo errado, de tempos em tempos. E atualmente há um monte de difamadores da China nos EUA. Os políticos gostam de culpá-la por tudo. Isso irrita os chineses, mas é um jogo. Se você olhar para a realidade das políticas dos Estados Unidos e a realidade das políticas chinesas ao longo dos últimos trinta anos, verá que eles nunca fizeram nada que ultrapassasse os limites um do outro. Têm sido muito cuidadosos em manter boas relações geopolíticas.

Então, não considero tão significativa a nova ênfase dos EUA na Ásia e no Pacífico. Primeiro, vejo isso como um show de retórica, em parte para os EUA e em parte para os outros países da Ásia, porque há que se preocupar com a Coreia do Sul, Japão, Vietnã e Filipinas. Estes países são ambivalentes com relação aos EUA. Eles gostam dos EUA, porque Washington os ajuda em certas coisas. Por outro lado, não querem realmente os EUA. Então, têm relações complicadas. E os EUA sentiram que precisavam reassegurar a esses aliados que não os haviam excluído da cena completamente. Não acho que seja mais do que isso. Penso que, quanto a isso, os dois lados não vão cruzar a linha, a não ser a linha retórica, no máximo.

Agora, a península coreana é de fato uma das questões cruciais nas relações EUA-China, porque temos um país chamado Coreia do Norte e outro chamado Coreia do Sul. Ambos são muito coreanos, e o nacionalismo coreano é muito forte. A pressão geopolítica pela reunificação é enorme. E agora os EUA e a China têm de se preocupar com isso. Se as tropas americanas tiverem que sair, isso significa que a Coreia reunificada possuiria armas nucleares? E se eles tiverem armas nucleares, o que os japoneses diriam sobre isso? E Taiwan? Penso que a pressão para nuclearizar, para acabar com a abstenção de armas nucleares na Coreia do Sul, no Japão e em Taiwan é muito forte. Não acho que os EUA estejam felizes com isso. Nem a China. O que leva à aproximação, não ao distanciamento dos EUA e da China. E ambos estão tentando descobrir, “podemos parar este processo?”

Não posso enxergar o que têm em mente, mas suspeito que isso está no topo da sua lista de preocupações. O fato é que eles antecipam, não que a Coreia do Norte vá se desnuclearizar, mas que a Coreia do Sul, o Japão e Taiwan venham a se nuclearizar. Se você me pedir novamente uma previsão, diria que em dez anos, todos eles estarão nuclearizados. E não acho isso desastroso. O fato de os EUA e a União Soviética terem, ambos, armas nucleares, foi um fator importante para garantir que não haveria guerra entre eles. Foi uma coisa positiva, e não negativa.

Agora, é claro, com armas nucleares existe sempre a possibilidade de desastre. As armas nucleares estão em determinado lugar, sob um comandante militar. Ele pode apertar um botão qualquer e dispará-las. Nossa aposta é que ele, como indivíduo, irá obedecer ao comandante-em-chefe do seu país. Em 999 das vezes, é possível contar com isso. Mas há sempre uma chance em mil de haver um oficial descontrolado. Ademais, é bem verdade que, havendo mais armas nucleares no mundo, as pessoas podem roubá-las. Isso vem sendo discutido com relação ao Paquistão. Continua-se a dizer: ”Você sabe, o Paquistão tem de 70 a 80 armas nucleares e bombas” e “Será que os lugares onde estão armazenadas são realmente bem protegidos?”, “Alguém, afiliados à Al Qaeda ou talvez a outro grupo, poderia atacá-los e roubá-los?”

Assim, não excluo o potencial negativo da nuclearização generalizada. Mas não penso que isso significa que o Irã irá bombardear alguém. Na verdade, os governos usam as armas nucleares como um mecanismo de defesa, e não um mecanismo agressivo. Usam como um modo de se safar de ser bombardeados. Os EUA foram para o Iraque não porque ele tinha armas nucleares, mas porque ele não tinha. Os EUA sabiam que, portanto, Bagdá não poderia responder com uma arma nuclear.

Penso que essa é a lição que o Irã e a Coreia do Norte tiraram imediatamente do que aconteceu no Iraque. Na verdade, do ponto de vista da Coreia do Norte, essa é a única proteção real que eles têm militarmente, no momento. Minha previsão é de que, em dez anos, todos os países da Ásia Oriental terão essas armas. E também muitos outros países, como Brasil e Argentina. Suécia, Egito e Arábia Saudita as terão. Sempre pelas mesmas razões: para evitar de ser bombardeado pelos outros.

Lee: E se todo mundo desistisse das armas nucleares, inclusive aqueles que já as possuem?

Wallerstein: Isso seria o ideal, se você considera possível convencer os EUA ou o Paquistão, Índia, Israel, França e Grã-Bretanha. Mas não há política que possa persuadir esses países a reduzir os armamentos nucleares a zero. Você poderá persuadi-los a reduzir o número de bombas que têm, em certas condições. Mas voltar a zero não seria prático. Pela simples razão de que é difícil verificar se os outros estão de fato reduzidos a zero. Há muitas maneiras de esconder essas coisas. É por isso que eles não vão aceitar.

Mas essa é a razão porque o tratado de não-proliferação nuclear é uma farsa, pois basicamente o que ele diz é que ninguém deve possuir armas nucleares, exceto os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O resto de vocês, o mundo todo, deve renunciar a qualquer tentativa de ter armas nucleares, e em troca disso nós prometemos duas coisas: (1) vamos reduzir significativamente o nosso estoque, e (2) vamos permitir que você desenvolva a energia nuclear para fins pacíficos.

Desde que o tratado entrou em vigor, não houve uma redução significativa, e agora todo o mundo está falando novamente em renovar e expandir. Os três únicos países que se recusaram a assinar o tratado são a Índia, o Paquistão e Israel. E isso agora está praticamente aceito. Eles desafiam o mundo, desafiam todas as regras, e agora são membros do clube. Os EUA têm boas relações com os três países, e nenhum foi penalizado por ter armas nucleares.

Lee: Então, o que você diz sobre a nossa tentativa de persuadir a Coreia do Norte a desistir das armas nucleares…

Wallerstein: É que é impossível. Se eu estivesse dirigindo a Coreia do Norte, certamente não concordaria.

Lee: Se for esse o caso, acha que o impasse atual entre os EUA e a Coreia do Norte vai continuar? E o que dizer da China?

Wallerstein: Mais uma vez, há a retórica e a realidade. De fato, os diplomatas norte-americanos sabem, todos, que essa proibição é impossível. Mas não sabem o que fazer. Eles certamente não podem dizer, por razões políticas internas, que “não há esperança”. Então imaginam que, colocando pressão sobre a China, estão, por tabela, pressionando a Coreia do Norte. E usam um mecanismo de retardo, não um mecanismo sério. Os militares dos EUA dizem “não vamos enviar tropas ao Irã em hipótese nenhuma”. Por outro lado, os EUA estão comprometidos com Israel e Israel, por sua vez, está dizendo: “Temos que bombardear o Irã”. Então, o que fazem os EUA? Operam com seu mecanismo de retardo. Isso reflete as limitações essenciais do poder dos EUA, o que revela parte de seu declínio. Houve um tempo em que eles não precisavam retardar. Houve um tempo em que podiam tomar decisões fortes sobre outros países. Já não podem. Aqui estamos. Separemos a retórica da realidade geopolítica.

Lee: Isso deixa muitos coreanos progressistas, que são-aliança, pró-negociações, pró-diplomacia, pró-processo de paz, muito pessimistas.

Wallerstein: Por que? Há muitos possíveis acordos entre as Coreias do Norte e do Sul, a começar pelas questões econômicas. Veja, se você está no comando de um regime como o da Coreia do Norte, tem que levar em conta a realidade geopolítica. Por outro lado, quer permanecer no poder. Até agora, eles contaram com um regime de mão pesada, muito repressivo, e o apoio do exército. Podem tentar continuar a reprimir a maioria, os famintos, podem tentar ludibriá-los com a ideologia, tentando fazê-los acreditar que vivem maravilhosamente bem. Mas hoje é cada vez mais difícil fazê-los acreditar nisso. Então é preciso dar-lhes um pouco de bem-estar social – o que significa que deve haver algumas mudanças na política econômica da Coreia do Norte, na linha das que foram feitas pela China e Vietnã. Tanto a China quanto o Vietnã mostraram a eles um modelo, no qual um partido único pode permanecer no poder e ainda assim promover uma abertura econômica. E acho que o novo líder está tentado pela idéia, mas é um caminho difícil. Ele tem as mesmas dificuldades em negociar com o seu público interno que a chanceler Merkel tem, que Obama tem, e certamente todo o mundo precisa se preocupar em manter a retórica satisfatória, internamente. Assim, ele pode ser capaz de ter algo equivalente ao que os chineses fizeram, como as Zonas Econômicas Especiais.

Lee: Se você fosse o presidente da Coreia do Sul, interessado em desenvolver boas relações com a Coreia do Norte, se esforçaria mais para ajudá-la nesse esforço?

Wallerstein: Se eu fosse o presidente da Coreia do Sul é o que eu faria, até onde fosse politicamente possível. Você precisa assegurar um equilíbrio, mantendo o poder político na sua base e as demandas geopolíticas. Mas penso que esse vai ser o caminho a seguir. Sei que a resposta das forças mais conservadoras na Coreia do Sul seria dizer ”bem, nós tentamos uma política de diálogo e não funcionou.” E a resposta é ”sim, não funcionou, em parte porque os tempos eram diferentes, o líder era diferente, com uma atitude diferente. E em segundo lugar porque as coisas foram feitas sem entusiasmo. Talvez a gente tenha que fazer ainda mais.” Esse tipo de debate acontece o tempo todo na política.

Lee: Tocamos em muitas questões hoje. Uma última questão é sobre o capitalismo fundamentalista. Depois da crise de 2008, houve uma volta à abordagem keynesiana do mercado. Pessoalmente, acho que eles não estão certos, mas isso levanta a questão do futuro do capitalismo.

Wallerstein: Algumas reformas vão resolver esse problema. Mas as pessoas estão muito reformistas na sua abordagem dos problemas. É muito difícil para elas aceitar o fato de que há alguns dilemas insolúveis. Quando digo que alguma coisa é insolúvel, elas dizem “oh, nós gostamos do seu argumento até aqui, mas esse ponto nos incomoda.” Os sistemas têm vida. Nenhum sistema dura para sempre. Seja o universo, o maior sistema que possamos conhecer, ou o menor dos nano-sistemas que não podemos ver, nenhum deles vai durar para sempre. Em sua vida, os sistemas se movem gradualmente para mais e mais longe do equilíbrio até atingir um ponto em que já não podem equilibrar-se novamente. E nós somos um sistema. É o chamado sistema mundial moderno. Foi um sistema bem sucedido, mas atingiu o limite das possibilidades. Quando comecei a dizer isso, trinta anos atrás, as pessoas riam. Agora elas não riem, argumentam contra. Já é um progresso. Penso que daqui a vinte anos as pessoas vão estar bem conscientes disso. Pelo menos assim espero, porque é muito difícil empenhar-se em políticas inteligentes para tentar empurrar o mundo para a direção certa, sem que se esteja ciente da realidade.

Call to Modernize Antiquated Climate Negotiations (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 18, 2012) — The structure and processes of United Nations climate negotiations are “antiquated,” unfair and obstruct attempts to reach agreements, according to research published November 18.

The findings come ahead of the 18thUN Climate Change Summit, which starts in Doha on November 26.

The study, led by Dr Heike Schroeder from the University of East Anglia (UEA) and the Tyndall Centre for Climate Change Research, argues that the consensus-based decision making used by the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) stifles progress and contributes to negotiating deadlocks, which ultimately hurts poor countries more than rich countries.

It shows that delegations from some countries taking part have increased in size over the years, while others have decreased, limiting poor countries’ negotiating power and making their participation less effective.

Writing in the journal Nature Climate Change, Dr Schroeder, Dr Maxwell Boykoff of the University of Colorado and Laura Spiers of Pricewaterhouse Coopers, argue that changes are long overdue if demands for climate mitigation and adaptation agreements are to be met.

They recommend that countries consider capping delegation numbers at a level that allows broad representation across government departments and sectors of society, while maintaining a manageable overall size.

Dr Schroeder, of UEA’s School of International Development, will be attending COP18. She said: “The UN must recognize that these antiquated structures serve to constrain rather than compel co-operation on international climate policy. The time is long overdue for changes to institutions and structures that do not support decision-making and agreements.

“Poor countries cannot afford to send large delegations and their level of expertise usually remains significantly below that of wealthier countries. This limits poor countries’ negotiating power and makes their participation in each session less effective.”

The researchers found that attendance has changed in terms of the number and diversity of representatives. The number of delegates went from 757 representing 170 countries at the first COP in 1995 to 10,591 individuals from 194 countries attending COP15 in 2009 — a 1400 per cent increase. At COP15 there were also 13,500 delegates from 937 non-government Observer organisations.

Small developing countries have down-sized their delegations while G-7 and +5 countries (Brazil, China, India, Mexico, and South Africa) have increased theirs. The exception is the United States, which after withdrawing from the Kyoto Protocol started to send fewer delegates to COPs.

The study also looked at the make-up of the delegations and found an increase in participation by environmental, campaigning, academic and other non-Governmental organisations.

“Our work shows an increasing trend in the size of delegations on one side and a change in the intensity, profile and politicization of the negotiations on the other,” explained Dr Schroeder. “These variations suggest the climate change issue and its associated interests are framed quite differently across countries. NSAs are well represented on national delegations but clearly the government decides who is included and who is not, and what the official negotiating position of the country and its level of negotiating flexibility are.”

Some countries send large representations from business associations (Brazil), local government (Canada) orscience and academia (Russia). For small developing countries such as Bhutan and Gabon the majority of government representatives come from environment, forestry and agriculture. The UK has moved from mainly environment, forestry and agriculture to energy and natural resources. The US has shifted from these more conventional areas to an overwhelming representation from the US Congress at COP15.

Journal Reference:

  1. Heike Schroeder, Maxwell T. Boykoff, Laura Spiers. Equity and state representations in climate negotiations.Nature Climate Change, 2012; DOI: 10.1038/nclimate1742

Overwhelming Public Support for Whistleblowers (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 19, 2012) — New research by the University of Greenwich shows 4 out of 5 Britons think that people should be supported for revealing serious wrongdoing, even if it means revealing inside information. However, under half of the respondents (47%) thought whistleblowing is an acceptable thing to do in our society. Hence, people think society is less supportive of it than it should be.

Three quarters of respondents, who are employees or members of an organisation, also indicated that if they observed wrongdoing, they would feel personally obliged to report it to someone in their organisation. However, a smaller proportion were confident their organisation would stop wrongdoing if they reported it, and less than half thought management in their organisation were serious about protecting people who report wrongdong. Still, almost 9 out of 10 in Britain believe whistleblowers should be able to use the media to draw attention to wrongdoing (either as a first resort, when there become specific reasons to do so or as a last resort).

Dr Wim Vandekerckhove from the Work and Employment Relations Unit (WERU) at the University of Greenwich, who leads the research, believes that at a time where a change in the UK legislation on whistleblower protection is demanded by different actors and in different directions, it is important to take stock of how citizens feel about whistleblowing. Any changes to the legislation should be in line with attempts to close the gaps identified by this research.

Dr Vandekerckhove concludes that this research shows people will raise concern inside their organisation, but adds: ‘If we don’t make it safer for employees to speak up inside their organisations, people will support those who blow the whistle to the media.’ Political, business and community leaders must accept this new reality, and develop and implement legislation and policies that make it safe and effective to speak up about wrongdoing inside the organisation.

This research was funded by the University of Greenwich Business School. ComRes interviewed 2,000 adults online from 26th to 28th October 2012. Data were weighted to be demographically representative of all British adults aged 18+. ComRes is a member of the British Polling Council and abides by its rules. Full data tables are available at ComRes.co.uk.

Dr Wim Vandekerckhove is Senior Lecturer at the University of Greenwich where he researches and teaches on whistleblowing, business ethics, and organisational behaviour. He has published widely in academic journals and books, and is a regular international speaker at conferences and events on whistleblowing and business ethics.

The survey is part of an ongoing international project measuring public attitudes to whistleblowing. Findings in Australia show a similar thrust as these from Britain.

Working paper: http://ssrn.com/abstract=2176193

Government, Industry Can Better Manage Risks of Very Rare Catastrophic Events, Experts Say (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 15, 2012) — Several potentially preventable disasters have occurred during the past decade, including the recent outbreak of rare fungal meningitis linked to steroid shots given to 13,000 patients to relieve back pain. Before that, the 9/11 terrorist attacks in 2001, the Space Shuttle Columbia explosion in 2003, the financial crisis that started in 2008, the Deepwater Horizon accident in the Gulf of Mexico in 2011, and the Fukushima tsunami and ensuing nuclear accident also in 2011 were among rare and unexpected disasters that were considered extremely unlikely or even unthinkable.

A Stanford University engineer and risk management expert has analyzed the phenomenon of government and industry waiting for rare catastrophes to happen before taking risk management steps. She concluded that a different approach to these events would go far towards anticipating them, preventing them or limiting the losses.

To examine the risk management failures discernible in several major catastrophes, the research draws upon the combination of systems analysis and probability as used, for example, in engineering risk analysis. When relevant statistics are not available, it discusses the powerful alternative of systemic risk analysis to try to anticipate and manage the risks of highly uncertain, rare events. The paper by Stanford University researcher Professor Elisabeth Paté-Cornell recommends “a systematic risk analysis anchored in history and fundamental knowledge” as opposed to both industry and regulators sometimes waiting until after a disaster occurs to take safety measures as was the case, for example, of the Deepwater Horizon accident in 2011. Her paper, “On ‘Black Swans’ and ‘Perfect Storms’: Risk Analysis and Management When Statistics Are Not Enough,” appears in the November 2012 issue of Risk Analysis, published by the Society for Risk Analysis.

Paté-Cornell’s paper draws upon two commonly cited images representing different types of uncertainty — “black swans” and “perfect storms” — that are used both to describe extremely unlikely but high-consequence events and often to justify inaction until after the fact. The uncertainty in “perfect storms” derives mainly from the randomness of rare but known events occurring together. The uncertainty in “black swans” stems from the limits of fundamental understanding of a phenomenon, including in extreme cases, a complete lack of knowledge about its very existence.

Given these two extreme types of uncertainties, Paté-Cornell asks what has been learned about rare events in engineering risk analysis that can be incorporated in other fields such as finance or medicine. She notes that risk management often requires “an in-depth analysis of the system, its functions, and the probabilities of its failure modes.” The discipline confronts uncertainties by systematic identification of failure “scenarios,” including rare ones, using “reasoned imagination,” signals (new intelligence information, medical alerts, near-misses and accident precursors) and a set of analytical tools to assess the chances of events that have not happened yet. A main emphasis of systemic risk analysis is on dependencies (of failures, human errors, etc.) and on the role of external factors, such as earthquakes and tsunamis that become common causes of failure.

The “risk of no risk analysis” is illustrated by the case of the 14 meter Fukushima tsunami resulting from a magnitude 9 earthquake. Historical records showed that large tsunamis had occurred at least twice before in the same area. The first time was the Sanriku earthquake in the year 869, which was estimated at magnitude 8.6 with a tsunami that penetrated 4 kilometers inland. The second was the Sanriku earthquake of 1611, estimated at magnitude 8.1 that caused a tsunami with an estimated maximum wave height of about 20 meters. Yet, those previous events were not factored into the design of the Fukushima Dai-ichi nuclear reactor, which was built for a maximum wave height of 5.7 meters, simply based on the tidal wave caused in that area by the 1960 earthquake in Chile. Similar failures to capture historical data and various “signals” occurred in the cases of the 9/11 attacks, the Columbia Space Shuttle explosion and other examples analyzed in the paper.

The risks of truly unimaginable events that have never been seen before (such as the AIDS epidemics) cannot be assessed a priori, but careful and systematic monitoring, signals observation and a concerted response are keys to limiting the losses. Other rare events that place heavy pressure on human or technical systems are the result of convergences of known events (“perfect storms”) that can and should be anticipated. Their probabilities can be assessed using a set of analytical tools that capture dependencies and dynamics in scenario analysis. Given the results of such models, there should be no excuse for failing to take measures against rare but predictable events that have damaging consequences, and to react to signals, even imperfect ones, that something new may be unfolding.

Journal Reference:

  1. Elisabeth Paté-Cornell. On “Black Swans” and “Perfect Storms”: Risk Analysis and Management When Statistics Are Not EnoughRisk Analysis, 2012; DOI:10.1111/j.1539-6924.2011.01787.x

Estudo aumenta precisão ao simular clima (Folha de São Paulo)

JC e-mail 4621, de 09 de Novembro de 2012.

Americanos conseguiram método indireto para levar em conta o papel das nuvens no aquecimento do planeta. Metodologia criada por eles indica que o mais provável neste século é que temperatura média aumente perto de 4º C.

Pesquisadores americanos acabam de achar um meio de determinar quais modelos da mudança climática parecem ser os mais precisos. E a má notícia: os melhores são os que predizem modificações mais drásticas no clima para as próximas décadas.

O segredo do trabalho, conduzido por John Fasullo e Kevin Trenberth, do Centro Nacional Para Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado, foi se concentrar naquilo que se podia ver -no caso, a umidade relativa em regiões subtropicais- para compreender o que é muito mais difícil de medir: a dinâmica das nuvens.

As nuvens são um dos elementos-chave na interpretação do fenômeno do aquecimento global. Isso porque elas têm um efeito duplo. Por um lado, por serem claras, elas refletem a luz solar para o espaço, resultando em resfriamento. Por outro, o vapor d’água nelas é um poderoso gás do efeito estufa, podendo gerar aquecimento.

Os modelos de computador têm dificuldade em lidar com as nuvens e seu papel na evolução do clima.

Incerteza, em termos – Já é possível simular, ao menos em parte, o efeito delas, e existe um consenso mais ou menos claro de que a soma de tudo que elas fazem resulta em suave resfriamento. Entretanto, ainda há muita incerteza sobre o que isso significa para o futuro.

Tal incerteza é o grande mal a afetar a ciência do aquecimento global. Os detratores costumam apontá-la como a prova de que o medo da mudança climática é muito mais um movimento ideológico do que uma conclusão científica inescapável.

Ao que tudo indica, porém, a incerteza diz respeito ao nível de aquecimento para as próximas décadas, mas não ao fenômeno em si. Alguns modelos sugerem que, nos próximos cem anos, veremos um aumento da temperatura média da ordem de 4,5 graus Celsius. Já os mais modestos preveem que tudo não passará de uma variação de 1,5 grau Celsius.

Foi aí que entrou em cena o lampejo de Fasullo e Trenberth. Como é difícil observar diretamente as propriedades das nuvens e compará-las com o que os modelos oferecem, eles decidiram estudar a umidade relativa do ar, sobretudo nas regiões subtropicais, em geral mais secas.

A vantagem é que dados de umidade relativa são obtidos com confiança a partir de satélites, de forma que é possível contrastar as previsões dos modelos para o presente com observações reais. Também há forte correlação entre a umidade relativa e o processo de formação de nuvens, de forma que, a partir de um, é possível inferir o efeito de outro. O chato é que os modelos que parecem estar mais corretos são justamente aqueles que preveem mudanças mais fortes, da ordem de 4,5º C.

A questão das nuvens, porém, não é a única fonte de incertezas. “Esse trabalho é só uma das peças do quebra-cabeças da sensibilidade climática”, afirma Karen Shell, da Universidade Estadual do Oregon (EUA), que comentou a pesquisa na mesma edição da revista “Science” na qual os resultados saíram.

Desastre natural é empecilho ao desenvolvimento do Brasil (O Globo)

JC e-mail 4621, de 09 de Novembro de 2012.

Especialista do Banco Mundial, Joaquín Toro diz que enchentes dos últimos cinco anos custaram R$ 15 bilhões; problema deve se agravar com mudança climática.

O Brasil gosta de se imaginar como um país livre de desastres naturais. Isso é verdade?
O Brasil não tem eventos catastróficos que afetem o País inteiro, como tsunamis, terremotos, furacões. Quer dizer, não com muita intensidade. Porque, na verdade, temos terremotos, há zonas sísmicas em Minas e no Nordeste, e ciclones tropicais – houve dois nos últimos dez anos, embora não muito grandes. Há uma percepção no País de que não há eventos catastróficos. Mas quando olhamos por estado, vemos grandes perdas, tanto humanas quanto econômicas.

Qual foi o pior deles?
Nos últimos cinco anos, tivemos quatro grandes eventos. O primeiro, em 2008, as enchentes do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Tivemos enchentes também em Pernambuco e Alagoas, em 2010, e as enxurradas no Rio, na Região Serrana, no começo do ano passado. Para dizer qual foi o pior, qual teve o maior impacto, depende do que for levado em conta. Em termos de número de vidas perdidas, o do Rio de Janeiro foi o pior dos últimos tempos do Brasil, com cerca de mil mortos. Mas se considerarmos o impacto econômico comparado com o PIB do estado, por exemplo, vemos que o de Alagoas foi o mais impactante: quase 8% do PIB.

Por que fazer os estudos agora?
Nunca foi feita sistematicamente no Brasil a avaliação do impacto econômico de desastres. Não diz respeito apenas a perdas diretas, como a destruição de uma ponte, de uma escola, de infraestrutura. Mas também, o impacto da perda da ponte na produção econômica. Essa avaliação não era muito sistematizada. Havia a cultura de pagar pelo desastre. Como em geral não morre muita gente, a percepção é de que o desastre não foi grande. Mas economicamente foi catastrófico.

Mesmo em comparação ao furacão Sandy, nos EUA?
O furacão teve um impacto econômico de US$ 50 bilhões, o equivalente a 2% do PIB da região afetada. Em Alagoas, o prejuízo foi de 8% do PIB. Claro que Alagoas é um dos estados mais pobres do Brasil, qualquer impacto será grande. Mas o que estamos querendo demonstrar é que isso pode ser um empecilho ao desenvolvimento.

Como isso ocorre?
Geralmente o que acontece é que, para pagar o desastre, a reconstrução, é preciso buscar recursos em algum lugar. Primeiro, o município começa a usar todos os recursos que tem. Vão embora seus planos de desenvolvimento, programas sociais, educação, saúde. Todos os recursos vão suprir a reconstrução. Aí vêm as transferências estaduais e federais, que também saem de algum orçamento, porque não existe fundo de emergência. Outros estados acabam sendo afetados.

Qual foi o atraso no desenvolvimento por conta desses eventos?
Não temos esse número, mas o impacto econômico dos desastres naturais nos últimos cinco anos foi de R$ 15 bilhões. A pergunta é: o que poderíamos ter feito com R$ 15 bilhões?

É mais caro reconstruir?
É muito mais caro. Estudos mostram que para cada dólar investido em prevenção ou redução de riscos, representa uma economia de 5 a 7 dólares na recuperação.

Por que não há prevenção?
Por um lado não tínhamos muito conhecimento do risco, não entendíamos o problema. Não há cultura de prevenção e as pessoas esquecem muito rápido, o que ocorreu há cinco, dez anos. Mas há mudanças. Há uma nova política de redução de riscos.

Piora com o aquecimento global?
A pergunta é o que vamos fazer para evitar o crescimento desordenado das cidades. Se tivermos de 10% a 20% a mais de chuvas mas também cidades bem resolvidas, o impacto será muito menor. Mas, se não pudermos nos adaptar, será ainda mais difícil. Vamos ter mais chuvas e secas, e variabilidade climática alta.

Brazil’s Banknotes Still Praise God, for Now (N.Y.Times)

November 13, 2012, 6:03 PM

By ROBERT MACKEY and TAYLOR BARNES

A close view of the Portuguese words for A close view of the Portuguese words for “God Be Praised” on Brazil’s currency.

A federal prosecutor in Brazil is seeking a court order to force the central bank to replace the nation’s entire supply of paper currency with bills that do not display the phrase “God Be Praised,” the newspaper Folha de São Paulo reported on Monday.

The prosecutor, Jefferson Aparecido Dias, whose office defends the rights of citizens in the city of São Paulo, said he had received a complaint last year about the use of the phrase. He argued in a 17-page motion filed on Monday that the words “Deus Seja Louvado,” which have appeared on notes of the Brazilian real since 1986, violate the rights of non-Christians and nonbelievers.

Although he acknowledged that most Brazilians are Christian, the prosecutor wrote, “The Brazilian state is secular and, as such, should be completely detached from any religious manifestation.” To make his case that the phrase was inappropriate, he asked the court to consider the reaction of Christians if the nation’s currency included calls to worship figures revered by Muslims, Buddhists, observers of Candomblé or Hindus — or a statement endorsing atheism. “Let’s imagine if the real note had any of these phrases on it: ‘Praise Allah,’ ‘Praise Buddha,’ ‘Hail Oxossi,’ ‘Hail Lord Ganesh’ or ‘God does not exist,’ ” he said.

Writing on Twitter, the archbishop of São Paulo, Cardinal Odilo Scherer,wondered if anyone even noticed the phrase, which is rendered in tiny letters on the notes.

Você já percebeu que as notas Real tem uma rederência a Deus? Há alguém querendo tirar. Que v. Acha?

The cardinal also said in a statement: “The phrase should make no difference to those who do not believe in God. But it is meaningful for all those who do believe in God. And those who believe in God also pay taxes and are most of the population.”

Brazil’s central bank had previously replied to the complaint by arguing that the religious reference was valid because the preamble to the Brazilian constitution explicitly states that the democracy was formed “under the protection of God.” The bank’s response to the prosecutor added that the state, “not being atheist, anticlerical or antireligious, can legitimately make a reference to the existence of a higher being, a divinity, as long as, in doing so, it does not make an allusion to a specific religious doctrine.”

Quem poderá salvar os guarani-kaiowás? (O Estado de S. Paulo)

Artigo

14/11/2012 – 10h36

por Washington Novaes*

Há mais de 20 anos – 15 dos quais nesta página – o autor destas linhas escreve sobre a situação dramática dos índios guarani-kaiowás, em Mato Grosso do Sul (MS). Naquele tempo já eram centenas os casos de suicídio entre essa gente (a segunda maior etnia indígena no País, 45 mil pessoas). E já nesse tempo eles não tinham onde viver segundo seus formatos próprios – as terras para as quais gradativamente os expulsavam eram muito pequenas, não permitiam manter a tradição de plantar, colher, caçar, pescar. Fora de suas terras, sem formação profissional adequada, seguiam a trajetória fatal: trabalhar como boias-frias, tornar-se alcoólatras, mendigos, loucos. E suicidas, como o jovem de 17 anos que se matou no dia seguinte ao de seu casamento – enforcou-se numa árvore e, sob seus pés, na terra, deixou escrito: “Eu não tenho lugar”.

Quando ganhou espaço na comunicação a atual crise em dois hectares onde vivem 170 índios, dois dias antes se suicidara um jovem de 23 anos, pelas mesmas razões. Felizmente, a desembargadora Cecília Mello, do Tribunal Regional Federal, determinou que os guarani-kaiowás permaneçam na área até que se conclua a delimitação da que lhes deve caber – e onde estão “em situação de penúria e falta de assistência”, o que, segundo ela, “reflete a ausência de providências do poder público para a demarcação das terras”. Dizia o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), nesse momento, que 1.500 guarani-kaiowás já se haviam suicidado.

Só pode levar ao espanto trazer à memória que havia 5 milhões de índios ocupando os 8,5 milhões de quilômetros quadrados em 1500, quando aqui chegaram os colonizadores – ou seja, cada um com 1,7 quilômetro quadrado, em média. E hoje os guarani-kaiowás da aldeia em questão precisam ameaçar até com suicídio coletivo para manterem 170 pessoas em dois hectares, 20 mil metros quadrados, menos de 120 metros para cada um, pouco mais que a área de um lote dos projetos habitacionais de governos. Mas nem isso lhes concedem.

Talvez já tenha sido mencionado em artigo anterior pensamento do antropólogo Lévi-Strauss num de seus livros, no qual se perguntava por que os índios brasileiros, que eram milhões, não massacraram os primeiros colonizadores, que eram umas poucas centenas. Teria sido muito fácil. Mas ele mesmo respondia: não só não mataram, como os trataram como fidalgos; porque na cosmogonia do índio brasileiro está sempre presente a chegada do outro – e esse outro é o limite da liberdade de cada pessoa. Tal como pensava outro antropólogo, Pierre Clastres (A Sociedade contra o Estado): nas culturas indígenas não há delegação de poder, ninguém dá ordens; cada indivíduo é livre; mas o limite da liberdade de cada pessoa está em outra pessoa. Só que o respeito à liberdade dos colonizadores custou aos índios o massacre. E situações como as que vivem hoje.

De pouco têm adiantado relatórios de organismos internacionais, entre eles o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que destacam a importância (a começar pelo Brasil) das áreas indígenas para a conservação da biodiversidade, em perigo no mundo. Também têm sido esquecidas as lições do jurista José Afonso da Silva, que com seu parecer levou o Supremo Tribunal Federal a decidir pelo direito dos índios ianomâmis à demarcação de suas reservas, em Roraima: é um direito reconhecido desde as ordenações da coroa portuguesa, no século 17.

Mas quem comove o poder brasileiro? Ainda no ano passado – talvez também já tenha sido comentado aqui -, quando completou meio século a criação do Parque Indígena do Xingu pelo presidente Jânio Quadros, por proposta dos irmãos Villas Boas, o autor destas linhas, com apoio do ex-ministro Gilberto Gil, do artista plástico Siron Franco, do compositor e criador Egberto Gismonti, do ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) Márcio Santilli – entre muitas outras pessoas -, tentou levar à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a proposta de transformar o parque em patrimônio ambiental, histórico e cultural da humanidade. Afinal, naqueles 26 mil quilômetros quadrados, onde vivem 16 povos, está um pedaço riquíssimo do patrimônio ambiental brasileiro – de sua flora, sua fauna, seus recursos hídricos -, hoje cercado pelo desmatamento e pelo plantio de grãos; um pedaço importante da nossa História, pois a presença de etnias por ali tem mais de 2 mil anos; um pedaço valioso do patrimônio cultural, com todas as manifestações lá nascidas e que perduram. Mas para que a Unesco receba um pedido como esse é imprescindível – foi-nos dito – que ele tenha o aval de alguma autoridade brasileira. E não conseguimos sequer uma audiência da Funai ou de outro órgão para expor o pleito.

Não estranha. Aprendemos mais uma vez que uma iniciativa como essa é considerada “ameaça à soberania nacional e ao uso de recursos naturais”. Tal como já acontecera em 2002, quando o autor destas linhas, membro da comissão que preparava o projeto da Agenda 21 brasileira, observou, numa reunião, que faltava no texto um capítulo sobre clima e mudanças nessa área. E propunha que ele fosse escrito. Imediatamente o representante do Itamaraty na comissão se levantou e impugnou a proposta, alegando que “essa área, que envolve a soberania brasileira, é privativa das Forças Armadas e do Itamaraty”. Ponto final. Já promulgada a Agenda, no início do novo governo, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) pediu que este escriba a representasse na Comissão da Agenda. A proposta do capítulo sobre clima e desenvolvimento sustentável foi reapresentada e aprovada em princípio. Mas jamais foi discutida. Morreu.

Tampouco estranha, assim, que os guarani-kaiowás enfrentem esse calvário. Se o Parque do Xingu não pode ter prioridade, se centenas de milhares de índios em todo o País vivem um drama diário, que importância tem para o poder a sina de algumas dezenas de guarani-kaiowás perdidos em meio à soja sul-mato-grossense?

Washington Novaes é jornalista.

Apenas 6,2% dos municípios do País têm plano de prevenção de catástrofes (O Estado de São Paulo)

JC e-mail 4624, de 14 de Novembro de 2012.

Levantamento do IBGE revela que, apesar do aumento no número de tragédias nos últimos anos causadas por fatores externos, como chuvas e deslizamentos, plano de redução de riscos só foi adotado em metade das cidades maiores, com mais de 500 mil habitantes.

Até o ano passado, apenas 6,2% das 5.565 cidades brasileiras tinham plano de redução de riscos relacionados a desastres naturais, segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), divulgada ontem (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros 10% informaram estar elaborando esses planos em 2011.

O estudo mostra que a preocupação é mais comum em cidades mais populosas. Entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, 52,6% tinham plano de redução de riscos. Na divisão regional, o Sudeste apresentou a maior proporção de cidades com planos (9,6%) e a Região Sul, a menor (4,4%).

“O fato de o Brasil não ter terremoto nem furacão acaba causando uma impressão de que somos um país agraciado pela natureza, colocando a prevenção em segundo plano. A preocupação em relação a eventos extremos ainda é um assunto recente, que não faz parte de muitas agendas”, diz Valcler Rangel, vice-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para a área de meio ambiente.

Segundo ele, o Centro de Estudos e Pesquisas em Desastres, vinculado à Fiocruz, mostra um crescimento das consequências provocadas por eventos extremos. “A tragédia que matou mais de 900 pessoas em 2011 na Região Serrana do Rio é suficiente para demonstrar que não estamos preparados. Além das casas destruídas, quase 80% das escolas e unidades de saúde estavam em áreas de risco, sinal da ocupação desordenada.”

Lançado pela presidente Dilma Rousseff em agosto, o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais prevê que cada prefeitura tenha o seu plano para evitar danos causados por enchentes ou deslizamentos de terra, entre outros eventos. No entanto, ainda não há uma obrigatoriedade. Os planos municipais devem ter informações sobre ocupações irregulares, diagnósticos de áreas de risco e estratégias para remoção, entre outras.

É a primeira vez que o IBGE levanta essas informações na Munic. Os pesquisadores também perguntaram aos prefeitos se, independentemente da realização dos planos, haviam feito programas ou ações de gerenciamento de riscos de deslizamento e recuperação ambiental de caráter preventivo. Apenas 32% declararam realizá-los. As prefeituras que informaram realizar ações desse tipo se concentraram principalmente em drenagem urbana.

Para o levantamento de 2013, a Munic deverá verificar se municípios que sofreram danos causados por desastres naturais fizeram algo para evitá-los. A pesquisa também mostra que a maioria das prefeituras (84,6%) informou ter executado, nos dois anos anteriores, algum tipo programa no setor de habitação. A ação mais realizada foi a construção de unidades habitacionais (65,6%), seguida pela melhoria de unidades (44,3%).

Bolsa-aluguel na Bahia – Apesar de sofrer com grandes enchentes – pelo menos uma por ano desde 2001 – e deslizamentos de terras, o município de Lauro de Freitas (BA), na região metropolitana de Salvador, não tem uma política formal de prevenção de riscos na área habitacional. Mas, segundo a prefeitura, não há moradores nas áreas de risco catalogadas pelo município neste ano.

“Por mais que a gente planejasse e fizesse obras de infraestrutura contra desastres naturais, elas não dariam vazão ao grande volume de água que chega à cidade”, diz a prefeita Moema Gramacho (PT), lembrando que o município é cortado por seis rios. “Priorizamos a retirada das famílias que moravam nas áreas de risco”, explica.

Segundo a prefeita, um levantamento de 2005 mostrou que cerca de 10 mil pessoas (6,7% dos habitantes) moravam em áreas de “alto risco” para enchentes e deslizamentos. O estudo levou a uma lei municipal que garante a moradores de áreas de risco, cadastrados em programas sociais, como o Bolsa-Família, o pagamento mensal de aluguel em imóveis seguros, por parte da prefeitura.

O valor oferecido pela administração, no chamado “bolsa-aluguel”, é de R$ 150 a R$ 200 por mês, até que a prefeitura conceda ao beneficiário um imóvel – ou que ele deixe de se enquadrar no perfil. “Chegamos a ter 1.800 beneficiados pelo bolsa-aluguel; hoje são cerca de 600”, diz a prefeita.

A grande mudança veio com o Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, e com programas similares da própria prefeitura e do governo da Bahia nos últimos anos. Pelos programas, foram contratadas cerca de sete mil unidades habitacionais para a cidade, das quais 3,7 mil foram entregues.

Nas áreas de risco desocupadas, os imóveis foram destruídos e estão sendo instalados parques, para desestimular invasões. “Monitoramos essas áreas com frequência”, diz a prefeita. Para Moema, o próximo passo é universalizar o sistema de saneamento básico. Hoje, apenas 9% dos imóveis contam com esgotamento sanitário.

Qualidade da água – Apenas 28% dos municípios brasileiros têm política de saneamento básico, quase metade (47,8%) não fiscaliza a qualidade da água fornecida à população e apenas um terço (32,3%) tem programa de coleta seletiva de lixo em atividade. É o que revela a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) divulgada pelo IBGE. Em 2011, pela primeira vez foi abordada a questão do saneamento.

Cruzamento de dados com a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), de 2008, indica que não houve avanço significativo no período. Na Munic, as informações são levantadas com as prefeituras.

“Os municípios ainda não estão estruturados com ênfase para a questão do saneamento. Em relação à PNSB 2008, os dados são parecidos. Poderia ter havido um movimento melhor, por exemplo, na questão da coleta seletiva”, diz Daniela Santos Barreto, pesquisadora da coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

A Região Sul possuía a maior proporção de municípios com programas, projetos ou ações de coleta seletiva em atividade (55,8%), seguida pelo Sudeste, com 41,5%. Norte e Nordeste apresentaram as maiores proporções de municípios sem programas: 62,8% e 62,3%. Em Roraima, nenhum município tinha coleta seletiva em 2011.

A Munic também mostra que apenas um terço dos municípios brasileiros tinha estrutura única para cuidar do saneamento em 2011, apesar de o Plano Nacional de Saneamento Básico prever que todos deveriam ter. Além disso, 60% não realizavam nenhum acompanhamento das licenças relativas ao abastecimento de água, esgotamento sanitário e drenagem. De acordo com a pesquisa, as políticas de saneamento são fragmentadas. “Em relação à lei de saneamento, ainda é preciso uma sensibilização dos municípios, para que cumpram suas responsabilidades de fiscalizar e normatizar a execução de serviços”, acrescenta Daniela.

No caso da falta de órgão responsável pela fiscalização da qualidade da água, o índice chega a 58% dos municípios no Nordeste. O IBGE mostra que 30,7% das prefeituras tinham conhecimento da existência de cooperativas ou associações de catadores de materiais recicláveis, mas apenas 14,8% haviam realizado alguma parceria com esses trabalhadores.

Roraima expõe falta de política de lixo – Roraima é o melhor exemplo do descaso com tratamento de lixo no País. Nenhum dos 15 municípios do Estado tem programa de coleta seletiva. Apenas a capital, Boa Vista, dispõe de um aterro sanitário. Nos demais municípios, o lixo domiciliar e hospitalar é despejado em lixões a céu aberto.

No contrato que a prefeitura de Boa Vista mantém com a empresa Soma, por exemplo, há previsão de coleta seletiva, mas não há dinheiro para implementar a medida, informa o responsável pelo serviço de limpeza, Éder Jonas Coelho. A prefeitura paga R$ 900 mil pelo recolhimento do lixo e manutenção do aterro sanitário. “Com a coleta seletiva, o preço seria dobrado”, diz.

A coleta d elixo na capital foi prejudicada depois que o contrato com a Soma sofreu redução de 25%, por causa da queda nos valores do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Em muitas ruas da cidade a cena é de lixo acumulado nas calçadas.

Conhecimento não é fator determinante para formação de opinião sobre ciência (Fapesp)

Códigos morais e políticos podem influenciar muito mais as atitudes em relação a questões científicas e tecnológicas, aponta pesquisador (FAPESP)

14/11/2012

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – As pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia realizadas em diferentes países, incluindo o Brasil, com o objetivo de avaliar a opinião dos cidadãos sobre temas científicos e tecnológicos deparam com o desafio de explicar quais fatores influenciam atitudes, interesse e engajamento em relação a esses assuntos.

Isso porque, do conjunto de indicadores utilizados nessas pesquisas para analisar quais fatores são mais relevantes na formação de interesses e atitudes dos cidadãos sobre ciência e tecnologia – como renda, educação, idade e escolaridade –, nenhum deles consegue explicar minimamente a variabilidade das respostas.

“Tem alguma outra variável que não estamos medindo que determina o tipo de atitude das pessoas sobre ciência e tecnologia em geral”, disse Juri Castelfranchi, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante conferência sobre os desafios interpretativos e metodológicos para o estudo da percepção pública da ciência e tecnologia que proferiu no dia 27 de outubro no 2º Seminário Internacional Empírika.

Realizado nos dias 26 e 27 de outubro no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o evento integrou a programação da Feira Ibero-americana de Ciência, Tecnologia e Inovação (Empírika).

De acordo com Castelfranchi, um dos fatores que contribuem para a dificuldade de as pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia determinarem qual ou quais processos contribuem para a construção da opinião pública sobre o tema é que elas estão “baseadas na hipótese mal fundada e fundamentada de que as atitudes das pessoas em relação aos assuntos científicos e tecnológicos são moduladas pelo conhecimento que têm sobre esses temas”.

Tradicionalmente, segundo Castelfranchi, a maioria dos estudos realizados sobre o que faz com que as pessoas aceitem ou rejeitem a realização de uma pesquisa científica ou uma nova tecnologia focalizou o interesse, o conhecimento e as atitudes dos entrevistados em relação à ciência e tecnologia, baseado na ideia de que esses três aspectos estariam relacionados.

Dessa forma, as pessoas não interessadas teriam baixo nível de informação e tenderiam, em geral, a ter atitudes mais negativas em relação à ciência e tecnologia. Por outro lado, ao estimular o interesse dessas pessoas por temas científicos e tecnológicos seria possível melhorar o nível de conhecimento delas sobre essas áreas e, consequentemente, suas atitudes em relação à ciência e tecnologia se tornariam mais positivas.

Entretanto, pesquisas de campo demonstraram que essas premissas são falsas e que a situação real é muito mais complexa do que a defendida por esse modelo, que foi derrubado.

Em geral, de acordo com os resultados de estudos recentes na área, existe um grande interesse de boa parte da população sobre os temas de ciência e tecnologia, mas que não corresponde à busca de informação.

“Há grupos de público com baixa escolaridade, principalmente em países em desenvolvimento, que não conhecem e não buscam informação sobre ciência e que têm atitudes bastante positivas em relação à ciência e tecnologia”, disse Castelfranchi.

“Em contrapartida, alguns estudos detectaram que não é verdade que, ao aumentar o conhecimento, a atitude das pessoas se torna mais positiva. Em alguns casos ocorre o contrário, elas tendem a ser mais cautelosas e críticas”, disse.

Paradoxo do conhecimento versus atitude

Segundo Castelfranchi, um dos exemplos que ilustram essa suposta contradição, batizada de “paradoxo do conhecimento versus atitude”, é a questão dos transgênicos na Europa.

O continente, que é um dos que mais investem em ciência e tecnologia, decretou no início dos anos 2000 uma moratória contra os alimentos transgênicos após intensos debates entre segmentos da sociedade favoráveis e outros contrários à tecnologia, baseados no apelo emocional e argumentos mais de cunho econômico e político do que científico.

Uma pesquisa realizada em 1998 e replicada em 2010 em toda a Comunidade Europeia sobre o conhecimento e atitudes dos europeus em relação a aplicações biotecnológicas, incluindo alimentos e vacinas transgênicas, apontou que o fator risco não era determinante para a rejeição ou não da população à nova tecnologia.

Em muitos casos, os entrevistados responderam que algumas aplicações biotecnológicas eram perigosas, mas que eram úteis, moralmente aceitáveis e que deveriam ser encorajadas. Em outros casos, os participantes da pesquisa apontaram determinadas aplicações biotecnológicas como não tão perigosas, mas politicamente e moralmente questionáveis – como os transgênicos –, o que fez com que a tecnologia fosse rejeitada.

“Não foi o risco o fator mais relevante que levou à rejeição dos transgênicos na Europa, mas considerações políticas como, entre elas, o fato de a tecnologia ser controlada por multinacionais, ser patenteada e porque os países europeus eram contrários a monoculturas”, avaliou Castelfranchi.

A pesquisa também apontou que os cidadãos europeus que tinham conhecimento mais baixo não rejeitavam os transgênicos, mas não tinham uma opinião formada sobre eles. Por outro lado, os participantes com maior escolaridade tinham opiniões favoráveis ou contrárias mais definidas.

“O conhecimento não mudou a atitude dos cidadãos europeus em relação aos transgênicos, mas sim o fato de terem uma atitude mais definida em relação à tecnologia, a exemplo do que também pode ser observado no Brasil e em outros países ibero-americanos onde foram realizadas pesquisas do gênero”, disse Castelfranchi.

Na mais recente pesquisa Percepção pública da ciência e tecnologia, realizada no fim de 2010 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com mais de 2 mil pessoas em todo o país, nenhum dos grupos específicos, de diferentes níveis sociais e de escolaridade, respondeu que as tecnologias trazem mais malefícios do que benefícios, quando perguntados sobre isso.

Porém, os participantes que mais conheciam cientistas e instituições de pesquisa foram justamente os que declararam em maior proporção que os cientistas podem ser perigosos em função do conhecimento que possuem.

“Não há nenhuma associação entre baixa escolaridade e achar que a ciência é perigosa. Mas, pelo contrário: pessoas de alta escolaridade tendem a ter uma postura mais cautelosa tanto em relação aos benefícios como sobre os malefícios apresentados pela ciência e tecnologia”, afirmou Castelfranchi.

Valores morais e políticos

No caso do Brasil, um dos fatores relevantes que influenciam as atitudes dos brasileiros em relação à ciência e tecnologia, identificado por Castelfranchi e outros pesquisadores que analisaram os dados da pesquisa realizada pelo MCTI, é o porte das cidades onde os entrevistados moram.

Os pesquisadores constataram que os participantes da pesquisa que moram em cidades brasileiras de grande porte tendem a avaliar melhor os prós e contras do desenvolvimento tecnocientífico para responder se a ciência e tecnologia trazem só benefícios ou malefícios. Já as pessoas que residem em cidades pequenas têm uma chance ligeiramente maior de apontar que a ciência só traz benefícios.

Contudo, tanto essa variável como nenhuma outra, como o sexo dos entrevistados, não consegue explicar, por si só, a variabilidade das respostas se a ciência e a tecnologia trazem mais benefícios ou malefícios.

“Nenhum dos fatores analisados até agora implica as pessoas terem uma posição mais otimista ou pessimista sobre a ciência e a tecnologia. Tem outros pontos, que precisamos descobrir, que influenciam essa resposta”, avaliou Castelfranchi.

Uma das hipóteses levantadas pelo pesquisador é que os códigos morais e políticos das pessoas, como a religião, podem ser mais determinantes do que o conhecimento que elas possuem ou não para formar suas opiniões sobre aspectos específicos da ciência e da tecnologia.

Entre os participantes da pesquisa sobre percepção pública da ciência e tecnologia realizada pelo MCTI, os que se declararam católicos concordaram mais do que os evangélicos com uma das afirmações feitas durante o estudo de que por causa de seu conhecimento os cientistas têm poderes que os tornam perigosos e que a ciência tem que ser controlada socialmente.

“A trajetória e a orientação de vida e os valores morais das pessoas, provavelmente, exercem uma influência muito maior na modulação de suas atitudes em relação à ciência e tecnologia em geral e sobre aspectos específicos da pesquisa do que o nível de conhecimento que elas têm”, estima Castelfranchi.

Para comprovar essa hipótese, de acordo com o pesquisador, é preciso desenvolver novas metodologias qualitativas e quantitativas e grandes quantidades de observações etnográficas para verificar como as pessoas se posicionam em relação à ciência e tecnologia, abolindo a ideia de que isso está relacionado apenas ao nível de conhecimento.

“Precisamos renovar nossas metodologias de pesquisa e a forma como olhamos e interpretamos os dados das pesquisas de percepção pública da ciência e tecnologia para entender como as pessoas atribuem sentido e constroem suas opiniões sobre questões científicas e tecnológicas, para termos uma visão dinâmica de como formam suas atitudes”, afirmou Castelfranchi.

Cultural Dimensions of Climate Change Are Underestimated, Overlooked and Misunderstood (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 11, 2012) — The impact of climate change on many aspects of cultural life for people all over the world is not being sufficiently accounted for by scientists and policy-makers. University of Exeter-led research by an international team, published on 11th November in Nature Climate Change, shows that cultural factors are key to making climate change real to people and to motivating their responses.

From enjoying beaches or winter sports and visiting iconic natural spaces to using traditional methods of agriculture and construction in our daily lives, the research highlights the cultural experiences that bind our communities and are under threat as a result of climate change. The paper argues that governments’ programmes for dealing with the consequences of climate change do not give enough consideration to what really matters to individuals and communities.

Culture binds people together and helps them overcome threats to their environments and livelihoods. Some are already experiencing such threats and profound changes to their lives. For example, the Polynesian Island of Niue, which experiences cyclones, has a population of 1,500 with four times as many Niueans now living in New Zealand. The research shows that most people remaining on the island resist migrating because of a strong attachment to the island. There is strong evidence to suggest that it is important for people’s emotional well-being to have control over whether and where they move. The researchers argue that these psychological factors have not been addressed.

Lead researcher Professor Neil Adger of the University of Exeter said: “Governments have not yet addressed the cultural losses we are all facing as a result of global climate change and this could have catastrophic consequences. If the cultural dimensions of climate change continue to be ignored, it is likely that responses will fail to be effective because they simply do not connect with what matters to individuals and communities. It is vital that the cultural impact of climate change is considered, alongside plans to adapt our physical spaces to the changing environment.”

Professor Katrina Brown from the University of Exeter’s Environment and Sustainability Institute adds: “The evidence is clear; when people experience the impacts of climate change in places that matter to them, the problems become real and they are motivated to make their futures more sustainable. This is as true in coastal Cornwall as in Pacific Islands.”

Journal Reference:

  1. W. Neil Adger, Jon Barnett, Katrina Brown, Nadine Marshall, Karen O’Brien. Cultural dimensions of climate change impacts and adaptationNature Climate Change, 2012; DOI: 10.1038/nclimate1666

Nota da liderança dos Guarani e Kaiowá contra artigo publicado na revista Veja

Esta nota pretende explicitar a luta histórica do Povo Guarani e Kaiowá pelas terras tradicionais frente à divulgação de situação Guarani e Kaiowá na REVISTA VEJA que na semana passada,divulgou a manchete “Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria” “Na crise dos guaranis-caiovás estão envolvidos interesses da Funai, de antropólogos e de ONGs. Ninguém se preocupa com os próprios índios”. Jornalista Leonardo Coutinho da REVISTA VEJA.

Em primeiro lugar, é fundamental se destacar que A LUTA/GUERRA GUARANI E KAIOWÁ pela posse da terra tradicional é muito antiga e do Século XVII. Essa luta indígena Guarani e Kaiowá citada começou antes mesmo existir a Ciência Antropológica/Ciências Sociais, ou seja, a luta Guarani em defesa de seus territórios tradicionais iniciou antes de existir o tal de antropólogo e indigenista das ONGs. Por exemplo: no Brasil, a FUNAI existiu desde 1968, quando a FUNAI foi criada já tem se deparado com a luta Guarani e Kaiowá pela terra tradicional. De modo similar, o CIMI surgiu em meado de 1970, esses agentes do CIMI encontraram os Guarani e Kaiowá já em processo de luta pela recuperação de seus territórios antigos. Por isso, jornalista Leonardo Coutinho desconhece ou ignora completamente a história da luta Guarani e Kaiowá. Alertamos a todos (as) cidadãos (ãs) que argumentação de Leonardo Coutinho não procede e nunca será verdade a argumentação da REVISTA VEJA sobre nós Guarani e Kaiowá.

Por fim, destacamos que a luta Guarani e Kaiowá pela recuperação de nossa terra tradicional é antiga já há séculos. Temos certeza que a FUNAI. CIMI e ONGS, etc., podem acabar, mas a nossa luta pela terra não acabará, porque é nosso interesse exclusivo se encontra cristalizada em nossa vida e repassada de geração a para geração Guarani e Kaiowá. Visto que a nossa luta pela terra tradicional já atravessou vários sistema histórico de nosso país Brasil, por exemplo: atravessamos lutando, o sistema de colônia de Império, Ditadura Militar, Democracia da República, assim por diante.
Mais uma vez, jornalista Leonardo Coutinho desconhece ou ignora completamente a história da luta Guarani e Kaiowá. Alertamos a todos (as) cidadãos (ãs) brasileiros (as) que argumentação de Leonardo Coutinho não procede e nunca será verdade a argumentação da REVISTA VEJA sobre nós Guarani e Kaiowá é falsa e enganadora que precisa a ser punida o seus mentores e autores.

Atenciosamente,
Lideranças/Conselho da Aty Guasu, 05 de novembro de 2012.

Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria (Veja)

04/11/2012 – 09:24

Mato Grosso do Sul

Na crise dos guaranis-caiovás estão envolvidos interesses da Funai, de antropólogos e de ONGs. Ninguém se preocupa com os próprios índios

Leonardo Coutinho
A OUTRA MARGEM - Crianças caiovás brincam na área invadida em Iguatemi. Seus pais deixaram a reserva do outro lado do rio em busca de mais terrasA OUTRA MARGEM – Crianças caiovás brincam na área invadida em Iguatemi. Seus pais deixaram a reserva do outro lado do rio em busca de mais terras (Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

O Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, tomou uma decisão para abrandar um movimento sem precedentes de homens brancos em nome de um grupo indígena brasileiro. Acatando um pedido da Advocacia-Geral da União, o TRF determinou que os índios guaranis-caiovás podem continuar ocupando as terras da Fazenda Cambará, no município de Iguatemi, em Mato Grosso do Sul. Em uma carta divulgada na internet no dia 10 do mês passado, membros do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) condenaram a ordem de despejo dada pela Justiça Federal de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, comparando-a a uma “morte coletiva”. Logo se espalhou pelas redes sociais a versão de que os índios iriam cometer um ritualístico suicídio coletivo. Das redes, a solidariedade ganhou as ruas de diversas cidades, onde muitas brasileiras não perderam a chance de protestar de peito aberto diante das câmeras.

O governo agiu rápido, pediu a suspensão da ordem de despejo e exigiu que a Fundação Nacional do Índio (Funai) conclua em um mês o laudo antropológico que serviria como o primeiro passo para a demarcação oficial da terra reclamada pelo Cimi em nome dos índios.

Com o episódio, o Cimi conseguiu mais uma vez aproveitar a ignorância das pessoas das grandes cidades sobre a realidade em Mato Grosso do Sul e, principalmente, sobre quais são as reais necessidades dos índios. As terras indígenas já ocupam 13,2% da área total do país. Salvo raras exceções, a demarcação de reservas não melhorou em nada a vida dos índios. Em alguns casos, o resultado foi até pior. A 148 quilômetros da Fazenda Cambará, no município de Coronel Sapucaia, há uma reserva onde os caiovás dispõem de confortos como escolas e postos de saúde, mas não têm emprego, futuro nem esperança. Ficam entregues à dependência total da Funai e do Cimi, sem a menor chance de sobrepujar sua trágica situação de silvícolas em um mundo tecnológico e industrial. São comuns ali casos de depressão, uso de crack e abuso de álcool. A reserva Boqueirão, próximo a Dourados, abriga caiovás submetidos ao mesmo estado desesperador. Levantamento feito por agentes de saúde locais revelou que 70% das famílias indígenas têm um ou mais membros viciados em crack. “Infelizmente, a vida dos 170 caiovás acampados na fazenda em Iguatemi não melhorará com um simples decreto de demarcação”, diz o antropólogo Edward Luz.

Os caiovás formam o segundo grupo indígena mais populoso do Brasil, atrás apenas dos ticunas, do Amazonas. Segundo o IBGE, há 43 400 membros dessa etnia no país. Outros 41 000 residem no Paraguai. Eles transitam livremente entre os dois países, como parte de sua tradição nômade. Os antropólogos os convenceram de que o nascimento ou o sepultamento de um de seus membros em um pedaço de terra que ocupem enquanto vagam pelo Brasil é o suficiente para considerarem toda a área de sua propriedade. Com base nessa visão absurda, todo o sul de Mato Grosso do Sul teria de ser declarado área indígena – e o resto do Brasil que reze para que os antropólogos não tenham planos de levar os caiovás para outros estados, pois em pouco tempo todo o território brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores dos índios.

Em sua percepção medieval do mundo, os religiosos do Cimi alimentam a cabeça dos índios da região com a ideia de que o objetivo deles é unir-se contra os brancos em uma grande “nação guarani”. Ocorre que o território dessa “nação” coincide com a zona mais produtiva do agronegócio em Mato Grosso do Sul. O Cimi e algumas ONGs orientam os índios a invadir propriedades. A Funai também apoia o expansionismo selvagem. Os 170 caiovás acampados na Fazenda Cambará moravam em uma reserva situada do outro lado da margem do Rio Hovy. Em novembro do ano passado, membros dos clãs Pyelito Kue e Mbarakay foram levados pelos religiosos e antropólogos a cruzar o rio e se estabelecer em uma área de 2 hectares. O secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, visitou os caiovás em Iguatemi um dia antes e deu-lhes a garantia de que o governo federal zelaria pelos seus direitos. Ex-marido da presidente da Funai, Marta Azevedo, Maldos é um conhecido oportunista que não perde a chance de usar a desgraça alheia em favor de suas convicções políticas. “Além de terra, queremos ter condições de plantar e trabalhar, mas isso nem a Funai nem ninguém faz por nós”, diz o cacique caiová Renato de Souza, da aldeia Jaguapiru, em Dourados. Enquanto os índios tiverem a vida manipulada pelos medievalistas do Cimi, pelos ideólogos da Funai e pelas ONGs, seu destino será de sofrimento e penúria.

VEJA

VEJA

Com reportagem de Kalleo Coura

Anthropocene Continues to Spark Scientific Debate (The Geological Society of America)

GSA Annual Meeting Technical Session: “Geomorphology of the Anthropocene”

Boulder, Colorado, USA – How have humans influenced Earth? Can geoscientists measure when human impacts began overtaking those of Earth’s other inhabitants and that of the natural Earth system? Responding to increasing scientific recognition that humans have become the foremost agent of change at Earth’s surface, organizers of this GSA technical session have brought together speakers and poster presentations from a variety of sources in order to answer these questions and define the “Geomorphology of the Anthropocene.”

“Anthropocene” is a fairly new term (first used ca. 2002 by Paul Crutzen) now being applied to the current global environment and its domination by human activity (see J. Zalasiewicz et al.’s 2008 GSA Today article “Are we now living in the Anthropocene” [v. 18, no. 2, p. 4]). This “era” or “epoch” spans a yet-undetermined but so far brief (in geologic terms) time scale potentially marking the end of the Holocene epoch.

Session organizers Anne Jefferson of Kent State University, Karl Wegmann of North Carolina State University, and Anne Chin of the University of Colorado Denver have gathered presentations addressing human interactions with Earth’s systems. Research studies span a range of temporal and spatial scales and investigate a variety of influences, including the effects of indigenous culture as well as dams and cities.

Chin says that part of the research is spurred by “the difficulty of finding any place (no matter how ‘pristine’) where the landscape hasn’t been affected by human activities.” She cites the U.S. National Research Council’s “Grand Challenge” in Landscapes on the Edge: New Horizons for Research on Earth’s Surface (2010) to determine how Earth’s surface may evolve in the Anthropocene.

Chin also points to the intensification of debate over “Anthropocene” and the time frame it encompasses as scientists, policymakers, the media, and the public become increasingly aware of the term. A goal of this session is to address the debate and add a greater base of scientific understanding to round out the popularity of the idea.

Three Geological Society of American (GSA) specialty divisions cosponsor this session: the GSA Quaternary Geology and Geomorphology Division, the GSA Geology and Society Division, and the GSA Archaeological Geology Division, thus bringing to bear a multidisciplinary perspective to the problem. Talks include “An early Anthropocene analog: Ancient Maya impacts on the Earth’s surface”; “Removing streams from the landscape: Counting the buried streams beneath urban landscapes”; and Anthropogenic influences on rates of coastal change.”

Papers from this session will be compiled into a special issue of Anthropocene, a new journal launching in 2013 by Elsevier, devoted to addressing one of the grand challenges of our time.

Session 8: T24. Geomorphology of the Anthropocene: The Surficial Legacy of Past and Present Human Activities
Talks: https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/webprogram/Session30644.html
When: Sunday, 4 Nov., 8 a.m. to noon
Where: Charlotte Convention Center, Room 207A
Poster Session: https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/webprogram/Session31925.html
When: Sunday, 4 Nov., 9 a.m. to 6:30 p.m.
Where: Charlotte Convention Center Hall B

Contacts: 
Anne J. Jefferson: ajeffer9@kent.edu, +1-980-213-5933
Karl W. Wegmann: kwwegman@ncsu.edu
Anne Chin: anne.chin@ucdenver.edu, +1-979-492-0074

Find out what else is new and newsworthy by browsing the complete technical program schedule at https://gsa.confex.com/gsa/2012AM/finalprogram/.

To identify presentations in specific areas of interest, search topical sessions by discipline categories or sponsors using the drop-down menus atwww.geosociety.org/meetings/2012/sessions/topical.asp, or use your browser’s “find” feature to search for keywords or convener names.

Risk (Fractal Ontology)

http://fractalontology.wordpress.com/2012/11/01/risk/

Joseph Weissman | Thursday, November 1, 2012

Paul Klee, “Insula Dulcamara” (1938); Oil on newsprint, mounted on burlap

I began writing this before disaster struck very close to home; and so I finish it without finishing it. A disaster never really ends; it strikes and strikes continuously — and so even silence is insufficient. But yet there is also no expression of concern, no response which could address comprehensively the immense and widespread suffering of bodies and minds and spirits. I would want to emphasize my plea below upon the responsibility of thinkers and artists and writers to create new ways of thinking the disaster; if only to mitigate the possibility of their recurrence. (Is it not the case that the disaster increasingly has the characteristics of the accident; that the Earth and global techno-science are increasingly co-extensive Powers?) And yet despite these necessary new ways of thinking and feeling, I fear it will remain the case that nothing can be said about a disaster, if only because nothing can ultimately be thought about the disaster. But it cannot be simply passed over in silence; if nothing can be said, then perhaps everything may be said.

Inherent to the notion of risk is the multiple, or multiplicity. The distance between the many and the multiple is nearly infinite; every problem of the one and the many resolves to the perspective of the one, while multiplicity always singularizes, takes a line of pure variation or difference to its highest power. A multiplicity is already a life, the sea, time: a cosmos or style in terms of powers and forces; a melody or refrain in its fractured infinity.

The multiple is clear in its “being” only transitorily — as the survey of a fleet or swarm or network; the thought which grasps it climbs mountains, ascends vertiginously towards that infinite height which would finally reveal the substrate of the plane, the “truth” of its shadowy depths, the mysterious origins of its nomadic populations.

No telescopic lens could be large enough to approach this distance; and yet it is traversed instantaneously when the tragic arc of a becoming terminates in disaster; when a line of flight turns into a line of death, when one-or-several lines of organization and development reach a point beyond which avoiding self-destruction is impossible.

Chaos, boundless furnace of becoming! Fulminating entropy which compels even the cosmos itself upon a tragic arc of time; are birth and death not one in chaos or superfusion?

Schizophrenia is perhaps this harrowing recognition that there are only machines machining machines, without limit, bottomless.

In chaos, there is no longer disaster; but there are no longer subjects or situations or signifiers. Every subject, signifier and situation approaches its inevitable as the Disaster which would rend their very being from them; hence the nihilism of the sign, the emptiness of the subject, the void of the situation. Existence is farce — if loss is (permitted to become) tragedy, omnipresent, cosmic, deified.

There is an infinite tragedy at the heart of the disaster; a trauma which makes the truth of our fate impossible-to-utter; on the one hand because imbued with infinite meaning, because singular — and on the other, in turn, meaningless, because essentially nullified, without-reason. That the disaster is never simply pure incidental chaos, a purely an-historical interruption, is perhaps the key point: we start and end with a disaster that prevents us from establishing either end or beginning — a disaster which swiftly looms to cosmic and even ontological proportions…

Perhaps there is only a life after the crisis, after a breakthrough or breakdown; after an encounter with the outside. A life as strategy or risk, which is perhaps to say a multiplicity: a life, or the breakthrough of — and, perhaps inevitably, breakdown before — white walls, mediation, determinacy.

A life in any case is always-already a voice, a cosmos, a thought: it is light or free movement whose origin and destination cannot be identified as stable sites or moments, whose comings and goings are curiously intertwined and undetermined.

We cannot know the limits of a life’s power; but we know disaster. We know that multiplicities, surging flocks of actions and passions, are continually at risk.

The world presents itself unto a life as an inescapable gravity, monstrous fate, the contagion of space, time, organization. A life expresses itself as an openness which is lacerated by the Open.

A life is a cosmos within a cosmos — and so a life opens up closed systems; it struggles and learns not in spite of entropy but on account of it, through a kind of critical strategy, even a perversely recursive or fractal strategy; through the micro-cosmogenetic sieve of organic life, entropy perversely becomes a hyper-organizational principle.

A life enters into a perpetual and weightless ballet — in a defiance-which-is-not-a-defiance of stasis; a stasis which yet presents a grave and continuous danger to a life.

What is a life, apart from infinite movement or disaster? Time, a dream, the sea: but a life moves beyond rivers of time, or seas of dreaming, or the outer spaces of radical forgetting (and alien memories…)

A life is a silence which may become wise. A life — or that perverse machine which works only by breaking down — or through…

A life is intimacy through parasitism, already a desiring-machine-factory or a tensor-calculus of the unconscious.

A life lives in taut suspension from one or several lines of becoming, of flight or death — lines whose ultimate trajectories may not be known through any safe or even sure method.

A life is the torsion between dying and rebirth.

Superfusion between all potentialities, a life is infinite-becoming of the subjectless-subject. Superject.

Journeying and returning, without moving, from the infinity and chaos of the outside/inside. A stationary voyage in a non-dimensional cosmos, where everything flows, heats, grinds.

Phenomenology is a geology of the unconscious, a problem of the crystalline apparatus of time. Could there be at long last a technology of time which would abandon strip-mining the subsconscious?

A chrono-technics which ethico-aesthetically creates and transforms virtual and actual worlds, traces possibilities of living, thinking, thinking; diagnoses psychic, social and physical ecosystems simultaneously.

A communications-strategy, but one that could point beyond the vicious binary of coercion and conflation — but so therefore would not-communicate.

There is a a recursive problem surrounding the silence and darkness at the heart of a life; it is perhaps impossible to exhaust (at least clinically) the infinitely-deferred origin of those crystalline temporal dynamisms which in turn structure any-moment-whatsoever.

Is there a silence which would constitute that very singular machinic ‘sheaf’, the venerated crystalline paradise of the moved-unmoving?

Silence, wisdom.

The impossibility of this origin is also the interminability of the analysis; also the infinite movement attending any moment whatsoever. It is the history of disaster, of the devil.

There is only thinking when a thought becomes critically or clinically engaged with a world, a cosmos. This engagement discovers its bottomlessness in a disaster for thought itself. A disaster for life, thought, the world; but also perhaps their infinitely-deferred origins…

What happens in the physical, economic, social and psychic collapse of a world, a thought, a life? Is it only in this collapse, commensurate with the collision, interference of one cosmos with another…?

Collapse is never a final state. There is no closed system of causes but a kind of original fracture. The schizophrenic coexistence of many separate worlds in a kind of meta-stable superfusion.

A thought, a cosmos, a world, a life can have no other origin than the radical corruption and novel genesis of a pure substance of thinking, living, “worlding,” “cosmosing.” A becoming refracts within its own infinite history the history of a life, a world, a thought.

Although things doubtless seem discouraging, at any moment whatsoever a philosophy can be made possible. At any time and place, this cyclonic involution of the library of Babel can be reactivated, this golden ball propelled by comet-fire and dancing towards the future can be captured in a moment’s reflection…

The breakdown of the world, of thought, of life — the experience of absolute collapse, of the horror of the vacuum, is already close the infinite zero-point reached immediately and effortlessly by schizophrenia. Even in a joyous mode when it recognizes the properly affirmative component of the revelation of cosmos as production, production as multiplicity, multiplicity as it opens onto the infinite or the future. (Only the infinity of the future can become-equal to a life.)

That spirit which fixes a beginning in space and time, fixes it without fixing itself; it exemplifies the possibility of atemporality and the heresy of the asignifying, even while founding the possibility of piety and dogma.

The disaster presents thought and language with their cosmic doubles; thought encounters a disaster in the way a subject encounters a radical outside, a death.

Only selection answers to chaos, to the infinite horizon of a life — virtually mapping infinite potential planes of organization onto a singular line of development. Only selection, only the possibility of philosophy, points beyond the inevitability of disaster.

The disaster and its aversion is the basic orientation of critical thought; thinking the disaster: this impossible task is the critical cultural aim of art and writing. Speaking the truth of the disaster is perhaps impossible. A life encounters disaster as the annihilating of the code itself; not merely a decoding but the alienation from the essence of matter or speech or language. The means to thinking the disaster lie in poetic imagination, the possibility of the temporal retrojection of narrative elements; the disaster can be thought only through “unthinking” it: in the capacity of critical or poetic imagination to explore the means by which a disaster was retroactively averted. The counterfactual acquires a new and radical dimension: not the theological dimension of salvation, but a clinical dimension — the power to of think the transformation of the conditions of the disaster.