Arquivo mensal: abril 2020

A little exercise to make sure that, after the virus crisis, things don’t start again as they were before (Bruno Latour)

Posted: March 29, 2020 – http://www.bruno-latour.fr/node/852.html

P-202 ENGLISH TRANSLATION; P-202 PORTUGUESE TRANSLATION; P-202 SPANISH TRANSLATION; P-202 POLISH TRANSLATION; P-202 GERMAN TRANSLATION; P-202 DUTCH TRANSLATION

This is an exercice extracted from a paper in French (translated in English by Stephen Muecke) in AOC-Media
A little exercise to make sure things don’t restart after the lock out just as they were before*
If you wish to share your auto description: here is a platform:
Proposed by @BrunoLatourAIME following arguments proposed in Down to Earth Politics in the New Climatic Regime (Polity, 2018).
Let us take advantage of the forced suspension of most activities to take stock of those we would like to see discontinued and those, on the contrary, that we would like to see developed.
I suggest that readers try to answer this short questionnaire for themselves. It will be especially useful as it will be based on a personal experience that has been directly lived. This exercise is not a question of expressing an opinion but of describing your situation and may be investigating. It is only later, if one were to give oneself the means of compiling the answers of many respondents and then composing the landscape created by their intersections, that one could find a form of political expression – but this time embodied and situated in a concrete world.
Answer the following questions first individually and then if possible with others:
Question 1: What are the activities now suspended that you would like to see not resumed?
Question 2: Describe why you think this activity is harmful/ superfluous/ dangerous/inconsistent and how its disappearance/suspension/substitution would make the activities you favor easier/ more consistent. (Make a separate paragraph for each of the activities listed in question 1).
Question 3: What measures do you recommend to ensure that the workers/employees/agents/entrepreneurs who will no longer be able to continue in the activities you are removing are helped in their transition toward other activities.
Question 4: Which of the now suspended activities would you like to develop/resume or even create from scratch?
Question 5: Describe why this activity seems positive to you and how it makes it easier/ more harmonious/ consistent with other activities that you favor and helps to combat those that you consider unfavorable. (Make a separate paragraph for each of the activities listed in question 4).
Question 6: What measures do you recommend to help workers/ employees/ agents/ entrepreneurs acquire the capacities/ means/ income/ instruments to take over/ develop/ create this favored activity.
Now, find a way to compare your descriptions with those of other participants. Compiling and then superimposing the answers should gradually produce a landscape made of lines of conflict, alliances, controversy and opposition. This terrain may provide a concrete opportunity for creating the forms of political expression these activities require.

Lilia Schwarcz: Pandemia marca fim do século 20 e indica limites da tecnologia (UOL Universa)

Camila Brandalise e Andressa Rovani, 9 de abril de 2020

Um milhão e quinhentas mil pessoas infectadas pelo mundo —um terço delas na última semana. Oitenta e sete mil mortos em uma velocidade desconcertante. O fim dos deslocamentos. Milhões de pessoas obrigadas a readequar suas rotinas ao limite de suas casas. Há 100 dias, o mundo parou.

Em 31 de dezembro de 2019 um comunicado do governo chinês alertava a Organização Mundial da Saúde para a ocorrência de casos de uma pneumonia “de origem desconhecida” registrada no sul do país. Ainda sem nome, o novo coronavírus alcançaria 180 países ou territórios. “É incrível refletir sobre quão radicalmente o mundo mudou em tão curto período de tempo”, indica o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus.

Para uma das principais historiadoras do país, no futuro, professores precisarão investir algumas aulas para explicar o que vivemos hoje —momento que, para ela, pode ser comparado à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. “A quebra da Bolsa também parecia inimaginável”, afirma Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA. “A aula vai se chamar: O dia em que a Terra parou.”

Lilia sugere ainda que a crise causada pela disseminação da covid-19 marca o fim do século 20, período pautado pela tecnologia. “Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites”, diz.

A seguir, trechos da entrevista em que a historiadora compara o coronavírus à gripe espanhola, de 1918, diz que o negacionismo em relação a doenças sempre existiu e afirma que grandes crises sanitárias construíram heróis nacionais, como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e reforçaram a fé na ciência.

Completam-se 100 dias desde que o primeiro caso de coronavírus, na China, foi notificado à Organização Mundial de Saúde. Podemos considerar que esses 100 dias mudaram o mundo?

É impressionante como um uma coisinha tão pequena, minúscula, invisível, tenha capacidade de paralisar o planeta. É uma experiência impressionante de assistir. Eu estava dando aula em Princeton [universidade nos EUA], e foi muito impressionante ver como as instituições foram fechando. É uma coisa que só se conhecia do passado, ou de distopias, era mais uma fantasia.

Nunca se sai de um estado de anomalia da mesma maneira. Crises desse tipo fecham e abrem portas. Estamos privados da nossa rotina, sem poder ver pessoas que a gente gosta, de quem sentimos imensa falta, não podemos cumprir compromissos.

Mas também abre portas: estamos refletindo um pouco se essa rotina acelerada é de fato necessária, se todas as viagens de avião são necessárias, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, com menos poluição.

Então, talvez abra [a oportunidade] para refletir sobre alguns valores como a solidariedade. Todo mundo que diz que sabe o que vai acontecer está equivocado, a humanidade é muito teimosa. Mas penso que estamos vivendo uma situação muito singular, de outra temporalidade, num tempo diferente. Isso pode romper com algumas barreiras: estamos vivendo num país de muito negacionismo. No Brasil vivemos situação paradoxal, o presidente nega a pandemia.

Mas o mundo, neste momento, é outro?

Neste exato momento em que conversamos, o mundo está mudado. Nós que éramos tão certeiros nas nossas agendas, draconianas, de repente me convidam para um evento em setembro, eu digo: “Olha, não sei se vou poder ir, se vai dar para confirmar”. Essa humanização das nossas agendas, dos nossos tempos, eu penso que já mudou, sim.

Ficar em casa é reinventar sua rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira [à nova rotina]. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, vai correr, vai para o trabalho, vai para o outro, chega em casa exausta. Agora, sou eu tendo que me inventar numa temporalidade diferente, que parece férias mas não é. É um movimento interior de redescoberta.

Insisto que nem todos passam por isso. [O filósofo francês] Montaigne dizia: “A humanidade é vária”. Nem todos estão passando por isso da mesma maneira, depende de raça, classe, há diferenças, varia muito.

E em relação aos papéis sociais dos homens e das mulheres?

Nós, mulheres, já temos um conhecimento distinto dos homens na noção do cuidado, na casa, acho que a mudança vai ser maior para os homens, que não estão acostumados com o dia a dia da casa, com fazer comida, arrumar. Essa ideia de cuidado foi eminentemente uma função feminina.

E estou muito interessada em ver como os homens vão lidar com essa ideia de ficar em casa e ter que cuidar também. É uma experiência muito única que vivemos.

Há discussões que dizem que o século 20 carecia de um “marco” para seu fim e que as primeiras décadas do século 21 ainda estavam lidando com a herança do século passado. A senhora concorda? Essa pandemia pode funcionar como esse divisor?

Sim. [O historiador britânico Eric] Hobsbawn disse que o longo século 19 só terminou depois das Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo. Ele tem razão, o longo século 19 terminou com a Primeira Guerra, com mortes, com a experiência do luto, mas também o que significou sobre a capacidade destrutiva.

Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites

Mostra que não dá conta de conter uma pandemia como essa, nem de manter a sua rotina numa situação como essa. A grande palavra do final do século 19 era progresso. Euclides da Cunha dizia: “Estamos condenados ao progresso”. Era quase natural, culminava naquela sociedade que gostava de se chamar de civilização.

O que a Primeira Guerra mostrou? Que [o mundo] não era tão civilizado quando se imaginava. Pessoas se guerreavam frente a frente. E isso mostrou naquele momento o limite da noção de civilização e de evolução, que era talvez o grande mito do final do século 19 e começo do 20. E nós estamos movendo limites. Investimos tanto na tecnologia, mas não em sistemas de saúde e de prevenção que pudessem conter esse grande inimigo invisível.

A senhora já assinalou que a gripe espanhola matou muito mais do que as duas Grandes Guerras juntas e que, assim como vivemos hoje no Brasil, houve muito negacionismo e lentidão na tomada de decisões. Não aprendemos essa lição? Por que é difícil não repetir os erros?

A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise, sanitária, a nossa primeira reação é dizer: “Não, aqui não, aqui não vai entrar”. Antes de virar pandemia, as mortes são distantes, esse discurso do “aqui não”, é muito claro, é natural, com todas as aspas que se pode colocar, porque o estado que queremos é de saúde. Mas nós também somos uma sociedade que esquece o nosso próprio corpo, ele serve para botar uma roupa, pentear o cabelo, é como se ele não existisse.

É demorado assumir, o negacionismo existiu sempre. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de grande hospital e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando entra [o presidente] Rodrigues Alves e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam matando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar contra a varíola.

Mas na época a população não entendeu, não foi informada e reagiu. O mesmo presidente que indicou Osvaldo Cruz é o que vai estar no poder no contexto da gripe espanhola. Osvaldo Cruz já tinha morrido, então indica o herdeiro dele, Carlos Chagas. [Com a gripe espanhola] As autoridades brasileiras já sabiam o que estava acontecendo, mesmo assim não tomaram atitude. A gripe entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e aí explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: “Aqui não, é um país de clima quente, não é de pessoas idosas”.

Como pode falar em ter menos risco no Brasil porque a população é mais jovem, se é muito mais desigual que países europeus que já estão sofrendo? O negacionismo cria o bode expiatório, é recorrente.

Mas por que não aprendemos com os erros do passado?

Porque o negacionismo nega a história também. É dizer: “Em 1918 não tínhamos as condições que temos agora, não tínhamos a tecnologia”. Então também se pode usar a história de maneira negacionista, negando o passado e dizendo que isso aconteceu naquela época mas não vai acontecer agora.

Quando se fala em guerra, o que acontece? Por que todos os países têm seu exército e tem reserva? Porque, na hipótese de ter uma guerra, temos que ter um exército, tem toda uma população de reserva na hipótese de ter guerra.

Se o estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, o que já deveria ter sido feito? Uma estrutura para atender guerras de saúde, e isso não é só no Brasil, mas os estados não fazem, não existe um sistema para prevenir as pandemias.

A doença só existe quando as pessoas concordam que ela existe, é preciso ensinar para população. Se não tem esse comando, as pessoas não constroem a doença e continuam a negá-la

As reações contra a gripe espanhola foram muito semelhantes às de agora: poucas pessoas andavam nas ruas, quem andava estava de máscara, igrejas fechadas, teatros lavados com detergente. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser esperar pelo remédio ou pela vacina.

Nos acostumamos com o discurso de que os idosos vão morrer quase que inevitavelmente caso sejam infectados. O que isso mostra sobre a maneira como lidamos com as pessoas mais velhas?

Mostra que somos uma sociedade que preza a juventude e faz o que com a história e com os idosos? Transforma tudo em velharia. Eu particularmente não acho que juventude seja qualidade. É uma forma de estar no mundo. Você pode ser jovem na terceira idade, ou um velho jovem. Essa nossa construção da juventude faz muito mal.

E a pergunta que cada um de nós tem que se fazer: alguém tem direito de dizer quem pode morrer ou não? Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis, e aí se incluem os idosos, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só na questão simbólica, também na questão prática.

O que é não lidar com a velhice? É uma forma que nós temos de não lidar com a morte, não sabemos falar do luto. Não vemos o presidente falar uma palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, é como se não quisesse falar da morte.

Estamos esticando a nossa linha do tempo, as pessoas não podem envelhecer, e ao mesmo tempo estamos acabando com nossa capacidade subjetiva. Velhice é vista só como momento de decrepitude. Não são valores que são estimados pela população e no nosso século.

Tem a ver com tecnologia também: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, o isole. E ele que aguarde a morte.

Remédios milagrosos também fazem parte da história das pandemias?

Todos nós sempre esperamos por um milagre. Nossa prepotência é um pouco esta: achamos que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, mas todos nós esperamos por um milagre sempre.

Todo mundo quer ouvir o que o presidente fala: “Tenho um remédio que vai acabar com isso tudo”. Que pensamento mágico é esse? A crise vai mudar o mundo? Depende do quanto as pessoas saírem do pensamento mágico, refletirem mais sobre seus castelos de verdades.

A pandemia traz alguma mudança em relação à história das mulheres?

A questão das mulheres é também questão de gênero e classe social. Mulheres de classes média e alta têm muitos recursos e podem lidar mais livremente com trabalho. O que é muito diferente no caso de mulheres pobres, negras, que vivenciam ainda mais essa situação. Há muitas enfermeiras negras e pardas. A posição da enfermeira é de cuidado também, com os pacientes, até com os médicos, ela desempenha esse papel que tem no interior da sua casa no sistema de saúde.

E essas mulheres são vulneráveis porque muitas delas estão nas lidas dos hospitais, sem proteção necessária, e porque estão nas lidas das suas casas.

Os séculos 20 e 21 são da revolução feminista, como já vai aparecendo. As mulheres não vão voltar atrás. Teremos uma realidade marcada por uma nova posição das mulheres

Eu desejo que as pessoas usem esse momento para repensar suas verdades, e dentre as muitas verdades [que precisam ser repensadas, está essa questão de gênero muitas vezes invisível: mulheres ocupam as posições de cuidado sem ser vista.

Como um professor de história explicará a pandemia de 2020 daqui a 100 anos?

Vai explicar como o crash da Bolsa de Nova York é explicado hoje. Essa pandemia vai merecer algumas aulas. A quebra da Bolsa também parecia inimaginável, e estamos vivendo situações que são anomalias nesse sentido, porque são inimagináveis.

O professor de história terá que lidar com o fato de que a pandemia poderá marcar o final de um século e começo de outro, como também conseguiu parar o mundo em tal atividade e com tal rotatividade, e com tanta velocidade. Nós aceleramos muito, e agora tivemos que parar.

O título da aula será: “O dia em que a Terra parou”

A ameaça da pandemia também deu mais voz a quem tenta chamar a atenção para as condições de moradia e saúde precárias de uma parte significativa dos brasileiros. A crise é também uma oportunidade para uma mudança social?

O Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência de desigualdade social, há classes sociais muito distintas no alcance das benesses da tão proclamada civilização. O Brasil é o 6º país mais desigual do mundo. Tendemos também a negar a desigualdade. Não acho que será pior com classes baixas do que será com idosos, são grupos muito vulneráveis [ao risco de agravamento].

Na gripe espanhola, os grupos mais afetados eram as populações pobres, dos subúrbios. As vítimas tinham entre 20 a 40 anos, mas muitos mais morreram em nome da civilização, porque a pobreza foi expulsa [do centro]. E as epidemias são impiedosas. Quando dizem “Fique em casa, mantenha o isolamento”, tem que refletir sobre as condições que moram essas populações.

Em um Brasil tão múltiplo, com condições sociais tão diferentes, os mais pobres serão as populações mais afetadas. O Brasil também é o terceiro país em população carcerária. Me tira o sono o que vai acontecer se a pandemia entrar nas prisões. Se é que já não chegou e nós não sabemos. Se isso acontecer, quando chegar nos mais pobres, vamos ter que enfrentar como é perversa a correlação de pandemia e desigualdade social.

No Brasil, que tem uma saúde dividida entre privada e pública, as pessoas de mais renda nem pensam em usar a saúde pública. A doença faz isso, vai nivelar, porque atinge as várias classes sociais

Já podemos vislumbrar alguma aprendizagem com a crise atual?

Eu penso que sim, vários países já estão começando a pensar no exército de reserva, como vamos construir não só uma estrutura para reagir à pandemia mas que também se antecipe.

O problema é que nós vivemos um governo no Brasil que não acredita na ciência. Vamos ver se aprendemos de uma vez, que a gente pense no que a ciência produz. Em horas como agora fica mais claro: a saída virá da ciência, com a vacina ou remédio que venha controlar a pandemia.

Não estranharia se tivermos os próximos presidentes médicos, o que estamos aprendendo nos vários países é a importância do Ministério da Saúde, e de termos de fato especialistas nos ministérios, contar não apenas com um político, mas com um político especialista.


Que grande mudança política já é possível dizer que a pandemia trouxe ao Brasil?

Ela está acontecendo. O presidente foi destituído pelo Ministro da Saúde. Mandetta seria demitido mas recuou após pressão. Você já está verificando um crescimento dessas figuras, como aconteceu na época da Revolta da Vacina [1904], o grande herói daquele momento era Oswaldo Cruz, e na gripe espanhola, Carlos Chagas virou grande herói nacional.

Espero que essas pessoas, se chegarem a esses lugares, não usem a posição para garantir mais poder, torço muito para que usem de forma generosa essa posição.

A política é como cachaça, quem tomou não abre mais mão. É o caso de não baixar a vigilância cidadã em relação a políticos médicos. Mandetta, que está ocupando bem seu cargo, foi profundamente ideológico, com a carreira vinculada a seguros médicos privados, e, por ideologia, acabou com o Mais Médicos.

As pessoas olhavam para nós, acadêmicos, e diziam: “Vocês são parasitas”. Espero que as pessoas reflitam e entendam que o mundo da produção tem temporalidades diferentes.

Uma coisa é o tempo da indústria, da tecnologia, que é questão de segundos. Outra é o tempo do cientista, que usa da temporalidade mais alargada para descobrir novas saídas. As pessoas vão começar a entender, como na época da gripe espanhola, porque Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantor e jogador de futebol — as charges falavam isso.

A ciência, que era o bandido, é hoje a grande a utopia.

Antropóloga e historiadora, Lila Schwarcz é professora titular na Universidade de São Paulo e professora visitante na Universidade de Princeton, nos EUA. É autora de uma série de livros, entre eles: “Sobre o autoritarismo brasileiro“; “Espetáculo das raças” e “Brasil: Uma biografia”. É editora da Companhia das Letras, colunista do jornal Nexo e curadora adjunta para histórias do Masp.

Saúde deve divulgar dados exclusivos sobre raça/cor de mortos por coronavírus (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Fernando Canzian, 9 de abril de 2020


O Ministério da Saúde passará a incluir a partir desta sexta (10) informações exclusivas sobre raça/cor dos infectados pela Covid-19 nas notificações que ingressarem em seu sistema, e que servem de base para as estatísticas de óbitos e demais dados sobre a epidemia.

A decisão partiu de um pedido do Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), que via com preocupação a possibilidade de subnotificação de casos entre essa população.

A SBMFC, que reúne 6.000 médicos que integram 47,7 mil equipes de atenção básica, pressiona também para que os dados sobre as mortes e casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) sejam desagregados por bairros nos municípios.

Além disso, pedem que o mesmo seja feito em relação aos registros nos sistemas públicos e privados, de forma a ter um panorama socioeconômico mais completo dos afetados.

Entre os argumentos apresentados pela SBMFC que levaram à decisão do ministério está o fato de serem negros 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde), além da maioria dos pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas no país.

“Assim como nos Estados Unidos fica evidente que a população periférica, majoritariamente composta por pessoas negras, é mais afetada pela Covid-19, é importante que tenhamos esses dados categorizados por raça e cor no Brasil para tomar providências”, afirma Denize Ornellas, diretora da SBMFC.

Segundo ela, os dados sobre os endereços dos afetados já fazem parte das fichas de notificação, e o que a entidade demanda é a divulgação completa dessas informações daqui em diante.

Nos EUA, o novo coronavírus está matando negros em taxas mais elevadas do que na população em geral, segundo números preliminares dos estados de Louisiana, Michigan e Illinois.

As autoridades dizem que isso aponta para disparidades no acesso a cuidados e atendimento de saúde nessa população —o que poderá ocorrer também no Brasil.

Segundo o governo da Louisiana, mais de 70% das 512 pessoas mortas pelo vírus no estado até segunda (6) eram negras, percentual muito acima da representatividade dos negros na população, de 33%. Em Michigan, os negros vêm respondendo por 40% das mortes, mas são apenas 14% da população.

During coronavirus crisis, Congress’s first caucus for nonreligious belief seeks a larger role in promoting science (Washington Post)

By Julie Zauzmer April 9, 2020 at 4:53 p.m. GMT-3

When Rep. Jared Huffman (D-Calif.) found out that a Trump administration rule that restricts research using fetal tissue from elective abortions was hampering scientists seeking treatments for the novel coronavirus, he had a coterie of like-minded members of Congress ready to help him protest.

The group is called the Congressional Freethought Caucus — the first caucus for nonreligious members of Congress and those who advocate for keeping religion out of government. Huffman, the only avowed non-theist in Congress, and Rep. Jamie B. Raskin (D-Md.) founded the group in 2018.

The coronavirus struck just as the caucus’s dozen members were having discussions early this year about how they could play a more active role in policymaking. The crisis has provided an opportunity for them to loudly proclaim the importance of science as the grounding for laws.

“We urge you to prioritize science during an unprecedented global health emergency and remove all barriers to lifesaving research,” Huffman wrote in a public letter to Health and Human Services Secretary Alex Azar, asking HHS to remove its ban on government scientists using fetal tissue that women choose to donate to research after an abortion. Four fellow members of the Freethought Caucus added their names to the letter, and they got eight colleagues outside the caucus to sign on.

While the small band of lawmakers in the Freethought Caucus comes nowhere close to the powerful heft of the religious right, they say they hope to be a counterweight, pushing the balance back toward secularism.

These lawmakers are agitating for secularism within a legislature that has long been comfortable with some level of mixing faith with government — every session starts with a prayer from a congressional chaplain or an invited religious guest — and that skews far more religious than the country it represents. More than a quarter of Americans say they identify with no religious tradition, and almost 1 in 10 say they don’t believe in God or aren’t sure God exists. Huffman is the only one out of 535 members of Congress who says the same.

As the caucus members discussed ramping up their efforts in the early months of the year, they listed many goals: Passing a bill condemning the blasphemy laws that target nonbelievers and dissident believers in foreign countries. Securing government funding for secular sobriety programs that compete with the higher-power-focused Alcoholics Anonymous. Passing legislation that would make it harder for the president to disband scientific advisory committees.

In early March, before the coronavirus took precedence, Huffman said one of his main goals for the caucus was getting behind the No Ban Act, a bill that would put an end to President Trump’s travel ban (the one that started at the beginning of his presidency, not the new coronavirus-inspired bans). Huffman and many other Democratic lawmakers view the president’s ban as targeting Muslims specifically.

“It’s one of a zillion ways this administration is weaponizing religion in insidious ways,” he said. He said the Freethought Caucus was also working on a letter urging the House Appropriations Committee to defund many of the groups Trump has set up that bring religion into government: a religious liberty task force in the Justice Department that focuses on the rights of Christians; Trump’s White House Faith and Opportunity Initiative; the State Department’s controversial new Commission on Unalienable Rights.

Though a few well-known congressional caucuses have significant legislative clout, most caucuses exist simply as a way for members to sign up and show affiliation with a cause, not as active advocacy groups. Huffman and Raskin are trying to turn their two-year-old affiliate group into more of a mover and shaker.

Recently, Huffman set up a meeting on Capitol Hill on behalf of former Muslims from countries where being a nonbeliever might expose them to violence or prosecution. These former Muslims said that they had been conversing in secret Facebook groups, but that Facebook’s policies could allow their identities to be potentially exposed. Huffman got three Facebook employees to attend a meeting to discuss remedies to the problem.

When Dan Barker, the president of the Freedom From Religion Foundation, sued the House chaplain in an attempt to get permission to deliver a nonreligious invocation before the House like clergymen do, the Freethought Caucus filed a friend-of-the-court brief.

Barker said the caucus invited him and other leaders of secular organizations to a meeting in February, where they asked for ideas of issues to work on. The idea of supporting secular addiction recovery programs was a popular one.

“We’ve always known not all members of Congress are religious. … They thought it was politically dangerous. Now we’re learning that it’s not so dangerous anymore, especially with the demographics. The fastest-growing religious idea right now in the country is nonreligious,” Barker said. “It was really fun to sit around the table with our representatives talking about real secular values.”

The caucus’s dozen members are all Democrats. Three are Jewish — Raskin, Steve Cohen (Tenn.) and Susan Wild (Pa.); two are Catholic — Daniel Kildee (Mich.) and Jerry McNerney (Calif.); Zoe Lofgren (Calif.) is Lutheran; and Del. Eleanor Holmes Norton (D.C.) is Episcopalian. One of the two Buddhists in Congress, Hank Johnson (Ga.), is a member. Three members have not answered CQ Roll Call’s questionnaire asking every U.S. lawmaker’s religion — Sean Casten (Ill.), Pramila Jayapal (Wash.) and Mark Pocan (Wis.) — but have never identified themselves as nonreligious like Huffman.

In early March, Huffman went to a meeting of the far larger and more influential Progressive Caucus and made a pitch for members to join the Freethought Caucus. Some are thinking about it, he said.

The nation is growing increasingly nonreligious. Last year, the Pew Research Center reported that 26 percent of Americans now say they are not affiliated with any religious tradition, compared with 17 percent in 2009.

Many of those unaffiliated Americans still believe in God and incorporate spiritual practices into their lives. But the share of atheists has doubled, from 2 percent of Americans in 2009 to 4 percent in 2019. An additional 5 percent now call themselves agnostics, compared with 3 percent a decade earlier.

Nonreligious people are far less organized than religious groups, which have the advantage of gathering their believers together every week. But secular groups like the Secular Coalition for America and the American Humanist Association have lobby days where they take like-minded citizens to petition their members of Congress, and Huffman said his colleagues have taken notice.

“Their numbers are beginning to surprise people,” Huffman said. “This caucus is probably going to be more and more relevant. People are going to start demanding this kind of work in Congress.”

Jason Lemieux, who leads lobbying efforts for the secular Center for Inquiry, said it’s important for Americans to simply see this group exists in Congress.

“They consider it a very important goal to even have this place at all, where you can be a member of Congress and not believe in God, or explicitly support the rights of those who don’t believe in God,” he said.

Raskin said his advocacy for secularism sneaks into his unrelated work as a congressman. In his recent time in the spotlight as a member of the House Judiciary Committee during the impeachment hearings, Raskin said he tried to quote as often as possible from Thomas Paine — the pamphleteer of the American Revolution, who was outspokenly skeptical of religion.

House Speaker Nancy Pelosi (D-Calif.) asked him to change Paine’s most famous sentence, he said, in a nod to gender equality: “These are the times that try men’s and women’s souls.”

Raskin wants to get a statue of Paine put up somewhere in or near the Capitol. When he and Huffman first founded the Freethought Caucus, he suggested a different name for it: the Thomas Paine Caucus.

But the people they consulted told them that Paine’s ideas were still too radical, more than two centuries later.

The Coronavirus Death Count Will Be a New Battle in the Culture Wars (Gizmodo)

Ed Cara – 10 de abril de 2020

As parts of the United States settle in for what may be the worst weeks of their local covid-19 outbreaks, a familiar refrain is sure to emerge.

Some people will complain that the death count attributed to the coronavirus is being exaggerated. Others, including researchers, have argued that covid-19 related deaths are actually being undercounted, as people die at home without being tested. Still others will point to the final death count and say that because it’s lower than X (whether that number be flu deaths, car accident deaths, or some other moving goalpost), then that means the efforts and sacrifices made for social distancing weren’t worth it—ignoring, of course, that social distancing was the reason the toll wasn’t much higher. Figuring out how deadly covid-19 truly is will take far more time to untangle than anyone would want, and no one’s likely to be fully satisfied with the answers we get.

As of April 10, there have been around 1.6 million reported cases of covid-19, the disease caused by the novel coronavirus worldwide. There have also been over 96,000 reported deaths, with over 16,000 deaths documented in the U.S. But these numbers are largely acknowledged as a very rough, possibly even misleading estimate of the problem, given the wide gaps in testing capacity across different countries and even within a country.

On the political right, many have taken to fostering conspiracy theories about these deaths. You don’t have to go far on social media to see people accusing doctors and health officials of fudging the numbers higher to make President Trump look bad or to (somehow) profit off the tragedy. Other conservative voices like the disgraced sex pest Bill O’Reilly are less paranoid but similarly dismissive, arguing that many of those who died “were on their last legs anyway.”

It’s true that older people and those with underlying health conditions are at greater risk of serious complications and death from covid-19. But the same can be said for almost every other leading cause of death, whether it’s cancer, heart attack, or diabetes. And just as living is hardly a simple affair, so too is dying. Sometimes you can point to a single factor that kills a person, but often it’s a mix of ailments, with a viral infection like covid-19 being the final shove.

The key point here is that epidemiologists and others who try to estimate how many people die from any given cause per year know the above very well. The flu, for instance, doesn’t usually kill in isolation either—it too disproportionately kills the elderly and otherwise already sick. Yet many of the same people who are now trying to downplay covid-19 deaths also argued that its early death toll wasn’t coming anywhere close to the typical seasonal flu’s annual tally (an argument meant to push back against the idea of doing anything too serious to mitigate the spread of the coronavirus).

That said, we’re much better at estimating how many deaths in the U.S. are flu-related because the influenza virus is a known entity. We have a decent sense of how many people are infected with the flu every year, how many people go to the doctor or are hospitalized, and how many people it helps kill, thanks to a well-established nationwide surveillance system. But that isn’t true for covid-19.

There’s steady evidence indicating that covid-19 cases nearly everywhere in the world are being undercounted. That’s partly because testing remains so haphazard and has inherent limitations. The most common type of covid-19 test right now, for instance, can only confirm an active infection, not whether you had a previous case (newer antibody tests can address that problem but have their own flaws). It’s also because the virus infects a still-unknown percentage of people without making them feel sick at all.

Many more people have had or will catch the coronavirus than any current tracking will ever indicate. These hidden cases are almost certainly less deadly on average than the known cases that wind up in hospitals, so it’s likely that the current documented fatality rate of covid-19 (over 5 percent worldwide) is an overestimate. But that doesn’t mean more people aren’t dying from covid-19 than are being reported.

In areas of China and Italy hit hard by the coronavirus, news reports have suggested a wide gulf between the official number of covid-19-related deaths in a town and what residents are seeing for themselves. In the U.S., there are still regions where testing is limited and people who may have died from covid-19 in their homes are never tested, including New York City. And there’s the simple harsh reality that we’re probably still in the very beginning of this pandemic.

Even if outbreaks start to peter out in the U.S. and elsewhere, there’s the risk that loosening our restrictions on distancing will fuel new ones. And even if the summer heat in the U.S. makes it harder for the virus to spread here, as some experts hope, a second wave in the fall and winter could certainly happen, much as it did for the last pandemic (a strain of flu) in 2009.

All of these variables will affect the final death toll from covid-19, as will how countries continue to respond to the crisis. Ironically, the steps we take to prevent new cases and deaths may be the very thing that makes people doubt they were necessary.

In late March, the White House and U.S. public health officials announced that they projected 100,000 to 200,000 deaths in the country by the pandemic’s end, provided everything was done to slow its spread. On Thursday, Anthony Fauci, director of the National Institute of Allergy and Infectious Diseases, said that newer modeling data has suggested the U.S. death toll may end up closer to 60,000, so long as we keep mitigating the outbreak. Almost immediately, some people chose to take it as evidence that mitigation efforts aren’t necessary and that the initial warnings about the virus were overblown—ignoring, again, that the reason for the downward revision in projected deaths is the success of social distancing.

There are still a lot of things we don’t know about the coronavirus, and many of the things we think we know are going to keep changing. But here’s something to remember.

By the end of the 2009 H1N1 flu pandemic, the World Health Organization reported that about 19,000 people were confirmed to have died from the virus. By 2013, several studies estimated that the true death toll was at least 10 times higher and even higher still when you took into account other causes of death indirectly worsened by the flu, like heart attacks. Knowing how deadly covid-19 will be could very well take that long to nail down too.

Another article of interest:

New York City’s covid-19 death toll is likely higher than reported, due to the fact that the…Read more

Crops were cultivated in regions of the Amazon ‘10,000 years ago’ (BBC)

By Matt McGrath – Environment correspondent

8 April 2020

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: The forest islands of this part of Bolivia seen from the air

Far from being a pristine wilderness, some regions of the Amazon have been profoundly altered by humans dating back 10,000 years, say researchers.

An international team found that during this period, crops were being cultivated in a remote location in what is now northern Bolivia.

The scientists believe that the humans who lived here were planting squash, cassava and maize.

The inhabitants also created thousands of artificial islands in the forest.

The end of the last ice age, around 12,000 years ago, saw a sustained rise in global temperatures that initiated many changes around the world.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: Images of the phytoliths found by the scientists – the scalloped sphere in the top right corner is from squash

Perhaps the most important of these was that early civilisations began to move away from living as hunter-gatherers and started to cultivate crops for food.

Researchers have previously unearthed evidence that crops were domesticated at four important locations around the world.

So China saw the cultivation of rice, while in the Middle East it was grains, in Central America and Mexico it was maize, while potatoes and quinoa emerged in the Andes.

Now scientists say that the Llanos de Moxos region of southwestern Amazonia should be seen as a fifth key region.

The area is a savannah but is dotted with raised areas of land now covered with trees.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: One of the 4,700 forest islands in this region of Amazonia

The area floods for part of the year but these “forest islands” remain above the waters.

Some 4,700 of these small mounds were developed by humans over time, in a very mundane way.

“These are just places where people dropped their rubbish, and over time they grow,” said lead author Dr Umberto Lombardo from the University of Bern, Switzerland.

“Of course, rubbish is very rich in nutrients, and as these areas grow they rise above the level of the flood during the rainy season, so they become good places to settle with fertile soil, so people come back to the same places all the time.”

The researchers examined some 30 of these islands for evidence of crop planting.

They discovered tiny fragments of silica called phytoliths, described as tiny pieces of glass that form inside the cells of plants.

The shape of these tiny glass fragments are different, depending on which plants they come from.

The researchers were able to identify evidence of manioc (cassava, yuca) that were grown 10,350 years ago. Squash appears 10,250 years ago, and maize more recently – just 6,850 years ago.

“This is quite surprising,” said Dr Lombardo.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: The scientists at work on the site

“This is Amazonia, this is one of these places that a few years ago we thought to be like a virgin forest, an untouched environment.”

“Now we’re finding this evidence that people were living there 10,500 years ago, and they started practising cultivation.”

The people who lived at this time probably also survived on sweet potato and peanuts, as well as fish and large herbivores.

The researchers say it’s likely that the humans who lived here may have brought their plants with them.

They believe their study is another example of the global impact of the environmental changes being felt as the world warmed up at the end of the last ice age.

“It’s interesting in that it confirms again that domestication begins at the start of the Holocene period, when we have this climate change that we see as we exit from the ice age,” said Dr Lombardo.

“We entered this warm period, when all over the world at the same time, people start cultivating.”

The study has been published in the journal Nature.

Entenda por que as teorias da conspiração sobre coronavírus se proliferam tanto (Estadão)

internacional.estadao.com.br

Max Fischer, New York Times – 8 de abril de 2020

NOVA YORK – O coronavírus deu origem a uma enxurrada de teorias da conspiração, desinformação e propaganda, minando as autoridades de saúde e corroendo a confiança do público de maneiras que podem prolongar a pandemia e até mesmo se estender para além dela.

Alegações de que o novo coronavírus seria uma arma biológica estrangeira, uma invenção partidária ou parte de um projeto de reengenharia social substituíram um vírus sem razão nem propósito por vilões mais familiares e compreensíveis. Cada alegação parece dar a essa tragédia sem sentido algum grau de significado, por mais sombrio que seja.

Rumores de curas secretas – beber alvejante diluído, desligar os aparelhos eletrônicos, comer banana – dão uma esperança de proteção contra uma ameaça da qual nem mesmo os líderes mundiais estão escapando.

A crença de que alguém teve acesso ao conhecimento proibido proporciona uma sensação de certeza e controle em meio a uma crise que virou o mundo de cabeça para baixo. E compartilhar esse “conhecimento” pode dar às pessoas algo difícil de encontrar depois de semanas de isolamento e morte: a sensação de que se está fazendo alguma coisa.

“Aí estão todos os ingredientes que empurram as pessoas para as teorias da conspiração”, disse Karen Douglas, psicóloga social que estuda a crença em conspirações na Universidade de Kent, na Grã-Bretanha.

Rumores e afirmações flagrantemente estapafúrdias são disseminados por pessoas comuns cujas faculdades críticas simplesmente se viram esmagadas sob sentimentos de confusão e desamparo, dizem os psicólogos.

Mas muitas alegações falsas também vêm sendo promovidas por governos que tentam esconder seus fracassos, líderes partidários em busca de benefícios políticos, golpistas em geral e, nos Estados Unidos, por um presidente que insiste em curas não comprovadas e dispara falsidades que procuram eximi-lo de qualquer culpa.

Todas as teorias da conspiração carregam uma mensagem em comum: o único jeito de se proteger é saber as verdades secretas que “eles” não querem que você ouça.

O sentimento de segurança e controle proporcionado por esses rumores pode ser ilusório, mas os danos à confiança do público são bem reais.

As teorias conspiratórias estão levando as pessoas a consumir remédios caseiros que se revelaram letais e a desrespeitar as orientações de distanciamento social. E estão sabotando as ações coletivas, como ficar em casa ou usar máscaras, atitudes necessárias para conter um vírus que já matou mais de 79 mil pessoas.

“Já enfrentamos pandemias antes desta”, disse Graham Brookie, que dirige o Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council. “Mas nunca enfrentamos uma pandemia num momento em que as pessoas estivessem tão conectadas e tivessem tanto acesso a informações quanto agora.”

Esse crescente ecossistema de desinformação e desconfiança pública obrigou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a ligar o alerta para uma “infodemia”. “Estamos assistindo a uma verdadeira inundação”, disse Brookie. “A ansiedade é viral, e todos estamos nos sentindo mais ansiosos que nunca.”

O fascínio do ‘conhecimento secreto’

“As conspirações atraem as pessoas porque prometem satisfazer certos motivos psicológicos que são importantes para elas”, disse Douglas. Os principais deles: o domínio sobre os fatos, a autonomia sobre o bem-estar e a sensação de controle.

Quando a verdade não atende a essas necessidades, nós humanos temos uma capacidade incrível de inventar histórias que atenderão, mesmo que uma parte de nós saiba que as histórias são falsas. Um estudo recente revelou que as pessoas são significativamente mais propensas a compartilhar informações falsas sobre o coronavírus do que imaginam.

“A magnitude da desinformação que se espalhou com a pandemia da covid-19 está sobrecarregando nossa equipe”, escreveu no Twitter o Snopes, um site de verificação de fatos. “Estamos vendo que milhares de pessoas, na ânsia de encontrar algum conforto, acabam piorando as coisas ao compartilhar informações falsas (e, às vezes, perigosas).”

Vastamente compartilhadas, postagens de Instagram alegaram, falsamente, que o coronavírus fora planejado por Bill Gates em benefício de empresas farmacêuticas. No Alabama, postagens de Facebook afirmaram, falsamente, que poderes obscuros haviam ordenado que doentes fossem secretamente enviados de helicóptero para o Estado. Na América Latina, proliferaram rumores igualmente infundados de que o vírus fora projetado para espalhar o HIV. No Irã, vozes pró-governo retrataram a doença como uma trama ocidental.

Se as alegações parecerem sigilosas, melhor ainda

A crença de que temos acesso a informações secretas pode nos dar a sensação de que temos uma vantagem, de que, de alguma forma, estamos mais seguros. “Quem acredita em teorias da conspiração acha que tem um poder, conferido pelo conhecimento, que as outras pessoas não têm”, disse Douglas.

A mídia italiana repercutiu um vídeo postado por um italiano que morava em Tóquio, no qual ele dizia que o coronavírus era tratável, mas que as autoridades italianas estavam “escondendo a verdade”.

Outros vídeos, muito populares no YouTube, afirmam que toda a pandemia é uma ficção encenada para controlar a população.

As teorias da conspiração também podem fazer as pessoas se sentirem menos sozinhas. Poucas coisas estreitam mais os laços entre “nós” do que combater “eles”, especialmente quando “eles” são estrangeiros e minorias, frequentes bodes expiatórios de boatos sobre o coronavírus e muitas outras coisas no passado.

Mas qualquer conforto que essas teorias proporcionem terá vida curta. Com o tempo, segundo pesquisas, o intercâmbio de conspirações não apenas fracassa em satisfazer nossas necessidades psicológicas, disse Douglas, como também tende a agravar sentimentos de medo e desamparo.

E isso pode nos levar a procurar explicações ainda mais extremas, como viciados em busca de doses cada vez mais fortes.

Governos vêm uma oportunidade na confusão  

Os conspiradores e questionadores agora têm apoio dos governos. Antecipando a repercussão política da crise, líderes governamentais agiram rapidamente para se eximirem da culpa, espalhando suas próprias mentiras.

Uma importante autoridade chinesa disse que o vírus foi introduzido na China por membros do Exército dos Estados Unidos, uma acusação que teve permissão para se disseminar nas mídias sociais rigidamente controladas da China.

Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro sugeriu que o vírus era uma arma biológica americana cujo alvo seria a China. No Irã, as autoridades o chamaram de conspiração para acabar com o processo eleitoral no país. E agências de notícias que apoiam o governo russo, algumas com filiais na Europa ocidental, ventilaram alegações de que os Estados Unidos projetaram o vírus para minar a economia chinesa.

Nas antigas repúblicas soviéticas do Turcomenistão e Tadjiquistão, líderes recomendaram tratamentos falsos e defenderam a ideia de que os cidadãos deveriam continuar trabalhando.

Mas as autoridades tampouco deixaram de espalhar boatos em nações mais democráticas, particularmente naquelas em que a desconfiança em relação à autoridade abriu espaço para a ascensão de fortes movimentos populistas.

Matteo Salvini, líder do partido anti-imigração Liga Norte, na Itália, escreveu no Twitter que a China havia criado um “supervírus de pulmão” a partir de “morcegos e ratos”.

E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, repetidas vezes propagandeou tratamentos não comprovados e insinuou que o coronavírus seria menos perigoso do que dizem os especialistas. Facebook, Twitter e YouTube tomaram a extraordinária decisão de remover suas postagens.

O presidente Donald Trump também insistiu repetidamente no uso de medicamentos não comprovados, apesar das advertências dos cientistas e de pelo menos uma overdose fatal, a qual vitimou um homem cuja esposa disse que ele havia tomado o remédio por sugestão de Trump.

Trump acusou seus supostos inimigos de tentar “inflamar” a “situação” do coronavírus para prejudicá-lo. Quando começaram a faltar equipamentos de proteção individual nos hospitais de Nova York, ele insinuou que os profissionais de saúde estavam roubando as máscaras. Seus aliados foram ainda mais longe.

O senador Tom Cotton, republicano do Arkansas, e outros sugeriram que o vírus foi produzido por um laboratório de armas chinês. Alguns aliados da mídia alegaram que os inimigos de Trump exageraram o número de mortos.

Uma crise paralela

“Essa supressão de informações é perigosa – muito, muito perigosa”, disse Brookie, referindo-se aos esforços chineses e americanos para minimizar a ameaça do surto.

A supressão de informações alimentou não apenas conspirações específicas, mas também uma sensação mais generalizada de que as fontes e dados oficiais não são confiáveis, bem como a ideia cada vez mais disseminada de que as pessoas devem buscar a verdade por conta própria.

A cacofonia dos epidemiologistas de sofá, que costumam chamar a atenção com afirmações sensacionalistas, muitas vezes encobre a fala de especialistas legítimos, cujas respostas raramente são muito sintéticas ou tranquilizadoras.

Eles prometem curas fáceis, como evitar os aparelhos eletrônicos ou até mesmo comer bananas, e dizem que o transtorno do isolamento social é desnecessário. Alguns chegam a vender tratamentos enganosos que eles próprios inventaram.

“As teorias da conspiração do campo da medicina têm o poder de aumentar a desconfiança nas autoridades médicas, o que pode afetar a disposição das pessoas a se protegerem”, escreveram Daniel Jolley e Pia Lamberty, pesquisadores de psicologia, em um artigo recente.

Demonstrou-se que tais alegações deixam as pessoas menos propensas a tomar vacinas ou antibióticos e mais propensas a procurar aconselhamento médico junto a amigos e familiares, e não profissionais de saúde.

A crença em uma conspiração também tende a aumentar a crença nas outras. As consequências, alertam os especialistas, podem não apenas piorar a pandemia, mas também se estender para além dela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Why Coronavirus Conspiracy Theories Flourish. And Why It Matters (New York Times)

The Interpreter

Unseen villains. Top-secret cures. In their quest for reassurance during the pandemic, many people are worsening more than just their own anxiety.

Volunteers disinfecting a theater in Wuhan, China, last week.
Volunteers disinfecting a theater in Wuhan, China, last week.Credit…Aly Song/Reuters

By Max Fisher

April 8, 2020; Updated 8:55 a.m. ET

The coronavirus has given rise to a flood of conspiracy theories, disinformation and propaganda, eroding public trust and undermining health officials in ways that could elongate and even outlast the pandemic.

Claims that the virus is a foreign bioweapon, a partisan invention or part of a plot to re-engineer the population have replaced a mindless virus with more familiar, comprehensible villains. Each claim seems to give a senseless tragedy some degree of meaning, however dark.

Rumors of secret cures — diluted bleach, turning off your electronics, bananas — promise hope of protection from a threat that not even world leaders can escape.

The belief that one is privy to forbidden knowledge offers feelings of certainty and control amid a crisis that has turned the world upside down. And sharing that “knowledge” may give people something that is hard to come by after weeks of lockdowns and death: a sense of agency.

“It has all the ingredients for leading people to conspiracy theories,” said Karen M. Douglas, a social psychologist who studies belief in conspiracies at the University of Kent in Britain.

Rumors and patently unbelievable claims are spread by everyday people whose critical faculties have simply been overwhelmed, psychologists say, by feelings of confusion and helplessness.

But many false claims are also being promoted by governments looking to hide their failures, partisan actors seeking political benefit, run-of-the-mill scammers and, in the United States, a president who has pushed unproven cures and blame-deflecting falsehoods.

The conspiracy theories all carry a common message: The only protection comes from possessing the secret truths that “they” don’t want you to hear.

The feelings of security and control offered by such rumors may be illusory, but the damage to the public trust is all too real.

It has led people to consume fatal home remedies and flout social distancing guidance. And it is disrupting the sweeping collective actions, like staying at home or wearing masks, needed to contain a virus that has already killed more than 79,000 people.

“We’ve faced pandemics before,” said Graham Brookie, who directs the Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab. “We haven’t faced a pandemic at a time when humans are as connected and have as much access to information as they do now.”

People gathering on a beach in Rio de Janeiro last week. Brazil’s president has implied that the virus is less dangerous than experts say.
People gathering on a beach in Rio de Janeiro last week. Brazil’s president has implied that the virus is less dangerous than experts say.Credit…Antonio Lacerda/EPA, via Shutterstock

This growing ecosystem of misinformation and public distrust has led the World Health Organization to warn of an “infodemic.”

“You see the space being flooded,” Mr. Brookie said, adding, “The anxiety is viral, and we’re all just feeling that at scale.”

“People are drawn to conspiracies because they promise to satisfy certain psychological motives that are important to people,” Dr. Douglas said. Chief among them: command of the facts, autonomy over one’s well-being and a sense of control.

If the truth does not fill those needs, we humans have an incredible capacity to invent stories that will, even when some part of us knows they are false. A recent study found that people are significantly likelier to share false coronavirus information than they are to believe it.

[Analysis: Peaks, testing and lockdowns: How coronavirus vocabulary causes confusion.]

“The magnitude of misinformation spreading in the wake of the Covid-19 pandemic is overwhelming our small team,” Snopes, a fact-checking site, said on Twitter. “We’re seeing scores of people, in a rush to find any comfort, make things worse as they share (sometimes dangerous) misinformation.”

Widely shared, Instagram posts falsely suggested that the coronavirus was planned by Bill Gates on behalf of pharmaceutical companies. In Alabama, Facebook posts falsely claimed that shadowy powers had ordered sick patients to be secretly helicoptered into the state. In Latin America, equally baseless rumors have proliferated that the virus was engineered to spread H.I.V. In Iran, pro-government voices portray the disease as a Western plot.

If the claims are seen as taboo, all the better.

The belief that we have access to secret information may help us feel that we have an advantage, that we are somehow safer. “If you believe in conspiracy theories, then you have power through knowledge that other people don’t have,” Dr. Douglas said.

Amid a swirl of rumors about the cause of Covid-19, some have attacked cellphone towers, like this one in Birmingham, England.
Amid a swirl of rumors about the cause of Covid-19, some have attacked cellphone towers, like this one in Birmingham, England.Credit…Carl Recine/Reuters

Italian media buzzed over a video posted by an Italian man from Tokyo in which he claimed that the coronavirus was treatable but that Italian officials were “hiding the truth.”

Other videos, popular on YouTube, claim that the entire pandemic is a fiction staged to control the population.

Still others say that the disease is real, but its cause isn’t a virus — it’s 5G cellular networks.

One YouTube video pushing this falsehood, and implying that social distancing measures could be ignored, has received 1.9 million views. In Britain, there has been a rash of attacks on cellular towers.

Conspiracy theories may also make people feel less alone. Few things tighten the bonds of “us” like rallying against “them,” especially foreigners and minorities, both frequent scapegoats of coronavirus rumors and much else before now.

But whatever comfort that affords is short-lived.

Over time, research finds, trading in conspiracies not only fails to satisfy our psychological needs, Dr. Douglas said, but also tends to worsen feelings of fear or helplessness.

And that can lead us to seek out still more extreme explanations, like addicts looking for bigger and bigger hits.

The homegrown conspiracists and doubters are finding themselves joined by governments. Anticipating political backlash from the crisis, government leaders have moved quickly to shunt the blame by trafficking in false claims of their own.

A senior Chinese official pushed claims that the virus was introduced to China by members of the United States Army, an accusation that was allowed to flourish on China’s tightly controlled social media.

In Venezuela, President Nicolás Maduro suggested that the virus was an American bioweapon aimed at China. In Iran, officials called it a plot to suppress the vote there. And outlets that back the Russian government, including branches in Western Europe, have promoted claims that the United States engineered the virus to undermine China’s economy.

In the former Soviet republics of Turkmenistan and Tajikistan, leaders praised bogus treatments and argued that citizens should continue working.

But officials have hardly refrained from the rumor mongering in more democratic nations, particularly those where distrust of authority has given rise to strong populist movements.

Matteo Salvini, the leader of Italy’s anti-migrant League Party, wrote on Twitter that China had devised a “lung supervirus” from “bats and rats.”

And President Jair Bolsonaro of Brazil has repeatedly promoted unproven coronavirus treatments, and implied that the virus is less dangerous than experts say. Facebook, Twitter and YouTube all took the extraordinary step of removing the posts.

President Trump has pushed unproven drugs, despite warnings from scientists.
President Trump has pushed unproven drugs, despite warnings from scientists.Credit…Doug Mills/The New York Times

President Trump, too, has repeatedly pushed unproven drugs, despite warnings from scientists and despite at least one fatal overdose of a man whose wife said he had taken a drug at Mr. Trump’s suggestion.

Mr. Trump has accused perceived enemies of seeking to “inflame” the coronavirus “situation” to hurt him. When supplies of personal protective equipment fell short at New York hospitals, he implied that health workers might be stealing masks.

His allies have gone further.

Senator Tom Cotton, Republican of Arkansas, and others have suggested that the virus was produced by a Chinese weapons lab. Some media allies have claimed that the death toll has been inflated by Mr. Trump’s enemies.

“This kind of information suppression is dangerous — really, really dangerous,” Mr. Brookie said, referring to Chinese and American efforts to play down the threat of the outbreak.

It has nourished not just individual conspiracies but a wider sense that official sources and data cannot be trusted, and a growing belief that people must find the truth on their own.

A cacophony arising from armchair epidemiologists who often win attention through sensational claims is at times crowding out legitimate experts whose answers are rarely as tidy or emotionally reassuring.

They promise easy cures, like avoiding telecommunications or even eating bananas. They wave off the burdens of social isolation as unnecessary. Some sell sham treatments of their own.

“Medical conspiracy theories have the power to increase distrust in medical authorities, which can impact people’s willingness to protect themselves,” Daniel Jolley and Pia Lamberty, scholars of psychology, wrote in a recent article.

Such claims have been shown to make people less likely to take vaccines or antibiotics, and more likely to seek medical advice from friends and family instead of from doctors.

Supposed coronavirus remedies at a market in Yogyakarta, Indonesia.
Supposed coronavirus remedies at a market in Yogyakarta, Indonesia.Credit…Ulet Ifansasti for The New York Times

Belief in one conspiracy also tends to increase belief in others. The consequences, experts warn, could not only worsen the pandemic, but outlive it.

Medical conspiracies have been a growing problem for years. So has distrust of authority, a major driver of the world’s slide into fringe populism. Now, as the world enters an economic crisis with little modern precedent, that may deepen.

The wave of coronavirus conspiracies, Dr. Jolley and Dr. Lamberty wrote, “has the potential to be just as dangerous for societies as the outbreak itself.”

Emma Bubola contributed reporting from Rome.

WMO is concerned about impact of COVID-19 on observing system (WMO)

WMO concerned about impact of COVID19 on global observing system

1 April 2020 Press Release Number: 01042020

Geneva, 1 April 2020 – The World Meteorological Organization (WMO) is concerned about the impact of the COVID-19 pandemic on the quantity and quality of weather observations and forecasts, as well as atmospheric and climate monitoring.

WMO’s Global Observing System serves as a backbone for all weather and climate services and products provided by the 193 WMO Member states and territories to their citizens. It provides observations on the state of the atmosphere and ocean surface from land-, marine- and space-based instruments. This data is used for the preparation of weather analyses, forecasts, advisories and warnings.

“National Meteorological and Hydrological Services continue to perform their essential 24/7 functions despite the severe challenges posed by the Coronavirus pandemic,” said WMO Secretary-General Petteri Taalas. “We salute their dedication to protecting lives and property but we are mindful of the increasing constraints on capacity and resources,” he said.

“The impacts of climate change and growing amount of weather-related disasters continue. The COVID-19 pandemic poses an additional challenge, and may exacerbate multi-hazard risks at a single country level. Therefore it is essential that governments pay attention to their national early warning and weather observing capacities despite the COVID-19 crisis,” said Mr Taalas.

Large parts of the observing system, for instance its satellite components and many ground-based observing networks, are either partly or fully automated. They are therefore expected to continue functioning without significant degradation for several weeks, in some cases even longer. But if the pandemic lasts more than a few weeks, then missing repair, maintenance and supply work, and missing redeployments will become of increasing concern.

Some parts of the observing system are already affected. Most notably the significant decrease in air traffic has had a clear impact. In-flight measurements of ambient temperature and wind speed and direction are a very important source of information for both weather prediction and climate monitoring.

AMDAR observation - March 2020

Meteorological data from aircraft

Commercial airliners contribute to the Aircraft Meteorological Data Relay programme (AMDAR), which uses onboard sensors, computers and communications systems to collect, process, format and transmit meteorological observations to ground stations via satellite or radio links.

In some parts of the world, in particular over Europe, the decrease in the number of measurements over the last couple of weeks has been dramatic (see chart below provided by EUMETNET).  The countries affiliated with EUMETNET, a collaboration between the 31 national weather services in Europe, are currently discussing ways to boost the short-term capabilities of other parts of their observing networks in order to partly mitigate this loss of aircraft observations.

The AMDAR observing system has traditionally produced over 700 000 high-quality observations per day of air temperature and wind speed and direction, together with the required positional and temporal information, and with an increasing number of humidity and turbulence measurements being made.

Surface-based observations

In most developed countries, surface-based weather observations are now almost fully automated.

However, in many developing countries, the transition to automated observations is still in progress, and the meteorological community still relies on observations taken manually by weather observers and transmitted into the international networks for use in global weather and climate models.

WMO has seen a significant decrease in the availability of this type of manual observations over the last two weeks. Some of this may well be attributable to the current coronavirus situation, but it is not yet clear whether other factors may play a role as well. WMO is currently investigating this.

“At the present time, the adverse impact of the loss of observations on the quality of weather forecast products is still expected to be relatively modest. However, as the decrease in availability of aircraft weather observations continues and expands, we may expect a gradual decrease in reliability of the forecasts,” said Lars Peter Riishojgaard, Director, Earth System Branch in WMO’s Infrastructure Department.

“The same is true if the decrease in surface-based weather observations continues, in particular if the COVID-19 outbreak starts to more widely impact the ability of observers to do their job in large parts of the developing world. WMO will continue to monitor the situation, and the organization is working with its Members to mitigate the impact as much as possible,” he said.

Variability of surface observations - January 2020
(Map provided by WMO; countries shown in darker colors provided fewer observations over the last week than averaged for the month of January 2020 (pre-COVID-19); countries shown in black are currently not sending any data at all).

Currently, there are 16 meteorological and 50 research satellites, over 10 000 manned and automatic surface weather stations, 1 000 upper-air stations, 7 000 ships, 100 moored and 1 000 drifting buoys, hundreds of weather radars and 3 000 specially equipped commercial aircraft measure key parameters of the atmosphere, land and ocean surface every day. 

For further information contact: Clare Nullis, media officer. Email cnullis@wmo.int, Cell +41 79 709 13 97

See original article here.

Meteorologia pode sofrer impacto com covid-19, diz WMO (Climatempo)

02/04/2020 – por redação

Organização Meteorológica Mundial (WMO) teme que coronavírus influencie na qualidade das previsões e no monitoramento da atmosfera

A Organização Meteorológica Mundial (Word Meteorological Organization, WMO, na sigla em inglês) está preocupada com o impacto da pandemia do covid-19 na quantidade e qualidade das observações e previsões meteorológicas, bem como no monitoramento da atmosfera e do clima.

O Sistema de Observação Global da WMO serve como espinha dorsal de todos os serviços e produtos climáticos fornecidos a seus cidadãos pelos 193 estados e territórios membros da organização. Ele fornece observações sobre o estado da atmosfera e da superfície do oceano a partir de instrumentos terrestres, marinhos e espaciais. Estes dados são utilizados para a preparação de análises meteorológicas, previsão do tempo e monitoramento do clima.

“Os Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais continuam desempenhando suas funções essenciais 24 horas por dia e sete dias por semana, apesar dos graves desafios impostos pela pandemia de coronavírus”, disse o secretário-geral da WMO, Petteri Taalas. “Saudamos sua dedicação em proteger vidas e propriedades, mas estamos atentos às crescentes restrições de capacidade e recursos”.

Taalas afirmou ainda que os impactos das mudanças climáticas e a crescente quantidade de desastres relacionados ao clima continuam. “A pandemia do Covid-19 representa um desafio que  grava os riscos de vários perigos em um único país. Portanto, é essencial que os governos prestem  atenção em seu alerta nacional e às capacidades de observação do clima, apesar da crise do Covid-19”.

Grande parte do sistema de observação, como os componentes de satélite e redes de observação terrestres, por exemplo, são parcialmente ou totalmente automatizados. Por isso, espera-se que continuem funcionando sem problemas significativos por várias semanas, em alguns casos até mais. Porém, se a pandemia durar mais de algumas semanas, a falta de reparos, manutenção e suprimentos, e as redistribuições se tornarão uma preocupação crescente.

Algumas partes do sistema de observação já estão sendo afetadas, com destaque para a diminuição significativa do tráfego aéreo. As medições de temperatura ambiente e da velocidade e direção do vento em voo são uma fonte muito importante de informações para a previsão do tempo e monitoramento do clima.

Dados meteorológicos de aeronaves 

Aviões comerciais contribuem para o programa “Airbus Meteorological Data Relay” (AMDAR), que usa sensores, computadores e sistemas de comunicação a bordo para coletar, processar, formatar e transmitir observações meteorológicas para estações terrestres via satélite ou rádio.

Em algumas partes do mundo, em particular na Europa, a diminuição do número de medições nas últimas duas semanas tem sido dramática.  Veja o gráfico fornecido pela  EUMETNET.

Total de observações do sistema AMDAR em março de 2020 (Fonte: WMO)

Os países afiliados à EUMETNET, que reúne 31 serviços meteorológicos nacionais na Europa, estão atualmente discutindo maneiras de aumentar as capacidades de curto prazo de outras partes de suas redes de observação, a fim de diminuir parcialmente a perda de observações de aeronaves.

O sistema de observação AMDAR normalmente produzia por dia mais de 700 mil observações de alta qualidade de temperatura do ar, velocidade e direção do vento. Além disso, fornecia informações posicionais e temporais necessárias, com número crescente de medições de umidade e turbulência.

Observações baseadas em superfície

Na maioria dos países desenvolvidos, as observações meteorológicas de superfície são quase totalmente automatizadas. No entanto, em muitos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, a transição para observações automatizadas ainda está em andamento, e a comunidade meteorológica ainda depende de observações feitas manualmente por observadores, que as transmitem às redes internacionais para uso em modelos globais de tempo e clima.

A WMO registrou diminuição significativa na disponibilidade de observação manual nas últimas duas semanas. Parte disso pode estar relacionada à situação atual de coronavírus, mas ainda não está claro se outros fatores também podem ter contribuído. A WMO está investigando outras possíveis causas.

Atualmente, o impacto adverso da perda de observações na qualidade dos produtos para previsão do tempo ainda é relativamente pequeno. No entanto, à medida que a diminuição na disponibilidade de observações meteorológicas das aeronaves continua e se expande, podemos esperar uma queda gradual na confiabilidade das previsões”, disse Lars Peter Riishojgaard, diretor da filial do sistema terrestre no departamento de infraestrutura da WMO.

Segundo Riishojgaard, o mesmo vale se a diminuição das observações meteorológicas na superfície continuar e, em particular, se o surto de covid-19 começar a impactar de forma mais significativa a capacidade de trabalho de observadores em países subdesenvolvidos. “A WMO continuará monitorando a situação, e a organização está trabalhando com seus membros para mitigar o impacto o máximo possível”, afirmou.

Mapa fornecido pela WMO: os países mostrados em cores mais escuras forneceram menos observações na última semana do que a média do mês de janeiro de 2020 (pré-covid-19); os países mostrados em preto atualmente não estão enviando nenhum dado.

Atualmente, existem 16 satélites meteorológicos e 50 de pesquisa no mundo, além de mais de 10 mil estações meteorológicas de superfície automáticas e tripuladas, mil estações aéreas, 7 mil navios, 100 bóias ancoradas e mil flutuantes, centenas de radares meteorológicos e 3 mil estações comerciais especialmente equipadas em aeronaves, que medem parâmetros-chave da atmosfera, da terra e da superfície do oceano todos os dias.

Tradução e adaptação de Paula Soares e Amanda Sampaio, do conteúdo publicado no site da WMO – World Meteorological Organization.

Link da matéria original no site da WMO: https://public.wmo.int/en/media/press-release/wmo-concerned-about-impact-of-covid-19-observing-system

Link da matéria no site da Climatempo: https://www.climatempo.com.br/noticia/2020/04/02/meteorologia-pode-sofrer-impacto-com-covid-19-diz-wmo-2635

Ficar fechado em casa pode afetar a saúde mental: o que fazer para não explodir

Renzo Taddei – 3 de abril de 2020; atualizado em 4 de abril de 2020

A imensa maioria das discussões atuais a respeito dos problemas trazidos pela pandemia de COVID-19 centrou-se, até o momento, no binômio sistema de saúde-economia. O isolamento social faz a curva baixar e desorganiza amplos setores da economia; o chamado isolamento vertical, sem a necessária testagem em massa, preserva a economia mas mantém a trajetória do sistema de saúde rumo ao colapso. Parece não haver mais dúvida que, sem os recursos que permitiriam às autoridades realizar testes na intensidade do que se viu na Coréia do Sul, não há alternativa responsável que não seja permanecer fechado em casa.

Ocorre, no entanto, que há um terceiro elemento na questão, e que só agora, passadas as primeiras semanas desde que o distanciamento social começou seriamente em lugares como São Paulo, começa a se fazer visível: o isolamento afeta a saúde mental das pessoas. A imensa maioria dos meus colegas acadêmicos pensou que os problemas de trabalhar em casa seriam a falta de infraestrutura (como cadeiras desconfortáveis, internet instável, ou competição com outros membros da família pelo uso do computador), de ambiente suficientemente silencioso (com as crianças brincando ao redor) para que as reuniões digitais ocorressem sem interrupções, ou mesmo da disciplina necessária para trabalhar em ambiente onde o corpo aprendeu a relaxar. Os indícios de que havia algo mais na equação começaram a aparecer na forma de memes nas redes sociais. Em um dos áudios engraçados que circulou pelo WhatsApp, uma voz feminina dizia que, se ela sobrevivesse ao vírus, o mesmo provavelmente não ocorreria ao seu casamento. Em outro, o áudio de origem argentina apresenta um homem em uma conferência de trabalho por Internet, dizendo aos colegas da necessidade de se ter paciência e calma com as alterações exigidas no momento, enquanto uma criança grita de forma ininterrupta ao fundo. Em dado momento, o mesmo homem explode em ataque de fúria, gritando com a criança para que esta se cale. Em outro áudio, um homem lista rituais e mandingas que surgiram no lares, como reação ao medo generalizado – a enorme quantidade e suposta incompatibilidade entre tais rituais compondo a carga humorística da mensagem.

Passadas as primeiras semanas, tais memes cessaram. O que me ocorreu foi que, ao invés das pessoas terem se acostumado com a situação e esta, portanto, ter perdido o caráter de novidade que sustenta o humor, a realidade aponta para exatamente o contrário disso: o confinamento começou a afetar a saúde mental das pessoas, e o assunto perdeu a graça, porque virou sofrimento. No últimos dias, uma série de artigos na imprensa internacional e em postagens nas redes sociais mostra que o assunto ganhou visibilidade nos países em que o confinamento ocorre há mais tempo. No Brasil, grupos especializados nas áreas de psicologia e psiquiatria já haviam alertado (e aqui) para essa questão. Agora, ela efetivamente bate à porta de todos nós.

Há muitos motivos mais visíveis, nos debates públicos, do que o tema da saúde mental: além das recomendações médicas para evitar o contágio, dos reflexos devastadores na economia, e do debate planetário a respeito dos distintos protocolos de tratamento e eficácia dos medicamentos, há a questão incontornável dos óbitos produzidos pela epidemia e como o luto impacta as famílias afetadas. Discutirei o tema das mortes e do luto em outro texto.

Há muitas razões pelas quais o confinamento afeta a saúde mental das pessoas. Na minha área de atuação, a antropologia, há trabalhos de referência importantes sobre essa questão. Como este texto não é acadêmico, não vou fazer referências específicas (ver exemplo aqui). Mas o que parece claro na literatura é que, enquanto indivíduos, nossa existência nos coloca em muitos papéis sociais distintos, com identidades, e portanto formas de pensar, de organizar nossas emoções, e de nos relacionarmos com as outras pessoas, diversas. Isso nos conecta com ecossistemas variados de formas de pensar, sentir e agir. Quando estou na universidade lidando com colegas, sem que eu me dê conta, meus pensamentos, postura corporal e formas de uso da fala se ajustam à situação, de modo que as coisas fluam com naturalidade. Quando estou em sala de aula, com estudantes, novamente, de forma inconsciente, eu assumo identidade distinta, o que ocasiona um ajuste de mente, corpo, fala e atitude. Em casa, o mesmo ocorre em contextos que me evocam na qualidade de cônjuge, ou na qualidade de pai. E assim sucessivamente, em uma grande variedade de contextos sociais. Não há nada de patológico em mudar de identidade – e portanto de padrão de pensamento, postura corporal, estilo de fala e atitude -; bizarro seria tratar meus estudantes como trato minha esposa, ou me relacionar com meus colegas como o faço com minha filha. Um indivíduo saudável sabe transitar por grande número de contextos sociais, e ao mesmo tempo sabe identificar, muitas vezes de forma inconsciente, que padrão de pensamentos-emoções-comportamentos-atitudes é apropriado para cada contexto. Lembro-me de estudante, fanática torcedora do Corinthians, que vinha a todas as minhas aulas com a camiseta do clube, e sistematicamente faltava às aulas nas quartas-feiras em que o time jogava. Um dia eu disse a ela que iria reprovar por faltas em minha disciplina, e que poderia ver o jogo no reprise da televisão. Ela respondeu de bate-pronto: “tem coisas que eu não falo na frente da minha avó”. O que ela estava me dizendo é que é impossível reproduzir em casa o contexto do estádio; e que o estádio era importante dentro do rol de contextos sociais dentro dos quais ela transitava, e que permitiam a ela que vivesse toda a gama de emoções necessárias para que se mantivesse feliz e saudável.   

Essa grande variedade de contextos de vida social nos proporciona a possibilidade de vivência e manifestação de amplo espectro de emoções e padrões de ideias, e isso, aparentemente, é fundamental para a manutenção da saúde de nosso ser, em um contexto em que o físico, o mental e o emocional estão profundamente imbricados. É exatamente aqui que o confinamento desorganiza a vida das pessoas: ele reduz drasticamente a quantidade de contextos sociais que experimentamos e vivemos, e ao fazer isso, limita a gama de emoções e as formas de manifestação corporal passíveis de manifestação. Como resultado, as pessoas começam a sentir-se ansiosas, deprimidas, irritadiças, e eventualmente agressivas. Em escala demográfica, aumentam os casos de violência doméstica de todos os tipos, bem como a incidência de sintomas de doenças mentais.  

Como mencionei acima, sou antropólogo, e não psicólogo ou psiquiatra. Ocorre, no entanto, que por ter vivido experiência traumática no passado (estava em Nova York no dia 11 de setembro de 2001), vivo em relação intensa com tais profissionais há duas décadas, na qualidade de paciente. Um detalhe relevante, para a discussão apresentada neste texto, é que não foi exatamente após o ataque terrorista que meus sintomas de síndrome de estresse pós-traumático surgiram. Três ano depois do evento mencionado, foi a ansiedade relacionada com a defesa da minha tese de doutorado que fez a caldeira explodir.  

Se, nos parágrafos acima, eu descrevi algumas das razões pelas quais o confinamento pode afetar a saúde mental da uma pessoa, a situações é bastante mais crítica quando se trata de gente com problemas prévios de saúde mental. Como é de amplo conhecimento, há muitas décadas o mundo vive uma epidemia de depressão e outras formas de patologias da mente. Na minha experiência de professor universitário, o crescimento do número de casos de estudantes com depressão ou distúrbios de ansiedade e pânico na última década é assustador. Ao mesmo tempo, vivemos em um país em que a doença mental ainda é um tabu entre largas parcelas da população, e onde o tema é visto pelas lentes da discriminação e do preconceito, muitas vezes pela própria pessoa que sofre. Dos países do norte a indústria cultural nos trouxe a imagem de que quem sucumbe à enfermidade mental é uma pessoa fracassada.

É assim, portanto, que a pandemia de COVID-19 nos encontra: uma parcela da população padecendo de sofrimentos psíquicos e emocionais, com acompanhamento de especialista; outra parcela, imensamente maior do que a primeira, com sintomas mas sem acompanhamento algum, em razão de preconceito próprio ou alheio, de falta de acesso a serviços de saúde mental, ou de falta de informação. Outra ainda, carregando nas costas o custo emocional, contido e abafado, de experiências traumáticas do passado, mantido sob controle com muito esforço, e portanto sem sintomas mais pronunciados. Se, para as pessoas que não possuem histórico nem sintomas de doenças mentais, o confinamento pode fazer com que estas coisas apareçam, para os que convivem com elas a perspectiva é de dias difíceis pela frente. Muitas caldeiras irão estourar.

Que fique bem claro que nada disso é argumento em favor de que se abandone a estratégia de distanciamento social horizontal. É apenas a constatação de que, se efetivamente não temos alternativa, é preciso enfrentar o desafio com coragem, paciência, compreensão, e ajuda especializada. No que diz respeito a este último item, é oportuno lembrar que, de todas as categorias profissionais, os psicólogos constituem grupo para o qual trabalhar em casa sempre foi prática comum. Nos últimos anos, muitos psicólogos passaram a fazer atendimentos pela Internet de forma rotineira. É em virtude disso que pode-se afirmar com segurança que a oferta de serviços de tratamento psicológico não se desorganizou com a pandemia. Quem procurar indicação de psicólogo pela Internet provavelmente encontrará, sem muita dificuldade, profissional que faça o atendimento em condições perfeitamente compatíveis com o distanciamento social horizontal. O mesmo está ocorrendo com os profissionais da psiquiatria.

Para algumas pessoas, talvez o custo do tratamento psicológico ou psiquiátrico seja impedimento para a procura de ajuda profissional. No contexto do agravamento da crise econômica, uma série de entidades e grupos passou a oferecer serviços de apoio psicológico de forma gratuita e remota; há grupos que ofereciam tais serviços de forma gratuita anteriormente à pandemia, e apenas se prepararam para maior volume de demanda. Uma lista de tais organizações é oferecida no final deste texto.

Na minha experiência de quem tem que gerir uma caldeira sempre à beira da explosão, além da incontornável psicoterapia e do comumente recomendado tratamento com medicações psiquiátricas, senti necessidade de complementação destas coisas com exercícios. Qualquer pessoa que comece tratamento psicológico ou psiquiátrico vai escutar isso dos profissionais da saúde mental: exercício é fundamental. Eu adiciono a isso, no entanto, outra forma de exercício: o exercício emocional. O que eu quero dizer com isso é que existem estratégias interessantes para lidar com emoções represadas e que estão incomodando:

– Uma delas é um exercício da yoga chamado “sopro ha” (há vários vídeos no Youtube ensinando o exercício – como este, por exemplo). Aliás, uma combinação conveniente entre exercícios físicos e técnicas de gestão das emoções é o livro chamado Yoga Para Nervosos, do venerado mestre Hermógenes, e disponível em PDF aqui.

– Meditação ajuda tremendamente. Há muitos apps de meditação gratuitos online, e vídeos no youtube também. Além da meditação do tipo mindfulness, há algumas específicas para ajudar o indivíduo a aceitar a realidade que me parecem especialmente eficazes.

– Outra técnica é ver filmes de gêneros diversos, e que evocam emoções diferentes. Especialmente recomendados são os filmes que fazem chorar. Tem muita gente que tem dificuldade em chorar. O choro é uma forma importantíssima de reequilíbrio das emoções. Quem acha que não vai precisar chorar nisso tudo que estamos passando provavelmente não entendeu o que está por vir e vai ver a caldeira explodir antes do que imagina.

Algumas pessoas acham que uma boa estratégia para liberar as tensões é o álcool. Na verdade, o álcool deve ser evitado a todo custo, não apenas porque existe o perigo real do crescimento dos casos de alcoolismo, como porque há correlação direta e forte entre o álcool e a violência doméstica.

Por fim, para que essas coisas funcionem, as pessoas precisam aprender a prestar a atenção às próprias emoções, e às emoções de quem está ao seu redor. Se estamos todos afetados pela pandemia, ainda que de formas diversas, e estamos todos sujeitos aos solavancos emocionais diários do contexto presente, não há remédio que não passe, necessariamente, pela paciência, pela compreensão e pela empatia. O que eu espero é que, com boa ajuda de profissionais da saúde mental, aprendendo a identificar as próprias emoções e a dos que nos rodeiam, e a usar estratégias de modo a gerir tais emoções de forma construtiva (mesmo que dificultosa), sejamos todos capazes de evitar que as nossas emoções, desorganizadas e confusas como estão agora, produzam qualquer coisa que se assemelhe à violência.  


Serviços de ajuda psicológica gratuitos:

1) A PonteAPonte criou banco de dados com mapeamento de ações de arrecadação e prestação de serviços às comunidades no contexto do COVID-19, disponível no link https://bit.ly/3bPUWYp. Um dos serviços mapeados é a oferta de ajuda psicológica gratuita. Reproduzo abaixo os dados disponíveis na data de 3 de abril de 2020 (o banco de dados é atualizado e expandido constantemente).

– Relações simplificadas: psicólogos, psicanalistas e outros profissionais criaram iniciativas de solidariedade e de escuta para dar suporte emocional durante a pandemia. Agendamento pelo site https://www.relacoessimplificadas.com.br/escuta

– Ana Horta, docente da escola paulista de enfermagem da Unifesp, formou um grupo de 40 psicólogos disponíveis para o trabalho de acolhimento voluntário e online dos profissionais que estão na linha de frente dessa pandemia. O nome e celular do interessado deve ser enviado ao email acolhimentocovid@gmail.com

– A Chave da Questão: grupo de psicólogos que atendem online e de forma gratuita. Contato pelo site: https://www.achavedaquestao.com/

– Escuta Viva: grupo de psicanalistas oferece escuta psicanalítica online. Prioridade para idosos, moradores de periferias e trabalhadores da saúde, mas aberto a todos. Contato pelo site: https://escuta-viva.reservio.com

– Varandas Terapêuticas: o Instituto Gerar de Psicanálise oferece grupos terapêuticos online mediados por psicanalistas para a superação do confinamento. O pagamento é voluntário. Contato pelo site: https://institutogerar.com.br/clinica-instituto-gerar/#varandas-terapeuticas

– Cruzando Histórias: escuta ou apoio psicológico, acolhimento e orientação profissional grátis com 200 psicólogos e mentores de carreira para pessoas desempregadas e em dificuldades especiais. Contato pelo site: https://www.cruzandohistorias.org/post/escutacao-especial

– Lugar de Fala: grupo de psicólogos, psicanalistas e médicos oferece apoio. Contato pelo site: https://fernandanoyapinto.wixsite.com/lugardefala

– A empresa Mão na Roda oferece serviço de escuta solidária, através de encontros semanais online, por iniciativa de Sandra Tudisco. Pagamento voluntário. Contato pelo telefone: (11) 97120-1803

– A psicóloga Fanny Carvalho Aranha do grupo Humanic oferece ajuda psicológica online gratuita. Contato através do site: http://www.humanic.com.br

– Grupo de psicólogos disponibiliza atendimento para as pessoas que estão mais sensíveis a essa mudança de rotina que estamos atravessando. Trata-se de um acompanhamento psicológico breve. Entrar em contato com os profissionais e agendar atendimento:  

Anna Carolina Kolhy: (11) 98155-9015

Felipe Sitta: (11) 99625-8383

Fernanda Portugal: (11) 98269-7807

Jennyfer Gonçalves: (11) 98220-9223

Jessica Gomes: (18) 99806-4063

Luana Estima: (11) 99412-8780

Marcia Voboril: (11) 99829-6700

Nancy Caneparo: (11) 98182-6852

Rafaela Midori: (11) 99891-1128

Sueli Rugno: (11) 99641-1446


2) Artigo da Folha de S.Paulo: Psicanalistas oferecem atendimento gratuito online; saiba onde encontrar (01/04/2020), com lista de serviços gratuitos. Acessar os links das instituições:

Psicanálise na Praça Roosevelt, de São Paulo
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise na Rua, de Brasília
Contato: facebook.com/psinarua
Atendimentos às sextas, das 16h30 às 18h30, e aos sábados, 10h às 12h

Psicanálise na Praça, de Porto Alegre
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise de Rua, de São Carlos (SP)
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h, para pessoas da região de São Carlos

Grupo bate-papo, de Brasília
Atendimentos: terças, às 13h; quartas, às 10h e às 14h; sextas, às 10h

Varandas Terapêuticas – Instituto Gerar
Contato: tel. (11) 3032-6905 e (11) 97338-3974
Atendimentos: mediante agendamento
Pagamento voluntário

EscutAto – Instituto de Psicologia da USP (IPUSP)
Atendimentos: mediante agendamento


3) CVV — Centro de Valorização da Vida. Atendimento por voluntários, por telefone ou chat.

Converse por chat: http://www.cvv.org.br/chat.php

Converse por telefone: 141 (veja os horários de atendimento)

Seja voluntário do CVV


Ver ainda:

Artigo Saúde mental para quem não tem condições de pagar, por Victor Freitas, publicado no portal Medium em 5 de maio de 2018

Artigo Depressão: saiba onde encontrar atendimento gratuito, de Marcela Fonseca, publicado no site Moda Sem Crise em 08 de agosto de 2018

Conventional wisdom holds that rising living standards are fueled by oil. What if that’s wrong? (Anthropocene Magazine)

Researchers found that recent improvements in life expectancy are only weakly coupled to increases in carbon emissions

By Sarah DeWeerdt

March 31, 2020

In recent decades, life has gotten better, more comfortable, and longer for many people around the world. Conventional wisdom holds that these gains in human well-being are underpinned by fossil fuel energy. After all, a country’s energy use tends to be correlated with its inhabitants’ life expectancy at any given point in time.

But this assumption doesn’t hold up to scrutiny, a new analysis indicates. And that, in turn, suggests the hopeful conclusion that decarbonization need not put future gains in well-being at risk.

Researchers in the UK and Germany analyzed data on energy extraction, carbon emissions, economic activity, food supply, residential electricity availability, and life expectancy in 70 countries around the world between 1971 and 2014.

They used a relatively new method called functional dynamic decomposition: a series of mathematical equations to analyze the changing relationships between two variables – such as carbon emissions and life expectancy – and assess whether changes in one drive changes in the other.

The method cannot demonstrate causality, but a lack of association between two variables over time is evidence of lack of causation.

In fact, while some variables are correlated at particular points, one does not drive the other over time, the researchers report in the journal Environmental Research Letters. They call this a “carbon-development paradox.”

The new results “demonstrate that fossil fuels are not, as often imagined or stated, significant contributors to improvements in human development,” the researchers write.

Carbon emissions, primary energy use, and economic activity as measured by market exchange rate income (MER, which depends on international trade) are all “dynamically coupled” over time.

So are economic activity as measured by purchasing power parity (PPP, which indicates how far people’s incomes go within their home country), food supply, residential electricity, and life expectancy.

“Recent improvements in life expectancy are only weakly coupled to increases in primary energy or carbon emissions,” the researchers write. Instead, life expectancy gains are more closely linked growth in real incomes, access to food, and availability of electricity at home.

And although increases in carbon emissions account for much of the increase in primary energy over time, they account for a relatively small amount of the increase in residential electricity.

Increases in primary energy account for the vast majority of increases in MER income, but only about half of increases in PPP. “Economic growth is thus not enough on its own: the question is what type of economic growth,” the researchers write.

So stoking the furnace of the economy with fossil fuels won’t necessarily result in human flourishing. And reducing energy use and carbon emissions won’t necessarily result in human suffering.

“Our results directly counter the claims by fossil fuel companies that their products are necessary for well-being,” lead author Julia Steinberger of the University of Leeds said in a statement. “Reducing emissions and primary energy use, while maintaining or enhancing the health of populations, should be possible.”

To do that, governments will need to prioritize people’s access to food, renewable energy, and other goods that are more directly related to well-being—rather than economic growth for its own sake.

Source: Steinberger J.K. et al.Your money or your life? The carbon-development paradox.” Environmental Research Letters 2020. 

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