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Saber tradicional e lógica científica beneficiam a pesca (Agência USP)

Por Sandra O. Monteiro
Publicado em 13/outubro/2011

Cotidiano e tradições são relevantes para pesca e políticas regionais

Na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, um desacordo entre a forma de exploração de uma comunidade de pescadores e a maneira de pensar a exploração de alguns pesquisadores das ciências naturais impede que políticas públicas para a região sejam efetivas. Isso estimula movimentos socias de desobediência civil contrários a normas estatais firmadas apenas em conceitos “científicos”.

A comunidade em questão está localizada na Ilha dos Marinheiros, segundo distrito da cidade de Rio Grande (RS), na Lagoa dos Patos. O local foi base de um estudo etnográfico desenvolvido pelo oceanógrafo Gustavo Moura, desenvolvido durante seu mestrado no Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP. Segundo o pesquisador, as comunidades locais denominam “nosso mar” o pedaço da Lagoa dos Patos em que cada grupo vive e desenvolve sua pesca. “Tal desentendimento impede que políticas públicas para a região sejam efetivas e atuem realmente na conservação dos recursos naturais ou na expansão das liberdades de quem vive da pesca na região”, observa Moura.

A pesquisa foi realizada por meio da vivência (observação de fenômenos naturais e sociais) e de entrevistas com os moradores locais. Para o pesquisador, a ciência por meio de suas metodologias e cálculos não consegue respostas para todos os fatos ou para dar a efetiva precisão a dados sobre fenômenos naturais. E as respostas que a ciência oferece é apenas uma das formas culturais de ver o mundo. A oceanografia clássica, por exemplo, preocupa-se em preservar o ambiente dentro de uma perspectiva exclusiva de análise técnica de um suposto comportamento matemático da natureza. Esquece, no entanto, que nem tudo é exato e exclui, da sua busca por respostas, o diálogo com as ciências humanas e as culturas tradicionais por considerá-las imprecisas. À respeito disto, Moura diz que a ciência oceanográfica não deve ser desconsiderada, mas experiências e valores humanos também são relevantes no estudo de fenômenos naturais e na formulação de políticas públicas.

Oceanografia Humana e Políticas Públicas

A etnoocenagrafia, uma das linhas de pesquisa da Oceanografia Humana, considera as tradições e observações sobre a natureza, que passam de pai para filho, que levam em conta o tempo cíclico da natureza (o vento, a lua e as chuvas, por exemplo). Além disso também observam a forma como cada comunidade interage com o “seu próprio mar” a partir de situações de comércio e em datas religiosas como a Páscoa “em que muitos pescadores não trabalham”, relata o pesquisador.

Oceanografia e antropologia favorecem conservação de recursos pesqueiros

Uma das questões polêmicas relaciona-se à melhor época para se pescar uma determinada espécie. Tem a ver com o tamanho do camarão-rosa, por exemplo. Nem sempre a melhor época para se pescar é de 01 de fevereiro a 31 de maio, como determina a lei de defesa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). “Pois a natureza vista pelos pescadores tem uma lógica diferente da lógica científica. Uma espécie atinge o tamanho considerado bom pelos pescadores, frequentemente, numa data diversa da prevista em lei em quase todos os anos, antes ou depois de primeiro de fevereiro”, reflete o Moura.

A troca de informações diárias entre os próprios pescadores é outra situação que alguns pesquisadores e agentes de fiscalização locais não entendem e discriminam pela fato de ocorrerem em festas e bares. Estas trocas de informação tem relação, por exemplo, com a construção das decisões de quando, como e onde pescar dentro do território tradicional de pesca e com um conjunto de relações sociais instituídas pela posse informal de “pedaços de mar”.

Segundo Moura, quando regras tradicionais de uso dos recursos naturais são incorporadas nas políticas públicas, elas podem trazer menores prejuízos ambientais do que se baseadas em pura lógica científica. “Além disso, pode trazer mais liberdade para os pescadores trabalharem, em vez da castração de liberdades como ocorre com a política atual.”

A dissertação Águas da Coréia: pescadores, espaço e tempo na construção de um território de pesca na Lagoa dos Patos (RS) numa perspectiva etnooceanográfica foi orientada pelo professor Antonio Carlos Sant’Ana Diegues. O estudo será publicado na forma de livro pela editora NUPEEA, em 2012. “Águas da Coréia…” será o primeiro livro de etnooceanografia já publicado dentro e fora do Brasil, e uma das poucas publicações disponíveis na área de Oceanografia Humana.

Com informações da Agência Universitária de Notícias (AUN)
Fotos cedidas pelo pesquisador

8 Reasons Young Americans Don’t Fight Back: How the US Crushed Youth Resistance (AlterNet)

July 31, 2011
By BRUCE E. LEVINE

Bruce E. Levine is a clinical psychologist and author of Get Up, Stand Up: Uniting Populists, Energizing the Defeated, and Battling the Corporate Elite (Chelsea Green, 2011).

Traditionally, young people have energized democratic movements. So it is a major coup for the ruling elite to have created societal institutions that have subdued young Americans and broken their spirit of resistance to domination.

Young Americans-even more so than older Americans-appear to have acquiesced to the idea that the corporatocracy can completely screw them and that they are helpless to do anything about it. A 2010 Gallup poll asked Americans ‘Do you think the Social Security system will be able to pay you a benefit when you retire?” Among 18- to 34-years-olds, 76 percent of them said no. Yet despite their lack of confidence in the availability of Social Security for them, few have demanded it be shored up by more fairly payroll-taxing the wealthy; most appear resigned to having more money deducted from their paychecks for Social Security, even though they don’t believe it will be around to benefit them.

How exactly has American society subdued young Americans?

1. Student-Loan Debt. Large debt-and the fear it creates-is a pacifying force. There was no tuition at the City University of New York when I attended one of its colleges in the 1970s, a time when tuition at many U.S. public universities was so affordable that it was easy to get a B.A. and even a graduate degree without accruing any student-loan debt. While those days are gone in the United States, public universities continue to be free in the Arab world and are either free or with very low fees in many countries throughout the world. The millions of young Iranians who risked getting shot to protest their disputed 2009 presidential election, the millions of young Egyptians who risked their lives earlier this year to eliminate Mubarak, and the millions of young Americans who demonstrated against the Vietnam War all had in common the absence of pacifying huge student-loan debt.

Today in the United States, two-thirds of graduating seniors at four-year colleges have student-loan debt, including over 62 percent of public university graduates. While average undergraduate debt is close to $25,000, I increasingly talk to college graduates with closer to $100,000 in student-loan debt. During the time in one’s life when it should be easiest to resist authority because one does not yet have family responsibilities, many young people worry about the cost of bucking authority, losing their job, and being unable to pay an ever-increasing debt. In a vicious cycle, student debt has a subduing effect on activism, and political passivity makes it more likely that students will accept such debt as a natural part of life.

2. Psychopathologizing and Medicating Noncompliance. In 1955, Erich Fromm, the then widely respected anti-authoritarian leftist psychoanalyst, wrote, ‘Today the function of psychiatry, psychology and psychoanalysis threatens to become the tool in the manipulation of man.” Fromm died in 1980, the same year that an increasingly authoritarian America elected Ronald Reagan president, and an increasingly authoritarian American Psychiatric Association added to their diagnostic bible (then the DSM-III) disruptive mental disorders for children and teenagers such as the increasingly popular ‘oppositional defiant disorder” (ODD). The official symptoms of ODD include ‘often actively defies or refuses to comply with adult requests or rules,” ‘often argues with adults,” and ‘often deliberately does things to annoy other people.”

Many of America’s greatest activists including Saul Alinsky (1909–1972), the legendary organizer and author of Reveille for Radicals and Rules for Radicals, would today certainly be diagnosed with ODD and other disruptive disorders. Recalling his childhood, Alinsky said, ‘I never thought of walking on the grass until I saw a sign saying ‘Keep off the grass.’ Then I would stomp all over it.” Heavily tranquilizing antipsychotic drugs (e.g. Zyprexa and Risperdal) are now the highest grossing class of medication in the United States ($16 billion in 2010); a major reason for this, according to theJournal of the American Medical Association in 2010, is that many children receiving antipsychotic drugs have nonpsychotic diagnoses such as ODD or some other disruptive disorder (this especially true of Medicaid-covered pediatric patients).

3. Schools That Educate for Compliance and Not for Democracy. Upon accepting the New York City Teacher of the Year Award on January 31, 1990, John Taylor Gatto upset many in attendance by stating: ‘The truth is that schools don’t really teach anything except how to obey orders. This is a great mystery to me because thousands of humane, caring people work in schools as teachers and aides and administrators, but the abstract logic of the institution overwhelms their individual contributions.” A generation ago, the problem of compulsory schooling as a vehicle for an authoritarian society was widely discussed, but as this problem has gotten worse, it is seldom discussed.

The nature of most classrooms, regardless of the subject matter, socializes students to be passive and directed by others, to follow orders, to take seriously the rewards and punishments of authorities, to pretend to care about things they don’t care about, and that they are impotent to affect their situation. A teacher can lecture about democracy, but schools are essentially undemocratic places, and so democracy is not what is instilled in students. Jonathan Kozol in The Night Is Dark and I Am Far from Home focused on how school breaks us from courageous actions. Kozol explains how our schools teach us a kind of ‘inert concern” in which ‘caring”-in and of itself and without risking the consequences of actual action-is considered ‘ethical.” School teaches us that we are ‘moral and mature” if we politely assert our concerns, but the essence of school-its demand for compliance-teaches us not to act in a friction-causing manner.

4. ‘No Child Left Behind” and ‘Race to the Top.” The corporatocracy has figured out a way to make our already authoritarian schools even more authoritarian. Democrat-Republican bipartisanship has resulted in wars in Afghanistan and Iraq, NAFTA, the PATRIOT Act, the War on Drugs, the Wall Street bailout, and educational policies such as ‘No Child Left Behind” and ‘Race to the Top.” These policies are essentially standardized-testing tyranny that creates fear, which is antithetical to education for a democratic society. Fear forces students and teachers to constantly focus on the demands of test creators; it crushes curiosity, critical thinking, questioning authority, and challenging and resisting illegitimate authority. In a more democratic and less authoritarian society, one would evaluate the effectiveness of a teacher not by corporatocracy-sanctioned standardized tests but by asking students, parents, and a community if a teacher is inspiring students to be more curious, to read more, to learn independently, to enjoy thinking critically, to question authorities, and to challenge illegitimate authorities.

5. Shaming Young People Who Take Education-But Not Their Schooling-Seriously. In a 2006 survey in the United States, it was found that 40 percent of children between first and third grade read every day, but by fourth grade, that rate declined to 29 percent. Despite the anti-educational impact of standard schools, children and their parents are increasingly propagandized to believe that disliking school means disliking learning. That was not always the case in the United States. Mark Twain famously said, ‘I never let my schooling get in the way of my education.” Toward the end of Twain’s life in 1900, only 6 percent of Americans graduated high school. Today, approximately 85 percent of Americans graduate high school, but this is good enough for Barack Obama who told us in 2009, ‘And dropping out of high school is no longer an option. It’s not just quitting on yourself, it’s quitting on your country.”

The more schooling Americans get, however, the more politically ignorant they are of America’s ongoing class war, and the more incapable they are of challenging the ruling class. In the 1880s and 1890s, American farmers with little or no schooling created a Populist movement that organized America’s largest-scale working people’s cooperative, formed a People’s Party that received 8 percent of the vote in 1892 presidential election, designed a ‘subtreasury” plan (that had it been implemented would have allowed easier credit for farmers and broke the power of large banks) and sent 40,000 lecturers across America to articulate it, and evidenced all kinds of sophisticated political ideas, strategies and tactics absent today from America’s well-schooled population. Today, Americans who lack college degrees are increasingly shamed as ‘losers”; however, Gore Vidal and George Carlin, two of America’s most astute and articulate critics of the corporatocracy, never went to college, and Carlin dropped out of school in the ninth grade.

6. The Normalization of Surveillance. The fear of being surveilled makes a population easier to control. While the National Security Agency (NSA) has received publicity for monitoring American citizen’s email and phone conversations, and while employer surveillance has become increasingly common in the United States, young Americans have become increasingly acquiescent to corporatocracy surveillance because, beginning at a young age, surveillance is routine in their lives. Parents routinely check Web sites for their kid’s latest test grades and completed assignments, and just like employers, are monitoring their children’s computers and Facebook pages. Some parents use the GPS in their children’s cell phones to track their whereabouts, and other parents have video cameras in their homes. Increasingly, I talk with young people who lack the confidence that they can even pull off a party when their parents are out of town, and so how much confidence are they going to have about pulling off a democratic movement below the radar of authorities?

7. Television. In 2009, the Nielsen Company reported that TV viewing in the United States is at an all-time high if one includes the following ‘three screens”: a television set, a laptop/personal computer, and a cell phone. American children average eight hours a day on TV, video games, movies, the Internet, cell phones, iPods, and other technologies (not including school-related use). Many progressives are concerned about the concentrated control of content by the corporate media, but the mere act of watching TV-regardless of the programming-is the primary pacifying agent (private-enterprise prisons have recognized that providing inmates with cable television can be a more economical method to keep them quiet and subdued than it would be to hire more guards).

Television is a dream come true for an authoritarian society: those with the most money own most of what people see; fear-based television programming makes people more afraid and distrustful of one another, which is good for the ruling elite who depend on a ‘divide and conquer” strategy; TV isolates people so they are not joining together to create resistance to authorities; and regardless of the programming, TV viewers’ brainwaves slow down, transforming them closer to a hypnotic state that makes it difficult to think critically. While playing a video games is not as zombifying as passively viewing TV, such games have become for many boys and young men their only experience of potency, and this ‘virtual potency” is certainly no threat to the ruling elite.

8. Fundamentalist Religion and Fundamentalist Consumerism. American culture offers young Americans the ‘choices” of fundamentalist religion and fundamentalist consumerism. All varieties of fundamentalism narrow one’s focus and inhibit critical thinking. While some progressives are fond of calling fundamentalist religion the ‘opiate of the masses,” they too often neglect the pacifying nature of America’s other major fundamentalism. Fundamentalist consumerism pacifies young Americans in a variety of ways. Fundamentalist consumerism destroys self-reliance, creating people who feel completely dependent on others and who are thus more likely to turn over decision-making power to authorities, the precise mind-set that the ruling elite loves to see. A fundamentalist consumer culture legitimizes advertising, propaganda, and all kinds of manipulations, including lies; and when a society gives legitimacy to lies and manipulativeness, it destroys the capacity of people to trust one another and form democratic movements. Fundamentalist consumerism also promotes self-absorption, which makes it difficult for the solidarity necessary for democratic movements.

These are not the only aspects of our culture that are subduing young Americans and crushing their resistance to domination. The food-industrial complex has helped create an epidemic of childhood obesity, depression, and passivity. The prison-industrial complex keeps young anti-authoritarians ‘in line” (now by the fear that they may come before judges such as the two Pennsylvania ones who took $2.6 million from private-industry prisons to ensure that juveniles were incarcerated). As Ralph Waldo Emerson observed: ‘All our things are right and wrong together. The wave of evil washes all our institutions alike.”

Elite brasileira mostra sua cara (Brasil de Fato)

Essa burguesia nos mostra que as necessidades históricas do povo brasileiro somente serão conquistadas com luta, mobilização e unidade

27/07/2011 – Editorial da ed. 439 do Brasil de Fato

“Há casos folclóricos nos hangares do Campo de Marte. Como o da milionária que mandou o cão para o veterinário de helicóptero. Dona da aeronave, ela estava em Maresias (litoral norte) e viu o cãozinho comer a marmita de seu segurança. Ela mandou o piloto voltar imediatamente a São Paulo para fazer exames no pet”, relata um piloto, que pede para não ser identificado.

Acredite. O trecho acima foi extraída da coluna de Eliane Trindade, publicado na Folha de S. Paulo, sob o título: “Helicóptero é usado para ir à balada e ao pet shop”.

Esse fato mostra a absoluta falta de escrúpulos dos poucos privilegiados do nosso país e demonstra mais uma vez o caráter e a natureza da elite brasileira. “Pensei que a história da dona Vera Loyola, há uns quatro anos, ter enviado seu cãozinho para o cabeleireiro de helicóptero e, em seguida, explicado aos jornalistas que o fez “porque o Rio é uma cidade muito violenta” fosse o ‘top de linha’ do escárnio”, diz o jornalista Alipio Freire. No entanto, segundo ele, a cada dia, a elite brasileira – a burguesia no Brasil – mostra sua face de absoluto desprezo e de humilhação contra aqueles aos quais passou a se referir como PPPs (Pretos, Pobres e da Periferia).

Essa notícia só reforça uma característica de parte do Brasil e uma herança maldita: uma burguesia com a cabeça colonizada, saudosa dos tempos da nobreza, realeza. Nossa memória não precisa ser muito estimulada para recordarmos do cão com coleira de diamantes de uma tal socialite, seguido de afirmações de que tal animal era provido de tanta doçura que o feito era pouco. Essa elite, consumista, não se importa de passar o ridículo por algo desta natureza. É a reafirmação de que é uma elite ignorante, colonizada, subserviente, babona, que sonha com o dia em que o Brasil será uma mistura dos paraísos europeus e estadunidense. Dizem que essa mamãe do cão pediu ajuda gritando “help”. E uma coincidência: a opulência sempre combinada com segurança, mal pagos, mal tratados, a ponto de ter uma quentinha que poderia fazer mal para o pobre cão.

SOS burguesia

A segurança é o principal problema do pais, dirá essa “nobreza” deslocada no tempo e espaço. E claro, clamam por polícia, mais investimento em segurança, mais leis, mais rigor, repressão. Afinal, querem copiar o país que tem mais de 1% da sua população encarcerada (EUA). E claro, entre eles há quem bem explore esse clamor. A título de exemplo, a cidade de São Paulo é uma das três maiores consumidoras de carro blindado, a frente de países com guerra civil e conflitos abertos. Se somarmos o crescimento da frota de helicópteros, que na mesma comparação a capital paulista fica entre as cinco metrópoles do mundo em tamanho de frota e volume de voos diários, chegando ao absurdo de ter um bairro – Moema – com mais heliportos do que pontos de ônibus. Patrão por cima, empregados por baixo e filhos no cofre motorizado (blindados). Eis o Brasil desenhado por eles.

Outra imagem simbólica disso são as casas fortificadas, condomínios parecidos com fortalezas da idade média. E o resultado? Segue a insegurança. Propõem com seus meios de comunicação, parlamentares, prefeitos, etc. o aumento dos orçamentos para segurança. Querem o exército nas ruas, tropas, tropas! Recrutam milhares de jovens para trabalhar como seguranças privados, num trabalho de tamanho risco que um dos “benefícios” oferecidos por algumas empresas é auxilio funeral. Um atestado de crueldade. Trabalhadores mal remunerados, obrigados a ter outros bicos, com estímulos econômicos para o uso da “valentia” para evitar assaltos não raras vezes resultando em mortes ou ferimentos graves. Mas se sobrevive, ganha prêmio. Alguns bancos chegam a pagar extra para o segurança que reage e consegue conter um assalto.

Essa mesma elite, em pânico e bradando por mais segurança e mais rigor nas leis, é a mesma que luta contra qualquer mudança que garanta e amplie direitos sociais, mudanças que alterem a concentração de renda, que o povo tenha acesso a programas de combate à pobreza e à miséria, dentre outros. Sempre com um discurso pronto para qualquer intervenção do Estado (quando em benefício do povo): “dar o peixe não resolve”. Cínica, prefere a cadeia à moradia, o trabalho informal, e sempre usando o argumento de que chegou onde chegou por mérito, muito esforço e toda essa velha história do empreendedor. Só esquece de dizer que cresceu e se fez pagando injustamente, com mais da metade dos trabalhadores sem direitos e na informalidade, não aceitando sequer a igualdade de direitos dos trabalhadores domésticos com os demais trabalhadores.

Contradição ou coerência?

Nem mesmo os poucos avanços obtidos com a Constituição Federal depois de muita luta são respeitados, como demonstramos em edições anteriores do Brasil de Fato. As bandeiras do povo, tais como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, o fim do fator previdenciário, resgatar o direito de greve, são bandeiras que essa elite reage com veemência.

Portanto, conhecer melhor os inimigos do povo é um desafio para compreender que essa burguesia só se submete com luta, se forçada pela pressão das massas e do povo organizado. Nada virá de negociações ou concessão.

Essa postura das elites brasileiras, que gasta mais com a alimentação de um cão do que de um trabalhador, que usurpa os recursos públicos, que exige mais recursos do Estado para a (sua) segurança, é a mesma de sempre na defesa de seus privilégios. E, assim, age coerente na recusa dos direitos sociais, contrária à distribuição de renda, aos programas sociais, às políticas públicas e tudo o que pode democratizar o acesso à habitação para todos, como terra para quem trabalha, apoio aos pequenos (campo e cidade), o acesso à educação superior, dentre outros.

Essa é uma característica dessa burguesia. Que prefere integrar -se de forma subordinada à burguesia mundial a ter projeto próprio de nação. Por lucro, passam por cima de tudo, inclusive de qualquer democracia. Essa burguesia nos mostra que as necessidades históricas do povo brasileiro somente serão conquistadas com luta, mobilização e unidade. Assim, quiçá, avancemos rumo à construção de um projeto popular para o Brasil.

Climate Chaos (Against the Grain)

Tues 6.28.11| Climate Chaos

Christian Parenti speaking at a KPFA benefit on July 14th, on Tropic of Chaos: Climate Change and the New Geography of Violence, Nation Books, 2011

Listen to this Program here.

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Residents of the Global North may be justly wringing their hands about flooding, droughts, and freak weather, but the most worrying effects of climate change are expected to hit the countries of the Global South, especially those in the broad regions on either side of the equator. Christian Parenti has reported from that vast area and discusses the shape that climate-related social dislocation is already taking, as well as the militarized plans of the rich countries to keep poor climate refugees out.

© Against the Grain, a program of KPFA Radio, 94.1fm Berkeley CA and online at KPFA.org.

Mato Grosso do Sul tem mais de 600 índios nas universidades e cursos de pós-graduação (Midiamax News)

24/07/2011 13:38

Jucyllene Castilho, com informações da UCDB

Atualmente, há mais de 600 índios nas universidades de Mato Grosso do Sul, segundo estimativa do Projeto Rede de Saberes. Esse número vem crescendo junto ao de pós-graduandos índios, que fazem mestrado é até doutorado dentro ou fora do estado. Na sexta-feira (22), eles se reúnem na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) para pensar a criação de um fórum ou uma rede de pesquisadores indígenas.

Os professores perceberam que a universidade precisa estar preparada para recebê-los e criar formas de reconhecer os conhecimentos que eles já trazem de suas comunidades, ou seja, os conhecimentos tradicionais, que por muito tempo foram subestimados pela academia. A idéia desses professores é mostrar que os saberes destes povos são tão importantes quanto o da universidade, então a academia não deve tentar “engessá-los” em métodos científicos, mas ouvi-los e dialogar com eles.

Desde 1995, professores da UCDB têm trabalhado em projetos com populações indígenas de MS. Eles se articulam à professores de outras universidades do estado para ampliar essas ações e melhor entender quais são as necessidades destas comunidades.

Graduação

A UCDB tem 40 índios na graduação e seis cursando Mestrado em Educação ou Desenvolvimento Local. O número é maior nas universidades do interior do estado, que ficam mais próximas das reservas indígenas. Estes índios são das etnias Guarani, Terena, Kadiwéu, Ofaié e Kinikinau.

O projeto que trabalha especificamente com os universitários indígenas no MS é o Rede de Saberes. Os outros trabalhos de pesquisa e extensão junto aos índios estão articulados ao Programa Kaiowá Guarani, coordenado pelo Antonio Brand e desenvolvido pelo Neppi (Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas), que é coordenado pelo padre George Lachnitt.

Rede de Saberes conta com a parceria entre a UCDB, UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e UEMS (Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul), realizaram no último dia 17, em Dourados, o III Encontro de Acadêmicos Índios e Política Partidária, que reúne índios, professores e representantes de instituições convidadas, além de oito vereadores indígenas.

Durante o evento foi realizada uma discussão entre os parlamentares, estudantes e lideranças, a respeito de estratégias que fortaleçam a presença de índios no segundo maior estado com população indígena do País. Junto com o III Encontro, o Rede de Saberes realiza também nesses dois dias, o 1° Encontro Temático Saberes Tradicionais e Científicos – Direito.

O evento, que conta com a presença do Neppi da UCDB e de acadêmicos do curso de Direito da Católica, busca abrir discussão entre os estudantes sobre os saberes tradicionais e científicos, a fim de articular os dois conhecimentos. Mais informações sobre o Rede de Saberes podem ser obtidas pelo telefone 3312-3351.

On Experts and Global Warming (N.Y. Times)

July 12, 2011, 4:01 PM
By GARY GUTTING

Experts have always posed a problem for democracies. Plato scorned democracy, rating it the worst form of government short of tyranny, largely because it gave power to the ignorant many rather than to knowledgeable experts (philosophers, as he saw it). But, if, as we insist, the people must ultimately decide, the question remains: How can we, nonexperts, take account of expert opinion when it is relevant to decisions about public policy?

Once we accept the expert authority of climate science, we have no basis for supporting the minority position.

To answer this question, we need to reflect on the logic of appeals to the authority of experts. First of all, such appeals require a decision about who the experts on a given topic are. Until there is agreement about this, expert opinion can have no persuasive role in our discussions. Another requirement is that there be a consensus among the experts about points relevant to our discussion. Precisely because we are not experts, we are in no position to adjudicate disputes among those who are. Finally, given a consensus on a claim among recognized experts, we nonexperts have no basis for rejecting the truth of the claim.

These requirements may seem trivially obvious, but they have serious consequences. Consider, for example, current discussions about climate change, specifically about whether there is long-term global warming caused primarily by human activities (anthropogenic global warming or A.G.W.). All creditable parties to this debate recognize a group of experts designated as “climate scientists,” whom they cite in either support or opposition to their claims about global warming. In contrast to enterprises such as astrology or homeopathy, there is no serious objection to the very project of climate science. The only questions are about the conclusions this project supports about global warming.

There is, moreover, no denying that there is a strong consensus among climate scientists on the existence of A.G.W. — in their view, human activities are warming the planet. There are climate scientists who doubt or deny this claim, but even they show a clear sense of opposing a view that is dominant in their discipline. Nonexpert opponents of A.G.W. usually base their case on various criticisms that a small minority of climate scientists have raised against the consensus view. But nonexperts are in no position to argue against the consensus of scientific experts. As long as they accept the expert authority of the discipline of climate science, they have no basis for supporting the minority position. Critics within the community of climate scientists may have a cogent case against A.G.W., but, given the overall consensus of that community, we nonexperts have no basis for concluding that this is so. It does no good to say that we find the consensus conclusions poorly supported. Since we are not experts on the subject, our judgment has no standing.

It follows that a nonexpert who wants to reject A.G.W. can do so only by arguing that climate science lacks the scientific status needed be taken seriously in our debates about public policy. There may well be areas of inquiry (e.g., various sub-disciplines of the social sciences) open to this sort of critique. But there does not seem to be a promising case against the scientific authority of climate science. As noted, opponents of the consensus on global warming themselves argue from results of the discipline, and there is no reason to think that they would have had any problem accepting a consensus of climate scientists against global warming, had this emerged.

Some nonexpert opponents of global warming have made much of a number of e-mails written and circulated among a handful of climate scientists that they see as evidence of bias toward global warming. But unless this group is willing to argue from this small (and questionable) sample to the general unreliability of climate science as a discipline, they have no alternative but to accept the consensus view of climate scientists that these e-mails do not undermine the core result of global warming.

I am not arguing the absolute authority of scientific conclusions in democratic debates. It is not a matter of replacing Plato’s philosopher-kings with scientist-kings in our polis. We the people still need to decide (perhaps through our elected representatives) which groups we accept as having cognitive authority in our policy deliberations. Nor am I denying that there may be a logical gap between established scientific results and specific policy decisions. The fact that there is significant global warming due to human activity does not of itself imply any particular response to this fact. There remain pressing questions, for example, about the likely long-term effects of various plans for limiting CO2 emissions, the more immediate economic effects of such plans, and, especially, the proper balance between actual present sacrifices and probable long-term gains. Here we still require the input of experts, but we must also make fundamental value judgments, a task that, pace Plato, we cannot turn over to experts.

The essential point, however, is that once we have accepted the authority of a particular scientific discipline, we cannot consistently reject its conclusions. To adapt Schopenhauer’s famous remark about causality, science is not a taxi-cab that we can get in and out of whenever we like. Once we board the train of climate science, there is no alternative to taking it wherever it may go.

A vida dos índios da cidade grande (OESP)

Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110717/not_imp745999,0.php

Na Favela Real Parque, onde se instalaram nos anos 1950, pancararus conservam tradições espirituais; em aldeia de Parelheiros, crianças guaranis colhem frutas no pé

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

Assim como migrantes nordestinos, os pancararus começaram a chegar da zona do sertão do São Francisco, em Pernambuco, em meados da década de 1950, em busca de emprego. Eles foram chamados para cortar árvores em loteamentos do bairro do Morumbi, na zona sul, e depois ajudaram nas obras da construção do estádio do São Paulo.

Paulo Liebert/AE. No extremo sul. Índios guaranis na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros

Instalaram-se nos terrenos vizinhos, descampados que viraram a Favela Real Parque, hoje em processo de urbanização. Estima-se que existam pelo menos mais de 3 mil pancararus na capital, o que os tornaria uma das etnias mais numerosas da cidade. “Depois do incêndio na favela (ocorrido em setembro do ano passado), muitos se dispersaram. Eram mil e hoje são cerca de 200. Estão vivendo de aluguel em outros bairros ou voltaram para a aldeia”, diz o pancararu Ubirajara Ângelo de Souza, de 47 anos, que chegou à Real Parque aos 20 anos. Seu pai trabalhou nas obras do estádio do Morumbi.

Na favela ainda existem lideranças espirituais que rezam nas casas dos indígenas locais e usam ervas medicinais para cura. Também há grupos de canto e dança que utilizam trajes tradicionais em festas indígenas na capital. Para se adaptar às transformações na cidade, os pancararus precisaram aprender a conviver nos últimos anos com as lideranças do tráfico local. “É cada um de um lado. Eu os respeito e eles nos respeitam”, diz Ubirajara, que assim que vender sua casa deve voltar para a aldeia onde nasceu, em Pernambuco.

A melhoria de renda nos Estados do Norte e do Nordeste, por sinal, pode estar levando muitos indígenas a retornar às suas aldeias. Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram redução entre aqueles que se declaram indígenas na Grande São Paulo e na capital. Há dez anos, 33 mil pessoas diziam ser indígenas na metrópole. Atualmente, são 21 mil.

A aldeia guarani Tenondê Porã, em Parelheiros. Tiago Queiroz/AE

No ano que vem, o IBGE vai divulgar os números da primeira pesquisa em que os indígenas declararam aos recenseadores suas etnias. O levantamento mais completo na capital havia sido feito no ano passado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e apontou a existência de 22 etnias na metrópole paulista. “Ainda é preciso olhar os números do censo com cautela. Pode estar de fato havendo uma onda migratória, porque os indígenas se mudam com grande frequência. Mas só os resultados detalhados no ano que vem vão permitir sabermos com mais clareza o que está ocorrendo”, afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Mesmo em uma das maiores cidades do mundo, a vida dos índios paulistanos pode ser bem parecida à de indígenas de tribos no interior do País. Na aldeia Tenondê Porã, em Parelheiros, vivem cerca de 1,2 mil guaranis, a 70 quilômetros da Praça da Sé. São basicamente oito grandes famílias, com filhos, netos, bisnetos, genros e noras, que compartilham casas de tijolos, construídas pelo Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU), seguindo as orientações dos próprios indígenas.

Pratica-se basicamente a agricultura de subsistência, que fornece o alimento cotidiano. Há bananeiras, pés de goiaba, mexerica, goiaba, laranja e manga, que as crianças colhem no pé. A renda vem basicamente do artesanato indígena, vendido para lojinhas da capital.

O cacique, líder local, trava atualmente uma briga para ampliar os perímetros das terras guaranis. Cinco pajés servem como guias espirituais, dando conselhos e rezando em uma casa sagrada. Os pajés também batizam as crianças da aldeia com nomes em guarani, dependendo das características de cada uma. “Vivemos em família, por isso nunca um deixa faltar nada ao outro em nossa comunidade”, afirma o coordenador educacional indígena da aldeia, Adriano Veríssimo, que em guarani se chama Tenonde Porã, nome que significa “belo futuro”.

A vida fora das aldeias pode ser mais difícil. O terena Elton José, de 32 anos, veio para Mogi das Cruzes há dez anos, depois de nascer em uma aldeia em Mato Grosso do Sul onde caçava com lanças e morava em ocas de palha. Acabou seus estudos na Grande São Paulo e hoje trabalha com tecnologia da informação, prestando serviço a grandes empresas. Ele admite que na Grande São Paulo teve acesso a um tipo de conforto que jamais teria se tivesse permanecido em sua aldeia, mas sente falta do que deixou para trás e quer voltar. “Há conforto, mas não há qualidade de vida. Sinto falta do mato. Em São Paulo, você vegeta se não tem dinheiro. O contato familiar é sempre difícil e a relação com os parentes é algo que prezamos muito”, diz.

Elton conta, no entanto, que só passou a realmente valorizar a cultura indígena depois de deixar a sua aldeia.

Ana Rosa Verissimo, de 89 anos, quarenta deles vividos na aldeia Tenondê Porã. Ela veio com o marido do Paraná e tem mais de cem descendentes, entre filhos, netos e bisnetos. Paulo Liebert/AE

Keila Pires de Lima, de 7 anos, na aldeia guarani Tenondê Porã, Paulo Liebert/AE

O xavante Lúcio Waane Terowaa usa brincos de madeira santa. Segundo a tradição, eles ajudam a prever o futuro por meio dos sonhos. Nilton Fukuda/AE.

Índias da aldeia guarani Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

Tucano e indiozinho na aldeia Tekoa Pyau, na região do Jaraguá. Paulo Liebert/AE

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Cidade de SP tem 38 etnias indígenas
Levantamento da ONG Opção Brasil mostra que Região Metropolitana tem quase o mesmo nº de povos que o Estado do Amazonas

17 de julho de 2011
Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

O índio xavante Lúcio Waane Terowaa, de 33 anos, migrou para São Paulo há cinco anos vindo de uma tribo de Barra do Garças, em Mato Grosso. Chegou ao Itaim Paulista, na zona leste, para seguir os passos do mais famoso representante de sua etnia, o cacique Mário Juruna, eleito deputado constituinte em 1986, conhecido por gravar promessas suspeitas de políticos.

No ano passado, em São Paulo, Terowaa se lançou candidato a deputado estadual pelo PSL e teve 318 votos. Em vez do gravador, usa o Facebook como ferramenta política. Tem 910 amigos, com quem debate formas de criar uma aldeia “ecologicamente correta” e autossustentável, que sirva como modelo a ser replicado no Brasil, a partir de São Paulo. “Tenho amigos virtuais de 23 etnias só aqui na cidade. É uma das maiores diversidades do Brasil e por isso São Paulo é uma base importante para a política indígena.”

As impressões do xavante são confirmadas pelo levantamento feito pela ONG Opção Brasil, que organiza cursos de educação indígena nas tribos de São Paulo. Na Região Metropolitana, a Opção Brasil já contactou índios de 54 etnias diferentes – 38 só na capital. No Estado do Amazonas, o site da Fundação Nacional do Índio relaciona 60 etnias.

A exemplo de migrantes das zonas rurais e sertões, os indígenas de São Paulo chegam em busca de emprego e vivem principalmente em bairros pobres da periferia. “Fazemos o mapeamento pelo contato boca a boca. Um índio passa o telefone de outro. O objetivo é criar uma rede para que a vida na cidade grande seja mais fácil”, explica o coordenador da Opção Brasil, Marcos Aguiar.

Os guaranis – índios autóctones que já viviam no Estado antes da chegada dos portugueses – são a única etnia a viver em aldeias na cidade. Duas delas, a Krucutu e a Tenonde Porã, ficam em Parelheiros, na zona sul. A terceira, a Tekoah Itu, é do Pico do Jaraguá, na zona norte. Reúnem cerca de 3 mil guaranis. A Expedição Metrópole foi até lá visitá-los (veja na C3).

As outras 53 etnias são formadas por índios que moram em bairros e favelas da metrópole. Pode ser um pastor evangélico wassu cocal ou um faxineiro cambiuá. Em comum, enfrentam o desafio de carregar uma cultura tradicional e coletivista em uma sociedade moderna e competitiva. “Viver no mundo de hoje sem negar as origens é uma arte”, diz a pedagoga Chirley de Souza Almeida Santos, de 37 anos, pancará que mora na cidade há 12.

“O socialismo é uma doutrina triunfante” (Brasil de Fato)

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

12/07/2011

Joana Tavares

da Redação

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.

Travestis e transexuais terão direito a usar nome social no estado (O Globo)

Publicada em 11/07/2011 às 13h24m
Ruben Berta

RIO – O governador Sérgio Cabral publica decreto no Diário Oficial desta segunda-feira determinando que os travestis e transexuais poderão utilizar seu nome social (como são identificados na sua comunidade e em seu meio social) em todos os procedimentos da Administração Direta e Indireta do Estado do Rio.

De acordo com o texto, todos os registros do sistema de informação, cadastros, fichas, requerimentos e formulários deverão conter um campo para a colocação do nome social, sendo a nomenclatura civil utilizada somente para procedimentos internos. A Secretaria da Casa Civil terá 120 dias para promover todas as adaptações.

Em maio deste ano, o prefeito Eduardo Paes já havia publicado um decreto semelhante , garantindo o mesmo direito para servidores e usuários de serviços do município.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/07/11/travestis-transexuais-terao-direito-usar-nome-social-no-estado-924875811.asp#ixzz1RofWEVUp
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Dilma Rousseff – a favela with a presidential name (The Guardian)

Renaming of Brazilian shantytown puts spotlight on problems facing country’s 16 million citizens living in extreme poverty

Tom Phillips in Rio de Janeiro ; guardian.co.uk, Monday 27 June 2011 16.58 BST

Three-month old Karen da Silva – the youngest resident of Dilma Rousseff – with her mother, 23-year-old Maria da Paixao Sequeira da Silva. Photograph: Tom Phillips

They call her Dilma Rousseff’s daughter: a dribbling three-month-old girl, coated in puppy fat and smothered by cooing relatives.

But Karen da Silva is no relation of Brazil’s first-ever female president. She is the first child to be born into one of the country’s newest favelas – the Comunidade Dilma Rousseff, a roadside shantytown on the western outskirts of Rio de Janeiro that was recently re-baptised with the name of the most powerful woman in the country

“She’s Dilma’s baby,” said Vagner Gonzaga dos Santos, a 33-year-old brick-layer-cum-evangelical preacher and the brains behind the decision to change the name of this hitherto unknown favela.

Last month, just as Rousseff was about to complete six months in power, Santos says he received a heaven-sent message suggesting the renaming.

“God lit up my heart,” he said. “The idea was to pay homage to the president and also to get the attention of the government, of our leaders, so they look to us and help the families here. The poor are God’s children too.”

Until recently, the 30-odd shacks that flank the Rio-Sao Paulo highway were known simply as “kilometre 31”. But its transition to Dilma Rousseff has not been entirely smooth.

At first, locals plastered A4 posters on the area’s walls and front doors, announcing the new name. But the posters referred to the Comunidade “Roussef” – one “f” short of the president’s Bulgarian surname. In May a sign was erected welcoming visitors to their shantytown, but again spelling proved an issue. This time the name given was “Dilma Rusself.”

That mistake has now been corrected, after an intervention from the preacher’s wife, who took a pot of red nail varnish to the sign. Locals say the name-change is starting to pay off.

“It’s been good having the president’s names,” said Marlene Silva de Souza, a 57-year-old mother of five and one of the area’s oldest residents. “Now we can say our community’s name with pride. Before we didn’t have a name at all.”

Dozens of Brazilian newspapers have flocked to the community – poking fun at its misspelt sign but also drawing attention to the poor living conditions inside the favela.

“It has brought us a lot of attention … The repercussion has been marvellous. Today things are starting to take shape, things are improving,” said Santos, who hopes local authorities will now formally recognise the favela, bringing public services such as electricity and rubbish collection.

Still, problems abound. Raw sewage trickles out from the houses, through a patchwork of wooden shacks, banana and mango trees and an allotment where onions sprout amid piles of rubbish. Rats and cockroaches proliferate in the wasteland that encircles the area.

Ownership is also an issue. Dilma Rousseff is built on private land – “The owners are Spanish, I think,” says Santos – and on paper the community does not officially exist. Without a fixed abode Karen “Rousseff” da Silva – the favela’s firstborn child – has yet to be legally registered.

Last month the Brazilian government launched a drive to eradicate extreme poverty unveiling programmes that will target 16 million of Brazil’s poorest citizens.

“My government’s most determined fight will be to eradicate extreme poverty and create opportunities for all,” Rousseff said in her inaugural address in January. “I will not rest while there are Brazilians who have no food on their tables, while there are desperate families on the streets [and] while there are poor children abandoned to their own fate.”

Residents of Rousseff’s namesake, who scratch a living selling biscuits and drinks to passing truck drivers, hope such benefits will soon reach them.

A visit from the president herself may also be on the cards, after Santos launched an appeal in the Brazilian media.

“We dream of her coming one day,” said the preacher, perched on a wooden bench outside his redbrick church, the House of Prayers. “It might be impossible for man to achieve, but for God everything is possible.”

Naming a community

Tear-jerking soap operas, political icons, stars of stage and screen – when it comes to baptising a Brazilian favela, all are fair game. The north-eastern city of Recife is home to favelas called Ayrton Senna, Planet of the Apes and Dancing Days, the title of a popular 1970stelenovela,

In the 1980s residents of a shantytown in Belo Horizonte named their community Rock in Rio – a tribute to the Brazilian rock festival that has played host to acts such as Neil Young, David Bowie and Queen.

Rio de Janeiro is home to the Boogie Woogie favela, the Kinder Egg favela and one community called Disneylandia. Vila Kennedy – a slum in west Rio – was named after the American president John F Kennedy and features a three-metre tall replica of the Statue of Liberty. Nearby, locals christened another hilltop slum Jorge Turco or Turkish George. Jorge was reputedly a benevolent gangster who ruled the community decades ago.

AP Enterprise: Indian tribes welcome much-maligned FEMA homes that were rejected after Katrina (Washington Post)

By Associated Press, Updated: Wednesday, July 6, 8:07 AM

LITTLE AXE, Okla. — Wanda Tiger and her husband needed a new home after a long-term house-sitting arrangement came to an end. But for members of their American Indian tribe in rural Oklahoma, affordable housing options were few.

Then tribal leaders learned of an impossibly attractive offer: Mobile homes that had never been occupied were available from the government almost for free. They had stood vacant for years after being rejected as temporary housing following Hurricane Katrina.

(Sue Ogrocki / Associated Press) – Charles Tiger is pictured during an interview in his FEMA trailer home in Little Axe, Okla., Thursday, June 16, 2011. Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

To Tiger and members of other tribes, the homes seemed perfect, even luxurious.

“When you ain’t got nothing, you’re happy with whatever you can get,” said Tiger, a member of the Absentee Shawnee tribe who now lives in a three-bedroom home courtesy of the Federal Emergency Management Agency. “They call them temporary homes, but hey, sometimes it’s your permanent home, and we’re satisfied with it.”

Nearly six years after the hurricane, the mobile homes that became a symbol of the government’s failed response are finally being put to good use. FEMA has quietly given many of them away to American Indian tribes that are in desperate need of affordable housing.

In the aftermath of the 2005 hurricane, FEMA bought thousands of temporary homes for $20,000 to $45,000 each — both mobile homes and travel trailers.

The mobile homes proved impractical in areas where power and water service had been destroyed. And some people living in travel trailers started to fall sick because the RVs had high levels of formaldehyde, a cancer-causing chemical common in building materials.

Since then, it seemed doubtful that many of the mobile homes would ever be used. But on American Indian reservations, the offer of free housing has been welcomed, particularly among families who live in conditions so crowded that it’s not uncommon for a single mobile home to be shared by more than a dozen relatives.

Tribes have taken almost 2,000 of the government homes and requested more.

Before and during Katrina, critics complained that the homes would not protect residents from future storms. Some also worried the shelters would turn into permanent housing, potentially creating neighborhoods of dilapidated mobile homes.

Then the formaldehyde concerns arose, leading the government to trash most of the travel trailers or sell them to people who signed papers promising not to live in them.

The mobile homes that remained were parked at FEMA storage centers all over the country, costing the agency millions each year to maintain. At one point, more than 19,000 were parked at the Hope, Ark., airport. The fleet was so large that two of the facility’s three runways were closed for more than five years.

Although the mobile homes were never suspected of making anyone sick, most stayed empty, even after new disasters struck.

In Cordova, Ala., which was among the many places crippled by this spring’s historic tornado season, local leaders refused to let the mobile homes into town, despite pleas from some residents who wanted the shelters.

“I don’t feel guilty,” Mayor Jack Scott said, explaining that he did not want the shelters to become permanent. “I can look anyone in the eye.”

FEMA slowly auctioned off most of the homes and found uses for others, including giving some to the tribes. It has also used a limited number of homes in areas recently struck by twisters, including Joplin, Mo., and other parts of Alabama.

For the last several years, the agency “has been working to reduce the number of units in our inventory, while maintaining the capability to purchase units through pre-positioned contracts,” FEMA said in a statement.

Susan Popkin, a housing expert at the Washington-based Urban Institute, questioned the purchase of the shelters, suggesting that it might have been smarter to give storm victims vouchers to rent apartments than to offer them a trailer.

“It was a big stretch for them to take that on after Katrina,” Popkin said. “Their strength is in dealing with people for the first few weeks after the emergency.”

But tribal leaders were thrilled to take the homes.

After 1,300 mobile homes were distributed to tribes during 2008 and 2009, federal officials asked early this year if they wanted more, said Brian Sullivan, a spokesman for the Department of Housing and Urban Development. Ninety-five tribes responded with requests for 3,000 homes — five times as many as were available.

About 550 homes were distributed this spring. Tribal governments paid only to transport them.

John Ballard, chief of the Ottawa Tribe in far northeastern Oklahoma, said his tribe spent an average of $3,000 to acquire each home. The tribe has received 39 units for the elderly and first-time homebuyers, he said.

“Three thousand dollars is not too much to pay for a house,” Ballard said. “These trailers are a great deal for our tribe … I would take 100 more. I’ve had people send me pictures and thank-you cards and want to give me their first-born over this stuff. This has made a great impression on peoples’ lives.”

Similar stories are told by George Blanchard, governor of the Absentee Shawnee Tribe, and Paula Pechonick, chief of the Delaware Tribe of Oklahoma. Blanchard said his only gripe is that there aren’t enough homes to meet the demand.

Tiger and her husband, who live in Little Axe, a rural community southeast of Oklahoma City, were surprised that the homes had been vacant for so long.

“We saw it on the news, and we thought so many people like ourselves could use them, but they were just sitting there,” Tiger said. “Why did it take someone so long to decide, ‘Hey, these could be used’? There are a lot of homeless people in this country.”

The retired couple had been house-sitting for a relative for years when the family member told them they needed to leave in a few weeks.

After being approved for one of the government homes, tribal workers cleared some trees from a piece of land owned by the Tigers. Their new place even had an air conditioner, a luxury on the reservation.

The paperwork that came with the home in 2009 included a warning about formaldehyde and possible symptoms, but the Tigers have never experienced any problems.

Compared to some homes on reservations, FEMA’s homes are like “castles,” said Cheryl Causley, chairwoman of the National American Indian Housing Council.

“It shows you the vast discrepancy and the uneven treatment among the citizens of the United States,” Causley said. “Our people would go miles to receive those units. If there’s any more of them, we would love them. Our need is that extreme.”

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Merchant reported from Little Rock, Ark.

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“A população não tem a quem recorrer para divulgar os seus problemas” (Envolverde/Adital)

25/5/2011 – 09h47

por Raquel Júnia*

1350 A população não tem a quem recorrer para divulgar os seus problemasEmerson Claudio dos Santos, mais conhecido como MC Fiell.

No dia Internacional da Liberdade de Expressão, os equipamentos de uma rádio comunitária localizada em uma favela do Rio de Janeiro foram apreendidos pela Polícia Federal e pela Anatel. Dois dos coordenadores da rádio foram levados para prestar depoimento. Nesta entrevista, Emerson Claudio dos Santos, mais conhecido como MC Fiell, presidente da Rádio Comunitária Santa Marta, fala sobre o exercício do direito à comunicação em um cenário de legislação restritiva e favorecedora dos interesses das mídias comerciais. Como o próprio nome já diz, a rádio se localiza na favela Santa Marta e atualmente, devido à apreensão dos equipamentos, está transmitindo apenas pela internet. Nesta entrevista, Fiell ajuda na reflexão sobre o papel das mídias que se pretendem contra-hegemônicas — comunitárias, alternativas, populares ou institucionais.

Que desafios as rádios comunitárias têm hoje?

A burocracia da lei de rádio é para você não ter rádio mesmo. Um dos maiores problemas dentro do capitalismo é grana. É uma armadilha, eles mesmos fazem os trâmites para o povo não ter o acesso. Mas sabemos dos problemas e vamos avançando. Em nossa rádio, por exemplo, fazemos festa para arrecadar grana, vendemos produtos como as camisetas da rádio, dando jeitos sem comercializar a rádio. Esta lei precisa ser mudada, senão o povo não terá acesso a esse direito. Só as rádios comunitárias não podem fazer propaganda. Enquanto isso a maioria das rádios comerciais está irregular, e tem as concessões renovadas automaticamente. Só o povo é punido e podado dos seus direitos.

Que mudanças na legislação você considera como mais fundamentais?

A Lei das Rádios Comunitárias tem que ser mudada em tudo, temos que fazer uma nova lei. Não tem como uma comunidade, por exemplo, no interior do Ceará, ter como exigência para uma rádio comunitária se legalizar uma associação formada por mais cinco instituições no raio de um quilômetro. Como vai fazer isso? Aqui já é difícil, imagine em outros lugares. É preciso outra lei construída com participação dos comunicadores e do povo.

E você vê alguma perspectiva de mudança da lei?

Se não tivermos perspectivas estamos mortos, temos que avançar. Um dos principais motivos pelos quais não avançamos é o desconhecimento. Quando você divulga alguma coisa, o povo fica sabendo e reage. A mesma coisa acontece com outros direitos, como o direito à saúde, à moradia. A comunicação hegemônica mantém o povo paralisado, engessado. As rádios comunitárias vêm para trocar ideias com o povo, mostrar seus direitos e deveres e tentar caminhar de outras formas, com escolhas. Há pouco interesse do poder público em mudar isso. Essa mudança se dará pela luta popular, das organizações em defesa da democratização da comunicação e de outros setores da sociedade que vão querer dialogar sobre isso e exigir que mude, que o povo tenha realmente acesso à comunicação, não só na teoria, mas na prática.

A rádio Santa Marta sofreu um fechamento pela polícia federal recentemente. Esta realidade se repete em todo o país?

A nossa rádio estava há oito meses no ar, cumpre tudo o que a legislação pede: não comercializamos, não vendemos programas, não temos partido, enfim, nós sempre buscamos exercer nossos deveres para conquistarmos nossos direitos. A rádio foi fechada de forma ilegal porque a Anatel, junto com a Polícia Federal, chegou aqui sem nenhum mandado, sem nenhum documento formal no nome da rádio Santa Marta, e mesmo assim confiscaram o transmissor e nos conduziram à delegacia para prestar depoimento. Se nós estamos ilegais porque não temos a outorga, eles estão ilegais por não terem mandado de busca e apreensão.

Infelizmente isto é corriqueiro no Brasil. No país todo está havendo uma grande criminalização das rádios comunitárias: a própria mídia hegemônica divulga que a rádio comunitária é pirata, que derruba avião, e isto é pura mentira. A gente costuma brincar que se rádio comunitária derrubasse avião, os terroristas montariam rádios comunitárias e não precisariam mais jogar bombas contra os aviões. E muitas pessoas, infelizmente sem informação política e sem visão crítica, acredita, mas esta é só uma forma de criminalizar para não termos acesso a essas ferramentas. Há dados que mostram que o governo Lula, infelizmente, foi o que mais fechou rádios. Mas temos que lutar mesmo porque nada será dado de forma voluntária aqui no Brasil, terá que ser conquistado na marra, de forma organizada. Isso tudo só vai mudar quando entendermos uma coisa: que os governantes precisam ser subordinados ao povo e não o povo subordinado ao governo. Quando entendermos isso, tudo mudará.

Como foi o depoimento que vocês deram na delegacia?

Eles perguntaram se a rádio é de pastor, se é de político, se existe comercialização, se eu tenho antecedentes criminais, se tenho marcas no corpo como tatuagem, se tenho bens materiais… Ter tatuagem não tem nada a ver com comunicação. Eu tenho tatuagem. Eu sou livre, eu faço o que eu quiser com o meu corpo. Eu falei: ‘se para vocês é crime, o único crime que eu faço é fazer rádio comunitária. O crime que eu cometo é prestar serviço à favela, de forma voluntária’. É surreal. E isso tudo aconteceu no dia 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Expressão, e o que aconteceu só mostra que não temos liberdade de expressão.

Por que vocês acreditam que após oito meses de funcionamento da rádio a polícia e a Anatel foram até lá?

Temos diversas possibilidades para isso, mas temos pensado que é porque começamos a incomodar, temos feito um bom trabalho de alfabetização e de formação política para o povo. O povo está se apoderando de seus direitos. Infelizmente, no Brasil, quando você fala a verdade, é criminalizado e tirado de circulação. Quando você se organiza, alguma coisa acontece, e sempre terá repressões. Quando buscamos um coletivo, o poder para o coletivo, isto desagrada muita gente, e o próprio governo. Porque vivemos em um país capitalista onde a lógica é individual e da competição e conosco aqui a lógica é coletiva, todo mundo tem voz, todo mundo é igual e todo mundo pode fazer. Então, isto incomoda a quem não adere a essa filosofia. Por mais que tentem, nunca vão calar a voz do povo.

A mídia comercial esteve bastante presente no Santa Marta cobrindo a instalação e primeiras ações da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Qual a diferença no enfoque dado ao Santa Marta antes e depois da UPP?

Desde a primeira favela, esses espaços sempre apareceram na mídia de uma forma ínfima, violenta, mostrando o povo da favela como mau e violento. O Santa Marta não é diferente, o seu povo sempre apareceu nas páginas da grande mídia sendo tratado como traficante, e o morro como um lugar de perigo. Depois, em 2009, com a entrada da UPP, essa mesma mídia que relacionava toda a população com o tráfico de drogas, agora fala que essa população tem voz. É uma jogada de interesses. Essa própria mídia, no caso a Globo, ineditamente fica 30 dias dentro do Santa Marta, cobrindo, fazendo link ao vivo, mas, na real, não deu voz ao povo. Esteve aqui para fazer uma jogada de marketing e mostrar o que ela queria, não mostrava os problemas da favela, não dava voz às lideranças críticas da favela, ela continua mostrando o que ela quer. E isto mostra que o poder está nas mãos deles.

A rádio comunitária Santa Marta também mostra o que quer, no entanto, sabemos que a construção do que sai na rádio é diferente. Qual é esta diferença?

A rádio Santa Marta mostra o direito do povo, ela é plural, isto é que é diferente. Uma rádio comunitária nasce para dar voz à população dessa favela; ela já começa diferente porque tem gestão, mas não tem dono, o dono é o povo. Quando o povo necessita, ela é acessível, fala dos problemas locais, da cidade, também do mundo. Mas as prioridades são os problemas, os projetos e os acontecimentos da localidade. O povo do Santa Marta nunca teve uma mídia que falasse dela como a Rádio Santa Marta faz. Este é o diferencial de uma rádio comunitária quando ela está a serviço do povo. Porque é importante salientar também que algumas outras rádios estão a serviço do lucro. A nossa, desde o princípio, está a serviço dos interesses do povo dessa favela.

Como isto se expressa na programação da rádio?

Nós temos uma programação plural, toda a diversidade cultural do Santa Marta está na rádio. São mais de 20 programas, começa às 6 horas e vai até meia noite. E tem programas jornalísticos, musicais, mas todos são informativos, porque a todo momento chegam notícias, e em todos eles a população tem linha direta: ela liga e participa e, se quer falar, é colocada ao vivo. Tem programas de entrevista sobre diversos assuntos – direito à moradia, alimentação, educação no Brasil, vida do trabalhador, programas que contam a história de imigrantes, como o Saudades da Minha Terra. Nós pedimos para as pessoas enviarem emails com críticas, ideias e fazemos nossa reunião quinzenal principalmente para isso, para ficar sabendo como estão os programas. A população pode participar da reunião, é aberta. Incluímos sempre o povo nas ações da rádio, não decidimos nada sozinhos, é tudo pelo interesse do povo.

Existe uma polêmica sobre a participação de partidos e religiões nas rádios comunitárias. Alguns acreditam que a rádio pode abrir espaços para essas instituições desde que seja contemplada a pluralidade local. Já outros acham que isto não deve acontecer. Como vocês pensam estas questões?

Aqui tem um programa gospel. O que pedimos é que o locutor não fique pregando e nem condicionando o povo. Partido político não tem mesmo, não queremos isso, cada um tem o seu e temos que usar o espaço da rádio para outras coisas. Agora, religião, se tiver várias, elas precisam ter espaço para que possam divulgar os seus eventos, por exemplo, mas sem pregar. No caso desse programa gospel, ele não é de nenhuma igreja, é um morador que é evangélico e faz o programa. As pessoas pedem músicas gospel, mas ele também fala o que está acontecendo no Santa Marta. É um programa igual ao de hip hop, só que é gospel, porque as pessoas também gostam desse tipo de música.

Como a rádio comunitária tenta responder a esse desafio de cativar um público já acostumado com a estética da mídia comercial para passar outro tipo de mensagem?

A população aprova a rádio, inclusive estamos numa campanha de um abaixo-assinado (em defesa da rádio) e a população vem assinar, traz a família. Por ser rádio comunitária, não se configura que seja uma rádio menor. A programação tem o mesmo potencial de qualquer outra rádio, tem vinhetas de qualidade, programadores de qualidade, porque também fazemos capacitação de locução, de jornalismo dentro da rádio. Então, ela não deixa nada a desejar, a única coisa diferente é que ela não abrange o Rio de Janeiro, mas apenas o raio de um quilômetro — Santa Marta e uma pequena parte de Botafogo —, com uma programação de altíssima qualidade.

O povo percebeu e aprovou que a rádio comunitária é ao mesmo tempo igual a qualquer outra e diferente porque fala dos nossos assuntos e do nosso povo e as outras não falam, a não ser quando é de interesse delas. Desde o início, não nos preocupamos em fazer uma réplica de programas das rádios comerciais, falamos em nossa linguagem coloquial, não somos acadêmicos e isso não tem nenhum problema, o que importa é o povo entender a mensagem. Trazemos mensalmente algum curso de comunicação comunitária, de operação de som, para todos nós avançarmos juntos, continuarmos melhorando a programação e a própria rádio, entendendo sempre que a intenção é falar para o nosso povo. Infelizmente nosso povo não está nos devidos lugares, como as faculdades e escolas, é um povo escravizado de carteira assinada. Então, avançamos, mas sabendo que tem que ser sem muros na linguagem. “O parceiro” e “a parceira” não podemos perder, a linguagem da favela não podemos esquecer, a Dona Maria não vai sair da nossa linguagem. Então, avançamos sem perder identidade.

Como a rádio consegue se manter e também garantir essa formação?

Por meio de parcerias com movimentos sociais, sindicatos, instituições, que fazem um trabalho voluntário. Vamos buscando juntos o entendimento de que a rádio é importante para os sete mil moradores do Santa Marta. Como a rádio não pode fazer propaganda, vender comercial, os amigos da rádio doam algum valor financeiro, os locutores todos doam também, porque todos têm um trabalho voluntário na rádio e outros trabalhos remunerados fora da rádio. Todos nós entendemos que juntos manteríamos a rádio para continuar com a nossa voz viva e calorosa no Santa Marta.

Como um dos coordenadores da rádio, você percebe a comunicação hoje de uma forma diferente?

Para nós há duas maneiras de entender a comunicação. Uma comunicação é a que a classe dominante usa, para poder educar e dominar um povo. E a nossa é a que usamos para esclarecer o povo, para levar mais informações sobre a sua realidade da vida. Sempre houve essas duas maneiras de comunicação, uma hegemônica e outra da classe popular, que tenta de alguma forma esclarecer o povo. Infelizmente nem todos os trabalhadores têm essa clareza, quando vamos participando de alguns momentos de formação política é que vamos percebendo. Eu pude perceber isso quando fiz um curso de comunicação comunitária com o Núcleo Piratininga de Comunicação: até então eu sabia que existia desigualdade também na comunicação, mas não da forma como eu entendo hoje.

* Raquel Júnia é da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), Fiocruz.

** Publicado originalmente no site Adital.

Aceitam tudo (Terra Magazine)

Quinta, 19 de maio de 2011, 08h14 Atualizada às 18h50 (link original aqui).

Trecho do livro “Por uma Vida Melhor” apresenta a pergunta “posso falar ‘os livro’?”

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

De vez em quando, alguém diz que lingüistas “aceitam” tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). Um comentário semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.

Mas a razão para tentar ser claro não tem mais a ver apenas com aquele comentário. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentários, entrevistas etc. a propósito de um livro de português que o MEC aprovou e que ensinaria que é certo dizer Os livro. Perguntado no espaço dos comentários, quando fiquei sabendo da questão, disse que não acreditava na matéria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso à indigitada página, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler.

Vou tratar do tal “aceitam tudo”, que vale também para o caso do livro.

Primeiro: duvido que alguém encontre esta afirmação em qualquer texto de linguística. É uma avaliação simplificada, na verdade, um simulacro, da posição dos linguistas em relação a um dos tópicos de seus estudos – a questão da variação ou da diversidade interna de qualquer língua. Vale a pena insistir: de qualquer língua.

Segundo: “aceitar” é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.

Não só não se pergunta se eles “aceitam”, como também não se pergunta se isso tudo está certo. Como se sabe, houve época em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraçado pelos médicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mãos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autópsia e fosse verificar o grau de dilatação de uma parturiente). Não faltou quem dissesse “quem é ele para mandar a gente lavar as mãos?”

Ou seja: não se trata de aceitar ou de não aceitar nem de achar ou de não achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, três quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estávamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! Não era um congresso científico, nem um julgamento do Supremo!

Um linguista simplesmente “anota” os dados e tenta encontrar uma regra, isto é, uma regularidade, uma lei (não uma ordem, um mandato).

O caso é manjado: nesta variedade do português, só há marca de plural no elemento que precede o nome – artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, três quilo). Se houver mais de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invariável. O linguista vê isso, constata isso. Não só na fila do supermercado, mas também em documentos da Torre do Tombo anteriores a Camões. Portanto, mesmo na língua escrita dos sábios de antanho.

O linguista também constata the books no inglês, isto é, que não há marca de plural no artigo, só no nome, como se o inglês fosse uma espécie de avesso do português informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele não tem alternativa! É um dado, é um fato, como a combustão, a gravitação, o bico do tucano ou as marés. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse é outro departamento, ao qual volto logo.

Faço uma digressão para dar um exemplo de regra, porque sei que é um conceito problemático. Se dizemos “as cargas”, a primeira sílaba desta sequência é “as”. O “s” final é surdo (as cordas vocais não vibram para produzir o “s”). Se dizemos “as gatas”, a primeira sílaba é a “mesma”, mas nós pronunciamos “az” – com as cordas vocais vibrando para produzir o “z”. Por que dizemos um “z” neste caso? Porque a primeira consoante de “gatas” é sonora, e, por isso, a consoante que a antecede também se sonoriza. Não acredita? Vá a um laboratório e faça um teste. Ou, o que é mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga “as gatas” e perceberá a vibração. Tem mais: se dizemos “as asas”, não só dizemos um “z” no final de “as”, como também reordenamos as sílabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas (“as” se dividiu, porque o “a” da palavra seguinte puxou o “s/z” para si). Dividimos “asas” em “a.sas”, mas dividimos “as asas” em a.sa.sas.

Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem só teve aula de certo / errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difícil entender que o trabalho do linguista é completamente diferente do trabalho do professor de português.

Não “aceitar” construções como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais “chocantes” é, para um linguista, o que seria para um botânico não “aceitar” uma gramínea. O que não significa que o botânico paste.

Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasça no ano 2500. Suponha que o português culto de então inclua formas como “A casa que eu moro nela mais os dois armário vale 300 cabral” (acho que não será o caso, mas é só um experimento). Seu descendente nunca saberá que fala uma língua errada. Saberá, talvez (se estudar mais do que você), que um ancestral dele falava formas arcaicas do português, como 300 cabrais.

Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.

O linguista não propõe isso por duas razões: a) as pessoas já sabem falar os livro, não precisam ser ensinadas (observe-se que ninguém falao livros, o que não é banal); b) ele acha – e nisso tem razão – que é mais fácil que alguém aprenda os livros se lhe dizem que há duas formas de falar do que se lhe dizem que ele é burro e não sabe nem falar, que fala tudo errado. Há muitos relatos de experiências bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relação à fala dos alunos.

Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou não.

PS 1 – todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 – Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: “quando eu TAVA na escola…”. Uma carta de leitor que criticava a forma “os livro” dizia “ensinam os alunos DE que se pode falar errado”. Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse “a língua é ONDE nos une” e Monforte perguntou “Onde FICA as leis de concordância?”. Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

* * *

[Quatro dias após esse excelente artigo de Sírio Possenti, O Globo publica editorial – abaixo – onde fica evidente que, como sugere Sírio, tanto foco em questões formais tem o intuito de esconder a baixa qualidade dos argumentos (e do jornalismo que daí decorre). Um verdadeiro show de conservadorismo reducionista: escola é pra “salvar os pobres” inculcando-lhes “a verdadeira cultura”, essa que também deve ser a marca da “inteligência do País”. A qualidade da educação, sugere o texto, se mede com indicadores estatísticos apenas – e não tem nada que ver com a formação de cidadãos, membros ativos de suas comunidades, etc. Ou seja, a educação é um problema técnico, e não político. Na minha opinião, a classe média carioca não merece tanto bolsonarismo.]

Desatino nas escolas

Editorial do jornal O Globo de 23/05/2011.

Os dicionários definem o termo “didática” como a técnica de ensinar, meio para dirigir e orientar o aprendizado. Os livros didáticos, por extensão, se constituem no instrumento pelo qual o ensino do uso correto da língua é ministrado nas escolas. Ao permitir na rede pública – base da formação educacional da grande maioria dos estudantes do País – a adoção de um livro que permite erros de português como parte do processo de aprendizagem, o MEC dá abrigo a uma perigosa contradição. Em nome de uma ideologia de proteção a “excluídos da sociedade”, o governo avaliza um projeto que, na prática, inviabiliza a inclusão. Coonestar erros de gramática, sob o falso princípio de que se deve derrubar preconceitos linguísticos, agrava o marginalismo cultural a que o desconhecimento da língua condena aqueles que, por enfrentar condições sociais adversas, têm poucas chances de adquirir conhecimentos que lhes permitam mudar sua realidade.

O argumento da autora do livro “Por uma vida melhor”, Heloísa Ramos, de que em vez de “certo” e “errado” na avaliação do aprendizado da língua deve-se usar a ideia de “adequado” ou “inadequado”, transfere a discussão para o plano da linguística, quando o que de fato interessa é a questão da didática do ensino, a maneira como as crianças serão alfabetizadas e os instrumentos de instrução que lhes serão fornecidos para aprenderem a escrever corretamente.

Trata-se de questão muito mais séria do que é capaz de alcançar a ideologia de almanaque que justifica tais agressões à língua, à inteligência do País e, não menos importante, à formação dos próprios jovens alunos. A defesa de erros primários de concordância verbal e de princípios da gramática, por si só, é inconcebível em qualquer nação que zele por sua língua. E se torna ainda mais indefensável num País como o Brasil, onde o precário nível de ensino, particularmente nas escolas públicas, é responsável por vergonhosos indicadores educacionais. Pode-se imaginar a confusão na cabeça do jovem aluno que, despendendo esforços para aprender as regras da sua língua, seja confrontado com um livro – logo, instrumento supostamente confiável – em que se tem como corretas frases do tipo “nós pega o peixe” ou “dois real”.

Por outros exemplos de semelhantes ataques a padrões de comportamento, tem-se por óbvio que a questão do livro de Heloísa Ramos não é episódio isolado no País. Faz parte de um contexto mais amplo, que se move pelo princípio do “politicamente correto”. É a mesma cartilha que, no plano do ensino, instrui adeptos do racialismo a condenar, como racista, a obra de Monteiro Lobato (e, como decorrência, a praticar boçalidades como a manifestação, no Rio, contra um bloco de carnaval, e iniquidades como a edição, pelo MEC, de uma bula que oriente os professores como “ensinar” a obra do escritor nas escolas).

Em última análise, permitir a circulação de tal livro é uma agressão não só ao bom senso, mas ao direito do aluno de receber ensino de boa qualidade. Ao aceitar tal desatino, em nome de um ideário de suposta defesa dos excluídos, o MEC boicota o esforço de melhorar os indicadores da Educação no País. Em vez de ajudar a abrir fronteiras da cultura a uma considerável parcela de brasileiros, para os quais o acesso a instrução é tábua de salvação contra adversidades sociais, o ministério apenas os estimula a cultivar erros – que no futuro, na luta pela inclusão social (seja no mercado de trabalho, ou em instituições de ensino que lhes cobrarão conhecimento da língua), lhes custarão caro.

Que democracia racial é essa? (Carta Capital)

Por Rodrigo Martins

20 de abril de 2011

Apesar da redução das disparidades propiciadas por programas de segurança alimentar, como o Bolsa Família, o abismo que separa brancos e negros no Brasil continua gigantesco. Essa é uma das conclusões do 2º Relatório Anual de Desigualdades Raciais, divulgado na terça-feira 19, pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os indicadores foram compilados a partir de diferentes bases de dados do IBGE, dos ministérios da Saúde e Educação, entre outras instituições públicas. O estudo revela que os afrodescendentes têm menor acesso ao sistema de saúde (uma taxa de não cobertura de 27%, frente aos 14% verificados entre a população branca), a exames ginecológicos preventivos, ao pré-natal e sofrem com uma taxa maior de mortalidade materna.

Por dia, morrem cerca de 2,6 mulheres pretas ou pardas por complicações na gestação, enquanto este mesmo problema acomete 1,5 mulheres brancas. Entre 1986 e 2008, a taxa de fecundidade das afrodescendentes caiu de forma mais acelerada (48,8%) que a das brancas (36,7%). No entanto, as mulheres pretas ou pardas se sujeitam com mais intensidade a procedimentos radicais de contracepção, como as laqueaduras. Quase 30% dessa população em idade fértil estavam esterilizada em 2006, frente a uma taxa de 21,7% das mulheres brancas.

“Ninguém é contra o planejamento familiar. A queda na taxa de natalidade representa uma melhora na qualidade de vida das pessoas. Mas as afrodescendentes poderiam ter acesso a formas menos agressivas de intervenção”, avalia o economista Marcelo Paixão, coordenador do relatório. “A esterilização é uma solução radical demais. É como arrancar um dente para não tratar uma cárie. Por isso, causa preocupação o fato de parte dessa redução da fecundidade estar associada às laqueaduras.”

Nos últimos 20 anos, a média do tempo de estudos dos afrodescendentes acima de 15 anos passou de 3,6 anos para 6,5. Mesmo assim, está muito aquém da população branca, hoje com uma média de 8,3 anos de estudo. Além disso, 45,4% das crianças pretas ou pardas entre 6 e 10 anos estudava na série inadequada em 2008, frente ao percentual do 40,4% dos brancos. Entre as crianças de 11 e 14 anos, o problema é ainda mais grave, pois 62,3% dos afrodescendentes não estudavam na série correta. Entre os jovens brancos, a inadequação atingia 45,7%.

Por outro lado, as famílias pretas ou pardas beneficiadas pelo Bolsa Família conseguiram aumentar a quantidade de alimentos consumidos em proporção superior (75,7%) a das famílias brancas (70,1%). A elevação no consumo de arroz entre os afrodescendentes foi de 68,5%. Brancos: 31,5%. No caso do feijão, o consumo dos pretos e pardos cresceu 68%. Brancos: 32%.

“Apesar de melhorar a segurança alimentar dos afrodescendentes, o que é importantíssimo, em todos os outros setores percebe que a discrepância entre brancos e negros prevalece”, comenta Paixão. “Devido às elevadas taxas de desemprego, rotatividade no mercado de trabalho e informalidade, os pretos e partos tem um acesso bem menor à cobertura da Previdência Social. A diferença chega a dez pontos percentuais na população masculina e 20% entre as mulheres”, completa.

Outro dado que chama a atenção é o baixo índice de condenação por crimes de racismo no Brasil. Entre 2007 e 2008, 66,9% dos casos julgados nos Tribunais de Justiça de todo o País foram vencidas pelos réus e apenas 29,7% das supostas vítimas saíram vitoriosas. Na primeira instância, as vítimas tiveram sua demanda judicial contemplada em 40,5% dos acórdãos.

“Talvez os magistrados ainda acreditem no mito da democracia racial brasileira e, por isso, sejam mais brandos nas condenações e na aplicação das penas”, especula o professor da UFRJ. “Pela lei, o racismo é um crime inafiançável e imprescritível, mas não tenho notícia de um único racista condenado à prisão no Brasil. Vejo apenas punições pecuniárias, sobretudo indenizações, e pedidos de desculpas formais.”

Imprensa versus governo (Fapesp)


Imprensa versus governo
Rede da Democracia, formada por três grandes jornais, teve papel na queda de Jango
Carla Rodrigues
Edição Impressa 181 – Março 2011

© AGÊNCIA ESTADO
Tropas no comício da Central do Brasil

No jargão da imprensa escrita, “retranca” é a classificação do assunto contido em uma página, editoria ou em um conjunto de textos jornalísticos. Sob a retranca “Na Rede da Democracia”, entre outubro de 1963 e março de 1964, os três mais importantes jornais do país – O Jornal, dos Diários Associados, Jornal do Brasil, da família Nascimento Brito, e O Globo, da família Marinho – se uniram em torno de uma pauta em comum: a defesa do nacionalismo contra o comunismo, a crítica à ineficiência do Congresso, a falta de legitimidade do presidente João Goulart, o perigo de o governo ceder às pressões das manifestações de massa e dos movimentos populares. Diariamente publicada nos três diários e veiculada à noite nas suas respectivas emissoras de rádio, a Rede da Democracia ajudou a enfraquecer e derrubar o governo de Jango, deposto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Os acontecimentos políticos posteriores a esse momento da história brasileira têm sido muito registrados e debatidos. Mas sobre o consórcio formalizado pelos jornais sob a denominação de Rede da Democracia pouco se estudou. Foi nesse vazio que trabalhou o historiador Aloysio Castelo de Carvalho em sua pesquisa de pós-doutorado em história social na Universidade de São Paulo (USP), cujo resultado está sendo lançado no livro A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), coedição entre a NitPress e a Editora da UFF (Universidade Federal Fluminense), onde Carvalho também é professor.

“A Rede da Democracia está incluída num debate sobre a relação entre os jornais e o governo de João Goulart”, diz o pesquisador. Relação que evoluiu de maneira peculiar: em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou, os três jornais defenderam uma posição antigolpe, afirmando a legalidade da posse do vice João Goulart. Dois anos depois, a Rede da Democracia cerrava fileiras contra o presidente.

Em 1961 coube ao então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, montar a chamada Rede da Legalidade, que transmitia, a partir do porão do Palácio Piratini, discursos do aliado de Jango reproduzidos em ondas curtas por dezenas de emissoras do interior e de outros estados. O modelo de resistência brizolista inspiraria, anos depois, o empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. As rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil passaram a transmitir em conjunto, a partir de 1963, pronunciamentos que no dia seguinte eram publicados nos jornais com a mesma retranca. Alguns títulos ilustram o conteúdo editorial da Rede: “União Nacional dos Estudantes é um antro de delinquentes políticos”, “O dispositivo chamado sindical é na realidade dispositivo comunista”, “Dias graves se aproximam se não for repelida a invasão marxista”, “Ministério do Trabalho comanda as greves que agitam nosso país”, “Nosso país não está só ameaçado, mas comprometido com o comunismo” são exemplos da tomada de posição da imprensa diante do governo de Jango. Entre os signatários estavam parlamentares da oposição e  donos de jornais que, na visão de Carvalho, se arvoraram na pretensão de se tornarem atores políticos.

© AGÊNCIA ESTADO
Tanques do Exército no Rio no dia do golpe militar

Padrão – Foi em busca de compreender qual foi o papel da imprensa na queda de Jango e na emergência do governo militar que Carvalho acabou encontrando um padrão discursivo formado por quatro principais eixos: uma concepção valorativa da própria imprensa, que se atribui o papel de porta-voz da opinião pública; o temor de que o ingresso das massas no sistema político seria um risco para o país; a falta de confiança no presidente da República quando ele conta com apoio popular; a falta de confiança nas instituições políticas, inclusive no Congresso e no Senado, contribuindo para reforçar a percepção do papel da imprensa como fiscal dessas mesmas instituições e afirmando a importância da liberdade de imprensa.

No período Jango, os três jornais unificados sob a Rede da Democracia viam a sociedade brasileira como uma emergente sociedade de massas, mas resistiam ao ingresso dessa massa na participação política, que passou a se dar pela via dos movimentos sociais e das manifestações populares. “Os jornais reagiram de forma conservadora, afirmando que a única participação política legítima era pelas formas institucionais”, lembra Carvalho.
No entanto, essas formas institucionais estavam fechadas à massa de trabalhadores que, no processo de urbanização e industrialização, chegava à vida política. O voto não era permitido aos analfabetos, por exemplo, e em 1963 metade da população brasileira não sabia ler nem escrever. Daí a grande importância da Rede da Democracia em veicular suas ideias no rádio, a fim de ganhar adesões também entre as massas como parte de um processo que, para Carvalho, faz parte da competição da imprensa para representar a opinião pública. “É uma visão publicista de opinião pública, que desvaloriza a expressão pela via do voto ou das instituições”, explica o professor.

Embora reconheça que há períodos muito negativos, Eugênio Bucci, professor de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), considera que generalizações sobre a relação entre governo e imprensa enfrentam dois problemas: o primeiro, a dificuldade de caracterizar a imprensa como uma entidade de condutas unificadas. Há, lembra ele, pluralidade e diversidade. Que poderia ser maior, reconhece, mas que já avançou muito em relação aos anos 1960. No cenário atual, não apenas jornais, mas rádios, TVs, sites de internet formam um mosaico de veículos de comunicação com expressão de pontos de vista muito distintos entre si.

“Apesar do comportamento de certos veículos da chamada grande imprensa, há mais diversidade, mais pluralidade. Sobrevive entre nós uma mentalidade que tem repercussão na imprensa e rejeita tudo aquilo que emerge do povo iletrado, essa mistura de raça e cor considerada ruim”, argumenta Bucci. Para ele, é preciso ter muito cuidado para não cair num modelo linear, segundo o qual se pode classificar a imprensa de boa ou ruim.

Lua de mel – O que leva Bucci a discutir o segundo problema: como se tem visto no noticiário após a posse da presidente Dilma Rousseff, há períodos de verdadeira lua de mel entre jornais e governo. Foi assim, por exemplo, no início do primeiro mandato de Lula, lembra Bucci. Segundo ele, o tratamento que o governo Lula recebeu varia muito entre os períodos e entre os veículos. “A TV Record, por exemplo, compete com a TV Globo na cobertura crítica do governo”, exemplifica, lembrando que blogs e sites, como o IG, exercem papel importante em contrapontos ao discurso dos grandes jornais e também formam opinião.

© FOLHAPRESS
Goulart fala com multidão na Central do Brasil

O fato de a internet ainda não ser uma mídia de massa faz com que o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), discorde da capacidade desses novos meios de comunicação de democratizar a informação e se constituir numa via alternativa à grande imprensa. Para ele, o mecanismo fundamental que mantém a relação umbilical entre poder e imprensa é a lei das concessões de rádio e TV. Por isso, acredita que a única forma de alterar o que chama de “relação bilateral” entre Estado e meios de comunicação é uma revisão na lei das concessões. “É preciso assegurar que qualquer grupo social possa se expressar com autonomia”, defende Baía.

A autonomia da imprensa sempre esteve em debate em tempos de crise. Foi assim nos anos 1960, quando a Rede da Democracia pregava seu direito à liberdade de imprensa como forma de garantir a expressão de um determinado ponto de vista em relação ao governo Jango e compartilhado pelos três jornais que integravam o consórcio. O debate sobre liberdade de imprensa esteve novamente em pauta durante os dois mandatos do governo Lula, e com ele veio a discussão sobre mecanismos de controle social da informação. “A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”, alega Carvalho. “Lula é um produto da liberdade de imprensa”, contrapõe Bucci, lembrando que foi a abertura política e, com ela, o fim da censura à imprensa que permitiram o contato entre o Partido dos Trabalhadores e o eleitorado.

Carvalho conclui que, quando se sentem ameaçados, os jornais formam alianças formais, como a Rede da Democracia, para fazer ecoar o discurso liberal e conservador. “Vai chegar o momento em que a imprensa será objeto de crítica das outras instituições. E os jornais não poderão mais ser irresponsáveis e manipuladores”, aposta Carvalho.

 

 

Desafios para a democratização da informação ambiental no Brasil (REBIA)

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Informação ambiental para que, e por quê? Estas parecem ser as primeiras questões a serem respondidas por quem tem interesse no assunto da democratização da informação ambiental no Brasil. Numa sociedade que se diz e se espera democrática e sustentável, o acesso à informação ambiental é fundamental para assegurar o fortalecimento da democracia. Para fazer escolhas no rumo da sustentabilidade, a sociedade precisa de informações para a sustentabilidade, diferentes das atuais. Se a população não recebe informações ambientais em quantidade e qualidade adequadas, tenderá a reproduzir as mesmas escolhas que trouxeram a humanidade à beira de um colapso ambiental.

Então, surge uma segunda questão, afinal, existe ou não falta de democratização da informação ambiental no Brasil? A questão é relevante e a resposta fundamental para se definir o tipo de esforço necessário e a direção deste esforço. O problema da resposta é que ela não é única, mas diferente em função do observador.

Existe uma diferença entre a informação que se busca, proativamente, e a informação que se recebe, passivamente. Para quem busca a informação ambiental e dispõe dos meios necessários, encontrá-la pode ser relativamente fácil. Entretanto, mesmo para esta parcela de público, que é incluída digitalmente, lê jornais e revistas, e tem um mínimo de conhecimentos de direitos e deveres ambientais, nem sempre a informação que se encontra é a que se quer. Como qualquer outra informação, a ambiental também não está livre da meia verdade, da mentira, da manipulação tendenciosa, da especulação, do exagero, da falta de base científica, do emocionalismo, etc.

Por exemplo, existem leis que asseguram o acesso da sociedade a informações ambientais legais, entretanto, conseguir tais informações não é nada fácil. Só querer e ter as condições e o acesso à internet não bastam. Se a intenção for obter informações, por exemplo, sobre licenças ambientais, TACs (Termo de Ajuste de Conduta), compensação ambiental, a dificuldade será enorme, e se quiser ir mais além, e obter informações sobre as condicionantes – onde estão listados os projetos e obrigações -, então a informação ambiental pode se tornar quase inacessível, sem algum QI (quem indica) bem posicionado, coisa para poucos iniciados. Existem licenças que chegam a ter mais de 100 condicionantes, e se a imprensa e a sociedade não conseguem acesso a esta informação, muito menos tem como saber o que foi ou não cumprido, e daí não tem como divulgar ou cobrar responsabilidades. Para quem tiver alguma dúvida, faca um teste, escolha uma única empresa e tente obter estas informações ambientais, e então compreenderá o quanto a democratização da informação ambiental no Brasil ainda é uma promessa. E se conseguir, tente descobrir, do que foi comprometido, o que foi efetivamente realizado, e descobrirá que a falta da democratização da informação ambiental não se dá por um acaso.

Veja os fatos. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), entre janeiro de 2005 e outubro 2009, o IBAMA deixou de receber 99,4% do valor total das multas aplicadas contra crimes ambientais. Em quase cinco anos, foram R$ 14,6 bilhões não pagos por pessoas e empresas autuadas. Vivemos uma espécie de conto de fadas ambiental. O IBAMA finge que é capaz de exercer o Poder de Polícia, que tem estrutura e competência para isso, e todo mundo acredita. O que o TCU mostra é que, na prática, a verdade é outra. Falta estrutura e competência. Se acontece em relação a dinheiro vivo que o Governo Federal poderia estar recebendo, imagine o que acontece com as centenas de exigências condicionantes de licenças ambientais, ou dos Termos de Ajuste, ou de medidas compensatórias que deveriam se traduzir em projetos ambientais! Se acontece no nível federal, imagine o que acontece nos níveis estaduais e municipais!

Diante de um quadro como este, e preciso ter claro que a falta de falta de recursos ou prioridade para a democratização da informação ambiental não é fruto do acaso ou de alguma incompetência, mas trata-se de uma escolha deliberada pelo ´nada a declarar´ambiental. O desgaste que pode haver para infratores e órgãos ambientais ineptos na não informação é amplamente recompensado pelos benefícios da falta de transparência na informação ambiental, por que se a sociedade não sabe, então também não cobra. Já diz o ditado, o que os olhos não vêem o coração não sente! Manter a imprensa longe é uma maneira de se proteger e ganhar tempo. A falta de informação ambiental é o biombo onde algumas empresas e órgãos de governos se escondem da sociedade para fazer de conta que está tudo bem.

Outro exemplo está nos relatórios de sustentabilidade das empresas. Mesmo nos melhores casos, não existe empresa cem por cento correta, nem se espera isso de ninguém, pois a perfeição é utopia presente apenas nos sonhos, nos ideais, nas promessas. O problema é que os relatórios tenderão a divulgar o que acontece de bom e mascarar ou ocultar o que ainda não vai bem, e ainda tende a demonstrar como mérito próprio resultados ambientais que na verdade são obrigações em função de licenciamento ou termos de ajuste. A relação entre o que as empresas lucram retirando da natureza e o que devolvem na forma de projetos ambientais é absolutamente desproporcional. Alguém poderá dizer que isso é da natureza humana, e que mostrar o que vai mal é papel dos críticos. Entretanto, abre uma brecha enorme para a ficção literária, para palavras e promessas até bonitinhas, em papel reciclado, mas vazios de conteúdo e credibilidade. Quando uma empresa divulga, por exemplo, que reduziu em 30 por cento sua poluição, desperdício ou embalagens, na verdade confessa que repassa 70 por cento dos seus custos ambientais para a sociedade, enquanto segue capitalizando lucros. Informação depende de credibilidade, e isso se torna um problema para empresas responsáveis que fazem um trabalho sério, pois tenderão a ser niveladas com as demais, tornando seus relatórios no mínimo suspeitos. Não é à toa que as tiragens são limitadas, mais para o público interno e acionistas, e as empresas não convidem a mídia ambiental para seus lançamentos, muito menos a incluam em seus planos de mídia, para não correrem o risco de perguntinhas inoportunas e desagradáveis nessas horas quando tudo o que se espera é brilho e festa.

Quanto ao acesso da grande maioria da população brasileira à informação ambiental, este se limita ao interesse da mídia de massa pelo assunto que, importante que se diga, com o agravamento das mudanças climáticas, tem se dedicado bastante aos temas ambientais. Entretanto, existe uma tendência – sempre com as raras exceções -, de abordar o assunto mais pelo viés do paraíso perdido do qual fomos expulsos, ou da natureza exótica, violenta, e distante de nós, reforçando a idéia de como é bom estarmos separados da natureza, vivendo em cidades, pois assim também não temos de sentir culpa nem nos sentir ameaçados pelo que fizermos a ela. Ou então quando ocorre algum acidente ambiental. A prática demonstra que, assim que o problema deixa de ser visível, também tende a desaparecer das pautas. O mercado trata a comunicação como um negócio que só vale a pena se der lucro, então a informação ambiental estará presente na pauta enquanto der audiência ou vender jornais e revistas.

É preciso compreender a diferença entre a informação que o público quer – e que se dispõe a pagar por ela – da informação que ele precisa, e que nem sempre se dispõe a pagar para ter. A informação ambiental nem sempre é uma informação que o público se dispõe a pagar para ter. Uma rápida visita a qualquer banca mostrará a realidade. Existem publicações diversas sobre todos os assuntos, menos sobre meio ambiente, excetuando-se uma ou outra publicação sobre turismo e paisagismo. E, para o mercado, a solução é muito simples, se a sociedade não se dispõe a pagar pela informação ambiental, então ela não deve existir. Por outro lado, a falta de interesse do publico pela informação ambiental é compreensível, primeiro por que temos um leque de interesses muito mais amplo que só o ambiental, por que a vida é naturalmente complexa. Segundo, por que a informação ambiental nem sempre serve para entreter e mais incomoda que outra coisa, ao mostrar os abusos contra a natureza, denuncia a poluição e a agressão ambiental, questiona valores consumistas e desperdiçadores, e incomoda até mesmo quando mostra alternativas de tecnologias e atitudes, pois os que optaram por tecnologias e atitudes poluidoras e predatórias não poderão mais argumentar desconhecimento.

Para assegurar a existência e o acesso do público à informação ambiental, os governos deveriam assegurar políticas públicas e recursos, como, aliás, já fazem com a mídia de massa, através de mecanismos de repasse de verbas de publicidade. Mas os governos não são neutros e ainda estão muito mais comprometidos com um modelo de desenvolvimento comprometido com o gigantismo das escalas, com a exportação para gerar excedentes que equilibrem as contas, onde tradicionalmente a natureza teve e tem de ceder. A não ser no campo das idéias e das utopias, a sociedade brasileira ainda está longe de um modelo ambientalmente sustentável e socialmente justo de desenvolvimento, e naturalmente a informação ambiental reflete isso. Quanto mais crítica ela for, quanto mais apontar as contradições entre as práticas e as promessas, menos recursos e audiência terá de quem recebem as críticas. Entretanto, este é o seu papel, e por mais que não gostem de críticas, precisam delas para avançar e aumentar a velocidade das mudanças entre um modelo predatório e injusto de desenvolvimento e outro mais justo e sustentável.

Outra fonte de recursos deveria vir das empresas, entretanto, em vez de ajudar a financiar a informação ambiental, quando querem divulgar alguma coisa, preferem investir no envio de releases em massa na esperança de obter mídia ambiental espontânea. Mais ou menos como acreditar em almoço grátis ou em Papai Noel. Divulgação custa caro, é verdade, mais uma razão para não imaginar que uma mídia ambiental empobrecida vá dar de graça o que tem para vender! As empresas preferem editar folhetos ou publicações próprias, em ambiente controlado, onde não correm o risco de ser alvo de alguma crítica. E, para não se verem expostas a perguntinhas inoportunas sobre outros assuntos, contratam serviços de comunicação de terceiros e ocultam seus telefones e e-mails dos releases.

O tendão de Aquiles dos que negam recursos para a informação ambiental são os voluntários que conseguem manter a democratização da informação ambiental mesmo sem recurso algum, por que não se subordinam às regras do mercado, e teimam em oferecer a informação ambiental como uma espécie de apostolado ideológico, até mesmo para quem não quer pagar por ela. Claro que este trabalho voluntário tem limitações, sejam técnicas ou financeiras, mas ainda assim, presta um importante serviço de interesse público, onde o estado e a iniciativa privada estão falhando.

Como diz o ditado popular, sem povo não se cria nada de novo, por isso, o desafio pela democratização da informação ambiental continua mais desafiador do que nunca, tanto no sentido de falarmos uma linguagem que o povo entenda quanto encontrar os meios que assegurem que a informação ambiental possa ir além dos atuais nichos de publico especializado.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – http://www.escritorvilmarberna.com.br

Dr. Google e seus bilhões de pacientes (Ciência Hoje)

Uma análise mais cuidadosa da relação de doentes com a internet leva a crer que médicos e cientistas precisam aprender a lidar com a nova geração de enfermos.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 02/02/2011 | Atualizado em 03/02/2011

Dr. Google e seus bilhões de pacientes
Pintura do século 19 retrata visita de médico a casa do paciente. A profissão está longe, bem longe, de ser questionada. Mas muitas pessoas valem-se, atualmente, da pesquisa na internet para entender melhor algumas doenças. (Wikimedia Commons)

Regina Elizabeth Bisaglia, em mais uma consulta de rotina, indicava ao paciente a melhor maneira de cuidar da pressão. Ao mesmo tempo, observava a expressão introspectiva do homem a sua frente. A cardiologista não entendia ao certo a desconfiança em seu olhar, mas começava a presumir o motivo. Logo, entenderia o porquê.

Depois de uma explicação um pouco mais técnica, o senhor abriu um sorriso e o olhar tornou-se mais afável. A médica acabara de falar o que o paciente queria ouvir e, por isso, passava a ser merecedora de sua confiança.

“Entendi. O senhor andou consultando o doutor Google, certo?”, disse, de modo espirituoso, Bisaglia.

A médica atesta: muitas vezes os pacientes chegam ao consultório com o diagnóstico já pronto e buscam apenas uma confirmação. Ou mais: vão ao médico dispostos a testar e aprovar (ou não) o especialista.

“Não adianta os médicos reclamarem. Os pacientes vão à internet pesquisar e isso é um caminho sem volta. Informação errada existe em todos os meios, mas eu diria que muitas vezes é interessante que a pessoa procure se informar melhor”, diz a cardiologista, com mais de 30 anos de profissão.

“Há momentos em que o paciente não confia no que o médico diz ou se faz de desentendido. Nessas horas, é muito importante que ele perceba que existem mais pessoas falando a mesma coisa e passando pelo mesmo problema e que, portanto, é fundamental se cuidar. Nada melhor do que a conversa na rede para isso”, completa a médica.

Discussão antiga

Não é de hoje que a questão do ‘doutor Google’ e do ‘paciente expert‘ é debatida. Mas se antes a maioria dos argumentos pendia a favor dos médicos e contra a pesquisa dos leigos na área – sob o medo compreensível da automedicação ou dá má informação –, agora o viés da conversa caminha para um olhar mais relativista. Estudos sobre o assunto já propõem, inclusive, que os médicos tenham na sua formação uma espécie de aula especial para lidar com os pacientes internautas.

“Médicos e pesquisadores precisam estar cientes de que a informação está lá fora e que os pacientes estão tentando se educar da melhor forma possível”, diz, em conversa por e-mail, a neurocientista norte-americana Katie Moisse.

A cientista também é repórter da Scientific American e escreveu, na edição de fevereiro da revista, um artigo que fala justamente sobre a tríade médico-paciente-internet. No texto, Moisse conta a história do cirurgião vascular Paulo Zamboni, que no final de 2009 relatou um experimento que prometia ajudar os portadores de esclerose múltipla. A questão: Zamboni estava no início da pesquisa e não tinha, até o momento, feito testes rigorosos o suficiente para colocar sua técnica em prática.

Em outros tempos, diz Moisse, poucas pessoas teriam acesso ao estudo. Não foi, naturalmente, o que aconteceu com o cirurgião, que se viu pressionado por grupos de pacientes e seus familiares para disponibilizar, o quanto antes, o procedimento desenvolvido por ele.

Esse fenômeno também não é recente. O primeiro ‘motim’ de um grupo de doentes para que resultados de pesquisas fossem liberados e aplicados rapidamente é amplamente conhecido na literatura médica: na década de 1980, os infectados pelo vírus da Aids não se conformavam com a ideia de que, enquanto pacientes morriam aos milhares, poucos tinham acesso aos primeiros medicamentos (à altura, ainda em fase de teste).

Um verdadeiro grupo de ativistas, alguns com e outros sem a doença, formou-se e, se a relação entre médico e paciente mudou desde então, muito se deve a esses manifestantes.

Novo fenômeno

Hoje, a internet propicia a formação de grupos sobre não apenas uma, mas várias doenças: salas de discussão, fóruns e páginas sobre as mais diversas patologias. Um dos sites mais conhecidos é o Patients like me (Pacientes como eu, em português), uma rede social com quase 50 mil pessoas que reúne pacientes com os mais diversos problemas. O objetivo, como a maioria dos grupos, é o de trocar informação sobre doenças e, também, encontrar alento e apoio naqueles que partilham o mesmo sofrimento.

“A internet certamente faz do mundo um lugar menor. É uma oportunidade maravilhosa para as pessoas compartilharem ideias. Algumas redes de pacientes usam a internet para coletar dados e, até mesmo, publicá-los em periódicos revisados por pares”, conta Moisse.

Em alguns casos, os portais sobre doenças – sejam elas nada letais como a psoríase ou extremamente perigosas como a hepatite C – podem ajudar o paciente a se inteirar mais sobre a doença que, anteriormente, desconhecia.

“A informação disponível na internet pode trabalhar a favor da saúde, como o caso de uma pessoa que descobre que a sua timidez excessiva pode ser na verdade um quadro de transtorno de ansiedade, um transtorno psiquiátrico que tem tratamentos de eficácia comprovada”, diz o psiquiatra Rafael Freire.

É a mesma linha defendida pelo biólogo e neurocientista Daniel Cadilhe, responsável pela mediação entre o leitor-paciente e o portal do Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias.

“No Orkut há uma comunidade com quase 26 mil membros sobre o assunto [células-tronco]. Chegam perguntas diariamente sobre possibilidades de tratamentos utilizando o que estudamos.

Tentamos responder da forma mais clara, realista e responsável possível, sempre passando a informação verdadeira ou indicando quem poderá ajudar a tirar a dúvida”, explica Cadilhe, absolutamente ciente do reboliço que causam as palavras ‘células-tronco embrionárias’.

A grande maioria dos especialistas, como era de se esperar, dá o mesmo conselho para o paciente na hora de pesquisar e se juntar a grupos na internet: seja responsável, busque as melhores referências e procure saber quem está dando a informação. E ainda: lembre-se de que nem sempre o que se deseja ler/ouvir é o diagnóstico correto.

Como diz, com certo humor, a cardiologista Regina Elizabeth Bisaglia, a primeira busca na internet pode ser a mais simplória: “A pesquisa mais importante na rede é o nome de um bom médico para se consultar”.

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

Rio contra o crime: o jornalismo veste a camisa (Observatório de Imprensa)

Por Sylvia Moretzsohn em 30/11/2010

Quando recebeu, no início de novembro, um prêmio de telejornalismo pelas entrevistas com os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz sobre os bastidores da ditadura no Brasil, Geneton Moraes Neto escreveu uma “pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo jornalismo” em que afirmava: “Fazer jornalismo é produzir memória”. E concluía com a seguinte definição:

“Fazer jornalismo é desconfiar, sempre, sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem – seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro da música – pergunte sempre a si mesmo, intimamente: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?”

À parte a pequena derrapagem na tradução – seguramente, “bastardos” não seria uma palavra apropriada nesse contexto –, a definição é precisa. E, se assim é – ou deveria ser –, a cobertura da ocupação militar no Complexo do Alemão, sobretudo a cobertura televisiva, é tudo menos jornalismo. Seja porque desconhece a memória, seja porque adere desavergonhadamente à versão oficial.

Como apontou Alberto Dines em artigo neste Observatório da Imprensa (ver “Mídia teve medo de falar em intervenção“), o que houve no mais recente episódio no Alemão foi uma intervenção branca do governo federal, com a participação das Forças Armadas. Antes mesmo da invasão do morro, o Exército estava nas ruas, em resposta ao clima de terror espalhado pelos incêndios a carros em variados pontos da cidade. Não custava lembrar da Operação Rio, que em 1994 também resultou de uma intervenção branca – não fosse o Rio governado por Brizola, recém-licenciado para concorrer à presidência da República – e provocou as previsíveis cenas espetaculares de tanques circulando pelo asfalto, em direção às principais favelas da cidade, eternos “lugares do mal”, apontando seus canhões para as comunidades, soldados revistando moradores e avançando com seus uniformes camuflados e seus fuzis morro acima, ou patrulhando as ruas da Zona Sul.

Alemão, três anos antes

A lembrança seria importante, no mínimo, para negar o caráter inédito da ocupação de agora e, no máximo, para questionar o sucesso de intervenções militares em conflitos sociais de enorme gravidade como os que ocorrem no cotidiano das favelas. Na época, prometia-se a “asfixia” do tráfico. Não é preciso comentar o resultado.

Mais recentemente, entre maio e julho de 2007, uma aparatosa operação reuniu 1.350 homens das polícias militar e civil e soldados da Força Nacional de Segurança para nova asfixia, desta vez restrita ao Complexo do Alemão. O pretexto foi o assassinato de dois soldados do Batalhão de Rocha Miranda, mas é claro que se tratava de “limpar” pontos explosivos da cidade para os Jogos Pan-Americanos daquele ano. Na ocasião, a operação foi apresentada como “um ataque inovador”, um “marco no combate ao crime no Brasil” (revista Época, 28/6/2007), “um marco na luta contra a criminalidade”, apesar de sangrenta e de “todos os senões e suspeitas que deixou” (O Globo, editorial, 30/7/2007). O personagem-símbolo foi um policial que tem o hábito de fumar charuto após a missão cumprida: o inspetor Leonardo da Silva Torres, conhecido como “Trovão”, com cursos na Swat americana e no Centro de Inteligência da Marinha (antigo Cenimar, de trágica lembrança dos tempos da ditadura), cujo sonho – segundo declarou aos jornais – era atuar na Faixa de Gaza ou no Iraque.

Costuma-se falar em 19 mortos durante aquela ocupação. Não é verdade: este seria o número produzido no dia mais sangrento, 27 de junho. Pela sua magnitude, acabou associado ao total de mortes, que, entretanto, foram bem mais expressivas: segundo o relatório da Comissão de Direitos Humanos da OAB, teriam sido 44 mortos e 84 feridos, muitos deles sem armas nem antecedentes criminais.

Então, como hoje, as forças policiais-militares cantavam vitória sobre o tráfico. Se fosse verdade, não teria sido necessário retornar agora.

Inexplicável reviravolta

Em fins de 2009, o governo estadual inaugurava uma nova estratégia de ação policial: as Unidades de Polícia Pacificadora, começando no Dona Marta, uma pequena favela em Botafogo que em várias ocasiões frequentou os jornais com notícias sobre guerra entre traficantes. Ali, como em quase todas as demais comunidades eleitas para receber esse aparato, a polícia entrou sem disparar um tiro.

Este detalhe surpreendente foi ressaltado – melhor diria, exaltado – no espaço noticioso de jornais que, três anos antes, afirmavam não haver alternativa para o combate ao crime a não ser o enfrentamento: “Há bandidos […] que têm de ser tratados pela mão pesada do Estado. Não há assistencialismo e ação social que os recuperem” (O Globo, 26/10/2007).

O que teria provocado a mudança de discurso é algo que apenas os editores poderiam explicar. Sobretudo porque o governo é o mesmo e o secretário de Segurança, também. Se há até dois anos antes não havia alternativas, como é que de repente se descobriu uma via tão eficaz, a ponto de o megaempresário Eike Batista – este que, aos poucos, vai abocanhando os pedaços mais lucrativos da cidade – declarar que, se soubesse que era tão fácil “acabar” com a violência, já teria investido nisso há mais tempo?

Uma socióloga sempre consultada nessa matéria argumentou que “os traficantes varejistas entenderam que há um projeto de política pública de segurança e não adianta mais resistir”. Simples assim.

A causa da “vitória definitiva”

De repente, começam os atentados: um carro incendiado aqui, outro ali, junto com arrastões (ou assaltos, assim relatados pela imprensa) em determinadas ruas de áreas nobres da cidade. Então, em fins de novembro, detona-se a operação no Alemão, mais uma vez apontado como o local de concentração dos responsáveis pela desordem. Uma operação espetacular, com blindados da polícia e da Marinha, destinada a acabar de vez – mais uma vez – com o tráfico na região.

A série de incêndios a carros e vans seria uma reação do tráfico ao sucesso das UPPs, diz o governo. Entretanto, os jornais não indagam: a quem interessa esses atentados? Traficantes tão bem armados, esses que em dezembro de 2006 metralharam cabines policiais, delegacias e atacaram ônibus interestaduais, matando pelo menos 18 pessoas, fariam agora pequenas ações na base de coquetéis molotov? Sabendo que atrairiam a atenção e o ódio da polícia? Por quê?

Às vésperas da invasão americana ao Iraque, numa reunião na ONU, o secretário de Estado Colin Powell tentou convencer os presentes da existência de armas de destruição em massa produzidas naquele país, apenas mostrando, ampliadas num telão, imagens dos galpões fechados em que, com absoluta certeza – simplesmente porque ele afirmava –, as tais armas eram fabricadas. As contestações feitas à época, os movimentos de repúdio à guerra, os esforços diplomáticos, nada foi capaz de deter a ofensiva. Hoje se sabe, como alguns sempre souberam, que o Iraque não tinha as tais armas. Mas alguns dos principais jornais americanos, notadamente o New York Times, amparou a versão oficial, empenhado que estava, como tantos outros, no esforço patriótico de resposta contundente aos atentados de 11 de setembro de 2001.

Da mesma forma, nesta operação no Alemão – como em outras vezes –, a nossa imprensa assumiu a causa da “retomada de território” e da “vitória definitiva”.

“Vencemos. Devolvemos a paz para a comunidade”, declarou o comandante do Bope. Ao mesmo tempo, outra autoridade policial afirma que a operação continuará durante o tempo que for necessário. Que vitória, então?

A “casa de luxo” do chefe do tráfico

O recurso à memória é importante como antídoto ao triunfalismo que costuma prevalecer nesse momento. “É um dia histórico para o Rio de Janeiro”, diz o apresentador da TV. “Os policiais estão vibrando”, afirma o comandante do Bope antes do início da invasão. Um correspondente estrangeiro quis saber, com seu portunhol claudicante, se aquilo era um guerra ou um operação policial. O comandante não teve dúvidas: “Em alguns locais, o combate a traficantes com armamento de guerra se assemelha a uma guerra de baixa intensidade. Mas não estou preocupado com rótulos, isso é coisa para quem vai estudar depois. Estou preocupado com a ação”.

Nada surpreende: homens de ação são adestrados para agir, pensar é coisa de intelectuais… ou de quem define as estratégias de ação. E, para isso, definir se vivemos ou não uma guerra é fundamental.

Mas questionar, quem há de? Pelo contrário, os jornalistas se congratulam com os policiais, desejam-lhes sorte, dão-lhes os parabéns. Excitam-se com a exibição de traficantes e suspeitos presos, demonstram indignação ao mostrar a “casa de luxo” onde vivia um dos chefes do tráfico no local, com banheira redonda de hidromassagem e uma cama-box (?!) na suíte, mais um pequeno terraço com piscina, piso imitando o desenho ondulado das pedras portuguesas de Copacabana (disponível em qualquer loja de material de construção) e ampla vista da… favela.

A diferença da “guerra” na área nobre

Um dos símbolos de “retomada do território”, cena destacada na cobertura ao vivo dos telejornais, foi o hasteamento da bandeira brasileira ao lado da bandeira do estado do Rio de Janeiro no alto do teleférico. Na Globonews, a apresentadora comemorou: a região “voltou a ser território do povo brasileiro”.

Esqueceu de lembrar que o hasteamento de bandeiras também foi feito na Operação Rio, imitando o gesto dos pracinhas na tomada de Monte Castelo, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Esqueceu, principalmente, de lembrar que o teleférico, prestes a ser inaugurado, é obra do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, iniciado em fins de 2008 no Alemão. Seria o PAC obra de traficantes? Como, então, falar em retomada de território, se nesse mesmo território se realizava um projeto do governo federal?

“O Alemão era o coração do mal”, diz o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, quem sabe a sugerir uma ilação com o “coração das trevas” do clássico da literatura de Joseph Conrad. Talvez não, não importa. Importa é o verbo no passado e a perspectiva de futuro: afinal, se traficantes podem ter fugido, ainda por cima armados, a Rocinha que se cuide. “Se chegamos no Alemão, vamos chegar na Rocinha e no Vidigal.”

Chegar à Rocinha pode ser um problema. Há exatamente três anos, quando a polícia desencadeou uma operação sangrenta na favela da Coreia, em Senador Camará (Zona Oeste do Rio), deixando 12 mortos, o mesmo secretário comentou que “um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coreia é outra”. Algum jornalista lembrará disto? Ou estarão todos imbuídos do espírito patriótico que substitui perguntas incômodas ou “inadequadas” pela pura e simples propaganda?

Sylvia Moretzsohn: Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico(Editora Revan, 2007).

Guarani é oficializado como segunda língua em município do Mato Grosso do Sul

Culturas Indígenas

Heli Espíndola
Comunicação – Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura

O guarani é a segunda língua oficial do município de Tacuru, no Mato Grosso do Sul. O município é o segundo do país a adotar um idioma indígena como língua oficial, depois da sanção, pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 24 de maio, do Projeto de lei que oficializa a língua guarani em Tacuru. Com a nova lei, os serviços públicos básicos na área de saúde e as campanhas de prevenção de doenças neste município devem, a partir de agora, prestar informações em guarani e em português.

O primeiro município do Brasil a adotar idioma indígena como língua oficial, além do português, foi São Gabriel da Cachoeira, localizado no extremo norte do Amazonas. Além do português, São Gabriel tem três línguas indígenas oficiais: o Nheengatu, o Tukano e o Baniwa.

Em Tacuru, pequeno município no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul, próximo ao Paraguai formado por uma população de 9.554 habitantes, segundo estimativa do IBGE de 2009, 30% de seus habitantes são guarani residentes na aldeia de Jaguapiré, situada no município. A maioria dos 3.245 indígenas de Tacuru não é bilíngue, ou seja, fala somente o Guarani o que dificulta o acesso aos serviços públicos mais essenciais.

Com a nova lei, a Prefeitura de Tacuru se compromete a apoiar e a incentivar o ensino da língua guarani nas escolas e nos meios de comunicação do município. A lei estabelece também que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão da língua oficial falada, devendo ser respeitada e valorizada as variedades da língua guarani, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya.

O Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) elogiou a aprovação da medida e argumentou que o Brasil é multiétnico e que o português não pode ser considerado a única língua utilizada no país. O MPF lembrou que o Brasil é signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que determina que, nos Estados onde haja minorias étnicas ou linguísticas, pessoas pertencentes a esses grupos não poderão ser privadas de usar sua própria língua.

A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os Povos Indígenas e Tribais determina, dentre outras coisas, que deverão ser adotadas medidas para garantir que os membros das minorias étnicas possam compreender e se fazer compreender em procedimentos legais, facilitando para eles, se for necessário, intérpretes ou outros meios eficazes.

Em Paranhos, também no Mato Grosso do Sul, tramita um projeto de lei semelhante ao aprovado em Tacuru, que propõe a oficialização do idioma guarani como segunda língua do município. Em Paranhos existem 4.250 indígenas guarani. Em todo o estado do Mato Grosso do Sul são 68.824 indígenas, divididos em 75 aldeias.

Para o secretário da Identidade e Diversidade Cultural/MinC, Américo Córdula, a oficialização da língua guarani em mais um município brasileiro vai de encontro à política cultural desenvolvida pelo Ministério da Cultura de proteção e proteção dos saberes tradicionais dos povos indígenas.

No mês de fevereiro (de 2 a 5), a SID/MinC realizou, juntamente com a Itaipu Binacional, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul – Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa que reuniu cerca de 800 índios da etnia do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, em Diamante D”Oeste, no Paraná, para discutir formas de fortalecer o intercâmbio cultural entre as comunidades dos quatro países.

“Temos no Brasil uma comunidade de aproximadamente um milhão de indígenas, formada por 270 povos diferentes, falantes de mais de 180 línguas”, informa Córdula. Segundo ele, a população indígena brasileira é detentora de uma grande diversidade cultural, que deve ser protegida por seu caráter formador da nacionalidade brasileira. Com esse objetivo, a SID/MinC já realizou dois prêmios culturais (2006 e 2007) voltados para as comunidades tradicionais indígenas. Foram investidos R$ 3,6 milhões para a premiação de 182 projetos em todo o Brasil.

Este ano, no mês de março, foi criado o primeiro Colegiado de Culturas Indígenas, formado por 15 titulares e 15 suplentes representantes do segmento. No último dia 1º, foi eleito o conselheiro do Colegiado para o Plenário do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC).

Maria das Dores do Prado, da etnia Pankararu, foi escolhida para defender, junto ao CNPC, as políticas públicas voltadas para a valorização da cultura de todas as comunidades indígenas brasileiras. Um das reivindicações defendidas pelo segmento durante a Conferência Nacional de Cultural, realizada em março, quando se deu a eleição do Colegiado, é a manutenção de todas as línguas nativas.