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Última chance (Página 22)

04/11/2014 – 10h19

por Diego Viana, da Página 22

mundo Última chance
Foto: http://ambientalsustentavel.org/A humanidade dispõe de dinheiro, tecnologia e conhecimento para mudar a rota que conduz a uma alta catastrófica da temperatura no planeta. A bola está com atores políticos e econômicos, que têm pouco mais de um ano para fechar um acordo global decisivo.

As notícias não foram boas nos últimos meses. Apesar de estagnada desde 2008, a economia mundial não consegue reduzir as emissões de carbono no ritmo necessário. Para manter o aquecimento global em 2 graus [1] até 2100, teríamos de emitir 6,2% a menos ano após ano. Em 2013, a redução foi de só 1,2%, de acordo com relatório da consultoria PwC. No ritmo anual, caminhamos facilmente para um aquecimento de 4 graus. Entre os dois cenários – de 2 e de 4 graus –, a diferença é um abismo: ou um planeta mais difícil de viver, com desastres frequentes, falta de comida e de água, populações deslocadas, ou uma mudança climática descontrolada e completamente inóspita para a civilização (ver gráfico 1).

Já os oceanos, responsáveis por segurar boa parte do aquecimento global, estão esquentando a uma velocidade superior à prevista, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês). Assim, fica ainda mais estreito o ultimato para encontrar soluções climáticas. Em setembro, a ONG WWF anunciou que, nos últimos 40 anos, por efeito da ação humana, a população mundial de animais vertebrados caiu à metade, enquanto a distância entre a oferta de recursos naturais do planeta e as demandas do sistema econômico só cresce (ver gráfico 2).

Gráfico 1

grafico1 Última chance

Gráfico 2

grafico2 Última chance

A sucessão de dados negativos acrescenta uma dose de urgência ao esforço de controlar o acúmulo de carbono na atmosfera e, assim, reduzir boa parte da nossa pegada ecológica.

Depois de anos em que negociações multilaterais esbarraram na incapacidade de encontrar um terreno comum para um acordo entre políticos de diversos países, é cada vez maior a convicção, em sociedades ao redor do mundo, de que não se pode mais postergar uma solução por motivos políticos.

A 21a Conferência da ONU para o clima (COP 21), que ocorrerá em Paris em dezembro de 2015, torna-se tão mais decisiva para o futuro da civilização quanto mais se aproxima a data. Negociadores e ativistas esperam conseguir até lá chegar a um acordo climático eficaz. A COP 20 ocorrerá em dezembro deste ano em Lima (Peru), mas só no ano seguinte os ativistas acreditam que se produzirá algo concreto.

“Se fizermos tudo que pode ser feito, há 75% de chance de conseguirmos manter o aquecimento global dentro dos 2 graus até 2100”, diz o ecologista Tom Athanasiou, diretor- executivo da ONG americana EcoEquity, citando estudos do IPCC.

Athanasiou separa a questão em duas: técnico-científica e político-econômica. “Temos o dinheiro, a tecnologia e a ciência para fazer uma redução emergencial rápida o suficiente para segurar a linha de 2 graus. É um declínio global de emissões muito veloz e que ainda seria muito perigoso, porque envolveria o dobro do aquecimento que tivemos até hoje [de 0,8 grau]”, diz. “Mas com o ‘business and politics as usual’ , duvido que dê para evitar os 3 graus ou até 4 graus.”

Mecanismos de Mercado

Segundo o sociólogo Sérgio Abranches, que edita o site Ecopolítica, o fato de os modelos climáticos terem margens de erro elevadas resulta em discordância entre cientistas sobre a possibilidade de a temperatura ficar abaixo dos 2 graus de aquecimento. O resultado se reflete sobre a política, porque “a política trabalha com certezas. Se alguém manifesta qualquer dúvida sobre um ponto, os políticos adiam a decisão, e é isso que tem acontecido”.

Muitas das propostas para reduzir as emissões ao redor do mundo envolvem mecanismos de mercado, propiciados pelo Protocolo de Kyoto, baseados no cap-and-trade, que impõe um limite de emissões e cria créditos que podem ser negociados. Mas, sem poder de sanção e sem o apoio de países importantes como EUA e China, o protocolo é considerado um fracasso.

“Os mecanismos de mercado já mostraram que (sozinhos) não são suficientes”, diz Abranches, citando o exemplo dos créditos de carbono europeus, que não foram capazes de reduzir as emissões no continente. “Não é possível fazer o mercado funcionar só com incentivos. É preciso combiná-los com penalidades que tornem os incentivos mais atraentes para empresas emissoras.”

Para o sociólogo, o único instrumento econômico eficaz é o imposto sobre o carbono, adotado por vários países e recentemente aprovado no Chile, que também contém um sobrepreço aplicado a importações de países que não têm o imposto. A Organização Mundial do Comércio (OMC) publicou no ano passado uma portaria em que aprova o imposto de carbono e não o considera como prática desleal de concorrência. “O imposto precifica de forma penalizadora as emissões, e as empresas buscam formas de se adequar. Esse é o único jeito de fazer com que o mercado tome iniciativas para reduzir suas emissões”, argumenta (mais sobre a eficácia dos mecanismos de precifição do carbono emreportagem).

Athanasiou lembra que as catástrofes climáticas dos últimos anos ocorreram no contexto de um aquecimento ainda na casa dos 0,8 grau. Uma lista exaustiva pode ser encontrada no website do Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (Cred), da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica . “Um aquecimento de 2 graus causará imensa destruição e sofrimento, mas não significa o fim da civilização humana”, diz o ativista, que antevê um cenário de migrações massivas, fome, extinções e guerra constante caso cheguemos a 3 ou 4 graus. Athanasiou falou à PÁGINA22 enquanto se preparava para viajar até Bonn, na Alemanha, onde ocorreu uma conferência preparatória para a COP 20, em Lima.

O Cred informa que na década de 1940 houve 120 desastres hidrometeorológicos (que podem ter tido origem humana) contra 52 geológicos (eventos naturais). De2000 a 2005, foram 233 geológicos contra 2.135 hidrometeorológicos. O resultado sugere que o ser humano é que tem cada vez mais causado desastres ambientais.

Na ONG EcoEquity, que ele mantém com outros especialistas do clima, foi desenvolvido o conceito de Global Development Rights. Trata-se de um cálculo destinado a orientar um futuro sistema de impostos globais, cujo foco está na convicção de que nenhum acordo será obtido sem atacar o problema da desigualdade. Daí a divisão entre a responsabilidade – o quanto um país, empresa ou indivíduo polui – e a capacidade de enfrentar o problema – o quanto é capaz de contribuir para reduzir as emissões.

“A crise do clima é uma crise global dos comuns. Mas a habilidade de pagar pela transição é geográfica e economicamente separada de onde a transição deve acontecer. É preciso mover a finança e a tecnologia através do pla- neta, e muito, para atingir as taxas altíssimas de descarbonização necessárias para estabilizar o sistema climático”, explica.

Marcha do Clima

A maior tentativa de mobilizar as sociedades de todo o mundo para pressionar governantes e negociadores de acordos climáticos ocorreu em 21 de setembro, com a Marcha Popular Global do Clima [2]. Em Nova York, dois dias antes do encontro de líderes mundiais que a cidade sediou, 400 mil pessoas foram às ruas, acompanhadas à distância por manifestações em centenas de cidades ao redor do mundo, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo (mais em reportagem).

Os organizadores da marcha foram os membros da ONG 350.org, dedicada a conscientizar a população quanto aos perigos ligados à mudança climática. O número que dá nome à instituição, “350”, corresponde ao limite de concentração, em ppm (partes por milhão), de partículas de gases de efeito estufa, abaixo do qual ainda é possível controlar o aquecimento global. No ano passado, porém, a marca de 400 ppm foi ultrapassada.

Alguns organizadores da marcha esperavam que Nova York recebesse até 1 milhão de manifestantes, a exemplo de protestos semelhantes na década de 1970, contra os armamentos nucleares ou em prol das primeiras leis ambientais. Os 400 mil foram um número expressivo, mas abaixo do desejado. Segundo Sérgio Abranches, o principal motivo é o desencanto das populações com a ação política: as pessoas passaram a considerar que não adianta se mobilizar para pressionar políticos que não reagem às pressões.

Athanasiou considera que o comparecimento foi satisfatório, mas afirma que não é o mais importante. Aos poucos, diz, os grupos de ativistas de todo o mundo estão convergindo para uma agenda comum. “É no ano que vem, em Paris, que vamos precisar juntar 1 milhão de pessoas”, crava. “A Europa tem um monte de verdes! Vamos juntá-los em Paris!”

A 350.org também é promotora da iniciativa “Divesting from Fossil Fuel” (Desinvestir em Combustíveis Fósseis), lançada em 2012 . A estratégia consiste em convencer fundos de investimento, universidades, filantropos e outras entidades a retirar seus investimentos de empresas petrolíferas.

Os membros da ONG consideram que a iniciativa já pode ser considerada como bem-sucedida, porque gerou discussões na mídia e conseguiu adesões de universidades e fundos filantrópicos ao redor do mundo. Uma adesão recente tem sabor particularmente irônico: os descendentes do magnata do petróleo John D. Rockefeller, fundador da Standard Oil, anunciaram que vão retirar gradativamente seus investimentos em empresas petrolíferas (mais em reportagem).

Algo a comemorar

Nem todas as notícias foram ruins este ano. Em grande medida graças à iniciativa alemã de ampliar a participação de usinas eólicas e painéis solares em sua matriz energética, o custo das fontes renováveis de energia está cada vez mais competitivo. Ainda não é certo, porém, que a transição para uma matriz energética mais limpa ocorra na velocidade necessária. “A mudança da matriz energética mundial está impulsionando o desengarrafamento de alguns problemas tecnológicos urgentes”, diz Abranches. “Um ponto que vai nos levar a um novo patamar em energia eólica é a armazenagem, que ainda não está resolvida.”

O cientista político cita também o desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração, cuja produção não compete com produtos de alimentação. “Claramente,esta é uma transição longa e gradual. Não temos ainda uma fonte que possa substituir o petróleo nas mesmas condições de eficiência energética e variedade de uso em curto prazo”, afirma o cientista político (leia reportagem sobre o pré-sal brasileiro).

[1] Dois graus é o aumento mínimo que o planeta sofrerá, no cenário mais otimista desenhado pela comunidade científica. Mesmo assim, imporá uma forte mudança nas formas de vida na Terra.

[2] Mais sobre as marchas ao redor do mundo aqui.
* Publicado originalmente no site Página 22.

(Página 22)

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>Climategate: What Really Happened? (Mother Jones)

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>The Science of Why We Don’t Believe Science (Mother Jones)

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Illustration: Jonathon Rosen
How our brains fool us on climate, creationism, and the vaccine-autism link.

— By Chris Mooney
Mon Apr. 18, 2011 3:00 AM PDT

“A MAN WITH A CONVICTION is a hard man to change. Tell him you disagree and he turns away. Show him facts or figures and he questions your sources. Appeal to logic and he fails to see your point.” So wrote the celebrated Stanford University psychologist Leon Festinger, in a passage that might have been referring to climate change denial—the persistent rejection, on the part of so many Americans today, of what we know about global warming and its human causes. But it was too early for that—this was the 1950s—and Festinger was actually describing a famous case study in psychology.

Festinger and several of his colleagues had infiltrated the Seekers, a small Chicago-area cult whose members thought they were communicating with aliens—including one, “Sananda,” who they believed was the astral incarnation of Jesus Christ. The group was led by Dorothy Martin, a Dianetics devotee who transcribed the interstellar messages through automatic writing.

Through her, the aliens had given the precise date of an Earth-rending cataclysm: December 21, 1954. Some of Martin’s followers quit their jobs and sold their property, expecting to be rescued by a flying saucer when the continent split asunder and a new sea swallowed much of the United States. The disciples even went so far as to remove brassieres and rip zippers out of their trousers—the metal, they believed, would pose a danger on the spacecraft.

Festinger and his team were with the cult when the prophecy failed. First, the “boys upstairs” (as the aliens were sometimes called) did not show up and rescue the Seekers. Then December 21 arrived without incident. It was the moment Festinger had been waiting for: How would people so emotionally invested in a belief system react, now that it had been soundly refuted?

At first, the group struggled for an explanation. But then rationalization set in. A new message arrived, announcing that they’d all been spared at the last minute. Festinger summarized the extraterrestrials’ new pronouncement: “The little group, sitting all night long, had spread so much light that God had saved the world from destruction.” Their willingness to believe in the prophecy had saved Earth from the prophecy!

From that day forward, the Seekers, previously shy of the press and indifferent toward evangelizing, began to proselytize. “Their sense of urgency was enormous,” wrote Festinger. The devastation of all they had believed had made them even more certain of their beliefs.

In the annals of denial, it doesn’t get much more extreme than the Seekers. They lost their jobs, the press mocked them, and there were efforts to keep them away from impressionable young minds. But while Martin’s space cult might lie at on the far end of the spectrum of human self-delusion, there’s plenty to go around. And since Festinger’s day, an array of new discoveries in psychology and neuroscience has further demonstrated how our preexisting beliefs, far more than any new facts, can skew our thoughts and even color what we consider our most dispassionate and logical conclusions. This tendency toward so-called “motivated reasoning” helps explain why we find groups so polarized over matters where the evidence is so unequivocal: climate change, vaccines, “death panels,” the birthplace and religion of the president, and much else. It would seem that expecting people to be convinced by the facts flies in the face of, you know, the facts.

The theory of motivated reasoning builds on a key insight of modern neuroscience: Reasoning is actually suffused with emotion (or what researchers often call “affect”). Not only are the two inseparable, but our positive or negative feelings about people, things, and ideas arise much more rapidly than our conscious thoughts, in a matter of milliseconds—fast enough to detect with an EEG device, but long before we’re aware of it. That shouldn’t be surprising: Evolution required us to react very quickly to stimuli in our environment. It’s a “basic human survival skill,” explains political scientist Arthur Lupia of the University of Michigan. We push threatening information away; we pull friendly information close. We apply fight-or-flight reflexes not only to predators, but to data itself.

“We apply fight-or-flight reflexes not only to predators, but to data itself.”

We’re not driven only by emotions, of course—we also reason, deliberate. But reasoning comes later, works slower—and even then, it doesn’t take place in an emotional vacuum. Rather, our quick-fire emotions can set us on a course of thinking that’s highly biased, especially on topics we care a great deal about.

Consider a person who has heard about a scientific discovery that deeply challenges her belief in divine creation—a new hominid, say, that confirms our evolutionary origins. What happens next, explains political scientist Charles Taber of Stony Brook University, is a subconscious negative response to the new information—and that response, in turn, guides the type of memories and associations formed in the conscious mind. “They retrieve thoughts that are consistent with their previous beliefs,” says Taber, “and that will lead them to build an argument and challenge what they’re hearing.”

In other words, when we think we’re reasoning, we may instead be rationalizing. Or to use an analogy offered by University of Virginia psychologist Jonathan Haidt: We may think we’re being scientists, but we’re actually being lawyers. Our “reasoning” is a means to a predetermined end—winning our “case”—and is shot through with biases. They include “confirmation bias,” in which we give greater heed to evidence and arguments that bolster our beliefs, and “disconfirmation bias,” in which we expend disproportionate energy trying to debunk or refute views and arguments that we find uncongenial.

That’s a lot of jargon, but we all understand these mechanisms when it comes to interpersonal relationships. If I don’t want to believe that my spouse is being unfaithful, or that my child is a bully, I can go to great lengths to explain away behavior that seems obvious to everybody else—everybody who isn’t too emotionally invested to accept it, anyway. That’s not to suggest that we aren’t also motivated to perceive the world accurately—we are. Or that we never change our minds—we do. It’s just that we have other important goals besides accuracy—including identity affirmation and protecting one’s sense of self—and often those make us highly resistant to changing our beliefs when the facts say we should.

Modern science originated from an attempt to weed out such subjective lapses—what that great 17th century theorist of the scientific method, Francis Bacon, dubbed the “idols of the mind.” Even if individual researchers are prone to falling in love with their own theories, the broader processes of peer review and institutionalized skepticism are designed to ensure that, eventually, the best ideas prevail.

“Scientific evidence is highly susceptible to misinterpretation. Giving ideologues scientific data that’s relevant to their beliefs is like unleashing them in the motivated-reasoning equivalent of a candy store.”

Our individual responses to the conclusions that science reaches, however, are quite another matter. Ironically, in part because researchers employ so much nuance and strive to disclose all remaining sources of uncertainty, scientific evidence is highly susceptible to selective reading and misinterpretation. Giving ideologues or partisans scientific data that’s relevant to their beliefs is like unleashing them in the motivated-reasoning equivalent of a candy store.

Sure enough, a large number of psychological studies have shown that people respond to scientific or technical evidence in ways that justify their preexisting beliefs. In a classic 1979 experiment, pro- and anti-death penalty advocates were exposed to descriptions of two fake scientific studies: one supporting and one undermining the notion that capital punishment deters violent crime and, in particular, murder. They were also shown detailed methodological critiques of the fake studies—and in a scientific sense, neither study was stronger than the other. Yet in each case, advocates more heavily criticized the study whose conclusions disagreed with their own, while describing the study that was more ideologically congenial as more “convincing.”

Since then, similar results have been found for how people respond to “evidence” about affirmative action, gun control, the accuracy of gay stereotypes, and much else. Even when study subjects are explicitly instructed to be unbiased and even-handed about the evidence, they often fail.

And it’s not just that people twist or selectively read scientific evidence to support their preexisting views. According to research by Yale Law School professor Dan Kahan and his colleagues, people’s deep-seated views about morality, and about the way society should be ordered, strongly predict whom they consider to be a legitimate scientific expert in the first place—and thus where they consider “scientific consensus” to lie on contested issues.

In Kahan’s research, individuals are classified, based on their cultural values, as either “individualists” or “communitarians,” and as either “hierarchical” or “egalitarian” in outlook. (Somewhat oversimplifying, you can think of hierarchical individualists as akin to conservative Republicans, and egalitarian communitarians as liberal Democrats.) In one study, subjects in the different groups were asked to help a close friend determine the risks associated with climate change, sequestering nuclear waste, or concealed carry laws: “The friend tells you that he or she is planning to read a book about the issue but would like to get your opinion on whether the author seems like a knowledgeable and trustworthy expert.” A subject was then presented with the résumé of a fake expert “depicted as a member of the National Academy of Sciences who had earned a Ph.D. in a pertinent field from one elite university and who was now on the faculty of another.” The subject was then shown a book excerpt by that “expert,” in which the risk of the issue at hand was portrayed as high or low, well-founded or speculative. The results were stark: When the scientist’s position stated that global warming is real and human-caused, for instance, only 23 percent of hierarchical individualists agreed the person was a “trustworthy and knowledgeable expert.” Yet 88 percent of egalitarian communitarians accepted the same scientist’s expertise. Similar divides were observed on whether nuclear waste can be safely stored underground and whether letting people carry guns deters crime. (The alliances did not always hold. In another study, hierarchs and communitarians were in favor of laws that would compel the mentally ill to accept treatment, whereas individualists and egalitarians were opposed.)

“Head-on attempts to persuade can sometimes trigger a backfire effect, where people not only fail to change their minds when confronted with the facts—they may hold their wrong views more tenaciously than ever.”

In other words, people rejected the validity of a scientific source because its conclusion contradicted their deeply held views—and thus the relative risks inherent in each scenario. A hierarchal individualist finds it difficult to believe that the things he prizes (commerce, industry, a man’s freedom to possess a gun to defend his family) could lead to outcomes deleterious to society. Whereas egalitarian communitarians tend to think that the free market causes harm, that patriarchal families mess up kids, and that people can’t handle their guns. The study subjects weren’t “anti-science”—not in their own minds, anyway. It’s just that “science” was whatever they wanted it to be. “We’ve come to a misadventure, a bad situation where diverse citizens, who rely on diverse systems of cultural certification, are in conflict,” says Kahan.

And that undercuts the standard notion that the way to persuade people is via evidence and argument. In fact, head-on attempts to persuade can sometimes trigger a backfire effect, where people not only fail to change their minds when confronted with the facts—they may hold their wrong views more tenaciously than ever.

Take, for instance, the question of whether Saddam Hussein possessed hidden weapons of mass destruction just before the US invasion of Iraq in 2003. When political scientists Brendan Nyhan and Jason Reifler showed subjects fake newspaper articles in which this was first suggested (in a 2004 quote from President Bush) and then refuted (with the findings of the Bush-commissioned Iraq Survey Group report, which found no evidence of active WMD programs in pre-invasion Iraq), they found that conservatives were more likely than before to believe the claim. (The researchers also tested how liberals responded when shown that Bush did not actually “ban” embryonic stem-cell research. Liberals weren’t particularly amenable to persuasion, either, but no backfire effect was observed.)

Another study gives some inkling of what may be going through people’s minds when they resist persuasion. Northwestern University sociologist Monica Prasad and her colleagues wanted to test whether they could dislodge the notion that Saddam Hussein and Al Qaeda were secretly collaborating among those most likely to believe it—Republican partisans from highly GOP-friendly counties. So the researchers set up a study in which they discussed the topic with some of these Republicans in person. They would cite the findings of the 9/11 Commission, as well as a statement in which George W. Bush himself denied his administration had “said the 9/11 attacks were orchestrated between Saddam and Al Qaeda.”

“One study showed that not even Bush’s own words could change the minds of Bush voters who believed there was an Iraq-Al Qaeda link.”

As it turned out, not even Bush’s own words could change the minds of these Bush voters—just 1 of the 49 partisans who originally believed the Iraq-Al Qaeda claim changed his or her mind. Far more common was resisting the correction in a variety of ways, either by coming up with counterarguments or by simply being unmovable:

Interviewer: [T]he September 11 Commission found no link between Saddam and 9/11, and this is what President Bush said. Do you have any comments on either of those? 

Respondent: Well, I bet they say that the Commission didn’t have any proof of it but I guess we still can have our opinions and feel that way even though they say that.

The same types of responses are already being documented on divisive topics facing the current administration. Take the “Ground Zero mosque.” Using information from the political myth-busting site FactCheck.org, a team at Ohio State presented subjects with a detailed rebuttal to the claim that “Feisal Abdul Rauf, the Imam backing the proposed Islamic cultural center and mosque, is a terrorist-sympathizer.” Yet among those who were aware of the rumor and believed it, fewer than a third changed their minds.

A key question—and one that’s difficult to answer—is how “irrational” all this is. On the one hand, it doesn’t make sense to discard an entire belief system, built up over a lifetime, because of some new snippet of information. “It is quite possible to say, ‘I reached this pro-capital-punishment decision based on real information that I arrived at over my life,'” explains Stanford social psychologist Jon Krosnick. Indeed, there’s a sense in which science denial could be considered keenly “rational.” In certain conservative communities, explains Yale’s Kahan, “People who say, ‘I think there’s something to climate change,’ that’s going to mark them out as a certain kind of person, and their life is going to go less well.”

This may help explain a curious pattern Nyhan and his colleagues found when they tried to test the fallacy that President Obama is a Muslim. When a nonwhite researcher was administering their study, research subjects were amenable to changing their minds about the president’s religion and updating incorrect views. But when only white researchers were present, GOP survey subjects in particular were more likely to believe the Obama Muslim myth than before. The subjects were using “social desirabililty” to tailor their beliefs (or stated beliefs, anyway) to whoever was listening.

Which leads us to the media. When people grow polarized over a body of evidence, or a resolvable matter of fact, the cause may be some form of biased reasoning, but they could also be receiving skewed information to begin with—or a complicated combination of both. In the Ground Zero mosque case, for instance, a follow-up study showed that survey respondents who watched Fox News were more likely to believe the Rauf rumor and three related ones—and they believed them more strongly than non-Fox watchers.

Okay, so people gravitate toward information that confirms what they believe, and they select sources that deliver it. Same as it ever was, right? Maybe, but the problem is arguably growing more acute, given the way we now consume information—through the Facebook links of friends, or tweets that lack nuance or context, or “narrowcast” and often highly ideological media that have relatively small, like-minded audiences. Those basic human survival skills of ours, says Michigan’s Arthur Lupia, are “not well-adapted to our information age.”

“A predictor of whether you accept the science of global warming? Whether you’re a Republican or a Democrat.”

If you wanted to show how and why fact is ditched in favor of motivated reasoning, you could find no better test case than climate change. After all, it’s an issue where you have highly technical information on one hand and very strong beliefs on the other. And sure enough, one key predictor of whether you accept the science of global warming is whether you’re a Republican or a Democrat. The two groups have been growing more divided in their views about the topic, even as the science becomes more unequivocal.

So perhaps it should come as no surprise that more education doesn’t budge Republican views. On the contrary: In a 2008 Pew survey, for instance, only 19 percent of college-educated Republicans agreed that the planet is warming due to human actions, versus 31 percent of non-college educated Republicans. In other words, a higher education correlated with an increased likelihood of denying the science on the issue. Meanwhile, among Democrats and independents, more education correlated with greater acceptance of the science.

Other studies have shown a similar effect: Republicans who think they understand the global warming issue best are least concerned about it; and among Republicans and those with higher levels of distrust of science in general, learning more about the issue doesn’t increase one’s concern about it. What’s going on here? Well, according to Charles Taber and Milton Lodge of Stony Brook, one insidious aspect of motivated reasoning is that political sophisticates are prone to be more biased than those who know less about the issues. “People who have a dislike of some policy—for example, abortion—if they’re unsophisticated they can just reject it out of hand,” says Lodge. “But if they’re sophisticated, they can go one step further and start coming up with counterarguments.” These individuals are just as emotionally driven and biased as the rest of us, but they’re able to generate more and better reasons to explain why they’re right—and so their minds become harder to change.

That may be why the selectively quoted emails of Climategate were so quickly and easily seized upon by partisans as evidence of scandal. Cherry-picking is precisely the sort of behavior you would expect motivated reasoners to engage in to bolster their views—and whatever you may think about Climategate, the emails were a rich trove of new information upon which to impose one’s ideology.

Climategate had a substantial impact on public opinion, according to Anthony Leiserowitz, director of the Yale Project on Climate Change Communication. It contributed to an overall drop in public concern about climate change and a significant loss of trust in scientists. But—as we should expect by now—these declines were concentrated among particular groups of Americans: Republicans, conservatives, and those with “individualistic” values. Liberals and those with “egalitarian” values didn’t lose much trust in climate science or scientists at all. “In some ways, Climategate was like a Rorschach test,” Leiserowitz says, “with different groups interpreting ambiguous facts in very different ways.”

“Is there a case study of science denial that largely occupies the political left? Yes: the claim that childhood vaccines are causing an epidemic of autism.”

So is there a case study of science denial that largely occupies the political left? Yes: the claim that childhood vaccines are causing an epidemic of autism. Its most famous proponents are an environmentalist (Robert F. Kennedy Jr.) and numerous Hollywood celebrities (most notably Jenny McCarthy and Jim Carrey). The Huffington Post gives a very large megaphone to denialists. And Seth Mnookin, author of the new book The Panic Virus, notes that if you want to find vaccine deniers, all you need to do is go hang out at Whole Foods.

Vaccine denial has all the hallmarks of a belief system that’s not amenable to refutation. Over the past decade, the assertion that childhood vaccines are driving autism rates has been undermined by multiple epidemiological studies—as well as the simple fact that autism rates continue to rise, even though the alleged offending agent in vaccines (a mercury-based preservative called thimerosal) has long since been removed.

Yet the true believers persist—critiquing each new study that challenges their views, and even rallying to the defense of vaccine-autism researcher Andrew Wakefield, after his 1998 Lancet paper—which originated the current vaccine scare—was retracted and he subsequently lost his license (PDF) to practice medicine. But then, why should we be surprised? Vaccine deniers created their own partisan media, such as the website Age of Autism, that instantly blast out critiques and counterarguments whenever any new development casts further doubt on anti-vaccine views.

It all raises the question: Do left and right differ in any meaningful way when it comes to biases in processing information, or are we all equally susceptible?

There are some clear differences. Science denial today is considerably more prominent on the political right—once you survey climate and related environmental issues, anti-evolutionism, attacks on reproductive health science by the Christian right, and stem-cell and biomedical matters. More tellingly, anti-vaccine positions are virtually nonexistent among Democratic officeholders today—whereas anti-climate-science views are becoming monolithic among Republican elected officials.

Some researchers have suggested that there are psychological differences between the left and the right that might impact responses to new information—that conservatives are more rigid and authoritarian, and liberals more tolerant of ambiguity. Psychologist John Jost of New York University has further argued that conservatives are “system justifiers”: They engage in motivated reasoning to defend the status quo.

This is a contested area, however, because as soon as one tries to psychoanalyze inherent political differences, a battery of counterarguments emerges: What about dogmatic and militant communists? What about how the parties have differed through history? After all, the most canonical case of ideologically driven science denial is probably the rejection of genetics in the Soviet Union, where researchers disagreeing with the anti-Mendelian scientist (and Stalin stooge) Trofim Lysenko were executed, and genetics itself was denounced as a “bourgeois” science and officially banned.

The upshot: All we can currently bank on is the fact that we all have blinders in some situations. The question then becomes: What can be done to counteract human nature itself?

“We all have blinders in some situations. The question then becomes: What can be done to counteract human nature?”

Given the power of our prior beliefs to skew how we respond to new information, one thing is becoming clear: If you want someone to accept new evidence, make sure to present it to them in a context that doesn’t trigger a defensive, emotional reaction.

This theory is gaining traction in part because of Kahan’s work at Yale. In one study, he and his colleagues packaged the basic science of climate change into fake newspaper articles bearing two very different headlines—”Scientific Panel Recommends Anti-Pollution Solution to Global Warming” and “Scientific Panel Recommends Nuclear Solution to Global Warming”—and then tested how citizens with different values responded. Sure enough, the latter framing made hierarchical individualists much more open to accepting the fact that humans are causing global warming. Kahan infers that the effect occurred because the science had been written into an alternative narrative that appealed to their pro-industry worldview.

You can follow the logic to its conclusion: Conservatives are more likely to embrace climate science if it comes to them via a business or religious leader, who can set the issue in the context of different values than those from which environmentalists or scientists often argue. Doing so is, effectively, to signal a détente in what Kahan has called a “culture war of fact.” In other words, paradoxically, you don’t lead with the facts in order to convince. You lead with the values—so as to give the facts a fighting chance.

[Original link with access to mentioned studies here.]

>Evento promove o Ciber-Ciência Cidadã no Brasil (JC/Gestão C&T)

>
JC e-mail 4240, de 18 de Abril de 2011

Ele é voltado aos interessados em participar de projetos científicos relacionados aos mais diversos temas, como mudanças climáticas, física de partículas, além de desenvolvedores, programadores e cientistas.

No mês de maio, alguns estados receberão o evento Brasil@home, uma iniciativa para promover o Ciber-Ciência Cidadã, que é a participação da sociedade em projetos científicos via internet, no Brasil e na América Latina. É uma introdução aos conceitos e prática de computação voluntária, inteligência distribuída e sensoriamento remoto voluntário.

No encontro, cientistas chefes dos principais projetos de Ciber-Ciência Cidadã no mundo ministrarão palestras e contribuirão para fomentar novos projetos no Brasil. O evento é voltado para interessados em participar de projetos científicos relacionados aos mais diversos temas, como mudanças climáticas, física de partículas, digitalização de documentos históricos, além de desenvolvedores, programadores e cientistas.

Alguns dos palestrantes são David Anderson, da University of Berkeley, criador do Seti@home, primeiro projeto de computação voluntária; Philip Brohan, da UK Meteorological Office, cientista do projeto Old Weather, no qual cidadãos ajudam a digitalizar dados climáticos registrados em antigos diários de bordo de navios; Francois Grey, diretor do Centro de Ciber-Ciência Cidadã; entre outros.

O Brasil@home será no dia 2 de maio em Brasília (DF); de 3 a 5 do mesmo mês no Rio de Janeiro (RJ); e no dia 6 em São Paulo (SP). A programação completa e mais informações estão no site http://www.citizencyberscience.net/brasilathome.
(Gestão C&T)

>O custo de Belo Monte (JC, O Globo)

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JC e-mail 4240, de 18 de Abril de 2011.

Artigo de Felício Pontes Jr* no jornal O Globo nesta segunda-feira (18).

A tecnologia para exploração da energia solar sempre foi apresentada como de alto custo, bastante superior aos de outras fontes de energia. Por isso, um país como o Brasil, privilegiado pela alta incidência de insolação em seu território, deixou de investir na
tecnologia solar em favor de outras fontes, principalmente a hídrica, responsável hoje pela geração de mais de 70% da energia no País. No entanto, esse argumento, o dos altos custos, não se justifica mais.

Nos Estados Unidos, dois projetos desenvolvidos na Califórnia de aproveitamento da energia térmica utilizando espelhos para a concentração de calor, Ivanpah e Blythe, provam que os custos dessa tecnologia já são bastante menores. O projeto Ivanpah, da empresa Brightsource, dobra a produção de energia solar no país. É prevista a geração de 370 MW de energia firme. São três usinas que, no total, terão um custo de R$ 3,4 bilhões. Já o projeto Blythe, das empresas Chevron e Solar Millennium, pretende produzir 960 MW ao custo de R$ 9,6 bilhões.

Se multiplicássemos o custo para geração de um megawatt nesses dois projetos de matriz solar por 4 mil megawatts médios – a quantidade, sendo otimista, de geração de energia prevista no projeto hidrelétrico de Belo Monte – teríamos um total de R$ 38 bilhões, no caso de Ivanpah, e de R$ 36,7 bilhões, se utilizarmos os valores relativos a Blythe.

Na primeira ação judicial contra Belo Monte, proposta em 2001, o governo dizia que a usina custaria R$ 10,4 bilhões. Ao pedir empréstimo ao BNDES, em 2011, o consórcio de empresas para fazer Belo Monte solicitou R$ 25 bilhões, o que representaria em torno de 80% dos custos. Logo, o custo oficial seria de R$ 31,2 bilhões. Nesse custo não estão previstos o valor do desmatamento que pode atingir 5,3 mil km² de floresta (segundo o próprio consórcio), o valor de 100 km de leito do Xingu que praticamente ficará seco, a indenização a povos indígenas e ribeirinhos localizados nesse trecho, todos os bairros de Altamira que estão abaixo da cota 100 e, portanto, serão inundados… só para mostrar alguns exemplos.

Os custos finais de Belo Monte ainda são incertos, graças ao descumprimento das leis do licenciamento ambiental em vários momentos. Conforme apontou o relatório de análise de riscos feito por especialistas e intitulado “Megaprojeto, Megarriscos”, Belo Monte tem elevados riscos associados a incertezas sobre a estrutura de custos de construção do empreendimento, referentes a fatores geológicos e topológicos, de engenharia e de instabilidade em valores de mercado. Tem elevados riscos financeiros relacionados à capacidade de geração de energia elétrica, que é muito inferior à capacidade instalada. E tem riscos associados à capacidade do empreendedor de atender obrigações legais de investir em ações de mitigação e compensação de impactos sociais e ambientais do empreendimento.

Assim, computando-se todos os custos socioambientais que normalmente estão fora do orçamento das hidrelétricas na Amazônia (vide Tucuruí, Jirau, Santo Antônio e Balbina) e mais os incertos custos da própria obra (como escavações), pode-se afirmar que o valor da energia solar já é competitivo com o de Belo Monte. Se não fosse, algumas das maiores empresas do mundo não estariam nessa área. O Grupo EBX investe na primeira usina solar comercial do País, no Ceará, a MPX Solar, com 4,4 mil painéis fotovoltaicos e capacidade de abastecer 1.500 residências. E a Google investe US$ 168 milhões no projeto Ivanpah.

Mas, enquanto países de clima temperado e com territórios muito menores, como a Alemanha e a Espanha, produzem mais energia a partir do sol do que o Brasil, aqui o governo prefere impor um modelo ultrapassado. E que agora não tem mais a vantagem de ser mais barato.

Em Belo Monte, senhores investidores, tenham certeza de que todos esses custos socioambientais serão cobrados se a barragem vier a ser construída.

*Procurador da República no Pará.
(O Globo)

>Classe média vai pautar eleições, afirmam analistas (OESP)

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Para especialistas, questão levantada por FHC em artigo sobre como fisgar emergentes será determinante no futuro dos políticos

OESP, 16 de abril de 2011
Por Gabriel Manzano

A “nova classe média”, trazida ao centro do debate político pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, e namorada pelo PT, que vê na presidente Dilma Rousseff a figura talhada para conquistá-la, chegou para mudar o cenário eleitoral do País, admitem analistas, marqueteiros e estudiosos.

O tema apareceu no artigo O Papel da Oposição, divulgado por FHC, e reforçou a condição desse grupo como objeto de desejo do mundo político. É um vasto universo de 29 milhões de pessoas – pobres que, nos últimos seis anos, subiram da classe D para a C e carregam consigo novos comportamentos e expectativas. Analistas, líderes partidários, comunicólogos e marqueteiros já se esforçam para entender como reagirá, no futuro, esse segmento que, ao subir na vida, fez da classe média o maior grupo social do País, com 94 milhões de pessoas (51% da população).

“Não se trata de gente sem nada, que aceite qualquer coisa. É gente que trabalhou duro, subiu, sabe o que quer, tem mais informação e se torna mais exigente”, resume Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope. “Isso merece um discurso novo e FHC acertou ao mandar a oposição ir atrás dela”, disse.

Não por acaso, o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas – primeiro a detectar esse fenômeno, num estudo de 2010 – considera essa iniciativa de Fernando Henrique “a segunda ideia mais inteligente da oposição em anos, depois do plano de estabilização dos anos 1994-2002”. Esse brasileiro, diz ele, “quer sonhar, e não apenas diminuir seus pesadelos”.

O impacto desse cenário já se faz sentir no mundo político, que ainda procura entender a enorme votação da candidata Marina Silva (PV) nas eleições presidenciais de 2010. “Mas é perda de tempo tentar adivinhar se é um grupo de esquerda ou de direita”, observa Antonio Prado, sócio-diretor da Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), em São Paulo.

Oportunidades. Grande parte desses emergentes, afirma Prado, “são cidadãos que tomaram iniciativas, buscaram créditos, tornaram-se microempresários”. Seus filhos estão entrando na universidade via ProUni. “Como trabalhadores, não querem um Estado que os tutele, mas que lhes dê oportunidades para crescer.” E como cidadãos, continua o analista, eles esperam “que haja ordem na sociedade, para nenhum malandro lhes passar a perna” – afinal, esforçaram-se demais para chegar aonde chegaram. Dos políticos, esse eleitor espera “coerência e dedicação ao bem comum”.

Para quem imagina que isso tudo tem um certo jeito de direita, Prado avisa que “esse brasileiro já foi pobre e percebeu que uma tarefa prioritária do Estado é atacar as desigualdades”. Ou seja, a nova classe é a favor dos programas sociais.

A vendedora Solange Ferreira Luz, moradora da periferia de São Paulo, é um exemplo típico desse novo eleitor mais informado e mais exigente. “Minha maior preocupação é a escola de meus dois filhos”, diz ela. Tanto que juntou dinheiro para comprar um computador e prefere que eles estudem em escolas técnicas estaduais, que lhe parecem melhores que as municipais.

Para esse eleitor, perde peso o discurso sobre “a elite de 500 anos” ou o neoliberalismo. O que lhe interessa mais, lembra Marcia Cavallari, “é que há empregos e ele não tem preparo para se candidatar a muitos deles. Então, a qualidade do ensino se torna um fator decisivo para sua vida, para ele aprender e subir. E ele quer que seus filhos cheguem à universidade e tenham uma vida melhor que a sua. Isso torna inevitável, em próximas eleições, o debate qualificado sobre o nível da educação no Brasil.”

Pode-se estender essa nova percepção a outros setores. “Para esses emergentes sociais, é tudo novidade. Ele já faz viagens de avião – e os aeroportos estão como estão. O filho na universidade saberá avaliar melhor o nível da educação”, compara Renato Meirelles, diretor do instituto Datapopular, que faz estudos sobre o mercado popular no Brasil. Ele menciona, a propósito, pesquisas segundo as quais 68% dos filhos, na classe C, estudaram mais que os pais. Na classe A, esse percentual é de apenas 10%.

Ralé e batalhadores. Os limites desse cenário, no entanto, não podem ser ignorados. Primeiro, porque os “novos” se juntam a uma enorme classe média e podem, é claro, assimilar seus projetos e valores no dia a dia. Esse termo, nova classe média, “designa setores que ampliaram sua capacidade de consumo”, adverte Leôncio Martins Rodrigues, “mas não define especialmente um novo segmento social”.

O sociólogo Jessé Souza até se recusa a admitir que exista uma nova classe média: existem o que ele chama de “batalhadores”, uma multidão que tanto poderá ser “cooptada pelo discurso e pela prática individualista”, como “assumir um papel protagonista e ajudar a ‘ralé’ – as massas desassistidas”. O próprio Fernando Henrique afirma também que uma classe implica um estilo de vida, valores, e prefere falar de “novas categorias sociais”.

Marcelo Néri destaca, também, que “nem política nem economicamente há nada conquistado nesse público – nem pelo PT nem pelas oposições”. Além disso, “todos podem perder com a inflação, se ela voltar, e também com o desemprego”.

>Ciência precisa avançar para embasar política climática (AIT, JC)

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JC e-mail 4236, de 12 de Abril de 2011

Os investimentos em pesquisa sobre mudanças climáticas nos últimos anos possibilitaram que o País fosse um dos primeiros a estabelecer metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Agora, a ciência brasileira precisa avançar mais para subsidiar as políticas públicas de adaptação da sociedade e dos setores econômicos às mudanças do clima.

Redução de emissões – A avaliação foi feita pelo secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Carlos Nobre, na abertura da 4ª Conferência Regional sobre Mudanças Globais: O plano brasileiro para o futuro sustentável, realizada no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP).

Em função desses investimentos governamentais em pesquisa, de acordo com Nobre, foi possível o Brasil se tornar o primeiro País em desenvolvimento a fixar metas de redução de emissões de GEE entre 36% a 39% até 2020, conforme estabelecido pelo Plano Nacional de Mudanças Climáticas, sancionado no fim de 2009.
“Essa foi uma área em que avançamos mais, com o estabelecimento de metas setoriais de redução de emissões. A mais significativa, obviamente, é a redução de 80% no índice de desmatamento da Amazônia, em que o Brasil tem conseguido obter avanços notáveis nos últimos seis anos. Mas um desafio ainda maior será reduzir em pelo menos 40% o desmatamento no Cerrado, que é atualmente a maior fronteira agrícola brasileira”, disse.

Medidas de adaptação às mudanças climáticas – Ainda que as emissões de GEE sejam reduzidas rapidamente, a temperatura do planeta ainda continuará subindo nos próximos séculos. Por conta disso, o próximo passo que deve ser dado é desenvolver medidas de adaptação que permitam que a sociedade e os setores econômicos se tornem mais resilientes às mudanças do clima, assinalou o cientista.

Uma das iniciativas recentes do Brasil nesse sentido é a criação do Sistema Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, coordenado por Nobre. O sistema contará com centros estaduais e regionais de monitoramento e alerta de desastres naturais, além de um nacional, que deve ser inaugurado até o fim do ano para funcionar nas próximas chuvas de verão.

“Essa é uma medida concreta de adaptação aos eventos climáticos que devíamos ao País e que finalmente será tirado do papel e se tornará uma realidade”, afirmou. De acordo com Nobre, a adaptação às mudanças climáticas também é uma das metas do segundo Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (Pacti), em elaboração pelo governo federal.

O plano estabelecerá grandes metas que o País almeja atingir em ciência, tecnologia e inovação no período de 2012 a 2015. Entre elas estão fazer com que o País tenha autonomia na geração de cenários climáticos futuros, especialmente em projeções de extremos climáticos em escala regional, que possam apoiar os planos regionais e setoriais de adaptação às mudanças climáticas, como os da agricultura.

“É fundamental adaptar a agricultura às mudanças climáticas para a segurança alimentar não só do País, mas também do mundo. O Brasil já é o segundo maior exportador de commodities agrícolas e, em menos de 10 anos, possivelmente se tornará o primeiro”, apontou Nobre.

Protagonista sem liderança – Na opinião de cientistas que participaram da abertura do evento, o Brasil assumiu o protagonismo nas discussões sobre redução das emissões de gases de efeito estufa. Mas, para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Eduardo José Viola, a capacidade de liderança do País nas negociações climáticas é limitada.

“O Brasil poderá assumir uma posição mais ativa nas negociações climáticas devido à sincronização das ações entre o MCT e o Ministério do Meio Ambiente. Mas o País é uma potência climática média. As grandes potências climáticas que podem solucionar o problema são os Estados Unidos, União Europeia e China, que, juntas, são responsáveis por 60% das emissões globais”, disse Viola.

Para Guy Pierre Brasseur, do National Center for Atmospheric Center (Ncar), dos Estados Unidos, a decisão sobre reduzir as emissões globais de GEE não é um problema científico, mas uma escolha política. E uma das maneiras de se conseguir fazer com que os líderes dos países assumam esse compromisso seria por meio da pressão popular. “Os resultados das negociações climáticas têm sido uma catástrofe, e os avanços foram muito limitados. Temos que pensar em como melhorar a comunicação da ciência sobre os impactos das mudanças climáticas porque a decisão dos países em reduzir suas emissões só será possível por meio da pressão exercida por seus cidadãos”, afirmou.
(Agência Inovação Tecnológica)