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A controversa aposta da China para ‘fabricar’ chuva – e por que muitos ainda duvidam dos resultados (BBC)

Dois homens com jaquetas amarelas e capacetes vermelhos estão de cada lado de um lançador de foguetes, com um deles carregando um projétil. Montanhas e neblina podem ser vistas ao fundo
A China tenta aumentar artificialmente seus índices de chuva desde a década de 1950 por meio de um método conhecido, embora ainda controverso: a semeadura de nuvens

Ally Hirschlag, BBC Future

17 fevereiro 2026

Em março de 2025, uma frota de 30 aviões e drones lançou partículas de iodeto de prata no céu do norte da China. Ao atingirem o ar, o pó amarelo-pálido em seu interior emergiu e logo se transformou em “fios” acinzentados, entrelaçando o céu enquanto as aeronaves as liberavam em padrões cruzados. Muito abaixo delas, mais de 250 geradores terrestres lançavam foguetes com as mesmas partículas.

O objetivo era trazer alívio à seca nas regiões norte e noroeste, conhecidas como o cinturão de grãos do país. A grande operação foi o projeto “chuva de primavera”, conduzido pela Administração Meteorológica da China, e planejada para beneficiar as plantações no início da temporada de plantio.

A enorme operação foi aparentemente um sucesso, tendo supostamente produzido 31 milhões de toneladas adicionais de precipitação em 10 regiões suscetíveis à seca.

A China tenta aumentar artificialmente seus índices de chuva desde a década de 1950 por meio de um método conhecido, embora ainda controverso: a semeadura de nuvens.

Esse método busca estimular as nuvens a produzir mais umidade com o uso de partículas minúsculas, geralmente de iodeto de prata, cuja forma e peso são semelhantes aos de uma partícula de gelo.

A semeadura de nuvens há muito tempo gera preocupações, que vão desde os possíveis riscos ambientais e os impactos dos produtos químicos utilizados até possíveis danos a populações em áreas vizinhas, decorrentes de alterações nos padrões de chuva, além de tensões de segurança que possam surgir como consequência.

E, mesmo enquanto o país mais populoso do mundo intensifica a prática, cientistas e especialistas continuam questionando o quanto ela realmente funciona.

Caminho para a chuva

Nos últimos anos, a China intensificou de forma significativa seus esforços de semeadura de nuvens, em grande parte graças ao avanço das tecnologias de drones e de radar. O país realiza hoje modificações climáticas em mais de 50% de seu território, principalmente para aumentar a precipitação, embora também esteja tentando reduzi-la em determinadas áreas.

A técnica chegou a ser empregada para gerenciar as condições meteorológicas em datas específicas, como nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e nas comemorações do centenário do Partido Comunista Chinês, em 2021.

A modificação do clima se tornou “um projeto vital para o desenvolvimento científico das nuvens atmosféricas e dos recursos hídricos, servindo ao país e beneficiando o povo”, afirmou Li Jiming, diretor do Centro de Modificação do Clima da China, à época da operação “chuva de primavera” de 2025. “É um componente crucial para a construção de uma nação meteorológica forte”, acrescentou, ao destacar a necessidade de impulsionar a China “de grande protagonista na modificação artificial do clima a líder global”.

Funcionários do departamento meteorológico chinês se preparam para disparar projéteis de artilharia para semeadura de nuvens em Yongchuan, em 2009
Funcionários do departamento meteorológico chinês se preparam para disparar projéteis de artilharia para semeadura de nuvens em Yongchuan, em 2009

O crescente interesse da China em controlar a precipitação é óbvia: desde a década de 1950, o país vêm enfrentando secas cada vez mais frequentes e severas, com impactos sobre a agricultura e a economia do país.

Os experimentos chineses com semeadura de nuvens começaram em 1958, quando uma aeronave supostamente teria provocado chuva sobre a província de Jilin, atingida pela seca. A técnica, porém, havia sido descoberta nos Estados Unidos uma década antes e, como tantas ideias inovadoras, totalmente por acaso.

Na década de 1940, Vincent Schaefer era pesquisador da General Electric e trabalhava para evitar que as aeronaves ficassem muito geladas durante o voo. Ele havia desenvolvido um refrigerador especial para demonstrar como o gelo se forma nas nuvens.

Um dia, ele chegou ao laboratório e descobriu que o equipamento havia desligado. Quando colocou um pedaço de gelo seco (dióxido de carbono sólido, em temperatura extremamente baixa) dentro dela para resfriar o interior, testemunhou uma reação surpreendente: cristais de gelo surgiram subitamente, flutuando dentro do compartimento. Ele havia produzido precipitação de forma artificial.

Um ano depois, em 1946, Schaefer lançou quilos de gelo seco sobre nuvens super resfriadas acima das montanhas Adirondack, no Estado de Nova York. O experimento aparentemente desencadeou uma queda de neve.

Depois dessa experiência, iniciativas de semeadura de nuvens surgiram ao redor do mundo, embora com resultados variados e inconclusivos, marcados por dificuldades na medição de dados.

Para demonstrar resultados efetivos da semeadura de nuvens, cientistas precisam de um cenário meteorológico de controle quase idêntico àquele em que tentam intervir na natureza. “Não conseguimos fazer a mesma nuvem acontecer duas vezes. Portanto, não podemos realizar um experimento controlado”, afirmou Robert Rauber, professor de ciências atmosféricas na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA).

Semeadura de neve

Na China e em outras partes do mundo, a semeadura de nuvens, tanto para experimentos quanto para o uso prático, é realizada com mais frequência em áreas montanhosas para produzir neve, principalmente porque a neve é mais fácil de enxergar e medir do que a chuva.

Os cientistas usam radares para encontrar nuvens que contenham água líquida super-resfriada (entre -15°C e 0°C). Em seguida, liberam nelas partículas minúsculas de iodeto de prata por meio de aeronaves ou geradores instalados no solo. Essas partículas congelam ao entrar em contato com a água super-resfriada, formando cristais de gelo nas nuvens, que se tornam mais pesados e, por fim, caem no solo como neve ou gelo.

A semeadura de nuvens em clima quente funciona de maneira semelhante, mas utiliza sal para estimular pequenas gotículas de água a se unirem e aumentarem de tamanho até cair no solo. No entanto, é menos comum, porque nuvens mais quentes costumam se deslocar mais rapidamente e contêm menos água super-resfriada, além de a água não se acumular de forma tão visível quanto a neve, o que dificulta o monitoramento.

O químico americano Vincent Schaefer, que demonstrou e testou a ideia da semeadura de nuvens, tenta transformar sua respiração em cristais em 1949
O químico americano Vincent Schaefer, que demonstrou e testou a ideia da semeadura de nuvens, tenta transformar sua respiração em cristais em 1949

A primeira base operacional de semeadura de nuvens da China foi estabelecida em 2013, e hoje o país conta com seis bases que colaboram em pesquisas. Seu programa de modificação do clima é agora o maior do mundo, e as ambições de indução de chuvas cresceram na mesma proporção.

Em particular, a enorme iniciativa Tianhe (“rio do céu”, em tradução livre) do país, que visa criar um corredor de vapor de água do Planalto Tibetano até a região seca do norte da China, por meio de milhares de geradores instalados no solo.

Mas a China também enfrenta críticas diante de preocupações com os impactos mais amplos dessas operações. “Aplicadas em escala suficientemente grande, essas tecnologias de modificação climática podem representar riscos à habitabilidade e à segurança de países vizinhos”, disse Elizabeth Chalecki, pesquisadora em relações internacionais e governança tecnológica na Balsillie School of International Affairs (Canadá).

Um relatório recente argumentou que uma intervenção de tão grande escala no Planalto Tibetano poderia levar ao controle unilateral da China sobre recursos hídricos compartilhados com países vizinhos, como a Índia, levando a tensões geopolíticas. Por outro lado, uma análise ainda não publicada, baseada em 27 mil experimentos de semeadura de nuvens na China, concluiu que o impacto sobre outras nações foi mínimo.

Os potenciais danos da semeadura de nuvens podem ser exagerados, segundo Katja Friedrich, professora de ciências atmosféricas e oceânicas da Universidade do Colorado (EUA). Por exemplo, “não há indicação de que a semeadura de nuvens saia do controle e de repente você tenha essa explosão que gera uma tempestade”, disse ela em referência às inundações em Dubai, em 2024, e no Texas, em 2025, ambas erroneamente atribuídas à semeadura de nuvens.

Ainda assim, especialistas como Chalecki alertam para a ausência de políticas internacionais capazes de prevenir eventuais impactos transfronteiriços à medida que o programa chinês de modificação do clima avança. A China poderia até ser capaz de obter “um benefício de segurança auxiliar ao degradar discretamente o meio ambiente e a habitabilidade de um Estado rival”, sugere ela.

Falta de evidências

Há, no entanto, outro problema com a semeadura de nuvens: segundo cientistas, a China pode simplesmente não estar produzindo a quantidade de chuva que afirma gerar. “Acho que as alegações não são suficientemente sustentadas pelos dados”, afirmou Rauber, da Universidade de Illinois.

Na última década, o governo chinês divulgou repetidas vezes que seu programa de semeadura de nuvens estaria alcançando resultados expressivos. Um comunicado à imprensa afirmou que a iniciativa “chuva de primavera” de 2025 aumentou a precipitação na área-alvo em 20% em comparação com 2024. Já a agência meteorológica chinesa declarou, em dezembro de 2025, que as operações de chuva e neve artificial haviam produzido 168 bilhões de toneladas adicionais de precipitação (volume equivalente a cerca de 67 milhões de piscinas olímpicas) desde 2021.

O experimento Snowie, considerado referência na área, reuniu dados que indicam de forma clara que a semeadura de nuvens levou à produção de neve
O experimento Snowie, considerado referência na área, reuniu dados que indicam de forma clara que a semeadura de nuvens levou à produção de neve

“Há muitas alegações [globalmente], seja por parte de agências governamentais ou de empresas que podem se beneficiar de operações de semeadura de nuvens”, disse Jeffrey French, cientista atmosférico da Universidade do Wyoming (EUA). “Acho que há muitas declarações [vindas da China] que não podem ser validadas cientificamente nem comprovadas.”

Em 2017, French liderou um avanço significativo nas evidências sobre a técnica, quando o projeto “Snowie”, nas montanhas Payette, no Estado de Idaho (EUA), conseguiu coletar dados que demonstraram de forma inequívoca a produção de neve por meio da semeadura de nuvens. Desde então, os resultados repercutiram internacionalmente.

“Conseguimos, em diversos casos, identificar exatamente onde o material de semeadura estava nas nuvens e realizar medições diretamente nessas áreas”, afirmou French, pesquisador principal do projeto. Isso foi possível apesar de haver “tamanha variabilidade natural, tantas variações na natureza das nuvens e da precipitação”, disse.

Os pesquisadores também realizaram medições adicionais em áreas próximas, a 1 a 2 quilômetros de distância, o que permitiu comparar as duas regiões e demonstrar uma diferença clara entre a quantidade de neve produzida naturalmente e a gerada artificialmente pelo mesmo sistema de nuvens.

Foi o mais próximo que um estudo financiado de forma independente já chegou de um experimento controlado bem-sucedido na natureza. O extenso conjunto de dados do Snowie representou um marco: não apenas demonstrou que a semeadura de nuvens pode funcionar, mas também evidenciou o equilíbrio complexo de quando e como a técnica apresenta melhores resultados. Os dados viraram referência para um campo científico que carecia de comprovação empírica.

O estudo de referência foi citado em diversas pesquisas chinesas sobre semeadura de nuvens publicadas em periódicos com revisão por pares, incluindo uma que afirma que o trabalho “demonstra rigorosamente que a semeadura de nuvens realmente criou nuvens precipitantes e aumentou a precipitação na superfície”.

Resultados modestos

Ainda assim, os resultados do Snowie indicaram que o impacto da semeadura de nuvens é, no fim das contas, limitado. “É por isso que as pessoas tinham dificuldade em demonstrar o efeito nesses sistemas de precipitação”, disse Friedrich, da Universidade do Colorado. E, embora a técnica tenha sido comprovada em certa medida em outros contextos, até mesmo os cientistas que observaram os resultados de perto questionam se ela é eficaz o suficiente para justificar o esforço.

Alguns também avaliam que o uso da tecnologia avançou mais rápido do que a pesquisa científica, e que ainda não há dados confiáveis em quantidade suficiente para sustentar os resultados divulgados. “O problema desses programas de semeadura de nuvens é que a maioria é conduzida por governos, como na China ou nos Emirados Árabes Unidos”, disse Friedrich. “Mas há pouquíssima análise independente.”

Isso é relevante porque continua extremamente difícil distinguir entre a precipitação gerada pela intervenção e aquela que as nuvens produziriam naturalmente. “Em geral, é muito difícil saber se a semeadura de nuvens funciona em todos os casos”, afirmou Adele L. Igel, professora associada de física de nuvens na Universidade da Califórnia em Davis (EUA). “A teoria e a ciência indicam que deveria funcionar, mas é difícil verificar essas previsões de forma rotineira com observações e medições.”

Um soldado carrega projéteis usados na semeadura de nuvens durante uma operação para combater a seca em Xigu Township, na Província de Shanxi, no norte da China, em fevereiro de 2011
Um soldado carrega projéteis usados na semeadura de nuvens durante uma operação para combater a seca em Xigu Township, na Província de Shanxi, no norte da China, em fevereiro de 2011

Persistem ainda inúmeras limitações para que a técnica funcione de forma previsível. A semeadura de nuvens, por exemplo, não produz efeito se não houver nuvens com potencial de precipitação. Também é muito menos eficaz nos meses mais quentes, quando são raras as nuvens com água super-resfriada.

Isso significa que, em muitos casos, o custo pode superar os resultados, sobretudo quando se utilizam métodos aéreos. As técnicas baseadas em solo — que dependem de geradores que lançam iodeto de prata ou outro agente para as nuvens por meio de correntes de ar — são mais baratas, mas muito menos previsíveis. “A semeadura aérea é bastante eficiente, mas também muito cara, por isso as pessoas recorrem aos métodos terrestres”, disse Friedrich, da Universidade do Colorado.

Também é impossível prever com precisão quais serão os efeitos de modificações climáticas amplas e contínuas, seja na China ou em outros países. “É muito difícil avaliar, quanto mais prever, impactos climáticos regionais e anomalias remotas decorrentes de operações de modificação do tempo”, disse Manon Simon, professora da Universidade da Tasmânia (Austrália), que pesquisou extensivamente as implicações geopolíticas potenciais do programa chinês. Segundo ela, é particularmente complexo determinar se programas de longo prazo podem resultar em secas ou inundações mais frequentes ou intensas. A identificação desses riscos, acrescenta, exige monitoramento permanente e ampla cooperação internacional.

Uma nova fronteira

Nos quase dez anos desde o projeto Snowie, as técnicas de semeadura e as tecnologias de radar evoluíram, o que pode significar maior produção de precipitação. Com o avanço recente dos drones, a China ampliou o uso de equipamentos mais sofisticados e passou a recorrer à inteligência artificial (IA) para aumentar a precisão na liberação de iodeto de prata.

China e Emirados Árabes Unidos também experimentam métodos como o flare seeding (semeadura com sinalizadores, em tradução livre) e o envio de cargas de íons negativos às nuvens para estimular a união de gotículas, processo que leva à precipitação.

Ainda assim, como ocorre com a semeadura tradicional, permanece escassa a pesquisa independente que comprove de forma conclusiva que esses novos métodos produzem mais chuva. Os cientistas temem que o aumento das secas no mundo, impulsionado pelas mudanças climáticas, acelere a adoção da tecnologia sem que haja, na mesma proporção, estudos que indiquem quando e onde ela funciona com bom custo-benefício.

Os especialistas concordam que mais dados independentes ajudariam a identificar em que circunstâncias a semeadura pode surtir efeito e quando é improvável que funcione. As mesmas informações poderiam orientar medidas de proteção para proteger países vizinhos de eventuais impactos adversos.

Tudo isso, porém, demanda tempo, um argumento difícil de sustentar quando a escassez de água já é realidade, e muitos países buscam soluções imediatas.

Em votação, cientistas negam que estejamos no Antropoceno, a época geológica dos humanos (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Grupo rejeitou que mudanças sejam profundas o bastante para encerrar o Holoceno

Raymond Zhong

5 de março de 2024


O Triássico foi o amanhecer dos dinossauros. O Paleogeno viu a ascensão dos mamíferos. O Pleistoceno incluiu as últimas eras glaciais.

Está na hora de marcar a transformação da humanidade no planeta com seu próprio capítulo na história da Terra, o “Antropoceno”, ou a época humana?

Ainda não, decidiram os cientistas, após um debate que durou quase 15 anos. Ou um piscar de olhos, dependendo do ângulo pelo qual você olha.

Um comitê de cerca de duas dezenas de estudiosos votou, em grande maioria, contra uma proposta de declarar o início do Antropoceno, uma época recém-criada do tempo geológico, de acordo com um anúncio interno dos resultados da votação visto pelo The New York Times.

Pela linha do tempo atual dos geólogos da história de 4,6 bilhões de anos da Terra, nosso mundo agora está no Holoceno, que começou há 11,7 mil anos com o recuo mais recente dos grandes glaciares.

Alterar a cronologia para dizer que avançamos para o Antropoceno representaria um reconhecimento de que as mudanças recentes induzidas pelo homem nas condições geológicas foram profundas o suficiente para encerrar o Holoceno.

A declaração moldaria a terminologia em livros didáticos, artigos de pesquisa e museus em todo o mundo. Orientaria os cientistas em sua compreensão do nosso presente ainda em desenvolvimento por gerações, talvez até por milênios.

No fim das contas, porém, os membros do comitê que votaram sobre o Antropoceno nas últimas semanas não estavam apenas considerando o quão determinante esse período havia sido para o planeta. Eles também tiveram que considerar quando, precisamente, ele começou.

Pela definição que um painel anterior de especialistas passou quase uma década e meia debatendo e elaborando, o Antropoceno começou na metade do século 20, quando testes de bombas nucleares espalharam material radioativo por todo o nosso mundo.

Para vários membros do comitê científico que avaliaram a proposta do painel nas últimas semanas, essa definição era muito limitada, muito recente e inadequada para ser um marco adequado da remodelação do Homo sapiens no planeta Terra.

“Isso restringe, confina, estreita toda a importância do Antropoceno”, disse Jan A. Piotrowski, membro do comitê e geólogo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. “O que estava acontecendo durante o início da agricultura? E a Revolução Industrial? E a colonização das Américas, da Austrália?”

“O impacto humano vai muito mais fundo no tempo geológico”, disse outro membro do comitê, Mike Walker, cientista da Terra e professor emérito da Universidade de Gales Trinity Saint David. “Se ignorarmos isso, estamos ignorando o verdadeiro impacto que os humanos têm em nosso planeta.”

Horas após a circulação dos resultados da votação dentro do comitê nesta terça-feira (5) de manhã, alguns membros disseram que ficaram surpresos com a margem de votos contra a proposta do Antropoceno em comparação com os a favor: 12 a 4, com 2 abstenções.

Mesmo assim, nesta terça de manhã não ficou claro se os resultados representavam uma rejeição conclusiva ou se ainda poderiam ser contestados ou apelados. Em um e-mail para o Times, o presidente do comitê, Jan A. Zalasiewicz, disse que havia “algumas questões procedimentais a considerar”, mas se recusou a discuti-las mais a fundo.

Zalasiewicz, geólogo da Universidade de Leicester, expressou apoio à canonização do Antropoceno.

Essa questão de como situar nosso tempo na narrativa da história da Terra colocou o mundo dos guardiões do tempo geológico sob uma luz desconhecida.

Os capítulos grandiosamente nomeados da história de nosso planeta são governados por um grupo de cientistas, a União Internacional de Ciências Geológicas. A organização usa critérios rigorosos para decidir quando cada capítulo começou e quais características o definiram. O objetivo é manter padrões globais comuns para expressar a história do planeta.

Os geocientistas não negam que nossa era se destaca dentro dessa longa história. Radionuclídeos de testes nucleares. Plásticos e cinzas industriais. Poluentes de concreto e metal. Aquecimento global rápido. Aumento acentuado de extinções de espécies. Esses e outros produtos da civilização moderna estão deixando vestígios inconfundíveis no registro mineral, especialmente desde meados do século 20.

Ainda assim, para se qualificar para a entrada na escala de tempo geológico, o Antropoceno teria que ser definido de uma maneira muito específica, que atendesse às necessidades dos geólogos e não necessariamente dos antropólogos, artistas e outros que já estão usando o termo.

Por isso, vários especialistas que expressaram ceticismo quanto à consagração do Antropoceno enfatizaram que o voto contra não deve ser interpretado como um referendo entre cientistas sobre o amplo estado da Terra.

“Este é um assunto específico e técnico para os geólogos, em sua maioria”, disse um desses céticos, Erle C. Ellis, um cientista ambiental da Universidade de Maryland. “Isso não tem nada a ver com a evidência de que as pessoas estão mudando o planeta”, afirmou Ellis. “A evidência continua crescendo.”

Francine M.G. McCarthy, micropaleontóloga da Universidade Brock em St. Catharines, Ontário (Canadá), é tem visão oposta: ela ajudou a liderar algumas das pesquisas para apoiar a ratificação da nova época.

“Estamos no Antropoceno, independentemente de uma linha na escala de tempo”, disse McCarthy. “E agir de acordo é o nosso único caminho a seguir.”

A proposta do Antropoceno teve início em 2009, quando um grupo de trabalho foi convocado para investigar se as recentes mudanças planetárias mereciam um lugar na linha do tempo geológica.

Após anos de deliberação, o grupo, que passou a incluir McCarthy, Ellis e cerca de três dezenas de outros, decidiu que sim. O grupo também decidiu que a melhor data de início para o novo período era por volta de 1950.

O grupo então teve que escolher um local físico que mostrasse de forma mais clara uma quebra definitiva entre o Holoceno e o Antropoceno. Eles escolheram o Lago Crawford, em Ontário, no Canadá, onde as águas profundas preservaram registros detalhados de mudanças geoquímicas nos sedimentos do fundo.

No outono passado, o grupo de trabalho enviou sua proposta do Antropoceno para o primeiro dos três comitês governantes da União Internacional de Ciências Geológicas —60% de cada comitê precisam aprovar a proposta para que ela avance para o próximo.

Os membros do primeiro comitê, a Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário, enviaram seus votos a partir do início de fevereiro. (Estratigrafia é o ramo da geologia que se dedica ao estudo das camadas de rocha e como elas se relacionam no tempo. O Quaternário é o período geológico em curso que começou há 2,6 milhões de anos.)

De acordo com as regras da estratigrafia, cada intervalo de tempo da Terra precisa de um ponto de partida claro e objetivo, que se aplique em todo o mundo. O grupo de trabalho do Antropoceno propôs meados do século 20 porque isso abrangia a explosão do crescimento econômico pós-guerra, a globalização, a urbanização e o uso de energia.

Mas vários membros da subcomissão disseram que a transformação da humanidade na Terra era uma história muito mais abrangente, que talvez nem tenha uma única data de início em todas as partes do planeta.

Por isso, Walker, Piotrowski e outros preferem descrever o Antropoceno como um “evento”, não como uma “época”. Na linguagem da geologia, eventos são um termo mais amplo. Eles não aparecem na linha do tempo oficial, e nenhum comitê precisa aprovar suas datas de início.

No entanto, muitos dos acontecimentos mais significativos do planeta são chamados de eventos, incluindo extinções em massa, expansões rápidas da biodiversidade e o preenchimento dos céus da Terra com oxigênio há 2,1 bilhões a 2,4 bilhões de anos.

Mesmo que o voto da subcomissão seja mantido e a proposta do Antropoceno seja rejeitada, a nova época ainda poderá ser adicionada à linha do tempo em algum momento posterior. No entanto, terá que passar por todo o processo de discussão e votação novamente.

The UN must get on with appointing its new science board (Nature)

nature.com

The decision to appoint a board of advisors is welcome — and urgent, given the twin challenges of COVID and climate change.

EDITORIAL – 08 December 2021


UN Secretary-General Antonio Guterres speaks with the press
UN secretary-general António Guterres announced plans for a new science board in September, but is yet to release further details.Credit: Juancho Torres/Anadolu Agency/Getty

Scientists helped to create the United Nations system. Today, people look to UN agencies — such as the UN Environment Programme or the World Health Organization — for reliable data and evidence on, say, climate change or the pandemic. And yet, shockingly, the UN leader’s office has not had a department for science advice for most of its 76-year history. That is about to change.

UN secretary-general António Guterres is planning to appoint a board of scientific advisers, reporting to his office. The decision was announced in September in Our Common Agenda (see go.nature.com/3y1g3hp), which lays out the organization’s vision for the next 25 years, but few other details have been released.

Representatives of the scientific community are excited about the potential for science to have a position at the centre of the UN, but are rightly anxious for rapid action, given the twin challenges of COVID-19 and climate change, which should be urgent priorities for the board. The International Science Council (ISC), the Paris-based non-governmental body representing many of the world’s scientists, recommended such a board in its own report on science and the intergovernmental system, published last week (see go.nature.com/3rjdjos). Council president Peter Gluckman, former chief science adviser to New Zealand’s prime minister, has written to Guterres to say the ISC is ready to help.

But it’s been more than two months since the announcement, and the UN has not yet revealed the names of the board members. Nature spoke to a number of serving and former UN science advisers who said they know little about the UN chief’s plans. So far, there are no terms of reference and there is no timeline.

Nature understands that the idea is still being developed, and that Guterres is leaning towards creating a board that would draw on UN agencies’ existing science networks. Guterres is also aware of the need to take into account that both the UN and the world have changed since the last such board was put in place. All the same, the UN chief needs to end the suspense and set out his plans. Time is of the essence.

Guterres’s predecessor, Ban Ki-moon, had a science advisory board between 2014 and 2016. Its members were tasked with providing advice to the secretary-general on science, technology and innovation for sustainable development. But COVID-19 and climate change have pushed science much higher up the international agenda. Moreover, global challenges are worsening — the pandemic has put back progress towards the UN’s flagship Sustainable Development Goals (SDGs), a plan to end poverty and achieve sustainability by 2030. There is now widespread recognition that science has an important part to play in addressing these and other challenges.

Research underpins almost everything we know about the nature of the virus SARS-CoV-2 and the disease it causes. All countries have access to similar sets of findings, but many are coming to different decisions on how to act on those data — for example, when to mandate mask-wearing or introduce travel restrictions. The UN’s central office needs advice that takes this socio-cultural-political dimension of science into account. It needs advice from experts who study how science is applied and perceived by different constituencies and in different regions.

Science advice from the heart of the UN system could also help with another problem highlighted by the pandemic — how to reinvigorate the idea that it is essential for countries to cooperate on solving global problems.

Climate change is one example. Advice given by the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) is being read and applied in most countries, albeit to varying degrees. But climate is also an area in which states are at odds. Despite Guterres’s calls for solidarity, there were times during last month’s climate conference in Glasgow when the atmosphere was combative. Science advisers could help the secretary-general’s office to find innovative ways to encourage cooperation between countries in efforts to meet the targets of the 2015 Paris climate agreement.

The SDGs are also, to some extent, impeded by competition within the UN system. To tackle climate change, manage land and forests, and protect biodiversity, researchers and policymakers need to work collegially. But the UN’s scientific bodies, such as the IPCC, are set up along disciplinary lines with their own objectives, work programmes and rules, all guided by their own institutional histories. The IPCC and the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES), for example, have only begun to collaborate in the past few years .

Independence will be key for an advisory role to be credible. Guterres needs to consider an organizational architecture through which UN agencies are represented, and funding could come from outside the UN. But all of those involved would have to accept that their contributions were for common goals — not to promote their own organization’s interests.

Leadership matters, as do communication and support. Guterres should ensure that his scientific advisers are chosen carefully to represent individuals from diverse disciplines and across career stages, and to ensure good representation from low-income countries. The board needs to be well staffed and have a direct line to his office. And it will need a decent budget. Guterres should quickly publish the terms of reference so that the research community has time to provide input and critique.

At its most ambitious, a scientific advisory board to the secretary-general could help to break the culture of individualism that beleaguers efforts to reach collective, global goals, and bring some coherence to the current marketplace of disciplines, ideas and outcomes. This will be a monumental task, requiring significant resources and the will to change. But if the advisers succeed, there will also be valuable lessons for the practice of science, which, as we know all too well, still largely rewards individual effort.

Nature 600, 189-190 (2021)

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-021-03615-y

O lobo mau (FSP)

04/11/2012 – 03h30

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Um dos motivos do nosso orgulho nacional, que o próprio Lula invocou há tempos, é que não temos vulcões nem terremotos. Nossas relações com o planeta Terra são relativamente boas, temos enchentes que não chegam ao nível de furacões. Os nossos temporais produzem vítimas e estragos, mas a culpa não chega a ser da natureza, mas da legislação e da fiscalização nas áreas de risco. As tragédias que sofremos neste setor poderiam ser minimizadas.

Com os Estados Unidos a barra é mais pesada. Na Costa Oeste, os terremotos, e, na Costa Leste, os furacões. No meio, entre os dois litorais, os tornados. O país mais rico e poderoso em tecnologia ainda não encontrou um sistema que controlasse os desvarios da natureza. É tão indefeso diante das catástrofes como as ilhas Papuas, que, aliás, sofrem menos neste departamento.

Vimos as cenas provocadas pelo furacão Sandy, que praticamente reduziu Nova York, por algumas horas, a uma cidade que poderia integrar a Baixada Fluminense.

Felizmente, o povo americano sabe se virar em situações iguais. Em setembro de 1985, enfrentei o furacão Glória, estava em White Plains, as autoridades pediam que se enchessem as banheiras para impedir que elas voassem. É a síndrome do Lobo Mau que destrói a choupana dos Três Porquinhos com seu sopro formidável.

Passei horas grudando fitas gomadas nas janelas, reforçando os vidros que se estraçalhavam. Clima de fim de mundo. Os supermercados foram esvaziados, num deles cheguei a comprar latas de sardinhas feitas em Niterói. Tinha a volta marcada para o dia seguinte, a companhia aérea me localizou e me aconselhou a ir para o JFK enquanto houvesse trânsito regular. Dormi duas noites no aeroporto, em cima das minhas malas. “God bless America”.

De Sandy a Deus (FSP)

WALTER CENEVIVA

Algo me diz que a aproximação de Brasil, África do Sul e Austrália será boa para os três países

SE HOUVESSE um supremo tribunal interplanetário para julgar a culpa pelos efeitos dramáticos do furacão Sandy, gerados pelos habitantes da Terra contra a natureza, talvez a decisão fosse condenatória. As mortes e a destruição decorrentes do Sandy justificariam uma pergunta hoje de uso comum: como ficaria a dosimetria? Quem foi, e em que grau, responsável pelo mau uso da superfície, do ar e das entranhas do planeta no hemisfério norte?

O limite da pergunta se explica. Nós, do hemisfério sul, começamos a intervir na vida dos continentes há menos de 600 anos. Os do norte assinalaram sua presença há uns 12.000 anos -boa parte do hemisfério sul era desconhecida pelo menos até o século 16.

Esses 600 anos marcaram a ocupação de todo planeta. Mesmo assim, só no século 20 surgiram muitas das duas centenas de nações novas, com independência ao menos formal. Desapareceram colônias de países europeus e asiáticos nos cinco continentes.

O avanço dos conquistadores eurasiáticos nessa área marcou a história da Terra. O remanescente apenas alcançou o nível de vida civilizada, segundo os padrões ocidentais, quando conquistadores europeus se instalaram no México e nos Estados Unidos e igualmente com a verificação da terra que se sabia existir na latitude atingida por Pedro Álvares Cabral.

Percebo a pergunta do leitor: por qual a razão uma coluna jurídica precisa dar tantas referências geográficas? Simples: a Constituição brasileira enuncia princípios que, favorecendo relações internacionais, preservam, no art. 4º, a independência nacional; garantem regras de autodeterminação dos povos e de não intervenção. O mesmo resulta do art. 21, I (relações com outros Estados e organizações internacionais), colocando sob o presidente da República a condução do relacionamento externo.

O aprofundamento do exame impõe o conhecimento das áreas envolvidas. Existem três países de grande extensão territorial ao sul do Equador -Austrália, África do Sul e Brasil- com expressão bem marcada no cenário internacional. Os 50 milhões de sul-africanos ocupam 1,2 milhões de quilômetros quadrados, muito menos que os 7,7 milhões da amplitude australiana, mas de população rarefeita e modesta, na casa dos 21 milhões. Ambos menores que o Brasil nos dois quesitos, pois somos 192 milhões espalhados em 8,3 milhões de quilômetros quadrados, com milhares de cidades.

Dois outros pontos diferenciam os três países: hoje se pode dizer que o território brasileiro está inteiramente ocupado. Não a Austrália, nem tanto por ser o país mais plano do mundo, mas pelos seus quatro grandes desertos. A África do Sul ainda vive consequências da política da separação entre brancos a negros, até a segunda metade do século 20.

Dentre os três, se for o caso de composição uniforme dos interesses multinacionais, nosso país tem presença marcante, o que não obsta a associação dos três para percorrer caminho mais adequado para o futuro comum. A composição dos instrumentos legais para viabilizar a aproximação tem a vantagem de facilitar o acesso marítimo, pelo Oceano Atlântico e pelo Indico, só no hemisfério sul. Algo me diz que, de Sandy a Deus, a aproximação do sul será boa para os três na linha reta do trópico de Capricórnio.

Divisão Norte-Sul paira sobre a Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
01/6/2012 – 10h05

por Thalif Deen, da IPS

Slide2 Divisão Norte Sul paira sobre a Rio+20

Branislav Gosovic. Foto: Cortesia Branislav Gosovic

Nova York, Estados Unidos, 1/6/2012 – A Cúpula da Terra de 1992 no Rio de Janeiro se viu em grande parte desbaratada pela divisão Norte-Sul: uma batalha entre uma coalizão de nações industrializadas ricas e o Grupo dos 77 (G-77), atualmente integrado por 134 países em desenvolvimento.

De certa forma, as atuais divisões são mais profundas do que por ocasião da Conferência sobre Ambiente Humano realizada em Estocolmo em 1972, a primeira cúpula ambiental, e do que a Cúpula da Terra, duas décadas depois, disse Branislav Gosovic, ex-integrante da Comissão Brundtland sobre Meio Ambiente e que integrou a delegação do Centro Sul na conferência de 1992.

“A divisão afetará o processo e o resultado da Rio+20”, afirmou Gosovic, referindo-se à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) no Rio de Janeiro, de 20 a 22 de junho. Branislav Gosovic é autor de The Quest for World Environmental Cooperation: The Case of the U.N. Global Environment Monitoring System (A busca da cooperação mundial para o meio ambiente: o caso do Sistema Mundial de Monitoramento Ambiental das Nações Unidas).

IPS: Como participante da Cúpula da Terra de 1992, tem alguma confiança ou está cético com relação ao resultado da Rio+20?

Branislav Gosovic: Não sou otimista quanto a êxitos ou grandes avanços. A reunião acontecerá em um momento difícil para a economia global e nacional e após 20 anos de predomínio de uma globalização neoliberal. No primeiro caso, os chefes de Estado estarão preocupados com a resposta à atual crise que não sabem como manejar nem superar. E o segundo prejudicou a agenda sobre desenvolvimento sustentável e paralisou, ou fez retroceder, alguma das políticas e dos avanços conceituais realizados no período anterior com vistas à (e na) cúpula do Rio de Janeiro.

IPS: Qual sua opinião sobre o documento da Rio+20 que é negociado?

BG: Mantém muitas ideias e muitos objetivos vivos. Entretanto, semanas antes do encontro, parágrafos entre parênteses (o que indica desacordos) e palavras ambíguas sobre questões muito importantes mostram a falta de consenso e que a comunidade internacional caminha para um período de seca. Porém, me atrevo a ser otimista quanto ao longo prazo e após um período de globalização neoliberal, dada a maturação de muitos temas e a preocupação e o agravamento dos problemas globais identificados em Estocolmo há 40 anos, que a Rio+20 possa marcar o começo de 20 anos mais promissores para a cooperação internacional rumo a “Estocolmo+60, isto é, Rio+40.

IPS: Qual a melhor forma de conseguir isso?

BG: É preciso muito trabalho, compromisso e liderança de alguns países que estão em posição de oferecê-lo e participação das forças sociais em um movimento global genuíno. E o mais importante, acarretará grandes mudanças estruturais e paradigmas sobre como a sociedade se organiza, em escala nacional e global, uma chave que abrirá a porta para cumprir muitos dos atuais objetivos esquivos ou inalcançáveis. Não há motivo de surpresa no fato de tais mudanças sofrerem resistência e serem combatidas com unhas e dentes e por todos os meios disponíveis pelos que se opõem a elas.

IPS: Acredita em uma repetição da divisão Norte-Sul de 1991 nas atuais negociações do plano de ação da Rio+20, intitulado O futuro que queremos?

BG: A divisão Norte-Sul existe há mais de 60 anos, desde os primeiros dias da Organização das Nações Unidas. Afetou e determinou o resultado de Conferência de Estocolmo e a forma como foi conceituada a agenda ambiental, como um plano de desenvolvimento sustentável. Esteve presente no informe e na primeira reunião da Comissão Brundtland, isto é, a Comissão sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e depois na Rio 92 e em Johannesburgo 2002. E tal como mostra o atual rascunho do documento final, terá um papel central na Rio+20. Pode-se argumentar que as questões ambientais usufruíram a agenda internacional para o desenvolvimento e vice-versa. Os problemas ambientais globais não podem ser atendidos nem resolvidos sem a participação do Sul e dos países em desenvolvimento, e sendo sócios iguais na empresa. Não se pode fazer desaparecerem as cúpulas gêmeas sobre meio ambiente e desenvolvimento, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e a Chamada Cúpula da Terra, como fazem alguns países industrializados tentando encontrar divisões e diferenças no Sul. Continuarão fazendo isso até que o Norte mude sua política e assuma sua posição de solidariedade e tenha uma adesão genuína aos princípios do Rio, de “responsabilidades comuns e diferenciadas”. Por outro lado, observa-se os esforços para transformar a agenda ambiental em uma grande oportunidade empresarial e de criação de emprego, para projetar uma imagem de determinados países em desenvolvimento importantes como principal ameaça para o meio ambiente global. Também para enfrentar nas negociações sobre mudança climática pequenos grupos de Estados em desenvolvimento vulneráveis, em um esforço de nunca acabar tendente a dividir o Grupo dos 77. Definitivamente, o conflito Norte-Sul está vivo e se movendo, dirá presente na Rio+20 e se manterá no futuro imediato.

IPS: Como se compara a Agenda 21 e o documento da Rio+20 com o histórico informe da Comissão Brundtland de 1987? Houve avanços substanciais desde então e desde a Conferência de Estocolmo?

BG: O documento da Rio+20 é resultado de um processo de negociações. Nesse sentido, não se pode comparar com o Informe Brundtland nem com o da Cúpula da Terra, ambos elaborados por equipes dedicadas a essa tarefa durante um longo tempo. Por outro lado, a maioria dos temas presentes no Informe Brundtland e na Agenda 21 podem ser encontrados no documento da Rio+20, embora redigidos de tal forma que revela a falta de consenso e de compromisso para agir. Houve avanços em numerosas áreas, mas, nas questões cruciais e nos conflitos subjacentes, quase não existiu movimento. Isso continuará sendo de interesse e desempenhará um papel importante na Rio+20. Um desses conflitos tem a ver com as divisões Norte-Sul, a agenda internacional para o desenvolvimento, e a questão relacionada da ordem global e política existente, que está sendo questionada. O outro conflito, menos visível, tem a ver com a natureza da ordem socioeconômica dominante, ou o paradigma, que é questionado por não ser sustentável do ponto de vista social nem ambiental. Este conflito estará presente no Norte e no Sul. Houve poucos progressos na prática sobre questões fundamentais desse tipo. Envolverde/IPS

(IPS)