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Clima marombado (Folha de S.Paulo)

Marcelo Leite, 31/05/2015  01h45

Como o jornal anda cheio de notícias boas, esta coluna retoma sua predileção desmesurada pelas más novas impopulares e anuncia: 2015 caminha para ser dos infernos também na esfera do clima.

É provável, por exemplo, que este ano bata o recorde de temperatura global. A marca estava antes, veja só, com 2014. Os dez anos mais escaldantes ocorreram todos depois de 1998.

Um dos que acreditam no novo recorde é o alemão Stefan Rahmstorf. O climatologista do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impacto do Clima, que ficou famoso em 2007 por criticar as previsões do IPCC como muito conservadoras, lançou sua predição para 20 jornalistas de 17 países reunidos em Berlim há 20 dias.

O período janeiro-abril de 2015 brindou o planeta com o primeiro quadrimestre mais quente já registrado desde 1880. O período de 12 meses compreendido entre maio de 2014 e abril de 2015 também foi o pior em matéria de calor.

Isso tudo já acontecia enquanto o fenômeno El Niño ainda era considerado fraco. Esse aquecimento anormal das águas do Pacífico na costa oeste sul-americana, que costuma abrasar o clima mundial, ganhou impulso neste mês de maio e deve permanecer até o segundo semestre.

Notícia péssima para o Nordeste brasileiro. O semiárido tem bolsões que enfrentam o quarto ano seguido de seca. Entre os efeitos mais conhecidos de um El Niño está exatamente a diminuição das chuvas nessa região do Brasil (assim como o aumento da precipitação no Sul).

Pior é a situação na Índia. Até sexta-feira (29), uma onda de calor –a pior em duas décadas, com temperaturas de 47 graus Celsius– havia causado mais de 2.000 mortes. E o El Niño pode atrasar e enfraquecer as monções, chuvas torrenciais que começam em junho e poderiam refrescar o segundo país mais populoso do mundo.

Enquanto indianos torram, amazonenses estão debaixo d’água. A cheia do rio Negro, também ela perto de bater recordes, já atrapalhou a vida de 238 mil pessoas em 33 municípios do Estado do Amazonas.

O governo estadual se limita a medidas de remediação. Mais de 450 toneladas de alimentos não perecíveis foram distribuídas, assim como “kits dormitório” (colchões, redes e mosquiteiros) e “kits de higiene pessoal” para milhares de desabrigados.

Também foram destinados às cidades atingidas 68 metros cúbicos de madeira e 750 kits de tábuas, caibros e ripões para os moradores construírem passarelas elevadas conhecidas como “marombas”.

Essa enchente provavelmente nada tem a ver com o El Niño, e também seria difícil demonstrar um nexo causal entre a onda de calor indiana e a anomalia no Pacífico. Os dois eventos constituem bons exemplos, contudo, das situações extremas que a mudança do clima em curso deverá tornar mais frequentes nas próximas décadas.

Pelo andar da carruagem das negociações internacionais, parece cada vez mais difícil, se não impossível, que se consiga evitar um aquecimento global maior que 2 graus Celsius neste século. Esse é o limite de segurança indicado pelo IPCC.

A mudança do clima está contratada. Não resta muito mais que adaptar-se –e preparar a infraestrutura das cidades para ela exigirá muito mais do que marombas improvisadas.

Exclusivo: bolivianos culpam Brasil por enchentes e desejam processar o país por danos e prejuízos de bilhões de dólares (+RO)

21/02/2014

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Walter Justiniano: esta tragédia é como a Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Marquez

Mais um imbróglio vem aí pela frente envolvendo as usinas do rio Madeira, o progresso e a discórdia. O consultor ambiental boliviano, Walter Justiniano Martinez, 54, de Guayaramerin (Bolívia), tem em mãos um relatório onde consta que o Brasil é o culpado pelas enchentes na Bolívia, que culminou com 60 pessoas mortas e 90 mil cabeças de gados perdidas. O prejuízo é de cerca de 50 milhões de dólares e mais de 40 mil hectares de culturas agrícolas afetadas. Segundo ele, “o governo boliviano sabia dos problemas que seriam provocados pelas barragens das usinas de Jirau e Santo Antônio e não fez nada a este respeito”. Explicando, as represas de Jirau e Santo Antônio não deixam a água escoar, culminando com enchentes rio acima, pegando o Beni. As fortes chuvas que caem sobre a Bolívia agravaram ainda mais o problema. Veja no mapa abaixo.

As represes de Jirau e S. Antônio alagaram o Beni

Bolívia conhecia os efeitos de barragens brasileiras na Amazônia.  O governo sabia que as barragens construídas na bacia do rio Madeira causariam grandes inundações no país por mais de seis anos.

Em 2006, o ministro dos Negócios estrangeiros David Choquehuanca, enviou uma carta para seu homólogo brasileiro manifestando o o perigo da construção destas barragens para a Bolívia. O governo boliviano  já tinha alertado sobre os impactos há mais de sete anos.

Cerca de 90 mil cabeças de gado perdidas

Na nota enviada por Choquehuanca, citado em La Razón (jornal boliviano), argumentou-se que entre os impactos prováveis “é considerado a inundação do território boliviano, como um efeito dos reservatórios que afetarão, de um lado, a existência da Floresta Amazônica, na bacia do Madeira, as riquezas em castanha”.

O processo de consulta bi-nacional com vários encontros e reuniões presidenciais, ministeriais e técnicas foi lançado em novembro do mesmo ano. O II encontro técnico realizado nos dias 30 e 31 de outubro de 2008, em La Paz, a troca de informações sobre os projetos hidrelétricos Jirau e Santo Antonio. Bolívia, então, expressa seu aborrecimento pela ausência de delegados técnicos suficientes, do Brasil, apesar do compromisso.
No mesmo tempo, organizações camponesas da Bolívia e do Brasil criaram o movimento em defesa da bacia do Rio Madeira e a Região Amazônica.
Estudos e declarações de organizações de proteção ambiental também alertaram para os riscos, incluindo a Liga de Defesa do Ambiente (Lidema), que, em 2009, exortou o governo “em conformidade com os acordos internacionais, independentemente da agenda positiva com o governo brasileiro”.
Em 2011, um seminário sobre projetos de energia no Brasil, o Vice Ministro Juan Carlos Alurralde, disse à Reuters que o governo não estava satisfeito com os relatórios do Brasil em defesa da hidrelétrica e esperava mais esclarecimentos e garantias.

Um prejuízo de 50 bilhões de dólares

Então, o primeiro secretário da Embaixada do Brasil na Bolívia, Ruy Ciarlini, disse à Reuters que eles tinham “dados científicos que mostram que não há nenhum risco”. Até ontem, em Beni foram relatadas 84 mil carcaças (gado) e perdas de 50 milhões de dólares. Mais de 39 mil hectares de culturas afetadas, enquanto o número de vítimas cresce dia a dia devido às enchentes.

O presidente Evo Morales, solicitou na terça-feira,  investigações sobre o impacto das enchentes  no Beni.

Fonte: +RO http://www.maisro.com