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Transgênicos, 20 anos de avanços e polêmicas (Valor Econômico)

JC e-mail 4973, de 16 de junho de 2014

Futuro imaginado: desafio dos cientistas é entender a soja como um circuito, onde todas as peças são conhecidas

Vinte anos após a aprovação do primeiro alimento geneticamente modificado do mundo – um tomate com maior durabilidade criado na Califórnia -, o mercado de transgênicos atinge a maturidade com números expressivos, ainda que cercado de polêmicas. A cada 100 hectares plantados com soja hoje no planeta, 80 já são de sementes com os genes alterados. No caso do milho, são 30 para cada 100, o que significa que a chance de encontrar essas matérias-primas na dieta alimentar humana e animal cresceu substancialmente.

Em menos de duas décadas, a área com culturas transgênicas subiu 100 vezes, de 1,7 milhão de hectares para 175,2 milhões. Os EUA continuam na liderança desse processo, com 70 milhões de hectares e 90% de adoção de tecnologia em lavouras de soja, milho e algodão, espelhando uma tendência em outros grandes países agrícola.

Com movimentação global de US$ 16 bilhões em 2013 nessas tecnologias, as companhias agrícolas travam uma “batalha de foice no escuro” para arrebatar mercados ainda não conquistados.

Na soma de perdas e ganhos, os produtores rurais dizem ter angariado benefícios, o que justificou a adoção da tecnologia. Desde a aprovação para consumo do tomate “Flavr Savr”, desenvolvido pela Calgene (comprada pela Monsanto), em 1994, a redução das aplicações de inseticidas recuaram 90% até 2010. O uso de herbicidas também caiu, embora casos pontuais de resistência de plantas daninhas ao glifosato, tenham acendido o sinal amarelo no Sul do Brasil e em regiões do EUA. A Monsanto, detentora da tecnologia, credita esses episódios a erros do produtor, como falta de rotação de culturas e o mau uso de produtos químicos.

Se os números até agora são favoráveis, a descoberta de novos “eventos” – o jargão da indústria para variedades novas – é crucial para manter o fôlego da indústria. Nos EUA, os pedidos para liberações de testes de campo, um medidor importante da intensidade das pesquisas em biotecnologia agrícola, têm se mantido à ordem 800 por ano, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). A Monsanto é a empresa que mais protocola esses pedidos junto às autoridades americanas, seguida por DuPont Pioneer e Syngenta.

No Brasil, 53 tiveram a liberação planejada no ambiente aprovadas este ano pela Comissão Técnica Nacional para a Biossegurança (CTNBio) e 19 aguardam o O.K. comercial – a maior parte para milho e soja, com novidades também em cana-de-açúcar e eucalipto.

Os esforços nos laboratórios estão centrados em trazer soluções para velhas e novas necessidades do campo. Questões agronômicas, como o aumento de produtividade, continuam norteando as pesquisas. Mas as mudanças no clima trouxeram demandas de outra ordem, como a de sementes resistentes ao calor e ao estresse hídrico.

A complexidade também mudou. Segundo os cientistas, para atender os sistemas de produção atuais, não basta reformular plantas com uma única característica. Kristie Bell, gerente de comunicação da DuPont Pioneer para América Latina, diz que o avanço está em construir variedades agrícolas com benefícios múltiplos – os chamados eventos “piramidados”, tidos como a evolução natural do conhecimento científico. É aí que reside o futuro da biotecnologia.

“À medida em que a população global crescerá de sete para nove bilhões até 2050, os produtores rurais enfrentarão necessidades pontuais tanto para elevar a produtividade quanto entregar alimentos mais nutritivos”, diz Bell, acrescentando que mais da metade das vendas de sementes da companhia já são de variedades transgênicas. Em 2013, a divisão de sementes da DuPont investiu US$ 2,2 bilhões em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), sendo que 60% foi destinado a inovações em agricultura e biotecnologia.

Extremamente complexas do ponto de vista fisiológico, essas sementes “piramidadas” tentarão agrupar o maior número possível de características genéticas novas. “Essa tem sido a maior demanda do mercado”, afirma Ricardo Abdenoor, pesquisador da Embrapa Soja. Nos países que adotaram a biotecnologia, a área com tratamentos combinados totalizou 47,1 milhões, ou 27% do total.

Hoje, o que há de mais avançado aprovado no mercado é a soja Intacta RR2 PRO, da Monsanto. A tecnologia combina resistência ao herbicida glifosato e é tolerância a lagarta e, segundo a empresa, entrega também um ganho de produtividade de 10% em relação à tecnologia anterior. A Intacta fez sua estreia no mercado brasileiro nesta safra, a 2013/14. “Ela foi aprovada apenas no mercado brasileiro porque não há incidência de lagartas nos Estados Unidos”, afirma Geraldo U. Berger, diretor de regulamentação da Monsanto no Brasil, segundo maior mercado para a multinacional americana.

Desde 1996 no mercado de sementes transgênicas, com a aprovação nos EUA da soja Roundup Ready (RR), tolerante ao herbicida glifosato, a Monsanto lidera o segmento com US$ 14,9 bilhões em vendas em 2013, 70% dos quais da divisão de sementes e genômica.

Se o agrupamento de características novas às plantas já é uma realidade nos centros de pesquisa agrícola, a remodelação completa de um cromossomo é o exercício mais difícil da engenharia genética. Elibio Rech, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, diz o que se pretende é trabalhar com as plantas como um circuito, onde todas as peças são conhecidas. Nesse sentido, ao invés de substituir genes ou blocos de genes de uma soja, por exemplo, os cientistas criarão um cromossomo novo. “Queremos modificar a rota metabólica até reconstruir completamente um cromossomo. É a fronteira da fronteira científica”. A vantagem? Editar mais facilmente os gentes, ganhando tempo, dinheiro e agilidade na obtenção dos resultados.

Até agora, soja, milho e algodão mantiveram-se como as mais presentes no pipeline (produtos em desenvolvimento) das empresas. Segundo Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), isso se explica porque “com o custo alto e o tempo de demora entre o desenvolvimento de uma variedade à chegada ao mercado, só as commodities pagam o investimento”. A tendência, porém, é que as pesquisas gradativamente contemplem outras culturas, de forma a minimizar a chamada “fome oculta” – alimentos populares mas com baixo valor nutricional.

Na Ásia, pesquisadores filipinos do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz (IRRI, em inglês) concluíram os testes de campo do recém-desenvolvido “arroz dourado”, variedade com altos níveis de vitamina A graças à modificação genética. Aqui, a Embrapa recebeu a aprovação comercial do feijão resistente ao vírus do mosaico, enquanto outro grupo de cientistas da entidade tenta criar uma alface enriquecida com ácido fólico.

Curiosamente, outro efeito da biotecnologia foi alavancar as pesquisas científicas convencionais, nas quais os cruzamentos são feitos sem a transferência de material genético. “O domínio da biologia molecular ajudou os cientistas a entender melhor e aperfeiçoar as plantas”, diz Adriana, do CIB.

Por causa disso, a Monsanto tornou-se também a maior empresa global de sementes de hortifrutis convencionais, com legumes mais doces, crocantes e nutritivos. “A Monsanto acumulou tanto know-how científico que criou vegetais com as vantagens da engenharia genética sem lançar mão de qualquer traço Frankenstein”, escreveu a revista americana “Wired”, repetindo o termo usado por grupos contrários à tecnologia para se referir aos transgênicos. “Se não precisassem de agrotóxico, poderiam até ser considerados orgânicos”.

(Bettina Barros / Valor Econômico)
http://www.valor.com.br/agro/3584620/transgenicos-20-anos-de-avancos-e-polemicas#ixzz34o6ixLiV

Projeto sobre tecnologia que pode tornar sementes estéreis avança na Câmara (Agência Brasil)

JC e-mail 4882, de 28 de janeiro de 2014

O PL 268/2007 abre uma brecha na redação da Lei de Biossegurança

Poucos brasileiros sabem, mas as discussões estão avançadas na Câmara dos Deputados que seja aprovado projeto que libera uma tecnologia genética polêmica – a tecnologia de restrição de uso, que, entre outras aplicações, pode ser usada para criar sementes estéreis a partir da segunda geração, popularmente apelidadas de sementesterminator.

O Projeto de Lei (PL) 268/2007, do deputado Eduardo Sciarra (PSD-PR), abre uma brecha na redação da Lei de Biossegurança para que seja permitida a comercialização de sementes produzidas com a tecnologia, no caso de plantas biorreatoras, usadas para produzir substâncias de uso industrial ou terapêutico.

A proposta já passou pelas comissões de Agricultura e Meio Ambiente, sendo aprovada na primeira e rejeitada na segunda. Atualmente, está na Comissão de Constituição e Justiça, (CCJ) onde recebeu parecer favorável do relator e quase foi votada em outubro do ano passado. A votação não ocorreu porque organizações da sociedade civil e movimentos sociais entregaram à presidência da CCJ um abaixo-assinado com 30 mil assinaturas pedindo a retirada de pauta do projeto.

No site da Câmara dos Deputados, a última movimentação relativa à proposta é um requerimento de audiência pública sobre o assunto, feito pelo deputado Alessandro Molon (PT-RJ), no início de dezembro.

Até o momento, nenhum organismo do tipo foi desenvolvido em campo aberto, embora acredite-se que as empresas façam pesquisas em ambientes controlados. Uma moratória internacional, apoiada pelo Brasil, barra a produção em campo e a comercialização desde 2000. Um dos riscos da liberação é a contaminação das espécies não modificadas geneticamente pelas lavouras de transgênicos. A engenheira agrônoma Maria José Guazelli, da organização não governamental (ONG) Centro Ecológico, explica que espécies não transgênicas poderiam assimilar características como a esterilidade.

Para ela, mesmo que a liberação se restrinja às sementes desenvolvidas para uso terapêutico e industrial, há risco de poluição genética das espécies alimentícias. “Uma boa parte dessas plantas biorreatoras são arroz, milho. Dependendo de que planta for, pode haver cruzamento, sim”, afirma.

Para Maria José, as normas de contenção que têm sido aplicadas no Brasil não são suficientes para mitigar os riscos. “Geralmente, a CTNBio [Comissão Técnica Nacional de Biossegurança] determina distância [entre a lavoura transgênica e não transgênica]. Mas o pólen voa centenas de metros e até quilômetros. O que tem acontecido é a contaminação”, disse a agrônoma, citando casos em que agricultores orgânicos constataram contágio por soja e milho transgênicos.

A Agência Brasil entrou em contato com a assessoria de comunicação do deputado Eduardo Sciarra, pedindo uma entrevista com o parlamentar, mas foi informada de que ele está fora de Brasília e não poderia falar naquele momento. No entanto, a assessoria encaminhou à reportagem material sobre o PL 268/2007.

Sobre a questão da possível contaminação de espécies não modificadas geneticamente, o texto afirma que “pode-se construir plantas [biorreatoras] que não se reproduzem pelo polén”. Segundo o material enviado pelos assessores do deputado, “a tecnologia genética de restrição de uso não se resume à modalidade conhecida como terminator. Pode haver diversos tipos de construção dessa tecnologia. Em um deles, elimina-se a floração, retardando a data de maturidade sexual da planta e construindo plantas com pólen estéril”.

No entanto, para o agrônomo e assessor técnico da organização da sociedade civil AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia Gabriel Fernandes, ainda há muitas incertezas em relação à tecnologia de restrição de uso e, portanto, não há garantia da eficácia das soluções apontadas .”Primeiro, o projeto de lei não está prevendo regras de segurança. Outra coisa que pode ser questionada é se essas regras funcionam. Não tem nada que garanta [que a esterilidade do pólen] funcione 100%.”

Para Fernandes, trata-se de uma tecnologia que não é necessária. Os estudos não dão segurança, e há uma moratória internacional. “Nenhum país faz experimentos a campo”, argumenta. Na visão do agrônomo, vantagens apontadas com a adoção da tecnologia de restrição de uso, como manipulação da floração e de outras fases do ciclo reprodutivo das plantas, não compensam o risco assumido e parte delas poderia ser obtida com outras técnicas de manejo.

O pesquisador Francisco Aragão, responsável pelo laboratório do Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tem opinião diferente. Para ele, é possível conter os riscos de contaminação e, além disso, a tecnologia de restrição de uso abre várias possibilidades. Aragão exemplifica com a cana-de-açúcar, que gasta na floração uma energia que, segundo ele, poderia ser aplicada na produção de mais açúcar. A restrição de uso poderia impedir a floração e tornar o processo mais eficiente, afirma.

“Pretende-se fazer o cultivo dessas plantas, a princípio em ambientes fechados. Há possibilidade de escape, mas existe todo um mecanismo de segurança. Já tem pesquisa para produção de fármacos em plantas e a restrição de uso colocaria um mecanismo de segurança a mais no sistema [em razão da esterilidade]”, explicou o pesquisador. Para ele, deve ser mantida a proibição para a agricultura e haver permissão para alguns casos, como a produção de fármacos e a obtenção de características agronômicas, que “nada têm a ver com a retirada do direito do produtor de reutilizar sementes”.

(Mariana Branco/Agência Brasil)

Povo argentino ganha batalha contra a Monsanto, mas resta a guerra (IPS)

23/1/2014 – 10h06

por Fabiana Frayssinet, da IPS

Monsanto 2 629x472 Povo argentino ganha batalha contra a Monsanto, mas resta a guerra

A fábrica da Monsanto em Malvinas Argentinas, desde o acampamento montado pelos moradores para bloquear o acesso à obra. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Córdoba, Argentina, 23/1/2014 – Moradores de uma aguerrida localidade da Argentina ganharam o primeiro round contra a gigante da biotecnologia Monsanto, mas não baixam a guarda, conscientes de que falta muito para ganhar a guerra. Em Malvinas Argentinas, que fica na província de Córdoba, já dura quatro meses o bloqueio ao terreno onde a transnacional norte-americana pretende instalar a maior unidade de tratamento de sementes de milho do mundo.

E assim, os moradores continuam acampados diante da edificação que já se levanta neste povoado, antes aprazível, e impedindo o acesso à área da construção, mesmo depois de um tribunal provincial ter ordenado este mês a paralisação das obras. A campanha contra a unidade, convocada pela Assembleia Malvinas Luta pela Vida e por outras organizações sociais, começou em 18 de setembro neste povoado que fica a 17 quilômetros da capital de Córdoba.

Após situações de tensão, com tentativas de dispersão dos manifestantes pela polícia provincial e provocações por enviados do sindicato da construção, a provincial Sala Segunda da Câmara de Trabalho deu razão aos moradores, no dia 8. “A sentença mostra que os argumentos dos moradores são justos, porque reclamam direitos fundamentais reconhecidos e estabelecidos pela Constituição Nacional e pela legislação do Estado Federal”, disse à IPS o advogado Federico Macciocchi, que defende a causa dos opositores à obra.

A sentença determinou a inconstitucionalidade da autorização municipal para a construção nesta localidade de aproximadamente 15 mil habitantes, a maioria de classe trabalhadora. Além disso, ordenou a paralisação das obras, impondo à Municipalidade de Malvinas Argentinas que se abstenha de autorizar a construção, até serem cumpridas duas exigências legais: realização de uma avaliação de impacto ambiental e convocação de uma audiência pública.

“É um grande avanço, um grande passo na luta, que se conseguiu graças ao trabalho em conjunto das reclamações institucionais, somado à reclamação social nas ruas”, afirmou à IPS um dos integrantes da Assembleia, Matías Marizza. “A luta serviu para garantir que a lei seja respeitada”, acrescentou. A Assembleia e outras organizações decidiram continuar com o acampamento que impede o acesso à obra, até conseguir o abandono definitivo do projeto por parte da empresa.

A Monsanto respondeu a um pedido de comentário da IPS com um comunicado no qual qualifica a ação dos moradores de fruto de “extremistas”, que impedem os empreiteiros e empregados de “exercerem o direito de trabalhar”. A sentença respondeu a uma ação de amparo interposta por moradores da localidade e pelo cordobês Clube de Direito, presidido por Macciocchi. A sala trabalhista ordenou que sejam realizados tanto o estudo de impacto ambiental quanto a audiência pública, lembrou o advogado.

O que se expressar na audiência “será muito relevante”, ressaltou Macciocchi, embora a Lei Geral de Meio Ambiente preveja que as opiniões e objeções dos participantes “não serão vinculantes”. Mas estabelece que as autoridades convocantes, se tiverem uma opinião contrária aos resultados alcançados na consulta, “deverão fundamentá-la e torná-la pública”, explicou.

Agora, o objetivo da Assembleia é que também seja feita uma consulta à cidadania mediante voto secreto. Essa consulta complementaria a lei ambiental e “garantiria o exercício pleno do direito da cidadania de decidir sobre seu modelo de desenvolvimento local, o tipo de atividades sociais e econômicas que deseja para sua vida cotidiana e sobre os riscos socioambientais que está disposta a assumir”, detalhou à IPS outro morador, Víctor Mazzalay.

“É o povo quem deve contar com essa informação e decidir se aceita ou não aceita esses custos e riscos”, opinou Mazzalay, que também é pesquisador social do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e da Universidade de Córdoba. “Um estudo de impacto ambiental deve incluir consulta popular, para que seja a população a dar a licença social necessária para o desenvolvimento de qualquer atividade social, econômica e produtiva que possa afetar seu meio ambiente e sua saúde”, acrescentou.

Em seu comunicado a Monsanto diz que a companhia não concorda com a sentença, mas, por “respeitar as decisões do Poder Judicial, acatará como sempre suas medidas”. Além disso, esclareceu que “já apresentou o Estudo de Impacto Ambiental, documento que está em fase de avaliação pela Secretaria de Ambiente da Província”.

Para Macciocchi, a sentença é definitiva e “põe fim ao conflito judicial. A sentença foi dada em virtude de um recurso de apelação, razão pela qual já não restam recursos ordinários para interpor”, enfatizou. À Monsanto restaria a possibilidade de um recurso de cassação junto ao Tribunal Superior de Justiça (TSJ).

A empresa já informou que vai apelar, “pois considera legítimo seu direito de construir a unidade após cumprir todos os requisitos legais e ter obtido as autorizações para isso conforme as normas vigentes, o que foi confirmado pela sentença do Juizado de Primeira Instância no dia 7 de outubro de 2013”.

Macciocchi considera, entretanto, que “esse recurso não vai paralisar o que foi determinado pela Sala Segunda da Câmara do Trabalho”. E acrescentou que, “além disso, se pensarmos no tempo que o TSJ demora para resolver um recurso de cassação, quando estiver resolvido a Municipalidade de Malvinas e a Secretaria de Ambiente já terão cumprido as leis que foram violadas com essa obra”, afirmou.

Segundo o advogado, o alto tribunal demora até dois anos e meio nos casos de cassação apresentados por pessoas sentenciadas e até cinco ou sete quando a matéria é trabalhista e não civil. “Seria um verdadeiro escândalo institucional o TSJ resolver esta causa pulando a ordem das que há anos ‘dormem’ em suas salas”, ressaltou.

A decisão do dia 8 impede a instalação definitiva da unidade, que a Monsanto quer ver em operação este ano. “Mas, na medida em que os cidadãos se expressam contra a obra, e que a avaliação de impacto ambiental seja desfavorável para a empresa, neste caso a Monsanto não poderá se instalar em Malvinas”, destacou Macciocchi. Mazzalay recordou que a razão “principal” para a oposição à instalação da unidade da Monsanto se deve à “reivindicação do direito do povo decidir sobre o tipo de atividade produtiva e sobre os riscos ambientais aos quais se submeter”.

A empresa divulgou que pretende instalar mais de 200 silos de milho, e que serão usados produtos agroquímicos para a preparação das sementes. A Monsanto, um dos maiores fabricantes de herbicidas e de sementes geneticamente modificadas do mundo, opera na Argentina desde 1956, quando instalou uma fábrica de plásticos.

“Um argumento frequente sugere que existe uma dúvida razoável sobre a suposta inocuidade dessa atividade sobre a saúde humana”, disse o pesquisador. A seu ver, “são múltiplos e diversos os estudos científicos demonstrando os efeitos negativos que tanto o movimento de sementes como a manipulação e exposição a diversos produtos agroquímicos têm sobre a saúde”.

Mazzalay crescentou que, “nesse sentido, sobre questões ambientais nas quais está em risco à saúde, a dúvida razoável deve fazer prevalecer um princípio precatório, isto é, não aceitar o desenvolvimento de uma atividade até que se demonstre de maneira definitiva sua inocuidade”. Envolverde/IPS

Hardtalk: Vandana Shiva, environmentalist (BBC)

Duration: 25 minutes / First broadcast: Monday 19 November 2012

Hardtalk speaks to the original tree hugger. The phrase was coined back in the 1970s when she – along with a group of women in India – hugged trees to stop them from being chopped down. In the decades since, Vandana Shiva has become known throughout the world for her environmental campaigns. She says a billion people go hungry in the world because of the way greedy international companies go about their business. So is it a naïve world view or could we really end poverty and improve everyone’s life by returning to old fashioned ways of farming?

http://www.bbc.co.uk/programmes/p010d95m

Risco é coisa séria (JC)

JC e-mail 4364, de 14 de Outubro de 2011.

Artigo de Francisco G. Nóbrega enviado ao JC Email pelo autor.

A sociedade moderna está banhada em comunicação. Como “boa notícia não é notícia”, a lente psicológica humana registra sempre um cenário pior que a realidade. A percepção usual é que os riscos de todos os tipos aumentam dia a dia. A redução global da violência, por exemplo, é tema do livro recente do psicólogo da Universidade Harvard, Steven Pinker (http://www.samharris.org/blog/item/qa-with-steven-pinker). Ao arrepio do senso comum, ele demonstra, objetivamente, que estamos progredindo neste quesito.

Mas nossa mente não descança em sua aguda capacidade de detectar outras fontes de risco. Temos alguns campeões de audiência: energia nuclear para eletricidade, alimentos geneticamente modificados e aquecimento global catastrófico e antropogênico. O dano potencial das três ameaças mencionadas, objetivamente, não se concretizou de maneira alguma, embora a terceira ameaça deva se realizar no futuro, segundo seus defensores. As pessoas se encantam com o automóvel e seus acessórios, cada vez mais atraentes. Não se pensa em baní-lo, apesar de resultar em cerca de 40.000 mortos e inúmeros incapacitados cada ano, só no Brasil. David Ropeik, que pertence ao Centro Harvard para Análise de Risco, explica como facilmente se distorce o perigo real de situações. Quanto mais afastadas do senso comum (como radiação e plantas geneticamente modificadas), mais facilmente são manipuladas, por ignorância ou interesses outros, apavorando o cidadão comum. Ropeik explica como este medo sem sentido passa a ser um fator de estresse e um risco objetivo para a saúde das pessoas, devendo ser evitado.

Dentro desse universo, são justificadas as preocupações do Dr. Ferraz (“O feijão nosso de cada dia”, Jornal da Ciência, 6/10/2011). Ele é membro da CTNBio, atua na setorial vegetal/ambiental e sua área de concentração é em agroecologia, o que explica, pelo menos em parte, suas dúvidas. No entanto essas preocupações não têm a consistência sugerida pelo autor e a análise da CTNBio, que resultou na aprovação deste feijão, é confiável.

A comissão se pauta sempre pelas diretivas da legislação que são amplas, para dar conta de todas as possibilidades de risco para os consumidores e meio ambiente. No entanto o corpo técnico existe exatamente para atuar de maneira seletiva e consciente, examinando caso a caso. Os testes são examinadas com o rigor que a modificação introduzida na planta exige para plena segurança. Se as modificações são consideradas sem qualquer risco significativo, os testes são avaliados à luz deste fato.

Testes com muitos animais, altamente confiáveis estatisticamente, seriam exigidos pela comissão na eventualidade de uma planta transgênica produzir, por exemplo, uma molécula pesticida não protéica que seria em tudo semelhante a uma droga produzida pela indústria farmacêutica. Isto poderá acontecer em certo momento, já que as plantas têm capacidade de produzir os mais variados pesticidas naturais para se defenderem na natureza. A substância seria absorvida no intestino e se disseminaria por órgãos e tecidos, possivelmente exercendo efeitos sistêmicos e localizados que exigem avaliação. Isso já aconteceu, sem querer, com uma batata produzida por melhoramento convencional nos EUA. Seu consumo levou a mal estar e foi recolhida apressadamente: portava altos níveis de glicoalcalóides tóxicos para o homem, o que explicava sua excelente resistência às pragas da cultura.

No caso do feijão Embrapa, nenhuma molécula não protéica nova é produzida e o pequeno RNA que interfere com a replicação do vírus, caso alguém venha a ingerir folhas e caules, será um entre centenas ou milhares de RNAs que ingerimos diariamente com qualquer produto vegetal. O RNA introduzido, no entanto, não foi detectado no grão do feijão cozido, usando técnicas extremamente poderosas.

As variações detectadas, se estatisticamente significativas (concentração de vitamina B2 ou cisteína por exemplo) não representam risco algum. A técnica clássica de cultura de tecidos, usada para gerar variedades de qualidade em horticultura e propagação de árvores, reconhecidamente resulta em variações naturais que introduzem certas modificações desejáveis e algumas indesejáveis, que o melhorista depois seleciona. É a variação somaclonal, que também afeta os clones geneticamente modificados na sua fase de seleção.

Portanto, é no mínimo ingênuo dizer que o feijão Embrapa 5.1 “deveria ser idêntico” a variedade de origem pois as manipulações necessárias para gerar o transgênico resultam em certas alterações que, se irrelevantes, são ignoradas e se deletérias são descartadas pelos cientistas. Se fizermos as mesmas análises, cujos resultados preocupam alguns, com as muitas variedades convencionais consumidas no país, as diferenças serão impressionantes e irrelevantes para a questão “segurança”.

Como já foi comentado anteriormente, não existe base factual (bioquímica ou genética) para imaginar que o feijão Embrapa apresente risco maior do que um feijão comum ou melhorado por mutagênese química ou física, que por sinal, não é supervisionado nutricional e molecularmente antes de sua comercialização. Sem base biológica, os testes tornam-se formalidades supérfluas e o ruído experimental, principalmente com amostras pequenas, quase inevitavelmente vai gerar resultados que são irrelavantes a menos que se amplie muito o número de animais (para amostras controle e transgênicas) além de ser prudente incluir animais alimentados com outros feijões convencionais para uma idéia realista do significado das variações detectadas. Imaginem o custo dessa busca “caça fantasma”, desencadeada simplesmente devido a uma aplicação pouco esclarecida do princípio da precaução. As preocupações sem base racional, levantadas a todo momento pelos que temem a tecnologia, se aplicariam com maior lógica aos produtos convencionais.

Caso isso aconteça, do dia para a noite estaria inviabilizada a produção agrícola do planeta. Por que não fazer estudos com Rhizobium e nodulação em todos os feijões comercializados? Por que não conduzir estudos nutricionais de longo prazo com os alimentos convencionais derivados de mutagênese? Qual a razão lógica que exclui essas preocupações com as plantas convencionais? Ou a razão seria metafísica? A alteração introduzida seria “contra a natureza”, algo como o pecado original, que, em muitas interpretações, consistiu apenas em comer o fruto da “árvore do conhecimento”? Recentemente 41 cientistas suecos da área vegetal lançaram um manifesto contra a sobre-regulação da genética moderna na Europa (reproduzido no blog GenPeace: genpeace.blogspot.com). Os autores observam que, fazendo um paralelo com as exigências para os produtos farmacêuticos, a “lógica da legislação atual sugere que apenas drogas produzidas por meio de engenharia genética deveriam ser avaliadas quando a efeitos indesejáveis”.

Instilar o medo com base em suposições não ajuda a proteger a população ou o meio ambiente. Marie Curie teria dito “Na vida nada deve ser temido. Mas tudo deve ser compreendido”. Considero irresponsável usar o “princípio da precaução” como alguns o fazem. Inclusive a OMS caiu nesta armadilha, classificando os telefones celulares no grupo 2B de risco para causar câncer. A radiação destes equipamentos é cerca de um milhão de vezes inferior à energia que pode produzir radicais livres e gerar dano ao DNA. A classe 2B inclui o risco de câncer relativo ao café, resíduos da queima de combustíveis fósseis e uso de dentadura…. O que a WHO manteve viva, irresponsavelmente, é a justificativa para a dúvida, que vai legitimar pesquisas caras e irrelevantes, cujo resultado será inconclusivo, como o mega estudo anterior. Incrivelmente mais perigoso é o uso do celular enquanto se dirige.

Francisco G. da Nóbrega é professor da Universidade de São Paulo (USP).