Risco é coisa séria (JC)

JC e-mail 4364, de 14 de Outubro de 2011.

Artigo de Francisco G. Nóbrega enviado ao JC Email pelo autor.

A sociedade moderna está banhada em comunicação. Como “boa notícia não é notícia”, a lente psicológica humana registra sempre um cenário pior que a realidade. A percepção usual é que os riscos de todos os tipos aumentam dia a dia. A redução global da violência, por exemplo, é tema do livro recente do psicólogo da Universidade Harvard, Steven Pinker (http://www.samharris.org/blog/item/qa-with-steven-pinker). Ao arrepio do senso comum, ele demonstra, objetivamente, que estamos progredindo neste quesito.

Mas nossa mente não descança em sua aguda capacidade de detectar outras fontes de risco. Temos alguns campeões de audiência: energia nuclear para eletricidade, alimentos geneticamente modificados e aquecimento global catastrófico e antropogênico. O dano potencial das três ameaças mencionadas, objetivamente, não se concretizou de maneira alguma, embora a terceira ameaça deva se realizar no futuro, segundo seus defensores. As pessoas se encantam com o automóvel e seus acessórios, cada vez mais atraentes. Não se pensa em baní-lo, apesar de resultar em cerca de 40.000 mortos e inúmeros incapacitados cada ano, só no Brasil. David Ropeik, que pertence ao Centro Harvard para Análise de Risco, explica como facilmente se distorce o perigo real de situações. Quanto mais afastadas do senso comum (como radiação e plantas geneticamente modificadas), mais facilmente são manipuladas, por ignorância ou interesses outros, apavorando o cidadão comum. Ropeik explica como este medo sem sentido passa a ser um fator de estresse e um risco objetivo para a saúde das pessoas, devendo ser evitado.

Dentro desse universo, são justificadas as preocupações do Dr. Ferraz (“O feijão nosso de cada dia”, Jornal da Ciência, 6/10/2011). Ele é membro da CTNBio, atua na setorial vegetal/ambiental e sua área de concentração é em agroecologia, o que explica, pelo menos em parte, suas dúvidas. No entanto essas preocupações não têm a consistência sugerida pelo autor e a análise da CTNBio, que resultou na aprovação deste feijão, é confiável.

A comissão se pauta sempre pelas diretivas da legislação que são amplas, para dar conta de todas as possibilidades de risco para os consumidores e meio ambiente. No entanto o corpo técnico existe exatamente para atuar de maneira seletiva e consciente, examinando caso a caso. Os testes são examinadas com o rigor que a modificação introduzida na planta exige para plena segurança. Se as modificações são consideradas sem qualquer risco significativo, os testes são avaliados à luz deste fato.

Testes com muitos animais, altamente confiáveis estatisticamente, seriam exigidos pela comissão na eventualidade de uma planta transgênica produzir, por exemplo, uma molécula pesticida não protéica que seria em tudo semelhante a uma droga produzida pela indústria farmacêutica. Isto poderá acontecer em certo momento, já que as plantas têm capacidade de produzir os mais variados pesticidas naturais para se defenderem na natureza. A substância seria absorvida no intestino e se disseminaria por órgãos e tecidos, possivelmente exercendo efeitos sistêmicos e localizados que exigem avaliação. Isso já aconteceu, sem querer, com uma batata produzida por melhoramento convencional nos EUA. Seu consumo levou a mal estar e foi recolhida apressadamente: portava altos níveis de glicoalcalóides tóxicos para o homem, o que explicava sua excelente resistência às pragas da cultura.

No caso do feijão Embrapa, nenhuma molécula não protéica nova é produzida e o pequeno RNA que interfere com a replicação do vírus, caso alguém venha a ingerir folhas e caules, será um entre centenas ou milhares de RNAs que ingerimos diariamente com qualquer produto vegetal. O RNA introduzido, no entanto, não foi detectado no grão do feijão cozido, usando técnicas extremamente poderosas.

As variações detectadas, se estatisticamente significativas (concentração de vitamina B2 ou cisteína por exemplo) não representam risco algum. A técnica clássica de cultura de tecidos, usada para gerar variedades de qualidade em horticultura e propagação de árvores, reconhecidamente resulta em variações naturais que introduzem certas modificações desejáveis e algumas indesejáveis, que o melhorista depois seleciona. É a variação somaclonal, que também afeta os clones geneticamente modificados na sua fase de seleção.

Portanto, é no mínimo ingênuo dizer que o feijão Embrapa 5.1 “deveria ser idêntico” a variedade de origem pois as manipulações necessárias para gerar o transgênico resultam em certas alterações que, se irrelevantes, são ignoradas e se deletérias são descartadas pelos cientistas. Se fizermos as mesmas análises, cujos resultados preocupam alguns, com as muitas variedades convencionais consumidas no país, as diferenças serão impressionantes e irrelevantes para a questão “segurança”.

Como já foi comentado anteriormente, não existe base factual (bioquímica ou genética) para imaginar que o feijão Embrapa apresente risco maior do que um feijão comum ou melhorado por mutagênese química ou física, que por sinal, não é supervisionado nutricional e molecularmente antes de sua comercialização. Sem base biológica, os testes tornam-se formalidades supérfluas e o ruído experimental, principalmente com amostras pequenas, quase inevitavelmente vai gerar resultados que são irrelavantes a menos que se amplie muito o número de animais (para amostras controle e transgênicas) além de ser prudente incluir animais alimentados com outros feijões convencionais para uma idéia realista do significado das variações detectadas. Imaginem o custo dessa busca “caça fantasma”, desencadeada simplesmente devido a uma aplicação pouco esclarecida do princípio da precaução. As preocupações sem base racional, levantadas a todo momento pelos que temem a tecnologia, se aplicariam com maior lógica aos produtos convencionais.

Caso isso aconteça, do dia para a noite estaria inviabilizada a produção agrícola do planeta. Por que não fazer estudos com Rhizobium e nodulação em todos os feijões comercializados? Por que não conduzir estudos nutricionais de longo prazo com os alimentos convencionais derivados de mutagênese? Qual a razão lógica que exclui essas preocupações com as plantas convencionais? Ou a razão seria metafísica? A alteração introduzida seria “contra a natureza”, algo como o pecado original, que, em muitas interpretações, consistiu apenas em comer o fruto da “árvore do conhecimento”? Recentemente 41 cientistas suecos da área vegetal lançaram um manifesto contra a sobre-regulação da genética moderna na Europa (reproduzido no blog GenPeace: genpeace.blogspot.com). Os autores observam que, fazendo um paralelo com as exigências para os produtos farmacêuticos, a “lógica da legislação atual sugere que apenas drogas produzidas por meio de engenharia genética deveriam ser avaliadas quando a efeitos indesejáveis”.

Instilar o medo com base em suposições não ajuda a proteger a população ou o meio ambiente. Marie Curie teria dito “Na vida nada deve ser temido. Mas tudo deve ser compreendido”. Considero irresponsável usar o “princípio da precaução” como alguns o fazem. Inclusive a OMS caiu nesta armadilha, classificando os telefones celulares no grupo 2B de risco para causar câncer. A radiação destes equipamentos é cerca de um milhão de vezes inferior à energia que pode produzir radicais livres e gerar dano ao DNA. A classe 2B inclui o risco de câncer relativo ao café, resíduos da queima de combustíveis fósseis e uso de dentadura…. O que a WHO manteve viva, irresponsavelmente, é a justificativa para a dúvida, que vai legitimar pesquisas caras e irrelevantes, cujo resultado será inconclusivo, como o mega estudo anterior. Incrivelmente mais perigoso é o uso do celular enquanto se dirige.

Francisco G. da Nóbrega é professor da Universidade de São Paulo (USP).

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