| 15/8/2011 – Instituto Humanitas Unisinos | ||
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Infanticídio indígena: traços de uma cultura em transformação. Entrevista especial com Saulo Feitosa | |
| “Se as pessoas querem defender a vida das crianças indígenas, devem aderir a outros projetos de lei”, como o Estatuto dos Povos Indígenas, diz Saulo Feitosa à IHU On-Line, ao criticar oProjeto de Lei 1057/2007, que criminaliza os povos que praticam infanticídio.
Em entrevista concedida por telefone, ele explica que todos os indígenas que vivem no Brasil estão submetidos à legislação brasileira e que, portanto, não há necessidade de sancionar o Projeto de Lei 1057/2007, de autoria do deputado Henrique Afonso (PT/AC). Na avaliação do secretário doCimi, o Projeto tem uma carga preconceituosa, racista e serve “para ampliar o grau de preconceito da sociedade contra os povos indígenas, e para justificar interesses colonialistas que se mantêm nos dias de hoje”. De acordo com Feitosa, o infanticídio era praticado no período colonial e desde o início da década de 1990 não se têm informações de casos de infanticídio em tribos indígenas. “Todos os registros históricos, dos quais tenho conhecimento, acenam que, entre os indígenas, o índice de infanticídio é baixíssimo. Inclusive viajantes como Fernão Cardim, que escreveu um livro sobre os hábitos do Brasil, faziam referência à maneira carinhosa como as mulheres indígenas cuidavam de seus filhos em comparação às mulheres de Lisboa. (…) Causa-nos estranheza que, 500 anos depois, apareçam grupos fundamentalistas acusando indígenas de matanças generalizadas de suas crianças”. Feitosa explica ainda que o infanticídio era regido por uma cosmologia indígena e que fazia parte da cultura de alguns povos. “O fato de existir uma narrativa cosmológica não significa que a cultura se mantém atualizada”, enfatiza. E dispara: “A questão do infanticídio, na prática, é residual porque os povos mudam suas culturas”. Confira a entrevista. IHU On-Line – Como avalia a polêmica acerca da prática do infanticídio e o projeto de lei que criminaliza indígenas e profissionais de órgãos governamentais por tais práticas? ONGs e deputados evangélicos acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado é obrigado por lei a protegê-las. Saulo Feitosa – Por trás desse projeto de lei e desse debate existe uma questão fundamentalista religiosa e uma questão política. Os povos indígenas estão submetidos à mesma legislação brasileira. Portanto, se vierem a cometer qualquer crime, serão julgados e punidos como todos os cidadãos deste país. Hoje, aproximadamente 750 indígenas estão cumprindo pena no sistema penitenciário nacional. Desse modo, não há razão para existir uma lei específica para falar de infanticídio indígena. No entendimento do Cimi, na medida em que se cria uma lei, os índios seriam, duas vezes, julgados e condenados por um mesmo crime. Todos sabemos que os indígenas defendem a vida, a natureza. Portanto, existe uma campanha nacional e internacional negativa contra os povos indígenas e isso gera um descrédito da população em relação a essas comunidades. É nesse contexto ofensivo contra os direitos indígenas que surge a questão do infanticídio indígena. Os propositores do Projeto de Lei 1057/2007 afirmam que há, entre os povos indígenas do Brasil, a prática do sacrifício de crianças e que esta prática não é combatida pelo Estado e pelos órgãos que atuam junto dos povos indígenas. Sendo assim, eles querem obrigar as pessoas que trabalham com a questão indígena a denunciarem os índios caso suspeitassem da possibilidade de alguma mulher, em processo de gestação, abandonar o filho. Se os profissionais não denunciarem os indígenas, serão julgados pelo crime de omissão. Essa medida mostra novamente a carga preconceituosa e racista do projeto. IHU On-Line – Qual é a origem e o sentido do infanticídio para as comunidades indígenas? Ele ainda é praticado no Brasil? Quais são as etnias indígenas que praticam o infanticídio? Saulo Feitosa – Segundo os parlamentares que querem aprovar o Projeto de Lei, o infanticídio seria uma prática regular dos povos indígenas. Temos conhecimento de experiências isoladas, da mesma forma que identificamos casos de abandono infantil na sociedade brasileira. Semanalmente, assisto, no noticiário, informações de crianças abandonadas em grandes cidades: recém-nascidos jogados em lixeiras, abandonados nas ruas, etc. Essa questão do abandono e, mesmo do assassinato de crianças, é uma questão que aflige a toda a humanidade. Todos os registros históricos dos quais tenho conhecimento acenam que, entre os indígenas, o índice de infanticídio é baixíssimo. Inclusive viajantes como Fernão Cardim, que escreveu um livro sobre os hábitos do Brasil, faziam referência à maneira carinhosa como as mulheres indígenas cuidavam de seus filhos em comparação às mulheres de Lisboa. Muitos historiadores afirmam que a prática de infanticídio era comum no período colonial, especialmente em comunidades que viviam no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Há relatos históricos de uma quantidade enorme de recém-nascidos que eram abandonados nas calçadas, nas ruas, mortos e comidos por porcos e cachorros. Os historiadores que relatam esses fatos sempre os comparam com a questão indígena, e afirmam que, entre os índios, essa prática era muito diminuta. Causa-nos estranheza que, 500 anos depois, apareçam grupos fundamentalistas acusando indígenas de matanças generalizadas de suas crianças. Nós, do Cimi, temos conhecimentos de casos isolados. Alguns missionários já presenciaram atos de abandono de crianças nas florestas. Entretanto, não temos relatos recentes de missionários sobre esses casos. Por isso, não podemos afirmar que há prática de infanticídio nas comunidades indígenas e, tampouco, que acontecem em grandes proporções. Infanticídio Vi, em matéria recente de um jornal de grande circulação, que, de um total de 250 povos, cerca de 20 praticam o infanticídio. Não sei como eles chegaram a esse número, considerando que os últimos registros do Cimi datam de 1990. Sabemos que oito povos ainda praticam o infanticídio, os quais têm pouquíssimo contato com a sociedade nacional. Antigamente alguns povos abandonavam recém-nascidos por não ter informações sobre o que significa, por exemplo, uma criança nascer com retardamento psicomotor. Não tendo condições de sobreviver na floresta, essas crianças eram abandonadas. Há outros relatos de crianças que nascem sem um “pai social”. Para os indígenas, uma criança que nasce sem um pai para poder caçar e garantir a sua sobrevivência não tem condições de sobreviver. Nesses casos, os recém-nascidos eram abandonados por questões práticas, pois, na percepção da comunidade, não teriam condições de sobreviver na selva. Outros relatos referem-se às narrativas cosmológicas do nascimento de gêmeos. Pesquisadores registraram, através da história oral, que não se aceitava, em determinadas culturas, o nascimento de gêmeos. Então, em função da cosmologia e dos mitos de origem do povo, se acreditava que os gêmeos deveriam ser sacrificados. Campanha contra o infanticídio Hoje, essas campanhas contra o chamado infanticídio indígena se fundamentam nesta narrativa cosmológica, o que, para nós, é um absurdo. O fato de existir uma narrativa cosmológica não significa que a cultura se mantém atualizada. A prática dos processos de cultura é dinâmica. Então, deve haver, em povos que têm pouco contato com outras culturas, essa referência cosmológica, que justificaria o abandono de uma criança gêmea, por exemplo. Mas em muitos povos onde essa narrativa estava presente, a prática deixou de existir. É muito fácil compreender isso: muitas práticas do Antigo Testamento são condenáveis na sociedade de hoje. Apesar de elas permanecerem na Bíblia, não são praticadas pelos cristãos do século XXI. Então, não podemos olhar para o nosso universo religioso e olhar para os demais povos de outra forma. Embora subsista, nas narrativas cosmológicas, informações a respeito da gravidez de gêmeos, na prática, as ações têm se alterado. Por isso, costumamos dizer que a questão do infanticídio, na prática, é residual porque os povos mudam suas culturas. O pluralismo histórico acontece em todas as culturas, as quais adquirem, com o tempo, novas formas. Quando o Cimi foi fundado, os povos indígenas não tinham acesso à saúde e, portanto, os missionários eram treinados para suprir essa carência. Hoje, existe a assistência à saúde, ao médico, por mais precária que seja. Isso também contribui para alterar a cultura dos povos. No Mato Grosso tem um povo formado por aproximadamente 100 pessoas. Eles foram combatidos em 1978. Na época, sobreviveram 27 pessoas. Desde então acompanhamos essa comunidade. Daquele número de 27 pessoas, eram poucas as mulheres em idade fértil. Logo após a inserção da nossa equipe na comunidade, nasceu uma criança doente. Para os indígenas, o recém-nascido era vítima de feitiço e, portanto, deveria ser sacrificado. Os missionários que estavam no local explicaram que, na nossa sociedade, havia uma espécie de pajé que conseguia realizar um tratamento e sanar aquela deficiência. A comunidade aceitou e a criança foi levada a um hospital em Goiânia, onde foi submetida a uma cirurgia de reparação. O bebê retornou um tempo depois e foi aceito pela comunidade. Para resolver essa questão, não foi preciso uma lei, mas, sim, diálogo. É lógico que depois daquele acontecimento, a cultura da comunidade sofreu mudanças. Então, nada justifica que agora se insista na aprovação de um projeto de lei para criminalizar um povo. Projetos como esse servem para ampliar o grau de preconceito da sociedade contra os povos indígenas e para justificar interesses colonialistas que se mantêm nos dias de hoje. Esses povos têm muitos valores e nós precisamos aprender com eles. Então, não aceitamos, em hipótese alguma, essa leviandade que está sendo veiculada na mídia, inclusive com a produção de um pseudodocumentário mentiroso que fala do enterramento de crianças junto dos povos Suruwahá. Não se trata de um documentário e, sim, de uma ficção gerada pela mente colonizadora. O povo Suruwahá pratica o suicídio coletivo. Eles são conhecidos como o povo do veneno. A população deles é diminuta, algo em torno de 100 pessoas. Com a morte dos adultos, muitas crianças ficam órfãs. Então, o problema do Suruwahá não é o infanticídio e, sim, o suicídio. Os membros de organizações que criticam o infanticídio dizem que os índios praticam o suicídio porque são obrigados a matar seus filhos e, para não matá-los, elas se suicidam. Isso é uma mentira, uma distorção de informações. Esse povo sofreu, há séculos, um grande ataque e os sobreviventes nunca mais conseguiram formar novos pajés. Então, eles adotaram a prática do suicídio ainda jovem para se encontrarem com os pajés em outra esfera. Este ano estive na Amazônia e a equipe que trabalha lá disse que houve redução de casos de suicídios entre esses índios dessa etnia. IHU On-Line – Então a discriminação contra os indígenas tem um viés religioso? Que religiões manifestam essa posição e por quê? Saulo Feitosa – Quem coordena e estimula essa campanha é a ONG Atini – Voz pela vida, e outros grupos religiosos fundamentalistas. O povo brasileiro tomou conhecimento do infanticídio a partir do ano de 2006, quando foi produzido um documentário chamado Hakani. A história de uma sobrevivente, que mostra o enterro de crianças vivas. Os atores indígenas que desempenharam esses papéis receberam 30 reais. Depois da veiculação do vídeo, o Ministério Público entrou com uma ação contra os produtores do documentário, porque as crianças que apareceram no filme pertenciam ao povo Karitiana, de Rondônia. O documentário foi exibido em um programa de televisão e as pessoas da comunidade assistiram. Pela cultura daquele povo, quem simula o enterramento perde a sua alma. Portanto, as imagens criaram um problema cultural grave para as crianças. Inclusive, no depoimento para o Ministério Público, os pais das crianças indígenas disseram que receberam 30 reais para as crianças serem fotografadas. Eles não sabiam que elas participariam de um documentário. IHU On-Line – Quais são as razões da intolerância indígena hoje? Saulo Feitosa – Uma das razões é a distribuição da terra. A grande função do projeto de Lei é criar, dentro do Congresso Nacional, um clima anti-indígena porque existem diversos projetos de leis a favor dos povos indígenas tramitando no Congresso. Há uma campanha internacional para demonstrar que os povos indígenas são selvagens. Essa imagem certamente irá repercutir em outros projetos de leis referentes à demarcação de terras indígenas, exploração de minérios em terras indígenas, etc., reforçando a imagem negativa que se tem desses povos. Se as pessoas querem defender a vida das crianças indígenas, devem aderir a outros projetos de lei. Existe no Congresso uma proposta, que foi amplamente discutida com todos os povos indígenas do Brasil, sobre a criação do Estatuto dos Povos Indígenas, porque a legislação que está em vigor é de 1973, ou seja, é anterior à Constituição Federal e, portanto, não está adequada para a atual situação dessas comunidades. O novo texto tem, inclusive, um artigo especial de proteção à criança e ao adolescente indígena, o qual enfatiza que, caso uma criança seja rejeitada pelos pais, poderá ser adotada por pessoas do próprio povo ou povos próximos. IHU On-Line – Nesta semana, o povo Kaingang bloqueou sete estradas federais no Rio Grande do Sul, reivindicando melhores condições na área da saúde. Eles argumentam que, embora tenham acesso ao SUS, as condições de atendimento são precárias. Como avalia essa questão? O acesso à saúde entre as comunidades indígenas é mais precário do que para a população em geral? Saulo Feitosa – No final dos anos 1980, o Brasil instalou um sistema correlato de atenção à saúde indígena. Portanto, os índios têm um sistema próprio de saúde que se fundamenta nos distritos especiais indígenas. Esses distritos foram projetados com a perspectiva de serem autônomos do ponto de vista da gestão, assim, eles teriam quadros de funcionários para atender as comunidades. Esse projeto de assistência à saúde foi bem desenhado, mas, na prática, ocorreram privatizações e um esvaziamento da proposta original de se criar distritos para atender as comunidades. Os serviços foram terceirizados e essa terceirização foi agravada pelo alto índice de corrupção dentro daFundação Nacional da Saúde – Funasa: auditorias demonstram os desvios de verbas da saúde pública. Além disso, cargos foram loteados para políticos e os distritos não foram administrados por pessoas competentes. Nesse sentido, a saúde indígena é tão precária quanto à dos demais brasileiros. O governo deveria abrir concurso público para atender à saúde indígena. Enquanto isso não acontecer, continuaremos assistindo essa precariedade e a morte de crianças. IHU On-Line – Como vê a política indigenista hoje? Quais os avanços e os limites? Saulo Feitosa – O governo e a Fundação Nacional do Índio – Funai têm um discurso progressista de reconhecimento aos direitos indígenas, de valorização da cultura, mas, uma prática colonialista. O governo Lula criou a Comissão Nacional de Política Indigenista, a qual pensávamos ser um processo importante, mas percebemos que o governo inicialmente apenas sinalizou para uma discussão. Quando os índios passaram a exercer a sua autonomia, o governo começou a tomar atitudes autoritárias ao ponto de fazer uma reestruturação da Funai sem discutir com os povos indígenas. Esse era um processo para ser feito como uma construção coletiva, e não reproduzindo modelos autoritários do período militar. Ainda este ano, o presidente da Funai, junto com o ministro da Justiça e o delegado geral da União, publicaram uma portaria para redefinir as bases para a demarcação de terras indígenas incluindo a participação dos municípios, que historicamente sempre foram contra à demarcação de terras por causa de interesses econômicos e políticos locais. Essa situação se agravou e, na última reunião daComissão Nacional de Política Indigenista – CNPI, em junho, os representantes indígenas dessa comissão, em protesto, disseram que não votariam e se retirariam da reunião. Eles só voltariam a se reunir se a presidenta Dilma estivesse presente porque, desde que foi eleita, ela não conversou com as representações indígenas do país. As obras do PAC afetam as terras indígenas e os povos não são consultados, embora o país seja signatário da Organização Internacional do Trabalho – OIT, e embora a Constituição obrigue o Estado a fazer consultas em relação a temas polêmicos como Belo Monte, a transposição do rioSão Francisco, as hidrelétricas do rio Madeira etc. Diria que os documentos do governo não reproduzem mais o ranço da ditadura militar, mas, na prática, agem da mesma maneira. |
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Elite brasileira mostra sua cara (Brasil de Fato)
Essa burguesia nos mostra que as necessidades históricas do povo brasileiro somente serão conquistadas com luta, mobilização e unidade
27/07/2011 – Editorial da ed. 439 do Brasil de Fato
“Há casos folclóricos nos hangares do Campo de Marte. Como o da milionária que mandou o cão para o veterinário de helicóptero. Dona da aeronave, ela estava em Maresias (litoral norte) e viu o cãozinho comer a marmita de seu segurança. Ela mandou o piloto voltar imediatamente a São Paulo para fazer exames no pet”, relata um piloto, que pede para não ser identificado.
Acredite. O trecho acima foi extraída da coluna de Eliane Trindade, publicado na Folha de S. Paulo, sob o título: “Helicóptero é usado para ir à balada e ao pet shop”.
Esse fato mostra a absoluta falta de escrúpulos dos poucos privilegiados do nosso país e demonstra mais uma vez o caráter e a natureza da elite brasileira. “Pensei que a história da dona Vera Loyola, há uns quatro anos, ter enviado seu cãozinho para o cabeleireiro de helicóptero e, em seguida, explicado aos jornalistas que o fez “porque o Rio é uma cidade muito violenta” fosse o ‘top de linha’ do escárnio”, diz o jornalista Alipio Freire. No entanto, segundo ele, a cada dia, a elite brasileira – a burguesia no Brasil – mostra sua face de absoluto desprezo e de humilhação contra aqueles aos quais passou a se referir como PPPs (Pretos, Pobres e da Periferia).
Essa notícia só reforça uma característica de parte do Brasil e uma herança maldita: uma burguesia com a cabeça colonizada, saudosa dos tempos da nobreza, realeza. Nossa memória não precisa ser muito estimulada para recordarmos do cão com coleira de diamantes de uma tal socialite, seguido de afirmações de que tal animal era provido de tanta doçura que o feito era pouco. Essa elite, consumista, não se importa de passar o ridículo por algo desta natureza. É a reafirmação de que é uma elite ignorante, colonizada, subserviente, babona, que sonha com o dia em que o Brasil será uma mistura dos paraísos europeus e estadunidense. Dizem que essa mamãe do cão pediu ajuda gritando “help”. E uma coincidência: a opulência sempre combinada com segurança, mal pagos, mal tratados, a ponto de ter uma quentinha que poderia fazer mal para o pobre cão.
SOS burguesia
A segurança é o principal problema do pais, dirá essa “nobreza” deslocada no tempo e espaço. E claro, clamam por polícia, mais investimento em segurança, mais leis, mais rigor, repressão. Afinal, querem copiar o país que tem mais de 1% da sua população encarcerada (EUA). E claro, entre eles há quem bem explore esse clamor. A título de exemplo, a cidade de São Paulo é uma das três maiores consumidoras de carro blindado, a frente de países com guerra civil e conflitos abertos. Se somarmos o crescimento da frota de helicópteros, que na mesma comparação a capital paulista fica entre as cinco metrópoles do mundo em tamanho de frota e volume de voos diários, chegando ao absurdo de ter um bairro – Moema – com mais heliportos do que pontos de ônibus. Patrão por cima, empregados por baixo e filhos no cofre motorizado (blindados). Eis o Brasil desenhado por eles.
Outra imagem simbólica disso são as casas fortificadas, condomínios parecidos com fortalezas da idade média. E o resultado? Segue a insegurança. Propõem com seus meios de comunicação, parlamentares, prefeitos, etc. o aumento dos orçamentos para segurança. Querem o exército nas ruas, tropas, tropas! Recrutam milhares de jovens para trabalhar como seguranças privados, num trabalho de tamanho risco que um dos “benefícios” oferecidos por algumas empresas é auxilio funeral. Um atestado de crueldade. Trabalhadores mal remunerados, obrigados a ter outros bicos, com estímulos econômicos para o uso da “valentia” para evitar assaltos não raras vezes resultando em mortes ou ferimentos graves. Mas se sobrevive, ganha prêmio. Alguns bancos chegam a pagar extra para o segurança que reage e consegue conter um assalto.
Essa mesma elite, em pânico e bradando por mais segurança e mais rigor nas leis, é a mesma que luta contra qualquer mudança que garanta e amplie direitos sociais, mudanças que alterem a concentração de renda, que o povo tenha acesso a programas de combate à pobreza e à miséria, dentre outros. Sempre com um discurso pronto para qualquer intervenção do Estado (quando em benefício do povo): “dar o peixe não resolve”. Cínica, prefere a cadeia à moradia, o trabalho informal, e sempre usando o argumento de que chegou onde chegou por mérito, muito esforço e toda essa velha história do empreendedor. Só esquece de dizer que cresceu e se fez pagando injustamente, com mais da metade dos trabalhadores sem direitos e na informalidade, não aceitando sequer a igualdade de direitos dos trabalhadores domésticos com os demais trabalhadores.
Contradição ou coerência?
Nem mesmo os poucos avanços obtidos com a Constituição Federal depois de muita luta são respeitados, como demonstramos em edições anteriores do Brasil de Fato. As bandeiras do povo, tais como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, o fim do fator previdenciário, resgatar o direito de greve, são bandeiras que essa elite reage com veemência.
Portanto, conhecer melhor os inimigos do povo é um desafio para compreender que essa burguesia só se submete com luta, se forçada pela pressão das massas e do povo organizado. Nada virá de negociações ou concessão.
Essa postura das elites brasileiras, que gasta mais com a alimentação de um cão do que de um trabalhador, que usurpa os recursos públicos, que exige mais recursos do Estado para a (sua) segurança, é a mesma de sempre na defesa de seus privilégios. E, assim, age coerente na recusa dos direitos sociais, contrária à distribuição de renda, aos programas sociais, às políticas públicas e tudo o que pode democratizar o acesso à habitação para todos, como terra para quem trabalha, apoio aos pequenos (campo e cidade), o acesso à educação superior, dentre outros.
Essa é uma característica dessa burguesia. Que prefere integrar -se de forma subordinada à burguesia mundial a ter projeto próprio de nação. Por lucro, passam por cima de tudo, inclusive de qualquer democracia. Essa burguesia nos mostra que as necessidades históricas do povo brasileiro somente serão conquistadas com luta, mobilização e unidade. Assim, quiçá, avancemos rumo à construção de um projeto popular para o Brasil.
Noruega ensina que racismo não pode ser visto como folclore (Terra Magazine)
Marcelo Semer
De São Paulo
QUARTA, 27 DE JULHO DE 2011, 08H13
Se existe algo que o massacre na Noruega pode nos ensinar é que racismo, machismo e xenofobia não devem ser tratados como mero folclore.
Entre as palavras e as ações há um longo caminho, mas sempre pode existir alguém disposto a percorrê-lo.
Sarah Palin, candidata republicana a vice-presidente e musa do ultra-conservador Tea Party, dizia que a deputada democrata Gabrielle Giffords era um dos “alvos a serem abatidos” na política norte-americana.
Tratava-se de uma metáfora, mas um atirador em Arizona, a levou ao pé da letra. A tentativa de abater o alvo, uma das vozes contra a política hostil aos imigrantes, resultou em seis mortes em janeiro último, na cidade de Tucson.
Não há hoje quem não tema as possíveis consequências políticas de uma Europa economicamente em frangalhos -a lembrança da mistura depressão-fascismo do século XX ainda é suficientemente viva para suscitar este temor. Mas parece não ser o bastante para afastar a xenofobia, agora focada na repulsa ao Islã e a imigrantes que vem da África e Ásia.
A recente era da globalização só funcionou enquanto serviu como uma segunda colonização.
Os países periféricos foram instados a abrir seus mercados, homogeneizar suas normas, privatizar e internacionalizar suas empresas estratégicas, criando mercados alternativos ao já saturados no hemisfério norte.
Mas o mundo tornou-se global apenas em uma direção, pois as fronteiras voltaram a se fechar de forma ainda mais vigorosa, com a construção de grandes muros e o recrudescimento das leis de imigração – imigração esta que em outros tempos supriu com mão de obra barata, serviços que nacionais se recusavam a cumprir.
Pouco se pode fazer, é verdade, para impedir de todo ações repentinas de vingadores que se sentem representantes de uma nova cruzada, propondo salvar o mundo com toscas visões.
Mas estimular o discurso do ódio certamente não é uma delas.
O alarmismo com a fé diversa, o maltrato com o forasteiro e o diferente, o apego extremado a valores moralistas, são o caldo de cultura próprio para gerar ações excludentes, que tanto podem reverter em atentados quanto desembocar em políticas de Estado. Afinal, o que pode ser mais terrorista que o Holocausto?
Se a história se repete, como profetizava Marx, o receio é que nos abata mais uma vez como tragédia. Parafraseando Martin Luther King, parece ser o caso de nos preocuparmos tanto com o silêncio dos bons, quanto com o grito dos maus, este cada vez mais ensurdecedor.
O Brasil não vive o momento depressivo que se espalha pela Europa e Estados Unidos, fruto dos desvarios neoliberais, que maximizaram os mercados e o lucro e minimizaram as regulações.
Ao revés, vive anos de crescimento que resultaram em inesperada mobilidade social, mas isto também é motivo para cautela.
À incorporação de direitos civis a grupos minoritários, como homossexuais, instaurou-se uma brigada da moral, com forte apelo religioso. À incorporação ao mercado consumidor de uma classe emergente, recém-saída da linha de pobreza, levantou-se reação de quem se sente invadido em espaços até então exclusivos, entre faixas de automóveis e assentos de aviões. Ao pujante crescimento do Nordeste, esboça-se uma xenofobia de cunho separatista.
Aqui, como na Europa, devemos temer, sobretudo, aos que se propõe a nos higienizar ou recuperar valores tradicionais, que apenas remontam a mais exclusão.
O antídoto ao fascismo é o exercício da democracia e a preservação da dignidade humana como vetor de políticas sociais.
Só se abate o preconceito acreditando na igualdade.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de “Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho” (LTr) e autor de “Crime Impossível” (Malheiros) e do romance “Certas Canções” (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo
Climate Chaos (Against the Grain)
Tues 6.28.11| Climate Chaos
Christian Parenti speaking at a KPFA benefit on July 14th, on Tropic of Chaos: Climate Change and the New Geography of Violence, Nation Books, 2011
Listen to this Program here.
Download program audio (mp3, 49.82 Mbytes)
Residents of the Global North may be justly wringing their hands about flooding, droughts, and freak weather, but the most worrying effects of climate change are expected to hit the countries of the Global South, especially those in the broad regions on either side of the equator. Christian Parenti has reported from that vast area and discusses the shape that climate-related social dislocation is already taking, as well as the militarized plans of the rich countries to keep poor climate refugees out.
© Against the Grain, a program of KPFA Radio, 94.1fm Berkeley CA and online at KPFA.org.
She’s Alive… Beautiful… Finite… Hurting… Worth Dying for.
This is a non-commercial attempt to highlight the fact that world leaders, irresponsible corporates and mindless ‘consumers’ are combining to destroy life on earth. It is dedicated to all who died fighting for the planet and those whose lives are on the line today. The cut was put together by Vivek Chauhan, a young film maker, together with naturalists working with the Sanctuary Asia network (www.sanctuaryasia.com).
Articulista é condenado à prisão por crime de racismo contra indígenas (MPF)
Do MPF
por Sue Lizzie Viana Coitinho
14/07/2011 14:56
Condenação é inédita em MS e rara no país. Justiça considera que liberdade de expressão não pode ser usada para propagar racismo.
A Justiça aceitou os argumentos do Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) e condenou o advogado e articulista Isaac Duarte de Barros Júnior a dois anos de reclusão pelo crime de racismo contra etnia indígena. A sentença, de 6 de julho, é inédita em Mato Grosso do Sul, estado com a 2ª maior população indígena do país.
Ele escreveu um artigo, publicado no jornal O Progresso, de Dourados, com termos ofensivos aos indígenas da região. O MPF ajuizou duas ações na Justiça Federal contra o articulista, uma penal e outra por danos morais, em que é exigida reparação que pode passar de R$ 30 milhões. Com a presente decisão judicial, a ação por danos morais, que estava suspensa, deve voltar a tramitar.
Isaac foi condenado com base no artigo 20 da Lei 7.716/89, que define os crimes de preconceito de raça ou cor. Na sentença, o juiz afirma que a liberdade de expressão não é uma garantia absoluta. “A dignidade da pessoa humana, base do estado democrático de direito, prevalece sobre qualquer manifestação de pensamento que incite ao preconceito ou à discriminação racial, étnica e cultural”
Cultura indígena deve acabar
O artigo foi publicado em 27 e 28 de dezembro de 2008, sob o título “Índios e o Retrocesso”. Nele, o articulista utilizou os termos “bugrada” e “malandros e vadios” para referir-se aos indígenas. Afirmou, ainda, que eles “se assenhoram das terras como verdadeiros vândalos, cobrando nelas os pedágios e matando passantes”.
Em outro trecho, critica a cultura indígena: “A preservação de costumes que contrariem a modernidade são retrocessos e devem acabar. Quanto a uma civilização indígena que não deu certo e em detrimento disso foi conquistada pela inteligência cultural dos brancos, também é retrógrada a atitude de querer preservá-la”.
Também é contrário ao respeito à organização social, a cultura, crenças e tradições indígenas, mandamento constitucional confirmado como cláusula pétrea: “Em nome da razão e dos avanços culturais modernos civilizados, os palacianos parlamentares brasileiros deveriam retirar imediatamente a tutela constitucional exercida comodamente sobre os costumes ultrapassados dos índios aculturados”.
O articulista também se insurgiu contra o processo de demarcação de terras indígenas em Mato Grosso do Sul: “O que necessitamos, com maturidade responsável, é dar urgente finalidade social e produtiva a todos os quinhões brasileiros, inclusive aqueles ocupados por índios malandros e vadios”.
A culpa é da TV
Chamado a explicar-se perante a 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados, o articulista negou o que havia escrito e atribuiu suas ideias a um avô e a programas de TV, afirmando que “os donos da terra são os silvícolas e deve haver uma distribuição de terras aos indígenas(…) que ao seu ver bugre é bandido, índio não”. As alegações não foram aceitas pela Justiça: “Observa-se a tentativa do acusado em ludibriar esse juízo (…) Como pode uma pessoa com formação intelectual, escrever sobre questões indígenas e desconhecer o real significado dos termos por ele próprio utilizados?”.
Referência processual na Justiça Federal de Dourados:
Processo penal: 2009.60.02.000481-5
Processo cível (indenização): 2009.60.02.004327-4
[Publicado no blog de Luis Nassif em 20/07/2011 – ver aqui]
Rio state has 60,000 unsolved murders in 10 year (AP)
RIO DE JANEIRO (AP, 10.jul.2011) — Rio de Janeiro’s public defenders’ department says the Brazilian state has accumulated more than 60,000 unsolved murders in the last 10 years.
The department investigated the matter for the federal Ministry of Justice as part of a national plan to improve public safety.
The survey shows that 24,000 of the victims haven’t even been identified.
Creation of a special homicide division in the city of Rio de Janeiro did little to improved the solution rate. It went from 11 percent to 14 percent.
Across Brazil, police solve about 8 percent of murders. In the United States and in European countries the rates are reportedly around 70 percent to 80 percent.
Paul Virilio: “Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real” (L.M. DIPLOMATIQUE Brasil)
03 de Junho de 2011
ENTREVISTA
“Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real”
por Guilherme Soares dos Santos
Uma das maiores personalidades da França atualmente, o filósofo e urbanista Paul Virilio ocupa um lugar de destaque na cena intelectual. Escritor prolífico, no seu currículo sucedem-se livros, exposições e artigos tais como Velocidade e política, Guerra e cinema, O espaço crítico, Máquina de visão e, recentemente, O grande acelerador [sem tradução ainda para o português] em que ele desenvolve uma cultura crítica, alguns dizem “catastrofista”, sobre as técnicas modernas, bem como seus efeitos de aceleração sobre nossos comportamentos e nossa percepção do mundo, no momento em que a economia mundial depende cada vez mais do investimento na tecnologia.
Paul Virilio recebe o filósofo brasileiro Guilherme Soares dos Santos em Paris, e fala com exclusividade ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre suas teses, que tratam da corrida, da lógica da velocidade, ele que é visto por muitos como um reacionário ou um visionário, fala ytambém de sua biografia.
VIRILIO: Há uma coisa fundamental que explicará, talvez, o aspecto “catastrofista” do qual me acusam. Eu sou uma criança da guerra, um war baby, e é um elemento que não foi suficientemente compreendido, porque tentou-se fazer esquecer a guerra. Há dois momentos importantes na Segunda Guerra Mundial (eu a vivi, eu tinha 10 anos, eu nasci em 1932). Houve primeiramente a Guerra Relâmpago, a Blitzkrieg. Censurou-se esse aspecto, e alguns historiadores negam a blitz, isto é, o fato de que a velocidade esteve na base da grande ruína, primeiro da Polônia, e em seguida da França. E então essa Blitzkrieg se esgotou nos países do leste e na União Soviética, porque lá havia a profundidade de campo que permitia amortecer. Eu sou, portanto, uma criança da Blitzkrieg, eu diria mesmo que eu sou talvez o único, o único que desde então jamais cessou de ser marcado pelo poder da velocidade. Não é somente o poder dos transportes, os carros de assalto contra a cavalaria polonesa que desembainhava o sabre contra os panzers… Há também a guerra das ondas da qual eu sou o filho: “Pom, pom, pom, pom”… a rádio de Londres que eu escutava no escuro com o meu pai. Há dois momentos capitais: a Blitzkrieg e a deportação que vai, aliás, junto com o mesmo movimento de invasão. Se a guerra de 1914 foi uma guerra de posição em que os exércitos se exterminaram no mesmo lugar durante anos, com a deportação, conduziu-se à Shoah no curso da Segunda Guerra Mundial.
DIPLOMATIQUE: O senhor é muito sensibilizado pelas tragédias que ocorrem em nossa época. O senhor quis inclusive que fosse criado um “Museu dos Acidentes”, após a exposição feita sobre esse tema na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea. O senhor já avançou essa ideia, mas por enquanto sem sucesso junto às instituições, e agora o senhor propõe a criação de uma “Universidade do Desastre”. De que se trata exatamente? Não se poderia pensar que a guerra terá sido, para o senhor, uma universidade do desastre?
VIRILIO: Com efeito. Quando eu falo de “Universidade do Desastre” não é de modo algum o desastre da universidade, é o contrário: eu quero dizer que “o pior provoca o melhor”. A universidade europeia apareceu em Bolonha e alhures aproximadamente em 1100, 1200, após o “grande medo” do ano 1000, em oposição à grande barbárie. E ela foi, essa universidade, um coletivo judeo-cristão, greco-latino e árabe. Alguns negam o grande medo do primeiro milênio, como alguns negam, hoje, a blitz. Há aí alguma coisa que, no meu entendimento, faz parte do segredo da velocidade. Se “o tempo é dinheiro”, a velocidade é poder. Eu lembro que para os banqueiros, para que haja mais-valia, é preciso que haja a velocidade de troca. A questão da velocidade é uma questão mascarada; não mascarada por um complô, mas mascarada por sua simplicidade. Riqueza e velocidade estão vinculadas. É conhecido o vínculo da riqueza e do poder como da lei do mais forte. Mas a lei do mais forte é a lei do mais rápido. A questão da “dromologia” é a questão da velocidade que, hoje, mudou de natureza. Na origem, a velocidade é o tesouro dos faraós; é a tesaurização, quer dizer, a acumulação e, então, muito rapidamente, tornar-se-á especulação. E aí o movimento de acumulação vai passar na aceleração. Os dois estão vinculados. Acumulação do tesouro que tornar-se-á tesouro público, em seguida especulação, e hoje financeirização com os sistemas de cotação automática em alta frequência que fazem explodir a bolsa de valores. Veja, estamos diante de algo extraordinário, é que nós não sabemos o que é a velocidade em nossos dias. As pessoas me dizem que é preciso uma economia política da velocidade, e, de fato, é preciso uma, mas é preciso primeiro uma dromologia, ou seja, revelar na vida política, no sentido amplo do poder, a natureza da velocidade em nosso tempo. Essa velocidade mudou de natureza. Essencialmente ela foi a revolução dos transportes. Até o século XX, até a blitz, vimos que a revolução das riquezas é uma revolução dos transportes: o cavalo, o navio, o trem, o avião, os sinais mecânicos.
DIPLOMATIQUE: No final do século XX, passa-se não mais à revolução dos transportes, mas à das transmissões instantâneas.
VIRILIO: Durante a guerra, ainda garotinho, eu participei da Resistência com os meus pais graças à guerra das ondas que já era uma guerra eletromagnética. Uma guerra da velocidade das ondas. Marconi e sua invenção era, também, uma revolução da velocidade. Começava-se a pôr em obra a velocidade das ondas eletromagnéticas, isto é, das ondas da velocidade da luz. E, claro, com a televisão, os computadores e a Internet, nós entramos numa fase que hoje atinge o seu limite; a velocidade da luz em que o tempo humano, o tempo da negociação, da especulação, em que a inteligência do homem, do especulador, dos cotadores é ultrapassada pelos automatismos. Aliás, quando a bolsa quebrou em 6 de maio do ano passado em Wall Street, em alguns milésimos de segundos houve 23.000 operações, o sistema entrou em pane e bilhões foram perdidos em dez minutos.
DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?
VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo…
DIPLOMATIQUE: O que o senhor combate é a aceleração do real que põe em questão a percepção das aparências sensíveis e daquilo que a fenomenologia chama de “ser-no-mundo”?
VIRILLIO: Sim, o que a revolução dos transportes era para a aceleração da história e os movimentos migratórios, a revolução das transmissões instantâneas o é para a aceleração da realidade percebida. É um acontecimento alucinante, estupeficante. A velocidade é uma ebriedade. Uma embriaguez que pode ser “scópica” ou sonora – daí, aliás, a passagem do muro do som. Com as telecomunicações, utiliza-se a força de impacto da aceleração para fazer passar coisas que não estão na realidade pública, ou seja, no espaço real público, mas na realidade privada, ou antes transmitidas em tempo real por sociedades privadas. A tal ponto que a questão da imaginação, e aquela, filosófica, do “ser-no-mundo”, do aqui e do agora, tornam-se centrais. Nós estamos, assim, em plena crise da ciência, do que eu chamo de “acidente dos conhecimentos”, “acidente das substâncias” e “acidente das distâncias”. Essa questão da velocidade, desde Einstein, está no cerne da relatividade outrora especial, e hoje generalizada, que está em vias de se chocar contra um muro, o que eu chamo de “muro do tempo”. O que se passou em Wall Street me interessa muito porque as pessoas de Wall Street se chocaram contra o muro do tempo e o muro do dinheiro. É um fenômeno político maior no momento em que os algoritmos e os programas de computador dominam a vida econômica, e eu pretendo que a “relatividade especial” deveria ser um problema encarado pelo Estado. Se o século XX foi o século da conquista do ar e do espaço, eu penso que o século XXI deveria se questionar não somente sobre as nanotecnologias, mas, também, sobre as nanocronologias, isto é, sobre o tempo infinitesimal, sobre a conquista do “infinitamente pequeno do tempo”.
DIPLOMATIQUE: Parece-me que, nos textos do senhor, o estilo quer sempre ecoar o assunto estudado, e quando senhor pensa a velocidade, é a própria escrita que deve ir rápido.
VIRILIO: Absolutamente. E nesse sentido, como o mostra Proust, todo verdadeiro escritor escreve “numa espécie de língua estrangeira”. Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real. No que respeita à velocidade da minha escrita, trata-se da herança dos futuristas, e eu sinto a dromologia como uma musicologia. O problema não é nem de acelerar nem de desacelerar, mas de seguir uma linha melódica.
DIPLOMATIQUE: Há quem diga que o senhor pratica uma “escrita rapsódica”.
VIRILIO: Trata-se do ritmo. As sociedades antigas eram sociedades ritmológicas. Havia o calendário, a liturgia, as festas que estruturavam a linha melódica de tal ou qual sociedade. Os ritmos são muito importantes, você sabe, pois trata-se do sopro. Quando Bergson e Einstein se encontraram, eles não se compreenderam a esse respeito. O primeiro falava de “duração”, do vivo; o segundo, do vazio e do veloz. Saiba, no entanto, que será necessário conciliá-los, caso contrário o futuro do século XXI será um caos global pior que o nazismo ou o comunismo, que não tem nada a ver com a anarquia. Não, um caos global pior que tudo!
DIPLOMATIQUE: É por isso que o pensamento do senhor torna-se mais e mais dramático e religioso nos últimos tempos?
VIRILIO: Eu sou um católico que se converteu já adulto, isso é importante. Meu pai era comunista, e minha mãe, católica. Acontece que eu conheci o abade Pierre e padres operários. Mas eu permaneço sozinho sobre a minha senda.
DIPLOMATIQUE: Alguns criticam o senhor por descrever situações que seriam exagerações fantasistas, quando o senhor descreve este temor da solidão gerado pelas telecomunicações, notadamente pela Internet ou o celular. Não estaria o senhor realizando, talvez, uma especulação sobre “mundos possíveis”, seguindo uma espécie de método “transcendental” de investigação?
VIRILIO: Eu quero reunir o que foi separado, quero dizer, a filosofia e a física. Trata-se fundamentalmente de uma reinvenção filosófica para fazer frente a esta matematização do mundo, esta rapidez que ultrapassa a consciência. Eu me sinto no limiar de uma filosofia sem igual. Tal como Heráclito ou Parmênides, estamos aqui na origem – daí a Universidade do Desastre. Todo o trabalho desta seria um questionamento sobre o “desastre do êxito”. O que se acaba de descrever é o sucesso da tecnociência. Ora, é imperativo reconciliar e lançar a “filociência”. O que está aí em jogo é a vida ou a morte da humanidade. Se o homem não pode mais falar e se ele transfere o poder de enunciação a aparelhos, encontramo-nos, pois, diante de uma tirania sem igual. Físicos que são meus amigos estão conscientes disso, do que se perfila, um “acidente dos conhecimentos”. Isso nos conduz à árvore da vida que só tem referência na origem do Gênese, ou seja, o mito da vida… E aí eu o digo enquanto cristão e enquanto escritor: o acidente dos conhecimentos é o pecado original.
DIPLOMATIQUE: O que significa em nossa época “ser sábio”, quando nós somos forçados a uma especialização crescente e incessante, assim como à busca de uma “resposta automatizada” nos motores de pesquisa e nos bancos de dados que ultrapassam de longe o que a memória individual pode abarcar em uma vida? Como nós podemos cultivar nossa lucidez nesta maré enlouquecedora de informações?
VIRILIO: No que me toca mais diretamente, eu sou um urbanista, quer dizer que eu trabalho sobre o habitat. E o próprio de um urbanista é trabalhar sobre o habitar, o “ser-aqui”. O “ser-aqui-junto”. É isso o habitat: é o lugar de nossos hábitos. Os dois mantêm um vínculo muito estreito, isto é, a possibilidade de durar; o hábito é o que se reproduz. É o “ser-junto”. Não simplesmente o “ser-junto” do socius, mas o “ser-junto” da natureza no habitat comum com a nossa irmã, a chuva, e o nosso irmão, o sol, como diriam os franciscanos… É isso a arquitetura! É abrigar o vivente.
DIPLOMATIQUE: Perante o excesso contemporâneo de informações, e à velocidade sempre acelerada do desenrolar dos acontecimentos se desdobrando mundialmente nas imagens de nossas telas, não estamos testemunhando uma verdadeira desconstrução da cultura geral?
VIRILIO: Você utilizou na sua pergunta a palavra “desconstrução”. Eu creio que Derrida tinha razão para o fim do século XX. O início do século XX é a destruição pura e simplesmente através da ruína das cidades, através da ruína dos corpos. É a destruição; não se pode dizer que Auschiwtz ou Hiroshima sejam “desconstruções”… São puras destruições. Ora, eu creio – e eu o digo e o escrevo – que o século XXI será a desorientação, quer dizer, a perda de todas as referências – se a humanidade continuar desse jeito, e ela não continuará. Portanto, eu não creio de maneira alguma no fim do mundo. Mas o que eu quero dizer é a desorientação: não sabemos mais onde estamos nem no espaço nem no tempo. E aí, o geômetra que eu sou, o arquiteto que eu sou, sabe o que é a orientação. A arquitetura é primeira; ela é composição; ela é habitat comum entre os seres e as coisas. Pois ser é “ser-no-mundo”, e é o que eu digo: o problema não é de ser, mas de ser-no-mundo, em outras palavras, de ser-no-corpo-territorial. Isso não tem nada a ver com nacionalismo. Simplesmente não se pode ser sem “ser-no-mundo”. Em nossa época, todavia, o essencial se passa no vazio. Se você olhar hoje em dia, o poder não é mais geopolítico, religado ao solo, ele é aeropolítico: as ondas, os aviões e os foguetes traçam o porvir. A história se transferiu da terra ao céu, com toda a dimensão mística de adoração do cosmos, do grande vazio sideral, das ondas que se propagam etc. que isso supõe. As sociedades históricas eram sociedades geopolíticas, ou seja, inscritas nos lugares. O acontecimento, conforme com que eu digo, o acontecimento “tem lugar”; logo existe uma natureza do lugar que tange ao acontecimento. E essa relação com o “ter lugar” foi ocultada. É uma noção tão banal… Significa, portanto, que eu não posso ser sem ter lugar. Não é um problema de identidade – não, situado, orientado, in situ, hic et nunc, aqui e agora.
DIPLOMATIQUE: Uma última pergunta. O senhor pensa que o sistema econômico já está sendo transtornado pela ecologia?
VIRILIO: Doravante a economia e a ecologia devem fundir-se porque o mundo é finito, porque o mundo é demasiado pequeno para o progresso. Nós esgotamos a matéria do mundo, nós poluímos sua substância e nós poluímos suas distâncias. E nós estamos perante à fusão próxima da ecologia e da economia. Vê-se bem as dificuldades com o encontro do Grupo de Informação sobre o Clima em Copenhague. Vê-se bem a dificuldade que há em plena crise econômica, nos Estados Unidos e no mundo, a tomar medidas ecológicas. Portanto, inevitavelmente, o fato de que a Terra é muito pequena para a velocidade, para a velocidade do progresso, exige a fusão dos dois. Daí a importância de uma Universidade do Desastre e a reinvenção de um pensamento, de um intelectual coletivo, como o foi a universidade das origens. É indispensável. Até o momento ela não existe; nós estamos na origem de um novo mundo. E eu gostaria de ser mais jovem para poder viver esse Novo Mundo que vai nascer na dor do confronto. Mas que é indispensável. Nenhum homem, seja qual for a sua cor política, não está à altura desse acontecimento que se assemelha à Renascença italiana… E ao mesmo tempo é tão excitante! É maravilhoso! Como já dizia Karl Krauss: “que grande época”!
Guilherme Soares dos Santos – Filósofo, mestre em filosofia política e ética pela Universidade Paris Sorbonne e, atualmente, é doutorando em filosofia contemporânea pela Universidade Paris 8, onde estuda o pensamento de Gilles Deleuze.
Foto e tradução: Guilherme Soares dos Santos
Palavras chave: Paul Virilio, velocidade, transformação, corrida, cultura, teoria
Reveling in the Pain of Others: Moral Degeneracy and Violence in the “Kill Team” Photos (Truthout)
By Henry A. Giroux, Truthout | News Analysis
Monday, 20 June 2011
Cpl. Jeremy Morlock poses with the body of an unarmed Afghan boy named Gul Mudin in the village of La Mohammad Kalay. (Photo: US Army)
The inability to identify with others was unquestionably the most important psychological condition for the fact that something like Auschwitz could have occurred in the midst of more or less civilized and innocent people…. The coldness of the societal monad, the isolated competitor, was the precondition, as indifference to the fate of others…. Regressive tendencies, that is, people with repressed sadistic traits, are produced everywhere today by the global evolution of society…. Everywhere where it is mutilated, consciousness is reflected back upon the body and the sphere of the corporeal in an unfree form that tends toward violence. -Theodor Adorno
War, violence and death have become the organizing principle of governance and culture in the United States as we move into the second decade of the 21st century. Lacking a language for the social good, the very concept of the social as a space in which justice, equality, social protections and a responsibility to the other mediate everyday life is being refigured through a spectacle of violence and cruelty. Under such circumstances, ethical considerations and social costs are removed from market-driven policies and values just as images of human suffering are increasingly abstracted from not only their social and political contexts, but also the conditions that make such suffering possible. Moreover, as public issues collapse into privatized considerations, matters of agency, responsibility and ethics are now framed within the discourse of extreme individualism. Unexpected violence, aggression and the “‘masculine’ virtues of toughness, strength, decisiveness and determination … are accentuated,” along with the claims of vengeance, militarization and violence.(1) The collapse of the social and the formative culture that make human bonds possible is now outmatched by the rise of a Darwinian ethic of greed and self-interest in which violence, aggressiveness and sadism have become the primary metric for living and dying. As the social contract is replaced by social collapse, a culture of depravity has emerged in American society. The spectacle of violence permeates every aspect of the machinery of cultural production and screen culture – extending from television news and reality TV to the latest Hollywood fare. Of course, this is not new. What is new is that more and more people desire spectacles of high-intensity violence and images of death, mutilation and suffering and their desires should no longer be attributed to an individual aberration, but instead suggest an increasingly widespread social pathology.
Death and violence have become the mediating link between US domestic policy – the state’s treatment of its own citizens – and foreign policy, between the tedium of ever expanding workdays and the thrill of sadistic release. Disposable bodies now waste away in American prisons, schools and shelters just as they litter the battlefields of Iraq and Afghanistan. America has become a permanent warfare state, with a deep investment in a cultural politics and the corollary cultural apparatuses that legitimate and sanctify its machinery of death. The American public’s fascination with violence and death is evident in the recent popular obsession with high-octane action films, along with the ever-expanding volume of vampire and zombie films, TV shows and books. We also see death-dealing and violent acts accrue popularity with Hollywood films such as the 2010 academy-award winning “The Hurt Locker,” in which the American bomb disposal expert, William James (Jeremy Renner), repeatedly puts himself at risk in the face of defusing various bomb threats – thus to highlight the filmmaker’s concern with a growing “addiction” to war. As Mark Featherstone points out, there is more represented here than the reckless behavior of immature and hyper-masculine soldiers. He writes, “James takes unnecessary risks and lives for the limit experience…. [H]e feels most alive when he is closest to death … When James … throws the bomb suit away and stands before the bomb with no protection, he puts himself at the mercy of the bomb, the embodiment of the death drive.”(2)
“The Hurt Locker” is only one of a number of serious films that address, if not mirror, a psychological state in which the production of a virulent masculinity now augurs both a pathological relationship with the body, pain and violence and a disdain for compassion, human rights and social justice. The death drive in American society has become one of its fundamental characteristics and, undoubtedly, its most disabling pathology. More than a trace of this mode of aggression and moral indifference now dominates contemporary American life. Marked by a virulent notion of hardness and aggressive masculinity, a culture of depravity has become commonplace in a society in which pain, humiliation and abuse are condensed into digestible spectacles of violence endlessly circulated through extreme sports, reality TV, video games, YouTube postings and proliferating forms of the new and old media. But the ideology of hardness and the economy of pleasure it justifies are also present in the material relations of power that have intensified since the Reagan presidency, when a shift in government policies first took place and set the stage for the emergence of an unchecked regime of torture and state violence under the Bush-Cheney regime. Conservative and liberal politicians alike now spend millions waging wars around the globe, funding the largest military state in the world, providing huge tax benefits to the ultra-rich and major corporations, and all the while draining public coffers, increasing the scale of human poverty and misery and eliminating all viable public spheres – whether they be the social state, public schools, public transportation, or any other aspect of a formative culture that addresses the needs of the common good.
Mainstream politicians now call for cutbacks in public funding in order to address the pressing problems of the very deficit they not only created, but gladly embrace, since it provides an excuse either to drastically reduce funding for vital entitlements such as Medicare and early childhood education or to privatize public education, transportation, and other public services, while putting more money into the hands of the rich and powerful. The real deficit here is one of truth and morality. The politics of austerity has now become a discourse for eviscerating the social state and forcing upon cities, families and individuals previously unimaginable levels of precarity, suffering and insecurity. As Rania Khalek points out, conservatives want to “exploit the budget crisis in order to starve government…. The truth is that the economic crisis, sparked by decades of deregulation and greedy financial forms, caused high levels of unemployment that dramatically reduced state and local tax revenues. Add to that years of tax cuts for the wealthy and decades of corporate tax-dodging and you’ve got yourself a budget crisis.”(3) The discourse of “deficit porn” now justifies the shift in public policy and state funding further away from providing social protections and safeguarding civil liberties toward the establishment of legislative programs intent on promoting shared fears and increasing disciplinary modes of governance that rely on the criminalization of social problems.(4)
The broader cultural turn toward the death drive and the strange economy of desire it produces is also evident in the emergence of a culture of depravity in which the American public appears more and more amenable to deriving pleasure from images that portray gratuitous violence and calamity. As mentioned above, exaggerated violence now rules screen culture. The public pedagogy of entertainment includes extreme images of violence, human suffering and torture splashed across giant movie screens, some in 3D, offering viewers every imaginable portrayal of violent acts, each more shocking and brutal than the last. The growing taste for sadism can be seen in the recent fascination on the part of the media with Peter Moskos’ book “In Defense of Flogging,” in which the author seriously proposes that prisoners be given a choice between a standard sentence and a number of lashes administered in public.(5) In the name of reform, Moskos argues, without any irony, that public flogging is more honest and a sure-fire way of reducing the prison population. Not only is this book being given massive air time in the mainstream media, but its advocacy of corporal punishment and flogging is treated as if it is a legitimate proposal for reform. Mind-crushing punishment is presented as the only choice left for prisoners outside of serving their sentences. Moreover, this medieval type of punishment inflicts pain on the body as part of a public spectacle. Moskos seems to miss how the legacy of slavery informs his proposal, given that flogging was one of the preferred punishments handed out to slaves and that 70 percent of all current prisoners in the United States are people of color. Surely, the next step will be a reality TV franchise in which millions tune in to watch public floggings. This is not merely barbarism parading as reform – it is also a blatant indicator of the degree to which sadism and the infatuation with violence have become normalized in a society that seems to take delight in dehumanizing itself.
As the social is devalued along with rationality, ethics and any vestige of democracy, spectacles of violence and brutality now merge into forms of collective pleasure that constitute what I believe is an important and new symbiosis among visual pleasure, violence and suffering. As I have suggested, taking pleasure in violence can no longer be reduced to a matter of individual pathology, but registers a larger economy of pleasure across the broader culture and social landscape. The consumption of images of human pain as a matter of personal pleasure and taste has given way to representations of human suffering, humiliation and death that circulate across the culture as part of the collective indulgence in gross spectacles that persist in being called entertainment, news and knowledge sharing. What is more, privatized pleasures and violence translate increasingly into forms of structural violence that are mobilized by the death drive and use the spectacles of violence to generate a source of gratification and intense socially experienced pleasure. Amplified sadism and voyeurism are now characteristic of a contemporary society that has narrowed the range of social expression and values to the receipt of instant gratification and the pursuit of pleasure as one of its sole imperatives. As images of degradation and human suffering become more palatable and pleasurable, the body no longer becomes the privileged space of agency, but “the location of violence, crime and social pathology.”(6) Americans now find themselves in the midst of a brutal authoritarianism in which freedom is reduced to the narrow realm of individual needs, narcissistic pleasures and the removal of all forms of social responsibility, particularly those imposed by the government. Sovereignty and governance, under the guise of “personal choice,” are instead produced and defined by the market and the power of large corporations and financial institutions. As decadence and despair are normalized in the wider culture, people are increasingly exploited for their pleasure quotient, while any viable notion of the social is subordinated to the violence of a deregulated market economy and its ongoing production of a culture of cruelty.(7) For all intents and purposes, politics as a matter of public governance is dead in the United States.
How else to explain the insistent demand by many conservative and liberal pundits and the American public at large that the government release the grisly images of Osama bin Laden’s corpse, even though the fact of his assassination was never in doubt? How might we understand the growing support among the American populace for state-sanctioned torture and the rising indifference to images which reveal its horrible injustices? Just as torture is sanctioned by the state and becomes normalized for many Americans, the spectacle of violence spreads through the culture with ever-greater intensity. Whatever bleeds – now gratuitously and luxuriously – brings in box office profits and dominates media headlines, despite being often presented without any viable context for making sense of the imagery, or any critical commentary that might undercut or rupture the pleasure viewers are invited to derive from such images. Representations of violence and human tragedy now merge seamlessly with neoliberalism’s culture of depravity in which risk and mayhem reinforce shared fears rather than shared responsibilities and a Hobbesian war of all against all becomes the organizing principle for structuring a vast array of institutions and social relations.
As corporate capitalism translates into corporate fascism, prominent politicians such as Sarah Palin, radio hosts such as Rush Limbaugh and media monopoly moguls such as those who deliver Fox News repeatedly deploy the vocabulary of violence to attack the social state, labor unions, immigrants, young people, teachers and public-service employees. At the same time, the depravity of aesthetics gains popular currency in organs of the dominant media that reproduce an endless stream of denigrating images and narratives of people constrained by the forces of poverty, racism and disability. Their pain and suffering now become a source of delight for late-night comics, radio talk show hosts and TV programs that provide ample narratives and images of poor families, individuals and communities who become fodder for the “poverty porn” industry.(8) Programs such as the reality TV series “Jersey Shore,” the syndicated tabloid TV talk show series “The Jerry Springer Show” (and its endless imitators) and “The Biggest Loser” all exemplify what Gerry Mooney and Lynn Hancock claim is a massive “assault on people experiencing poverty [seizing] on any example of ‘dysfunctionality’ in poor working class communities … [exhibiting] expressions of middle-class fears and distrust, [while] also [displaying] a fascination with poverty and the supposedly deviant lifestyles of those affected – where viewers of moral outrage are encouraged to find the worst and weakest moments of people’s lives also funny and entertaining.”(9)Disconnected from any moral criteria, the search for ever more intense levels of sensation and excitation become the pedagogical and performative force par excellence in shaping the world of entertainment. Within this context, the pleasure of humiliation and violence is maximized and cruelty is elevated to a structuring principle of society.
What has led to this immunity and insensitivity to cruelty and prurient images of violence? Part of this process is due to the fact that the American public is bombarded by an unprecedented “huge volume of exposure to … images of human suffering.”(10)As Zygmunt Bauman argues, there are social costs that come with this immersion of the culture in staged violence. One consequence is that “the sheer numbers and monotony of images may have a ‘wearing off’ impact [and] to stave off the ‘viewing fatigue,’ they must be increasingly gory, shocking and otherwise ‘inventive’ to arouse any sentiments at all or indeed draw attention. The level of ‘familiar’ violence, below which the cruelty of cruel acts escapes attention, is constantly rising.”(11) Hyper-violence and spectacular representations of cruelty disrupt and block our ability to respond politically and ethically to the violence as it’s actually happening on the ground. In this instance, unfamiliar violence such as extreme images of torture and death becomes banally familiar, while familiar violence that occurs daily is barely recognized, becoming, if not boring, then relegated to the realm of the unnoticeable and unnoticed. An increasing volume of violence is pumped into the culture as yesterday’s spine-chilling and nerve-wrenching violence loses its shock value. As the need for more intense images of violence accumulates, the moral indifference and desensitization to violence grow, while matters of cruelty and suffering are offered up as fodder for sports, entertainment, news media, and other outlets for seeking pleasure.
Under the regime of neoliberal policies, relations and values, profit-making becomes the only legitimate mode of exchange; private interests replace public concerns; and unbridled individualism infects a society in which the vocabulary of fear, competition, war and punishment governs existing relationships. Within an economy of pleasure and commodification, freedom is subsumed by a calculated deficit that reduces agency to a regressive infantilism and degraded forms of gratification. What Leo Lowenthal called “the atomization of the individual” bespeaks a figure now terrorized by other human beings and reduced to living “in a state of stupor, in a moral coma.”(12) This type of depoliticized inward thinking – with its repudiation of the obligations of shared sociality, disengagement from moral responsibility and outright disdain for those who are disadvantaged by virtue of being poor, young or elderly – does more than fuel the harsh, militarized and ultra-masculine logic of the news and entertainment sector. This “atomization of the individual” also elevates death over life, selfishness over compassion and economics over politics. The spectrum of disdain and vulnerability has been extended at the current historical moment to contempt for life itself. Life reduced to “bare life” and the vulnerability it produces elicits imperviousness at best and a new kind of pleasure at worst. Precarity, uncertainty and misfortune no longer evoke compassion but disdain, while simultaneously opening up a space in which vulnerability offers a pretext for forms of pleasure that reinforce a culture of cruelty.(13) But even more so, it produces a kind of dysfunctional silence in American society in the face of widespread hardship and suffering – virtually wiping out society’s collective memories of moral decency and mutuality.
The merging of violence and pleasure has been on full display throughout American history, though images of such depravities have often been hidden. Exceptions can be found in the history of racism and the startling and disturbing images of the public lynching of African-Americans, the brutal murder of Emmett Till and the mass killings at My Lai depicted in photographs of American soldiers relaxing and smiling after the carnage. More recently, a number of photographs have once again surfaced which display grotesque acts of violence and murder by a select group of American soldiers stationed in Afghanistan. The images released by Rolling Stone magazine in the United States focused on the murderous actions of 12 US soldiers, who decided to kill Afghan civilians allegedly for sport. They used the moniker “The Kill Team” to refer to themselves, aptly registering both the group’s motivation and its monstrous actions. In the five months during which these soldiers went on a murderous rampage in Kandahar Province, writes one reporter, “they engaged in routine substance abuse and brutality toward Afghan locals that led to four premeditated murders of innocent civilians, the ritual mutilation of corpses (some of the soldiers reportedly severed fingers from their victims to keep as trophies) and the snapping of celebratory photographs alongside the deceased as if they were bagged deer.”(14) The soldiers’ actions exhibited their immersion in a death-driven culture that differs only in degree from the one I have been documenting throughout this article. Their actions were neither isolated nor individualized, but reflect their evident belief that killing for sport in such a culture could take place with impunity. Proudly bearing the title “Kill Team” registers “the pure depravity of the alleged crimes.”(15) In one particularly disturbing photo celebrating a kill, one of the soldiers, Jeremy Morlock, is shown posing with the body of Gul Mudin, a 15-year-old Afghan boy. With a grin on his face and a thumbs-up sign, Morlock is kneeling on the ground next to Mudin’s bloody and half-naked corpse, grabbing a handful of hair to lift up his bloodied face.
The platoon’s squad leader, Staff Sgt. Calvin Gibbs, was so pleased with the kill that he desecrated the young boy’s dead body by severing one of his fingers. Mark Boal quotes one soldier’s account of the incident: “‘It was like another day at the office for him’…. Gibbs started ‘messing around with the kid, moving his arms and mouth and acting like the kid was talking.'” Boal adds, “Then, using a pair of razor-sharp medic’s shears, [Gibbs] reportedly sliced off the dead boy’s pinky finger and gave it to [the soldier], as a trophy for killing his first Afghan.”(16)Gibbs’ instinct for barbarism appears utterly ruthless and lacking in any sense of ethical consideration or self-reflection – to say nothing of the political and social costs incurred by the US-led mission. The staff sergeant was so intent on killing Afghan civilians that he actually boasted about it, telling one soldier, “Come down to the line and we’ll find someone to kill.”(17)Revealing the depth of his inhumanity, Gibbs reportedly told his soldiers that all Afghans were savages, and talked to his squad about how they might be inventive in killing civilians. In one almost unbelievable scenario, the soldiers considered throwing “candy out of a Stryker vehicle as they drove through a village and shoot[ing] the children who came running to pick up the sweets. According to one soldier, they also talked about a second scenario in which they ‘would throw candy out in front and in the rear of the Stryker; the Stryker would then run the children over.'”(18)
Unlike the Abu Ghraib prison photos that were designed to humiliate detainees, the “Kill Team” photos suggest a deeper depravity, an intense pleasure in acts of violence that are preplanned and carried out with no impending threat, culminating in the sadistic collection of body parts of the slain victims as trophies. The “Kill Team” was after more than humiliation and the objectification of the other; it harbored a deep desire to feel intense excitement through pathological acts of murder and then captured the savagery in photos that served as mementos, so they could revisit and experience once again the delight that comes with descending into the sordid pornographic hell that connects violence, pleasure and death. The smiles on the faces of the young soldiers as they posed among their trophy killings are not the snapshots of privatized violence, but images of sadism that are symptoms of a social pathology in which shared pleasure in violence is now commonplace. As my colleague David L. Clark points out, the smiles on the faces of these soldiers suggest something perverse and alarming. He writes, “This isn’t Hannibal Lecter, after all, but G.I. Joe [and these photos appear as] symptomatic evidence of a certain public enjoyment of violence for the sake of violence, i.e., not the smile of shared pleasures between intimates (one form of the everyday), but a smile that marks a broader acceptance and affirmation of cruelty, killing for sport. Those smiles register a knowing pleasure in that violence and say that it is okay to kill and okay to take pleasure in that killing.”(19)
The “Kill Team” photographs are important because they signify a new register of what can be called a failed sociality. In this instance, the social does not disappear as much as it is overwritten by a sociality of shared violence – a sociality marked not by the injurious violence of the lone sociopath, but instead by a growing army of sociopaths. The “Kill Team” photographs offer a glimpse into a larger set of social conditions in a winner-take-all society in which it becomes difficult to imagine pleasure in any other terms except through the spectacle of violence buttressed by a market-driven culture and dominated by a survivalist ethic. What is it about these photos that reveals the smear of the pornographic, a titillation grounded in maximizing the pleasure of violence? What are the political, economic and social forces bearing down on American society that so easily undercut its potential to raise critical questions about war, violence, morality and human suffering? What forms of responsibility and what pedagogical strategies does one invoke in the face of a society that feeds off spectacles of violence and cruelty? What forms of witnessing and education might be called into play in which the feelings of pleasure mobilized by images of human suffering can be used as “a catalyst for critical inquiry and deep thought?”(20)Rather than being reduced to a mechanism for the cathartic release of pleasure, a society saturated in the claims of violence, war, aggression and poisonous modes of masculinity must serve as an indictment, a source of memory and evidence of the need to imagine otherwise.
In contrast to the “Kill Team” photos, we have seen images from Libya, Syria and Iran where the murder of young students and other protesters by state militia thugs have been captured on video and circulated the world over. Such images become a pedagogical tool, a critical mode of public pedagogy capable of forms of witnessing that allow people to imagine the unimaginable. What is emancipatory about these images, as Georges Didi-Huberman points out in a different context, is that they work to refuse what he calls the “disimagination machine”; that is, these are images that are “images in spite of all” – bearing witness to a different and critical sense of remembering, agency, ethics and collective resistance.(21) These images have ignited massive collective protests against repressive governments. Such images did not feed the basest of collective desires and pleasurable fantasies detached from any real consequences. To the contrary, such images of abuse and suffering have inflamed a society in which a formative culture exists that enables people to connect emotional investments and desires to a politics in which unthinkable acts of violence are confronted as part of a larger “commitment to political accountability, community and the importance of positive affect for both belonging and change.”(22)
America has lost the formative culture that would allow us to contest, challenge and transform the prevailing culture of unbridled individualism, consumerism, militarism and desire for instant pleasure. Both major political parties now impose harsh penalties on the poor, young people, the elderly, immigrants, and other groups considered disposable. We are on the brink of an authoritarianism in which war and violence not only cause unbearable hardship and suffering for the vast majority of the American people, but also produce a larger social pathology in which the actions of the “Kill Team” soldiers who sought out pleasure in the most vile and grotesque acts of violence are symptomatic of something that is becoming normalized and commonplace in American society. This is a violence being waged against democracy and the public good, one that feeds on mobilization of desires and collective pleasures in the face of the suffering of others.
Footnotes:
1. Richard J. Bernstein, The Abuse of Evil (London: Polity, 2005), p. 49.
2. Mark Featherstone, “The Hurt Locker: What is the Death Drive?” Sociology and Criminology at Keele University – Blogspot (February 25, 2010). Online here.
3. Rania Khalek, “Death by Budget Cut: Why Conservatives and Some Dems Have Blood on their Hands,” AlterNet (June 13, 2011). Online here.
4. See, for instance, Loic Wacquant, “Punishing the Poor: The Neoliberal Government of Social Insecurity,” (Durham: Duke University Press, 2009).
5. Peter Moskos, “In Defense of Flogging,” (New York: Basic Books, 2011).
6. Paul Gilroy, “‘After the Love Has Gone’: Bio-Politics and Ethepoetics in the Black Public Sphere,” Public Culture 7:1 (1994), p. 58.
7. I take up in great detail the notion of a culture of cruelty in Henry A. Giroux, “Zombie Politics and Culture in the Age of Casino Capitalism,” (New York: Peter Lang, 2011).
8. I have taken the term “poverty porn” from Gerry Mooney and Lynn Hancock, “Poverty Porn and the Broken Society,” Variant 39/40 (Winter 2010). Online here.
10. Zygmunt Bauman, “Life in Fragments,” (Malden: Blackwell, 1995), p. 149.
11. Zygmunt Bauman, “Life in Fragments,” (Malden: Blackwell, 1995), pp. 149-150.
12. Leo Lowenthal, “Atomization of Man,” False Prophets: Studies in Authoritarianism (New Brunswick, NJ: Transaction Books, 1987), p. 182.
13. Judith Butler touches on this issue in Judith Butler, “Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence,” (London: Verso Press, 2004).
14. Jim Frederick, “Anatomy of a War Crime: Behind the Enabling of the ‘Kill Team,'” Time (March 29, 2011). Online here.
16. Mark Boal, “The Kill Team,” Rolling Stone, (March 27, 2011). Online here.
19. David L. Clark, personal correspondence, May 15, 2011.
20. Mieke Bal, “The Pain Of Images,” in “Beautiful Suffering,” ed. Mark Reinhardt, Holly Edwards and Erina Duganne (Chicago: University of Chicago Press, 2007), p. 111.
21. Georges Didi-Huberman, “Images in Spite of All: Four Photographs from Auschwitz,” trans. Shane B. Lillis (Chicago: University of Chicago Press, 2008), pp. 1-2.
22. Clare Hemmings, “Invoking Affect: Cultural Theory and the Ontological Turn,” Cultural Studies 19:5 (September 2005), pp. 557-558.
Justiça processa estudante que ofendeu nordestinos no Twitter (FSP)
DE SÃO PAULO
A denúncia do Ministério Público Federal contra Mayara Penteado Petruso foi aceita pela Justiça Federal de São Paulo, que abriu no dia 4 de maio um processo contra a estudante de Direito. Ela vai responder pelo crime de racismo por causa de uma mensagem que publicou em seu perfil no Twitter, em 31 de outubro de 2010.
No texto, ela disse: “Nordestisto (sic) não é gente. Faça um favor a Sp: mate um nordestino afogado!”
A informação sobre o processo foi divulgada na tarde desta quinta-feira pela assessoria de imprensa da procuradoria.
A declaração de Mayara teria sido motivada pela eleição de Dilma à Presidência, já que o Nordeste concentrou grande parte dos votos à petista. Uma série de perfis nas redes sociais lançaram ofensas contra nordestinos na época, mas a publicação da estudante foi a que repercutiu com mais intensidade.
Em nota, o MPF de São Paulo afirmou que, entre novembro de 2010 e abril deste ano, a investigação seguiu sob sigilo para que se pudesse constatar que a atualização do perfil havia sido feita por ela mesma.
A denúncia foi então apresentada à Justiça em 3 de maio e aceita no dia seguinte.
PRECONCEITO
Uma segunda denúncia da mesma investigação, referente a mensagem parecida à de Mayara, mas publicada por uma usuária do Twitter de Recife, teve o pedido de abertura de processo indeferido. No entanto, o Juiz pediu a abertura de uma investigação em Pernambuco para apurar a autoria do texto.
No perfil da internauta Natália Campello, uma mensagem parecida à da estudante de Direito paulista foi publicada. “o sudeste é um lixo, façam um favor ao Nordeste, mate um paulista de bala 🙂 VÃO SE FODER PAULISTAS FILHOS DA PUTA”, diz a publicação.
De acordo com a nota, a procuradoria avaliou que ambas as mensagens “possuem conteúdo semelhante e são nitidamente racistas”.
O crime de racismo está tipificado em uma lei de 1989 e prevê penas mais severas quando ele é cometido através de meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza. Nesse caso, que se aplica a Mayara, a pena pode variar de 2 a 5 anos de prisão, além de multa.
World-Wide Assessment Determines Differences in Cultures (NSF)
[Apesar dos problemas metodológicos desse tipo de pesquisa (identificação de fronteiras nacionais com fronteiras culturais, reificação do conceito de cultura, abordagem sincrônica, dentre muitos outros), os resultados são provocadores, e portanto incitam a um debate interessante. RT]
Press Release 11-106 – Video
Michele Gelfand discusses what makes cultures restrictive versus permissive.
Watch video here.
University of Maryland Psychology Professor Michele Gelfand discusses recent research that investigates the “tightness” and “looseness” of 33 countries. “Tight” refers to nations that have strong social norms and low tolerance for deviation from those norms, whereas another term, “loose,” refers to nations with weak social norms and a high tolerance for deviation from those norms.
Credit: University of Maryland/National Science Foundation.
Press Release 11-106
World-Wide Assessment Determines Differences in Cultures
Ukraine, Israel, Brazil and the United States are “loose” cultures
Population density helps determine whether a country is tight or loose as this German street hints.
May 26, 2011
Conflicts and misunderstandings frequently arise between individuals from different cultures. But what makes cultures different; what makes one more restrictive and another less so?
A new international study led by the University of Maryland and supported by the National Science Foundation’s Division of Behavioral and Cognitive Sciences offers insights that may help explain such cultural differences and bridge the gaps between them.
Published in the May 27 issue of the journal Science, the study for the first time assesses the degree to which countries are restrictive versus permissive and it all comes down to factors that shape societal norms.
The researchers found a wide variation in the degree to which various societies impose social norms, enforce conformity and punish anti-social behavior. They also found the more threats experienced by a society, the more likely the society is to be restrictive, the authors say.
“There is less public dissent in tight cultures,” said University of Maryland Psychology Professor Michele Gelfand, who led the study. “Tight societies require much stronger norms and are much less tolerant of behavior that violates norms.”
“Tight” refers to nations that have strong social norms and low tolerance for deviation from those norms, whereas another term, “loose,” refers to nations with weak social norms and a high tolerance for deviation from them.
Gelfand and colleagues found that countries such as Japan, Korea, Singapore and Pakistan are much tighter whereas countries such as the Ukraine, Israel, Brazil and the United States are looser.
“Is important, within our view, to be mindful that we don’t think that either culture is worse or better,” said Gelfand.
She and her colleagues examined cultural variation in both types of societies.
“We believe this knowledge about how tight or loose a country is and why it is that way can foster greater cross-cultural tolerance and understanding,” said Gelfand. “Such understanding is critical in a world where both global interdependence and global threats are increasing.”
The researchers surveyed 6,823 respondents in 33 nations. In each nation, individuals from a wide range of occupations, as well as university students, were included. Data on environmental and historical threats and on societal institutions were collected from numerous established databases. Historical data–population density in 1500, history of conflict over the last hundred years, historical prevalence of disease outbreaks–were included whenever possible, and data on a wide range of societal institutions, including government, media and criminal justice, were obtained.
“You can see tightness reflected in the response in Japan to the natural disasters recently,” said Gelfand referring to the massive earthquake and tsunami that hit the country on March 11 of this year.
“The order and social coordination after the event, we believe, is a function of the tightness of the society,” Gelfand said, noting that tightness is needed in Japan to face these kinds of ecological vulnerabilities.
The research further showed that a nation’s tightness or looseness is in part determined by the environmental and human factors that have shaped a nation’s history–including wars, natural disasters, disease outbreaks, population density and scarcity of natural resources.
Tight and loose societies also vary in their institutions, with tight societies having more autocratic governments, more closed media and criminal justice systems that have more monitoring and greater deterrence of crime as compared to loose societies.
The study found that the situations that people encounter differ in tight and loose societies. For example, everyday situations–like being in a park, a classroom, the movies, a bus, at job interviews, restaurants and even one’s bedroom–constrain behavior much more in tight societies and afford a wider range of behavior in loose societies.
“We also found that the psychological makeup of individual citizens varies in tight and loose societies,” Gelfand said. “For example, individuals in tight societies are more prevention focused, have higher self-regulation strength and have higher needs for order and self-monitoring abilities than individuals in loose societies.”
These attributes, Gelfand said, help people to adapt to the level of constraint, or latitude, in their cultural context, and at the same time, reinforce it.
The research team combined all these measures in a multi-level model that shows how tight and loose systems are developed and maintained.
Gelfand said knowledge about these cultural differences can be invaluable to many people–from diplomats and global managers to military personal, immigrants and travelers–who have to traverse the tight-loose divide.
“When we understand why cultures, and the individuals in those cultures, are the way they are, it helps us to become less judgmental. It helps us to understand and appreciate societal differences.”
-NSF-
Media Contacts
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Principal Investigators
Michele Gelfand, University of Maryland (301) 405-6972 mgelfand@psyc.umd.edu
“A população não tem a quem recorrer para divulgar os seus problemas” (Envolverde/Adital)
por Raquel Júnia*
No dia Internacional da Liberdade de Expressão, os equipamentos de uma rádio comunitária localizada em uma favela do Rio de Janeiro foram apreendidos pela Polícia Federal e pela Anatel. Dois dos coordenadores da rádio foram levados para prestar depoimento. Nesta entrevista, Emerson Claudio dos Santos, mais conhecido como MC Fiell, presidente da Rádio Comunitária Santa Marta, fala sobre o exercício do direito à comunicação em um cenário de legislação restritiva e favorecedora dos interesses das mídias comerciais. Como o próprio nome já diz, a rádio se localiza na favela Santa Marta e atualmente, devido à apreensão dos equipamentos, está transmitindo apenas pela internet. Nesta entrevista, Fiell ajuda na reflexão sobre o papel das mídias que se pretendem contra-hegemônicas — comunitárias, alternativas, populares ou institucionais.
Que desafios as rádios comunitárias têm hoje?
A burocracia da lei de rádio é para você não ter rádio mesmo. Um dos maiores problemas dentro do capitalismo é grana. É uma armadilha, eles mesmos fazem os trâmites para o povo não ter o acesso. Mas sabemos dos problemas e vamos avançando. Em nossa rádio, por exemplo, fazemos festa para arrecadar grana, vendemos produtos como as camisetas da rádio, dando jeitos sem comercializar a rádio. Esta lei precisa ser mudada, senão o povo não terá acesso a esse direito. Só as rádios comunitárias não podem fazer propaganda. Enquanto isso a maioria das rádios comerciais está irregular, e tem as concessões renovadas automaticamente. Só o povo é punido e podado dos seus direitos.
Que mudanças na legislação você considera como mais fundamentais?
A Lei das Rádios Comunitárias tem que ser mudada em tudo, temos que fazer uma nova lei. Não tem como uma comunidade, por exemplo, no interior do Ceará, ter como exigência para uma rádio comunitária se legalizar uma associação formada por mais cinco instituições no raio de um quilômetro. Como vai fazer isso? Aqui já é difícil, imagine em outros lugares. É preciso outra lei construída com participação dos comunicadores e do povo.
E você vê alguma perspectiva de mudança da lei?
Se não tivermos perspectivas estamos mortos, temos que avançar. Um dos principais motivos pelos quais não avançamos é o desconhecimento. Quando você divulga alguma coisa, o povo fica sabendo e reage. A mesma coisa acontece com outros direitos, como o direito à saúde, à moradia. A comunicação hegemônica mantém o povo paralisado, engessado. As rádios comunitárias vêm para trocar ideias com o povo, mostrar seus direitos e deveres e tentar caminhar de outras formas, com escolhas. Há pouco interesse do poder público em mudar isso. Essa mudança se dará pela luta popular, das organizações em defesa da democratização da comunicação e de outros setores da sociedade que vão querer dialogar sobre isso e exigir que mude, que o povo tenha realmente acesso à comunicação, não só na teoria, mas na prática.
A rádio Santa Marta sofreu um fechamento pela polícia federal recentemente. Esta realidade se repete em todo o país?
A nossa rádio estava há oito meses no ar, cumpre tudo o que a legislação pede: não comercializamos, não vendemos programas, não temos partido, enfim, nós sempre buscamos exercer nossos deveres para conquistarmos nossos direitos. A rádio foi fechada de forma ilegal porque a Anatel, junto com a Polícia Federal, chegou aqui sem nenhum mandado, sem nenhum documento formal no nome da rádio Santa Marta, e mesmo assim confiscaram o transmissor e nos conduziram à delegacia para prestar depoimento. Se nós estamos ilegais porque não temos a outorga, eles estão ilegais por não terem mandado de busca e apreensão.
Infelizmente isto é corriqueiro no Brasil. No país todo está havendo uma grande criminalização das rádios comunitárias: a própria mídia hegemônica divulga que a rádio comunitária é pirata, que derruba avião, e isto é pura mentira. A gente costuma brincar que se rádio comunitária derrubasse avião, os terroristas montariam rádios comunitárias e não precisariam mais jogar bombas contra os aviões. E muitas pessoas, infelizmente sem informação política e sem visão crítica, acredita, mas esta é só uma forma de criminalizar para não termos acesso a essas ferramentas. Há dados que mostram que o governo Lula, infelizmente, foi o que mais fechou rádios. Mas temos que lutar mesmo porque nada será dado de forma voluntária aqui no Brasil, terá que ser conquistado na marra, de forma organizada. Isso tudo só vai mudar quando entendermos uma coisa: que os governantes precisam ser subordinados ao povo e não o povo subordinado ao governo. Quando entendermos isso, tudo mudará.
Como foi o depoimento que vocês deram na delegacia?
Eles perguntaram se a rádio é de pastor, se é de político, se existe comercialização, se eu tenho antecedentes criminais, se tenho marcas no corpo como tatuagem, se tenho bens materiais… Ter tatuagem não tem nada a ver com comunicação. Eu tenho tatuagem. Eu sou livre, eu faço o que eu quiser com o meu corpo. Eu falei: ‘se para vocês é crime, o único crime que eu faço é fazer rádio comunitária. O crime que eu cometo é prestar serviço à favela, de forma voluntária’. É surreal. E isso tudo aconteceu no dia 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Expressão, e o que aconteceu só mostra que não temos liberdade de expressão.
Por que vocês acreditam que após oito meses de funcionamento da rádio a polícia e a Anatel foram até lá?
Temos diversas possibilidades para isso, mas temos pensado que é porque começamos a incomodar, temos feito um bom trabalho de alfabetização e de formação política para o povo. O povo está se apoderando de seus direitos. Infelizmente, no Brasil, quando você fala a verdade, é criminalizado e tirado de circulação. Quando você se organiza, alguma coisa acontece, e sempre terá repressões. Quando buscamos um coletivo, o poder para o coletivo, isto desagrada muita gente, e o próprio governo. Porque vivemos em um país capitalista onde a lógica é individual e da competição e conosco aqui a lógica é coletiva, todo mundo tem voz, todo mundo é igual e todo mundo pode fazer. Então, isto incomoda a quem não adere a essa filosofia. Por mais que tentem, nunca vão calar a voz do povo.
A mídia comercial esteve bastante presente no Santa Marta cobrindo a instalação e primeiras ações da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Qual a diferença no enfoque dado ao Santa Marta antes e depois da UPP?
Desde a primeira favela, esses espaços sempre apareceram na mídia de uma forma ínfima, violenta, mostrando o povo da favela como mau e violento. O Santa Marta não é diferente, o seu povo sempre apareceu nas páginas da grande mídia sendo tratado como traficante, e o morro como um lugar de perigo. Depois, em 2009, com a entrada da UPP, essa mesma mídia que relacionava toda a população com o tráfico de drogas, agora fala que essa população tem voz. É uma jogada de interesses. Essa própria mídia, no caso a Globo, ineditamente fica 30 dias dentro do Santa Marta, cobrindo, fazendo link ao vivo, mas, na real, não deu voz ao povo. Esteve aqui para fazer uma jogada de marketing e mostrar o que ela queria, não mostrava os problemas da favela, não dava voz às lideranças críticas da favela, ela continua mostrando o que ela quer. E isto mostra que o poder está nas mãos deles.
A rádio comunitária Santa Marta também mostra o que quer, no entanto, sabemos que a construção do que sai na rádio é diferente. Qual é esta diferença?
A rádio Santa Marta mostra o direito do povo, ela é plural, isto é que é diferente. Uma rádio comunitária nasce para dar voz à população dessa favela; ela já começa diferente porque tem gestão, mas não tem dono, o dono é o povo. Quando o povo necessita, ela é acessível, fala dos problemas locais, da cidade, também do mundo. Mas as prioridades são os problemas, os projetos e os acontecimentos da localidade. O povo do Santa Marta nunca teve uma mídia que falasse dela como a Rádio Santa Marta faz. Este é o diferencial de uma rádio comunitária quando ela está a serviço do povo. Porque é importante salientar também que algumas outras rádios estão a serviço do lucro. A nossa, desde o princípio, está a serviço dos interesses do povo dessa favela.
Como isto se expressa na programação da rádio?
Nós temos uma programação plural, toda a diversidade cultural do Santa Marta está na rádio. São mais de 20 programas, começa às 6 horas e vai até meia noite. E tem programas jornalísticos, musicais, mas todos são informativos, porque a todo momento chegam notícias, e em todos eles a população tem linha direta: ela liga e participa e, se quer falar, é colocada ao vivo. Tem programas de entrevista sobre diversos assuntos – direito à moradia, alimentação, educação no Brasil, vida do trabalhador, programas que contam a história de imigrantes, como o Saudades da Minha Terra. Nós pedimos para as pessoas enviarem emails com críticas, ideias e fazemos nossa reunião quinzenal principalmente para isso, para ficar sabendo como estão os programas. A população pode participar da reunião, é aberta. Incluímos sempre o povo nas ações da rádio, não decidimos nada sozinhos, é tudo pelo interesse do povo.
Existe uma polêmica sobre a participação de partidos e religiões nas rádios comunitárias. Alguns acreditam que a rádio pode abrir espaços para essas instituições desde que seja contemplada a pluralidade local. Já outros acham que isto não deve acontecer. Como vocês pensam estas questões?
Aqui tem um programa gospel. O que pedimos é que o locutor não fique pregando e nem condicionando o povo. Partido político não tem mesmo, não queremos isso, cada um tem o seu e temos que usar o espaço da rádio para outras coisas. Agora, religião, se tiver várias, elas precisam ter espaço para que possam divulgar os seus eventos, por exemplo, mas sem pregar. No caso desse programa gospel, ele não é de nenhuma igreja, é um morador que é evangélico e faz o programa. As pessoas pedem músicas gospel, mas ele também fala o que está acontecendo no Santa Marta. É um programa igual ao de hip hop, só que é gospel, porque as pessoas também gostam desse tipo de música.
Como a rádio comunitária tenta responder a esse desafio de cativar um público já acostumado com a estética da mídia comercial para passar outro tipo de mensagem?
A população aprova a rádio, inclusive estamos numa campanha de um abaixo-assinado (em defesa da rádio) e a população vem assinar, traz a família. Por ser rádio comunitária, não se configura que seja uma rádio menor. A programação tem o mesmo potencial de qualquer outra rádio, tem vinhetas de qualidade, programadores de qualidade, porque também fazemos capacitação de locução, de jornalismo dentro da rádio. Então, ela não deixa nada a desejar, a única coisa diferente é que ela não abrange o Rio de Janeiro, mas apenas o raio de um quilômetro — Santa Marta e uma pequena parte de Botafogo —, com uma programação de altíssima qualidade.
O povo percebeu e aprovou que a rádio comunitária é ao mesmo tempo igual a qualquer outra e diferente porque fala dos nossos assuntos e do nosso povo e as outras não falam, a não ser quando é de interesse delas. Desde o início, não nos preocupamos em fazer uma réplica de programas das rádios comerciais, falamos em nossa linguagem coloquial, não somos acadêmicos e isso não tem nenhum problema, o que importa é o povo entender a mensagem. Trazemos mensalmente algum curso de comunicação comunitária, de operação de som, para todos nós avançarmos juntos, continuarmos melhorando a programação e a própria rádio, entendendo sempre que a intenção é falar para o nosso povo. Infelizmente nosso povo não está nos devidos lugares, como as faculdades e escolas, é um povo escravizado de carteira assinada. Então, avançamos, mas sabendo que tem que ser sem muros na linguagem. “O parceiro” e “a parceira” não podemos perder, a linguagem da favela não podemos esquecer, a Dona Maria não vai sair da nossa linguagem. Então, avançamos sem perder identidade.
Como a rádio consegue se manter e também garantir essa formação?
Por meio de parcerias com movimentos sociais, sindicatos, instituições, que fazem um trabalho voluntário. Vamos buscando juntos o entendimento de que a rádio é importante para os sete mil moradores do Santa Marta. Como a rádio não pode fazer propaganda, vender comercial, os amigos da rádio doam algum valor financeiro, os locutores todos doam também, porque todos têm um trabalho voluntário na rádio e outros trabalhos remunerados fora da rádio. Todos nós entendemos que juntos manteríamos a rádio para continuar com a nossa voz viva e calorosa no Santa Marta.
Como um dos coordenadores da rádio, você percebe a comunicação hoje de uma forma diferente?
Para nós há duas maneiras de entender a comunicação. Uma comunicação é a que a classe dominante usa, para poder educar e dominar um povo. E a nossa é a que usamos para esclarecer o povo, para levar mais informações sobre a sua realidade da vida. Sempre houve essas duas maneiras de comunicação, uma hegemônica e outra da classe popular, que tenta de alguma forma esclarecer o povo. Infelizmente nem todos os trabalhadores têm essa clareza, quando vamos participando de alguns momentos de formação política é que vamos percebendo. Eu pude perceber isso quando fiz um curso de comunicação comunitária com o Núcleo Piratininga de Comunicação: até então eu sabia que existia desigualdade também na comunicação, mas não da forma como eu entendo hoje.
* Raquel Júnia é da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), Fiocruz.
** Publicado originalmente no site Adital.
Como não poderia deixar de ser, aí vem a tropa de choque do policiamento linguístico
MPF prevê ações contra o uso de livro com erros pelo MEC
Para a procuradora da República Janice Ascari, os responsáveis pela edição e pela distribuição do livro “estão cometendo um crime” contra a educação brasileira.
Diante da denúncia de que o livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos – que foi distribuído a 485 mil estudantes jovens e adultos pelo Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação -, defende o uso da linguagem popular e admite erros gramaticais grosseiros como “nós pega o peixe”, a procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, previu que haverá ações na Justiça. Para ela, os responsáveis pela edição e pela distribuição do livro “estão cometendo um crime” contra a educação brasileira.
– Vocês estão cometendo um crime contra os nossos jovens, prestando um desserviço à educação já deficientíssima do País e desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir. Essa conduta não cidadã é inadmissível, inconcebível e, certamente, sofrerá ações do Ministério Público – protestou a procuradora da República em seu blog.
No domingo, o livro já tinha sido duramente criticado por educadores e escritores. O MEC confirmou que não pretende retirar a publicação das escolas, alegando que não tem ingerência sobre o conteúdo das obras. Afirmando que se manifestava como mãe e sem analisar o aspecto jurídico da questão, Janice disse que ficou chocada com as notícias sobre o livro com erros aprovado e distribuído pelo MEC. Os autores defendem que essa linguagem coloquial não poderia ser classificada de certa ou errada, mas de adequada ou inadequada.
– Ainda não estou refeita do choque sofrido com as notícias sobre o conteúdo do livro aprovado pelo MEC, no qual consta autorização expressa para que os alunos falem “Nós pega o peixe”, “Os livro mais interessante estão emprestado” e por aí vai. Não, MEC e autores do livro, definitivamente isso não é certo e nem adequado – disse Janice Ascari.
Para o MEC, o debate é nas universidades – O MEC confirmou nesta segunda-feira que não cogita alterar o processo de seleção e avaliação de livros didáticos. As obras são lidas por professores de universidades públicas, a quem cabe selecionar os títulos que farão parte do catálogo nacional de livros. É com base nesse catálogo que escolas de todo o país escolhem as coleções que receberão gratuitamente, distribuídas pelo Programa Nacional do Livro Didático.
O MEC diz que o debate sobre a adequação ou não de uma obra didática deve ocorrer nas universidades, como é no sistema atual, e não dentro do ministério. Do contrário, segundo o MEC, haveria o risco de direcionamento político na escolha das obras a serem aprovadas para uso em sala de aula.
A professora Heloísa Ramos, autora do livro, discorda de que seja preciso modificar qualquer trecho. Ela argumenta que a frase discutida em seu livro trata de linguagem oral, e não escrita. E que a norma popular da língua é diferente da norma culta, mas não necessariamente errada, no caso da linguagem oral.
– Eu não admito mais que alguém escreva que o nosso livro ensina a falar errado ou que não se dedica a ensinar a norma culta – disse Heloísa. – Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade? Este assunto é complexo, é para especialistas.
Professora aposentada de língua portuguesa da rede estadual de São Paulo, Heloísa presta serviços de consultoria e escreve uma coluna na revista “Nova Escola”, dedicada a tirar dúvidas de professores. Segundo ela, o livro “Por uma vida melhor” é pioneiro ao destacar a importância da norma popular da língua, o que considera um avanço, no sentido de não menosprezar a fala da população menos instruída.
Responsável por livro com erros admite mudar texto – Responsável pela produção do livro didático “Por uma vida melhor”, da Editora Global, a ONG Ação Educativa admite que poderá mudar o texto, numa eventual nova edição. É o que disse nesta segunda-feira a coordenadora-geral da ONG, Vera Masagão. Ela classificou como infeliz a frase que considera correto, em certos contextos, falar com erros de concordância:
– Não acho que seja necessário recolher os livros, de forma nenhuma. Eventualmente, numa próxima vez, a gente pode colocar uma frase que não gere mal-entendidos. Concordo que a frase é infeliz, ainda mais destacada do contexto.
“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”, diz a frase criticada por ela.
Para Vera, a leitura integral do capítulo deixa claro que o foco é o ensino da norma culta da língua. O capítulo se chama “Escrever é diferente de falar”. O professor Marcos Bagno, da Universidade de Brasília (UnB), disse que não há motivo para polêmica, porque já faz mais de 15 anos que os livros didáticos de língua portuguesa aprovados pelo MEC abordam o tema da variação linguística:
– Não é coisa de petista. Já no governo Fernando Henrique, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo transforma qualquer idioma usado por uma comunidade humana.
(O Globo)
ABL critica livro distribuído pelo MEC que defende erro em fala
Segundo a Academia, professor deve ensinar a língua-padrão.
A Academia Brasileira de Letras divulgou ontem uma nota criticando o MEC (Ministério da Educação) e os autores do livro didático “Por uma Vida Melhor”, distribuído pelo ministério a 4.236 escolas do País.
Ao tratar da diferença entre a língua oral e a escrita, o livro didático afirma que é possível dizer “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” em determinados contextos. “A Casa de Machado de Assis vem estranhar certas posições teóricas dos autores de livros que chegam às mãos de alunos dos cursos fundamental e médio com a chancela do Ministério da Educação, órgão que se vem empenhando em melhorar o nível do ensino escolar no Brasil”, diz a nota.
A ABL argumenta que não cabe ao professor de língua portuguesa em sala de aula ensinar outras variedades da língua que não seja a padrão. “[O professor] espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua-padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona.”
O MEC afirmou na semana passada que o livro está em acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, que servem como orientação para escolas e professores. Sobre a nota da ABL, o MEC afirma que o programa de aquisição e seleção dos livros didáticos -em que há uma avaliação das obras e liberdade para as escolas escolherem os livros com que trabalharão- foi discutido e aprovado por várias associações, entre elas a ABL.
O livro em questão, elaborado pela ONG Ação Educativa, no capítulo em que trata das diferenças entre escrever e falar e das variações na linguagem oral, afirma: “Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.
A coordenadora da Ação Educativa, Vera Masagão Ribeiro, diz que a frase foi tirada de contexto e que o livro deixa claro que há uma norma culta da língua. De acordo com Ribeiro, não há o risco de um aluno entender que pode escrever dessa forma num concurso público ou falar assim numa entrevista de emprego.
(Folha de São Paulo)
Coluna de Merval Pereira no O Globo desta terça-feira (17)
Há um aspecto perverso nessa crise do livro didático de português, que o MEC insiste em manter em circulação, que ultrapassa qualquer medida do bom-senso de um governo, qualquer governo.
A pretexto de defender a fala popular como alternativa válida à norma culta do português, o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros, que terão efeito direto na sua vida na sociedade e nos resultados de exames, nacionais e internacionais, que avaliam a situação de aprendizado dos alunos, debilitando mais ainda a competitividade do país.
O ministro Fernando Haddad, que já protagonizou diversas confusões administrativas, agora se cala diante dessa “pedagogia da ignorância” que apresenta aos alunos da rede pública a defesa de erros de português, como se fossem corretas ou aceitáveis expressões populares como “nós pega o peixe” ou “dois real”.
(Aliás, cada vez que escrevo essas frases, o corretor de texto teima em sublinhá-las em verde, como se estivessem erradas. Esse computador ainda não passou pelo crivo do MEC).
Mas é o próprio MEC que veicula anúncios exaltando supostos avanços dos alunos brasileiros no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).
O País registrou crescimento em todas as notas, embora continue muito abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e mesmo de alguns da América Latina.
Ora, se o próprio governo baliza sua atuação pela régua do Pisa, como justificar que a defesa de uma alternativa da fala correta seja uma política oficial do Estado brasileiro?
A professora Heloísa Ramos, autora do livro “Por uma vida melhor”, da Coleção Viver, Aprender (Editora Global) acredita ser “importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”.
Seria preciso então que as escolas e faculdades ensinassem o português popular para os que foram alfabetizados pela norma culta, numa radicalização esdrúxula que esse raciocínio estimula.
O caráter ideológico de certos livros didáticos utilizados pelo MEC, especialmente de história contemporânea, ganha assim uma nova vertente, mais danosa que a primeira, ou melhor, mais prejudicial para a vida do cidadão-aluno.
Enquanto distorções políticas que afetem posições pessoais do aluno podem ser revertidas no decorrer de sua vida, por outros conhecimentos e vivências, distorções didáticas afetam a perspectiva desse aluno, que permanecerá analfabeto, sem condições de melhorar de vida.
Fosse o livro uma obra de linguística da professora Heloísa Ramos, nada a opor quanto à sua existência, embora seus métodos e conclusões rasteiras do que seja preconceito contra a fala popular possam, sim, ser refutados como uma mera mistificação política.
Se fosse um romance, não haveria problema algum em reproduzir a maneira de falar de uma região, ou os erros de português de um personagem.
Mas o livro didático não pode aceitar como certo o erro de português. Didática, pelo dicionário (?) é “a arte de transmitir conhecimento, técnica de ensinar” ou “que proporciona instrução e informação”.
O fato de falarem de certa maneira em algumas regiões não quer dizer que este ou aquele linguajar represente o português correto.
A visão deturpada do que seja ensinar aparece na declaração de um assessor anônimo do MEC no Globo de ontem, alegando que não cabe ao ministério dizer “o que é certo e o que errado”, e nem mesmo fazer a análise do conteúdo dos livros didáticos.
Se não exerce esses deveres básicos, o que faz o MEC em relação ao ensino do País?
Seria um equívoco lamentável e perigoso se o MEC, com essa postura, estivesse pretendendo fazer uma política a favor dos analfabetos, dos ignorantes, como se ela fosse a defesa dos que não tiveram condições de estudar. Na verdade, está é agravando as condições precárias do cidadão-aluno que busca na escola melhorar de vida, limitando, se não impossibilitando, que atinjam esse objetivo.
Se, porém, a base da teoria for uma tentativa de querer justificar a maneira como o presidente Lula fala, aí então teremos um agravante ao ato criminoso de manter os estudantes na ignorância.
Querer transformar um defeito, uma falha da educação formal do presidente-operário, em uma coisa meritória é um desserviço à população.
Os erros de português de Lula não têm mérito nenhum, ele os explora para fazer política, é um clássico do populismo, cuja consequência é deseducar a população.
Mas ele nunca teve a coragem de defender a fala errada, embora goste de ironizar palavras ou expressões que considera rebuscadas.
Ele desvaloriza o estudo, com frases como “não sei por que estudou tanto, e eu fiz mais do que ele”, ou quando se mostra como exemplo de que é possível subir na vida sem estudar.
Mas em outras ocasiões, estimula que a universidade seja acessível a todos, numa atitude que parece paradoxal, mas que ganha coerência quando se analisam os objetivos políticos de cada uma das atitudes.
Se, no entanto, o desdém pela norma culta do português transformou-se em política de Estado, aí teremos a certeza de termos chegado ao fundo do poço.
UFRN aprova obra que defende fala popular
Segundo o MEC, o aval ao livro que admite uso de linguagem oral com erros para estabelecer comunicação partiu de comissão de docentes potiguares.
Uma comissão formada por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aprovou o livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver e Aprender. O livro, que chegou a 484.195 alunos de todo o País, defende que a forma de falar não precisa necessariamente seguir a norma culta. “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode”, diz um trecho.
Por uma Vida Melhor, de autoria de Heloísa Ramos, afirma que o uso da língua popular – ainda que com seus erros gramaticais – é válido na tentativa de estabelecer comunicação. O livro lembra que, caso deixem de usar a norma culta, os alunos podem sofrer “preconceito linguístico”. “Fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”
O livro foi escolhido por um total de 4.236 escolas que definiram a obra “mais apropriada a cada contexto”, considerando as “propostas pedagógicas e curriculares desenvolvidas”, informou o Ministério da Educação. O MEC não comenta o mérito do livro – ressalta que coube a docentes da UFRN aprovar a obra e a cada escola a decisão de adotá-la ou não nas salas.
Padrões – Em nota divulgada pelo MEC, a autora defendeu que a ideia de “correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa”. Cercado pela polêmica que o livro levantou, o MEC observa que a seleção do conteúdo didático não coube ao ministério.
Os livros do Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLDEJA) são encaminhados para uma comissão, responsável pela avaliação e seleção das coleções didáticas. No caso de Por uma Vida Melhor, o debate ficou entre um grupo de docentes da UFRN. Depois de aprovadas, as obras são colocadas à disposição no Guia do Livro Didático, que funciona como uma ferramenta de orientação
na definição dos títulos.O ministério arca com as despesas dos livros.
Programa – Ao tratar dos componentes curriculares, o edital do programa do Ministério da Educação previa que os alunos do segundo segmento – do 6.º ao 9.º ano do ensino fundamental, que receberam a obra – “demandam novos tipos de reflexão sobre o funcionamento e as propriedades da linguagem em uso” e “a sistematização dos conhecimentos linguísticos correlatos mais relevantes”.
O edital também diz que “cabe ao ensino de língua materna, nesse nível de ensino-aprendizagem, aprofundar o processo de inserção qualificada do aluno na cultura da escrita”. O MEC afirmou que até ontem não havia pedidos de devolução dos exemplares. A Editora Global informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que é responsável pela comercialização e pela produção do livro, mas não pelo seu conteúdo. Procurada, a assessoria da UFRN disse que não se pronunciaria.
‘O livro é fruto da minha carreira. Escrevi o que já havia praticado’
Entrevista com Heloisa Cerri Ramos, coautora do livro “Por uma vida melhor”.
● Foi um mal entendido?
Pegaram uma frase sem contexto. Dentro do capítulo que trata de concordância nominal e verbal, explico que, na língua oral, quando se diz “os livro é popular”, entende-se que é plural. Mas, na verdade, acho que houve uma falta de aceitação. A mídia diz que a escola não produz aprendizagem, mas quando se mostra um aspecto pedagógico ou didático, ela tem posição conservadora, trata com ironia.
● A discussão, então, é antiga?
Sim. Há pelo menos 30 anos se fala disso entre os que se preocupam em democratizar o ensino. Talvez em um tempo em que só a elite ia para escola, a normal culta bastasse. Hoje, com o acesso da classe popular, a formação tem de ser mais ampla. E nosso livro é direcionado ao Ensino de Jovens e Adultos. Foi feito para aquele que pode ter sido discriminado por falar errado. Não defendo uma escola que fique parada na linguagem popular. Com o aprendizado, o estudante se vê como um falante da sua língua e sabe que, sem a norma culta, não terá acesso a bens culturais e conhecimentos científicos.
● O espanto, então, é por que você escreveu, colocou no papel, o que já se discute há tempos?
Sim. Acho que nenhum livro didático falou diretamente disso. Nosso livro tem a linguagem voltada para o aluno. Por isso, explicito essa questão da concordância. Recebi elogios de colegas. Muitos deles disseram que eu fui corajosa.
● E como é receber críticas de professores e de membros da Academia Brasileira de Letras?
Estou muito tranquila. Não cometi nenhum erro conceitual. O livro é fruto da minha carreira. O que eu escrevi, já havia praticado com meus alunos. E o livro também recebeu pareceres antes da publicação. Os outros dois autores da coleção e eu sempre falamos: se ninguém quiser os nossos livros, nós queremos.
(O Estado de São Paulo)
OAB diz que vai à Justiça contra ofensas a nordestinos no Twitter (FSP)
Folha de S.Paulo – 12/05/2011 – 14h18
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Ceará informou nesta quinta-feira que entrará, no fim da tarde, com notícia crime no Ministério Público Federal contra dois internautas suspeitos de injúria e discriminação. Na noite de ontem, no final da partida entre Flamengo e Ceará pelas quartas de final da Copa do Brasil, ambos postaram comentários ofensivos a nordestinos.
Por volta das 0h, uma torcedora que se identifica como Amanda Régis escreveu: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que tem moral, cambada de feios. Não é atoa que não gosto desse tipo de raça” [sic].
Outro usuário, que se identifica como Lucian Farah, também xingou nordestinos com palavrões, em três comentários. Um deles diz “Só vim no twitter falar o qnto os NORDESTINOS é a DESGRAÇA do brasil.. pqp! bando de gnt retardada qe acham que sabe de alguma coisa” [sic].
Em nota, o presidente da OAB-CE, Valdetário Andrade Monteiro, afirma que qualquer forma de preconceito deve ser combatida. “A Constituição Federal trata todos iguais, sem distinção de qualquer natureza. Não podemos permitir que a pessoa, com um certo grau de conhecimento, se utilize da internet para disseminar prática de racismo”.
Os tuítes provocaram uma onda de comentários desde a madrugada –a maior parte de reação contra os usuários. Com a repercussão, os comentários foram apagados pelos usuários.
Farah, nesta quinta, postou pedido de desculpas: “Como brasileiro, TORÇO sim! e quando torço, sou FANÁTICO! e qdo sou fanático, eu xingo msm! mas ontem me exaltei e fui alé disso! qdo me referi aos nordestinos, queria me referir inteiramente ao time do ceara. e tenho CERTEZA que nao fui o unico a xingar os nordestinos” [sic].
Amanda Régis também postou um pedido de desculpas: “meu deus gente, agi por impulso por causa do flamengo, não tenho nada contra nordestinos….desculpa ai galera.JAMAIS DEVERIA TER FEITO ISSO [sic]”.
A reportagem não conseguiu localizar os usuários para falar sobre os comentários.
Comentários contra nordestinos causam revolta no Twitter
Atualizado às 13h32.
Comentários ofensivos a nordestinos provocaram uma onde de revolta entre usuários do serviço de microblogs Twitter nesta quinta-feira.
Por volta das 11h50, 3 dos 10 assuntos mais comentados na rede social no país eram relativos ao assunto. Dois dos assuntos também entraram na lista do “trending topics” mundial.
A revolta começou na noite de quarta-feira (11), no final da partida entre Flamengo e Ceará pelas quartas de final da Copa do Brasil, que acabou em um empate que eliminou o time carioca.
Por volta das 0h, uma torcedora que se identifica como Amanda Régis escreveu: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que tem moral, cambada de feios. Não é atoa que não gosto desse tipo de raça” [sic].
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| Comentário publicado por Amanda Régis em sua conta no Twitter |
Outro usuário, que se identifica como Lucian Farah, também xingou nordestinos com palavrões, em três comentários. Um deles diz “Só vim no twitter falar o qnto os NORDESTINOS é a DESGRAÇA do brasil.. pqp! bando de gnt retardada qe acham que sabe de alguma coisa” [sic].
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| Comentário publicado por Lucian Farah em sua conta no Twitter |
Imediatamente, os tuítes provocaram uma onda de comentários desde a madrugada –a maior parte de reação contra os usuários. As palavras-chave mais usadas, que estão entre os assuntos mais comentados, são: “Amanda Regis”, “#orgulhodesernordestino” e “Parabéns Ceará”.
Com a repercussão, os comentários foram apagados pelos usuários. Hoje, Farah postou pedido de desculpas: “Como brasileiro, TORÇO sim! e quando torço, sou FANÁTICO! e qdo sou fanático, eu xingo msm! mas ontem me exaltei e fui alé disso! qdo me referi aos nordestinos, queria me referir inteiramente ao time do ceara. e tenho CERTEZA que nao fui o unico a xingar os nordestinos” [sic].
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Ceará informou que vai entrar no fim da tarde com uma notícia crime no Ministério Público Federal contra os dois usuários por injúria qualificada e discriminação.
A reportagem não conseguiu localizar os usuários para falar sobre os comentários. Nesta quinta, ambos publicaram pedidos de desculpas no microblog.
ELEIÇÕES
Nas eleições do ano passado, após a confirmação de Dilma Rousseff como a nova presidente da República, a estudante de direito Mayara Petruso escreveu em seu twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!”
O comentário desencadeou uma onda de manifestações contrárias a nordestinos, que supostamente seriam os responsáveis pela vitória da petista.
Com a repercussão do caso, o escritório onde a estudante trabalhava divulgou comunicado em que lamentava a “infeliz opinião”.
A Polícia Civil de São Paulo abriu investigação contra a estudante e outras pessoas por suspeita de racismo.
A ONG SaferNet, que trata dos direitos humanos na internet, encaminhou mais de mil perfis de twitter que teriam feito comentários semelhantes ao Ministério Público Federal em São Paulo. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Pernambuco também pediu providências à Procuradoria.
Danzing sobre comunicação, inteligência e tortura
O debate é marcado por certa visão interna americana sobre o valor social do aparato de inteligência, mas há pontos interessantes sobre comunicação e política, relevantes para pesquisa na área.
Five Reasons Why Torture Did Not Help U.S. Forces Find Bin Laden
5-3-2011
By David Danzig – http://www.humanrightsfirst.org
The AP reported: “Current and former U.S. officials say that Khalid Sheikh Mohammed, the mastermind of the Sept. 11, 2001 terrorist attacks, provided the nom de guerre of one of bin Laden’s most trusted aides. The CIA got similar information from Mohammed’s successor, Abu Faraj al-Libi. Both were subjected to harsh interrogation tactics inside CIA prisons in Poland and Romania.”
Since Bin Laden’s death, Liz Cheney, the daughter of the former Vice President, and other proponents of “enhanced” interrogation techniques have taken to the air waves to trumpet this bit of news, but there is every reason to believe that torture actually hindered, rather than helped, U.S. efforts to find Bin Laden. Here are five of them.
1) It’s not so simple
Khalid Sheik Muhammed (KSM) did not talk, according to the AP, when he was tortured, but rather months later when he was questioned using humane interrogation techniques.
When asked on “Morning Joe” if KSM had provided information on the courier due to torture, John Brennan, the President’s Counter Terrorism advisor said, “not to my knowledge.” Brennan was later asked on FOX News if KSM and al-Libi had provided the initial information about the courier. “If only it were that simple,” he said.
2) KSM did not tell us everything he knew
KSM and al-Libi almost certainly concealed a great deal of information about the courier who ultimately led US forces to Bin Laden. Indeed, Bin Laden was killed in the town where Al Libi used to live. Al Libi’s role was to prepare safe houses for Al Qaeda leaders like Bin Laden, and the courier has been described repeatedly as “a confidant of Khalid Sheik Muhammed.” Yet all CIA interrogators were able to learn was a nickname for him. As compared to what they could have learned, this is not very impressive.
A senior US official told reporters that it was only four years later that US forces learned the courier’s real name and location.
3) Interrogators say that using torture does not make a detainee reveal the whole truth later
Some will argue that it was only thanks to the waterboarding that KSM and al-Libi were willing to talk at all. This notion is rejected by the more than 75 interrogators, questioners and debriefers with the military, the FBI and the CIA who I have spoken to in depth about this subject since the revelations of abuse at Abu Ghraib. I have yet to speak to a professional interrogator who believes that torture is an effective means of questioning suspected terrorists.
Jack Cloonan who served on the FBI’s Osama Bin Laden unit for 6 years told me that during an interrogation (or what the FBI calls an interview) the goal was to, “work towards the objective of getting this person to cross the threshold and become, in effect, a traitor to their own cause.”
According to Cloonan, “the Al Qaeda people that I dealt with were all very sophisticated in terms of their language skills and understanding of what was at stake.” Cloonan said that it essentially became a question of whether he could offer the detainee enough of what he wanted (protection for his family, more lenient sentencing/incarceration etc.) to convince him to talk. “They struggled,” he said, “with whether or not I was being truthful and I was going to honor everything I said.”
If you gave the detainee any reason not to trust you, there is no negotiation, Cloonan explained. The detainee won’t be willing to bargain with giving up his knowledge in exchange for something the interrogator can provide. He simply won’t trust you. Torture, Cloonan says, shatters any possibility for trust. “It changes the dynamic,” Cloonan said. “And once you have gone down that path, in my experience there is no going back.”
4) We simply do not know how much more helpful KSM and Al Libi might have been if they had been interrogated solely using humane methods that have been proven to be effective
In the war on terror, the most wanted men to date have been captured thanks to intelligence developed by interrogators who do not use abuse.
I once showed Joe Navarro a former FBI special agent who used to teach questioning techniques, a TV clip of the FOX show “24” featuring Jack Bauer torturing someone while yelling “where is the bomb?” and asked him why that sort of tactic would not work on high value detainees. “That’s ridiculous,” said Navarro. “I want to know everything that a detainee knows. I don’t simply want to know where the bomb is! I want to know who funds him and how? Where are their safehouses? Who else does he know? What does he know that I don’t even know to ask about?” The dynamics of a torture session make for good TV because the detainee delivers the info in a short sound bite. But in the real world, interrogators who use abuse put themselves in a position where detainees will, at best, provide them with only limited information.
Consider other high profile captures and kills in the war on terrorism. The former insurgent who fingered Saddam Hussein voluntarily drew his U.S. interrogator a map showing exactly what spider hole the former dictator was hiding in. And the Al Qaeda operative who pointed US forces to Al Zarqawi, the former head of Al Qaeda in Iraq, told his interrogators the name of Zarqawi’s spiritual advisor and what kind of car he drove. (Ultimately coalition forces followed the advisor’s car to Zarqawi.)
This level of cooperation is unthinkable if torture is used. And it leaves one wondering if we might have found Osama Bin Laden earlier if KSM and al-Libi had been interrogated by the FBI’s subject matter expert or another interrogator committed to using humane techniques from the start.
5) The optics of the US using torture do not help in the larger struggle
Consider the case of Nasir Abbas, a former high-level terrorist who worked with Jemaah Islamiya (JI), the Indonesian terrorist group responsible for the Bali bombings.
Abbas was captured by Detachment 88, an Indonesian police task force so committed to using humane techniques that its interrogators often begin interrogation sessions by praying together with detainees as “fellow muslims.” Abbas, as he explains, in a best selling book recently released in Indonesia decided, in part thanks to his treatment by police authorities, that the way that JI engaged in killing innocent civilians was wrong. He provided the Indonesian police with dozens of leads and it is thanks to his – and other former JI operatives’ conversion – that officials say they have been able to substantially reduce the threat from JI.
How many chances has the U.S. had to convert someone like Nasir Abbas to our side?
How potent a weapon might it be to have a former Al Qaeda operative announce publically that he thinks that what Al Qaeda does is wrong and that he was wrong about his captors? (And for that matter how helpful might it be to have found a well-placed Pakistani in the town where Bin Laden was holed up who was willing to rat him out simply because it was the right thing to do.)
I am sure that the Liz Cheney’s of the world would say that this outlook is naive and that these trained killers would never turn on their comrades. To them, I can only say that I am sure that the directors of Detachment 88, in Indonesia, and the interrogators who led us to Saddam Hussein and Al Zarqawi faced the same criticism.
David Danzig is a senior advisor to Human Rights First
Imprensa versus governo (Fapesp)
| © AGÊNCIA ESTADO |
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| Tropas no comício da Central do Brasil |
No jargão da imprensa escrita, “retranca” é a classificação do assunto contido em uma página, editoria ou em um conjunto de textos jornalísticos. Sob a retranca “Na Rede da Democracia”, entre outubro de 1963 e março de 1964, os três mais importantes jornais do país – O Jornal, dos Diários Associados, Jornal do Brasil, da família Nascimento Brito, e O Globo, da família Marinho – se uniram em torno de uma pauta em comum: a defesa do nacionalismo contra o comunismo, a crítica à ineficiência do Congresso, a falta de legitimidade do presidente João Goulart, o perigo de o governo ceder às pressões das manifestações de massa e dos movimentos populares. Diariamente publicada nos três diários e veiculada à noite nas suas respectivas emissoras de rádio, a Rede da Democracia ajudou a enfraquecer e derrubar o governo de Jango, deposto pelos militares que tomaram o poder em 1964.
Os acontecimentos políticos posteriores a esse momento da história brasileira têm sido muito registrados e debatidos. Mas sobre o consórcio formalizado pelos jornais sob a denominação de Rede da Democracia pouco se estudou. Foi nesse vazio que trabalhou o historiador Aloysio Castelo de Carvalho em sua pesquisa de pós-doutorado em história social na Universidade de São Paulo (USP), cujo resultado está sendo lançado no livro A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), coedição entre a NitPress e a Editora da UFF (Universidade Federal Fluminense), onde Carvalho também é professor.
“A Rede da Democracia está incluída num debate sobre a relação entre os jornais e o governo de João Goulart”, diz o pesquisador. Relação que evoluiu de maneira peculiar: em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou, os três jornais defenderam uma posição antigolpe, afirmando a legalidade da posse do vice João Goulart. Dois anos depois, a Rede da Democracia cerrava fileiras contra o presidente.
Em 1961 coube ao então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, montar a chamada Rede da Legalidade, que transmitia, a partir do porão do Palácio Piratini, discursos do aliado de Jango reproduzidos em ondas curtas por dezenas de emissoras do interior e de outros estados. O modelo de resistência brizolista inspiraria, anos depois, o empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. As rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil passaram a transmitir em conjunto, a partir de 1963, pronunciamentos que no dia seguinte eram publicados nos jornais com a mesma retranca. Alguns títulos ilustram o conteúdo editorial da Rede: “União Nacional dos Estudantes é um antro de delinquentes políticos”, “O dispositivo chamado sindical é na realidade dispositivo comunista”, “Dias graves se aproximam se não for repelida a invasão marxista”, “Ministério do Trabalho comanda as greves que agitam nosso país”, “Nosso país não está só ameaçado, mas comprometido com o comunismo” são exemplos da tomada de posição da imprensa diante do governo de Jango. Entre os signatários estavam parlamentares da oposição e donos de jornais que, na visão de Carvalho, se arvoraram na pretensão de se tornarem atores políticos.
| © AGÊNCIA ESTADO |
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| Tanques do Exército no Rio no dia do golpe militar |
Padrão – Foi em busca de compreender qual foi o papel da imprensa na queda de Jango e na emergência do governo militar que Carvalho acabou encontrando um padrão discursivo formado por quatro principais eixos: uma concepção valorativa da própria imprensa, que se atribui o papel de porta-voz da opinião pública; o temor de que o ingresso das massas no sistema político seria um risco para o país; a falta de confiança no presidente da República quando ele conta com apoio popular; a falta de confiança nas instituições políticas, inclusive no Congresso e no Senado, contribuindo para reforçar a percepção do papel da imprensa como fiscal dessas mesmas instituições e afirmando a importância da liberdade de imprensa.
No período Jango, os três jornais unificados sob a Rede da Democracia viam a sociedade brasileira como uma emergente sociedade de massas, mas resistiam ao ingresso dessa massa na participação política, que passou a se dar pela via dos movimentos sociais e das manifestações populares. “Os jornais reagiram de forma conservadora, afirmando que a única participação política legítima era pelas formas institucionais”, lembra Carvalho.
No entanto, essas formas institucionais estavam fechadas à massa de trabalhadores que, no processo de urbanização e industrialização, chegava à vida política. O voto não era permitido aos analfabetos, por exemplo, e em 1963 metade da população brasileira não sabia ler nem escrever. Daí a grande importância da Rede da Democracia em veicular suas ideias no rádio, a fim de ganhar adesões também entre as massas como parte de um processo que, para Carvalho, faz parte da competição da imprensa para representar a opinião pública. “É uma visão publicista de opinião pública, que desvaloriza a expressão pela via do voto ou das instituições”, explica o professor.
Embora reconheça que há períodos muito negativos, Eugênio Bucci, professor de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), considera que generalizações sobre a relação entre governo e imprensa enfrentam dois problemas: o primeiro, a dificuldade de caracterizar a imprensa como uma entidade de condutas unificadas. Há, lembra ele, pluralidade e diversidade. Que poderia ser maior, reconhece, mas que já avançou muito em relação aos anos 1960. No cenário atual, não apenas jornais, mas rádios, TVs, sites de internet formam um mosaico de veículos de comunicação com expressão de pontos de vista muito distintos entre si.
“Apesar do comportamento de certos veículos da chamada grande imprensa, há mais diversidade, mais pluralidade. Sobrevive entre nós uma mentalidade que tem repercussão na imprensa e rejeita tudo aquilo que emerge do povo iletrado, essa mistura de raça e cor considerada ruim”, argumenta Bucci. Para ele, é preciso ter muito cuidado para não cair num modelo linear, segundo o qual se pode classificar a imprensa de boa ou ruim.
Lua de mel – O que leva Bucci a discutir o segundo problema: como se tem visto no noticiário após a posse da presidente Dilma Rousseff, há períodos de verdadeira lua de mel entre jornais e governo. Foi assim, por exemplo, no início do primeiro mandato de Lula, lembra Bucci. Segundo ele, o tratamento que o governo Lula recebeu varia muito entre os períodos e entre os veículos. “A TV Record, por exemplo, compete com a TV Globo na cobertura crítica do governo”, exemplifica, lembrando que blogs e sites, como o IG, exercem papel importante em contrapontos ao discurso dos grandes jornais e também formam opinião.
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| Goulart fala com multidão na Central do Brasil |
O fato de a internet ainda não ser uma mídia de massa faz com que o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), discorde da capacidade desses novos meios de comunicação de democratizar a informação e se constituir numa via alternativa à grande imprensa. Para ele, o mecanismo fundamental que mantém a relação umbilical entre poder e imprensa é a lei das concessões de rádio e TV. Por isso, acredita que a única forma de alterar o que chama de “relação bilateral” entre Estado e meios de comunicação é uma revisão na lei das concessões. “É preciso assegurar que qualquer grupo social possa se expressar com autonomia”, defende Baía.
A autonomia da imprensa sempre esteve em debate em tempos de crise. Foi assim nos anos 1960, quando a Rede da Democracia pregava seu direito à liberdade de imprensa como forma de garantir a expressão de um determinado ponto de vista em relação ao governo Jango e compartilhado pelos três jornais que integravam o consórcio. O debate sobre liberdade de imprensa esteve novamente em pauta durante os dois mandatos do governo Lula, e com ele veio a discussão sobre mecanismos de controle social da informação. “A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”, alega Carvalho. “Lula é um produto da liberdade de imprensa”, contrapõe Bucci, lembrando que foi a abertura política e, com ela, o fim da censura à imprensa que permitiram o contato entre o Partido dos Trabalhadores e o eleitorado.
Carvalho conclui que, quando se sentem ameaçados, os jornais formam alianças formais, como a Rede da Democracia, para fazer ecoar o discurso liberal e conservador. “Vai chegar o momento em que a imprensa será objeto de crítica das outras instituições. E os jornais não poderão mais ser irresponsáveis e manipuladores”, aposta Carvalho.
Rio contra o crime: o jornalismo veste a camisa (Observatório de Imprensa)
Por Sylvia Moretzsohn em 30/11/2010
Quando recebeu, no início de novembro, um prêmio de telejornalismo pelas entrevistas com os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz sobre os bastidores da ditadura no Brasil, Geneton Moraes Neto escreveu uma “pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo jornalismo” em que afirmava: “Fazer jornalismo é produzir memória”. E concluía com a seguinte definição:
“Fazer jornalismo é desconfiar, sempre, sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem – seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro da música – pergunte sempre a si mesmo, intimamente: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?”
À parte a pequena derrapagem na tradução – seguramente, “bastardos” não seria uma palavra apropriada nesse contexto –, a definição é precisa. E, se assim é – ou deveria ser –, a cobertura da ocupação militar no Complexo do Alemão, sobretudo a cobertura televisiva, é tudo menos jornalismo. Seja porque desconhece a memória, seja porque adere desavergonhadamente à versão oficial.
Como apontou Alberto Dines em artigo neste Observatório da Imprensa (ver “Mídia teve medo de falar em intervenção“), o que houve no mais recente episódio no Alemão foi uma intervenção branca do governo federal, com a participação das Forças Armadas. Antes mesmo da invasão do morro, o Exército estava nas ruas, em resposta ao clima de terror espalhado pelos incêndios a carros em variados pontos da cidade. Não custava lembrar da Operação Rio, que em 1994 também resultou de uma intervenção branca – não fosse o Rio governado por Brizola, recém-licenciado para concorrer à presidência da República – e provocou as previsíveis cenas espetaculares de tanques circulando pelo asfalto, em direção às principais favelas da cidade, eternos “lugares do mal”, apontando seus canhões para as comunidades, soldados revistando moradores e avançando com seus uniformes camuflados e seus fuzis morro acima, ou patrulhando as ruas da Zona Sul.
Alemão, três anos antes
A lembrança seria importante, no mínimo, para negar o caráter inédito da ocupação de agora e, no máximo, para questionar o sucesso de intervenções militares em conflitos sociais de enorme gravidade como os que ocorrem no cotidiano das favelas. Na época, prometia-se a “asfixia” do tráfico. Não é preciso comentar o resultado.
Mais recentemente, entre maio e julho de 2007, uma aparatosa operação reuniu 1.350 homens das polícias militar e civil e soldados da Força Nacional de Segurança para nova asfixia, desta vez restrita ao Complexo do Alemão. O pretexto foi o assassinato de dois soldados do Batalhão de Rocha Miranda, mas é claro que se tratava de “limpar” pontos explosivos da cidade para os Jogos Pan-Americanos daquele ano. Na ocasião, a operação foi apresentada como “um ataque inovador”, um “marco no combate ao crime no Brasil” (revista Época, 28/6/2007), “um marco na luta contra a criminalidade”, apesar de sangrenta e de “todos os senões e suspeitas que deixou” (O Globo, editorial, 30/7/2007). O personagem-símbolo foi um policial que tem o hábito de fumar charuto após a missão cumprida: o inspetor Leonardo da Silva Torres, conhecido como “Trovão”, com cursos na Swat americana e no Centro de Inteligência da Marinha (antigo Cenimar, de trágica lembrança dos tempos da ditadura), cujo sonho – segundo declarou aos jornais – era atuar na Faixa de Gaza ou no Iraque.
Costuma-se falar em 19 mortos durante aquela ocupação. Não é verdade: este seria o número produzido no dia mais sangrento, 27 de junho. Pela sua magnitude, acabou associado ao total de mortes, que, entretanto, foram bem mais expressivas: segundo o relatório da Comissão de Direitos Humanos da OAB, teriam sido 44 mortos e 84 feridos, muitos deles sem armas nem antecedentes criminais.
Então, como hoje, as forças policiais-militares cantavam vitória sobre o tráfico. Se fosse verdade, não teria sido necessário retornar agora.
Inexplicável reviravolta
Em fins de 2009, o governo estadual inaugurava uma nova estratégia de ação policial: as Unidades de Polícia Pacificadora, começando no Dona Marta, uma pequena favela em Botafogo que em várias ocasiões frequentou os jornais com notícias sobre guerra entre traficantes. Ali, como em quase todas as demais comunidades eleitas para receber esse aparato, a polícia entrou sem disparar um tiro.
Este detalhe surpreendente foi ressaltado – melhor diria, exaltado – no espaço noticioso de jornais que, três anos antes, afirmavam não haver alternativa para o combate ao crime a não ser o enfrentamento: “Há bandidos […] que têm de ser tratados pela mão pesada do Estado. Não há assistencialismo e ação social que os recuperem” (O Globo, 26/10/2007).
O que teria provocado a mudança de discurso é algo que apenas os editores poderiam explicar. Sobretudo porque o governo é o mesmo e o secretário de Segurança, também. Se há até dois anos antes não havia alternativas, como é que de repente se descobriu uma via tão eficaz, a ponto de o megaempresário Eike Batista – este que, aos poucos, vai abocanhando os pedaços mais lucrativos da cidade – declarar que, se soubesse que era tão fácil “acabar” com a violência, já teria investido nisso há mais tempo?
Uma socióloga sempre consultada nessa matéria argumentou que “os traficantes varejistas entenderam que há um projeto de política pública de segurança e não adianta mais resistir”. Simples assim.
A causa da “vitória definitiva”
De repente, começam os atentados: um carro incendiado aqui, outro ali, junto com arrastões (ou assaltos, assim relatados pela imprensa) em determinadas ruas de áreas nobres da cidade. Então, em fins de novembro, detona-se a operação no Alemão, mais uma vez apontado como o local de concentração dos responsáveis pela desordem. Uma operação espetacular, com blindados da polícia e da Marinha, destinada a acabar de vez – mais uma vez – com o tráfico na região.
A série de incêndios a carros e vans seria uma reação do tráfico ao sucesso das UPPs, diz o governo. Entretanto, os jornais não indagam: a quem interessa esses atentados? Traficantes tão bem armados, esses que em dezembro de 2006 metralharam cabines policiais, delegacias e atacaram ônibus interestaduais, matando pelo menos 18 pessoas, fariam agora pequenas ações na base de coquetéis molotov? Sabendo que atrairiam a atenção e o ódio da polícia? Por quê?
Às vésperas da invasão americana ao Iraque, numa reunião na ONU, o secretário de Estado Colin Powell tentou convencer os presentes da existência de armas de destruição em massa produzidas naquele país, apenas mostrando, ampliadas num telão, imagens dos galpões fechados em que, com absoluta certeza – simplesmente porque ele afirmava –, as tais armas eram fabricadas. As contestações feitas à época, os movimentos de repúdio à guerra, os esforços diplomáticos, nada foi capaz de deter a ofensiva. Hoje se sabe, como alguns sempre souberam, que o Iraque não tinha as tais armas. Mas alguns dos principais jornais americanos, notadamente o New York Times, amparou a versão oficial, empenhado que estava, como tantos outros, no esforço patriótico de resposta contundente aos atentados de 11 de setembro de 2001.
Da mesma forma, nesta operação no Alemão – como em outras vezes –, a nossa imprensa assumiu a causa da “retomada de território” e da “vitória definitiva”.
“Vencemos. Devolvemos a paz para a comunidade”, declarou o comandante do Bope. Ao mesmo tempo, outra autoridade policial afirma que a operação continuará durante o tempo que for necessário. Que vitória, então?
A “casa de luxo” do chefe do tráfico
O recurso à memória é importante como antídoto ao triunfalismo que costuma prevalecer nesse momento. “É um dia histórico para o Rio de Janeiro”, diz o apresentador da TV. “Os policiais estão vibrando”, afirma o comandante do Bope antes do início da invasão. Um correspondente estrangeiro quis saber, com seu portunhol claudicante, se aquilo era um guerra ou um operação policial. O comandante não teve dúvidas: “Em alguns locais, o combate a traficantes com armamento de guerra se assemelha a uma guerra de baixa intensidade. Mas não estou preocupado com rótulos, isso é coisa para quem vai estudar depois. Estou preocupado com a ação”.
Nada surpreende: homens de ação são adestrados para agir, pensar é coisa de intelectuais… ou de quem define as estratégias de ação. E, para isso, definir se vivemos ou não uma guerra é fundamental.
Mas questionar, quem há de? Pelo contrário, os jornalistas se congratulam com os policiais, desejam-lhes sorte, dão-lhes os parabéns. Excitam-se com a exibição de traficantes e suspeitos presos, demonstram indignação ao mostrar a “casa de luxo” onde vivia um dos chefes do tráfico no local, com banheira redonda de hidromassagem e uma cama-box (?!) na suíte, mais um pequeno terraço com piscina, piso imitando o desenho ondulado das pedras portuguesas de Copacabana (disponível em qualquer loja de material de construção) e ampla vista da… favela.
A diferença da “guerra” na área nobre
Um dos símbolos de “retomada do território”, cena destacada na cobertura ao vivo dos telejornais, foi o hasteamento da bandeira brasileira ao lado da bandeira do estado do Rio de Janeiro no alto do teleférico. Na Globonews, a apresentadora comemorou: a região “voltou a ser território do povo brasileiro”.
Esqueceu de lembrar que o hasteamento de bandeiras também foi feito na Operação Rio, imitando o gesto dos pracinhas na tomada de Monte Castelo, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Esqueceu, principalmente, de lembrar que o teleférico, prestes a ser inaugurado, é obra do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, iniciado em fins de 2008 no Alemão. Seria o PAC obra de traficantes? Como, então, falar em retomada de território, se nesse mesmo território se realizava um projeto do governo federal?
“O Alemão era o coração do mal”, diz o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, quem sabe a sugerir uma ilação com o “coração das trevas” do clássico da literatura de Joseph Conrad. Talvez não, não importa. Importa é o verbo no passado e a perspectiva de futuro: afinal, se traficantes podem ter fugido, ainda por cima armados, a Rocinha que se cuide. “Se chegamos no Alemão, vamos chegar na Rocinha e no Vidigal.”
Chegar à Rocinha pode ser um problema. Há exatamente três anos, quando a polícia desencadeou uma operação sangrenta na favela da Coreia, em Senador Camará (Zona Oeste do Rio), deixando 12 mortos, o mesmo secretário comentou que “um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coreia é outra”. Algum jornalista lembrará disto? Ou estarão todos imbuídos do espírito patriótico que substitui perguntas incômodas ou “inadequadas” pela pura e simples propaganda?
Sylvia Moretzsohn: Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico(Editora Revan, 2007).







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