Onças-pintadas ajudam a preservar Caatinga (Valor Econômico)

JC e-mail 4366, de 18 de Outubro de 2011.

Mapear quantas são, como vivem e por onde andam as onças-pintadas da Caatinga permitirá conhecer o efeito da transposição do São Francisco sobre a região.

É bem ali, onde a onça bebe água, que se arma o laço. Em setembro, no auge da seca na Caatinga, foram dez armadilhas na região de Sento Sé, município do norte baiano, às margens do lago de Sobradinho. Cinco pesquisadores, 30 dias, água racionada, nada de luz elétrica, computador ou telefone, e R$ 22 mil de investimento. No fim da expedição, nenhuma onça-pintada ganhou colar com GPS. Mas a frustração dos cientistas dá logo lugar ao planejamento da nova campanha. É nesse compasso que vão perseguindo a criação de uma espécie de “índice-onça de sustentabilidade”, que está relacionado com uma das principais, e mais polêmicas, obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a transposição do rio São Francisco.

Tanto interesse nesse gato hiperbólico – é o maior felino das Américas, o terceiro maior do mundo depois do tigre e do leão, e dono da mordida mais potente entre seus parentes – transcende a biologia. Onça-pintada só vive onde tem água e é predador importante, que regula ecossistemas. Não deixa, por exemplo, a população de capivaras, veados ou ratos explodir. No topo da cadeia alimentar, é uma espécie guarda-chuva. “Protegendo a onça-pintada, está se protegendo todas as outras”, diz o veterinário Ronaldo Gonçalves Morato, 44 anos, um dos poucos especialistas em onças do país das onças.

Na base do estudo está a proposta de se criar, no coração do Semiárido, um corredor de fauna. A tentativa é construir uma área de proteção que leve em conta o potencial econômico da região. Um dos elementos é o Parque Nacional Boqueirão da Onça, em estudo há dez anos. Teria 800 mil hectares e seria a maior unidade de conservação fora da Amazônia. Mas enquanto o governo não resolve se cria ou não o parque, o valor e a grilagem das terras aumentam. Há também o interesse do Ministério das Minas e Energia, que vê na região um bom potencial eólico.

O governo busca consenso para garantir alguma proteção ao terceiro e mais castigado bioma brasileiro. Menos de 2% da Caatinga é área protegida. Mais de 45% da vegetação foi desmatada e a região sofre desertificação. “Temos a visão de que a Caatinga é pobre e pronto. Mas existem paisagens fantásticas e recursos naturais mal aproveitados”, diz Morato. “Explorar a Caatinga com um bom programa turístico, seria bem interessante.”

A diversidade biológica é rica, mesmo com escassez de água. Há centenas de espécies de pássaros, répteis e anfíbios. As paisagens são belas e variadas, há pinturas rupestres e frutas que dão doces exóticos. Na seca, a vegetação fica sem folhas, para gastar menos energia. “O pessoal chama esse cenário de mata branca. É só chover que, três dias depois, está tudo verde. É maravilhoso”, encanta-se Morato.

O parque, que não sai do papel, tomaria 45% do município de Sento Sé, região bem pouco povoada de gente e talvez bem povoada por onças. A pintada, que se espalhava pela Caatinga nos tempos de Lampião, hoje está restrita a 25% do bioma. Os pesquisadores acreditam que existam cinco grandes populações de onças-pintadas no Semiárido, um ou dois animais a cada 100 km2 – em Cáceres, no Pantanal, a densidade é bem mais alta, média de sete onças a cada 100 km2. As estimativas falam em 300 a 400 animais na Caatinga.

Mapear, com alguma precisão, quantas são, como vivem e por onde andam as onças-pintadas do sertão nordestino é ter um indicador ambiental para saber, depois, o quanto a transposição do São Francisco afetou a região. Se as onças-pintadas continuarem por lá depois da obra, é sinal positivo. O projeto faz parte do Programa de Revitalização da Bacia do São Francisco, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com o da Integração Regional. Também conseguiu recursos na BM&F Bovespa. Onças, principalmente as pintadas, são animais glamourosos.

A majestade da espécie-símbolo da fauna brasileira, impressa nas cédulas de R$ 50, é inversamente proporcional ao que se conhece sobre o animal. “Nem sabemos o quanto uma onça-pintada vive”, diz Morato. “A cada pergunta que respondemos, surge uma nova.” Ele começou a carreira fazendo estágio no zoológico de Sorocaba, em São Paulo, o suficiente para perceber que queria mesmo era estudar animais em vida livre.

Morato trabalha com onças há 20 anos, há seis é o coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), instituto que estuda uma lista de 26 espécies – de lobos-guará a ariranhas. Só de felinos são oito espécies, entre onças pintadas e pardas, jaguatiricas e gatos-do-mato. Dá para ver da estrada o painel gigante de uma onça-pintada nos vidros da sede do Cenap, em Atibaia. O centro foi criado há 17 anos e é um braço do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Os investimentos no projeto Ecologia e Conservação da Onça-Pintada no Médio São Francisco, ou simplesmente Onças da Caatinga, é de R$ 800 mil em quatro anos. A primeira campanha de captura para colocação do colar foi em 2010, e também não teve êxito. Não é fácil pegar um bicho desses. Os laços de aço são montados perto das áreas que elas costumam frequentar. “A gente identifica os pontos onde as onças passam, e deixamos os laços. Mas às vezes elas andam ao lado do laço e a gente só vê os rastros no dia seguinte. É difícil.”

Difícil é pouco. Para um mês de acampamento em setembro, levaram 300 litros de água por pessoa. Não há estradas, carro não chega, as pedras cortam os pneus. Equipamentos e água são levados a pé. Banho, só de caneca.

Quando dá sorte e a onça cai no laço, os pesquisadores lançam o dardo anestésico e começam a medir o animal: peso, tamanho, tamanho da pata, análise dos dentes. É a hora de colocar o colar com telemetria que pesa 800 gramas e tem um GPS instalado em uma caixinha, na parte da frente. Cada animal tem frequência própria. Depois, programam de quanto em quanto tempo o pesquisador receberá as informações por onde anda a onça – de duas em duas horas, por exemplo. Uma vez por semana, os dados são enviados ao e-mail do cientista pela empresa que administra o satélite. O colar pode ser programado para cair do pescoço depois de determinado período, e ser recolhido. “Fica, por exemplo, 400 dias na onça, e aí cai”, explica Morato.

“A tecnologia favoreceu muito o nosso trabalho”, diz ele. O avanço tecnológico tem seu preço, nada disso é barato. O Cenap usa colares da suíça Televilt, cada um a US$ 3.800. O contrato anual do satélite são outros US$ 1.200 por colar. Hoje existem 40 equipamentos do gênero em onças-pintadas no Brasil. Ao recolher várias informações sobre o comportamento do animal – desde como e para onde se desloca, quais ambientes procura, como se alimenta – os cientistas desenham o tamanho da “área de vida” da onça. “Vou vislumbrando o ambiente que posso sugerir para preservação”, explica Morato.

O “Onças na Caatinga” levantou recursos na BVS&A, portal da Bovespa que lista projetos sociais e ambientais. “Quem tiver interesse pode entrar lá, escolher o que acha interessante, e doar”, diz Sonia Favaretto, diretora de sustentabilidade da Bolsa. A iniciativa resultou em R$ 150 mil em dois anos. O Cenap trabalhou em parceria com a ONG Pró-Carnívoros, que ajuda a viabilizar os projetos de pesquisa.

O papel de regulador ecológico da onça-pintada não é o único. “Com a perda de espécies, perdem-se ambientes, ficamos mais expostos a catástrofes”, aponta Morato. A redução de predadores representa aumento das presas e mais pressão sobre a vegetação. “Isso, a longo prazo, diminui o estoque de carbono”, lembra. Morato defende que é preciso refletir sobre o valor econômico das onças-pintadas e o apelo turístico que representam.

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