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I am, therefore I’m right (Christian Science Monitor)

By Jim Sollisch / July 29, 2011

If you’ve ever been on a jury, you might have noticed that a funny thing happens the minute you get behind closed doors. Everybody starts talking about themselves. They say what they would have done if they had been the plaintiff or the defendant. They bring up anecdote after anecdote. It can take hours to get back to the points of law that the judge has instructed you to consider.

Being on a jury (I recently served on my fourth) reminds me why I can’t stomach talk radio. We Americans seem to have lost the ability to talk about anything but our own experiences. We can’t seem to generalize without stereotyping or to consider evidence that goes against our own experience.

I heard a doctor on a radio show the other day talking about a study that found that exercise reduces the incidence of Alzheimer’s. And caller after caller couldn’t wait to make essentially the opposite point: “Well, my grandmother never exercised and she lived to 95, sharp as a tack.” We are in an age summed up by the aphorism: “I experience, therefore I’m right.”

This isn’t a new phenomenon, except by degree. Historically, the hallmarks of an uneducated person were the lack of ability to think critically, to use deductive reasoning, to distinguish the personal from the universal. Now that seems an apt description of many Americans. The culture of “I” is everywhere you look, from the iPod/iPhone/iPad to the fact that memoir is the fastest growing literary genre.

How’d we get here? The same way we seem to get everywhere today: the Internet. The Internet has allowed us to segregate ourselves based on our interests. All cat lovers over here. All people who believe President Obama wasn’t born in the United States over there. For many of us, what we believe has become the most important organizing element in our lives. Once we all had common media experiences: Walter Cronkite, Ed Sullivan, a large daily newspaper. Now each of us can create a personal media network – call it the iNetwork – fed by the RSS feeds of our choosing.

But the Internet doesn’t just cordon us off in our own little pods. It also makes us dumber, as Nicholas Carr points out in his excellent book, “The Shallows: What the Internet is Doing to our Brains.” He argues that the way we consume media changes our brains, not just our behaviors. The Internet rewards shallow thinking: One search leads to thousands of results that skim over the surface of a subject.

Of course, we could dive deeply into any one of the listings, but we don’t. Studies show that people skim on line, they don’t read. The experience has been designed to reward speed and variety, not depth. And there is tangible evidence, based on studies of brain scans, that the medium is changing our physical brains, strengthening the synapses and areas used for referential thinking while weakening the areas used for critical thinking.

And when we diminish our ability to think critically, we, in essence, become less educated. Less capable of reflection and meaningful conversation. Our experience, reinforced by a web of other gut instincts and experiences that match our own, becomes evidence. Case in point: the polarization of our politics. Exhibit A: the debt ceiling impasse.

Ironically, the same medium that helped mobilize people in the Arab world this spring is helping create a more rigid, dysfunctional democracy here: one that’s increasingly polarized, where each side is isolated and capable only of sound bites that skim the surface, a culture where deep reasoning and critical thinking aren’t rewarded.

The challenge for most of us isn’t to go backwards: We can’t disconnect from the Internet. Nor would we want to. But we can work harder to make “search” the metaphor it once was: to discover, not just to skim. The Internet lets us find facts in an instant. But it doesn’t stop us from finding insight, if we’re willing to really search.

Jim Sollisch is creative director at Marcus Thomas Advertising.

Bob Stein vem ao Brasil para congresso em que analisa uma mudança nas narrativas a partir da revolução digital (O Globo, JC)

JC e-mail 4307, de 25 de Julho de 2011.

Formas completamente novas de narrativa surgirão a partir da revolução tecnológica. A previsão é de Bob Stein, editor de 65 anos que desde os anos 1980, bem antes do advento da internet, dedica-se à produção de conteúdo eletrônico.

Foi pioneiro ao lançar uma enciclopédia para computadores pessoais e como criador de CD-ROMs interativos e multimídias. Fundador do Institute for the Future of the Book, com pesquisadores sediados em Nova York e Londres, Stein promete abalar as convicções da plateia de editores do 2º Congresso Internacional do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro, que acontece amanhã e quarta-feira em São Paulo.

O futuro do livro, prevê o especialista, é se tornar uma praça pública virtual, um mundo no qual leitores se reúnem e criam suas próprias histórias, uma forma de contar histórias bem parecida com a dos games. A leitura como uma experiência solitária e silenciosa está com os dias contados, assim como o livro impresso, cujo futuro é sobreviver apenas como objeto de arte para consumo dos mais afortunados.

Como surgiu e qual foi a função do Institute for the Future of the Book?
BOB STEIN: Há sete anos, fui convidado pela MacArthur Foundation a voltar a ser editor. Mas naquela época, com a internet, eu acreditava que já não havia mais lugar para um editor, não entendia qual seria sua função. Relutei em aceitar o convite. Tive então a ideia de propor à fundação que financiasse uma pesquisa sobre o papel do editor nesta nova era. Eles foram extremamente generosos, doaram US$ 1 milhão para a criação do instituto. O instituto foi criado em 2004. A princípio, era um projeto de cinco anos de duração cujo objetivo era entender como as narrativas, o discurso, mudam ao deixar as páginas impressas rumo às mídias eletrônicas e à internet. Acredito que conseguimos entender como o mercado editorial vai evoluir. O livro será uma praça, um ponto de encontro e reunião de leitores. Não é algo que acontecerá da noite para o dia, mas chegaremos lá. Fundei recentemente uma nova empresa, a Social Books, e estamos criando plataformas para publicações eletrônicas e sociais.

A geração digital será capaz de ler um livro impresso como fazemos, sozinhos, concentrados, em silêncio por horas a fio ou ela não terá mais as habilidades cognitivas para tanto?
Ler da maneira que você descreveu é algo recente, não é uma prática tão tradicional e arraigada assim. No século XIX, o normal era as pessoas lerem em voz alta, em grupo. Uma biblioteca pessoal com estantes cheias de livros era raríssimo, privilégio dos ricos até depois da Segunda Guerra Mundial. Os comportamentos que envolvem a leitura solitária são recentes. Temos medo de perder algo se estes hábitos mudarem. Mas a Humanidade evoluiu durante muito tempo sem isso. As novas gerações encontrarão algo novo que será tão valioso quanto este tipo de leitura foi para nós.

Como a revolução digital está transformando o mercado editorial?
O mercado editorial sabia há muito tempo da iminência dos livros digitais. Mas, em vez de investir, permitiu que Amazon e Apple pilotassem o navio. Foi um erro grave. As editoras perderam a dianteira e agora têm de correr atrás do prejuízo. O problema é que estão acostumadas e se agarram a um modelo de negócios no qual vendem objetos impressos por uma quantidade justa de dinheiro. Agora todas estão convertendo e lançando seus livros em formatos eletrônicos e acreditam que assim será possível manter a mesma margem de lucro. Isto nunca vai acontecer. A verdadeira energia de transformação vem de fora do mercado editorial, principalmente do mundo dos games. As editoras terão de seguir este exemplo para aprender como integrar diferentes formas de mídia – não apenas adicionar fotos, vídeos e áudios aos textos -, e como lidar com comunidades de leitores. A indústria dos games já sabe muito bem como fazer isso. Um exemplo é “World of warcraft”, espécie de role-playing game on-line, com mais de 12 milhões de assinaturas por mês. É um conceito a ser estudado. Talvez o futuro da literatura esteja em autores que criam um mundo a ser habitado pelos leitores, que dentro deste universo escrevem suas próprias histórias. Não me surpreenderá se uma empresa de game comprar uma grande editora em algum momento dos próximos dez anos.

O mercado editorial vai passar pela mesma crise da indústria fonográfica?
Sim, é bem parecido. As editoras acreditam que o que aconteceu com as gravadoras e a indústria do cinema não acontecerá com elas. Infelizmente não é verdade. No Pirate Bay é possível encontrar milhares de livros, muito mais do que seremos capazes de ler a vida inteira.

Houve um momento em que o futuro parecia estar nos enhanced books (o primeiro foi uma adaptação interativa, com áudio e vídeo de “Alice no País das Maravilhas, lançada em 2010 como um aplicativo para iPad). Este formato já está ultrapassado?
Sim. Embora muito do meu trabalho seja aprimorar livros, filmes ou músicas adicionando conteúdo para que eles sejam mais bem compreendidos e apreciados, no fim do dia isto jamais será tão importante quanto criar uma maneira completamente nova de se consumir conteúdo. A revolução tecnológica propicia a criação de novas formas de narrativas. Algo como a invenção de um novo gênero literário, adequado aos novos tempos, a exemplo do que aconteceu quando Miguel de Cervantes inventou, com “Dom Quixote” o romance moderno.

Livros impressos vão sobreviver?
Sim. Mas irão se tornar uma espécie de objeto de arte. Só quem é muito rico será capaz de comprá-los. Algo como os livros para mesas de centro que compramos hoje em dia porque são bonitos, decorativos. No futuro, o livro como uma forma de transmitir ideias será eletrônico.

Paul Virilio: “Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real” (L.M. DIPLOMATIQUE Brasil)

03 de Junho de 2011

ENTREVISTA

“Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real”

por Guilherme Soares dos Santos

Uma das maiores personalidades da França atualmente, o filósofo e urbanista Paul Virilio ocupa um lugar de destaque na cena intelectual. Escritor prolífico, no seu currículo sucedem-se livros, exposições e artigos tais como Velocidade e política, Guerra e cinema, O espaço crítico, Máquina de visão e, recentemente, O grande acelerador [sem tradução ainda para o português] em que ele desenvolve uma cultura crítica, alguns dizem “catastrofista”, sobre as técnicas modernas, bem como seus efeitos de aceleração sobre nossos comportamentos e nossa percepção do mundo, no momento em que a economia mundial depende cada vez mais do investimento na tecnologia.

Paul Virilio recebe o filósofo brasileiro Guilherme Soares dos Santos em Paris, e fala com exclusividade ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre suas teses, que tratam da corrida, da lógica da velocidade, ele que é visto por muitos como um reacionário ou um visionário, fala ytambém de sua biografia.

VIRILIO: Há uma coisa fundamental que explicará, talvez, o aspecto “catastrofista” do qual me acusam. Eu sou uma criança da guerra, um war baby, e é um elemento que não foi suficientemente compreendido, porque tentou-se fazer esquecer a guerra. Há dois momentos importantes na Segunda Guerra Mundial (eu a vivi, eu tinha 10 anos, eu nasci em 1932). Houve primeiramente a Guerra Relâmpago, a Blitzkrieg. Censurou-se esse aspecto, e alguns historiadores negam a blitz, isto é, o fato de que a velocidade esteve na base da grande ruína, primeiro da Polônia, e em seguida da França. E então essa Blitzkrieg se esgotou nos países do leste e na União Soviética, porque lá havia a profundidade de campo que permitia amortecer. Eu sou, portanto, uma criança da Blitzkrieg, eu diria mesmo que eu sou talvez o único, o único que desde então jamais cessou de ser marcado pelo poder da velocidade. Não é somente o poder dos transportes, os carros de assalto contra a cavalaria polonesa que desembainhava o sabre contra os panzers… Há também a guerra das ondas da qual eu sou o filho: “Pom, pom, pom, pom”… a rádio de Londres que eu escutava no escuro com o meu pai. Há dois momentos capitais: a Blitzkrieg e a deportação que vai, aliás, junto com o mesmo movimento de invasão. Se a guerra de 1914 foi uma guerra de posição em que os exércitos se exterminaram no mesmo lugar durante anos, com a deportação, conduziu-se à Shoah no curso da Segunda Guerra Mundial.

DIPLOMATIQUE: O senhor é muito sensibilizado pelas tragédias que ocorrem em nossa época. O senhor quis inclusive que fosse criado um “Museu dos Acidentes”, após a exposição feita sobre esse tema na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea. O senhor já avançou essa ideia, mas por enquanto sem sucesso junto às instituições, e agora o senhor propõe a criação de uma “Universidade do Desastre”. De que se trata exatamente? Não se poderia pensar que a guerra terá sido, para o senhor, uma universidade do desastre?

VIRILIO: Com efeito. Quando eu falo de “Universidade do Desastre” não é de modo algum o desastre da universidade, é o contrário: eu quero dizer que “o pior provoca o melhor”. A universidade europeia apareceu em Bolonha e alhures aproximadamente em 1100, 1200, após o “grande medo” do ano 1000, em oposição à grande barbárie. E ela foi, essa universidade, um coletivo judeo-cristão, greco-latino e árabe. Alguns negam o grande medo do primeiro milênio, como alguns negam, hoje, a blitz. Há aí alguma coisa que, no meu entendimento, faz parte do segredo da velocidade. Se “o tempo é dinheiro”, a velocidade é poder. Eu lembro que para os banqueiros, para que haja mais-valia, é preciso que haja a velocidade de troca. A questão da velocidade é uma questão mascarada; não mascarada por um complô, mas mascarada por sua simplicidade. Riqueza e velocidade estão vinculadas. É conhecido o vínculo da riqueza e do poder como da lei do mais forte. Mas a lei do mais forte é a lei do mais rápido. A questão da “dromologia” é a questão da velocidade que, hoje, mudou de natureza. Na origem, a velocidade é o tesouro dos faraós; é a tesaurização, quer dizer, a acumulação e, então, muito rapidamente, tornar-se-á especulação. E aí o movimento de acumulação vai passar na aceleração. Os dois estão vinculados. Acumulação do tesouro que tornar-se-á tesouro público, em seguida especulação, e hoje financeirização com os sistemas de cotação automática em alta frequência que fazem explodir a bolsa de valores. Veja, estamos diante de algo extraordinário, é que nós não sabemos o que é a velocidade em nossos dias. As pessoas me dizem que é preciso uma economia política da velocidade, e, de fato, é preciso uma, mas é preciso primeiro uma dromologia, ou seja, revelar na vida política, no sentido amplo do poder, a natureza da velocidade em nosso tempo. Essa velocidade mudou de natureza. Essencialmente ela foi a revolução dos transportes. Até o século XX, até a blitz, vimos que a revolução das riquezas é uma revolução dos transportes: o cavalo, o navio, o trem, o avião, os sinais mecânicos.

DIPLOMATIQUE: No final do século XX, passa-se não mais à revolução dos transportes, mas à das transmissões instantâneas.

VIRILIO: Durante a guerra, ainda garotinho, eu participei da Resistência com os meus pais graças à guerra das ondas que já era uma guerra eletromagnética. Uma guerra da velocidade das ondas. Marconi e sua invenção era, também, uma revolução da velocidade. Começava-se a pôr em obra a velocidade das ondas eletromagnéticas, isto é, das ondas da velocidade da luz. E, claro, com a televisão, os computadores e a Internet, nós entramos numa fase que hoje atinge o seu limite; a velocidade da luz em que o tempo humano, o tempo da negociação, da especulação, em que a inteligência do homem, do especulador, dos cotadores é ultrapassada pelos automatismos. Aliás, quando a bolsa quebrou em 6 de maio do ano passado em Wall Street, em alguns milésimos de segundos houve 23.000 operações, o sistema entrou em pane e bilhões foram perdidos em dez minutos.

DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?

VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo…

DIPLOMATIQUE: O que o senhor combate é a aceleração do real que põe em questão a percepção das aparências sensíveis e daquilo que a fenomenologia chama de “ser-no-mundo”?

VIRILLIO: Sim, o que a revolução dos transportes era para a aceleração da história e os movimentos migratórios, a revolução das transmissões instantâneas o é para a aceleração da realidade percebida. É um acontecimento alucinante, estupeficante. A velocidade é uma ebriedade. Uma embriaguez que pode ser “scópica” ou sonora – daí, aliás, a passagem do muro do som. Com as telecomunicações, utiliza-se a força de impacto da aceleração para fazer passar coisas que não estão na realidade pública, ou seja, no espaço real público, mas na realidade privada, ou antes transmitidas em tempo real por sociedades privadas. A tal ponto que a questão da imaginação, e aquela, filosófica, do “ser-no-mundo”, do aqui e do agora, tornam-se centrais. Nós estamos, assim, em plena crise da ciência, do que eu chamo de “acidente dos conhecimentos”, “acidente das substâncias” e “acidente das distâncias”. Essa questão da velocidade, desde Einstein, está no cerne da relatividade outrora especial, e hoje generalizada, que está em vias de se chocar contra um muro, o que eu chamo de “muro do tempo”. O que se passou em Wall Street me interessa muito porque as pessoas de Wall Street se chocaram contra o muro do tempo e o muro do dinheiro. É um fenômeno político maior no momento em que os algoritmos e os programas de computador dominam a vida econômica, e eu pretendo que a “relatividade especial” deveria ser um problema encarado pelo Estado. Se o século XX foi o século da conquista do ar e do espaço, eu penso que o século XXI deveria se questionar não somente sobre as nanotecnologias, mas, também, sobre as nanocronologias, isto é, sobre o tempo infinitesimal, sobre a conquista do “infinitamente pequeno do tempo”.

DIPLOMATIQUE: Parece-me que, nos textos do senhor, o estilo quer sempre ecoar o assunto estudado, e quando senhor pensa a velocidade, é a própria escrita que deve ir rápido.

VIRILIO: Absolutamente. E nesse sentido, como o mostra Proust, todo verdadeiro escritor escreve “numa espécie de língua estrangeira”. Minha língua estrangeira é a velocidade, é a aceleração do real. No que respeita à velocidade da minha escrita, trata-se da herança dos futuristas, e eu sinto a dromologia como uma musicologia. O problema não é nem de acelerar nem de desacelerar, mas de seguir uma linha melódica.

DIPLOMATIQUE: Há quem diga que o senhor pratica uma “escrita rapsódica”.

VIRILIO: Trata-se do ritmo. As sociedades antigas eram sociedades ritmológicas. Havia o calendário, a liturgia, as festas que estruturavam a linha melódica de tal ou qual sociedade. Os ritmos são muito importantes, você sabe, pois trata-se do sopro. Quando Bergson e Einstein se encontraram, eles não se compreenderam a esse respeito. O primeiro falava de “duração”, do vivo; o segundo, do vazio e do veloz. Saiba, no entanto, que será necessário conciliá-los, caso contrário o futuro do século XXI será um caos global pior que o nazismo ou o comunismo, que não tem nada a ver com a anarquia. Não, um caos global pior que tudo!

DIPLOMATIQUE: É por isso que o pensamento do senhor torna-se mais e mais dramático e religioso nos últimos tempos?

VIRILIO: Eu sou um católico que se converteu já adulto, isso é importante. Meu pai era comunista, e minha mãe, católica. Acontece que eu conheci o abade Pierre e padres operários. Mas eu permaneço sozinho sobre a minha senda.

DIPLOMATIQUE: Alguns criticam o senhor por descrever situações que seriam exagerações fantasistas, quando o senhor descreve este temor da solidão gerado pelas telecomunicações, notadamente pela Internet ou o celular. Não estaria o senhor realizando, talvez, uma especulação sobre “mundos possíveis”, seguindo uma espécie de método “transcendental” de investigação?

VIRILIO: Eu quero reunir o que foi separado, quero dizer, a filosofia e a física. Trata-se fundamentalmente de uma reinvenção filosófica para fazer frente a esta matematização do mundo, esta rapidez que ultrapassa a consciência. Eu me sinto no limiar de uma filosofia sem igual. Tal como Heráclito ou Parmênides, estamos aqui na origem – daí a Universidade do Desastre. Todo o trabalho desta seria um questionamento sobre o “desastre do êxito”. O que se acaba de descrever é o sucesso da tecnociência. Ora, é imperativo reconciliar e lançar a “filociência”. O que está aí em jogo é a vida ou a morte da humanidade. Se o homem não pode mais falar e se ele transfere o poder de enunciação a aparelhos, encontramo-nos, pois, diante de uma tirania sem igual. Físicos que são meus amigos estão conscientes disso, do que se perfila, um “acidente dos conhecimentos”. Isso nos conduz à árvore da vida que só tem referência na origem do Gênese, ou seja, o mito da vida… E aí eu o digo enquanto cristão e enquanto escritor: o acidente dos conhecimentos é o pecado original.

DIPLOMATIQUE: O que significa em nossa época “ser sábio”, quando nós somos forçados a uma especialização crescente e incessante, assim como à busca de uma “resposta automatizada” nos motores de pesquisa e nos bancos de dados que ultrapassam de longe o que a memória individual pode abarcar em uma vida? Como nós podemos cultivar nossa lucidez nesta maré enlouquecedora de informações?

VIRILIO: No que me toca mais diretamente, eu sou um urbanista, quer dizer que eu trabalho sobre o habitat. E o próprio de um urbanista é trabalhar sobre o habitar, o “ser-aqui”. O “ser-aqui-junto”. É isso o habitat: é o lugar de nossos hábitos. Os dois mantêm um vínculo muito estreito, isto é, a possibilidade de durar; o hábito é o que se reproduz. É o “ser-junto”. Não simplesmente o “ser-junto” do socius, mas o “ser-junto” da natureza no habitat comum com a nossa irmã, a chuva, e o nosso irmão, o sol, como diriam os franciscanos… É isso a arquitetura! É abrigar o vivente.

DIPLOMATIQUE: Perante o excesso contemporâneo de informações, e à velocidade sempre acelerada do desenrolar dos acontecimentos se desdobrando mundialmente nas imagens de nossas telas, não estamos testemunhando uma verdadeira desconstrução da cultura geral?

VIRILIO: Você utilizou na sua pergunta a palavra “desconstrução”. Eu creio que Derrida tinha razão para o fim do século XX. O início do século XX é a destruição pura e simplesmente através da ruína das cidades, através da ruína dos corpos. É a destruição; não se pode dizer que Auschiwtz ou Hiroshima sejam “desconstruções”… São puras destruições. Ora, eu creio – e eu o digo e o escrevo – que o século XXI será a desorientação, quer dizer, a perda de todas as referências – se a humanidade continuar desse jeito, e ela não continuará. Portanto, eu não creio de maneira alguma no fim do mundo. Mas o que eu quero dizer é a desorientação: não sabemos mais onde estamos nem no espaço nem no tempo. E aí, o geômetra que eu sou, o arquiteto que eu sou, sabe o que é a orientação. A arquitetura é primeira; ela é composição; ela é habitat comum entre os seres e as coisas. Pois ser é “ser-no-mundo”, e é o que eu digo: o problema não é de ser, mas de ser-no-mundo, em outras palavras, de ser-no-corpo-territorial. Isso não tem nada a ver com nacionalismo. Simplesmente não se pode ser sem “ser-no-mundo”. Em nossa época, todavia, o essencial se passa no vazio. Se você olhar hoje em dia, o poder não é mais geopolítico, religado ao solo, ele é aeropolítico: as ondas, os aviões e os foguetes traçam o porvir. A história se transferiu da terra ao céu, com toda a dimensão mística de adoração do cosmos, do grande vazio sideral, das ondas que se propagam etc. que isso supõe. As sociedades históricas eram sociedades geopolíticas, ou seja, inscritas nos lugares. O acontecimento, conforme com que eu digo, o acontecimento “tem lugar”; logo existe uma natureza do lugar que tange ao acontecimento. E essa relação com o “ter lugar” foi ocultada. É uma noção tão banal… Significa, portanto, que eu não posso ser sem ter lugar. Não é um problema de identidade – não, situado, orientado, in situ, hic et nunc, aqui e agora.

DIPLOMATIQUE: Uma última pergunta. O senhor pensa que o sistema econômico já está sendo transtornado pela ecologia?

VIRILIO: Doravante a economia e a ecologia devem fundir-se porque o mundo é finito, porque o mundo é demasiado pequeno para o progresso. Nós esgotamos a matéria do mundo, nós poluímos sua substância e nós poluímos suas distâncias. E nós estamos perante à fusão próxima da ecologia e da economia. Vê-se bem as dificuldades com o encontro do Grupo de Informação sobre o Clima em Copenhague. Vê-se bem a dificuldade que há em plena crise econômica, nos Estados Unidos e no mundo, a tomar medidas ecológicas. Portanto, inevitavelmente, o fato de que a Terra é muito pequena para a velocidade, para a velocidade do progresso, exige a fusão dos dois. Daí a importância de uma Universidade do Desastre e a reinvenção de um pensamento, de um intelectual coletivo, como o foi a universidade das origens. É indispensável. Até o momento ela não existe; nós estamos na origem de um novo mundo. E eu gostaria de ser mais jovem para poder viver esse Novo Mundo que vai nascer na dor do confronto. Mas que é indispensável. Nenhum homem, seja qual for a sua cor política, não está à altura desse acontecimento que se assemelha à Renascença italiana… E ao mesmo tempo é tão excitante! É maravilhoso! Como já dizia Karl Krauss: “que grande época”!

Guilherme Soares dos Santos – Filósofo, mestre em filosofia política e ética pela Universidade Paris Sorbonne e, atualmente, é doutorando em filosofia contemporânea pela Universidade Paris 8, onde estuda o pensamento de Gilles Deleuze.

Foto e tradução: Guilherme Soares dos Santos

Palavras chave: Paul Virilio, velocidade, transformação, corrida, cultura, teoria

Aplicativo de iPhone para confissão não substitui padre, diz Vaticano (BBC)

RELIGIÃO

BBC Online – 9 de fevereiro, 2011 – 13:26 (Brasília) 15:26 GMT

Representantes da Igreja aprovaram o novo aplicativo

O Vaticano alertou que um novo aplicativo para o iPhone, que ajuda fiéis a confessarem nunca poderá substituir o diálogo pessoal com um padre.

O programa, chamado Confissão, foi colocado à venda semana passada pela loja virtual da Apple, iTunes, por US$ 1,99 (aproximadamente R$ 3,32).

O aplicativo foi aprovado por representantes da Igreja Católica nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Mas, em entrevista à BBC, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o programa Confissão não serve como substituto para a confissão dos pecados a um sacerdote, como há séculos é feito.

Segundo ele, no passado, era comum que os católicos se preparassem para a confissão escrevendo sobre seus pecados e seus pensamentos, e é natural que na era digital eles substituam a escrita em papel por recursos de informática, como o aplicativo.

O comentário de Lombardi vem em um momento em que a prática da confissão entre os católicos está em queda.

Exame de consciência

O aplicativo guia os usuários no sacramento da confissão e permite que o fiel mantenha um registro de seus pecados.

Ele também facilita que os usuários façam um exame de consciência com base em fatores como idade, sexo e estado civil – mas afirma que não tem como objetivo substituir a confissão inteiramente.

De acordo com o fabricante do programa, a Little iApps, em vez de substituir a confissão inteiramente, o aplicativo procura incentivar os usuários a compreender suas ações e então buscar um padre para obter absolvição.

“Nosso desejo é convidar católicos a se envolverem com sua fé por meio da tecnologia digital”, disse Patrick Leinen, criador do Confissão.

O lançamento foi feito logo após o papa Bento 16 ter exortado católicos a usarem a comunicação digital e mostrarem-se presentes online.

Os criadores do aplicativo disseram ter levado em conta as palavras do papa enquanto preparavam a ferramenta para consumo público.

 

Dr. Google e seus bilhões de pacientes (Ciência Hoje)

Uma análise mais cuidadosa da relação de doentes com a internet leva a crer que médicos e cientistas precisam aprender a lidar com a nova geração de enfermos.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 02/02/2011 | Atualizado em 03/02/2011

Dr. Google e seus bilhões de pacientes
Pintura do século 19 retrata visita de médico a casa do paciente. A profissão está longe, bem longe, de ser questionada. Mas muitas pessoas valem-se, atualmente, da pesquisa na internet para entender melhor algumas doenças. (Wikimedia Commons)

Regina Elizabeth Bisaglia, em mais uma consulta de rotina, indicava ao paciente a melhor maneira de cuidar da pressão. Ao mesmo tempo, observava a expressão introspectiva do homem a sua frente. A cardiologista não entendia ao certo a desconfiança em seu olhar, mas começava a presumir o motivo. Logo, entenderia o porquê.

Depois de uma explicação um pouco mais técnica, o senhor abriu um sorriso e o olhar tornou-se mais afável. A médica acabara de falar o que o paciente queria ouvir e, por isso, passava a ser merecedora de sua confiança.

“Entendi. O senhor andou consultando o doutor Google, certo?”, disse, de modo espirituoso, Bisaglia.

A médica atesta: muitas vezes os pacientes chegam ao consultório com o diagnóstico já pronto e buscam apenas uma confirmação. Ou mais: vão ao médico dispostos a testar e aprovar (ou não) o especialista.

“Não adianta os médicos reclamarem. Os pacientes vão à internet pesquisar e isso é um caminho sem volta. Informação errada existe em todos os meios, mas eu diria que muitas vezes é interessante que a pessoa procure se informar melhor”, diz a cardiologista, com mais de 30 anos de profissão.

“Há momentos em que o paciente não confia no que o médico diz ou se faz de desentendido. Nessas horas, é muito importante que ele perceba que existem mais pessoas falando a mesma coisa e passando pelo mesmo problema e que, portanto, é fundamental se cuidar. Nada melhor do que a conversa na rede para isso”, completa a médica.

Discussão antiga

Não é de hoje que a questão do ‘doutor Google’ e do ‘paciente expert‘ é debatida. Mas se antes a maioria dos argumentos pendia a favor dos médicos e contra a pesquisa dos leigos na área – sob o medo compreensível da automedicação ou dá má informação –, agora o viés da conversa caminha para um olhar mais relativista. Estudos sobre o assunto já propõem, inclusive, que os médicos tenham na sua formação uma espécie de aula especial para lidar com os pacientes internautas.

“Médicos e pesquisadores precisam estar cientes de que a informação está lá fora e que os pacientes estão tentando se educar da melhor forma possível”, diz, em conversa por e-mail, a neurocientista norte-americana Katie Moisse.

A cientista também é repórter da Scientific American e escreveu, na edição de fevereiro da revista, um artigo que fala justamente sobre a tríade médico-paciente-internet. No texto, Moisse conta a história do cirurgião vascular Paulo Zamboni, que no final de 2009 relatou um experimento que prometia ajudar os portadores de esclerose múltipla. A questão: Zamboni estava no início da pesquisa e não tinha, até o momento, feito testes rigorosos o suficiente para colocar sua técnica em prática.

Em outros tempos, diz Moisse, poucas pessoas teriam acesso ao estudo. Não foi, naturalmente, o que aconteceu com o cirurgião, que se viu pressionado por grupos de pacientes e seus familiares para disponibilizar, o quanto antes, o procedimento desenvolvido por ele.

Esse fenômeno também não é recente. O primeiro ‘motim’ de um grupo de doentes para que resultados de pesquisas fossem liberados e aplicados rapidamente é amplamente conhecido na literatura médica: na década de 1980, os infectados pelo vírus da Aids não se conformavam com a ideia de que, enquanto pacientes morriam aos milhares, poucos tinham acesso aos primeiros medicamentos (à altura, ainda em fase de teste).

Um verdadeiro grupo de ativistas, alguns com e outros sem a doença, formou-se e, se a relação entre médico e paciente mudou desde então, muito se deve a esses manifestantes.

Novo fenômeno

Hoje, a internet propicia a formação de grupos sobre não apenas uma, mas várias doenças: salas de discussão, fóruns e páginas sobre as mais diversas patologias. Um dos sites mais conhecidos é o Patients like me (Pacientes como eu, em português), uma rede social com quase 50 mil pessoas que reúne pacientes com os mais diversos problemas. O objetivo, como a maioria dos grupos, é o de trocar informação sobre doenças e, também, encontrar alento e apoio naqueles que partilham o mesmo sofrimento.

“A internet certamente faz do mundo um lugar menor. É uma oportunidade maravilhosa para as pessoas compartilharem ideias. Algumas redes de pacientes usam a internet para coletar dados e, até mesmo, publicá-los em periódicos revisados por pares”, conta Moisse.

Em alguns casos, os portais sobre doenças – sejam elas nada letais como a psoríase ou extremamente perigosas como a hepatite C – podem ajudar o paciente a se inteirar mais sobre a doença que, anteriormente, desconhecia.

“A informação disponível na internet pode trabalhar a favor da saúde, como o caso de uma pessoa que descobre que a sua timidez excessiva pode ser na verdade um quadro de transtorno de ansiedade, um transtorno psiquiátrico que tem tratamentos de eficácia comprovada”, diz o psiquiatra Rafael Freire.

É a mesma linha defendida pelo biólogo e neurocientista Daniel Cadilhe, responsável pela mediação entre o leitor-paciente e o portal do Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias.

“No Orkut há uma comunidade com quase 26 mil membros sobre o assunto [células-tronco]. Chegam perguntas diariamente sobre possibilidades de tratamentos utilizando o que estudamos.

Tentamos responder da forma mais clara, realista e responsável possível, sempre passando a informação verdadeira ou indicando quem poderá ajudar a tirar a dúvida”, explica Cadilhe, absolutamente ciente do reboliço que causam as palavras ‘células-tronco embrionárias’.

A grande maioria dos especialistas, como era de se esperar, dá o mesmo conselho para o paciente na hora de pesquisar e se juntar a grupos na internet: seja responsável, busque as melhores referências e procure saber quem está dando a informação. E ainda: lembre-se de que nem sempre o que se deseja ler/ouvir é o diagnóstico correto.

Como diz, com certo humor, a cardiologista Regina Elizabeth Bisaglia, a primeira busca na internet pode ser a mais simplória: “A pesquisa mais importante na rede é o nome de um bom médico para se consultar”.

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line