Arquivo da categoria: violência de torcidas

>Embaixadas do torcedor: uma saída para banir a violência do futebol

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Vilma Homero
© FAPERJ – 08/06/2006

Policiamento menos agressivo, estádios mais seguros e projetos sociais junto às torcidas. Segundo o pesquisador Martin Christoph Curi Spörl, do Instituto Virtual do Esporte (IVE), medidas como essas podem ajudar a desencorajar atos de violência nos estádios e as manifestações de racismo, mais freqüentes nos campeonatos europeus, contribuindo para a paz no futebol. Assistente social, ele estará, durante esta Copa do Mundo na Alemanha, seu país natal, participando das embaixadas do torcedor e pronto para receber os brasileiros que viajarem para assistir aos jogos de perto.

Martin trabalha atualmente em dois projetos: Estigmatização dos torcedores de futebol no Rio de Janeiro e Embaixada do torcedor durante a Copa do Mundo, ambos do IVE. Um é conseqüência direta do outro. Neles, o pesquisador propõe uma alternativa oposta ao que imprensa e opinião pública vêm pedindo. “Na atual discussão, a mídia brasileira sugere ações rigorosas de repressão, maior controle e punição dos envolvidos. E a solução, ao menos para uma expressiva parcela da opinião pública, parece ser a exclusão das torcidas, sempre vistas como as únicas culpadas pela violência. Entretanto, isso é apenas um lado do problema, um só olhar sobre uma possível solução”, diz.

Para o pesquisador, há outros caminhos para abordar o assunto. “Se os torcedores são estigmatizados como violentos e tratados como criminosos, isso acaba deflagrando um comportamento violento. O estigma é um preconceito e não a verdade. Num estádio lotado com 50.000 pessoas, pode ser que existam alguns poucos criminosos e torcedores agressivos. Mas em qualquer grupo desse tamanho na sociedade podemos encontrar igual percentual de desordeiros”, explica.

Junto com o estigma, vêm as desvantagens, como o tratamento agressivo reservado pela polícia, as matérias depreciativas nos jornais e as grades nos estádios, que mais lembram jaulas e são um risco para o público, que na possibilidade de um conflito pode ficar imprensado contra elas. Martin vai ainda mais longe ao explicar que “ao solidificar-se o preconceito, muitas vezes pode-se provocar um fenômeno psicológico chamado self-fulfilling prophecy. O que leva pessoas que não seriam necessariamente violentas a partir para a agressão quando são tratadas de forma preconceituosa pela polícia e seguranças de um estádio”.

Estigmatizado, o grupo pode criar sua própria subcultura, com valores diferentes do restante da sociedade. “Esta subcultura dá aos indivíduos auto-estima para seguir suas normas, que podem aceitar o uso de violência. A exclusão é contraprodutiva”, diz. Ele frisa que, principalmente para os jovens de classes sociais mais baixas, o sentimento de identidade com os demais torcedores é, muitas vezes, mais importante do que o próprio jogo.

Para Martin, alternativas de inclusão social podem ser um meio de evitar essa agressividade. “Podem ser o vínculo necessário ao diálogo e à construção de formas de participação social mais conscientes. É preciso criar programas voltados para as torcidas, que resgatem sua cidadania, transmitam aos jovens o conhecimento das regras em vigor, e que essas regras também os protegem em nossa sociedade”, diz.

Segundo o pesquisador, esse é um trabalho de longo prazo, que presume criar ligações com as torcidas organizadas, sempre apoiando o comportamento desejado, como a criatividade, seus bandeirões, músicas e coreografias. A experiência vem dando certo em países como a Alemanha. Antes mesmo dos preparativos para a Copa, o país conseguiu reduzir conflitos entre as torcidas locais e ampliar a média de público, hoje em cerca de 40 mil, mesmo em jogos menos importantes ou em estádios de cidades menores. “Esse número é maior do que a média brasileira, que na maioria das partidas fica em 12, 13 mil pessoas”, garante o pesquisador.

Resultados que Martin atribui a projetos de apoio cultural, assistência social e jurídica aos torcedores, conseguindo-lhes material e espaço para a pintura de bandeiras, ou advogado para assisti-los em casos de pequenas infrações. E também a mudanças mais substanciais, a começar pela segurança dos estádios. “Isso inclui um transporte público eficiente e medidas como um número suficiente de saídas de emergência, eliminação das grades ou, se isso não for possível, que elas tenham portas de fuga que permitam a passagem de torcedores em caso de necessidade”, diz.

Martin também sugere a divisão das arquibancadas em vários setores menores e a volta de áreas de ingresso mais barato, com lugar para se ficar em pé. Ou seja, a velha “geral”, eliminada na reforma do Maracanã. “Sem ela, os ingressos encarecem, o que acaba excluindo os torcedores mais pobres. Além disso, nas torcidas, música e dança fazem parte do espetáculo do futebol. E não se dança sentado”, explica.

No Rio, como no resto do país, o pesquisador acredita que a resistência da opinião pública é ainda muito forte. “A mentalidade é a de reagir a tudo com repressão; o pensamento da sociedade é punitivo. Mudar para a prevenção e projetos que envolvam os torcedores ainda é difícil, principalmente quando há tantos problemas graves no país”, reconhece. Para ele, a comissão Paz no Esporte, do Ministério do Esporte, é uma iniciativa que pode ser um começo para se pensar alternativas. “Um representante do ministério que esteve na Inglaterra e viu de perto esse projeto visivelmente mudou seu discurso”, anima-se.

E se localmente a idéia é a de inclusão, ao se pensar em eventos mais amplos, como uma Copa do Mundo, o raciocínio não é diferente. Mudam apenas as medidas. Nesta Copa, por exemplo, a Alemanha recebe as torcidas estrangeiras com as “embaixadas de torcedores”. “Essas embaixadas ajudam as torcidas, procurando atender suas necessidades, em seu próprio idioma”, explica.

Organizadas pela FSI – Football Supporters International, rede internacional de Projetos para Torcedores Nacionais, elas contam com equipes fixas (organizadas pelo país que promove o evento) e móveis (organizadas por cada um dos países participantes), preparadas para ajudar os torcedores a se sentirem bem-vindos e a acompanhá-los, dando-lhes suporte num país estranho. A ajuda inclui desde guias informativos a um serviço de apoio telefônico 24h. Além das embaixadas, iniciativas como a instalação de telões gigantes em grandes espaços ao ar livre, para que os que não conseguiram ingresso possam assistir aos jogos, e a programação de atrações em torno desses telões contribuem para criar um clima festivo e desestimulam conflitos.

“Na Eurocopa de 2004, em Portugal, por exemplo, tivemos os melhores resultados. A polícia portuguesa comportou-se exemplarmente, tal como foi sugerido pelo projeto, com uniformes menos agressivos e agindo de forma não acintosa. Em caso de incidente, entrariam os policiais comuns. Mas não houve nenhum conflito ligado ao futebol. Pelo contrário, houve até peladas de rua, em campos infláveis, disputadas amigavelmente por torcidas de diferentes países”, entusiasma-se Martin.

Desde as primeiras embaixadas, em 1990, organizadas na Copa da Itália, como forma de prevenir os episódios violentos que haviam marcado campeonatos anteriores, a experiência foi repetida e ampliada nas Copas seguintes, adotada por países como Holanda, Inglaterra, França e Suíça. Segundo Martin, até mesmo os ingleses, tristemente famosos pela fúria dos hooligans, andam “bem-comportados” nos estádios.

“Muitos usam cabeça raspada, são enormes, bebem quantidades industriais de cerveja e parecem assustadores quando cantam ´there are 10 german bombs in the air´. Mas se os policiais forem preparados para não aceitar provocações e houver cerveja suficiente, eles apenas bebem até cair. Foi assim na última Eurocopa. O problema é acabar a cerveja…” Segundo Martin, os alemães bebem tanto quanto os ingleses, mas também costumam querer conhecer o país onde estão. E a ajuda das embaixadas é sempre útil para isso.

Nesta Copa do Mundo, o Brasil não contará com sua própria embaixada, mas o próprio Martin fará parte das equipes fixas nas cidades onde o Brasil jogará. Em Berlim, na Ku´dammen; em Munique, na Marienplatz; e em Dortmund, na Friedenplatz.

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>O poder jovem nas torcidas organizadas de futebol

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Vinicius Zepeda
© FAPERJ – 18/06/2010

Em época de Copa do Mundo, as rivalidades ficam de lado e os torcedores se unem pela vitória da Seleção.Fonte: ayrton.com/360/archives.

Até meados de julho, flamenguistas, tricolores, botafoguenses e vascaínos deixam as diferenças de lado e se unem para torcer pela pátria de chuteiras durante a Copa do Mundo, na África do Sul. Como eles, torcedores de todos os times do País se unem numa só torcida. No resto do planeta, todos os corações vibram e lutam numa batalha em que fuzis e confrontos são substituídos pela bola, a trave, os esquemas táticos 3-5-2, 4-4-2, 4-3-3, 4-5-1, entre outros,além das partidas entre adversários pelo título mundial de futebol. Já o que assistimos fora da Copa do Mundo é um espetáculo de torcidas rivais, que conjuga ao mesmo tempo a beleza das torcidas, entoando hinos e canções de provocação aos rivais, erguendo faixas e fazendo coreografias com a violência e a intolerância com o diferente, que por vezes pode gerar até mesmo mortes. Afinal, as torcidas nada mais são que um microcosmo da sociedade, para o bem e para o mal. Esta é a tese defendida pelo historiador, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Bernardo Borges Buarque de Hollanda, que acaba de publicar, com apoio do programa Auxílio à Editoração (APQ 3) da FAPERJ, o livro O Clube como vontade e representação – O jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro.

“Flamengo, Flamengo/Tua glória é lutar/Flamengo, Flamengo/Campeão de terra e mar.” O verso, adaptado do hino oficial do clube, foi cantado ininterruptamente por quase cinquenta anos durante a entrada do time em campo pela Charanga – primeira torcida organizada do Flamengo e do Rio de Janeiro – liderada pelo baiano Jaime de Carvalho e que, de uns anos para cá, retomou aos estádios nacionais. “O baiano trouxe para as arquibancadas instrumentos rítmicos e de sopro, os metais, além de confetes e serpentina típicos do carnaval”, explica o pesquisador. O fenômeno foi incentivado pelo jornalista Mário Filho (1916/1976), que criou um concurso de torcidas que tocavam marchinhas. Dono do Jornal dos Sports, ele estimulou, no final dos anos 1930, a criação da identidade do futebol como espetáculo das massas populares. “Até aquela década, os jornais mal falavam sobre esportes e as poucas notícias que apareciam se referiam a corridas de cavalos e regatas”, ensina.

O baiano Jaime de Carvalho no meio da Charanga, a primeira torcida organizada do Rio de Janeiro. Fonte: http://www.flamengoeternamente.blogspot.com.

O livro de Bernardo Buarque é essencialmente o resumo da tese de doutorado em História Social da Cultura, no Departamento de História, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), defendida ano passado. O estudo teve como fonte de pesquisa os arquivos do Jornal dos Sports, mais especificamente as matérias e fotos não publicadas, além de entrevistas com chefes de torcidas. O pesquisador da FGV acrescenta que, quando o jornalista Mário Filho comprou o Jornal dos Sports, começou também a publicar crônicas esportivas, fotos e entrevistas com jogadores de futebol. “Isso ajudou a transformar a imagem do futebol, até então aristocrático, em esporte de massas”, complementa.

Torcidas jovens criam o hedonismo no futebol

Em 1967, como dissidência à Charanga, do Flamengo, surge a primeira torcida jovem do estado do Rio de Janeiro: a Poder Jovem, que dois anos depois se transforma na Torcida Jovem Fla (TJF). No contexto da época, a TJF surge influenciada pela rebeldia da juventude da época e com proposta bem diferente da que vigorava na torcida criada pelo baiano Jaime de Carvalho. “Enquanto o baiano não admitia vaias ou hostilidade aos jogadores, a nova geração de torcedores, capitaneada pela Jovem Fla, queria protestar e criticar a atuação da equipe nos estádios”, explica Bernardo Buarque. Em 1971, surge o primeiro Campeonato Brasileiro de Futebol nos moldes do que temos hoje, em que o Atlético Mineiro sagrou-se campeão. As torcidas jovens que começam a comparecer aos estádios se tornam também torcidas organizadas devido à infraestrutura que criam para assistir aos jogos de seus times. É quando começa a aparecer o chamado hedonismo no futebol, que segundo o historiador caracteriza-se pela perda da identidade individual, diluída no prazer coletivo de viver para e pela torcida. “Isso acontece porque essas torcidas viraram verdadeiros grêmios recreativos, com sede própria independente do clube, taxa de inscrição e sócios, além de excursões para acompanhar os jogos em outros estados”, acrescenta.

Já nos anos 1970, acompanhando o contexto político do País e do mundo, as torcidas passam a protestar também contra a ditadura militar. “Não foi à toa que a primeira faixa a favor da anistia dos presos políticos no Brasil foi aberta num jogo do Corinthians, pela Gaviões da Fiel”, explica Bernardo. A democratização, no fim dos anos 1980, é acompanhada por uma grande decepção com o novo governo, inflação galopante, delinqüência juvenil e escalada da violência com o tráfico de drogas e o surgimento do crime organizado, com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro. As torcidas então começam a se tornar violentas, seus seguidores passam a ser tachados de vândalos, numa espécie de reflexo da juventude perdida, a geração Coca Cola cantada na música de Renato Russo (1960/1996).

“Vale destacar que o grosso dessas torcidas é de jovens entre 14 e 25 anos, suscetíveis à necessidade de autoafirmação diante do grupo”, afirma. Ele acrescenta que, segundo teoria com origem no século XIX, elaborada por Gustave Le Bon, o jovem, que geralmente se considera fraco sozinho, em bando se acha invencível. “Assim, a torcida passa a ter vida própria e os jovens se tornam apenas peças da engrenagem. O estádio passa a ser o local das transgressões, o futebol funciona como catarse coletiva, em que palavrões e xingamentos nada mais são do que expressão dos preconceitos arraigados da sociedade”, diz Bernardo.

Enquanto o jogo acontece em campo, a provocação entre as torcidas toma conta das arquibancadas. Fonte: Torcida Youg Flu.

O historiador lamenta a escalada da violência nos estádios, que, em 1988, contabilizou a primeira morte de líder de torcida, Cleo, da Mancha Verde, do Palmeiras. Nesse contexto, ele explica que o ciclo de rivalidades perde a noção originária do futebol – sublimar a violência das armas com a leitura tática do jogo ganho com gols e o confronto pacífico de times em busca do gol – e passa a ser um espaço de guerra no sentido literal do termo. Como as torcidas crescem e se multiplicam, elas passam a reproduzir conflitos até entre seus integrantes, copiando a estrutura típica das facções criminosas. Com o aumento do preço dos ingressos nos estádios, muitas vezes os torcedores nem chegam a entrar para assistir aos jogos, ficando do lado de fora para provocar brigas entre seus próprios membros ou com torcedores de outro time. Seus símbolos passam a ser bélicos: canhão (Raça Rubro-Negra), cão buldogue (Fúria Jovem do Botafogo), Eddie – caveira símbolo da banda de heavy metal Iron Maiden (Força Jovem do Vasco), o vilão dos quadrinhos Duende Verde (Torcida Young Flu). Com a escalada de violência nos estádios, de fins dos anos 1980, várias iniciativas vêm sendo tomadas, desde policiamento ostensivo nos arredores dos estádios à escolta das torcidas e campanhas na mídia pela paz no futebol. Os resultados, no entanto, ainda são tímidos e bastante aquém do esperado.

O projeto para a Copa de 2014 no Brasil e o futuro das torcidas

Em sentido horário, símbolos das torcidas jovens de Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. Reprodução.

Outro indicativo de como o futebol é um reflexo da sociedade é o poder político que líderes de torcida passaram a ter na eleição de dirigentes dos clubes. “O maior exemplo disso no futebol carioca pode ser personificado pelo ex-presidente do Vasco, Eurico Miranda, que chegava a distribuir até cinco mil ingressos em dia de jogo para os líderes de torcida”, lembra Bernardo. Ainda que caminhando a passos lentos em todo o País, a profissionalização do futebol parece ter ganho força, a partir dos anos 1980, com a transmissão cada vez mais freqüente dos jogos pela televisão, com a perda do de amor à camisa, com os jogadores transformados em mercadoria. “Há mais de vinte anos que os clubes operam deficitariamente, e seu lucro não vem mais da venda de ingressos para o público que comparece aos estádios, mas dos contratos para transmissão dos jogos pela TV e das transações com jogadores”, explica.

O novo modelo de adequação dos estádios às normas da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e que vem sendo adotado pelo Brasil prevê não apenas a redução do número de assentos, como o aumento do preço dos ingressos. “Acredito que o futebol continuará a ser o esporte mais popular do País por conta da televisão, mas o alto preço dos ingressos e a extinção da antiga geral no Maracanã tende a tornar o público cada vez mais elitista. O povão vai se contentar em ver o jogo pela televisão”, explica o historiador.

Nesse contexto, Bernardo Buarque destaca o surgimento, em 2006, da chamada “antitorcida organizada”, assim denominada por suas características, contrárias às tradicionais torcidas jovens. “Formadas em geral por jovens de classe média, elas não cantam palavrões, não têm símbolos próprios e, como as charangas, não vaiam. Ao contrário, apoiam incondicionalmente o time. São elas a Urubuzada (Flamengo), Legião Tricolor (Fluminense), Loucos pelo Botafogo e Guerreiros do Almirante (Vasco)”, conclui.

>Juventude e violência: proximidade perigosa (FAPERJ)

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Por Vilma Homero – 10/06/2010

Atos violentos de jovens de classes populares costumam ter resposta mais dura da sociedade, como mostra o filme Justiça.

A crescente violência entre os jovens é um fenômeno tipicamente contemporâneo. Vivendo uma adolescência prolongada, sem reconhecimento da sociedade organizada em função de sua não inserção no mercado de trabalho, eles se entregam a várias formas de comportamento violento: provocam acidentes ao dirigir em alta velocidade, sem respeitar quem ou o que estiver pela frente, aderem ao tráfico de drogas, tornam-se membros de gangues, provocam brigas em boates. Diante disso, a sociedade brasileira tem encontrado apenas duas formas de lidar: pelo assistencialismo ou pela repressão. Para o pesquisador e psicanalista Joel Birman, é preciso pensar criticamente essa situação.

Para promover essa reflexão, ele coordena a rede de pesquisas Juventude, Subjetivação e Violência/ou EPOS, sediada no Instituto de Medicina Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em que, com apoio do edital Pensa Rio – Apoio ao Estudo de Temas Relevantes e Estratégicos Para o Estado do Rio de Janeiro, da FAPERJ, especialistas de diferentes formações analisam a questão. “A violência hoje está intimamente associada à juventude. Um comportamento que até um tempo atrás era cativo das camadas populares, hoje se dissemina igualmente nas classes médias. Mas é preciso sair dessa concepção unicamente assistencialista ou repressiva e encontrar outras alternativas”, diz.

Nesse sentido, a rede, que reúne psicanalistas, psicólogos, sociólogos, criminologistas, juristas e comunicólogos, vem refletindo sobre a questão em diversos trabalhos. Já foram promovidos dois colóquios, em 2008 e 2009, um deles transformado em livro, pela editora Contracapa, com o mesmo nome da rede, Juventude, Subjetivação e Violência. “Também estamos publicando uma revista eletrônica, em que colocamos os artigos dos especialistas da rede. Já publicamos o número zero, que submetemos à avaliação para indexação, e para 2010 temos previsão de mais duas edições”, expõe. Para junho, está sendo organizado um seminário para que os pesquisadores apresentem seus trabalhos. E, no segundo semestre, haverá outro, com conferencistas convidados.

Entre os vários estudos que integram a rede, a socióloga Vera Malaguti analisa exatamente como em vez de pensar formas de inclusão social, a sociedade lida com a questão da violência com políticas que criminalizam a juventude que apresenta comportamento deste tipo. A psicanalista Sílvia Nunes, que focaliza a gravidez adolescente, avalia como, especialmente entre as classes populares, essa gravidez funciona para a jovem mãe como a criação de uma certa respeitabilidade social e ainda como forma de proteção contra a violência, sobretudo sexual, em comunidades de baixa renda.

Para o psicanalista Joel Birman, a sociedade falha em promover a inclusão social do jovem.

“Já o professor de literatura Camilo Pena examina as novas formas de produção cultural e literatura das camadas populares, como blogs, panfletos e produção musical, que traduzem uma tentativa de criação de signos identitários”, exemplifica Joel Birman.

Outra pesquisa, de Wedencley Alves Santana, analisa o atual esvaziamento do potencial de promessa que a educação formal significava décadas atrás. Birman chama ainda a atenção para a participação de juristas que questionam o engessamento de nosso Código Penal, que cristaliza essa tendência criminalizante em seu olhar sobre o comportamento da juventude.

“Acreditamos que há uma lógica social maior nessas situações do que simplesmente a criminal. O grande eixo de nossa leitura é de questionar qual o lugar atual do jovem em nossa sociedade, levando-se em conta como a sociedade organizada falha em promover a inclusão social.”

Segundo o psicanalista, hoje, a ideia sobre o que é ser adolescente é diferente do que há décadas passadas. “A organização linear das idades foi quebrada nos anos 1970. A infância dura menos tempo, e, em compensação, a adolescência começa mais cedo e se estende indefiinidamente. Agora, ficou difícil distinguir o que é adolescente ou um adulto jovem”, explica. Outros fatores contribuem. “Diante na nova formação da família contemporânea, marcada pela volutibilidade do casamento, as crianças não vivem mais necessariamente com seus pais biológicos, e ainda passam por uma adolescência prolongada e sem autonomia, já que os jovens, particularmente os de classe média, mantêm-se durante mais tempo apenas dedicados aos estudos, antes de entrar para o mercado de trabalho”, explica Birman.

Para o psicanalista, “sem o reconhecimento simbólico de seu lugar na sociedade, numa infantilização que se estende, eles passam a cultivar uma cultura corporal, explorando não só a estética, como a cultura da força e das várias formas de violência, buscando distinguir-se entre seus pares”. E exemplifica: “Se entre os jovens de classe média, há as brigas em boates, ou a direção irresponsável em alta velocidade, para os jovens das camadas populares, há a adesão ao tráfico.”

A resposta da sociedade ao problema, no entanto, tem duas vertentes. “Costuma ser extremamente dura e repressiva para o jovem de origem humilde, que seguidamente são enviados a instituições penais, onde são transformados em criminosos propriamente ditos, e bem mais condescendente para os jovens de classe média, que em geral são encarados como problemáticos e alvo de medidas terapêuticas”, diz. Segundo o psicanalista, isso acontece porque a visão dos órgãos policiais e judiciais é fazer uma leitura a partir de um “potencial de periculosidade”, que encara sempre o jovem mais pobre como potencialmente mais perigoso.

No filme Meu nome não é Johnny, o protagonista da história, um jovem de classe média, é preso com grande quantidade de cocaína. Levado a julgamento, sua figura comove a juíza, que em vez de condená-lo como traficante, o envia para tratamento no manicômio judiciário. A história, real, ilustra bem a dualidade do olhar da sociedade brasileira, que certamente seria bem menos condescendente com réus das classes populares na mesma situação.

“Hoje, há uma tendência internacional de questionar essa visão criminalizante, de ver mais criticamente essas políticas de aprisionamento. No Instituto Carioca de Criminologia, coordenado pelo jurista Nilo Batista, já temos uma abordagem que dialoga com essa perspectiva”, diz Birman. Unindo todos esses estudos, fica a perspectiva de uma maior reflexão que traga outras alternativas de solução.

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

>Retorcidas: violência no futebol (Folha Mais!)

>
A comunidade moral

JOSÉ PAULO FLORENZANO
ESPECIAL PARA A FOLHA

28 fev 2010

Década de 60 marcou a ascensão das torcidas organizadas, que passaram de coadjuvantes a protagonistas do espetáculo ao adotarem a “metáfora da guerra”

Foto: Torcedores são-paulinos durante partida em Barueri (SP). Ricardo Nogueira – 28.jan.10/Folha Imagem.

As torcidas organizadas, no Brasil, assim como os agrupamentos ultras, na Itália, começaram a ocupar as arquibancadas e a modificar o clima e a paisagem dos estádios a partir dos últimos anos da década de 1960. Lá, como cá, abandonaram a condição de simples espectadores da partida de futebol para desempenhar o papel de protagonistas do espetáculo que elas próprias criavam e desenvolviam, inspiradas pela “metáfora da guerra”, como mostra a perspectiva antropológica de Alessandro Dal Lago.

A violência, no entanto, não se restringia aos limites de uma batalha simbólica, mas se deslocava no espaço, driblava as medidas de repressão e adquiria, ao longo do tempo, forma e intensidade, alcance e significados muito diversos. De fato, como mostram os estudos feitos na Itália, os jovens torcedores logo enveredaram pela estrada do antagonismo violento, militarizaram-se, adotaram a “lógica da guerra”.

Isso os levava a planificar com antecedência a escolha do lugar da luta, a calcular o momento certo da ação, a delinear previamente a tática a ser empregada no combate travado cada vez mais fora das praças esportivas.

Ao mesmo tempo, procuraram alcançar um consenso em torno das “regras do jogo” no qual se achavam imersos -isto é, definir as armas, os atores e as circunstâncias do confronto. Uma circular redigida por integrantes do movimento buscava estabelecer os ditames do comportamento ultra: “Não se toca nas mulheres e nos velhos e não se enfrenta quem não tem nada a ver e não tem a possibilidade de se defender”.
Visto por esse prisma, o estereótipo da “horda de bárbaros embriagados” transfigurava-se, segundo o sociólogo Antonio Roversi, em uma “comunidade moral”. Esta era edificada com base em um repertório próprio de regras, dotado de mecanismos simbólicos de integração dos jovens reunidos na cultura da curva, na qual a violência desfrutava de um lugar privilegiado, mas não se revestia de uma forma caótica nem se desenvolvia de modo aleatório.

Ao contrário, ela se desenrolava no quadro das rivalidades e das alianças tecidas entre os diversos agrupamentos e de acordo com o código de comportamento aceito e partilhado pelos torcedores. A via brasileira apresentava pontos em comum com o percurso italiano, mas também se distinguia pela elaboração de características próprias e traços originais.

Nesse sentido, enquanto o caminho dos ultras atravessava o campo minado do extremismo político (alguns grupos se autodenominavam “brigadas”, em alusão ao partido armado identificado pela estrela de cinco pontas), o das organizadas desembocava na República do Futebol, paisagem histórica definida por inúmeras experiências de autonomia -como, por exemplo, o Trem da Alegria, idealizado por Afonsinho, e a Democracia Corintiana, liderada por Sócrates.

Aspectos contraditórios

Essa paisagem histórica, delimitada pelos anos de 1978 a 1984, contemplava ainda a iniciativa do jogador Wladimir de estender às gerais e arquibancadas o processo de mudança deslanchado no Corinthians: “As discussões são abertas aos diretores, aos jogadores, aos sócios e até à torcida”. Mas a participação desta última nos anos revolucionários do futebol brasileiro comportava aspectos contraditórios.

De um lado, ela promovia o salto de qualidade no exercício da violência, refletido tanto no conflito entre as organizadas do Santos e da Portuguesa -em 1979, na Taça São Paulo, com um saldo de 15 pessoas feridas- quanto nas brigas ocorridas antes, durante e após o clássico entre Santos e Corinthians, em 1983, com tiros disparados ao redor do estádio e focos de incêndio dentro do Morumbi.

De outro lado, ela reivindicava o direito de participação e o concretizava por meio de várias iniciativas. Entre elas, pode-se destacar, em 1977, o debate sobre a criação de uma Associação das Torcidas Organizadas; em 1978, a greve promovida pela Torcida Uniformizada do Palmeiras contra o desgoverno implantado no clube; em 1981, a crítica da Torcida Jovem do Santos à fórmula esdrúxula do Paulista; e, em 1984, a presença da Gaviões da Fiel nos comícios das Diretas-Já.

Violência e participação se constituem, portanto, nos fatores decisivos do universo das organizadas. Isso significa que, além do combate imprescindível e sem tréguas à impunidade dos atos brutais, o enfrentamento do problema atual pode incluir a criação de novos canais de participação e espaços de debate. De fato, como diz o sociólogo Antonio Roversi, juízos acusatórios e categoriais morais impedem a compreensão do quadro dinâmico das torcidas.

Eles não permitem, assim, elucidar as linhas de continuidade, identificar os pontos de ruptura, apontar as reviravoltas que ora as colocam no exercício de uma violência desregrada, ora as aproximam da prática democrática elaborada em conjunto por aqueles que desejam reinventar a República do Futebol e manter, tanto quanto possível, a rivalidade dos jovens torcedores nos limites de um duelo simbólico.

JOSÉ PAULO FLORENZANO é professor de antropologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, bolsista da Fapesp e autor de “A Democracia Corinthiana” (Educ).

Os sem-política

Transformado em peça na máquina de consumo compulsivo, torcedor é vítima maior da despolitização que atinge a sociedade

LUIZ HENRIQUE DE TOLEDO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Assistência” foi um termo muito comum propagado pela imprensa esportiva até os anos 1930, condenando à passividade os torcedores mais populares. Estes se diferenciavam dos sócios, indivíduos notabilizados por laços mais estreitos, inclusive de parentesco, com os integrantes dos clubes.

A inauguração do estádio do Pacaembu, em São Paulo, e a transformação do futebol em evento de massa nos anos 40 redimensionaria os espetáculos futebolísticos e a importância dos torcedores.

Eles passaram a ser motivo de preocupação mais detida de parte dos poderes públicos, da imprensa e daqueles que organizavam os eventos, em virtude da intolerância e das rinhas que, diga-se de passagem, já existiam desde a época do amadorismo anterior aos anos 30. Os jornais não se cansavam de censurar as “desinteligências” frequentes promovidas pelo mau comportamento generalizado.

Faixas e cartazes

Foi nesse momento, então, que surgiram as primeiras organizações uniformizadas, indivíduos que acompanhavam as partidas em bloco, cantando, exibindo faixas e cartazes homenageando jogadores, cronistas esportivos e o próprio poder público.

Reciprocamente, a imprensa esportiva e os dirigentes dos clubes prestigiavam esses uniformizados por acreditarem que formavam um corpo elitizado (entenda-se “civilizado”) no meio da massa.

Essa situação foi alterada com o aparecimento das torcidas organizadas, já no final dos anos 60.

Tratava-se de agrupamentos com nítida inspiração popular que se autonomizaram em relação aos interesses mais imediatos dos dirigentes e estabeleceram outros padrões para o ato de torcer.

Os ciclos de violência intensificados nos anos 90 e a ingerência cada vez maior da TV e dos canais pagos repercutiram na necessidade imposta por uma nova conduta torcedora.

Foi nessa conjuntura de políticas de repressão às organizadas que se inventaram os sócios-torcedores -analogia opaca que alude a uma espécie de acionista minoritário do clube- e o torcedor de poltrona, que paga para ver seu time pelo sistema pay-per-view, serviço oferecido pelos canais fechados (elitistas, não?).

Portanto, formas físicas ou simbólicas de violência não constituem um corpo necessariamente estranho dentro desse universo. Dirigentes que motivam os seus publicamente, ainda que de modo figurado, na lógica da contenda tendem cada vez mais a levar o espetáculo sacrificial para dentro da casa de cada torcedor plugado na web.

Há que saber administrar as formas da belicosidade que, de resto, é constitutiva do futebol. Assim como as organizadas não reproduzem toda a extensão do torcer, elas também não contêm todas as variáveis que explicam a violência tomada como linguagem de todos.

Ambientadas e nutridas nas dinâmicas de poder, as organizadas reproduzem os sucessos e fracassos das organizações sociais que conformam o que visualizamos por sociedade.

Nenhum destes aspectos lhes faltam: burocracia, hierarquias, lógicas de distinção, comprometimentos políticos com projetos coletivos próprios ou negociados com outros atores, discurso da parlamentarização das relações e, obviamente, violência instrumental nutrida por masculinidades hegemônicas, homofóbicas, e intolerâncias já esparramadas por toda a sociedade.

Vingança inconclusa

O problema não são as organizações em si. No geral, o comportamento belicoso e intolerante se manifesta de modo mais desgarrado, individualizante e descompromissado com qualquer projeto coletivo, descentralizando práticas e comportamentos que fogem em muito ao controle das elites torcedoras.

Como uma espécie de vingança inconclusa, as mortes se sucedem há décadas em nome de honras difusas em torno da adesão aos clubes. Elas certamente estão relacionadas ao desmonte da dimensão lúdica do jogo e ao esgarçamento da sociabilidade em uma sociedade armada.

Embora as imagens dos últimos acontecimentos mostrem hordas de torcedores se digladiando, não há guerra ali, não há cadeia mecânica de mando e obediência.

Essa é justamente a linguagem desgastada do poder que tem no fantasma da desordem unida a sua face oculta, mas companheira de todas as horas. Das instâncias policiais e judiciais espera-se apuração e indiciamento daqueles indivíduos que estiveram diretamente envolvidos nos confrontos generalizados.

Mas o que esperar daqueles que administram o futebol: os dirigentes de clubes, os políticos e as elites torcedoras? O cerne da questão parece residir na baixa qualidade das relações políticas travadas entre esses agentes. Não bastam reuniões administrativas para resolver a conduta torcedora neste ou naquele jogo em específico. A despolitização de longo prazo que se impinge aos torcedores só faz minar os investimentos coletivos em nome de outras violências instrumentais parciais, inclusive legais.

O desinvestimento orquestrado que se faz na cultura do torcer -transformada em mera coadjuvante da maquinaria do consumo compulsivo- também não colabora para o processo de cidadania esportiva, sobretudo às portas dos megaeventos que se avizinham por aí.

LUIZ HENRIQUE DE TOLEDO é antropólogo e professor na Universidade Federal de São Carlos (SP). É organizador de “Visão de Jogo – Antropologia das Práticas Esportivas” (Terceiro Nome).

Novo Estatuto irá responsabilizar organizadas

DA REDAÇÃO

Durante encontro com o ministro dos Esportes, Orlando Silva Jr., na quarta-feira, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, concordou em agilizar a tramitação de um projeto de lei que altera o Estatuto do Torcedor.

O texto define penas de reclusão para torcedores que praticarem atos de violência e responsabiliza civilmente as torcidas organizadas pelos danos causados por seus membros. O projeto, de autoria do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), está em fase de análise por comissões do Senado, que pode ser abreviada mediante acordo das lideranças.

A discussão foi reforçada após confrontos, no último domingo, entre torcedores de São Paulo e Palmeiras, que resultaram em um morto e pelo menos 20 feridos.

Torcidas-empresas

Organizadas se converteram em lugares de negócios, valendo-se do marketing e do merchandising para competir com o material dos clubes

BERNARDO BUARQUE DE HOLLANDA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em caravana de apoio ao clube que contagiou o país no final dos anos 1970, o Corinthians Paulista, no seu drama de perseguição por um título depois de quase duas décadas de jejum, os Gaviões da Fiel distribuíam um folheto aos viajantes. O lembrete aos corintianos prescrevia: “Não corra, não mate e não morra”.

O prospecto foi na época guardado pelo sociólogo Sérgio Miceli e consta da abertura de um dos primeiros artigos acadêmicos sobre o fenômeno das torcidas organizadas no Brasil. Em 1978, o texto foi publicado pela “Revista de Administração de Empresas”, da Fundação Getúlio Vargas (RJ). Passadas mais de três décadas de sua publicação, o lembrete ainda ecoa como advertência, mas muito pouco de sua prudente recomendação parece ser hoje aplicável a determinados setores de torcidas organizadas.

Correr, matar e morrer tornaram-se verbos até certo ponto corriqueiros, atrativas palavras de ordem entre alguns adeptos dessas associações, como se pode observar nos incidentes fatais do último fim de semana, envolvendo torcedores de Palmeiras e São Paulo. As rodovias, as ferrovias ou quaisquer outros meios de acesso aos estádios são agora os locais privilegiados para o enfrentamento desses grupos.

Houve, de fato, uma mudança na dinâmica espacial dos confrontos entre torcidas organizadas. Se, até o final dos anos 80, as torcidas se confrontavam com mais frequência dentro dos estádios, a partir do decênio seguinte, a crescente vigilância em seu interior levou à sistematização das brigas para fora das arenas.

Desde então, a cada ano, o raio de ação da polícia nas imediações do estádio tem se alargado, criando uma espécie de segundo território de conflito. Este se afigura muito mais amplo e menos controlável em relação ao primeiro, o que coloca as forças da ordem diante de uma nova série de desafios a enfrentar.

Agonia

Conforme muitos estudiosos já assinalaram, a violência -bem como a busca por sua sublimação- é um componente agonístico liminar, constitutivo da sociedade e da atividade esportiva. Como tal, essa tensão, quer latente quer manifesta, está presente em um esporte popular como o futebol. No que diz respeito às torcidas organizadas, a especificidade de seus embates físicos é que ela assiste a ciclos violentos, verdadeiras “espirais” que fazem e desfazem vendetas ao sabor das gerações e das lideranças à frente dos grupos, com o efeito alarmante de difundir aquilo que na Europa se chamou de “pânico moral”.

A cada nova tragédia, a sociedade é instada a se mobilizar e a expiar os seus “bodes”. Quase sempre, a pedra de toque para a solução do problema recai na interdição das torcidas, por meio da simples extinção jurídica ou da proscrição dos “baderneiros”.

Como se isso fosse apenas uma questão de norma -e não, principalmente, de costume-, os decretos vêm redundando em sucessivos fracassos.

Por que a situação é tão difícil de ser solucionada? Em parte, porque a aparente barbárie que evoca o comportamento violento das torcidas constitui apenas sua franja superficial.

Quando se discute o problema, pouco se atenta para o fato de que as torcidas organizadas não estão apenas na contramão dos princípios desportivos ou nos antípodas do futebol mercantilizado moderno. De forma homóloga à lógica dos clubes-empresas, as agremiações de torcedores se tornaram elas próprias torcidas-empresas. Orbitam em torno dos clubes -razão de existirem-, mas são também autônomas, com sedes, símbolos, legendas, cânticos e logotipos que traduzem uma identidade à parte.

Seguindo o etos comercial, as torcidas organizadas converteram-se em lugares de negócios, passando a se valer do marketing, do merchandising e da oferta de uma série de produtos ligados a suas grifes. Elas competem, assim, com o material dos clubes e atendem à demanda de seu público consumidor, adolescentes e jovens seduzidos pelo pertencimento a uma coletividade.

A expansão em âmbito nacional das torcidas acarreta ainda o recrutamento de mais simpatizantes, o que leva ao seu alargamento simbólico-territorial, à semiprofissionalização de seus quadros e à formação de uma complexa rede de relações sociais.

Nos primórdios do futebol, dizia-se que a prática esportiva era uma atividade intrinsecamente amadora, razão pela qual o jogador não podia ganhar dinheiro com o jogo.

No Brasil, foi preciso esperar até os anos 1930 para que tal formulação fosse refeita, com a adoção do profissionalismo no futebol e com a transformação do jogador em atleta profissional, capaz de auferir astronômicos salários. Talvez hoje nós estejamos, em meio à globalização do futebol, onde tudo se comercializa e se rentabiliza, assistindo a um debate moral não muito distinto.

Se o torcedor representa a quintessência da paixão futebolística, último bastião de um idealizado “amadorismo”, até que ponto estaríamos dispostos a aceitar o fato de que o torcedor organizado pode fazer de sua atividade uma profissão legítima e legalizada?

BERNARDO BUARQUE DE HOLLANDA é pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (RJ).