>Embaixadas do torcedor: uma saída para banir a violência do futebol

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Vilma Homero
© FAPERJ – 08/06/2006

Policiamento menos agressivo, estádios mais seguros e projetos sociais junto às torcidas. Segundo o pesquisador Martin Christoph Curi Spörl, do Instituto Virtual do Esporte (IVE), medidas como essas podem ajudar a desencorajar atos de violência nos estádios e as manifestações de racismo, mais freqüentes nos campeonatos europeus, contribuindo para a paz no futebol. Assistente social, ele estará, durante esta Copa do Mundo na Alemanha, seu país natal, participando das embaixadas do torcedor e pronto para receber os brasileiros que viajarem para assistir aos jogos de perto.

Martin trabalha atualmente em dois projetos: Estigmatização dos torcedores de futebol no Rio de Janeiro e Embaixada do torcedor durante a Copa do Mundo, ambos do IVE. Um é conseqüência direta do outro. Neles, o pesquisador propõe uma alternativa oposta ao que imprensa e opinião pública vêm pedindo. “Na atual discussão, a mídia brasileira sugere ações rigorosas de repressão, maior controle e punição dos envolvidos. E a solução, ao menos para uma expressiva parcela da opinião pública, parece ser a exclusão das torcidas, sempre vistas como as únicas culpadas pela violência. Entretanto, isso é apenas um lado do problema, um só olhar sobre uma possível solução”, diz.

Para o pesquisador, há outros caminhos para abordar o assunto. “Se os torcedores são estigmatizados como violentos e tratados como criminosos, isso acaba deflagrando um comportamento violento. O estigma é um preconceito e não a verdade. Num estádio lotado com 50.000 pessoas, pode ser que existam alguns poucos criminosos e torcedores agressivos. Mas em qualquer grupo desse tamanho na sociedade podemos encontrar igual percentual de desordeiros”, explica.

Junto com o estigma, vêm as desvantagens, como o tratamento agressivo reservado pela polícia, as matérias depreciativas nos jornais e as grades nos estádios, que mais lembram jaulas e são um risco para o público, que na possibilidade de um conflito pode ficar imprensado contra elas. Martin vai ainda mais longe ao explicar que “ao solidificar-se o preconceito, muitas vezes pode-se provocar um fenômeno psicológico chamado self-fulfilling prophecy. O que leva pessoas que não seriam necessariamente violentas a partir para a agressão quando são tratadas de forma preconceituosa pela polícia e seguranças de um estádio”.

Estigmatizado, o grupo pode criar sua própria subcultura, com valores diferentes do restante da sociedade. “Esta subcultura dá aos indivíduos auto-estima para seguir suas normas, que podem aceitar o uso de violência. A exclusão é contraprodutiva”, diz. Ele frisa que, principalmente para os jovens de classes sociais mais baixas, o sentimento de identidade com os demais torcedores é, muitas vezes, mais importante do que o próprio jogo.

Para Martin, alternativas de inclusão social podem ser um meio de evitar essa agressividade. “Podem ser o vínculo necessário ao diálogo e à construção de formas de participação social mais conscientes. É preciso criar programas voltados para as torcidas, que resgatem sua cidadania, transmitam aos jovens o conhecimento das regras em vigor, e que essas regras também os protegem em nossa sociedade”, diz.

Segundo o pesquisador, esse é um trabalho de longo prazo, que presume criar ligações com as torcidas organizadas, sempre apoiando o comportamento desejado, como a criatividade, seus bandeirões, músicas e coreografias. A experiência vem dando certo em países como a Alemanha. Antes mesmo dos preparativos para a Copa, o país conseguiu reduzir conflitos entre as torcidas locais e ampliar a média de público, hoje em cerca de 40 mil, mesmo em jogos menos importantes ou em estádios de cidades menores. “Esse número é maior do que a média brasileira, que na maioria das partidas fica em 12, 13 mil pessoas”, garante o pesquisador.

Resultados que Martin atribui a projetos de apoio cultural, assistência social e jurídica aos torcedores, conseguindo-lhes material e espaço para a pintura de bandeiras, ou advogado para assisti-los em casos de pequenas infrações. E também a mudanças mais substanciais, a começar pela segurança dos estádios. “Isso inclui um transporte público eficiente e medidas como um número suficiente de saídas de emergência, eliminação das grades ou, se isso não for possível, que elas tenham portas de fuga que permitam a passagem de torcedores em caso de necessidade”, diz.

Martin também sugere a divisão das arquibancadas em vários setores menores e a volta de áreas de ingresso mais barato, com lugar para se ficar em pé. Ou seja, a velha “geral”, eliminada na reforma do Maracanã. “Sem ela, os ingressos encarecem, o que acaba excluindo os torcedores mais pobres. Além disso, nas torcidas, música e dança fazem parte do espetáculo do futebol. E não se dança sentado”, explica.

No Rio, como no resto do país, o pesquisador acredita que a resistência da opinião pública é ainda muito forte. “A mentalidade é a de reagir a tudo com repressão; o pensamento da sociedade é punitivo. Mudar para a prevenção e projetos que envolvam os torcedores ainda é difícil, principalmente quando há tantos problemas graves no país”, reconhece. Para ele, a comissão Paz no Esporte, do Ministério do Esporte, é uma iniciativa que pode ser um começo para se pensar alternativas. “Um representante do ministério que esteve na Inglaterra e viu de perto esse projeto visivelmente mudou seu discurso”, anima-se.

E se localmente a idéia é a de inclusão, ao se pensar em eventos mais amplos, como uma Copa do Mundo, o raciocínio não é diferente. Mudam apenas as medidas. Nesta Copa, por exemplo, a Alemanha recebe as torcidas estrangeiras com as “embaixadas de torcedores”. “Essas embaixadas ajudam as torcidas, procurando atender suas necessidades, em seu próprio idioma”, explica.

Organizadas pela FSI – Football Supporters International, rede internacional de Projetos para Torcedores Nacionais, elas contam com equipes fixas (organizadas pelo país que promove o evento) e móveis (organizadas por cada um dos países participantes), preparadas para ajudar os torcedores a se sentirem bem-vindos e a acompanhá-los, dando-lhes suporte num país estranho. A ajuda inclui desde guias informativos a um serviço de apoio telefônico 24h. Além das embaixadas, iniciativas como a instalação de telões gigantes em grandes espaços ao ar livre, para que os que não conseguiram ingresso possam assistir aos jogos, e a programação de atrações em torno desses telões contribuem para criar um clima festivo e desestimulam conflitos.

“Na Eurocopa de 2004, em Portugal, por exemplo, tivemos os melhores resultados. A polícia portuguesa comportou-se exemplarmente, tal como foi sugerido pelo projeto, com uniformes menos agressivos e agindo de forma não acintosa. Em caso de incidente, entrariam os policiais comuns. Mas não houve nenhum conflito ligado ao futebol. Pelo contrário, houve até peladas de rua, em campos infláveis, disputadas amigavelmente por torcidas de diferentes países”, entusiasma-se Martin.

Desde as primeiras embaixadas, em 1990, organizadas na Copa da Itália, como forma de prevenir os episódios violentos que haviam marcado campeonatos anteriores, a experiência foi repetida e ampliada nas Copas seguintes, adotada por países como Holanda, Inglaterra, França e Suíça. Segundo Martin, até mesmo os ingleses, tristemente famosos pela fúria dos hooligans, andam “bem-comportados” nos estádios.

“Muitos usam cabeça raspada, são enormes, bebem quantidades industriais de cerveja e parecem assustadores quando cantam ´there are 10 german bombs in the air´. Mas se os policiais forem preparados para não aceitar provocações e houver cerveja suficiente, eles apenas bebem até cair. Foi assim na última Eurocopa. O problema é acabar a cerveja…” Segundo Martin, os alemães bebem tanto quanto os ingleses, mas também costumam querer conhecer o país onde estão. E a ajuda das embaixadas é sempre útil para isso.

Nesta Copa do Mundo, o Brasil não contará com sua própria embaixada, mas o próprio Martin fará parte das equipes fixas nas cidades onde o Brasil jogará. Em Berlim, na Ku´dammen; em Munique, na Marienplatz; e em Dortmund, na Friedenplatz.

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