On the end of the world / sobre o fim do mundo (21.12.2012)

O mundo não acabou (Folha de S.Paulo)

Contardo Calligaris – 27/12/2012 – 03h00

Pode ser que o mundo acabe entre hoje (segunda, dia em que escrevo) e quinta, 27, dia em que seria publicada esta coluna. Em tese, eu não devo me preocupar: meu título não será desmentido –pois, se o mundo acabar, não haverá mais ninguém para verificar que eu me enganei.

Tudo isso, em termos, pois o fim do mundo esperado (mais ou menos ansiosamente) por alguns (ou por muitos) não é o sumiço definitivo e completo da espécie. Ao contrário: em geral, quem fantasia com o fim do mundo se vê como um dos sobreviventes e, imaginando as dificuldades no mundo destruído, aparelha-se para isso.

Na cultura dos EUA, os “survivalists” são também “preppers”: ou seja, quem planeja sobreviver se prepara. A catástrofe iminente pode ser mais uma “merecida” vingança divina contra Sodoma e Gomorra, a realização de uma antiga profecia, a consequência de uma guerra (nuclear, química ou biológica), o efeito do aquecimento global ou, enfim (última moda), o resultado de uma crise financeira que levaria todos à ruina e à fome.

A preparação dos sobreviventes pode incluir ou não o deslocamento para lugares mais seguros (abrigos debaixo da terra, picos de montanhas que, por alguma razão, serão poupados, lugares “místicos” com proteção divina, plataformas de encontro com extraterrestres etc.), mas dificilmente dispensa a acumulação de bens básicos de subsistência (alimentos, água, remédios, combustíveis, geradores, baterias) e (pelo seu bem, não se esqueça disso) de armas de todo tipo (caça e defesa) com uma quantidade descomunal de munições -sem contar coletes a prova de balas e explosivos.

Imaginemos que você esteja a fim de perguntar “armas para o quê?”. Afinal, você diria, talvez a gente precise de armas de caça, pois o supermercado da esquina estará fechado. Mas por que as armas para defesa? Se houver mesmo uma catástrofe, ela não poderia nos levar a descobrir novas formas de solidariedade entre os que sobraram? Pois bem, se você coloca esse tipo de perguntas, é que você não fantasia com o fim do mundo.

Para entender no que consiste a fantasia do fim do mundo, não é preciso comparar os diferentes futuros pós-catastróficos possíveis. Assim como não é preciso considerar se, por exemplo, nos vários cenários desolados do dia depois, há ou não o encontro com um Adão ou uma Eva com quem recomeçar a espécie. Pois essas são apenas variações, enquanto a necessidade das armas (e não só para caçar os últimos coelhos e faisões) é uma constante, que revela qual é o sonho central na expectativa do fim do mundo.

Em todos os fins do mundo que povoam os devaneios modernos, alguns ou muitos sobrevivem (entre eles, obviamente, o sonhador), mas o que sempre sucumbe é a ordem social. A catástrofe, seja ela qual for, serve para garantir que não haverá mais Estado, condado, município, lei, polícia, nação ou condomínio. Nenhum tipo de coletividade instituída sobreviverá ao fim do mundo. Nele (e graças a ele) perderá sua força e seu valor qualquer obrigação que emane da coletividade e, em geral, dos outros: seremos, como nunca fomos, indivíduos, dependendo unicamente de nós mesmos.

Esse é o desejo dos sonhos do fim do mundo: o fim de qualquer primazia da vida coletiva sobre nossas escolhas particulares. O que nos parece justo, no nosso foro íntimo, sempre tentará prevalecer sobre o que, em outros tempos, teria sido ou não conforme à lei.

Por isso, depois do fim do mundo, a gente se relacionará sem mediações –sem juízes, sem padres, sem sábios, sem pais, sem autoridade reconhecida: nós nos encararemos, no amor e no ódio, com uma mão sempre pronta em cima do coldre.

E não é preciso desejar explicitamente o fim do mundo para sentir seu charme. A confrontação direta entre indivíduos talvez seja a situação dramática preferida pelas narrativas que nos fazem sonhar: a dura história do pioneiro, do soldado, do policial ou do criminoso, vagando num território em que nada (além de sua consciência) pode lhes servir de guia e onde nada se impõe a não ser pela força.

Na coluna passada, comentei o caso do jovem que matou a mãe e massacrou 20 crianças e seis adultos numa escola primária de Newtown, Connecticut. Pois bem, a mãe era uma “survivalist”; ela se preparava para o fim do mundo. Talvez, junto com as armas e as munições acumuladas, ela tenha transmitido ao filho alguma versão de seu devaneio de fim do mundo.

*   *   *

Are You Prepared for Zombies? (American Anthropological Association blog)

By Joslyn O. – December 21, 2012 at 12:52 pm

 

In light of all the end of the world talk, a repost of this Zombie preppers post from last spring:

Today’s guest blog post is by cultural anthropologist and AAA member, Chad Huddleston. He is an Assistant Professor at St. Louis University in the Sociology, Anthropology and Criminal Justice department.

Recently, a host of new shows, such as Doomsday Preppers on NatGeo and Doomsday Bunkers on Discovery Channel, has focused on people with a wide array of concerns about possible events that may threaten their lives.  Both of these shows focus on what are called ‘preppers.’ While the people that may have performed these behaviors in the past might have been called ‘survivalists,’ many ‘preppers’ have distanced themselves from that term, due to its cultural baggage: stereotypical anti-government, gun-loving, racist, extremists that are most often associated with the fundamentalist (politically and religiously) right side of the spectrum.

I’ve been doing fieldwork with preppers for the past two years, focusing on a group called Zombie Squad. It is ‘the nation’s premier non-stationary cadaver suppression task force,’ as well as a grassroots, 501(c)3 charity organization.  Zombie Squad’s story is that while the zombie removal business is generally slow, there is no reason to be unprepared.  So, while it is waiting for the “zombpacolpyse,” it focuses its time on disaster preparedness education for the membership and community.

The group’s position is that being prepared for zombies means that you are prepared for anything, especially those events that are much more likely than a zombie uprising – tornadoes, an interruption in services, ice storms, flooding, fires, and earthquakes.

For many in this group, Hurricane Katrina was the event that solidified their resolve to prep.  They saw what we all saw – a natural disaster in which services were not available for most, leading to violence, death and chaos. Their argument is that the more prepared the public is before a disaster occurs, the less resources they will require from first responders and those agencies that come after them.

In fact, instead of being a victim of natural disaster, you can be an active responder yourself, if you are prepared.  Prepare they do.  Members are active in gaining knowledge of all sorts – first aid, communications, tactical training, self-defense, first responder disaster training, as well as many outdoor survival skills, like making fire, building shelters, hunting and filtering water.

This education is individual, feeding directly into the online forum they maintain (which has just under 30,000 active members from all over the world), and by monthly local meetings all over the country, as well as annual national gatherings in southern Missouri, where they socialize, learn survival skills and practice sharpshooting.

Sound like those survivalists of the past?  Emphatically no.  Zombie Squad’s message is one of public education and awareness, very successful charity drives for a wide array of organizations, and inclusion of all ethnicities, genders, religions and politics.  Yet, the group is adamant on leaving politics and religion out of discussions on the group and prepping. You will not find exclusive language on their forum or in their media.  That is not to say that the individuals in the group do not have opinions on one side or the other of these issues, but it is a fact that those issues are not to be discussed within the community of Zombie Squad.

Considering the focus on ‘future doom’ and the types of fears that are being pushed on the shows mentioned above, usually involve protecting yourself from disaster and then other people that have survived the disaster, Zombie Squad is a refreshing twist to the ‘prepper’ discourse.  After all, if a natural disaster were to befall your region, whom would you rather be knocking at your door: ‘raiders’ or your neighborhood Zombie Squad member?

And the answer is no: they don’t really believe in zombies.

 

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