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‘Não há linha clara que separe ciência da pseudociência’, diz professor de Princeton (BBC News Brasil)

bbc.com


Carlos Serrano – @carliserrano

BBC News Mundo

12 dezembro 2021

Frenologia
A relação entre o conhecimento genuíno e as doutrinas marginais é mais próxima do muitos querem aceitar, diz historiador especialista em história da ciência

Terraplanistas, antivacinas, criacionistas, astrólogos, telepatas, numerólogos, homeopatas…

Para as instituições científicas, essas práticas e movimentos enquadram-se na categoria das “pseudociências”. Ou seja, doutrinas baseadas em fundamentos que seus adeptos consideram científicas e, a partir daí, criam uma corrente que se afasta do que é normalmente aceito pelo mundo acadêmico.

Mas como distinguir o que é ciência daquilo que se faz passar por ciência?

Essa tarefa é muito mais complicada do que parece, segundo Michael Gordin, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e especialista em história da ciência. Gordin é autor do livro On the Fringe: Where Science Meets Pseudoscience (“Na Fronteira: Onde a Ciência Encontra a Pseudociência”, em tradução livre).

Seu livro detalha como operam as pseudociências e como, do seu ponto de vista, são uma consequência inevitável do progresso científico.

Em entrevista à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC), Gordin detalha a complexa relação entre o que se considera ciência verdadeira e o que ele chama de doutrinas marginais.

Michael Gordin
Michael Gordin, autor do livro “Na Fronteira: Onde a Ciência Encontra a Pseudociência” (em tradução livre do inglês)

BBC News Mundo – O senhor afirma que não existe uma linha definida separando a ciência da pseudociência, mas a ciência tem um método claro e comprovável. Esta não seria uma diferença clara com relação à pseudociência?

Michael Gordin – Acredita-se normalmente que a ciência tem um único método, mas isso não é verdade. A ciência tem muitos métodos. Os geólogos fazem seu trabalho de forma muito diferente dos físicos teóricos, e os biólogos moleculares, dos neurocientistas. Alguns cientistas trabalham no campo, observando o que acontece. Outros trabalham em laboratório, sob condições controladas. Outros fazem simulações. Ou seja, a ciência tem muitos métodos, que são heterogêneos. A ciência é dinâmica, e esse dinamismo dificulta a definição dessa linha. Podemos tomar um exemplo concreto e dizer que se trata de ciência ou de pseudociência. É fácil com um exemplo concreto.

O problema é que essa linha não é consistente e, quando você observa uma maior quantidade de casos, haverá coisas que antes eram consideradas ciência e agora são consideradas pseudociências, como a astrologia. Existem temas como a deriva dos continentes, que inicialmente era considerada uma teoria marginal e agora é uma teoria básica da geofísica.

Quase tudo o que hoje se considera pseudociência já foi ciência no passado, que foi refutada com o passar do tempo e os que continuam a apoiá-la são considerados lunáticos ou charlatães. Ou seja, a definição do que é ciência ou pseudociência é dinâmica ao longo do tempo. Esta é uma das razões da dificuldade desse julgamento.

astrología
Considerada ciência no passado, a astrologia encontra-se hoje no rol das pseudociências – ou doutrinas marginais, segundo Michael Gordin

BBC News Mundo – Mas existem coisas que não se alteram ao longo do tempo. Por exemplo, 2+2 sempre foi igual a 4. Isso quer dizer que a ciência trabalha com base em princípios que não permitem interpretações…

Gordin – Bem, isso não é necessariamente certo. Dois óvnis mais dois óvnis são quatro óvnis.

É interessante que você tenha escolhido a matemática que, de fato, não é uma ciência empírica, pois ela não se refere ao mundo exterior. É uma série de regras que usamos para determinar certas coisas.

Uma das razões pelas quais é muito complicado fazer a distinção é o fato de que as doutrinas marginais observam o que é considerado ciência estabelecida e adaptam a elas seus argumentos e suas técnicas.

Um exemplo é o “criacionismo científico”, que defende que o mundo foi criado em sete dias, 6.000 anos atrás. Existem publicações de criacionismo científico que incluem gráficos matemáticos sobre as razões de decomposição de vários isótopos, para tentar comprovar que a Terra tem apenas 6.000 anos.

Seria genial afirmar que usar a matemática e apresentar gráficos é ciência, mas a realidade é que quase todas as doutrinas marginais usam a matemática de alguma forma.

Os cientistas discordam sobre o tipo de matemática utilizada, mas existem, por exemplo, pessoas que defendem que a matemática avançada utilizada na teoria das cordas já não é científica, porque perdeu a verificação empírica. Trata-se de matemática de alto nível, feita por doutores das melhores universidades, mas existe um debate interno na ciência, entre os físicos, que discutem se ela deve ou não ser considerada ciência.

Não estou dizendo que todos devem ser criacionistas, mas, quando a mecânica quântica foi proposta pela primeira vez, algumas pessoas diziam: “isso parece muito estranho”, “ela não se atém às medições da forma em que acreditamos que funcionem” ou “isso realmente é ciência?”

Terra plana
Nos últimos anos, popularizou-se entre alguns grupos a ideia de que a Terra é plana

BBC News Mundo – Então o sr. afirma que as pseudociências ou doutrinas marginais têm algum valor?

Gordin – A questão é que muitas coisas que consideramos inovadoras provêm dos limites do conhecimento ortodoxo.

O que quero dizer são basicamente três pontos: primeiro, que não existe uma linha divisória clara; segundo, que compreender o que fica de cada lado da linha exige a compreensão do contexto; e, terceiro, que o processo normal da ciência produz doutrinas marginais.

Não podemos descartar essas doutrinas, pois elas são inevitáveis. Elas são um produto derivado da forma como as ciências funcionam.

BBC News Mundo – Isso significa que deveríamos ser mais tolerantes com as pseudociências?

Gordin – Os cientistas, como qualquer outra pessoa, têm tempo e energia limitados e não podem pesquisar tudo.

Por isso, qualquer tempo que for dedicado a refutar ou negar a legitimidade de uma doutrina marginal é tempo que deixa de ser usado para fazer ciência — e talvez nem surta resultados.

As pessoas vêm refutando o criacionismo científico há décadas. Elas trataram de desmascarar a telepatia por ainda mais tempo e ela segue rondando à nossa volta. Existem diversos tipos de ideias marginais. Algumas são muito politizadas e chegam a ser nocivas para a saúde pública ou o meio ambiente. É a estas, a meu ver, que precisamos dedicar atenção e recursos para sua eliminação ou pelo menos explicar por que elas estão erradas.

Mas não acho que outras ideias, como acreditar em óvnis, sejam especificamente perigosas. Acredito que nem mesmo o criacionismo seja tão perigoso como ser antivacinas, ou acreditar que as mudanças climáticas são uma farsa.

Devemos observar as pseudociências como algo inevitável e abordá-las de forma pragmática. Temos uma quantidade de recursos limitada e precisamos escolher quais doutrinas podem causar danos e como enfrentá-las.

Devemos simplesmente tratar de reduzir os danos que elas podem causar? Esse é o caso da vacinação obrigatória, cujo objetivo é evitar os danos, mas sem necessariamente convencer os opositores que eles estão equivocados. Devemos persuadi-los de que estão equivocados? Isso precisa ser examinado caso a caso.

Antivacuna
Existem em várias partes do mundo grupos que se opõem às vacinas contra a covid-19

BBC News Mundo – Como então devemos lidar com as pseudociências?

Gordin – Uma possibilidade é reconhecer que são pessoas interessadas na ciência.

Um terraplanista, por exemplo, é uma pessoa interessada na configuração da Terra. Significa que é alguém que teve interesse em pesquisar a natureza e, por alguma razão, seguiu a direção incorreta.

Pode-se então perguntar por que isso aconteceu. Pode-se abordar a pessoa, dizendo: “se você não acredita nesta evidência, em qual tipo de evidência você acreditaria?” ou “mostre-me suas evidências e vamos conversar”.

É algo que poderíamos fazer, mas vale a pena fazê-lo? É uma doutrina que não considero perigosa. Seria um problema se todos os governos do mundo pensassem que a Terra é plana, mas não vejo esse risco.

A versão contemporânea do terraplanismo surgiu há cerca de 15 anos. Acredito que os acadêmicos ainda não compreendem muito bem como aconteceu, nem por que aconteceu tão rápido.

Outra coisa que podemos fazer é não necessariamente persuadi-los de que estão equivocados, porque talvez eles não aceitem, mas tentar entender como esse movimento surgiu e se expandiu. Isso pode nos orientar sobre como enfrentar ameaças mais sérias.

cálculos
As pessoas que acreditam nas doutrinas marginais muitas vezes tomam elementos da ciência estabelecida para traçar suas conclusões

BBC News Mundo – Ameaças mais sérias como os antivacinas…

Gordin – As vacinas foram inventadas no século 18, sempre houve pessoas que se opusessem a elas, em parte porque todas as vacinas apresentam risco, embora seja muito baixo.

Ao longo do tempo, a forma como se lidou com a questão foi a instituição de um sistema de seguro que basicamente diz o seguinte: você precisa receber a vacina, mas se você receber e tiver maus resultados, nós compensaremos você por esses danos.

Tenho certeza de que isso ocorrerá com a vacina contra a covid, mas ainda não conhecemos todo o espectro, nem a seriedade dos danos que ela poderá causar. Mas os danos e a probabilidade de sua ocorrência parecem ser muito baixos.

Com relação aos antivacinas que acreditam, por exemplo, que a vacina contra a covid contém um chip, a única ação que pode ser tomada para o bem da saúde pública é torná-la obrigatória. Foi dessa forma que se conseguiu erradicar a pólio na maior parte do mundo, mesmo com a existência dos opositores à vacina.

BBC News Mundo – Mas torná-la obrigatória pode fazer com que alguém diga que a ciência está sendo usada com propósitos políticos ou ideológicos…

Gordin – Tenho certeza de que, se o Estado impuser uma vacina obrigatória, alguém dirá isso. Mas não se trata de ideologia. O Estado já obriga tantas coisas e já existem vacinas que são obrigatórias.

E o Estado faz todo tipo de afirmações científicas. Não é permitido o ensino do criacionismo nas escolas, por exemplo, nem a pesquisa de clonagem de seres humanos. Ou seja, o Estado já interveio muitas vezes em disputas científicas e procura fazer isso segundo o consenso científico.

BBC News Mundo – As pessoas que adotam as pseudociências o fazem com base no ceticismo, que é exatamente um dos valores fundamentais da ciência. É um paradoxo, não?

Gordin – Este é um dos motivos por que acredito que não haja uma linha divisória clara entre a ciência e a pseudociência. O ceticismo é uma ferramenta que todos nós utilizamos. A questão é sobre qual tipo de assuntos você é cético e o que pode convencê-lo de um fato específico.

No século 19, havia um grande debate se os átomos realmente existiam ou não. Hoje, praticamente nenhum cientista duvida da sua existência. É assim que a ciência funciona. O foco do ceticismo se move de um lado para outro com o passar do tempo. Quando esse ceticismo se dirige a assuntos que já foram aceitos, às vezes ocorrem problemas, mas há ocasiões em que isso é necessário.

A essência da teoria da relatividade de Einstein é que o éter — a substância através da qual as ondas de luz supostamente viajavam — não existe. Para isso, Einstein concentrou seu ceticismo em um postulado fundamental, mas o fez dizendo que poderiam ser preservados muitos outros conhecimentos que já eram considerados estabelecidos.

Portanto, o ceticismo deve ter um propósito. Se você for cético pelo simples fato de sê-lo, este é um processo que não produz avanços.

Mulher
O ceticismo é um dos princípios básicos da ciência

BBC News Mundo – É possível que, no futuro, o que hoje consideramos ciência seja descartado como pseudociência?

Gordin – No futuro, haverá muitas doutrinas que serão consideradas pseudociências, simplesmente porque existem muitas coisas que ainda não entendemos.

Existem muitas coisas que não entendemos sobre o cérebro ou o meio ambiente. No futuro, as pessoas olharão para muitas teorias e dirão que estão erradas.

Não é suficiente que uma teoria seja incorreta para que seja considerada pseudociência. É necessário que existam pessoas que acreditem que ela é correta, mesmo que o consenso afirme que se trata de um equívoco e que as instituições científicas considerem que, por alguma razão, ela é perigosa.

Hoje no Rock: Rock in Rio, 25 anos (Caio Mattos Experience)

Segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Hoje a primeira (e vamos combinar, a única) edição do Rock In Rio, completa 25 anos. Lembro bem da excitação da época e dos boatos, incluindo uma profecia de Nostradamus. O G1 preparou esta lista com 10 curiosidades bem legais. Taí pra voces!

No dia 11 de janeiro de 1985, os portões da Cidade do Rock se abriram para fazer história, inaugurando a era dos megafestivais de música pop no Brasil.

Há 25 anos, por dez dias, o Rock in Rio reuniu 29 artistas e 1,38 milhão de pessoas vibrando com o metal do Iron Maiden, se emocionando com James Taylor e quase nadando na lama nos dias mais chuvosos. As contas gastronômicas ajudam a dar a dimensão do evento – foram consumidos 1,2 milhão de sanduícules, 33 mil pizzas e 1,6 litros de cerveja, chope e refrigerante.

Além dos dados, nem todo mundo conhece outras histórias por trás do Rock in Rio, e o G1 selecionou alguns dos momentos mais curiosos do livro “Metendo o pé na lama”, escrito pelo diretor de arte Cid Castro, funcionário de Roberto Medina e criador da logomarca do festival. Confira abaixo dez curiosidades sobre o Rock in Rio I:

1 – Nostradamus x Bola – Circulavam boatos na época de que uma profecia de Nostradamus diria que um festival na América do Sul acabaria em tragédia. Para combater os rumores, a organização contratou um astrólogo, chamado Bola, para fazer o mapa astral do Rock in Rio. Ele disse que seria um festival tranquilo e acertou em cheio os resultados, até nos pontos baixos (falta de lucro e mau tempo).

2 – Era uma vez um pântano – A Cidade do Rock, arrendada em um campo ao lado do Autódromo de Jacarepaguá, levou três meses só para ter a base pronta. Em novembro de 1984, o pântano de 85 mil metros quadrados havia se transformado em uma área urbanizada com ruas, saneamento, área de lazer e heliporto. Foram necessários 55 mil caminhões de terra para adubar o aterro.

3 – Apostando tudo – Os potenciais patrocinadores do festival avisaram que só entrariam com o dinheiro depois que 50% das atrações internacionais estivessem confirmadas. Sem dinheiro para começar os trabalhos, Roberto Medina teve que dar o prédio de sete andares da agência Artplan como garantia para um empréstimo bancário.

4 – ‘Paitrocínio’ – O festival quase não aconteceu por falta de atrações. Apesar da experiência da Artplan, que já realizara shows de artistas como Barry White, Julio Iglesias e a apresentação lotada de Frank Sinatra no Maracanã com 160 ml pessoas, Roberto Medina passou 40 dias em Nova York correndo atrás de artistas, sem sucesso. Só depois da intervenção de seu pai Abraham Medina, preocupado com o sucesso da operação, é que as coisas começaram a andar – ele publicou matérias pagas em jornais estrangeiros e organizou um cocktail em Los Angeles, e então os contratos começaram a ser fechados.

5 – Jeitinho brasileiro – Para dar agilidade na troca de artistas do festival, que tinha apenas um palco, o cenógrafo Mário Monteiro criou uma estrutura móvel com três “palcos” distintos, correndo sobre trilhos – enquanto uma banda tocava, o equipamento da outra era preparado no tablado lateral.

6 – Saúde é o que interessa – Sem bebidas alcoólicas no camarim, os metaleiros do Whitesnake tinham direito a personal trianer e aquecimento com ginástica antes do show, correndo pela área de camarins. Completavam o time um nutricionista e um massagista.

7 – New wave – A baixista Tina Weymouth e o baterista Chris Frantz, casal que na época integrava o Talking Heads, tocaram como convidados especiais dos colegas da new wave norte-americana B-52s.

8 – Fazendo média – Matthias Jabs, guitarrista do Scorpions, tocou com uma guitarra com o corpo com o formato da América do Sul, inspirado no logo do festival. Para não fazer feio em cima do palco, a banda ainda contava com um coreógrafo, e cada pulo e giro de microfone era ensaiado.

9 – Sinos do inferno – O sino que o AC/DC tocava no início de “Hell’s bells” pesava 1.500 quilos, e teve que ser trazido de navio. Mas, na hora de subir no palco, não deu: a estrutura não aguentaria o peso. A solução foi uma réplica de gesso do sino, e a badalada foi disparada eletronicamente.

10 – Proibido comer morcegos – Com medo de que Ozzy Osbourne cometesse alguma loucura como comer morcegos no palco, a organização o proibiu contratualmente de abocanhar qualquer animal vivo durante o show. Para garantir que a cláusula fosse cumprida, membros da sociedade protetora dos animais fiscalizaram o show.

Postado por Caio Mattos às 02:54 Marcadores: Hoje no Rock, rock in rio

 

2 comentários:

(…)

Danfern disse…

Po, essa história da pajelança do Bola eu não sabia!
E eu achando que Fundação Cacique Cobra Coral era ‘privilégio’ dos nossos tempos…rs