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>Mudança Climática e conflito social estão associados? (JC)

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JC e-mail 4202, de 17 de Fevereiro de 2011

Artigo do ambientalista Sérgio Abranches, do Ecopolítica para o Plural em site

Eventos climáticos extremos podem ter tido efeito importante nos levantes populares no Oriente Médio e Norte da África? A mudança climática já está afetando as relações sociais?

A questão pode parecer uma dessas vias forçadas para alertar sobre a mudança climática. Mas não é. É uma preocupação relevante e essa conexão já vem sendo estudada por cientistas das mais diversas áreas, climatologistas, ecologistas, sociólogos, economistas. A pergunta é mais complexa do que ela aparenta à primeira vista. Ela indaga sobre duas relações nada triviais: entre eventos climáticos extremos e mudança climática e entre anomalias climáticas e conflito social.

Os cientistas resistem sempre a atribuir à emergência de eventos climáticos extremos específicos à mudança climática. Argumentam, com razão, que não há base científica para associar um evento em particular ao fenômeno global e de longo prazo da mudança climática. Mas o climatologista Kevin Trenberth, diretor da Seção de Análise Climática do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, nos Estados Unidos, defendeu recentemente uma visão diferente desse problema, conhecido na ciência climática como “o problema da atribuição”. Em entrevista exclusiva ao editor do blog Climate Progress, o físico Joseph Romm, Trenberth disse que:

Os cientistas sempre começam com a afirmação de que não se pode atribuir um evento isolado à mudança climática. Mas ela tem uma influência sistemática sobre todos esses eventos climáticos atuais, segundo ele, por causa do fato de que há mais vapor d’água circulando na atmosfera do que se tinha, digamos, trinta anos atrás. É uma quantidade extra de 4% de vapor d’água. Ele aumenta a força das tempestades, dá mais umidade para essas tempestades e é ruim que o público não veja isto como uma manifestação da mudança climática. A perspectiva é que esse tipo de coisa só aumentará e piorará no futuro.

A quantidade de gases estufa na atmosfera, segundo a maioria dos cientistas, já tem um efeito de aceleração do aquecimento da Terra. Portanto, a mudança climática decorrente deve ser vista como um processo em curso com tendência de agravamento ao longo do tempo. Ou seja, é de longo prazo, mas as coisas não acontecem todas no futuro de uma vez só. Vão acontecendo progressivamente, com aumento de frequência e intensidade.

E qual a relação com os fatos no Oriente Médio e na África do Norte?

Tivemos um período atípico de grande quantidade de eventos climáticos extremos em 2010 e no início deste ano. Secas, enchentes, ondas de calor e frio, tempestades intensas, nevascas, queimadas. Esses eventos afetaram negativamente a produção agrícola mundial em todas as partes do mundo: os casos mais exemplares foram no Casaquistão, na Rússia, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, na China e no Brasil. O resultado foi uma forte alta dos preços internacionais das commodities agrícolas e inflação de preços de alimentos. Uma inflação climática.

O blog Climate Progress organizou uma série de referências de cientistas e da imprensa a essas relações. Entre elas, estudo dos economistas Rabah Arezki, do FMI, e Markus Brückner, da Universidade de Adelaide na Austrália. Eles estudaram o efeito de variações nos preços internacionais de alimentos sobre as instituições democráticas e conflitos internos em mais de 120 países, entre 1970 e 2007. Essa análise mostra que existe uma clara relação para os países de baixa renda: observa-se a deterioração das instituições democráticas e o aumento da incidência de conflitos de rua, demonstrações anti-governo, e movimentos de massa.

Por que nos países de baixa renda? Nos países de renda alta essa relação não é significativa. Porque quanto menor a renda do país, maior a participação dos alimentos no orçamento doméstico e, portanto, maior a sensibilidade da população a elevações fortes do preço da comida.

Estudos históricos mostram que há relação entre mudança climática e colapso social. Quebras de safra e consequente elevação dos preços de comida são causas frequentes de levantes populares e revoluções na história da sociedade moderna e contemporânea. A história do próprio Egito registra casos históricos de conflitos associados ao preço dos grãos (infelizmente não tenho cópia digital deste artigo). Na Índia, também foram muitos os episódios. O mais notável talvez tenha sido a “revolta dos grãos” de 1918, provocada por desabastecimento e elevação de preços dos grãos resultante de monções com chuvas excepcionalmente fracas.

Em vários desses episódios históricos a relação era direta: a elevação dos preços dos alimentos causava a revolta. No caso atual, as causas são outras. Para entender o que se passa no Egito, por exemplo, é preciso distinguir entre o que causa o descontentamento profundo e o que detona a revolta. O que causou o descontentamento foi a própria tirania. Um governo autocrático, um ditador no poder por 30 anos, uma administração corrupta. Repressão, censura, prisões arbitrárias, tortura. No plano social, muita pobreza, imensa desigualdade de renda e de riqueza, falta de perspectiva de mobilidade social para os jovens. Nos últimos anos houve várias manifestações de protesto, todas duramente reprimidas, mas nenhuma do porte da revolta de massas que começou no dia 25.

O que detona o levante das massas? Uma conjuntura, isto é, uma convergência de fatores, antes dissociados, que se encontram e formam “a gota d’água”, provocam a virada, o tipping point, que levam um protesto como outros inúmeros se transformar em explosão de descontentamento geral, em revolta incontrolável e espontânea da massa.

No Egito houve fatores econômicos, políticos e aceleradores importantes que criaram essa conjuntura. O econômico foi a elevação dos preços dos alimentos, que atingiu duramente as famílias mais pobres. A subida dos preços do petróleo, moradia e educação, bateu no orçamento da classe média. Esse choque de preços ocorreu em uma economia debilitada, na qual o desemprego de jovens é muito alto. O desemprego agrava uma situação de baixa mobilidade social, anulando as perspectivas de futuro dos jovens. Em alguns casos, jovens com qualificação sofrem descenso social, sendo forçados a trabalhar em setores de baixa qualificação. O desespero dos jovens se transmite facilmente para os pais e famílias.

O fator político foi a notícia de que o filho de Hosni Mubarak, Gamal Mubarak, seria seu sucessor, provavelmente já como candidato nas eleições de cartas marcadas previstas para setembro. A possibilidade de uma dinastia Mubarak provocou enorme rejeição, em um país de passado dinástico.

O quadro sócio-econômico no Egito não é muito diferente do que se observa nos outros países. Na Tunísia, no Sudão, mesmo na Arábia Saudita, há tirania, muita pobreza, desigualdade de renda e riqueza, desemprego de jovens e elevação de preços de alimentos. Ouvi recentemente entrevista de um dos príncipes sauditas, na CNN, falando que a situação em seu país é diferente, mas que há, realmente, insatisfação com o aumento de preços dos alimentos e da moradia. O governo aumentou os salários para que pudessem absorver o custo adicional. A evidência mostra que subsídios e aumentos salariais para compensar os efeitos da inflação alimentar têm efeito temporário e acabam por realimentar os preços.

No Egito, o aumento dos preços dos alimentos foi muito forte, como se vê no gráfico em – http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Inflation-in-Egypt.jpg

Os preços dos alimentos subiram 40% e os de moradia e educação, mais de 10%. Os pobres são sensíveis à inflação nos alimentos e na moradia. A classe média à inflação na educação, na moradia e nos combustíveis.

O que acelerou a revolta e permitiu que se transformasse em um movimento de massa, muito rapidamente? As mídias e redes sociais e o efeito-demonstração do levante na Tunísia, que se propagou por essas vias digitais. É evidente que as mídias e redes sociais não fazem revoluções. Elas são uma revolução na forma como nos comunicamos e trocamos informação. Nisso têm sido revolucionárias. Mas, na sociologia dos conflitos sociais seu papel é de acelerador e transmissor, permitindo, por exemplo, o contágio inicial, que depois passa a se dar por contato físico, nas ruas e nas praças, e na propagação de eventos que acabam tendo o efeito de aumentar a propensão à ação.

Além disso, podem ter o efeito de prolongar o contágio. A sociologia já decifrou como terminam os processos por contágio, como os arrastões, por exemplo: quando não há mais pessoas a contagiar e a cadeia se quebra. As redes e mídias sociais – no caso do Egito principalmente o SMS – trazem mais pessoas para o movimento e realimentam o contágio.

Não é por acaso que essas revoltas ocupam as ruas e praças das cidades. O meio urbano é muito mais propício ao contágio das massas. O crescimento da população com acesso à telefonia celular dá o principal instrumento de contágio. Veja os gráficos para o Egito (http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Egypt-Mobile-subs.jpg) e a Tunísia (http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Tunisia-Mobile-subs.jpg).

Mas a internet teve importante papel de manter o mundo informado sobre o que se passava no Egito, provavelmente evitando um banho de sangue, e na comunicação entre os egípcios. E por isso o governo fechou o acesso à Web.

Nada é simples nesse processo. Estamos falando da convergência de processos complexos no sistema climático, no sistema social e na sociedade global. Essa convergência só aumentará nos próximos anos e décadas. Viveremos mais turbulência climática e social, no meio de uma revolução científica e tecnológica sem precedentes.

Para ouvir o comentário do autor na rádio CBN acesse http://www.ecopolitica.com.br/2011/02/02/mudanca-climatica-e-conflito-social-estao-associados

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>Surging food costs hit poor nations hard; biofuels compound problem (AP)

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JOE McDONALD, AP Business Writer
Associated Press
June 06, 2010, 7:59PM

In this photo taken May 28, 2010, an elderly Assamese man ties grain in a rice paddy in the village of Mayong, about 30 miles east of Gauhati, India.

BEIJING, China – Families from Pakistan to Argentina to Congo are being battered by surging food prices that are dragging more people into poverty, fueling political tensions and forcing some to give up eating meat, fruit and even tomatoes.

Scraping to afford the next meal is still a grim daily reality in the developing world even though the global food crisis that dominated headlines in 2008 quickly faded in the U.S. and other rich countries.

With food costing up to 70 percent of family income in the poorest countries, rising prices are squeezing household budgets and threatening to worsen malnutrition, while inflation stays moderate in the United States and Europe. Compounding the problem in many countries: prices hardly fell from their peaks in 2008, when global food prices jumped in part due to a smaller U.S. wheat harvest and demand for crops to use in biofuels.

Majeedan Begum, a Pakistani mother of five, said a bag of flour for bread, the staple of her family’s diet, costs three times what it did two years ago in her hometown of Multan. She can no longer afford meat or fruit.

“My domestic budget has been ruined,” said Begum, 35.

The U.N. Food and Agriculture Organization’s food price index — which includes grains, meat, dairy and other items in 90 countries — was up 22 percent in March from a year earlier though still below 2008 levels. In some Asian markets, rice and wheat prices are 20 to 70 percent above 2008 levels, it says.

Many governments blame dry weather and high fuel costs but critics in countries such as India, Argentina and Egypt say misguided policies are making shortages worse and collusion by suppliers might be pushing up prices.

No single factor explains the inflation gap between developing and developed countries but poorer economies are more vulnerable to an array of problems that can push up prices, and many are cropping up this year.

Little guy hit harder

Farmers with less land and irrigation are hit harder by drought and floods. Civil war and other conflicts can disrupt supplies. Prices in import-dependent economies spike up when the local currency weakens, as Pakistan’s rupee has this year.

Costs also have been pushed up by a rebound in global commodity prices, especially for soy destined for Asian consumption. That has prompted a shift in Argentina and elsewhere to produce more for export, which has led to local shortages of beef and other food. The global financial crisis hurt food production in some countries by making it harder for farmers to get credit for seed and supplies.

In Mauritania in West Africa, rice prices doubled over the first three months of the year, according to the World Food Program. Over the same period, the price of corn rose 59 percent in Zimbabwe and 57 percent in neighboring Mozambique.

In Kinshasa in the Democratic Republic of Congo, Mami Monga pays $25 for a box of fish that cost $10 a year ago. The price of a 25-kilogram bag of rice has doubled to $30.

“Today I am obliged to buy half the food I used to buy mid-last year,” said Mami, a mother of five. 

“Ratchet effect” locks in price hikes

Kinshasa shopkeeper Abedi Patelli said prices rise when the exchange rate of Congo’s currency falls. “But when our currency improves against the U.S. dollar, prices don’t fall,” he said. “They remain steady.”

WFP spokesman Greg Barrow said poorer countries can suffer a “ratchet effect” that locks in price rises due to high transportation costs and limited competition.

“Prices dropped fairly dramatically toward the end of 2008 on international markets but we found prices remained relatively high in many local markets in developing countries,” said Barrow.

After the cost of food rises, “it tends to take a long time to go down,” he said.

The FAO said the double blow of the global recession and high food prices has pushed 100 million people into poverty.

Opposition parties have organized protests in Pakistan. In Egypt, a 50 percent jump in meat prices in recent weeks has helped to fuel demonstrations outside parliament over wages and other economic issues.

“I am afraid that I will wake up one day and not able to get enough bread for my 12-member family,” said Aboulella Moussa, a doorman at a Cairo apartment building.

People interviewed in a number of countries said they are coping not just by cutting out expensive items but by eating less — a trend that has stirred concern about malnutrition.

In the 2008 inflation spike, WFP found families in some countries skipped meals or switched to eating corn husks or other low-quality produce. “Over the long term, this would lead to the effects of chronic malnutrition,” Barrow said.

“So we eat less”

“It’s expensive, so we eat less,” said Seema Valmiki, 35, who is raising three children in New Delhi with her husband on his 6,000-rupee ($135) monthly income as a driver.

Valmiki can no longer afford meat, fruit or fish and has put off buying her children new school uniforms, toys and a bicycle.

“If we buy them fruit, we can’t buy them food” like rice, dal and vegetables, she said.

In China, food costs rose 5.9 percent in April over a year ago — a modest rate for a country that suffered 20 percent-plus inflation in 2008. But it was enough to prompt the communist government to try to reassure the public with pledges that prices will ease as the spring harvest comes in. It also threatened to punish price gouging in a new effort to cool inflation.

Even in moderately prosperous nations such as Venezuela, shoppers say they can no longer afford meat and scour markets for bargains.

In Argentina, soy production has taken over more than 32 million acres (13 million hectares) of grassland once used to raise cattle and replaced less profitable wheat and corn as well, driving up prices in supermarkets.

Argentina’s government has responded with higher taxes, export limits, controls on supermarket prices of meat, wheat and corn, subsidies to food producers and pay hikes of 30 percent for union workers. The moves have temporarily eased the pain but beef producers have thinned their herds in response to government intervention and the price of meat has doubled in the last year.

Cutting out meat, tomatoes

“Before, we would eat meat three times a week. Now it’s once, with luck,” said Marta Esposito, a 45-year-old mother of two in Buenos Aires. “Tomatoes, don’t even talk about it. We eat whatever is the cheapest.”

Venezuela’s 30.4 percent inflation is among the world’s highest. The oil-rich country is a major food importer and its bolivar has tumbled against the dollar, forcing up prices in local markets. In April, food prices rose 11 percent over the previous month.

The Venezuelan government has imposed price controls and arrested some shopkeepers for violating them. But the controls have led to shortages of beef, sugar, corn meal and butter, forcing the government to allow some prices to rise by 20 percent this year.

Elsewhere, rising prices highlight a more basic problem: making sure farm productivity keeps pace with burgeoning populations.

India’s food prices were up 17 percent in April over a year earlier but the government hopes normal rainfall this growing season will increase supplies. The rise has been driven in part by growing demand from the rural poor, who can afford to spend more on food thanks to government debt-relief and job-creation programs.

Longer term, experts say India, with more than 1 billion people, has to speed up growth in farm production if it is to keep up with demand.

“Our capacity to feed every Indian is systematically declining with time,” said Harsh Mander, who was appointed by India’s Supreme Court to monitor hunger. “World markets can’t bail us out.”

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McDonald reported from Beijing. AP Business Writer Erika Kinetz in Mumbai, researcher Bonnie Cao in Beijing and Associated Press Writers Debora Rey in Buenos Aires, Salah Nasrawi in Cairo, Sebastian Abbot in Islamabad, Fabiola Sanchez in Caracas, Patrice Chitera in Kinshasa and Tran Van Minh in Hanoi contributed to this report.

>Rebecca Solnit: When the Media Is the Disaster – Covering Haiti

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When the Media Is the Disaster
Covering Haiti
By Rebecca Solnit

Soon after almost every disaster the crimes begin: ruthless, selfish, indifferent to human suffering, and generating far more suffering. The perpetrators go unpunished and live to commit further crimes against humanity. They care less for human life than for property. They act without regard for consequences.

I’m talking, of course, about those members of the mass media whose misrepresentation of what goes on in disaster often abets and justifies a second wave of disaster. I’m talking about the treatment of sufferers as criminals, both on the ground and in the news, and the endorsement of a shift of resources from rescue to property patrol. They still have blood on their hands from Hurricane Katrina, and they are staining themselves anew in Haiti.

Within days of the Haitian earthquake, for example, the Los Angeles Times ran a series of photographs with captions that kept deploying the word “looting.” One was of a man lying face down on the ground with this caption: “A Haitian police officer ties up a suspected looter who was carrying a bag of evaporated milk.” The man’s sweaty face looks up at the camera, beseeching, anguished.

Another photo was labeled: “Looting continued in Haiti on the third day after the earthquake, although there were more police in downtown Port-au-Prince.” It showed a somber crowd wandering amid shattered piles of concrete in a landscape where, visibly, there could be little worth taking anyway.

A third image was captioned: “A looter makes off with rolls of fabric from an earthquake-wrecked store.” Yet another: “The body of a police officer lies in a Port-au-Prince street. He was accidentally shot by fellow police who mistook him for a looter.”

People were then still trapped alive in the rubble. A translator for Australian TV dug out a toddler who’d survived 68 hours without food or water, orphaned but claimed by an uncle who had lost his pregnant wife. Others were hideously wounded and awaiting medical attention that wasn’t arriving. Hundreds of thousands, maybe millions, needed, and still need, water, food, shelter, and first aid. The media in disaster bifurcates. Some step out of their usual “objective” roles to respond with kindness and practical aid. Others bring out the arsenal of clichés and pernicious myths and begin to assault the survivors all over again.

The “looter” in the first photo might well have been taking that milk to starving children and babies, but for the news media that wasn’t the most urgent problem. The “looter” stooped under the weight of two big bolts of fabric might well have been bringing it to now homeless people trying to shelter from a fierce tropical sun under improvised tents.

The pictures do convey desperation, but they don’t convey crime. Except perhaps for that shooting of a fellow police officer — his colleagues were so focused on property that they were reckless when it came to human life, and a man died for no good reason in a landscape already saturated with death.

In recent days, there have been scattered accounts of confrontations involving weapons, and these may be a different matter. But the man with the powdered milk? Is he really a criminal? There may be more to know, but with what I’ve seen I’m not convinced.

What Would You Do?

Imagine, reader, that your city is shattered by a disaster. Your home no longer exists, and you spent what cash was in your pockets days ago. Your credit cards are meaningless because there is no longer any power to run credit-card charges. Actually, there are no longer any storekeepers, any banks, any commerce, or much of anything to buy. The economy has ceased to exist.

By day three, you’re pretty hungry and the water you grabbed on your way out of your house is gone. The thirst is far worse than the hunger. You can go for many days without food, but not water. And in the improvised encampment you settle in, there is an old man near you who seems on the edge of death. He no longer responds when you try to reassure him that this ordeal will surely end. Toddlers are now crying constantly, and their mothers infinitely stressed and distressed.

So you go out to see if any relief organization has finally arrived to distribute anything, only to realize that there are a million others like you stranded with nothing, and there isn’t likely to be anywhere near enough aid anytime soon. The guy with the corner store has already given away all his goods to the neighbors. That supply’s long gone by now. No wonder, when you see the chain pharmacy with the shattered windows or the supermarket, you don’t think twice before grabbing a box of PowerBars and a few gallons of water that might keep you alive and help you save a few lives as well.

The old man might not die, the babies might stop their squalling, and the mothers might lose that look on their faces. Other people are calmly wandering in and helping themselves, too. Maybe they’re people like you, and that gallon of milk the fellow near you has taken is going to spoil soon anyway. You haven’t shoplifted since you were 14, and you have plenty of money to your name. But it doesn’t mean anything now.

If you grab that stuff are you a criminal? Should you end up lying in the dirt on your stomach with a cop tying your hands behind your back? Should you end up labeled a looter in the international media? Should you be shot down in the street, since the overreaction in disaster, almost any disaster, often includes the imposition of the death penalty without benefit of trial for suspected minor property crimes?

Or are you a rescuer? Is the survival of disaster victims more important than the preservation of everyday property relations? Is that chain pharmacy more vulnerable, more a victim, more in need of help from the National Guard than you are, or those crying kids, or the thousands still trapped in buildings and soon to die?

It’s pretty obvious what my answers to these questions are, but it isn’t obvious to the mass media. And in disaster after disaster, at least since the San Francisco earthquake of 1906, those in power, those with guns and the force of law behind them, are too often more concerned for property than human life. In an emergency, people can, and do, die from those priorities. Or they get gunned down for minor thefts or imagined thefts. The media not only endorses such outcomes, but regularly, repeatedly, helps prepare the way for, and then eggs on, such a reaction.

If Words Could Kill

We need to banish the word “looting” from the English language. It incites madness and obscures realities.

“Loot,” the noun and the verb, is a word of Hindi origin meaning the spoils of war or other goods seized roughly. As historian Peter Linebaugh points out, “At one time loot was the soldier’s pay.” It entered the English language as a good deal of loot from India entered the English economy, both in soldiers’ pockets and as imperial seizures.

After years of interviewing survivors of disasters, and reading first-hand accounts and sociological studies from such disasters as the London Blitz and the Mexico City earthquake of 1985, I don’t believe in looting. Two things go on in disasters. The great majority of what happens you could call emergency requisitioning. Someone who could be you, someone in the kind of desperate circumstances I outlined above, takes necessary supplies to sustain human life in the absence of any alternative. Not only would I not call that looting, I wouldn’t even call that theft.

Necessity is a defense for breaking the law in the United States and other countries, though it’s usually applied more to, say, confiscating the car keys of a drunk driver than feeding hungry children. Taking things you don’t need is theft under any circumstances. It is, says the disaster sociologist Enrico Quarantelli, who has been studying the subject for more than half a century, vanishingly rare in most disasters.

Personal gain is the last thing most people are thinking about in the aftermath of a disaster. In that phase, the survivors are almost invariably more altruistic and less attached to their own property, less concerned with the long-term questions of acquisition, status, wealth, and security, than just about anyone not in such situations imagines possible. (The best accounts from Haiti of how people with next to nothing have patiently tried to share the little they have and support those in even worse shape than them only emphasize this disaster reality.) Crime often drops in the wake of a disaster.

The media are another matter. They tend to arrive obsessed with property (and the headlines that assaults on property can make). Media outlets often call everything looting and thereby incite hostility toward the sufferers as well as a hysterical overreaction on the part of the armed authorities. Or sometimes the journalists on the ground do a good job and the editors back in their safe offices cook up the crazy photo captions and the wrongheaded interpretations and emphases.

They also deploy the word panic wrongly. Panic among ordinary people in crisis is profoundly uncommon. The media will call a crowd of people running from certain death a panicking mob, even though running is the only sensible thing to do. In Haiti, they continue to report that food is being withheld from distribution for fear of “stampedes.” Do they think Haitians are cattle?

The belief that people in disaster (particularly poor and nonwhite people) are cattle or animals or just crazy and untrustworthy regularly justifies spending far too much energy and far too many resources on control — the American military calls it “security” — rather than relief. A British-accented voiceover on CNN calls people sprinting to where supplies are being dumped from a helicopter a “stampede” and adds that this delivery “risks sparking chaos.” The chaos already exists, and you can’t blame it on these people desperate for food and water. Or you can, and in doing so help convince your audience that they’re unworthy and untrustworthy.

Back to looting: of course you can consider Haiti’s dire poverty and failed institutions a long-term disaster that changes the rules of the game. There might be people who are not only interested in taking the things they need to survive in the next few days, but things they’ve never been entitled to own or things they may need next month. Technically that’s theft, but I’m not particularly surprised or distressed by it; the distressing thing is that even before the terrible quake they led lives of deprivation and desperation.

In ordinary times, minor theft is often considered a misdemeanor. No one is harmed. Unchecked, minor thefts could perhaps lead to an environment in which there were more thefts and so forth, and a good argument can be made that, in such a case, the tide needs to be stemmed. But it’s not particularly significant in a landscape of terrible suffering and mass death.

A number of radio hosts and other media personnel are still upset that people apparently took TVs after Hurricane Katrina hit New Orleans in August 2005. Since I started thinking about, and talking to people about, disaster aftermaths I’ve heard a lot about those damned TVs. Now, which matters more to you, televisions or human life? People were dying on rooftops and in overheated attics and freeway overpasses, they were stranded in all kinds of hideous circumstances on the Gulf Coast in 2005 when the mainstream media began to obsess about looting, and the mayor of New Orleans and the governor of Louisiana made the decision to focus on protecting property, not human life.

A gang of white men on the other side of the river from New Orleans got so worked up about property crimes that they decided to take the law into their own hands and began shooting. They seem to have considered all black men criminals and thieves and shot a number of them. Some apparently died; there were bodies bloating in the September sun far from the region of the floods; one good man trying to evacuate the ruined city barely survived; and the media looked away. It took me months of nagging to even get the story covered. This vigilante gang claimed to be protecting property, though its members never demonstrated that their property was threatened. They boasted of killing black men. And they shared values with the mainstream media and the Louisiana powers that be.

Somehow, when the Bush administration subcontracted emergency services — like providing evacuation buses in Hurricane Katrina — to cronies who profited even while providing incompetent, overpriced, and much delayed service at the moment of greatest urgency, we didn’t label that looting.

Or when a lot of wealthy Wall Street brokers decide to tinker with a basic human need like housing…. Well, you catch my drift.

Woody Guthrie once sang that “some will rob you with a six-gun, and some with a fountain pen.” The guys with the six guns (or machetes or sharpened sticks) make for better photographs, and the guys with the fountain pens not only don’t end up in jail, they end up in McMansions with four-car garages and, sometimes, in elected — or appointed — office.

Learning to See in Crises

Last Christmas a priest, Father Tim Jones of York, started a ruckus in Britain when he said in a sermon that shoplifting by the desperate from chain stores might be acceptable behavior. Naturally, there was an uproar. Jones told the Associated Press: “The point I’m making is that when we shut down every socially acceptable avenue for people in need, then the only avenue left is the socially unacceptable one.”

The response focused almost entirely on why shoplifting is wrong, but the claim was also repeatedly made that it doesn’t help. In fact, food helps the hungry, a fact so bald it’s bizarre to even have to state it. The means by which it arrives is a separate matter. The focus remained on shoplifting, rather than on why there might be people so desperate in England’s green and pleasant land that shoplifting might be their only option, and whether unnecessary human suffering is itself a crime of sorts.

Right now, the point is that people in Haiti need food, and for all the publicity, the international delivery system has, so far, been a visible dud. Under such circumstances, breaking into a U.N. food warehouse — food assumedly meant for the poor of Haiti in a catastrophic moment — might not be “violence,” or “looting,” or “law-breaking.” It might be logic. It might be the most effective way of meeting a desperate need.

Why were so many people in Haiti hungry before the earthquake? Why do we have a planet that produces enough food for all and a distribution system that ensures more than a billion of us don’t have a decent share of that bounty? Those are not questions whose answers should be long delayed.

Even more urgently, we need compassion for the sufferers in Haiti and media that tell the truth about them. I’d like to propose alternative captions for those Los Angeles Times photographs as models for all future disasters:

Let’s start with the picture of the policeman hogtying the figure whose face is so anguished: “Ignoring thousands still trapped in rubble, a policeman accosts a sufferer who took evaporated milk. No adequate food distribution exists for Haiti’s starving millions.”

And the guy with the bolt of fabric? “As with every disaster, ordinary people show extraordinary powers of improvisation, and fabrics such as these are being used to make sun shelters around Haiti.”

For the murdered policeman: “Institutional overzealousness about protecting property leads to a gratuitous murder, as often happens in crises. Meanwhile countless people remain trapped beneath crushed buildings.”

And the crowd in the rubble labeled looters? How about: “Resourceful survivors salvage the means of sustaining life from the ruins of their world.”

That one might not be totally accurate, but it’s likely to be more accurate than the existing label. And what is absolutely accurate, in Haiti right now, and on Earth always, is that human life matters more than property, that the survivors of a catastrophe deserve our compassion and our understanding of their plight, and that we live and die by words and ideas, and it matters desperately that we get them right.

Copyright 2010 Rebecca Solnit

>EUA: Um sexto das famílias passaram fome em 2008

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Por Jim Lobe, da IPS – Revista Envolverde
17/11/2009 – 11h11

Washington, 17/22/2009 – Um em cada seis lares norte-americanos passou fome em algum momento do ano passado, segundo o Departamento de Agricultura. Trata-se da maior incidência da fome desde que teve início o estudo da segurança alimentar nos Estados Unidos, em 1995. No total, 14,6% dos lares, que equivalem a cerca de 49 milhões de pessoas, “tiveram ocasionalmente problemas para levar à mesa comida suficiente durante o ano”, afirma o informe Segurança Alimentar das Famílias nos Estados Unidos, 2008, divulgado ontem.

Isto representa um notável aumento em relação à quantidade de população que passou as mesmas penúrias em 2007, 11,1% dos lares, ou 36,2 milhões de pessoas. E seguramente este ano a proporção será maior, devido aos persistentes efeitos da crise econômica que começou a se manifestar há 14 meses. Do grupo de 17 milhões de famílias que passaram fome – ou “insegurança alimentar”, segundo o informe – um terço suportaram uma “segurança muito baixa’, o que significa que a quantidade de alimento disponível para pelo menos alguns membros dessas famílias diminuiu e seus níveis normais de alimentação foram alterados.

Esses lares sofreram tais dificuldades pelo menos vários dias durante sete ou oito meses do ano. Os outros dois terços puderam conseguir comida suficiente para evitar alterações substanciais por meio de diferentes estratégias, com dieta menos variada, programas governamentais de ajuda alimentar e nutricional ou restaurantes públicos e despensas comunitárias. A quantidade de famílias nas quais as crianças, tanto quanto os adultos, sofreram “segurança alimentar muito baixa” aumentou notavelmente de 323 mil em 2007 para 506 mil no ano passado.

O presidente Barack Obama qualificou de “inquietantes” as revelações do informe, em declaração divulgada desde a China, última etapa de sua viagem pela Ásia. “Esta tendência é dolorosamente evidente em muitas comunidades de nosso país onde os vales de alimentação se multiplicam e as prateleiras das despensas se esvaziam”, disse Obama. “É especialmente complicado haver mais de 500 mil famílias com pelo menos uma criança que passou fome muitas vezes ao longo de um ano. A capacidade de nossos filhos de crescer, aprender e conseguir suas potencialidades, e, portanto, de nossa competitividade futura como nação, depende do acesso a comida saudável”, acrescentou.

Dos 49 milhões de pessoas que passaram fome pelo menos uma vez em 2008, 16,7 milhões eram crianças, segundo o informe, 4,2 milhões a mais do que em 2007 e o registro mais alto desde 1995. “Estes dados não são uma surpresa. O que deveria nos comover é que quase uma em cada quatro crianças de nosso país vive à beira da fome”, afirmou David Beckmann, presidente da Pão para o Mundo, organização nacional que também realiza programas em países pobres.

Feeding America (Alimentando os Estados Unidos), a maior organização de ajuda alimentar do país, disse que as estatísticas coincidem com sua própria experiência em comunidades nas quais dirige cerca de 200 bancos de alimentos que atendem a mais de 25 milhões de pessoas pro ano. “É trágico tanta gente nesta nação da abundãncia não ter acesso à quantidade necessária de comida nutritiva”, disse Vicki Escarra, presidente e diretora-executiva da Feeding America. “E é de se destacar que esses números refletem o estado de nossa nação um ano atrás”, acrescentou. A economia continuou se debilitando e “é muito provável que haja muito mais gente lutando contra fome”, afirmou.

Os serviços prestados pela organização – despensas comunitárias, restaurantes e centros de emergência alimentar – registraram aumento de 50% na demanda por ajuda desde o ano passado. A taxa oficial de desemprego passou de 10% no mês passado, pela primeira vez desde o começo da década de 80, enquanto o ex-secretário do Trabalho, Robert Reich, estima a cifra “não oficial”, que inclui os desempregados que já não tentam conseguir trabalho e os subempregados, em 20%. A pesquisa de recessões anteriores indica que as pessoas que caem na pobreza em períodos de crise não se recuperam. “Muitos podem estar precisando de nossos serviços agora ou precisarão no futuro”, disse Escarra.

A insegurança alimentar, segundo o informe, se relaciona estreitamente com as famílias com renda igual ou menor do que a linha de pobreza (US$ 22.050 anuais para uma família de quatro pessoas) com um só progenitor, afro-descendentes e latino-americanos. O informe determina que a fome é mais comum em grandes cidades e zonas rurais do que nos subúrbios e prevalece mais no sudeste do país. O atual governo aumentou significativamente o financiamento para os cupões de alimento, ajuda alimentar de emergência e restaurantes escolares. Em sua declaração, Obama disse que espera aumentar esses itens para o próximo ano.

“As coisas poderiam estar muito piores se não tivéssemos amplos programas de assistência”, disse o secretário da Agricultura, Tom Vilsack. “Esta é uma grande ocasião para expor este problema”, acrescentou. Beckmann concorda: “A recessão agravou o problema da fome e o tornou mais visível. A consciência do público e o compromisso do governo me dão esperanças”, disse. “Para acabar com fome, nossos governantes devem fortalecer os programas de nutrição e fornecer empregos seguros que permitam aos pais fugir do ciclo da pobreza e alimentar suas famílias no futuro”, concluiu. (IPS/Envolverde)

>FOME: Cúpula sem agricultores, sem prazos e sem números

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Por Sabina Zaccaro, da IPS – Revista Envolverde
17/11/2009 – 11h11

Roma, 17/11/2009 – Os agricultores do mundo não são parte das delegações oficiais enviadas à Cúpula Mundial sobre a Segurança Alimentar, iniciada nesta segunda-feira (16) em Roma. Mas, se acertaram para chegar e expressar seus pontos de vista. Suas comunidades são as que mais sofrem o impacto da crise alimentar. Pequenos produtores da selva amazônica, da África, das ilhas do Pacífico e do Himalaia se reuniram na capital italiana por ocasião do Fórum pela Soberania alimentar dos Povos, que começou sexta-feira e termina hoje, paralelamente à cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

O objetivo do fórum foi debater sobre os sérios efeitos da crise nas comunidades agrícolas e camponesas. Os pequenos agricultores e outros pequenos produtores de alimentos representam mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo, estima o fórum da sociedade civil. “Produzem mais de 75% das necessidades alimentares do mundo mediante a agricultura camponesa e a pequena produção pecuária, além da pesca artesanal”, disseram os organizadores. Segundo a FAO, a quantidade de pessoas famintas no mundo aumentou este ano para 1,020 bilhão, devido à crise econômica mundial aos elevados preços dos alimentos e dos combustíveis, às secas e aos conflitos.

“A quantidade de famintos anunciada pela FAO inclui, em grande parte, os que produzem alimentos. E isto representa o aspecto mais incrível da fome”, disse à IPS Antonio Onorati, do Comitê Internacional de Planejamento da Sociedade Civil. Os conhecimentos e as práticas indígenas têm o potencial de melhorar a segurança alimentar local e mundial, mas ainda não são reconhecidos, de acordo com as organizações de produtores.

Por estes dias, as questões-chave sobre a mesa das entidades de agricultores e camponeses têm a ver com quem decide as políticas alimentares e agrícolas, onde são tomadas estas decisões, quem controla os recursos para produzir alimentos, como estes são obtidos e como ajudar as pessoas que não têm acesso diretamente a eles, isto é, os pobres das cidades. Os resultados de seu trabalho serão apresentados no fechamento da cúpula da FAO, amanhã.

Segundo Renée Vellvé, da organização não-governamental internacional Grain, o acesso e o direito à terra deveriam ser uma prioridade. “A atual tendência à compra e apropriação de terras se manifesta em países que têm dinheiro, mas dependem de compras no exterior para se alimentar, como Arábia Saudita, Coréia do Sul e outros. Vão à África e à Ásia para conseguir terras de cultivo a fim de produzir seus próprios alimentos no exterior”, disse Vellvé à IPS. “As companhias investidoras estão tentando fazer o mesmo apenas para ganhar dinheiro, por isso se vê governos e indústrias sacando os agricultores de suas terras, especialmente onde a posse não é segura. Isto afeta primeiro as mulheres, sobretudo na África”, acrescentou.

Nettie Wiebem, da rede internacional de movimentos e organizações rurais Via Camponesa, concorda que é fundamental devolver as terras aos pequenos agricultores. “É obvio, mas se esquece, que a produção de alimentos é absolutamente necessária para a segurança alimentar, ou seja, que os agricultores que produzem alimentos os coloquem no mercado”, disse à IPS. “Mas, agora estamos cada vez mais longe de nossos alimentos, particularmente nas nações em desenvolvimento, a ponto de a parte do produtor se esquecida, e, de fato, apagada por uma produção industrial corporativa”, acrescentou.

Segundo Wiebe, a agricultura e os mercados locais podem, inclusive, esfriar o planeta. “Uma reforma agrária real e genuína, adiada durante décadas, faria muito mais pelo clima do que qualquer acordo que possa resultar das próximas negociações em Copenhague”, afirmou. O especialista referia-se à 15ª Conferência sobre Mudança Climática que acontecerá de 7 a 18 de dezembro na capital dinamarquesa.

Vellvé afirmou que as organizações de agricultores já não acreditam nos códigos de conduta, pautas e princípios discutidos na FAO. “O problema é até onde pressionarão, e como se situam os governos”, disse. Assim, além dos recursos econômicos, o que os pequenos produtores pedem é uma mudança na tomada de decisões que afetam suas vidas. “Isto só pode acontecer se a comunidade local tem um papel nas decisões e se tem acesso e controle sobre os recursos produtivos locais”, afirmou Onorati.

O diretor-geal da FAO, Jacques Diouf – que no final de semana fez jejum de 24 horas em solidariedade aos que passam fome no mundo – pediu aos países ricos que aumentem a quantia que destinam anualmente à assistência agrícola de US$ 7,9 bilhões para US$ 44 bilhões. Mas o texto da declaração da cúpula já perdeu a cifra concreta de US$ 44 bilhões e a proposta da FAO de introduzir um compromisso com prazo preciso, no ano de 2025, para erradicar a fome no mundo.

“O texto é positivo quanto ao direito à alimentação, à promoção da agricultura sustentável e ao Comitê de Segurança Alimentar”, disse a ativista Sarah Gillam, da organização humanitária ActionAid, referindo-se ao corpo da FAO que está sendo reformado para ampliar a participação a novos atores e promover seu papel no combate à fome. Mas a declaração carece de “dentes’, dsse Gillam. Os Estados se comprometem a cumprir a meta do milênio de reduzir pela metade a população faminta até 2015 e prometem “agir de forma sustentada para erradicar a fome o mais rápido possível”.

A declaração inclui promessas de “elevar substancialmente a ajuda ao desenvolvimento destinada à agricultura e à segurança alimentar”. Mas, sem prazos e sem números, “este é um documento desprovido de instrumentos concretos para uma luta efetiva contra a fome”, disse Sergio Marelli, presidente do grupo assessor da sociedade civil na cúpula. (IPS/Envolverde)

* Com a contribuição de Paul Virgo (Roma).