Previsão do tempo no Sudeste é uma dor de cabeça para cientistas (Folha de S.Paulo)

15/02/2015

Peculiaridades do clima regional tornam difícil saber como ficará o nível do Cantareira mesmo no curto prazo

Área está sujeita à influência de vários fatores complexos, como umidade da Amazônia e frentes frias da Antártida

REINALDO JOSÉ LOPES

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

LUCAS VETTORAZZO

DO RIO

Se a sucessão de boas e más notícias sobre a chuva que abastece os reservatórios de São Paulo parece uma confusão só, não se preocupe: previsões climáticas sobre o Sudeste brasileiro podem confundir até especialistas.

Isso acontece porque a região mais populosa do Brasil ocupa uma área do globo terrestre que recebe todo tipo de influência complexa, desde a umidade oriunda da Amazônia até as frentes frias “sopradas” da Antártida.

Resultado: um nível de incerteza acima do normal numa seara que, por natureza, já é bastante incerta.

“Isso vale principalmente para prever o clima, ou seja, as variações de médio e longo prazo, mas também é verdade, ainda que em grau bem menor, para as previsões de tempo, ou seja, na escala de dias”, diz Tercio Ambrizzi, climatologista da USP.

Portanto, não é que o tempo seja mais instável na área do sistema Cantareira, o mais castigado pela atual crise e agora em ligeira recuperação. O que ocorre é que a região que abastece o Cantareira às vezes pode ficar mais sujeita a variações aleatórias de um sistema climático naturalmente complicado.

TEORIA DO CAOS

“Em escalas maiores do que 15 dias, faz décadas que está comprovado que o clima é caótico”, diz Gilvan Sampaio de Oliveira, meteorologista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

“Aliás, foi a partir daí que surgiu a teoria do caos”, afirma ele, referindo-se à ideia de que, em certos fenômenos complexos, pequenas mudanças no começo podem levar a alterações muito maiores e imprevisíveis no fim.

Em regiões tropicais, como é o caso de quase todo o território do Brasil, isso é ainda mais verdadeiro, porque o calor injeta mais energia na atmosfera, fazendo com que alterações do tempo aconteçam com mais velocidade e imprevisibilidade.

Além do calor, porém, o Sudeste também tem a desvantagem de que as variações climáticas por aqui dependem de fatores não oceânicos.

“Quando o clima de uma região depende do oceano, é bem mais fácil prevê-lo porque as variações oceânicas acontecem de forma bem mais lenta do que as da atmosfera”, explica Oliveira. “É o caso do semiárido nordestino, ligado basicamente às condições do oceano Pacífico e do Atlântico tropical. Se é ano de El Niño, com o Pacífico mais aquecido, a tendência é seca no Nordeste.”

Já as chuvas do Sudeste, em especial as de verão, estão ligadas principalmente à ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul), formada pela umidade da Amazônia, que se espalha numa grande faixa que atravessa o Brasil Central, e pelas frentes frias antárticas (veja infográfico).

“Quando essa zona se fortalece você pode ter chuva constante por três, quatro, cinco dias, e é bem comum isso acontecer no Carnaval, como inclusive deve acontecer neste ano”, diz Oliveira.

Em 2014 e, em menor grau, também neste ano, contudo, a ZCAS não atuou como deveria, com um bloqueio atmosférico impedindo que as chuvas de verão atingissem o Sudeste (e o Cantareira) em cheio. As chuvas constantes e bem distribuídas voltaram apenas nas últimas semanas, porque a ZCAS parece ter se “ajeitado” de novo.

Mesmo nesse cenário, isso não significa que as chuvas de verão cessem totalmente. Com o calor típico da estação, há um ciclo rápido de evaporação e chuva –mas é um padrão local, o que explica tempestades localizadas e inundações na Grande São Paulo, sem que essas precipitações façam cócegas no Cantareira.

Há ainda outro agravante, que talvez ajude a entender a fama de imprevisível da área. Até pouco tempo atrás, não havia estações pluviométricas confiáveis para medir o volume de chuva na região do Cantareira, conta José Marengo, climatologista do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

“Os pluviômetros mais próximos eram os de Campos do Jordão. Faltam registros históricos. Não podemos intercalar com os dados de Campos do Jordão porque é outro regime chuva.”

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