O apagão do planeta (O Estado de São Paulo)

Entrevista. Martin Rees

Indiferente aos ‘céticos do clima’, a Terra está cada vez mais quente e a previsão é de desastres devastadores até o fim do século, alerta astrônomo de Cambridge

Ivan Marsiglia

24 Janeiro 2015 | 16h 00

GUILHERME CALDAS E OLAVO ROCHA/DIVULGAÇÃO

GUILHERME CALDAS E OLAVO ROCHA/DIVULGAÇÃO 

Os desastres da gestão da água em São Paulo e dos apagões elétricos no País não são obra de São Pedro ou de Deus, esse brasileiro – como chegaram a atribuir certas autoridades. Mas foram ambos agravados por cenário maior, também de catástrofe anunciada, só que em escala global. Há anos o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), da ONU, alerta para o risco de mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, pregando praticamente no deserto. Na semana passada, somando-se ao aumento perceptível de eventos atmosféricos extremos mundo afora, um relatório da Nasa, a agência espacial americana, confirmou: 2014 foi o ano mais quente desde que essa medição começou a ser feita, em 1880. E, embora os cientistas “céticos do clima” continuem sua cruzada para esfriar os ânimos do ambientalismo, essa é uma realidade cada vez mais difícil de negar.

“Se as emissões anuais de CO2 continuarem a aumentar podemos enfrentar uma mudança climática drástica, com cenários devastadores até o século 22”, crava um dos cientistas mais respeitados do mundo na área. Sir Martin John Rees, astrônomo e professor de cosmologia e astrofísica na Universidade de Cambridge, presidente da prestigiosa Royal Society entre 2005 e 2010, não é o que se pode chamar de “alarmista”. E, no entanto, em um livro de 2003 – Our Final Century (Hora Final – Alerta de um Cientista, Companhia das Letras) – já dizia, com polidez britânica, que a humanidade tem 50% de chance de sobreviver ao século 21.

Na entrevista a seguir, o autor de From Here to Infinity: A Vision for the Future of Science – livro de 2012 em que investiga as conexões entre ciência, política e economia no século 21 – descreve o delicado estado de coisas neste nosso “mundo congestionado”, sob ameaça não só do crescimento populacional e da incessante demanda por recursos naturais, mas também da incapacidade humana de pensar a longo prazo. Problemas que, alerta Martin Rees, não serão resolvidos com medidas paliativas ou pela mão invisível do mercado: “Exigem intervenção governamental e ação internacional”.

Em Our Final Century (2003) o sr. afirmava que nossa civilização tinha 50% de chance de sobreviver até o fim do século 21. Esse porcentual continua o mesmo?

Não mudei meu ponto de vista – e tenho ficado surpreso com a quantidade de pessoas que pensam que não sou suficientemente pessimista. Claro que é improvável que todos nós sejamos exterminados. Mas penso que vamos ter que ter muita sorte para evitar retrocessos devastadores. Em parte devido ao aumento do estresse nos ecossistemas devido ao crescimento populacional e a nossa crescente demanda por recursos. Mas, mais do que isso, porque nos apoderamos de uma nova tecnologia: entramos em uma nova era geológica, o “antropoceno”, em que as ações humanas determinam o futuro do meio ambiente.

Em que medida isso é uma ameaça?

Até a segunda metade do século 20, a grande ameaça, ao menos para o Hemisfério Norte, era a guerra termonuclear, que por pouco não foi desencadeada durante a crise dos mísseis em Cuba, na década de 1960. Estivemos perto dela em outras ocasiões durante a Guerra Fria. Mas agora enfrentamos novas ameaças decorrentes do uso indevido das bio e cybertecnologias, em avanço espantoso. É com elas que me preocupo mais e por causa delas é que teremos uma jornada difícil neste século.

O ano passado foi o mais quente na Terra desde 1880, quando esse tipo de medição começou a ser feito, disse um relatório divulgado essa semana pela Nasa, a agência espacial americana, e o National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). O que está acontecendo com o planeta?

Já está claro que há uma tendência de aquecimento de longo prazo nos últimos 50 anos. Essa taxa não é estável nem uniforme na superfície da Terra. Mas é uma tendência que se sobrepõe a outros efeitos, como o El Niño, em que as alterações na circulação e no calor do oceano armazenam-se nele em vez de na atmosfera. Sabemos que a quantidade de CO2 na atmosfera está aumentando e isso provoca aquecimento – e, consequentemente, mudanças em larga escala nos padrões climáticos em todo o mundo. O que ainda não está claro é quão grande é esse efeito. A duplicação do CO2 na atmosfera causa um aquecimento de 1,2°C. Mas esse efeito pode ser ampliado devido às trocas de vapor d’água e nuvens – e não sabemos as consequências desses processos. Entretanto, parece claro que se as emissões anuais de CO2 continuarem a aumentar poderemos enfrentar uma mudança climática drástica, com cenários devastadores até o século 22.

Depois de fazer um diagnóstico catastrófico em 2007, quando estimou que 6 bilhões de pessoas morreriam até o final do século, o cientista britânico James Lovelock voltou atrás em 2012, dizendo que havia sido ‘alarmista’ em relação ao aquecimento global. Esse novo relatório da Nasa reforça as opiniões mais pessimistas?

Não posso falar por James Lovelock – mas é fantástico vê-lo, aos 95 anos de idade, engajado nesses temas e ainda disposto a mudar de ideia. Recentemente, por exemplo, ele adotou uma postura favorável à energia nuclear. Entretanto, não serão dados relativos a um único ano que vão convencer as pessoas a mudar suas atitudes. Acho que vamos levar uns 20 anos ainda para começar a reduzir a atual taxa de aquecimento. Até lá, saberemos com mais precisão – talvez a partir de modelos produzidos por computação avançada – quanto a temperatura global tem efetivamente aumentado e quão fortemente o feedback de vapor d’água e nuvens de que falei amplifica os efeitos da acumulação de CO2 no “efeito estufa”.

Por que, apesar de todos os alertas feitos pelo IPCC da ONU, os líderes políticos ao redor do mundo parecem ainda pouco sensibilizados pela questão, caminhando lentamente na direção de formas alternativas de energia ou na redução dos atuais padrões de consumo?

Embora devamos ter esperança de que a conferência de Paris em dezembro deste ano obtenha progressos efetivos, meu palpite pessimista é que os esforços políticos para descarbonizar a produção de energia no mundo não vão ganhar força. E a concentração de CO2 na atmosfera vai subir a um ritmo acelerado nas próximas duas décadas. Até lá, ficará claro se o clima do mundo está entrando em um território perigoso. Pode então haver pânico e uma pressão para que sejam adotadas medidas de emergência. O que poderia tornar necessário um “plano B”: fatalismo quanto à continuidade da dependência mundial dos combustíveis fósseis, acompanhado de medidas que combatam seus efeitos com o uso da geoengenharia.

Que tipo de medidas poderiam reverter o aquecimento global?

O efeito estufa poderia ser contra-atacado, por exemplo, com a colocação de aerossóis (partículas que absorvem e dispersam a luz solar) na atmosfera ou mesmo de grandes guarda-sóis no espaço. É aparentemente factível lançar material suficiente na estratosfera para mudar o clima do mundo – o assustador seria imaginar como isso seria feito, se com recursos de uma única nação ou talvez de uma megacorporação. Os problemas políticos em torno do uso desse tipo de geoengenharia podem ser esmagadores. Sem falar na possibilidade de ocorrerem efeitos colaterais. Além disso, o aquecimento poderia voltar caso essas medidas fossem por alguma razão descontinuadas e também se mostrassem ineficazes em relação a outras consequências do acúmulo de CO2. Em especial, os efeitos deletérios que o gás causa na acidificação dos oceanos.

Ou seja, ainda que estejam surgindo tecnologias supostamente capazes de reverter o aquecimento global, a utilização delas teria resultados imprevisíveis?

A geoengenharia seria um pesadelo político absoluto. Nem todas as nações iriam querer ajustar o termostato da mesma maneira. Modelos climáticos superelaborados seriam necessários para calcular os impactos regionais de qualquer intervenção artificial. Imagine: seria uma festa para os advogados se um indivíduo ou uma nação pudessem ser responsabilizados por qualquer mau tempo. Acho que seria prudente estudar suficientemente as técnicas de geoengenharia para deixar claro que opções fazem sentido antes de adotar um otimismo injustificado em relação a elas. Não haverá “solução rápida e técnica” para consertar o clima.

Qual é a sua opinião sobre os chamados ‘céticos do clima’, cientistas que ainda negam o aquecimento global, com pesquisas às vezes financiadas por grupos econômicos que ganham com a exploração dos combustíveis fósseis?

O debate sobre o clima tem sido marcado por muita disputa entre a ciência, a política e os interesses comerciais. Aqueles que rejeitam as projeções feitas pelo IPCC têm contribuído mais para jogar a ciência na lata do lixo do que em fazer um apelo “por uma ciência melhor”. E ainda que os resultados da ciência fossem claros e cristalinos, haveria uma margem gigantesca para debate sobre a melhor resposta política. Acho que as divergências em questão dizem respeito mais a desentendimentos éticos e econômicos do que científicos. Os que propõem medidas tímidas e convencionais, como por exemplo, (o cientista dinamarquês) Bjørn Lomborg (autor do bestseller O Ambientalista Cético, Campus, 2002), estão de fato desconsiderando o que pode acontecer para além de 2050. Há, de fato, pouco risco de uma catástrofe dentro desse horizonte temporal – e assim não é surpresa que se queira minimizar a prioridade do combate às alterações climáticas. Mas se você se preocupa com quem vai viver no século 22 e depois dele, então pode considerar que vale a pena fazer um investimento agora. Para proteger as gerações futuras contra o pior cenário e prevenir o desencadeamento de mudanças de longo prazo, como o derretimento do gelo da Groenlândia.

O Brasil, um dos tão aclamados Brics, vive um momento dramático, com o sistema elétrico saturado e possibilidade real de colapso total da água em São Paulo, a maior metrópole do País. Podemos assistir em breve a um cenário de colapsos econômicos e evacuação de cidades?

Vivemos num mundo interconectado cada vez mais dependente de energia e tecnologias avançadas. Embora eu não esteja familiarizado o bastante para falar sobre São Paulo, as “megacidades” são especialmente vulneráveis. No curto prazo, a prioridade absoluta é assegurar energia elétrica confiável para todos. Esse problema é muito maior em países como a Índia, onde milhões usam madeira ou estrume como combustível para cozinhar, sofrendo em consequência abalos na saúde. No longo prazo, todas as nações deveriam adotar políticas de baixo carbono. Políticos não gostam de defender medidas que tragam mudanças de vida indesejadas – especialmente se os benefícios dessas medidas só venham a aparecer daqui a décadas. Mas há três medidas políticas realistas que deveriam ser impulsionadas. A primeira é os países promoverem ações que poupem dinheiro, mais eficiência energética, melhor isolamento dos prédios, etc. A segunda é concentrar esforços em reduzir poluentes, metano e carbono negro. São substâncias que não agravam tanto o aquecimento global, mas sua redução, diferentemente da de CO2, traz mais benefícios locais. A terceira e mais importante é incrementar a pesquisa e desenvolvimento de todas as formas de energia limpa – incluindo, a meu ver, a energia nuclear. Por que a pesquisa energética não é feita numa escala comparável à pesquisa médica? Nesse campo, o Brasil, já um inovador em biocombustível e outros tipos de energia, poderia tornar-se um líder mundial.

Um outro estudo divulgado há poucos dias pelo Goddard Space Flight Center, da Nasa, alerta para a perspectiva de a civilização industrial entrar em colapso nas próximas décadas por causa da exploração insustentável de recursos e da distribuição desigual de riqueza – uma abordagem que poderia estar em seu livro dez anos antes. É realista imaginar o mundo caminhando em outra direção?

Robôs estão substituindo humanos na indústria manufatureira. Vão ocupar cada vez mais nossos empregos, não apenas no trabalho manual. Mas a grande pergunta é: o advento da robótica será como o ocorrido com outras novas tecnologias – a do carro, por exemplo -, que criavam tantos empregos quanto eliminavam? Ou desta vez será diferente? As atuais inovações podem gerar riquezas imensas, mas será preciso haver maciça redistribuição, via impostos, para garantir a cada um pelo menos um “salário de sobrevivência”. Não existem impedimentos científicos para se chegar a um mundo sustentável e seguro em que todos tenham um estilo de vida melhor que o do Ocidente de hoje. Podemos ser “tecnologicamente otimistas”, embora o equilíbrio tecnológico exija redirecionamento e se guie por valores que a ciência em si não pode prover. Mas a aridez da política e da sociologia – o abismo entre potencialidades e o que ocorre na realidade – indica pessimismo. Políticos pensam em eleitores e nas próximas eleições. Investidores esperam lucro no curto prazo. Fingimos ignorar o que ocorre neste exato momento em países longínquos. E minimizamos fortemente os problemas que deixaremos para as novas gerações. Sem uma perspectiva mais ampla, sem aceitar que estamos juntos neste mundo congestionado, governos não vão priorizar projetos políticos de longo prazo, mesmo que esse longo prazo seja apenas um instante na história do planeta. A “Nave Terra” está vagando pelo espaço. Seus passageiros estão ansiosos e divididos. O mecanismo de suporte de vida deles é vulnerável a rupturas e colapsos. Mesmo assim, há pouco planejamento, pouca observação do horizonte, pouca consciência dos riscos de longo termo. São problemas que não podem ser resolvidos pelo mercado: exigem intervenção governamental e ação internacional.

MARTIN REES É ASTROFÍSICO E PROFESSOR DE COSMOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE

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