O meu é melhor (Folha de S.Paulo)

Mônica Bergamo (23/11/2014)

Estádios alimentam rivalidade entre torcedores de SP, que rejeitam críticas e desdenham da casa dos adversários

O celular do economista Luiz Gonzaga Belluzzo apitava sem parar na quarta-feira (19), dia em que a nova arena do Palmeiras foi inaugurada, sinalizando as mensagens que chegavam ao aparelho do ex-presidente do clube.

“O Belluzzão abre hoje!”, dizia o amigo Rogério. “É de enlouquecer, amigo! Ser testemunha disso é demais!”, afirmava outro. “Showzaço”, endossava o jornalista José Roberto Burnier, da TV Globo. “Faltam algumas horas, professor. Mais uma missão cumprida. Tudo começou com você. Parabéns!”, afirmava outro torcedor integrante do grupo de WhatsApp.

“É um verdadeiro delírio!”, diz Belluzzo sobre o envolvimento da torcida com a inauguração do estádio.

Há sete anos, quando lançou a proposta de reformar o Palestra Itália, Belluzzo, então diretor de planejamento do Palmeiras, imaginava apenas “construir um estádio que gerasse receitas”. O que era só uma ideia prática foi crescendo, crescendo e absorvendo o dirigente (em 2010, já presidente do clube, ele teve um “piripaque” e colocou quatro pontes de safena. O prefeito Gilberto Kassab levou ao hospital o presente: o alvará para a construção da arena). A torcida o seguiu num embalo ainda maior.

“Fui percebendo que a relação das torcidas com as arenas, antes sem tanta importância, mudou –e no mundo todo, por influência da globalização do futebol. Todo grande clube hoje tem o seu estádio: o Barcelona tem o Camp Nou, o Real Madrid, o Santiago Bernabéu. Eles passaram a simbolizar a grandeza –e também a rivalidade dos times. Viraram verdadeiros templos, semissagrados.”

No jogo entre Palmeiras e Sport, que abriu a Allianz Parque, nome comercial da nova casa alviverde, o estudante Matheus Rubio era um dos milhares de fanáticos que invadiram a rua Turiassu. “É uma peregrinação. O Palestra Itália não é um estádio, é um santuário”, bradava.

A derrota para o Sport atrapalhou um pouco a festa. O local foi rebatizado pelos rivais na internet de “Ananias Parque”, em alusão ao jogador do time pernambucano que se tornou o primeiro a balançar as redes do estádio. Outra piada foi a comparação da Allianz Parque com um ralador de queijo, publicada pela página “Corinthians Mil Grau”, com mais de 300 mil fãs no Facebook.

Já a página de humor esportivo “Olé do Brasil” fez montagem comparando o Itaquerão a uma impressora. O Morumbi, do São Paulo, é ironizado por adversários por nem sequer possuir título de “arena”, o termo da moda.

“O Morumbi tem história e tradição, coisa que os estádios do Corinthians e do Palmeiras vão levar 50 anos para ter”, provoca Henri Castelli, são-paulino e integrante da torcida Independente, principal organizada do tricolor.

O ator, que não foi aos jogos da Copa do Mundo no Itaquerão, em junho, deixa claro: jamais irá aos estádios adversários, nem mesmo para assistir a um show. “Não tem sentido fazer um estádio tão longe como o do Corinthians, além de ser uma arena bem feia. Já o Palmeiras vendeu tudo, ele não manda em nada no estádio”, diz ao repórter Nicolas Iory.

O ex-zagueiro Tonhão, ídolo da torcida alviverde na década de 1990, defende a nova casa do Palmeiras. “O estádio mantém a alma do antigo Palestra Itália.” Sem citar o nome do estádio corintiano, emenda: “A gente respeita o Morumbi, a Vila Belmiro, o Pacaembu e o estádio do outro adversário, mas isso aqui é o top”.

“A Allianz Parque está em uma área de adensamento urbano, não sei se vai suportar grandes eventos”, diz o corintiano Marcelo Silber, médico pediatra no hospital Albert Einstein. “E o acabamento não é igual ao da Arena Corinthians [ele evita usar o nome Itaquerão], que é espetacular. É um milhão de vezes melhor que o Morumbi e o Pacaembu. Não tem nem comparação.”

Silber é filiado ao Fiel Torcedor, programa de sócio-torcedor do Corinthians, e foi a 10 dos 16 jogos do clube já disputados no Itaquerão, inclusive na abertura do estádio, na derrota para o Figueirense, em maio. Para ver seu time jogar, o pediatra até já atravessou um oceano, em 2012, quando o alvinegro disputou –e venceu– o Mundial de Clubes no Japão.

Quando o surfista Pedro Scooby, marido da atriz Luana Piovani, chamou o estádio corintiano de “favelão”, na abertura da Copa, Silber ficou inconformado. “Foi uma crítica estapafúrdia, sem sentido. Isso é um comentário elitista, beirando o preconceito.” Como ele, centenas de torcedores protestaram contra o surfista na internet. Scooby então se apressou a negar a crítica. “Inclusive tenho uma camisa do Timão”, defendeu-se em uma rede social.

Há torcedores alvinegros que pedem, em fóruns virtuais, que o clube lucre com as piadas. A comparação do Itaquerão com uma impressora, por exemplo, poderia servir para que se fechasse um contrato com a HP, fabricante do aparelho.

Dirigentes dos clubes são mais contidos. “Os estádios do Palmeiras e do São Paulo têm características diferentes das do Corinthians. Queremos ter estrutura que atenda bem o nosso cliente, e não ser melhores que ninguém”, diz Lúcio Blanco, gerente de operações do Itaquerão.

Os três estádios concorrem também no mercado de shows e eventos corporativos e sociais. A Arena Corinthians, segundo Blanco, quer atrair eventos empresariais. O clube, para proteger o gramado, não admite a montagem de palcos ou outras estruturas dentro do campo. “Mas é claro que, se houver interesse, temos a área externa, que pode atender até 35 mil pessoas”, diz ele.

A arena do Verdão será palco de duas apresentações que o ex-Beatle Paul McCartney fará nesta terça (25) e quarta (26). A próxima grande atração no estádio podem ser os Rolling Stones, que chegaram a ser cotados para tocar no Itaquerão.

Em quatro anos, foram gastos cerca de R$ 700 milhões com a modernização do Palestra Itália. Tudo foi bancado pela WTorre, que vai explorar o estádio por 30 anos.

“A Allianz Parque foi planejada para ser um espaço multiúso, e não só a casa do Palmeiras”, explica Rogério Dezembro, diretor da construtora. “Tudo que foi possível construir para agilizar e baratear o custo de operação, seja de um show ou de um evento corporativo, foi feito.”

As inovações do estádio do rival, no entanto, não intimidam Douglas Schwartzmann, diretor de comunicação do São Paulo. Ele não acredita que o Morumbi será jogado para escanteio. “Temos mais três ou quatro propostas de shows, além do Foo Fighters [que toca no estádio em janeiro]”, diz o dirigente.

Apesar da rivalidade, é comum torcedores inspecionarem, digamos, a casa do adversário. O corintiano Marcelo Silber aguarda convite para assistir a um jogo na arena do Palmeiras. “Ninguém fala, mas todo mundo quer conhecer o estádio do outro”, admite ele. Satisfeita a curiosidade, cada um volta à casa própria. Silber diz, por exemplo, que não faz “a menor questão” de retornar ao Morumbi.

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