Arquivo da categoria: poesia

>Traduzir-se

>
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar
Poema do livro Na Vertigem do Dia (1975-1980)

>A Poética de Maquiavel

>
O poeta é um fingidor.                           Mentiram-me. Mentiram-me ontem
Finge tão completamente                       e hoje mentem novamente. Mentem
Que chega a fingir que é dor                  de corpo e alma, completamente.
A dor que deveras sente.                       E mentem de maneira tão pungente
                                                            que acho que mentem sinceramente.

Fragmentos dos poema Autopsicografia (em Fernando Pessoa – Obra Poética – Cancioneiro, Rio de Janeiro: Cia. José Aguilar Editora, 1972), e A implosão da mentira, de Affonso Romano de Sant’Anna (em A Poesia Possível, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987).

* * *

Estará o fingimento para a poesia como a mentira para a política?