Quando brasileiras brancas descobrem na Europa que, com a brancura, não podem mobilizar privilégios (Geledés)

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Por Fabiane Albuquerque, enviado ao Portal Geledés

24/10/2021


Moro na França há alguns anos. Também já morei na Itália e, além dos meus estudos sobre branquitude, convivo com brasileiras no exterior e tenho uma vasta experiência com as frustrações, queixas e crises de mulheres brancas, sobretudo das classes médias e altas. Eu observo pessoas brancas há muito tempo. Acho que comecei a refletir sobre elas ouvindo as histórias das mulheres da minha família que trabalhavam nas suas cozinhas, fazendas, em estreita relação com a branquitude brasileira. Então, não me faltaram relatos sobre como se comportavam, pensavam, diziam e se relacionavam, sobretudo com os seus iguais e o seu Outro (negros e negras). 

Essas mulheres, contudo, não nos viam (e ainda não nos veem) porque estão ocupadas demais em projetar em corpos negros as coisas mal resolvidas em si mesmas. Incrível como falam da pobreza no Brasil, dos problemas políticos e sociais, da falta de educação do povo brasileiro, sem ao menos se darem conta dos problemas dentro de seus lares. Lourenço Cardoso escreve sobre isso na sua tese de doutorado intitulada: “O branco ante a rebeldia do desejo: um estudo sobre a branquitude no Brasil” e explica que negros, mesmo sendo desumanizados por brancos, ainda conseguem vê-los enquanto humanos; já o contrário é difícil. 

Pois bem, vejo estas mulheres que, acostumadas a projetar o olhar para fora, para o outro, raramente se questionam e se veem como de fato são. Não se enxergam brancas, privilegiadas, construídas e projetadas como seres superiores com base na raça e no pertencimento de classe no Brasil. E, quando chegam na Europa e descobrem que, por serem brancas e possuírem dinheiro, não podem tirar proveito da situação como fazem no país que as endeusou, entram em crise.  A crise dessas mulheres é uma das coisas mais interessantes que meu olhar de pesquisadora pôde ver.  Essa não é consciente para elas, assim como não é o fato de que a brancura lhes garantiu um lugar confortável na sociedade de origem. 

Por três anos meu filho estudou na mesma classe que o filho de uma brasileira branca, loira, de Santa Catarina, advogada e apoiadora de Bolsonaro, antipetista, antilulista e possuidora de uma visão estereotipada sobre a esquerda, os negros e os pobres. Mas, uma coisa aqui mudou na vida dela: embora nós duas tenhamos origem social e raça diferentes, a França nos nivelou. Eu e ela moramos no mesmo bairro e nossos filhos frequentaram a mesma escola, diga-se de passagem, pública. Para ela, mais do que para mim, isso constituiu um grande incômodo, manifesto na sua tentativa constante de mostrar-me o que ela tinha de diferencial em relação à mim. 

Como a questão financeira não era o principal mobilizador de superioridade, tampouco ela possuía conhecimentos sobre cultura, ou seja, enquanto eu sou amante de livros, pesquisadora, escritora, conheço de literatura brasileira, francesa, italiana, dentre outras, vou ao teatro e cinema, ela se orgulhava de ser frequentadora assídua de academia, Disneylândia e Mcdonalds. No Brasil, parece que a futilidade dessas pessoas é ofuscada pelo privilégio de raça e de classe.

Certo dia, na porta da escola, ela me abordou da seguinte forma: 

-Ai guria, tem dias aqui que é difícil, estou para ficar louca. Outro dia fui ao banco sozinha e me trataram como uma qualquer, você acredita?

Incrédula com a expressão, pois esse “ser qualquer um” deveria ser o sentimento de todo cidadão, de juiz a gari, de professor à médico, de político à banqueiro, balancei a cabeça dando-lhe corda: 

-Verdade? 

E ela continuou:

-Eu tive que ligar para o meu marido ir até lá para ver se com ele seria diferente. Ele vive recebendo propostas para investimento do banco porque ganha bem.

Fiquei pensando nas suas palavras. Aqui na França, ela não pode mobilizar um tratamento diferenciado por ser loira e muito menos pela sua classe social. Aqui o “você sabe com quem está falando?” não cola como no Brasil. Afinal, ela é só mais uma branca dentre brancos. E os brancos daqui, como diz o pesquisador Lourenço Cardoso, são “mais brancos” que os nossos brancos devido a impressão digital deixada pela colonização que hierarquizou povos e nações. Quanto mais nórdico, como os ingleses, mais branco e ideal é um povo.

Como eu jamais a bajulei por ser branca (como geralmente acontece entre brasileiros), outra vez, na porta da escola, ela me abordou novamente. Eu disse que estava indo caminhar e ela logo se oferece para ir junto. No caminho, sem nenhum pudor, me solta essa:

-Quando meu filho nasceu, a preocupação do meu marido era com o cabelo, se ia nascer ruim como o dele. Eu até achei engraçado porque assim que ele nasceu, ele correu para mim e disse “parece que é ruim, é bem enrolado”. 

Eu, que tenho cabelo “ruim” na concepção da sua família somente soltei um “é mesmo?” e parece que aquilo liberou nela seu racismo mais latente. Esse só sai quando a pessoa não se sente julgada ou rechaçada, quando acha abertura e acredita que o interlocutor não a está julgando:

-Meu marido (branco no Brasil) ‘rapa’ a cabeça porque ele odeia o próprio cabelo. Mas quando viu que puxou a mim ficou mais tranquilo. 

O que essa mulher queria ao me dizer tudo isso? Ela estava buscando que eu reconhecesse a sua superioridade, pelo menos aquela racial, já que eu, por espontânea vontade não o fiz, ela estava ali me lembrando disso. A igualdade é um dos maiores sofrimentos psíquicos para mulheres brancas brasileiras das camadas altas que chegam para morar aqui na Europa. Digo de mulheres porque convivo pouco com os homens brancos brasileiros. E não parou aqui, não. Outra vez ela fez o seguinte comentário:

-Guria, falei com minha prima que mora na Inglaterra e ela me disse que sou louca de colocar meu filho em escola pública, de me misturar com esta gente

Ela se referia à grande presença de crianças imigrantes na escola, de origem africana e de países árabes. A escola pública foi o espaço que acolheu o seu filho, o ensinou a falar francês, lhe proporcionou uma base e uma convivência respeitosa e igualitária com diferentes nacionalidades, sobretudo aquelas as quais ele nunca teve contato no Brasil por viver segregado no seu pequeno mundinho burguês.  Mas, ela insistia em tentar se colocar como um ser especial. 

Antes que alguém diga que tive muita paciência, só resisti porque estudo brancos e quando descobri que é melhor lhes dar corda para ter material, meu envolvimento afetivo e emocional me causa menos sofrimento.  

O estupor por não ser tratada com distinção não vem somente de gente de extrema direita. Nesse ponto, a branquitude se assemelha muito, tanto de direita quanto de esquerda. Uma moça branca, paulistana e segundo ela mesma, de classe média alta, revelou-me que estava surpresa por sofrer discriminação dentro da universidade francesa. A pergunta que ela me fez foi a seguinte:

– Eu posso me comparar com os negros por sofrer racismo

Lhe respondi que com negros, jamais. E continuei dizendo que aqui, antes de tudo, ela é brasileira e tinha alguns traços árabes como o nariz e o formado do rosto. Ela estava desorientada por não poder usufruir da “invisibilidade” da raça como acontecia no Brasil e talvez, sem se dar conta, da visibilidade por ser branca e burguesa na hora de receber privilégios. Essas mulheres estão acostumadas, desde pequenas, a serem paparicadas e, quando isso não acontece, o Eu se fragiliza. 

Uma outra, branca de olhos verdes, vendo que eu jamais comentei algo sobre a sua aparência física, como está acostumada, depois de um tempo de convivência, tirou os óculos diante de mim, arregalou os olhos e disse:

Todo mundo fala que eu deveria parar de usar óculos, pois desvalorizam meus olhos. Você já viu os meus olhos?

A cena foi cômica. A mulher com os olhos esbugalhados na minha frente mendigando elogios.  Lhe respondi:

– Fulana, eu já vi os seus olhos.

 Ela, muito sem graça, recolocou os óculos. O que ela queria de mim? O que todo mundo lhe dava: bajulação da sua corporeidade branca, dos seus olhos verdes e o reconhecimento do seu valor em base a isto. 

Muitas dessas mulheres tentam reproduzir a mesma hierarquia social e racial que temos no Brasil, procurando por outras que estejam à disposição do ego delas. Conheci uma promotora de justiça de Brasília que chegou na França, juntamente com o marido para fazer mestrado. Os dois conseguiram uma licença de um ano do trabalho. No primeiro contato que tivemos ela perguntou: “Você conhece uma diarista para me apresentar?” Achei estranho o pedido, pois a mulher e o marido ficariam um ano sem trabalhar, morando em um pequeno apartamento, como ela descreveu, mas tinha que ter alguém para lhe servir. Essa gente fora do Brasil e das relações de dominação/servidão/ que se dão em base à racialização de corpos se perde. 

Conheci brasileiras aqui que gostam de conviver com outras brasileiras porque entre nós, entendemos os códigos, as hierarquias e as leis ocultas do nosso país para reproduzir a mesma lógica de quem adora e de quem é adorado. Ou, em outros casos, preferem conviver somente com franceses, pois segundo elas, “não gostam de se misturar” e se agarram aos “brancos mais brancos” como se fosse um troféu para mostrar ao mundo e exibir para a família e amigos no Brasil: “Olha a minha amiga francesa!!!”. É um modo de participar da branquitude mais “pura” (mesmo que indiretamente), que o que temos nas terras Brasilis. 

Uma coisa é certa, essa experiência na Europa poderia ser, para elas, uma grande chance de mudar de paradigma, de renascer, de se tornar uma pessoa melhor. Mas, na maioria dos casos, o privilégio é buscado com unhas e dentes. Se soubessem que podem abandoná-lo e viver mais livres, talvez o fariam. Mas alguém como elas, ou seja, branco, precisaria dizer. Pois, no meu caso, se lhes digo, passo por negra raivosa, ressentida, invejosa, que vê racismo em tudo. Eu torço pela mudança e pela emancipação humana, mas enquanto isso não acontece, continuo tendo-as como objeto de análise e estudo.  


Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia, autora do livro Cartas a um homem negro que amei, publicado pela Editora Malê.