Debate com Eduardo Viveiros de Castro sobre filme “O Abraço da Serpente” (Almanaque Virtual)

Indicado ao Oscar 2016 e distribuído pela Esfera Filmes, debate sobre o filme O Abraço da Serpente lotou o Cinema Estação Botafogo

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28 de fevereiro de 2016

O renomado Antropólogo e profundo conhecedor da Etnologia Ameríndia, Eduardo Viveiros de Castro, foi convidado para um debate sobre o novo filme distribuído pela Esfera Filmes, candidato ao Oscar 2016 na categoria de melhor filme em língua não-inglesa, o multipremiado representante da Colômbia “O Abraço da Serpente”, dirigido por Ciro Guerra. O Almanaque Virtual traz por escrito este grandioso debate de Viveiros de Castro com o público que lotou a sala do Cinema Estação Botafogo no Rio de Janeiro na manhã do Sábado do dia 27 de fevereiro.

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É importante ressaltar que os personagens cientistas do filme são inspirados em grandes nomes reais para a Antropologia, nos dois tempos em que o filme se passa: o alemão Theodor Koch-Grünberg, que estudou os povos indígenas do Amazonas Colombiano e do Alto Rio Negro entre 1903-1905; e o americano Richard Evans Schultes, renomado etnobotânico que viveu em terras indígenas entre 1941-1952.

Embora bastante alusivo à realidade, há diferenças como as apontadas por Viveiros de Castro: “O personagem de Theodore pode parecer no filme que sumiu ao final de sua jornada exploradora, porém viveu mais 20 anos em Roraima, cujos estudos resultou na obra ‘De Roraima a Orinoco’, coleção em cinco volumes, e apenas faleceu em 1924.”

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Já o segundo personagem, no salto de tempo que o filme faz de 1903 para 1941, era o etnobotânico mais famoso da área, que fez grandes estudos sobre o ‘Peiote’, e outras plantas com efeitos alucinógenos. Neste período, quando plantações da Malásia e Ceilão estavam fechadas, explorou-se bastante o Brasil, durante o apogeu do ciclo da borracha em que o alvo eram as seringueiras da América do Sul. Dizimaram muitos índios à conta das guerras da borracha, principalmente na Amazônia Ocidental, entre Brasil, Peru e Colômbia, tanto que nas cenas do filme que aludem a este período, o personagem de um messias falava português.

Na verdade, a representação do personagem que alude a Schultes, o etnobotânico, queria exprimir uma dupla função: procurar a Borracha/seringueira mais fina e melhor (porque a que antes ia pra Europa estava sob poder dos japoneses durante a 2ª Guerra Mundial para a fabricação de armas), e também procurar as plantas referidas no filme como Yakruna, que na realidade possivelmente se refere a plantas como a Chacrona que é uma das substâncias utilizadas para a confecção do Santo Daime (bebida consumida em cultos e experiências transcendentais/religiosas). De igual forma, a representação da fictícia Yakruna (Chacrona) não seria como a bela árvore frondosa mostrada no filme, nem tampouco a linda flor branca que nasce dela. Tratam-se de licenças líricas utilizadas pelo diretor do filme.

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Já a língua falada no filme pelos nativos provavelmente era da família Tucano, representada pelo personagem do índio mais velho, Karamakate, que era possivelmente um descendente Huitoto, que representaria um Pagé/Xamã que teria se isolado do grupo que se “rendeu” aos brancos, como é mostrado mais ao final do filme, quando aparece a representação de índios aprisionados ou embriagados em uma espécie de campo de concentração ou acampamento militar/religioso dos exploradores e exportadores das riquezas nativas.

O filme destaca Missões Capuchinhas como a de Santa Maria do Vaupés, que fica a beira de um rio de mesmo nome que nasce na Colômbia e se junta ao Rio Negro no Brasil. Trata-se de Missões criadas pelos padres, ao longo deste rio importantíssimo na formação das tribos originárias desta região, representada de forma bastante fiel às missões educacionais de índios sob tortura nos anos de 1920 a 1960 até o governo tirar o apoio que dava às missões católicas, como ficou marcado na notória visita do Presidente Juscelino Kubitschek que chegou a dizer que a exploração daquelas terras teria a mesma importância que teve a construção de Brasília para o Brasil. Havia ainda internatos separados de meninos e meninas, “Órfãos das guerras da borracha”, que visava transformá-los não apenas em “bons cristãos” como bons “empregados”.

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Noutro quesito, como se aprofunda Eduardo Viveiros de Castro, o velho Karamakate vestido com trajes nativos clássicos é mais uma ficção improvável para o período de 1960. Viver completamente sozinho faz parte da ficção, porque a lógica ameríndia é completamente diferente da ocidental e, portanto, e seria muito difícil para alguém isoladamente se manter nos costumes tradicionais, preservando artefatos como a sua Maloca (casa) como originalmente seriam.

O personagem do segundo explorador, na figura de Schultes, foi um dos últimos representantes expedicionários. Já o primeiro, Theodor, foi quem trouxe o mito do Macunaíma, usado depois popularmente na literatura pela obra de Mário de Andrade e depois na adaptação pelo cinema brasileiro (interpretado por Grande Othelo).

Outro ponto importante foi a escolha do narrativa do filme em adaptar a diferença epistemológica entre o Conhecimento pelos fatos e o Conhecimento pelos sonhos, ao abordar as diferenças da cultura dos ‘brancos’ e dos indígenas, respectivamente. A percepção ameríndia não se dá a partir da visão do humano para fora, mas sim de fora para dentro, pelas plantas, árvores e montanhas em total harmonia com a natureza, em oposição ao conhecimento classificatório e taxonômico do Ocidente.

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Metaforicamente, todos os personagens do filme são bastante isolados, tanto os antropólogos quanto os índios que se isolam do grupo por natureza. E daí advém a bela passagem dos 40 anos que ocorre na dupla representação temporal no filme (1903 em oposição a 1941): o personagem mais velho de Karamakate diz que não sabia mais nada, nem realizar os rituais mais tradicionais para ele, mas ‘ao mesmo tempo sabia’, como um simbolismo de que o conhecimento estava sendo perdido, mas tinha de ser merecido, honrado para se passar adiante. A última Yakruna é uma ficção do filme para demonstrar justamente isso.

Viveiros de Castro atenta para o fato de que Antropólogos geralmente reclamam que filmes sobre o gênero de culturas indígenas “explicam demais o tema”. Raros filmes nesta seara são realmente bons. E tem os mais lúdicos/poéticos/alusivos como “O Abraço da Serpente”, que para o professor não se detém tanto em explicações conceituais, que se apresentam raras em alguns diálogos diretamente pra facilitar um pouco para o público em geral, como na cena que alude ao mapa.

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Só ao final da projeção se tem a informação de que os personagens eram inspirados em figuras reais. Schultes, por exemplo, era amigo de Albert Hofmann, o químico que sintetizou o LSD, conhecimento este em parte obtido a partir dos estudos do Schultes sobre a Chacrona, a ‘Yakruna’ do filme. É inegável o resultado destas pesquisas para os avanços farmacológicos da História. Schultes foi quem descobriu o princípio ativo do Peiote/chacrona e etc pra farmacologia moderna. É uma bonita Mensagem sobre precisar do conhecimento dos índios pra evoluir

Vale ressaltar que para Viveiros de Castro foi uma ótima solução a escolha da fotografia P&B pelo diretor Ciro Guerra e só ao final exibir efeitos coloridos como o obtido pelo uso de alucinógenos.

Viveiros de Castro ressalta que há filmagens em regiões bastante diferentes, como mostram as plantas e montanhas de algumas cenas que se pretenderiam passar no mesmo lugar. Apenas um olhar mais atento de quem estudou a geografia da região poderá identificar tais nuances e tal fato não prejudica o resultado final do filme. Faz uma brincadeira ao afirmar que ficou imaginando como na cena da bússola, o personagem do explorador estrangeiro teria explicado sobre o eixo magnético da Terra na língua dos índios, já que este tipo de conhecimento nem mesmo faz parte do universo estrutural daquelas tribos.

Claro que o filme tomou liberdades para contar a história, como a flor de Yakruna, que no máximo talvez venha a desagradar aos botânicos, que podem não gostar da alteração da licença poética relacionada a “verdadeira Yakruna” e o modo como o filme a representa. Porém, há no filme um bom aproveitamento de um contraste real entre os conhecimentos do ‘branco’ e do indígena. Não foi necessariamente o foco dos escritos dos cientistas falar sobre este lado mais místico da apreensão da realidade etnobotânica, mas sim adotado pelo diretor Ciro Guerra para formular uma dramaturgia com uma outra forma de proceder o conhecimento do mundo diferente da nossa. Um bom exemplo cultural neste sentido que Eduardo indica é o livro: “A queda do céu”, livro Yanomani do xamã Davi Kopenawa e Bruce Albert.

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Afirma ainda Viveiros de Castro que existem diferenças na abordagem do filme perante os reais estudos. Há de citar o título “O Abraço da Serpente” e a real representação da Anaconda para a cultura indígena, não muito abordada no roteiro. Pra eles o animal é importante porque advém de uma sucuri a gênese da vida, como que deixando de seu ventre as tribos no curso dos rios. Geralmente os pontos onde tem cachoeiras, região muito importante para os povos do Rio Valpés, onde os índios evoluíram após sair da cobra (que também pode ser entendida como uma representação de canoa no Rio). E, similar à onça pra eles, as serpentes também são animais multicoloridos. Teriam uma dupla significação. Primeiro de origem do homem, lembrando que a sucuri é uma cobra aquática. Segundo que é multicolorida e desenhada, um arquétipo da arte e dos desenhos indígenas, também associada ao arco-íris, a cobra como cor, grafismo e cromatismo.

Sobre a imagem do vazio na expressão usada no filme do “Chullachaqui”, uma cópia vazia de nós mesmos, afirma que está também muito bem retratada na fotografia. Sim, este símbolo existe em outras culturas indígenas, mas Eduardo nunca havia visto o uso desta forma, e é interessante como colocaram. Geralmente, a representação do ‘Chullachaqui’ é o aparecimento de uma pessoa após a morte, um outro eu perpétuo na memória de quem fica. Mas no filme Karamakate chama o estrangeiro de duplo/Chullachaqui, porque ele tinha 2 interesses: não só o conhecimento, mas usá-lo para a guerra. O próprio Karamakate se diz ‘Chullachaqui’ porque perdeu a memória. Era um duplo de si mesmo. O que ocorre muito na realidade demonstrada no filme é memória em demasia do passado que traz os mortos de volta. Mas esta forma em vida do Chullachaqui o próprio Eduardo abre a dúvida se existe em um dos povos ou se é mais licença poética.

Num outro momento, o uso da “última planta de Yakruna” é uma visão trágica, como se dissesse que o conhecimento indígena só sobreviveria se passado para o ‘branco’ (por isso ensina o bom uso e não deturpado). Para o professor, leia-se o ‘homem branco’ como o antropólogo. Mas o povo tucano, por exemplo, não se extinguiu. Ainda é numeroso. Esta visão trágica é mais relativa ao personagem do Manduca, do índio tido como “vendido para o branco”. Dependendo da região há índios mais “Manducas” e outros mais “Karamakates” (dependendo do grau de preservação da cultura).

Ironicamente, por se falar em ‘vendido para os brancos’, Viveiros de Castro conta que vários ornamentos indígenas foram roubados pelos missionários por serem por eles consideradas “coisas do demônio”. Os indígenas usavam caixas para guardar o que era sagrado e os missionários lhes tiravam isso e expunham em museus (Mas não diziam q era coisa de demônio? Então por que guardaram pra expor? Os índios querem de volta). Um exemplo deste resgate é “Iauaretê, Cachoeira das Onças” de Vincent Carelli, um filme que aborda este assunto.

Perguntado se hoje com conflitos de terra e um filme de visibilidade como esse, indicado ao Oscar, pode gerar mais debates, Eduardo se mostra positivo, lembrando que já há bons filmes sim neste sentido, que talvez ganhem mais repercussão, como “A bicicleta de Nhanderú” filme Mbyá-guarani de Ariel Ortega e Patrícia Ferreira de 2011.

Voltando ao assunto das simbologias para os indígenas, a onça também tem muita importância, embora apareça apenas rapidamente no filme. Entre as tribos ameríndias da região amazônica existe a figura do pagé-onça, que é quem negocia com os “Guardiões” dos recursos naturais. Há ainda a importante questão sobre as proibições alimentares, com o mundo extra humano, sobre restrição de períodos do ano, e que aparece de forma superficial no filme. A sucuri é muito importante principalmente ao norte da Amazônia. A ‘Boa’ mencionada no roteiro pode ser lida tanto como a jiboia como a sucuri, que são da mesma família de cobras. Ambas não-peçonhentas que matam por estrangulamento. A primeira terrestre e a segunda aquática. E a onça em toda mitologia seria o grande antagonista competidor do humano, modelo de força, agilidade e ao mesmo tempo perigoso, como podendo se apoderar do espírito humano.

Para finalizar, Viveiros de Castro encerra sua fala discorrendo sobre a noção de tempo: o indígena do filme usa palavras como ‘milhares’, ‘milhão’ de anos, mas ‘milhão’ não existe naquela língua. É visão poética do filme. E ele cita ainda várias outras formas poéticas do tempo na percepção das culturas ameríndias, com por exemplo o tempo do amanhecer, da gênese, antes dos diferentes grupos humanos saírem da cobra, antes de se separarem. Humanos eram peixes, alguns viraram humanos, outros não, por isso os povos do Rio Negro eram principalmente pescadores. Este seria um Tempo pré-cosmológico, onde os animais e humanos falavam entre si, todos eram o mesmo ser. Há também o tempo cíclico, onde netos recebem nomes dos avós, pois só existe a concepção de 2 gerações que se reconstituem a cada vez, a 3ª é igual à 1ª e a 4ª à 2ª, bidimensional e assim sucessivamente.

Transcrição por Filippo Pitanga

Edição por Samantha Brasil

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