Previsão do clima: terremotos intermitentes (Folha de S.Paulo)

Marcelo Leite, 03/05/2015  01h57

Depois de Katmandu, o terremoto no Nepal sacudiu também uma noção preconcebida comum entre jornalistas de ciência – esta coluna, por exemplo, foi abalada por um tuíte de Matthew Shirts, que levava para uma reportagem da revista “Newsweek”.

A leitura do texto, “Mais Terremotos Fatais Virão, Alertam Cientistas da Mudança do Clima”, trouxe à memória um momento constrangedor. Que o relato sirva para desencorajar nossa tendência a acreditar em verdades estabelecidas.

Certa vez um colega de redação perguntou se eu poderia escrever para explicar por que tsunamis estavam se tornando mais frequentes e qual era a relação disso com o aquecimento global. Segurei a vontade de rir e expliquei, condescendente, que processos climáticos não tinham o poder de desencadear eventos geológicos.

Não é bem assim. Há pesquisadores respeitáveis investigando a hipótese de que a mudança climática deflagrada pelo aquecimento global possa, sim, tornar terremotos e erupções vulcânicas mais frequentes.

Não seria nada inédito na história da Terra. Um exemplo recentíssimo na escala geológica (o planeta tem mais de 4 bilhões de anos) ocorreu entre 20 mil e 12 mil anos atrás, ao término do último período glacial.

A retração de geleiras continentais com quilômetros de espessura aliviou a pressão sobre a crosta terrestre o bastante para desencadear intensa atividade vulcânica. Há boas evidências disso em lugares como a Islândia.

O geólogo britânico Bill McGuire tem uma teoria ainda mais preocupante. Ele acha que a elevação dos mares em 100 m, causada pelo derretimento das calotas de gelo, teria deflagrado também terremotos e tsunamis (o que poderia repetir-se a partir de agora, com o aquecimento da atmosfera).

O imenso volume de água adicionado aos oceanos, ao pressionar suas bordas, teria desestabilizado as falhas geológicas próximas da costa, causando os tremores e colapsos submarinos que levantam ondas colossais. Mas a hipótese de McGuire, detalhada no livro “Acordando o Gigante”, ainda carece de medições e dados para ser aceita.

No caso do terremoto de Katmandu, o mecanismo pressuposto para pôr a culpa no clima é outro: chuva. Não uma pancada qualquer, mas as poderosas monções que castigam Índia e Nepal de junho a agosto.

Tamanho volume de água, que perde só para o movimentado na bacia Amazônica, seria capaz de alterar o balanço do estresse entre as placas Indo-Australiana e Asiática. O geólogo argelino Pierre Bettinelli, então no CalTech, mostrou que a atividade sísmica nos Himalaias é duas vezes mais intensa no inverno e atribuiu isso à gangorra de pressões entre os dois lados da falha tectônica.

Falta provar, claro. Mas que é instigante, isso é.

Quanto a terremotos causados pelo aquecimento global, ninguém precisa sair comprando kits de sobrevivência. O degelo da última glaciação demorou milhares de anos, e as piores previsões para a subida no nível dos oceanos indicam não muito mais que 1 m ou 2 m até o final deste século.

Ninguém está a salvo de tsunamis, porém. Há alguma chance – uma vez a cada 10 mil anos, talvez – de que o litoral brasileiro seja atingido por um deles, como pode ter ocorrido com São Vicente em 1541, após cataclisma nalgum ponto do Atlântico.

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