Nada cai do céu (Folha de S.Paulo)

JC, 5124, 25 de fevereiro de 2015

Carlos Magno

Com ou sem chuva à vista, a população precisa entender que a água pode –e vai– acabar se não forem tomadas medidas preventivas

O racionamento a que pode ser submetida boa parte da população paulistana –e de outras cidades e Estados brasileiros– poderia ser evitado? A questão é muito mais complexa do que possa parecer e jamais deveria ser levada ao campo do flá-flu político. Afinal, todos que vivemos nessas áreas já somos e seremos ainda mais afetados.

O calor bate recordes no mundo. Dados recentes da Nasa e da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, sigla para o nome em inglês do órgão) apontam 2014 como o ano mais quente da história. A temperatura média no solo e nos oceanos aumentou 0,69 graus, superando recordes anteriores. Parece pouco, mas não é.

A cada 20 ou 30 anos, em média, o oceano Pacífico, a maior massa de água do planeta, sofre variações de temperatura, ficando mais quente ou mais frio do que o normal. Essas oscilações de longo período interferem nos ventos, na chuva e na temperatura em muitas regiões do globo. No Brasil, diversos Estados já sentem os impactos dessa alteração climática.

O verão passado foi um dos mais secos e quentes da história, não apenas na região da capital paulista e seu entorno mas também em grande parte do Sudeste, especialmente em Minas Gerais e no vale do Piracicaba, de onde vem a maior parte da água que abastece a região metropolitana de São Paulo, por meio do sistema Cantareira. Áreas dessa região chegaram a registrar anomalias de até 5 graus nas temperaturas máximas em janeiro de 2014.

Com pouca água e maior consumo, devido ao calor, os rios e represas que abastecem o sistema caíram aos menores níveis já registrados. Em São Paulo, por exemplo, desde 2012 o Cantareira vem sofrendo com chuva abaixo do normal. Nem mesmo as chuvas de fevereiro, que elevaram o nível dos reservatórios, são ainda suficientes para mudar o quadro de seca.

E as previsões não são as melhores. Segundo estudo da Climatempo, somente no verão de 2017 é que se poderá esperar por uma chuva normal ou acima da média, que vá colaborar para uma consistente recuperação do sistema.

Reverter a situação é um desafio. Trata-se de algo muito mais educativo do que meteorológico ou de obras faraônicas –que, se agora são necessárias, deveriam ter sido planejadas há pelo menos dez anos.

Desde o final de 2013, meteorologistas têm alertado sobre esse cenário crítico. Já se sabe que o quadro não é favorável, e há poucas chances de mudança em curto prazo.

Porém, em um planeta onde 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos é ocupado por água, o ser humano ainda parece acreditar que ela nunca irá acabar.

Com ou sem chuva à vista, a população precisa entender que a água pode –e vai– acabar se não forem tomadas medidas preventivas. A conscientização sobre o consumo deve ser permanente.

Optar pelo reúso pode ser uma das soluções. Aliás, a ideia de cobrar uma sobretaxa para aqueles que consumirem mais água do que o normal nesse período está entre as boas medidas já tomadas –tão boa quanto os descontos anunciados desde o ano passado para quem economiza água.

Em São Paulo, a despoluição dos rios Tietê e Pinheiros também é um caminho. Mas esse parece ser um cenário utópico, sobretudo se lembrarmos que a ideia é citada há décadas pelo poder público.

O que nossas autoridades precisam entender é que não dá para passar uma vida acreditando na ajuda divina. É preciso arregaçar as mangas e se preparar. Há ainda muito a fazer e a investir. Porque nada cai do céu –nem mesmo a água tem caído ultimamente.

CARLOS MAGNO, 53, é meteorologista e presidente da Climatempo Meteorologia

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

Anúncios

2 comentários sobre “Nada cai do céu (Folha de S.Paulo)

  1. Infelizmente, o Sr. Carlos Magno não apresenta nenhuma proposta do que fazer para reduzir gradativamente o problema. A algum tempo, ví uma reportagem dizendo que a Austrália atravessou uma seca que durou 10 anos, sem comprometer o abastecimento de água. Acredito que seria importante saber como conseguiram isso, e copiar o que pode ser aplicado no Brasil. Uma outra coisa, é fato sabido que as árvores tem um papel fundamental no processo de chuvas, além de absorverem parte do CO² da atmosfera. Eu entendo que estímulos para evitar o desmatamento e estimular o reflorestamento precisam ser criados, como é feito atualmente na Califórnia e estados vizinhos, como o Colorado. Existem processos para tornar potável a água do mar, o que pode ser utilizado em cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, Florianópolis, Recife, etc. Estes são apenas alguns exemplos que poderiam ser citados pelo sr. Carlos Magno, com certeza existe uma infinidade de outros.

  2. “Afogados morrendo de sede”, este é o filme vivido pela população de São Paulo em alguns bairros e com bastante frequência. Falta boa vontade e querer resolver o problema por parte das autoridades competentes. Existem algumas soluções não tão complexas e de execução imediata, por enquanto, pois os recursos hídricos ainda existem e em abundância, porém no local errado, ou melhor, no local certo por vias erradas. O correto é chover na bacia do sistema cantareira para então percolar para a cidade. No entanto o que se apresenta é uma cidade sem abastecimento suficiente de água potável, mas com excesso de água que se esvai sem aproveitamento. Na falta de mentes brilhantes para resolver esta equação, resta copiar de algum lugar onde já foi encontrada a solução. O que não se justifica é ficar fazendo previsões catastróficas sem tomar uma atitude.
    Isnar Amaral – Consultor Ambiental e Geobiólogo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s