Mudança climática (Folha de S.Paulo)

7/11/2014

Eduardo Giannetti

Em “Reasons and Persons”, uma das mais inovadoras obras de filosofia analítica dos últimos 30 anos, o filósofo Derek Parfit propõe um intrigante “experimento mental”. A situação descrita é hipotética, mas ajuda a explicitar um ponto nevrálgico do maior desafio humano: limitar o aquecimento global a 2°C acima do nível pré-industrial até o final do século 21.

Imagine uma pessoa afivelada a uma cama com eletrodos colados em suas têmporas. Ao se girar um botão situado em outro local a corrente nos eletrodos aumenta em grau infinitesimal, de modo que o paciente não chegue a sentir. Um Big Mac gratuito é então ofertado a quem girar o botão. Ocorre, contudo, que quando milhares de pessoas fazem isso –sem que cada uma saiba dos outros– a descarga de energia produzida é suficiente para eletrocutar a vítima.

Quem é responsável pelo que? Algo tenebroso foi perpetrado, mas a quem atribuir a culpa? O efeito isolado de cada giro do botão é por definição imperceptível –são todos “torturadores inofensivos”. Mas o resultado conjunto dessa miríade de ações é ofensivo ao extremo. Até que ponto a somatória de ínfimas partículas de culpa se acumula numa gigantesca dívida moral coletiva?

A mudança climática em curso equivale a uma espécie de eletrocussão da biosfera. Quem a deseja? Até onde sei, ninguém. Trata-se da alquimia perversa de inumeráveis atos humanos, cada um deles isoladamente ínfimo, mas que não resulta de nenhuma intenção humana. E quem assume –ou deveria assumir– a culpa por ela? A maioria e ninguém, ainda que alguns sejam mais culpados que outros.

Os 7 bilhões de habitantes do planeta pertencem a três grupos: cerca de 1 bilhão respondem por 50% das emissões totais de gases-estufa, ao passo que os 3 bilhões seguintes por 45%. Os 3 bilhões na base da pirâmide de energia (metade sem acesso a eletricidade) respondem por apenas 5%. Por seu modo de vida e vulnerabilidade, este grupo –o único inocente– será o mais tragicamente afetado pelo “giro de botão” dos demais.

Descarbonizar é preciso. Segundo o recém-publicado relatório do painel do clima da ONU, limitar o aquecimento a 2°C exigirá cortar as emissões antropogênicas de 40% a 70% em relação a 2010 até 2050 e zerá-las até o final do século. Como chegar lá?

A complexidade do desafio é esmagadora. Contar com a gradual conscientização dos “torturadores inocentes” parece irrealista. Pagar para ver e apostar na tecnologia como tábua de salvação seria temerário ao extremo. O protagonista da ação, creio eu, deveria ser a estrutura de incentivos: precificar o carbono e colocar a força do sistema de preços para trabalhar no âmbito da descarbonização.

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