Edição especial da Science alerta para 6º Grande Extinção (Carbono Brasil)

28/7/2014 – 11h10

por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil

Vanishing Fauna Edição especial da Science alerta para 6º Grande Extinção

Em uma coletânea de estudos sobre a crise e os desafios do imenso número de extinções causadas pelos humanos, revista ressalta as implicações da ‘defaunação’ dos ecossistemas.

A triste conclusão de que as nossas florestas, além de estarem em um processo contínuo de desmatamento, estão vazias, cada vez mais depauperadas da vida que as constitui, é o foco de uma série especial da revista Science.

A publicação chama a atenção para um termo que deve se tornar cada vez mais conhecido, a ‘defaunação’: a atual biodiversidade animal, produto de 3,5 bilhões de anos de evolução, apesar da extrema riqueza, está decaindo em níveis que podem estar alcançando um ponto sem volta.

Segundo cientistas, tal perda parece estar contribuindo com o que classificam como o início do sexto evento de extinção biológica em massa – ao contrário dos outros, que tiveram causas naturais, nós seríamos os culpados, devido às chamadas atividades antrópicas.

“Muito permanece desconhecido sobre a ‘defaunação do antropoceno’; essas brechas no conhecimento prejudicam a nossa capacidade de prever e limitar os seus impactos. Porém, claramente, a defaunação é tanto um componente perverso da sexta extinção em massa do planeta quanto uma grande causadora da mudança ecológica global”, concluíram pesquisadores no artigo ‘Defaunação no Antropoceno‘.

Na abertura da revista, um dos editores, Sacha Vignieri, lembra que, há alguns milhares de anos, o planeta servia de lar para espetaculares animais de grande porte, como mamutes, tartarugas gigantes, tigres-dente-de-sabre, entre outros.

Porém, evidências apontam o ser humano como o grande culpado pelo desaparecimento desses animais, afirma o editor.

E infelizmente, a tendência parece longe de mudar, e com ela, toda uma série de funções dos ecossistemas, das quais depende a nossa vida, são alteradas de formas dramáticas.

Como mostram os artigos na Science, os impactos da perda da fauna vão desde o empobrecimento da cobertura vegetal até a redução na produção agrícola devido à falta de polinizadores, passando pelo aumento de doenças, a erosão do solo, os impactos na qualidade da água, entre outros. Ou seja, os efeitos da perda de uma única espécie são sistêmicos.

MacacoCR Edição especial da Science alerta para 6º Grande ExtinçãoNúmeros

De acordo com o estudo ‘Defaunação no Antropoceno‘, as populações de vertebrados declinaram em uma média de mais de um quarto nos últimos quarenta anos. Isso fica extremamente evidente quando qualquer um de nós caminha nos remanescentes de Mata Atlântica: é realmente muito difícil encontrar animais de médio e grande portes.

Pelo menos 322 espécies de vertebrados foram extintas desde 1500, e esse número só não é maior porque não conhecemos todas as espécies que já habitaram ou ainda residem em nossas florestas.

Se a situação é complicada para os vertebrados, que são muito mais conhecidos, é angustiante imaginar o tamanho da crise para os invertebrados, como os insetos, muito menos estudados.

“Apesar de menos de 1% das 1,4 milhão de espécies de invertebrados descritas terem sido avaliadas quanto à ameaça pela IUCN, das analisadas, cerca de 40% são consideradas ameaçadas”, afirma o estudo.

Solução?

Certamente, a resolução dessa crise do Antropoceno não é simples.

As causas dessas perdas são bem conhecidas – caça, fragmentação dos habitats, uso de agrotóxicos, poluição, etc. –, e as tentativas para reverter essas tendências estão aumentando, como a reintrodução da fauna.

araraFACostaR Edição especial da Science alerta para 6º Grande ExtinçãoNo artigo ‘Revertendo a defaunação: restaurando espécies em um mundo mutante’, pesquisadores revisam uma série de translocações conservacionistas, como o reforço, a reintrodução e métodos mais controversos que buscam restaurar populações fora do seu habitat natural ou substituir espécies extintas.

Os autores escrevem que a meta mais tradicional, de ter populações selvagens autosustentadas em paisagens pristinas intocadas pela influência humana, é “cada vez mais inalcançável”. Assim, eles sugerem que criar a “selva”, em vez de restaurá-la, é o caminho mais prático para avançar.

Entretanto, os desafios para reverter as extinções estão se mostrando muito desafiadores, e as pesquisas atuais mostram que, “se não conseguirmos acabar ou reverter as taxas dessas perdas, significará mais para o nosso futuro do apenas que corações desiludidos ou uma floresta vazia”, disse Vignieri, o editor do especial na Science.

Rodolfo Dirzo, professor da Universidade de Stanford – um dos autores de Defaunação no Antropoceno –, argumenta que reduzir imediatamente as taxas de alteração dos habitats e a sobre-exploração ajudaria, mas que isso precisaria ser feito de acordo com as características de cada região e situação.

Ele espera que a sensibilização sobre a atual extinção em massa e suas consequências ajude a desencadear mudanças.

“Os animais importam para as pessoas, mas no equilíbrio, eles importam menos do que a alimentação, emprego, energia, dinheiro e desenvolvimento. Enquanto continuarmos a enxergar os animais nos ecossistemas como tão irrelevantes para essas necessidades básicas, os animais perderão”, disseram Joshua Tewksbury e Haldre Rogers no artigo “Um futuro rico em animais”.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

(CarbonoBrasil)

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Pesquisadores alertam para riscos da defaunação promovida pelo homem (Fapesp)

28/07/2014

Agência FAPESP – A revista científica norte-americana Scienceacaba de publicar uma edição especial sobre as consequências do desaparecimento de espécies animais para a biodiversidade do planeta e para o próprio futuro da humanidade.

“Durante o Pleistoceno, apenas dezenas de milhares de anos atrás, nosso planeta sustentava animais grandes e espetaculares. Mamutes, ‘aves do terror’, tartarugas gigantes e tigres-dentes-de-sabre, bem como espécies muito menos conhecidas, como preguiças gigantes (algumas das quais chegavam a 7 metros de altura) e gliptodontes (que pareciam tatus do tamanho de automóveis), vagavam livremente”, diz a introdução do especial.

“Desde então, no entanto, o número e a diversidade de espécies animais na Terra têm declinado consistente e firmemente. Hoje, ficamos com uma fauna relativamente depauperada e continuamos a ver a rápida extinção de espécies animais. Embora algum debate persista, a maioria das evidências sugere que os seres humanos foram responsáveis pela extinção dessa fauna do Pleistoceno, e continuamos a induzir extinções de animais por meio da destruição de terras selvagens, da caça para consumo ou como luxo e da perseguição de espécies que vemos como ameaças ou concorrentes”, destaca o texto.

O especial traz artigos em que pesquisadores de diversos países citam espécies animais que estão desaparecendo, os complexos fatores por trás do processo de defaunação e as dificuldades para colocar em prática alternativas eficazes de conservação.

Um dos artigos do especial, Defaunation in the Anthropocene, tem entre seus autores o professor Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, responsável por projetos de pesquisa que integram o programa BIOTA-FAPESP.

O artigo de Galetti, produzido em colaboração com pesquisadores dos Estados Unidos, do México e do Reino Unido, ressalta que o mundo está passando por uma das maiores extinções de animais em sua história.

De acordo com os autores, a onda global de perda de biodiversidade tem a ação humana como principal causadora. Mas os impactos humanos sobre a biodiversidade animal representam uma forma ainda não reconhecida de mudanças ambientais globais.

“Dos vertebrados terrestres, 322 espécies se tornaram extintas desde 1500, e populações das espécies restantes mostram declínio médio de 25% em abundância”, dizem os autores.

“Tais declínios animais impactarão o funcionamento de ecossistemas e o bem-estar humano. Muito permanece desconhecido sobre a ‘defaunação antropocênica’. Essas lacunas de conhecimento dificultam a nossa capacidade de prever e limitar os impactos da defaunação. Claramente, no entanto, a defaunação é tanto um componente pervasivo da sexta extinção em massa do planeta como também um grande condutor de mudança ecológica global”, destacam.

Segundo Galetti e colegas, de todas as espécies animais atuais – estimadas entre 5 milhões e 9 milhões –, o mundo perde anualmente entre 11 mil e 58 mil espécies. E isso não inclui os declínios de abundância animal entre populações, ou seja, de espécies que agonizam lentamente.

“A ciência tem se preocupado com o impacto das extinções das espécies, mas o problema também envolve a extinção local de populações. Algumas espécies podem não estar globalmente ameaçadas mas podem estar extintas localmente. Essa extinção local de animais afeta o funcionamento dos ecossistemas naturais vitais ao homem. Nesse trabalho agora publicado, compilamos dados populacionais de grandes mamíferos, como rinocerontes, gorilas e leões, e também de invertebrados, como borboletas. Uma em cada quatro espécies de vertebrados tem suas populações reduzidas”, disse Galetti, em entrevista ao site da Unesp.

“A maioria dos pesquisadores analisa os efeitos humanos sobre a extinção das espécies e, nesse trabalho, nós enfocamos a extinção local de populações. A extinção de uma espécie tem um grande impacto, e a redução das populações animais causa um impacto maior ainda nos ecossistemas”, disse.

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